digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.
segunda-feira, abril 13, 2015
sexta-feira, abril 10, 2015
Naquele dia não parei
Naquele dia não parei. O tempo passou depressa para a pressa
que tinha e a fome ficou afónica e descontente.
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Que cansaço! Que fome! Pensei desfalecendo duma e doutra
coisa.
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– O que fazer? Cozinhar na pressa sem força nem ânimo?... Quiçá
adormecer perigosamente sobre a comida… ou deitar-me esperando que a fome
adormecesse?
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Quanto mais indeciso, mais cansado. O peso do corpo e o peso
do dia sobre ele deitaram-me.
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Aconteceu aquela estúpida e orgânica excitação que às vezes se
cria na exaustão. Um esforço involuntário dum moribundo. E o estômago a
despertar, como uma manifestação de gente farta protestando contra a ditadura
militar.
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Como um monótono sermão para acalmação, comecei a contar
carneiros:
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– Um carneiro, dois carneiros, três carneiros, quatro
ensopados de borrego, cinco ensopados de borrego, seis ensopados de borrego…
quarta-feira, abril 08, 2015
Vida para vida
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Os computadores sugam a vida das pessoas. Dou Graças por ser vampiro e
ter alimento que me cuida… mas tenho poucos gigas de memória disponível.
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Mal passado, por favor.
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Nota 1: Pintura húngara do século XVI.
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Nota 2: Para quem não saiba, a condessa húngara Isabel Báthory ficou com fama de vampira.
domingo, abril 05, 2015
Escrevo cartas
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Penso antes de pensar. Tenho a boca à frente da mão.
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Posso queixar-me?
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Não posso queixar-me?
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Ser eu e construir-me numa diferença. Ser eu e só eu como
sou e ficar como sou e ficar seco em todo-à-volta. Ser eu e só eu como sou e
ficar como sou e ficar seco em todo-à-volta e não querer pensar para não saber.
Por saber que não se quer saber.
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Nem eu. Contudo, um luto, negrum pela amizade que.
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O que fazer com a vida. O que fazer comigo.
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A que amigo perguntar?
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A quem, meu Deus… a quem?
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Despejo armários e gavetas. Na vez do pó, os meus ossos
descarnados, fantasmas que não sabia.
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Assombro-me em todos os lugares e penso e confundo-me e
barato-me-tonto.
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Desfaleço sincero num desfalecimento que finjo e sonho-me
sangrando sangue invisível, deixando a alma evaporar-se e o corpo a arrefecer.
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Fecho os olhos para ver. Espero adormecer.
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Adormecer, adormecer. Adormecer e o eufemismo.
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Digo demasiado.
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O que fazer com a vida. O que fazer comigo.
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A que amigo perguntar?
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A quem, meu Deus… a quem?
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Já percebi e sei e sei que será sempre um não querer nem
saber nem fazer.
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Sou um tanto-faz.
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Ainda. Mas ainda.
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Digo pensando que me levam a sério e sei que não e já não
levam e ainda é sério e quero e não quero que me levem a sério e que me oiçam.
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Não me ouvirão. Não querem. Dá trabalho. Ou porque é hora de
fazer o almoço ou de ir ao supermercado.
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Ai, é noite!...
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De noite e de madrugada me levantei.
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Se mereço? Provavelmente não. Provavelmente sim.
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Quem me quer?... Duas pessoas, três gatas e um cão.
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Será ainda?
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Haverá lamentos e lembranças no velório e algumas lágrimas
quando deixarem caixão.
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Os amigos. É hora de fazer o jantar. É hora de ir ao
supermercado. Pensam dizendo sem pensar:
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– Amanhã ligo.
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Amanhã ligo se não me esquecer – e não se pensa mais nisso, sei.
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E não se pensa mais nisso. Se não for amanhã, será depois. Não
se irá esquecer e confortando-se no pensamento do estar bem, o amanhã ligo será
um amanhã esquecido.
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Quem segura?
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Uma pessoa, três gatas e um cão.
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Qual o modo.
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Escrevo cartas.
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Posso queixar-me?
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Não posso queixar-me?
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Tenho a boca à frente da mão, devia ter um
revólver.
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Uma pessoa, três gatas e um cão.
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Por elas, escrevo cartas.Jornalista todo-o-terreno
Perguntaram-me o que fazia na vida. Respondi que sujo as
botas com letras. Com letras semeio para comer e compro botas que sujo com letras.
Como posso, se já vendi a alma ao Diabo?
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Disse-lhe:
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– Queria saber dizer
o que sabes que quero dizer.
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– Veres-me assim?…
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– Que desejo, que sonho!...
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– Pode ser real, se quiseres…
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– Já vendi a alma ao Diabo…
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– Prometo-te o Céu.
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– Morrerei à mesma…
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– Mas em êxtase…
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– Morrerás comigo?
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– Não. Limparei a vida que me dispensares e farei respiração
boca-a-boca.
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– E também?
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– E também muitas vezes.
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– Fico e não me aguento… Ai, meu Deus! É sonhando…
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Nota 1: Primeira pintura é de Fernand Khnopff.
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Nota 2: Segunda pintura é de Stan Davis.
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Nota 3: Terceira pintura é de Kelsey Shwetz.
Vai dar entrada na linha número seis o comboio lento para
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Não me atraso. Fiz-me atrasar para não me cumprir a vontade,
por medo de alguém, por desgosto de alguém. Em troca chorei caminhando numa
avenida que não gosto e obtuso assistindo ao salto. Fantasiando ensaios como se
fosse complicado saltar. Silenciando efabulações de salvamentos. Saltar. Saltar.
Saltar. A travagem e o solavanco e um telefonema prá mãe e boca-a-boca por aí,
como um beijo promíscuo. Saltar desagarrado e sentir. Por incerteza de ficar
ainda na dor me atrasei.
Fábrica de mim
Sou uma fábrica de melancolia. Sou uma fábrica de tédio. Sou
uma fábrica de quase apatia. Sou uma fábrica de quase indiferença. Sou uma
fábrica alimentada nos seus resíduos. Tenho engenhos arrefecidos por lágrimas de
suspiros secos e pelo vento de pensar depressa, que é não pensar. Pesam-me os
olhos e peso-me, vontando-me de dormir ou vontando-me de ter querer de dormir. A
gravidade do silêncio e o horror aos sons da alegria, rasgando com euforia o
sossego fúnebre do desfalecimento reclamado. Se derretesse por dentro. Liquefeito
e pastoso numa caixa amedrontante de abrir. Ser o sarcófago esvaziado, purgado
da dor e desinfectado das vontades que não tenho, preventivamente. A casa negra
e uma fresta, não-janela não-aberta, fora igual a dentro, ruído banal da
fabricação. Ainda plantando árvores irei intoxicar ainda. A chuva-ácida
meu-sangue, as chaminés meus-gritos, tudo que faz me sacia indejosamente. Não
há lei que me proíba nem prejuízo que me feche. Tomara fizesse a coragem para
ser cobarde e num alto-forno.
Esperando Caronte
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Perguntou-me:
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– O que sente neste momento?
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– Maré cheia.
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– Corrijo, como se sente neste momento?
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– Maré cheia.
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– … Hummm … explique-se melhor, por favor.
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– Arrastado, levado pela corrente atirado e puxado como um ioiô
contra as rochas, submergido como se me fizessem amonas, lutando e chegando à
superfície para um breve respirar, de boca aberta para ganhar mais ar e acabar
bebendo a água salgada e incomodar-me com o odor a limos, por os saber perto,
nas rochas.
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– Tem ideia por que se sente assim?
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– Terramotos, desabamentos, pó, muito pó, ouvir as sirenes
ao longe, ouvir os passos e as vozes sem as entender, faltar-me ar para gritar
que estou vivo… ou até mesmo só dizer.
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– Medo da morte.
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– Não. Medo de não morrer.
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– Medo de não morrer?
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– … Sim. Medo que a alma – o meu espírito – não se queira
afastar do túmulo improvisado e conjuntural, zelando do corpo como um cão chorando
o dono sobre a sua campa.
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– …
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– Medo de que o cérebro, com suas inteligência e estupidez,
exija a sobrevivência na dor e me chantageei o espírito. Medo de que além do
corpo que morrerá, agora ou num depois, exista e persista a mente, vivendo mais
tempo e agarrada ao féretro e eu – o espírito – aflito não os consiga deixar…
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– O que é para si a morte?
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– Uma porta. Saímos para entrar… como o nascimento.
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– O sono e o coma?
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– O sono será duas coisas, a que nos lembramos e as
olvidadas. Resultado das fabricações do ego, psi-ego… não sei bem os termos, ou
sequer tenho certeza dos conceitos ou de quantos serão… Sei, mas nunca pensei
nisso, talvez sejam as sabedorias e as certezas dos analfabetos. Outra parte
seja de libertação, leve emancipação do espírito face ao corpo.
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– E o coma?
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– Talvez seja um sono muito profundo e denso.
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– Tem medo da morte?
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– … De largar o corpo?... Tenho receio de não o conseguir,
seja por morte ou por doença.
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– Sofre?
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– Sofro. Sofro duma dor de alma. A imagem é estereotipada e simplista,
sangro por dentro e a alma chora e a cabeça não para de pensar. Corpo, espírito
e mente ou outra coisa mais certa ou correcta a possa definir.
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– Quanto aos outros, como vê a morte?
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– Do corpo? Sem medo. Não choro em velórios nem em funerais…
por vezes comovo-me por ver o sofrimento da família e dos amigos.
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– O quando alguém morre e tem de dizê-lo a alguém próximo,
como faz? Ou faria, caso não tivesse acontecido?
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– Aconteceu. O teu pai – por exemplo – morreu.
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– Só isso?
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– Não basta? Em poucas palavras se diz uma verdade
indesmentível.
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– Não consola, não ameniza, não hesita…?
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– Não. Tento dizê-lo de forma calma, repousada e bem
articulada, depois espero o silêncio ou o choro ou o grito ou qualquer coisa.
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– Não consola?
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– Consolo depois. Depois do essencial e do sinal que o outro
me faça.
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– …
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– Depois do silêncio dói-me. Não por que o espírito tivesse
partido do corpo e que o corpo vá para a terra ou para o crematório. Dói-me
pela dor do outro e aperto-me.
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– Arrepende-se de alguma vez ter revelado a morte de alguém?
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– Arrepender-me de quê? De dizer a verdade? De a dizer com
as palavras suficientes?
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– Frieza ou amparo, essas suas acções e reacções?
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– Frieza, não. Crueza. Não é crueldade, digo as palavras
cruas, as essenciais, sintetizo. Frieza? Não direi calor… admito que possa
sentir ou não sentir… seja a que for, é involuntário, não luto para que seja
assim ou doutra forma.
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– O que diz à família? E aos amigos, no velório, no funeral,
ao telefone, num encontro ocasional ou estabelecido…
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– Uma coisa quase horrível. Não é horrível, porque não é por
querer mal ou por não gostar com quem falo e acerca de quem falo. Horrível
porque entro numa personagem, com uma fala… o proforma de lugares-comuns e
banalidades – passaria horas a explicar, talvez a aleijar, ainda que
inadvertidamente, por mexer.
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– Que banalidades são essas?
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– Os meus sentimentos. Tenha ânimo e força…
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– …
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– Sintético. A morte é tão natural que não sei o que mais se
possa dizer.
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– Sabe que a outra pessoa está em dor…
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– Sei. O que posso fazer? Trazer o falecido de volta?
Dizer-lhe que o Benfica vai ganhar o campeonato, ou outro clube?
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– …
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– Se tentar dizer com profundidade e honestidade levaria
horas, teria de haver o momento e o sítio e disposição para que me ouvisse,
fosse capaz de lidar com as minhas palavras, de me julgar compreendendo-me e
não sentenciando-me ao castigo.
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– Por que não dizer em breves palavras que só o corpo morreu
e o seu espírito regressou ou simplesmente foi para uma dimensão espiritual?
Não é isso que pensa?
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– Basicamente, é. Mas lá está: momento, sítio e oportunidade
emocional do outra.
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– Alguma vez aconteceu?
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– Sim.
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– Então?
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– Não gostou nada. Calou-se para não se zangar. Fui muito
cauteloso e só toquei no assunto porque ela abordou…
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– Foi inoportuno.
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– Um amigo disse-me, num momento em que essas três premissas
coincidiram, que compreender a morte – admitindo que o que lhe dizia era a
verdade, a verdade cheia e plena que não depende dos homens, mas que não
concordava – não significa não a sentir ou de sentir a dor.
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– Concordo. Concorda?
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– Em absoluto. Absolutamente sem qualquer reserva.
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– …
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– A morte é um sentimento íntimo. Como Deus ou a fé… quem
acredita, acredita intimamente. Podemos partilhar a mesma religião e o mesmo
rito, até frequentar a mesma igreja e gostar do pároco, mas sentimos e
interpretamos de forma diferente…
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– Isso é um lugar-comum, uma banalidade.
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– É! Há outra forma de o dizer? Em verso? Redondilha,
alexandrino, soneto… poesia branca, prosa poética ou declaração formal em papel
azul de vinte e cinco linhas, devidamente assinado, testemunhado, carimbado e
com selo-branco?
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– Ficou ofendido. Não precisa.
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– Respondi com a deselegância com que me repreendeu pela
explicação do que disse… pior! Com a deselegância pela forma como o disse.
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– Desculpe, não fiz por mal…
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– Tudo bem, está esquecido…
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– Nisso do sentir a morte, interpretar Deus e crença não foi
sintético.
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– Também não lhe respondi durante três quartos de hora… Não
fui sintético, porque tudo isso é muito complicado… não apenas no dizer, na forma
de o dizer, no esforço para ser inteligido…
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– Anunciar a morte é mais fácil?
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– É mais difícil. Muito mais difícil.
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– Contradiz-se…
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– Não. Dificuldade em dizer é uma coisa, o número de
palavras para o dizer é que é simples.
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– Posto isto e voltando quase ao princípio… acredita na
morte?
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– Do corpo.
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– Tem medo?
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– De sofrer.
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– …
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– Da dor física, da dor psicológica e da possibilidade do
pensamento – ou da mente, se for mais preciso ou correcto – existir após o fim
do corpo, atormentando o espírito… que é eterno.
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– Eterno?
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– Sim. E por que não? Não acreditam os fiéis de todas as
regiões? Acho que de todas…
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– …
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– Por isso digo que a morte, tal como o nascimento, são
sítios separados por portas e passamos dum local para o outro.
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– Reencarnação.
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– Sim.
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– Porquê?
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– Porque me faz sentido. Porque é dessa forma que encaixo
Deus no pressuposto de que é perfeito, ama todos os seus filhos e a dá as mesas
hipóteses a cada um.
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– É um homem de fé?
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– Infelizmente não. A minha fé – se lhe posso chamar fé – é de
lógica. Lógica assente nos princípios que enumerei.
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– Tem pouca fé?
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– Provavelmente. Acho que sim, dizem-me que não. A minha fé
em Deus é igual à que tenho em relação à ciência.
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– A maioria ou a generalidade – penso ser o caso – dos cientistas
recusa a ideia de Deus.
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– Não é por o recusar que ele deixa de existir. Podem
afirmar o que quiserem, nomeadamente que não há provas da sua existência, porém
também não provam a sua inexistência.
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– A ciência tem desmentido as religiões, a ciência tem
destronado Deus.
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– Discordo. A ciência tem desacreditado palavras dos homens
sobre Deus, escritas ou faladas. A ciência pode desmascarar – o termo é
demasiado forte, mas é o que me ocorre – religiões, ritos, práticas,
afirmações, gestos… do homem, de quem se sente no direito de falar por Deus, ou
até de o substituir.
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– De o substituir?
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– Claro! Os santos são santos por decreto papal. Por que não
há santos pré-cristãos ou anteriores ao Primeiro Testamento? Há profetas. Por
que é que os chefes das religiões, ou até de ritos, não reconhecem homens santos
doutras fés?
.
– …
.
– Houve um Papa que instituiu o Limbo. Criou o Limbo para as
crianças, porque não tinham tido tempo para pecar e seria injusto guardá-las no
Inferno ou no Purgatório ou directamente no Paraíso… aliás, se não tinham feito
mal, também não tinham feito o bem…Entretanto, um outro papa – julgo que Bento
XVI – extinguiu o Limbo.
.
– …
.
– Quanto aos santos… por causa da ciência, por ter medo da
ciência e de recair nos erros do passado em que castigou cientistas, livros e
pensamentos, que a hierarquia católica tirou dos altares vários santos. Porquê?
Porque verificou dúvidas acerca das suas vidas e milagres.
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– Por exemplo?
.
– Para não sair de Lisboa… Santa Apolónia e Santa Engrácia.
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– Porquê só exemplos católicos romanos?
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– Porque estão mais há mão, é o maior rito no nosso país,
que mais influência tem.
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– …
.
– Um outro engano; o dom da Graça. No seu leito de morte, o
patife chama o pároco, confessa-se, rezam-se umas orações e o moribundo está
livre de qualquer castigo. E o homem bom, com seus defeitos, não conseguiu a
derradeira confissão – por um qualquer motivo – o que lhe acontece? E quem
sofreu com as acções dessa pessoa má – não gosto da palavra e sei que não é
correcta em absoluto – que teve atitudes incorrectas ou até criminosas? Que
direito tem um homem sobre os sentimentos e julgamentos de pessoas que
padeceram por acções dessa outra que acabou por ganhar a paz celestial?
.
– …
. – Além das indulgências…
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– Isso acabou! Acabou há muitos anos!
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– Não é verdade! Podem chamar-lhe outras coisas… A
recentemente desencarnada duquesa de Alba dormia com uma declaração papal que
era um salvo-conduto para entrar no Paraíso. A senhora chegou ao seu além,
mostrou o papel – deve ter-se desmaterializado, além de Deus precisar de ser
lembrado dos seus compromissos – e passou a porta do Paraíso. Essa declaração
papal foi paga. Foi comprada.
.
– …
.
– Há mais! Um morto – um cadáver, o que se quiser – está em
câmara ardente. A família paga para ter um padre a recitar-lhe e a afirmar umas
sentenças. Paga mais para que esteja no momento em que o caixão vai para a cova
ou para o forno crematório.
.
– …
.
– A missa do sétimo dia… é paga. Em troca, o sacerdote
limita-se a dizer o nome do defunto. Tal como a situação em que se compram – é o
verbo – não sei quantas missas.
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– Tem noção que isso incomoda muita gente?
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– Tenho, mas é a minha verdade – não quero fazer o mesmo que
outros, não sou dono de Deus. Outro exemplo de negócio é o das velinhas. O pior
de todos é o do auto-sacrifício, da mutilação, ir de joelhos a Fátima ou castigar-se
com cilícios.
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– Comércio?
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– Comércio e arrogância.
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– Arrogância, como assim?
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– Os crentes sentem-se no direito de comprar milagres, assumem-se
altivos… «Nossa Senhora de Fátima, se livrares o meu filho do desemprego,
acendo 900 velas em teu louvor, pago cinquenta missas e vou cinco vezes, de
joelhos, a Fátima». Repare… «Se me deres o que te peço».
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– A Igreja tem combatido esses rituais, como aquele – deve ser
o maior – dos calvários, nas Filipinas.
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– Tem?! Não tem. Tanto que não tem que não se ouve,
sistematicamente e veementemente e publicamente, uma condenação ao sofrimento
auto-infligido… nem à venda das velinhas… até permite organizações que defendem
a autopunição.
.
– ...
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– Que Deus é esse e gente boa – à falta de melhor palavra
digo santa – que se compraz com o sofrimento gratuito e em seu nome? Esse Deus
não é de amor! Que bondade têm esses santos?
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– Ouvindo-o, tem uma fé quente.
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– Falta-me o calor que penso ser necessário para dizer que
tenho fé plena. A minha fé é racional, tem uma lógica. Lembra-se do que me
perguntou no começo da nossa conversa?
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– Sim. Como se sente?
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– Maré cheia, a dificuldade em respirar e suportar-me a dor…
é a prova maior da minha fé ser apenas racional – embora possa estar errada, eu
estar errado.
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– Como?
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– Um verdeiro crente estaria a debater-se e provavelmente a
rezar, eu não estaria, não estou. Um verdadeiro crente aceitaria, enquanto eu…
faria ou faço – com arrogância – um ultimato a Deus: ou tiras-me daqui já e
deixa-me ir.
.
– O que prefere?
.
– Deixar-me ir.
.
– Porquê?
.
– Porque estou cansado. Cansado de tudo. Disfarço a
melancolia mas não o consigo em relação ao tédio.
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– Voltando à reencarnação… acredita que tem uma missão… um
objectivo.
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– Estou – estamos – num mundo de provas e de expiações. Uma
espécie de exame escolar, que, ao sairmos do corpo, saberemos as notas e
veremos onde falhámos, por que falhámos e estudamos.
.
– … Então… não aceita?
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– Não sou um cordeiro. Também não sou um lobo. Sou lobo de
mim. A questão é não sentir estar numa qualquer prova ou verdadeira expiação. Sinto-me
andando por aí, sem rumo, sem objectivos, sem vontade. Cansado, farto, exausto…
.
– Uma vontade de morte.
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– Muito grande. Não me suicido, porque não me deixam. Não me
suicido porque iria contra a minha fé, a racional… da missão e expiação, de autocondenação
e autocastigo.
.
– …
.
– Sei que não tenho esse direito. Tenho uma grande vontade
de transgredir. Invento desculpas ou pretextos… mas arrumo as coisas, deixo
lista do deve-e-haver e pedido de desculpas com breve explicação. Depois fico
quieto a paro antes…
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– Chora?
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– Por dentro – banalidade. A dor da alma. A falta de
objectivo. Um sentimento de derrota num jogo em que não sei jogar nem quero.
Tédio! Tédio! Tédio!
Um Rolls Royce para chatear os burgueses
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Muitos ricos, talvez todos, não sabem ser ricos. Do
banqueiro aborrecido ao ridículo novo-rico. Se fosse rico não faria mais nada
do que fazer.
Um terceiro sexo
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Alguém disse:
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– Os homens têm inveja das mulheres por não poderem
engravidar e dar à luz.
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Não me lembro do que respondi, se respondi. Digo agora:
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– Safa! Se assim fosse, desejaria ser dum terceiro sexo!...
Tenho a certeza que haveria um terceiro sexo.
Centro de atendimento
Marquei o número e perguntou-me e respondi-lhe e perguntei-lhe e respondeu-me
e pedi-lhe:
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– Boa tarde, tele+++++, fala a +++++, em que posso ser-lhe
útil?
.
– Boa tarde, pode?
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– A morada é a deste número de que me está a ligar?
.
– Não… estou a andar… este é o número do telemóvel. Estou a
caminho.
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– Quer que o apanhe?
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– Sim, por favor.
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– Tem preferência?
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– Em qualquer lado. Vou andando e onde me apanhar está
óptimo.
.
– Posso ser-lhe útil em mais alguma coisa?
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– Sim. Venha por trás, para não ver ou prever ou arrepender.
sexta-feira, abril 03, 2015
Tira-me essas palavras da cozinha
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Não é preciso ir à escola para se saber da importância das
palavras. Um bebé de dois anos percebe, ainda que vagamente, o que querem dizer
não e sim. Os marqueteiros são finórios e criam conceitos, palavras de música
celestial para fazer vender qualquer produto útil ou bugiganga de género
variado.
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Uma ressalva... percebo perfeitamente que empresas ou marcas comerciais tenham designação noutras línguas. É pragmatismo.
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Uma ressalva... percebo perfeitamente que empresas ou marcas comerciais tenham designação noutras línguas. É pragmatismo.
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Desde já, aviso que escrevo em generalidade. Como em tudo,
não há só preto e branco. Além dos cinzentos, há várias cores e seus tons.
Descontando os espectros infravermelho e ultravioleta. Ah! Como não estou a
escrever profissionalmente, aqui são possíveis palavras inventadas.
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Os jornalistas são, por regra, preguiçosos e incultos, além
de terem a mania de que sabem do que não sabem. Os dois primeiros adjectivos
resultam na facilidade com que aceitam vocábulos doutros idiomas e do desconhecimento
de palavras correspondentes…. Ou seja, talvez não sejam adjectivos, mas
substantivos.
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A obrigação de as notícias poderem ser lidas por qualquer
pessoa, da mais erudita à semianalfabeta, leva-os a sucessivas
reduções do léxico. O esforço deve ser o de entender o facto, explicando de
forma clara. No entanto, a via mais simples é a diminuição do número de
palavras em uso. Nisto, os jornalistas não estão sozinhos, mas emparelhados com
tradutores e escrevinhadores de toda a ordem.
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Pelo complexo de que não serão entendidos pelos leitores e escutantes,
os oficiantes do idioma fogem do prenome «seu» ou «sua». O pânico é que seja
interpretado erradamente – «sua» ou «seu» – não relativo ao sujeito, mas relacionado com quem lê ou ouve. A piada surgiu num dos programas de Herman
José e passou de trocadilho a facto.
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Ligado a esta doença há a supressão dos reflexivos. Por
exemplo:
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– A peça de teatro estreia hoje no Dona Maria.
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Pois, estreia-se.
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No National Geographic Channel tem surgido repetidamente uma
delícia que dá vontade de espetar um par de bofetadas… Por exemplo:
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– Hitler e o Governo dele.
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Pois, Hitler e o seu Governo.
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A facilidade que a ausência de sentido crítico e de
pensamento esfaqueou alguns desgraçados. Noticiaram-se as decapitações dos
bárbaros do Estado Islâmico. Vendo os instrumentos de lâmina apresentados, só
diz decapitado quem não lhe conhece o significado e desconhece o verbo degolar.
Já a vítima estaria mais do que morta quando a cabeça fosse separada do corpo.
Aí, a imprensa brasileira esteve mais atenta. A decapitação é –
preferencialmente, às vezes não corre bem (bem?) – realizada num só golpe, de
espada, machado ou guilhotina.
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Há a asneira persistente de confundir «por que» com «porque».
Um erro que topei num produto – recuso-me a designa-lo como instrumento
educativo – da Porto Editora.
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Regressando ao princípio… o abuso dalguns vocábulos dita a
sua desvalorização. Em paralelo, outras palavras foram suprimidas. O tsunami afogou
o maremoto, o gourmet almoçou gastrónomo e ganhou um outro significado, e light
engordou-se com ligeiro(a).
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Os burocratas são uma espécie de bichos irritantes! Soube
que um agricultor começou a embalar legumes para sopas rápidas e quase
instantâneas. Chamou-lhes «sopa light». O manga-de-alpaca embirrou… passou para
«sopa ligeira».
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Até seria para saudar a censura se a justificação fosse
a defesa da língua portuguesa. Não, é porque light é light, tem o conceito de
saudável associado. Já ligeiro… Enfim! Ora os burocratas permitem que batatas
fritas possam ser light, apesar de toda a gordura e sal que carregam… Light,
porque há as não-light, ainda mais oleosas e salgadas. Contudo, apesar de ter
muito – muito, muito, muito – menos calorias, uma sopa de legumes não pode ser
light, pelo que se carimbou como ligeira… Um plebeísmo, pois claro.
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Aqui, o Camões – Deus da Língua Portuguesa – escreveu direito
por linhas tortas. O pobre zarolho tem tido pouca sorte com os súbditos.
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Gourmet é a pessoa que aprecia bom vinho e boa comida.
Gourmet é gastrónomo. Era, hoje gourmet é um adjectivo para valorizar qualquer
coisa, desde as batatas fritas industriais ao mais requintado alimento. As
mercearias finas chamam-se lojas gourmet. Até há uma wine shop, por acaso é uma
garrafeira. Nesse mesmo espaço há uma bookshop, uma coisinha muito parecida com
uma livraria. Juro!… Designa-se por Melt e as especialidades da casa são anglicismos e menu com acento agudo.
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No mar, há séculos – atenção, não há séculos «atrás», nem à
frente, nem acima, nem abaixo e nem de lado – os marinheiros foram muitas vezes
forçados a pôr solas de molho para matarem a fome. Se fosse hoje, tenho a
certeza que as solas do almirante seriam gourmet.
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Comilão é uma palavra antipática. Ainda que possa aparecer
numa brincadeira ou numa repreensão pelas costas, comilão é um vocábulo
gorduroso e cheio de nódoas. É curioso que não tenha aparecido no dia-a-dia, em
excelsas falas, o termo gourmand.
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Os estrangeirismos têm estado sempre associados às elites,
desde a de juro e herdade à do novo-rico, criatura que se arma ao pingarelho. É
muito mais bonito referir sommelier do que escanção… e já li wine lovers no
lugar de enófilos.
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Além dos que aqui agredi ainda há os desastrados… Dizem
realizar em vez de perceber, vulgar em vez de ordinário ou rude no lugar inculto
ou abrutalhado, ainda que neste último caso se possa compreender alguma correspondência.
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Conta a História que a História nunca se repete, mas que
assombra fantasmagórica de tempos a tempos… e há a tese, antítese e síntese…
coisas ficam, como o detalhe ou o envelope. Quer uma quer outra sofreram
desvalorização. Tudo é gourmet, tudo é light… até que!
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Falando com a gente letrada dos estrangeirismos ocorre-me a
peça teatral «A importância de se chamar Ernesto», de Oscar Wilde – cada vez
gosto mais deste génio irlandês – génio é outra pérola banalizada – que
dinamitou a época Vitoriana, embora me falhem muitas letras. Outra obra a
saltar, nesses momentos, no cérebro é o filme «Minha linda senhora», de
George Cukor, inspirado na peça «Pigmalião», de George Bernard Shaw. Como em
tudo, por vezes temos que engolir as palavras que nos saem pela boca… a
tradução não foi feliz, pelo que esta longa-metragem fixou-se como «My fair
lady».
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Para rematar, este coisinho sobre os vandalismos
linguísticos, escrevo uma afirmação que ouvi e q’adoro! É acerca do uso de
estrangeirismos e eufemismos… Por ser ordinária e não querendo ofender olhos e
mentes mais sensíveis, vai numa cor qua a camufla. Quem a quiser ler, basta-lhe
passar com a setinha do rato, tornando-a visível.
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Não é merda! É cagalhão!
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Como todos, erro sistematicamente. Quem encontrar erro, asneira
grossa, asneira fina, alarvidade, incorrecção ou incultura – além de gralhas – que
faça o favor de comentar. Publicarei o puxão de orelhas, emendarei e disso
farei nota no final desta prosa.
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Evolução da cotação de diversas palavras, desde o início do
século até ao presente. Fonte: Instituto de Pantominices do Doutor João
Barbosa.
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A imagem original perdeu-se. Por essa razão, criei uma alternativa.
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quinta-feira, abril 02, 2015
Manoel de Olveira - 1908 a 2005
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A morte não redime ninguém, a extrema-unção é usurpação de
poder e o dom da graça na morte seria uma hipocrisia de Deus – é o que penso,
pela polémica que possa causar digo que lamento se ofendo. Todavia, é de mau
gosto explorar os defeitos de quem não está na carne para se poder defender de
viva voz, ofendendo familiares e amigos.
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Quando o meu pai desencarnou mandei rezar missa de corpo
presente… paguei por um serviço. Será que a falta dos euros desembolsados impediria
um pároco de orar pelo defunto? Responderá quem souber. A Igreja Católica
Apostólica Romana é enorme e nela cabe todo o tipo de gente, de sacerdotes a
devotos.
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Paguei a missa por respeito aos familiares e amigos do meu
pai – e meus – que seguem o rito romano. A minha noção de Cristo e de Deus é
incompatível com esse, e outros, cerimonial.
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Gostei da homilia. Um padre idoso e simpático – julgo que
italiano, pela forma de pronunciar as palavras, e com o português muitíssimo
bem articulado. Não despejou palavras, de livro ou de sua lavra. Disse pensando
e senti-o sentindo compreensão pela dor daqueles que ali estavam por meu pai.
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No final fui agradecer-lhe. Fui sincero assumindo-me como
alguém que tenta ser cristão e que não segue o Papa. Sorriu-me iluminado,
deixando-me a vontade de lhe dar um abraço. Disse-lhe:
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– Gostei muito da homilia. Sabe porquê? Porque não tornou o meu
pai num santo.
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Sorriu-me abraçando-me com o olhar. Não expliquei mais, ele
percebeu – pressenti-o – e tinha de ir dar apoio a uma outra família. Tantas
vezes o morto é um poço de virtudes e alegria da família nas palavras dos
curas, quase tantas quanto não são verdadeiras.
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Este prelado disse, com a sinceridade tranquila da
boa-gente, que o meu pai teria muitos defeitos, falhara às vezes, teria tido
problemas talvez tivesse adversários. Mas também amigos, amou familiares,
gestos nobres e alegrias.
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Este padre encheu a capela de humanidade e deu-me alegria,
coisa improvável num funeral. Uma alegria não alegre, mas de harmonia. Nunca
tendo visto o meu pai, falou dele como se o conhecesse… porque falou do homem.
Do homem comum e da vida.
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Escrevo este texto não por causa do meu pai, mas para
sublinhar uma afirmação do amigo André Serpa Soares. Disse – concordo – que muitos
são os que agora choram as partidas de Herberto Hélder e de Manoel de Oliveira,
mas nunca leram um poema ou viram um filme destes dois criativos.
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É mais fácil dizer gosto ou não gosto quando se conhece –
ainda que não entendendo a obra no todo ou em parte. Herberto Hélder passa mais
entre a chuva, mas do centenário cineasta tanto se disse, e muito mal se disse.
Sei – porque sei, como o André sabe – que são mais os apedrejadores e as
carpideiras do que quem assistiu a filmes seus.
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Não é por a morte ter chegado a Manoel de Oliveira que se
torna no maior vulto do cinema português – o que obviamente é discutível. Uma
obra tão vasta e uma carreira tão longa têm espaço para tudo.
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Não vi toda a sua obra, mas vi quase toda. Contando confiado
na Wikipédia, foram 32 longas-metragens, 16 curtas-metragens e nove
documentários. Só pelos números e pela idade, Manoel de Oliveira merece um nome
de praça.
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Para quem não viu e gosta de dizer coisas, deixo a minha
impressão, brevíssima… dos deploráveis e risíveis «Canibais» ou «Non, ou a vã
glória de mandar», aos belíssimos «Vale Abraão», «A caixa» ou «Aniki-bobó».
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Foi e é um homem como todos. Da casta dos criadores. Quem
nunca viu, que veja, para que compreenda… e veja do bom até ao invisível.
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Nota: Dedico este texto ao André Serpa Soares que – sem lho
ter pedido e sem ele saber – me deu o mote.
sábado, março 28, 2015
sexta-feira, março 27, 2015
Os vinhos de Deus e do Diabo
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Perguntou-me:
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– Acreditas no Céu e no Inferno?... No Purgatório…
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– Gosto do conceito, artisticamente falando.
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– No Inferno sofre-se…
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– Se a vida não tiver sido uma seca.
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– No Paraíso…
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– Dá-me ideia que tanta serenidade… talvez sejamos felizes
num aborrecimento.
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– O Purgatório…
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– O Purgatório não será onde vivemos?
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– E o Limbo…
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– O Papa antes deste fechou sítio… Um outro tinha-o
inaugurado, porque havia um lapso na obra de Deus…
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– Venenoso!
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– Seria giro… imagina o Céu, o Inferno e o Purgatório como
locais onde podemos ir livremente, entrar, sair…
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– …
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– …
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– Então?!
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– Estava a pensar… que vinhos se beberiam…
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– Sim… no Paraíso…
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– Pinot noir.
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– No Inferno?
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– Cabernet sauvignon.
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– No Purgatório?
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– Tantas!... Não quero ofender «ninguém».
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– A touriga franca ficaria?... No Paraíso, porque a sentes
divina ou no Inferno por te endiabrar em folia?
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– Nem num nem noutro sítio…
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– No Purgatório, portanto?
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– Não! No Douro.
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– Hã?!... E a antão vaz?
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– Essa… pedia a Deus e ao Diabo que a desinventassem.
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– Imagino as cenas… alegres folias… benditos néctares dos
diabos, endiabrados vinhos divinais…
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– Anjinhos e suas harpas e liras… Demónios e suas guitarras
eléctricas a estrilhar…
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– Ná! Anjinhos a tocar cornisfesto e diabretes a soprar
rufete.
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– Isso não são castas?
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– São!
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– Ah!
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– Tem a ver… eu acho.
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