digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

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sábado, abril 01, 2017

Efeitos colaterais do consumo de heroína

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Dar o Nobel ao Bob Dylan é o mesmo que dar uma Estrela Michelin ao MacDonald’s.
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Dizendo só daqui, deste sítio da língua, Camões não ganhou o Nobel. O Pessoa não ganhou o Nobel. O Herberto não ganhou o Nobel. O Saramago ainda bem.
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Não é o Lobo Antunes que não merece o Nobel, é o Nobel que não merece o Lobo Antunes.
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O português não precisa de dinamite!
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Um dia começo a fumar e com bandeirinhas de militância com pombas e denúncias piegas.
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Vou pela estrada, que é a felicidade, sou o carteiro que leva as músicas. E como uma pedra que rola tocarei os sinos da liberdade. Quando se não tem nada, não há nada a perder.
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Depois vomito a pirosada – uma poesia parola fica sempre bem em inglês e vice-versa.
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Nota 1: Sim, sei que os autores falecidos não podem ganhar o Nobel. Aquilo do Camões e do Pessoa é retórico.
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Nota 2: O texto não é peta de 1 de Abril, o Dylan é mesmo mau.

quinta-feira, outubro 16, 2014

Lume

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Disse-me ela:
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– Aqueceste-me a boca e incendiaste-me o corpo.
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Não lhe disse nada e ela continuou.
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– Preciso dum pouco de frio para voltar a aquecer.
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Fui lavar os dentes com pasta dentífrica de menta.
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Disse-me:
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– Não percebeste. Preciso de me apaixonar, só o amor não basta.
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Deitado na cama, acendi um cigarro. Sem dizer, levantei-me, vesti as cuecas e a roupa, e saí.
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Ligou-me mais tarde a dizer que não tinha percebido.
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Respondi-lhe:
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– Se a menta não te arrefece e o lume do tabaco não te aquece, que farei da minha vida para te não perder?
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Fez-se um silêncio longo. Desligou a chamada.
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No dia seguinte não lavei os dentes e deixei de fumar.
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Mandei-lhe uma mensagem a contar.
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Não voltou. Não insisti.
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Sei que começou a fumar.

segunda-feira, julho 21, 2014

Sonho de sempre

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Diante e sem mexer os olhos. As mãos sabem para onde ir e esse vestido é desnecessário. Como tirá-lo se não consigo desviar o olhar? O teu riso nervoso confirma a vontade que desejo.
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Se fechar os olhos para beijar não sei quanto tempo irei depois levar a sintonizá-los com os teus. Se os mantivermos abertos sabe-se lá.
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Desisto e desaperto-te. Quase te revelo a completa nudez. Com a mão perguntas-me se estou pronto.
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Liberto-te e confirmo a beleza que sonhei ser o teu peito. Mais lenta, deixas-me numa trapalhada de roupa. Há-de sair, seja antes ou depois do que nos servir de cama.
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Será verdade e na fome seguinte comeremos uvas e mataremos a sede com melancia.
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Nus e banhados em suor e sumo, cairemos em beijos de vinho.
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Tudo entornado num lençol que se esquecerá, mas que o sono tratará de sonhar muitas vezes.

domingo, dezembro 21, 2008

Diálogos de fumo

- Começar a fumar é fácil.
- Mas fumar é um hábito sério.
- Por vezes leviano.
- A leviandade é para ser levada a sério.
- A leviandade é o oposto da austeridade.
- A austeridade é uma farsa. Uma baile de máscaras em que se finge o oposto da diversão. Coisa Séria.