digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

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quinta-feira, novembro 05, 2009

Vinhos capitais





















Uma capital não é o local mais óbvio para se encontrarem vinhedos. Lisboa é talvez a excepção. Há séculos, a capital portuguesa acolhia algumas centenas de milhares de pessoas e os seus arrabaldes de Alcântara e do Lumiar abasteciam-na de vinho. A cidade cresceu ao longo do Tejo, galgou colinas e vales, espalhou-se pela zona saloia, atravessou o rio largo e tornou-se vasta como uma província.
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O século XX trouxe a indústria, a mecanização, o aumento da natalidade e da esperança de vida. Lisboa acenou com uma vida menos dura e melhores rendimentos às populações rurais. A pequena cidade tornou-se numa metrópole, hoje com mais de 2,6 milhões de habitantes. O cimento e o alcatrão engoliram searas, olivais e vinhedos. Na margem Norte da Área Metropolitana resistem ainda três vinhas únicas, com denominação de origem controlada (DOC): Bucelas, Colares e Carcavelos. Além rio, a urbe aproximou os vinhos da península de Setúbal.
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O vinho doce das praias
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A vista azul atraiu moradores e os construtores ergueram subúrbios à beira do mar. O Vinho de Carcavelos foi perdendo viabilidade. Se até ao início da década de 80 do século XX ainda havia diversas quintas em laboração, hoje restam apenas duas, num total de apenas 9,5 hectares de vinha.
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Na linha do Estoril há quem faça vinho de missa, mas quase todas as quintas morreram ou deixaram a vinha sem função. A Quinta dos Pesos, pertença da família Bullosa, é hoje a decana. A esperança de salvação está na Estação Agronómica Nacional (EAN), um departamento do Ministério da Agricultura, que desde 1983/4 produz Vinho de Carcavelos. Hoje conta com seis hectares e no próximo terá oito. Esta exploração tem uma colecção de cepas, destinada a fins científicos e à melhoria da diversidade genética.
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O Carcavelos já foi uma joia nacional. Em 1752, o rei Dom José enviou-o de presente ao imperador da China. O marquês de Pombal era um apreciador e na sua quinta de Oeiras (da qual tinha o título de conde) produzia-o – sendo essa propriedade a mesma onde hoje está instalada a EAN. Sebastião José de Carvalho e Melo é célebre pela protecção que deu aos vinhos do Douro, cuja região foi a primeira do mundo a ser demarcada. O ministro decretou pena de morte a quem introduzisse vinho na região duriense. Apenas uma excepção: o Carcavelos, refere António Mexia, director da EAN.
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A grande divulgação deste vinho foi obra dos ingleses que acorreram a Portugal a quando das invasões francesas. Terão sido os soltados britânicos os incentivadores da fortificação, ou seja a adição de aguardente por forma a prolongar a vida do vinho. Contudo, só em 1911 é que a região foi demarcada. Consta que, em 1917, as tropas bolcheviques encontraram garrafas de Carcavelos nas caves do czar, mas não se sabe que destino terão tido... mas imagina-se.
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Aos vivas da escrita dos «vencidos da vida» oposeram-se três maleitas que quase o fizeram morrer: o oídio (1852), a filoxera (1871) e o míldio (1882). Na década de 1880 a produção passou de 3000 pipas para apenas 13, sublinha o director da EAN.
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O Carcavelos provém de encepamentos com, pelo menos, 75% de castas galego dourado, boal, ratinho, arinto (brancas), periquita e preto martinho (tintas). Contudo, é sempre «branco», uma vez que as variedades tintas são processadas em bica aberta, para as películas não tingirem o mosto. Mas, a EAN tenciona realizar uma experiência de produção de tinto. Tal como acontece com o Vinho do Porto corrente (ruby e tawny), é comum o Carcavelos ser o lote de diferentes anos.
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O francês de Sintra
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Quando Dom afonso III fez a doação do reguengo de Colares impôs o cultivo da vinha, tendo sido plantadas vides vindas de França. Os primeiros registos de exportação datam do século XIV, mas a fama só aconteceu no século XIX com a filoxera, que lhe abriu o mercado. O decreto de reconhecimento aconteceu em 1908. Este é um vinho exigente que precisa de tempo e de sabedoria para ser bebido e sobre o qual disseram ser o mais francês dos vinhos portugueses.
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A filoxera dizimou as vinhas europeias, fazendo com que as vides rejeitassem as próprias raízes. O pulgão, do tamanho da cabeça de um alfinete, parou nas areias e os vinhedos de Colares estão em areais. Aqui as vinhas estão no chamado pé-franco e não, como é comum, enxertadas em vides americanas.
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Nenhum tinto pode conter menos de 80% da casta ramisco (tinto) ou da malvasia (branco) e tem, forçosamente, de vir de cepas enterradas na areia. O tinto exige envelhecimento, sob pena de estar taninoso, adtringente e áspero. O tempo torna-o delicado, suave e ameno como o clima de Colares.
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A região de abrange apenas 22 hectares. A pressão imobiliária e o abandono da agricultura ditaram a decadência. Em 1999, a então presidente da Câmara de Sintra, Edite Estrela, solicitou a Carlos Monjardino que ajudasse a salvar o Colares. A Sociedade das Vinhas da Areia, detida pela Fundação Oriente, tem hoje 8,5 hectares de areia produtiva, estando previsto para o segundo semestre deste ano o lançamento do seu primeiro vinho, com a marca histórica MJC Colares.
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O enólogo Paolo Fiuza Nigra, conhecido pelas suas criações no Ribatejo e Alentejo, é o alquimista de serviço e a sua missão é a de conseguir um vinho com uma qualidade idêntica há de outrora e, ao mesmo tempo, conseguir que se beba com poucos anos de guarda. O enólogo optou por só usar uvas ramisco, por não compensar fazer outros bagos enfrentar um temperamento tão forte quanto o da casta maior.
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A vida moderna não se compadece com a necessidade de repouso do ramisco, tradicionalmente bebido entre os 20 e os 40 anos. O MJC Colares que vai surgir deverá estar bem bebível com quatro anos e promete de longevidade, adianta Paolo Nigra.
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Por enquanto, esta empresa apenas vai produzir tinto, embora preveja para o lançamento de branco. A demora na chegada ao mercado deveu-se a problemas com a disponibilidade de ramisco e com a não satisfação com a qualidade obtida.
João Goulão chefiou as operações no campo e uma revolução na região, pois as vides em vez de rastejarem pela areia (com os cachos tradicionalmente levantados por pauzinhos para que não assem) estão levantadas e conhecem, pela primeira vez, a rega.
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Uma brisa fresca engarrafada
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O Vinho de Bucelas é perfumado e seco. É vivo e fresco e com uma acidez bem equilibrada e agradável. Num país em que o vinho é sinónimo de tinto, Bucelas só o branco tem direito a denominação. Aqui manda o arinto.
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O marquês de Pombal protegeu estas vinhas, pelo que no seu caminho para o exílio pode pernoitar na Quinta da Romeira sem sobressalto, enquanto noutras terras sentia a sua carruagem ser apedrejada.
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O reconhecimento do Bucelas só aconteceu em 1911. Mas já antes tinha destaque. As tropas inglesas que combateram a forças napoleónicas gostaram da sua frescura e levaram-no de volta a casa. O duque de Wellington te-lo-á dado a provar ao futuro rei Jorge III, que muito o apreciou.
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A fortuna do célebre Camilo Alves foi feita com vinho, muito dele de Bucelas. Ainda hoje as Caves Velhas, criadas por esse magnata, produzem bem e bastante nestas terras de Loures.
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O mais pequeno produtor de Bucelas também descende de Camilo Alves e tem inovado por estas bandas. António Paneiro Pinto é responsável pela marca Chão do Prado, que estreou na região o espumante e colheita tardia. Exótico por terras portuguesas, o colheita tardia faz-se com as uvas já quase em passa e com o fungo botritys (podridão nobre), que lhe dá um travo especial muito delicado. O Chão do Prado tem também branco estagiado em madeira, que pode bater-se com comidas mais pesadas e esperar mais tempo para ser bebido, embora perdendo frescura.
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Entre o Tejo e o Sado
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A região vinícola de Terras do Sado abrange todo o distrito de Setúbal, desde a vista do Tejo até aos seus quatro concelhos alentejanos. Nas terras da margem direita do Sado encontram-se as denominações Setúbal e Palmela.
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A produção de vinho na Península de Setúbal remonta ao tempo em que os fenícios escalavam a costa portuguesa, havendo mesmo quem diga que para ali levaram castas da Ásia menor. Outros impulsos foram dados pelos colonizadores romanos e árabes. Dom Dinis também fomentou a vinha nestas landas, mas a delimitação só aconteceu em 1907.
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José Maria da Fonseca é o nome maior dos viticultores sadinos, embora tenha nascido em Nelas. A empresa que criou com o seu nome, em 1834, ainda hoje existe e é uma produtora de grande dimensão. Hexagon é o novo marco da empresa, um topo de gama classificado como vinho regional Terras do Sado, mas o emblema da casa talvez seja o Periquita, que, com mais de 150 anos, é a marca vínica mais antiga do país.
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José Maria da Fonseca foi também o responsável pela introdução da casta simbólica da região: a castelão francês, que trouxe do ribatejo e que nestas paragens adoptou o nome de periquita, por ter sido plantada na Quinta da Cova da Periquita.
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A Quinta da Bacalhôa – Vinhos de Portugal é a outra referência da região. A empresa mudou em Junho de denominação (a antiga JP Vinhos), passando a adoptar a propriedade do seu actual patrão, o empresário Joe Berardo. Quinta da bacalhoa, Palácio da Bacalhoa e Má Partilha são alguns dos mais notáveis citados vinhos desta casa.
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O Setúbal é um vinho generoso, muito fino e elegante. O mais conhecido é o branco, que se deve beber fresco. A sua cor vai do topázio-claro ao âmbar, tem aroma de flores e na boca evoca mel, um pouco de laranja e tâmaras. O tinto é menos conhecido. A prova surpreende, por ultrapassar a promessa deixada pelo aroma.
A sua denominação implica que, pelo menos, 67% dos encepamentos sejam de moscatel de Alexandria (branco) ou de moscatel roxo (tinto). Para ostentar a designação de Moscatel de Setúbal a percentagem mínima destas castas sobe para 85%.
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Quando se pensa em moscatel o topónimo Setúbal não é o único a surgir na mente, pois no Douro fazem-se também vinhos com idêntica menção. Além das diferenças do clima e do solo, a casta branca com que se faz o Moscatel de Setúbal não é a mesma dos seus homónimos do Douro (Alijó e Favaios), onde reina s moscatel galego.
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A fama dos vinhos de Setúbal é antiga e sabe-se que em 1675 foram exportadas 350 barricas. Do século XVI há registos de um banquete em que foi servido o «precioso Setúbal» e dois séculos depois era consumido com alegria na corte russa.
O Setúbal é um vinho fortificado. A fermentação é parada com a adição de aguardente vínica. As peles das uvas permanecem na cuba durante seis meses, o que confere maior complexidade. A Bacalhôa utiliza barricas de madeira usada para envelhecer os seus moscatéis, explica Rita Cabral de Almeida, responsável pelo marketing. Os mais correntes passam três anos em barrica, mas são também produzidos com oito e 20 anos.
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Os vinhos de Palmela são de pasto e menos célebres que os vizinhos de Setúbal. A denominação é recente e resulta de um reajustamento que levou também à extinção da denominação Arrábida. No entanto, a vinha tem sido cultivada no concelho desde há séculos, como se prova na referência da carta de foral, passada em 1185 por Dom Afonso Henriques.
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Em relação a Setúbal, os solos de Palmela são mais pobres, pois são arenosos. O cultivo da vinha nestas areias terá acontecido no século XIX, devido à filoxera. Os vinhos tintos são encorpados, de cor intensa e com aroma a frutos secos e especiarias. O tempo torna-os mais macios. Os brancos não são uma especialidade.

Tokay e provai ... e não quereis outra coisa!

















Até à divulgação do Vinho do Porto, o Tokay foi o grande vinho da realeza. Este néctar branco pode ter sido destronado, mas não perdeu fama nem prestígio. Aliás, há mais do que um rei a reinar na terra!
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Uma garrafa de vinho Tokay gerou uma guerra. Por ele, os turcos invadiram a Europa e cercaram Viena... Isto segundo a versão do aventureiro Barão de Münchausen.
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O Grande Turco geria o seu império em paz, quando recebeu a visita do aristocrata germânico e a quem serviu o seu melhor Tokay. Mas a reacção ficou-se por um «não está mal». O espanto e a raiva do sultão encontraram consolo numa aposta: Uma garrafa dum Tokay superior, no prazo de uma hora, ou a cabeça do barão, em troca todo o tesouro que um só homem pudesse carregar. Münchausen, um James Bond do final do século XVII, tinha por companheiros, entre outros, os homens mais veloz e mais forte do mundo. Adiante: O tesouro foi todo levado, deixando o perdedor na penúria, ofendido na alma e furibundo, instigando-o a perseguir o seu «007», a entrar pela Europa e pondo-a a ferro e fogo, chegando às portas de Viena.
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Este episódio do impagável personagem literário de Rudolph Erich Raspe só aconteceu no cinema, mas traduz a alma do herói fantasioso (que se opõe ao racionalismo do «século das luzes») e a aura mágica e divina de um vinho que nasce diferente... na Hungria e na Eslováquia.
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Verdade e rivalidade
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O Tokay, tal como é hoje conhecido, data de meados do século XVI, já os turcos andavam em patifarias pela Europa. A produção não prosperou durante a ocupação otomana, mas muitas das adegas foram criadas nessa época. Em 1683, o rei João III da Polónia salvou Viena do cerco e daí em diante dá-se o recuo das tropas turcas e a expansão da fama do Tokay.
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Os romanos introduziram a vinha na Panónia e os eslavos deram-lhe continuidade. A invasão dos tártaros deu cabo das vides, mas estas voltaram com os italianos chamados, por Bela IV, a colonizar a região entre os rios Tisa e Bodrog.
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Consta que em 1617 a vindima foi atrasada devido à previsão dum ataque turco, o que levou ao surgimento da botrytis cinerea (podridão nobre), que faz as uvas murchar, a película ficar mais macia e adocica o sabor. Devido a esta lenda, o Tokay reclama ser o mais antigo «colheita tardia», reivindicado também pelo vinho alemão Rheingau (120 anos mais tarde).
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Ainda que a data verídica seja outra, talvez o Tokay seja o primeiro «colheita tardia». O registo mais antigo sobre a elaboração do Tokay data de 1630 e em 1655 surgiu o primeiro decreto a regulamentar a vindima, obrigando a escolha, um a um, dos bagos afectados pela podridão nobre, a que chamam «aszú» .
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Em 1737, um decreto estabeleceu os limites vinhateiros do Tokay e, em 1772, foi divulgada o primeiro sistema de classificação de parcelas do mundo. Ora, isto faz com que hungaros e eslovacos reivindiquem a mais antiga região demarcada do mundo. Isto entra em conflito com a certeza portuguesa. A instituição da Real Companhia das Vinhas do Alto Douro, por ordem do marquês de Pombal, aconteceu em 1756, traduziu-se no terreno, com marcos a assinalar os limites do Douro vinhateiro, coisa que só muito mais tarde aconteceu na Hungria.
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As convulsões desencadeadas com a Primeira Guerra Mundial conduziram ao divórcio austro-húngaro, ao surgimento de novos Estados e à divisão da região do Tokay em duas, ficando, contudo, quase toda na Hungria.
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A filoxera fez estragos no século XIX e as complicações continuaram na centúria seguinte, com duas guerras mundiais e regimes comunistas na Hungria e Checoslováquia. O Tokay só ressurgiu após o fim da Guerra Fria. Porém, o degelo pôs a nu um problema: o que fazer com um produto valorizado, mas dividido por dois países? A Hungria conseguiu o reconhecimento formal, enquanto a Eslováquia protestava. As negociações de adesão à União Europeia indicaram a solução. Um problema que persiste é o das designações abusivas: França (Tokay da Alsácia), Itália (Tocai), Eslovénia, Austrália e Califórnia.
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A queda dos regimes comunistas atraiu o investimento estrangeiro, estimulou o empenho, recuperou a qualidade, o encanto e o prestígio. Resultado: o preço disparou. Para se ter uma ideia, uma garrafa (meio litro) de boa qualidade («aszú 5 puttonyos») custa em Lisboa (coisa difícil de encontrar) 35 euros... sem especulação face a lojas no estrangeiro.
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Três copitos
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O Tokay faz-se com uvas brancas e tem tonalidades preciosas, entre o ouro e o âmbar. O seu sabor é, por natureza, complexo. Nas produções mais tradicionais, a boca sente maçã caramelizada, caramelo, passas, algum mineral e há quem diga a «alcatrão» (Cruzes! Credo! Haja respeito e pudor!). As novas tecnologias permitem experiências e modas, pelo que os mais audazes conseguem dar a provar tangerina, pêssego, damasco, manga, ananás e notas florais.
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Quem leia estas linhas pode pensar que se trata dum vinho xaroposo e pastoso, mas engana-se! É algo entre o amargo e o doce (como aquela canção de Paulo de Carvalho com poema de Ary dos Santos) e tem boa escorrência. Na mesa vai bem com foi-gras e patês, frutos secos, passas, fruta cristalizada, pastelaria e bolo-rei. Ah! E serve-se frio. Muito frio, entre os quatro e os seis graus.
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Na verdade, existem três tipos de Tokay. O «szamorodni» («tal como vem») não é um «colheita tardia», não tem a mística dos seus irmãos, mas serve-lhes de base. Depois há os «aszú», escalonados em cinco categorias, e o «eszenzia», que entra numa competição à parte.
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Na base está o «aszú 3 puttonyos», que indica que a 80 litros foram adicionadas três cestas de vindimas (20 quilos ou litros) com uvas com fungo, contendo até 9% de açúcar residual. Seguem-se os «aszú 4 puttonyos» (até 12%), «aszú 5 puttonyos» (até 15%), «aszú 6 puttonyos» (até 18%) e o «aszú eszenzia» (mais de 18%).
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A «tal» bebida mágica dos reis designa-se, simplesmente, por «eszenzia» e o açúcar residual pode chegar a 70%. A fermentação alcoólica é lentíssima, a longevidade quase eterna e o sabor... desconhecido por seis mil milhões de pessoas... talvez até mais.
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Aforismos Tokantes
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Húngaros e eslovacos repetem uma pomposa frase sobre o Tokay saída da boca de Luís XIV de França: «é o rei dos vinhos e o vinho dos reis»! Há, aliás, uma forte relação com a realeza. Houve tempos em que os «eszenzia» (a que atribuíram poderes curativos) eram exclusivo dos monarcas magiares e, mais tarde, dos Habsburgos. Pedro I da Rússia violou as suas próprias leis e importou-o, armazenando-o nas caves do seu palácio de Sampetersburgo. Catarina, a Grande, que lhe sucedeu, não prescindiu da especialidade.
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Está provado que alguns dos que saborearam Tokay proferiram algumas das melhores tiradas da humanidade. O mordomo da corte prussiana tranquilizou Frederico II: «Continuai bebendo Tokay, Majestade. As duas primeiras pessoas foram expulsas do Paraíso por comerem, não por beberem».
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Por fim – e porque uma frase em latim dá sempre um toque letrado a quem a escreve e seriedade ao que se lê –, um aforismo do papa Bento XIV quando o provou, oferecido pela imperatriz Maria Teresa de Áustria: «Benedicta sit terra, quae te germinavit. Benedicta sit mulier, quae te misit. Benedictus sum, qui te bibo»! - «Bendita a terra em que germinaste. Bendita a mulher que te trouxe.Bendito sou eu que te bebo»)
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Tocai nos portugueses
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Os «colheita tardia» fazem-se um pouco por todo o mundo e Portugal não é excepção, embora não seja extensa a lista: Casa de Santar Late Harvest (Dão), Chão do Prado Colheita Tardia (Bucelas), Grandjó Late Harvest (Douro), Herdade do Esporão Late Harvest (Alentejo), Quinta dos Carvalhais Colheita Tardia (Dão), Quinta da Lagoalva de Cima Late Harvest (Ribatejo) e Niepoort 2002 Late Harvest (Douro). A vindima de 2005 vai ficar marcada com a estreia do Quinta de Soalheiro (Vinho Verde) e da casta alvarinho. Outras experiências estão a ser feitas na Quinta de Maritávora (Douro) no âmbito do projecto Vinho Meu.

Este é o meu vinho












Para se fazer vinho já não é preciso ter uma quinta nem videiras. Há quem as tenhas. É só ir, aprender, divertir, engarrafar e vir embora.
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O Douro não é feito só de socalcos. A região vinhateira chega ao planalto, arrima-se às terras bravias. No Parque Natural do Douro Internacional o rio serpenteia, faz gargantas e fronteira. As fragas têm azinheiras penduradas. Talvez por isso, ali chamem carrascos a estas árvores mais conhecidas nas campinas do Sul. Aqui e ali vêem-se oliveiras, mesmo nos torrões mais íngremes. No céu reina o britango. Na terra manda o xisto.
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Em Freixo de Espada-à-Cinta já não é tão fácil ver-se o abutre, mas a pedra fatiada, ainda que lavrada, é a mesma de todo o Douro vinhateiro e do parque selvagem. Por ali, naquele concelho escondido a algumas horas de carro de Lisboa e a umas tantas do Porto, há uma quinta com nome de mulher ou talvez de lenda.
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A Quinta de Maritávora está na posse da família de Manuel Gomes Mota desde o século XIX, mas o nome da propriedade é mais antigo e indica que poderá ter pertencido aos Távoras, cujo couto não é assim tão longe, mais a Sul, já na Beira. O que mais impressiona é o solo... ou a falta dele. Talvez seja melhor chamar-lhe chão. Se passassem um rolo compressor para o alisar e o envernizassem, ficava digno de um palácio. Não tem terra, só pedra. Só mesmo pedra! No entanto, ali há videiras que dão uvas e delas faz-se vinho.
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Quase só ar puro
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A vila tem ar puro, algum património histórico, como uma torre de sete lados, foi a terra do poeta Guerra Junqueiro, e pouco mais. O turismo vive, magro, dos caçadores passantes, dos visitantes das amendoeiras em flor e das vindimas. Foi para ajudar a terra que Manuel Gomes Mota teve uma ideia tão simples quanto luminosa para todos aqueles que gostariam de um dia produzir vinho: pôr a quinta, uvas, adega, tecnologia e conhecimento à disposição dos enófilos. Em troca, a vila recebe grupos de turistas, que ali têm de se deslocar duas vezes.
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A ideia de Manuel Gomes Mota surgiu da tradição duriense de declarar «vintage» (colheita em inglês e que se atribui a vindimas em que a qualidade do Vinho do Porto é excepcional) quando nasce um novo membro da família, mesmo que não vá a reconhecimento oficial da entidade certificadora. Todos os lavradores têm na adega o «seu» vinho, que abrem em momentos especiais. É com esta memória e sabedor da paixão dos enófilos e da raridade da terra que Manuel Gomes Mota quer abrir o mundo dos viticultores aos urbanitas.
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O projecto começou em 2005 chama-se VinhoMeu e a descrição faz crescer água na boca a quem é guloso e tem curiosidade pelas artes e ciências do vinho. O primeiro acto consiste num jantar vínico, em que são dados a provar vinhos criados por diferentes métodos e processos. No dia seguinte, escolhem-se as uvas (tintas ou brancas), o modo de pisa (em lagar ou prensa), a fermentação maloláctica (em barrica ou em inox) e o estágio (a duração e a madeira das barricas).
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O fim-de-semana passa depressa e antes que todos os processos estejam concluídos. Os turistas vão-se antes do início da fermentação alcoólica. As questões técnicas ficam a cargo de um nome respeitado no Douro, o enólogo Jorge Serôdio Borges, autor do muito elogiado «Pintas» e antigo braço-direito de Dirk van der Niepoort.
Como uvas frescas só existem uma vez por ano, estes vinhos fazem-se com recurso a frutos congelados, até porque na época das vindimas há menos tempo para oferecer aos turistas e toda atenção tem de ser dada às uvas que servem para fazer os vinhos comercializados pela casa (Maritávora) ou que são vendidas, desde há gerações, à mesma empresa produtora de Vinho do Porto.
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Os testes efectuados com uvas congeladas têm sido muito animadores. De início julgou-se que só resultariam colheitas tardias ou vinhos brancos, mas as uvas tintas têm tido muito bom comportamento, não se notando qualquer prejuízo devido ao facto de terem sofrido uma congelação.
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Uns meses depois, quando o vinho estiver pronto, os autores vinhateiros voltam a Freixo de Espada-à-Cinta para se juntarem em torno de uma pequena linha de engarrafamento para botar o vinho nas garrafas que escolheram e nelas colarem o rótulo que criaram.
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Quem vem lá
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Os grupos de amigos, as famílias e os grupos de empresas são os clientes alvo da VinhoMeu, que podem, em torno do vinho, criar projectos e diversões em conjunto. Os custos são relativos e barato e caro dependem da perspectiva pela qual se olha e do bolso de quem vê. Manuel Gomes Mota refere que cada opção feita na adega tem um custo, pois uma barrica de carvalho francês duma tanoaria portuguesa não custa o mesmo doutro que vem de França. O empresário refere que o modelo económico não põe as contas num patamar astronómico, saindo cada garrafa a perto de cinco euros, valor comparável ao pedido, em adegas da região, por vinhos de qualidade idêntica.

Meninos que brincam com as uvas

Há talento à solta no Douro. Há também sabedoria e sangue novo. A amizade e a competição entre enólogos lembram os despiques dos surfistas cariocas. Com o rio ali à frente, chamam-se a si mesmos de “Douro Boys”... Dirk van der Niepoort, Francisco Olazabal, Jorge Moreira e Jorge Serôdio Borges são os nossos “meninos d'ouro”. Excepção aberta para a menina, Sandra Tavares da Silva, uma enóloga num mundo de homens.
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A rapaziada é nova e nenhum deles é, verdadeiramente, rapazola. O mais velho é quem “manda”, porém, num grupo informal e de amigos, não há mandador: Dirk van der Niepoort, um quarentão com aparência tão holandesa quanto o nome, mas de forte sotaque portuense. O mais novo elemento talvez não tivesse 30 anos quando começou a “surfar no vinho” com os outros “meninos do Douro”.
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Os “Douro Boys” são simultaneamente amigos e colegas de profissão. O convívio é restrito aos seus laços, pertence-lhes, são deles os afectos. Juntam-se em jantares formais, de ocasião e informais, provam os vinhos uns dos outros, criticam-se, elogiam-se, testam-se e divertem-se.
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Um dia, quando em reportagem na Quinta do Vale Meão, conversava com Francisco Olazabal (também enólogo na Quinta do Vallado) sobre grandes vinhos do Douro e referi o “Charme” de Dirk Niepoort. “Ah, gosta do “Charme”? Então venha aqui e prove lá este”. O trintão deu-me um tinto muito suave e aveludado, perfumado até inebriar: “Diga-me, é ou não é o “Charme”? É ou não é o “Charme”? Já descobri o que o Dirk faz!”. Olazabal gastou algumas horas a pensar como o amigo elaborava um dos seus topo-de-gama. “Desperdiçou” duas barricas no passatempo fazendo duas experiências e numa delas achou a solução. No jantar seguinte terá levado umas garrafas daquele “Charme” de imitação para impressionar o autor e os demais comensais.
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Dirk Niepoort contara-me uns meses antes, quando o visitara em reportagem na Quinta de Nápoles, um episódio que poderá ter estado na origem deste e que espelha admiração mútua. Num jantar, os dois enólogos debruçaram-se na análise laboral, concluindo que o vinho do outro era melhor que o do próprio: Niepoort teimava que o “Vale Meão” era melhor do que o “Charme” e Olazabal cismava no inverso.
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Quem são eles
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Jorge Serôdio Borges foi por bastante tempo o adjunto de Niepoort, até que chegou o momento em que quis voar sozinho. Hoje dirige a Quinta do Passadouro e é enólogo na Quinta de Maritávora, duas casas com boas referências. Não se sabe bem se os “meninos do rio Douro” formam uma espécie de “Clube do Bolinha”, em que menina não entra. Na verdade não há muitas mulheres a mandar nas uvas do Douro. No entanto, há uma que as põe todas em sentido e sabe bem o que quer delas. Se pertence ao clube não sei, mas tem talento para lá estar. Chama-se Sandra Tavares da Silva e é casada com Jorge Serôdio Borges, com que cria o “Pintas”, um dos mais aplaudidos tintos, e o novíssimo branco “Guru”, muito bem recebido pela crítica. Em termos profissionais, esta enóloga ex-modelo é responsável pela Quinta do Vale de D. Maria, outra casa produtora de especialidades.
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Nas vizinhanças do “Bolinha”, Marta Casanova (Brunheda) e Susana Esteban (Quinta do Crasto) são duas outras jovens que andam a seduzir o mundo enófilo com as suas criações durienses.
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Rui Brito e Cunha também integrou durante algum tempo uma estrutura empresarial até se decidir a correr por conta própria (JBC & ME, Quinta de São José). A elegância é o objectivo deste enólogo, que, contudo, não deixa de querer “meter o Douro dentro das garrafas”, porque essa é uma das vantagens que a velha Europa tem sobre os países produtores do Novo Mundo. A história e o carácter da região têm de lá estar. Ultimamente lançou-se com o pai, Rui Brito e Cunha, homem experimentado na administração de propriedades vinhateiras, no turismo rural na Quinta de São José, cujas casas de xisto foram recuperadas com gosto e onde se pode chegar a partir do rio para ver as uvas crescer.
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Sobre Jorge Moreira sussurram os outros “surfistas vínicos” que se espera muito. É, provavelmente, o elemento mais novo do grupo e quando o conheci ainda não tinha virado a casa dos trinta... talvez ainda não tenha. O que tinha era um rosto de miúdo crescido. Por agora o engenho desenvolve-se a tempo inteiro na Quinta de La Rosa e nas horas vagas ocupa-se com “Poeira”. Este é um tinto teimoso, que insiste em referências elogiosas por parte dos críticos.
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O percurso de vida dos meninos do Douro está muito ligado ao rio. Mas nem todos. Sandra Tavares da Silva veio da moda e do Sul. O habitat dela não é o Douro, mas agora vive encantada com o vale dos socalcos. Muitos vêm de famílias tradicionais e quase nasceram à sombra das vinhas.
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Só para citar alguns com árvores genealógicas com as raízes bem firmadas no solo xistoso do Douro refira-se as de Jorge Serôdio Borges, João Brito e Cunha, João Roseira e Dirk Niepoort. O rio, o vinho e a família estavam ali, desde que eram meninos, a chamar por eles.
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A tradição das famílias tem peso e poder de atracção, mas alguns destes meninos sentiram o palpitar do genes responsável pelo empreendorismo e lançaram-se cumulativamente em projectos pessoais.
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João Roseira parece que não consegue estar quieto, sempre metido em aventuras. Não lhe basta a Quinta do Infantado, a propriedade de família e casa produtora de Vinho do Porto com boas referências. Há uns anos meteu-se no projecto Bago de Touriga para fazer vinho de pasto e para ver nascer um projecto seu de raíz. O negócio, partilhado com Luís Soares Duarte, tem avançado e faz-se notável sobretudo com o Gouvyas. Agora, de há três anos a esta parte, meteu-se na realização do Encontro do Dão e Douro (4 a 14 de Maio em Lisboa), porque considera que os vinhos das duas regiões ligam bem e têm a ganhar se foram mostrados juntos. Esta coisa de pôr um pé no Dão é comum também a Dirk Niepoort que faz com o produtor Álvaro de Castro o Dado, um notável feito com uvas das duas regiões vinhateiras e, por isso, classificado apenas como “vinho de mesa” como se tratasse dum espécimen de pacote.
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O clube, já se disse, é informal e inclui ainda gente como Pedro Correia (Prats & Symington), Cristiano van Zeller (Quinta do Vale de D. Maria), Francisco Ferreira (Quinta do Vallado), Tomás Roquette, Miguel Roquette (ambos da Quinta do Crasto), Rui Madeira, João Matos (ambos da Casa Agrícola Reboredo Madeira).
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Onde surfam os Douro Boys
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Dirk Niepoort, nasceu com um apelido que é uma marca de Vinho do Porto, mas quando entrou no negócio inclinou-se mais para o Vinho do Douro. Desde o início quis experimentar, não se importando de andar em contra-ciclo com a tendência dos produtores, que não deixaram de duvidar e de o aconselhar a corrigir as obras. Os críticos e os consumidores aplaudiram-no e tornou-se numa referência respeitada e criadora de moda. “Não me preocupo com o mercado. Mas não me posso queixar, porque vendo tudo o que produzo”, contou-me.
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Aliás, de falta de comprador para os vinhos é coisa que estes rapazes do Douro não se podem queixar, mesmo que o mercado esteja saturado de produtores e de marcas. A qualidade e a marca são razões para que isso aconteça, mas a quantidade disponível também ajuda. Dizem vozes críticas do sector que “só fazem vinhos de garagem”, pois uma coisa é produzir 3.500 garrafas ou 15.000 outra é andar nas centenas de milhares. É verdade, mas vinhos afinados como são os dos “Douro Boys” mais vale designar por “vinhos de autor”.
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Porém, nem todos os seus vinhos têm produções reduzidas. O “Vale Meão”, por exemplo, tem uma tiragem superior às 30.000 garrafas anuais, mas anda esgotado na distribuição. Isto significa que em muitas garrafeiras já não existe, permitindo a especulação nas restantes e ao escândalo nos restaurantes. Quanto aos outros, os de micro-produções, estavam aqui mesmo agora e já se foram. E com uns preços!...
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João Roseira atribui a moda e o entusiasmo face aos vinhos durienses à “movida” dos “meninos” e assinala que entre 1997/ 1998 e 2001 houve um “fervilhar e fermentar de ideias” muito benéficos para a região. Um ponto de vista partilhado por outros dos membros do “gang”. Agora as coisas podem estar mais calmas, mas o saber adquirido não desaparece. Os convívios mantém-se... Dir-se-ia que as novas grandes aventuras estão a estagiar ou à espera de uma grande onde para surfar.
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Nota: O conceito dos Douro Boys nasceu mais lato, mas organizou-se, estruturou-se e formalizou-se apenas com cinco produtores - Quinta do Vallado, Quinta de Nápoles / Quinta do Carril, Quinta do Crasto, Quinta do Vale Dona Maria e Quinta do Vale Meão.

Sete gerações no vinho





















A segunda maior empresa vínica portuguesa nasceu quase por acaso há 202 anos e desde então tem-se mantido sempre na mesma família, transitando, quase sempre, de pai para filho.
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O apelido Fonseca perdeu-se cedo na sucessão da casa. O destino encarregou a família da mulher de José Maria da Fonseca de gerir as vinhas e as terras. O nome do fundador ficou como marca, mas o mando não mais deixou o nome Soares Franco.
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José Maria da Fonseca nasceu em 1804 em Vilar Seco (Nelas) e jovem desceu a Coimbra para estudar matemática, antes de rumar a Lisboa, onde se estabeleceu na zona do Cais do Sodré para mercar com tabacos.
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Um dia executou a garantia duma propriedade em Azeitão, a Quinta da Cova da Periquita, e traçou o seu destino e o de várias gerações de familiares. Aconteceu por volta de 1834, mas pode ter acontecido antes, quem o diz é António Soares Franco, representante da sexta vindima familiar de responsáveis pelo negócio dos vinhos.
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A Quinta da Cova da Periquita durou pouco tempo na posse de José Maria da Fonseca. Os negócios sucederam-se e nem todos saíam bem, o capital rodava e os activos também. Contudo, ficou o gosto pela lavoura, onde aplicou inovações e os conhecimentos aprendidos no estudo da matemática.
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Entre as inovações e experiências houve uma que ficou célebre: a casta castelão, oriúnda do Ribatejo, foi trazida para Azeitão e ali veio a dar-se com grande sucesso. O êxito foi tal que ainda hoje esta ainda é a variedade dominante na zona, representando mais de 90% dos encepamentos. Outra dimensão do bom resultado é o nome que a casta castelão tomou na zona: periquita, como a quinta onde foi introduzida (hoje o uso do termo está interdito por se tratar duma marca comercial). No entanto, a propriedade saíu do património familiar e hoje já não dá vinho e tem em cima prédios de habitação.
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Conta António Soares Franco que o fundador da casa foi um homem adiantado no tempo, já preocupado com a necessidade de marcas. Em 1850 nasceu o vinho Periquita, a marca de vinho de pasto mais antiga do país. Actualmente, a empresa guarda duas garrafas datadas de 1880, mas Domingos Soares Franco, vice-presidente e enólogo, teve conhecimento dum coleccionador que passou pelas instalações e lhe disse ter um exemplar mais antigo.
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Montado no negócio dos vinhos, cedo os mercados externos se tornam prioritários. Portugal exporta vinho desde a Idade Média, mas é José Maria da Fonseca que pensa nas vantagens de vende-lo em garrafas por forma a preservá-lo e a garantir a sua não adulteração.
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De entre todos os países, o Brasil é um destino especial, com um forte peso nas vendas da casa durante décadas. Porém, após a crise da bolsa de Nova Iorque, em 1929, e as medidas proteccionistas do regime de Getúlio Vargas, este grande mercado vai afectar a saúde financeira da empresa, o que leva à venda de activos, nomeadamente quintas em Colares. A recuperação será lenta, ao longo da década de trinta e de quarenta. Mas a solução será cor de rosa: o rosé Lancers.
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O empresário norte-americano de origem arménia Henry Behar visitou a José Maria da Fonseca e propôs-se lançar, em 1944, um rosé nos Estados Unidos. Queria um vinho despretencioso e fácil de beber, até porque o vinho não tinha grande tradição do outro lado do Atlântico. Queria uma garrafa «very typical», que lembrasse Portugal, e assim se decidiu pelo modelo que imita barro. A marca Lancers foi escolhida por Henry Behar ser um grande apreciador do quadro «las lanzas» de Diego Velasquez. O Lancers tornou-se um grande sucesso nos Estados Unidos e tirou a José Maria da Fonseca da situação financeira complicada em que se encontrava.
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O negócio prosperou com os anos e alargaram-se os interesses. No entanto, os descendentes também aumentaram. Em 1980 havia já muita família a querer mandar nas empresas que se reuniu um concílio familiar que decidiu pela venda dos interesses na distribuição e da, então, JP Vinhos (hoje Bacalhôa Vinhos). O núcleo Soares Franco ficou com a José Maria da Fonseca, embora o ramo Avillez ficasse com uma posição.
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A década de oitenta não estava fácil, com as empresas a pagarem a factura da instabilidade revolucionária. «A sociedade estava numa situação preocupante por causa dos juros, com encargos financeiros brutais». As férias de 1985 foram decisivas. Sobre a mesa duas hipóteses: a abertura do capital ao exterior ou a venda do negócio dos rosés, que eram detidos em 51% pela casa de Azeitão. A segunda opção vendeu e os parceiros norte-americanos da Heublien (actualmente integrada na IDV-UD, a maior empresa mundial de bebidas) tomaram «contrariados» a posição da família Soares Franco. «Com esse dinheiro saneámos financeiramente a casa-mãe, pagámos ao banco, aumentámos o capital, aumentámos o património fundiário, reequipámo-nos e começámos a exportar mais. As coisas começaram a correr bem» – afirma António Soares Franco.
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Um dos primeiros passos foi dado em direcção ao Alentejo, estava ainda para vir a moda dos vinhos desta região, com a compra em 1986 da marca José de Sousa, de Reguengos de Monsaraz.
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Uma tarde em Wimbledon
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Um dia, os antigos sócios do negócio dos rosés convidaram António Soares Franco para assistir a uma partida de ténis em Wimbledon. Porém, além das tacadas com raquetes veio de lá um «drive» com negócio apontado. «Eles sabiam que andávamos à procura de adega e eles queriam sair da produção para se concentrarem apenas no marketing.
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Fiquei de todas as cores. Aquela era a oportunidade de recomprar a bom preço o que venderamos, além de ser a possibilidade de ter a 100 por cento uma marca que nunca fôra nossa totalmente».
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António Soares Franco ligou para Portugal e começaram a acertar-se os contornos do negócio. Em 1996, a Jose Maria da Fonseca Internacional – detentora duma das marcas vínicas portuguesas mais vendidas, a Lancers – passou para controlo português. «Triplicámos o volume e somos a segunda maior empresa privada em Portugal» – afirma orgulhoso o chefe da empresa.
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O alargamento territorial da empresa não está completamente fora de questão, mas António Soares Franco diz ser tempo de «parar para pensar» e de «consolidar o negócio», tendo em vista os «investimentos brutais dos últimos dez anos» e a crise que se verifica em muitos países. «Ainda não temos dimensão. Ainda temos muito que crescer na exportação e nas marcas».
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Um novo negócio? «Só se aparecer uma oportunidade e se se enquadrar no que se faz neste momento». E onde se faria o negócio? António Soares Franco quase exclui a Europa. Primeiro recusa-a, depois admite a Espanha ou a Itália. Propostas sobre a mesa não faltam, mas as repostas têm sido sempre negativas. Novos negócios implicam mais quadros e alavancagem financeira, explica.
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Posto isto é a vez de Domingos Saores Franco (quem é). Em plena entrevista dá-se quase uma mini reunião do conselho com um colorido diálogo.«Eu sou Novo Mundo, estudei no Novo Mundo» – atira Domingos.
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António Maria avança que em Espanha estão a fazer-se vinhos bem à moda dos novos países produtores. «Os espanhóis estão a tornar-se Novo Mundo».
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Mas a jogada é do homem das uvas, delas quem percebe mais é ele: «Sim, mas a Espanha está é inundada de tempranillo [casta que em português se designa por tinta roriz ou aragonês]. Para mim, Novo Mundo é Nova Zelândia e África do Sul».
Num instante revelou-se uma luz na sala com o entusiamo do enólogo, que advertiu para a subida dos preços da terra nos dois países, que no caso africano acrescem riscos políticos. «São esses os países em que investiria. Seria sempre no hemisfério Sul, até para aproveitar a equipa de enologia que faria aqui as vindimas e depois lá».
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A discussão dos três Soares Franco da empresa é viva e correcta. Mas nem sempre foi assim. Os tempos mudam e as posturas também. Cada época tem os seus sinais. Cada responsável imprime a sua marca pessoal e geracional. Quando Fernando Porto Soares Franco mandava nos destinos da casa a convivência era diferente. «Com o pai havia um discurso construtivo. O pai tinha um feitio diferente, ouvia muito e falava no fim. Nós somos mais combativos, metemos a voz em tudo, estamos 25 horas por dia na empresa e às vezes temos de nos mandar para casa. No tempo do pai era diferente» – afirma António Soares Franco.
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António Maria diz que trabalhar com o pai e com o tio Domingos «é giro». «Tenho discussões tanto com um como com outro. É muito divertido». Porém, todos garantem que na empresa não há discussões de família ou discursos de pai para filho. As relações são profissionais. «Desde que sairam de casa que acabaram as regras tipo tropa», diz António Soares Franco. «Damo-nos melhor do que irmãos» – brinca Domingos sobre o irmão António.
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Os três Soares Franco de Azeitão
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Na empresa não há ritual na transição do poder ou na entrada em funções, garante António Soares Franco. Para um Soares Franco trabalhar na José Maria da Fonseca são precisos alguns requisitos: vontade do próprio e interesse da empresa. «Um membro da família é tratado como outra pessoa que não seja».
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António Maria Soares Franco veio da Procter & Gamble; Gamble «não veio com o ferro JMF marcado, mas está cá com um destino mais longo do que outros directores. Ninguém dos Soares Franco é obrigado, só trabalha cá porque quer, porque a empresa precisa e tem de trazer valor-acrescentado», diz o presidente sobre o seu filho e director de marketing.
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António e António Maria são dois executivos. Já Domingos nota-se um ar mais descontraído. Os dois primeiros vêm de fato, embora o mais novo se apresente sem gravata. Já o enólogo está de ganga e com um colete.
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A vida fez diferentes os dois irmãos. Um ficou em Portugal e conheceu os anos difíceis que se seguiram à revolução democrática, o segundo foi estudar para fora. António Soares Franco terminou o Instituto Superior de Economia em 1975, debaixo do recolher obrigatório. Fez exame a 27 de Novembro, apenas dois dias após a vitória das forças democráticas.
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Domingos Soares Franco assume-se diferente. A experiência de vida fê-lo diferente. Estudou enologia em Davis, na Califórnia, para onde partiu em Agosto de 1975, em pleno Verão quente revolucionário. Os horizontes abriram-se nas paisagens americanas e a profissão de enólogo liberta-o da farta de executivo.
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«Dou-me lindamente com o meu irmão como me dei com o meu pai. Fiz o baú para a América a pensar que não ía voltar. Tirei fotografias à quinta, tinha 19 anos. Estive cinco anos sozinho e isso fez-me um pouquinho diferente, como na maneira de vestir, que é mais irreverente. Mas estou sempre em sintonia com o meu irmão, apesar de pequenas diferenças no pensar».
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O que também faz parte da família é a receita da ginjinha, que a empresa comercializa com a marca de Cherry Bom. A perícia e as doses passaram de geração em geração, mas a frieza dos números das vendas é cruel mesmo para uma bebida doce. Quando acabar o stock, acaba este segredo que os Soares Franco partilham com a sociedade.

Bica de tinto

O facto é que falhei a «Flauta Mágica» no São Carlos. Para mais tratou-se duma récita especialmente para miúdos, o que daria muito jeito para a minha cabecinha, visto ser comum dizerem-me infantil. Na verdade, há ainda uma hipótese para Maio, mas ainda não meti os pés a caminho duma bilheteira e, conhecendo as práticas do Teatro Nacional, duvido que chegue a tempo de ver o que quer que seja.
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O meu problema agora é que já prometi acompanhar uma amiga. Pior ainda é que conheço a Rainha da Noite e comprometi-me a assistir. A questão é esta: gosto de ópera, adoro Mozart e aprecio bastante a «Flauta Mágica», mas abomino ter de ir comprar bilhetes. Devia haver alguém que mos trouxesse. Eu devia ter privilégios.
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Quando era miúdo, mas já não tanto assim, punha-me a fazer vozes operáticas, cantando o melhor que podia ou conseguia. Era ver os amigos a rir com as minhas palhaçadas cantadas. Uma das óperas que mais parodiava era, exactamente, a «Flauta Mágica», muito provavelmente por ser uma das mais populares e identificáveis.
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Nas minhas extravagantes performances destacavam-se os momentos de alegria pictórica da Rainha da Noite. Esta voz grossa, ou em vias do ficar, a arranhar caminhos reservados às sopranos era de escangalhar a rir pelo ridículo da minha figura. O dueto de papageno e papagena era também alvo dos meus atropelos ao bom gosto.
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Bem, mas voltemos ao presente: O que fiz eu na vez de ter ido ao São Carlos? O mesmo que, provavelmente, vou fazer em Maio: borguei com os amigos. Armei-me em Marialva guloso, coisa comum em mim, e diverti-me com boas comidas e bons vinhos.
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Não sei quais foram os vinhos que me desviaram do teatro, mas por essas alturas experimentei um tinto do Dão que muito me alegrou. O Quinta da Bica Reserva 2004. Trata-se dum vinho com complexidade, que desafia sem ser difícil. Apreciei-lhe os taninos, que deixam antever uma vida pela frente.
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Este tinto do Dão é um vinho de brado, que dou sem os cocorocós que cantava quando miúdo. Canta alto. Felizmente sempre aprendi alguma coisas na vida… como não fazer comédia nem cantar ópera.
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Do que eu não me lembrava
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Há coisas que não têm nada a ver com outras coisas, mas que, porém, acabam por se relacionarem. Nem que seja pelas minhas associações mentais, fruto duma mente perturbada. Vou dar alguns exemplos. Com calma, porque isto não é coisa que se faça de forma automática.
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O que tem a ida ao barbeiro (cabeleireiro, mas prefiro à moda antiga) de Luís Filipe Menezes com a política nacional? Não tem nada a ver, porém está ligado, ou não tivesse sido acompanhado por jornalistas da SIC. Ou até terá… há ideias que não lembram a um careca. Não apenas ao chefe dos social-democratas, mas a todos os políticos… e a todos os que não são políticos… eu incluído.
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Numa das edições da Sábado vi uma fotografia de Barack Obama com os pés levantados e pousados numa mesa. O candidato à presidência dos Estados Unidos calçava uns sapatos com buracos na sola. O que tem esse facto a ver com a política? Aparentemente nada, mas se pensarmos que há promessas que caem em saco roto… que o homem tem uma longa caminhada pela frente até ao final das primárias e eventualmente outra para as presidenciais propriamente ditas…
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A propósito de furos… há garrafas que parecem ter um furo, que se deixam ir como se estivessem rotas. Outro dia aconteceu-me. Há muito que já não bebia um destes. Não é uma extravagância, mas uma boa aposta segura. Pois, trata-se dum vinho que eu injustamente não me lembrava, apesar de ser uma aposta seguríssima para o dia-a-dia: Prazo de Roriz 2006. Deixou-se ir muito bem com um belo entrecosto no forno com batatinhas. Para beber já, a breve prazo.
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E o que tem este tinto do Douro com Luís Filipe Menezes e com os sapatos de Barack Obama? Nada, não fosse estar a escrever esta crónica ao mesmo tempo que leio uma revista. As coisas incríveis que consigo fazer ao mesmo tempo… e sem me rir nem cair da cadeira.Como se comprova, há coisas que não tendo nada a ver acabam por ter ligação. Esta crónica também não lembra a um careca, mas talvez esteja uns furos acima do que para aqui costuma aparecer escrito. É o chamado desconstrutivismo lógico aplicado à escrita de vinhos.

Tantas palavras para dizer satisfação

Há vinhos brancos para o Inverno... e porque hoje estou do contra, vou apresentar um. Por não haver touradas no Inverno é que me apetece escrever sobre um vinho do Ribatejo. Para mais andei as vasculhar e descobri muito Douro e Alentejo. Bem sei que é quase inevitável, mas bolas!... Há mais gente a saber fazer vinho no ocidente peninsular!
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Depois há um imenso apetite de contrariar as regras. O Inverno é uma chatice! Pelo menos é o que se ouve em gritaria. Pois não concordo! Que belo é o Inverno com suas chuvas, trovoadas, ventanias e temperaturas baixas! Garanto que gosto do Inverno. Apetece-me estar do contra e justifico.
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Diz o senso comum que calha bem é tinto quando o frio faz agasalhar os corpos. É quase uma convenção. Diria, até, uma instituição de sabedoria: o branco no Verão e o tinto no Inverno. Pois, como hoje estou para desatinar com a norma, vou apresentar um belo dum branco que apetece na invernia e calha bem à mesa estival.
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Na crónica de hoje tudo parece contra a norma e complicado, pelo que o nome do vinho é comprido como um comboio de mercadorias: Quinta da Lagoalva de Cima Arinto e Chardonnay. Uf! O mais curioso é que estas palavras todas cabem no rótulo....
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Tal como o fandando se dança a pares, também este Regional Ribatejano se faz de castas em dueto. A arinto, que no Entre-Douro-e-Minho se chama pedernã, é fresca, frutada (citrinos e maçãs verdes) e cítrica, e brilha muito na região de Bucelas. A chardonnay é uma uva típica da Borgonha que, pela sua qualidade, se tem dispersado pelo mundo. A traço grosso digo que o Quinta da Lagoalva de Cima Arinto e Chardonnay tem uma alegre acidez da uva saloia e uma macieza gorda do bago francês.
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Este vinho é uma alegria! É diferente do que se espera dum branco, menos vivaço e refrescanto do que no habituou este género. Tudo isso é resultado do saber enológico e das opções tomadas. O vinho fez a fermentação em barricas, tendo o chardonnay feito a fermentação maloláctica também em recepiente de madeira, antes de estágiarem em carvalho francês.
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Porque no Ribatejo se criam bovinos com agrado, por que não exprimentar este branco com um prato de carnes vermelhas? Se a ousadia não for a tanto, que se experimente com carne de aves. Para mim fica a satisfação de descobrir um vinho destes...
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O vinho do jornal
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Estava a ler o jornal na mesa do café quando chegou o meu amigo Indiana Jones. A alcunha irrita-me – como lhe deve arreliar a ele – mas foi ficando e por culpa do próprio. Meteram-na quando ainda andava no liceu por causa das roupas fora de tudo que usava e pelo chapéu de abas largas, da polícia montada canadiana, só possível porque abusadono feitio, que assim perdeu as características quatro covinhas no topo.
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O Indiana Jones chegou atrasado – devo ser o único português pontual – e esbaforido, porque preocupado por me ter deixado, mais uma vez, a secar. Não fez grande mossa, já estou habituado e tenho uma espécie de comprimidos mentais que atenuam a dor de esperar.
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Após algumas, muitas, mutíssimas e prolongadas conversações, desviadas obviamente do ponto pretendido, lá decidimos levantar da mesa e marchar para o jantar. Lá vieram umas carnes vivas, em sangue, com umas batatas fritas palitadas e crocantes. Para beber mandou-se vir um Diálogo, um duriense da casa Niepoort. Ah! Agora me lembro: o pormenor do jornal é importante, pois o rótulo faz-se dum cartoon de Luís, o mesmo que todos os dias anima o Público.
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Ai! Estou a confundir tudo. O que disse acerca do vinho é verdade, mas bebi-o com outro amigo, com o Turco. É a senilidade!
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Lembrou a um careca
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O careca lembrou-se de me convidar para jantar lá em casa. O patife tem uma casa vasta ali em Campo de Ourique e gosto de lá ir. Para onde lhe havia de dar e para onde se foi; é sempre assim, há amigos com quem se fica horas a falar de vinho.
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O dito careca, que parece o pai do Calvin da banda desenhada, recebeu de presente uma colecçãozinha de vinhos velhos. Ora veja-se o azar, eu que gosto tanto da terceira idade no vinho, desde que ainda vitalizados.
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Ora veja-se o azar: a primeira estava avariada – é o risco dos vinhos velhos -, a segunda tinha encomendado a alma ao criador e a terceira não deu prazer de fazer sonhar. Criou-se um dilema: o que fazer? Instalou-se a dúvida se a garrafeira era antiga ou velha. Não se arriscou mais.
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Abriu-se e bebeu-se feliz o Lybra, da Quinta do Monte d’Oiro, um tinto regional Estremadura. Um vinho bem estruturado, vigoroso e seguro, bem tingido e opaco. Descomplicado e acessível.
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Ora – hoje estou numa de «ora» e travessões – o referido amigo é um mago (ficava estranho chamar-lhe fada) da cozinha e levou para a mesa comidinha muito boa. Eu levei pastas de azeitonas cordovil e galega, e cabeça de xara – assim só para chatear a gula do leitor. Ele lançou para a mesa alheiras de caça fabulásticas, grelos salteados e umas cenourinhas cortadas às rodelas e temperadas com azeite, alho e cominhos.
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É por estas e por outras que gosto de jantar com o careca. O tipo cozinha bem e sabe o que servir, além de me dar a conhecer vinhos como o Lybra.

O ramisco do Oriente





















Diz o livro que Colares é uma «pequena e encantadora vila». Não está mal, não senhor. É verdade que não tem os encantos de Sintra, mais acima e cabeça de concelho. Pois não tem, mas não é por isso que Colares deixa de ser simpática e agradável.
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Infelizmente, a vila está esmagada pela estrada, como um rio caudaloso que quebra o ritmo dos passos e desvia a atenção para o movimento das máquinas em vez de a deixar levar pelas copas das casas e das árvores e sua sombra. Infelizmente, mas não se faça um drama com o que não é.
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Para muita gente, Colares é o poiso do eléctrico vermelho que zumbe até à Praia das Maçãs. Talvez para os mais velhos. Talvez para os mais novos. Uma ou duas gerações do meio não terão conhecido o carro, que vem de Sintra por carris, na sua infância. Muita coisa, talvez quase todas, que não acontece na infância não chega a acontecer.
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A Praia das Maçãs, tal como Colares e Sintra, é refresco de Verão. A serra e o mar desmontam os calores, tornando o ar mais respirável. Aquelas bandas são de burguesias e fidalguias doutro tempo.
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Doutro tempo é também o vinho de Colares. Hoje é desconhecido e fora de moda, mas foi em tempos enaltecido pela sua fineza. O tinto faz-se com ramisco, uma casta rara, em pelo menos 80 por cento: um monovarietal ancestral, num país em que o normal são os lotes de vinhos de várias uvas.
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Disse um sábio que o Colares é (era) o mais francês dos vinhos portugueses. Era, porque hoje quase não existe e porque os vinhos portugueses se afrancesaram e internacionalizaram. Há quem diga que a Califónia começou por imitar os Bordéus, que agora imitam os californianos. Consta...
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O vinho de Colares não é bem dali. É natural mais para os lados das Azenhas do Mar. Não importa, chama-se Colares. Perto dessa aldeia marinha, num areal obrigatório, estende-se a maior vinha da região.
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O ramisco é difícil, adstringente e temperamental, precisa de tempo para se beber. Coisa com que a modernidade destina. A passo com o presente faz-se o MJC, marca histórica e ressuscitada pela Fundação Oriente. Uma janela para a gloriosa memória dum dos vinhos favoritos de Eça de Queiroz.
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Malvasia perto do mar
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Lá em casa, o Colares era tinto. Mas na terra donde vem há igualmente branco. A casta é a Malvasia de Colares, com o nome no rótulo não há risco de engano. É dali mesmo. Só mais tarde o descobri.
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Confesso que continuo mais fiel ao tinto, mas o branco tem trunfos muito dignos. Tal como o mano tinto, é um vinho diferente da moda. Não importa, o que é bom é sempre bom. Os clássicos hão-de sobreviver. Assim espero.
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Se uma parte da beldade vem da casta – que pode ser acompanhada por Arinto, Galego Dourado, Fernão Pires, Jampal ou Vidal – outra resulta dos estágio obrigatório de 18 meses em vasilha e seis em garrafa. Assim mesmo manda a lei.
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Na diminuta denominação de Colares – pouco mais de 20 hectares – as uvas brancas são uma franja. Mas compensa provar. Porque a temperatura moderada dá vinhos mais suaves e o solo arenoso faz das suas.
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Enamorei-me pelo outro MJC, que é requintado e aristocrático. Não conheço o prato típico de Colares, mas certamente irá bem com uma bacalhauzada. Aposto nisso.
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O vinho do João
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Conheci o João numa viagem que fiz no Douro. O João a que me refiro é o João Brito e Cunha, um homem novo e cheio de estaleca. Estava ele, na altura, a reger os vinhos dos Lavradores de Feitoria.
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O tempo prossegue o seu caminho e volta e meia encontro-o. Uma vez foi no Porto, mas ele não me viu... também não o chamei, não fosse a minha namorada da altura levar a mal a quebra do nosso momento de deleite sobre o rio Douro.
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Uma certa vez, noutra viagem ao Douro vinhateiro, o João mostrou-me a sua aposta, a grande aposta: a Quinta de São José, uns tantos quilómetros, não muitos, acima do Pinhão. Uma quinta antiga com casas de pedra e com entrada pelo rio. Um mimo; um luxo.
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A paz do vale do Douro deve ter um papel determinante nos vinhos, ou não fosse maternidade de coisinhas tão boas. Importa também não esquecer o mérito de quem transforma as uvas em néctares.
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Na última vez que encontrei o João foi numa mostra de vinhos do Douro. Mostrou-me então a novidade de seu engenho. O Ázeo, um tinto para uso restrito, tal a limitação da nascença; cerca de 6.500 garrafas.O Ázeo de 2005 mostra-se com cor carregada, com alguma austeridade e siso. O vinho promete evolução interessante, pelo que valerá a pena guardar alguns exemplares para saber como foi e como está.

Giraldo sem pavor de ser diferente





















O Alentejo é uma planície… ou antes, uma peneplanície. O Alentejo também tem montanhas... e rios. O Alentejo não é todo igual. Há o alto, o central, o de baixo e o litoral. Antigamente era o celeiro de Portugal, agora é uma das adegas do país. E agora digo eu a gozar: o Alentejo dá-nos também a sombra.
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Aliás, este início é todo a gozar, no sentido de que nada é novidade. Ou será que é? Bem, estas palavras redondas (porque não têm por onde se lhes pegue) têm um sentido, uma lógica e um objectivo.
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Já perdi a conta às vezes que escrevi a palavra Alentejo. E não apenas aqui, mas na vida. Há tantas não sei a quantas ando. Não recordo exactamente, mas talvez já tenha esgotados, as frases, as palavras, as letras, os temas, as abordagens, os objectivos, sei lá!...
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No entanto, desta vez há coisa nova a dizer. E a coisa nova não é totalmente uma novidade: o Alentejo não é todo igual. Não é todo igual nos vinhos. Em primeiro lugar o Alentejo vinícola não cobre toda a região, antes se faz de pequenas denominações... e vão sete (seis e mais o regional). Depois, dá-se a curiosidade do Alentejo litoral ser Terras do Sado, apenas no espaço dos concelhos do distrito de Setúbal... se isto tem lógica?!
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Pois, mas a diferença que quero contar é outra. É mais subtil, menos conhecida. É que há vinhos alentejanos e vinhos alentejanos. Não afirmo que sejam todos iguais, mas há famílias; a dos internacionais, a dos tradicionais, as de perfil ao gosto português moderno, talvez do português pós-moderno... Sei lá!
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Onde quero chegar? Ao sem pavor. Sim, ao Giraldo. Não o cavaleiro conquistador medieval, mas ao vinho. É que é diferente do que habitualmente se faz na maior região portuguesa. É de propósito. É assumido! O Giraldo é um vinho de autor e de lavrador. É feito ao gosto de quem o faz. Talvez seja um hobby que se partilha com os outros. É fino. É subtil. É educado. É interessante e conversador. Provei o de 2001. Ah! É tinto... já me ia esquecendo de dizer.
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Já a pensar no Verão
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O Ribatejo é uma terra orgulhosa. Já terei escrito isto aqui? Definitivamente ando à nora, a idade não perdoa e ainda agora devo estar abaixo da média da esperança de vida (infelizmente continuo sem ser rico).
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Ah, sim! O Ribatejo é uma terra orgulhosa, de gente orgulhosa – seja ela plebeia ou fidalga. Acho bem! Num país de pequeninos, de desculpazinhas, de favorzinhos, de cunhazinhas, de remunguicezinhas e paciênciazinhas acho bem que haja quem seja orgulhoso e ponha o peito para a frente e avance destemidamente.
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A Quinta de Lagoalva de Cima é casa de boa gente, que tem todas as razões para ser orgulhosa dos seus vinhos (e cavalos). Modéstia e orgulho não são sempre antónimos, por vezes são complementares. Garanto que ali há respeito pelos enófilos e imaginação.
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A primeira vez que provei um Talhão 1 julguei ser feito com sauvignon blanc, tal era o aroma e paladar a fruta tropical. Porém não tinha... parecia bruxedo. A casta acabou por entrar no lote numa colheita posterior.
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Agora é Janeiro, tempo tradicionalmente frio, mas que anda primaveril. Pois então, não é só tempo de tintos ou brancos estagiados em madeira. Por que não um fresco e estival branco. Aposto num Talhão 1 já a lembrar Maio e Junho.
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Bem bebido.
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Andava eu atrás dela. Ela fugia-me. Voltava à carga. Ela fugia-me. Insistia. Ela fugia-me. Fiquei parado num sítio e ela, de tanto fugir, deu uma volta completa e dei comigo com ela nos braços, caíu-me ao colo. Que bom!
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Ela era de tinto, nascida em 2005. Passei as passinhas para a apanhar. Por isso soube-me melhor. Muito melhor. Isto sintetisa e e refina a excelência conhecida e reconhecida a esta delícia do Alto Douro, do altíssimo Douro, ali em Foz Coa, onde o rio é tão bonito e a paisagem já diferente.
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Se bem me soube é porque só poderia acontecer. Estava traçado nas minhas linhas do destino, no meu signo e ascentente (por acaso o mesmo), nos búzios, nas chávenas e nas cartas. Por isso, apesar da dificuldade este tinto veio ter comigo.
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Mas meu Deus, o que tive de penar. A bem dizer, tive de meter uma cunha para a conseguir. Lá fiquei a dever mais um favor a quem ma vendeu, e já são tantos. É que este vinho vai-se num instante. Bendito Quinta do Vale Meão (edição de 2005), que alegria dás às gargantas!...

Vinho enamorado





















Cansei-me de ser pobre. Já tinha escrito que ser playboy e pobre era coisa que não liga bem. Uma sina obrada pelo Demo. Pois bem, já que não tenho um Aston Martin, preferencialmente clássico, tenho pelo menos parte dum. O preto fica bem neste elegante inglês e fica também no meu carro, um francês modesto. É isso, o meu carro tem a cor dos mais belos desportivos de Gaydon, no Warwickshire.
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Desde que assumi a minha nova condição de rico farto-me de viajar. Outro dia meti-me no Aston Martin e fui ao Porto. Já não lá ia desde… desde… não sei, talvez há menos de meio ano, o que é tempo suficiente para se ter saudades.
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Confesso que a Torre dos Clérigos não me diz nada e até me desgosta. Não vou ao Porto para a ver nem me embasbaca. Delicio-me na avenida dos Aliados, na Ribeira, cada vez mais charmosa, tanto na margem direita quanto na esquerda, no Solar do Vinho do Porto e na sua vista sobre o Douro, nos jardins e salas de exposições de Serralves, e nos trajectos do Parque da Cidade. Há muito mais, mas não vale a pena tornar a crónica num guia de viagens ou na lista telefónica. Ah! E há, obviamente, o Bull & Bear, que é tão bom que quase sempre tenho azar e quando vou para marcar mesa já a sala está reservada.
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Há uns anos, para aí uns vinte, era complicado ser peão no Porto. Os portuenses andavam a abrir. Agora estão bem mais suaves. O porquê não sei. Não importa. Atravessar, atravessar, é a cidade. Pela orla ribeirinha, do centro até à Foz.
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Na outra banda ficam as caves do Vinho do Porto. Umas são mais bonitas do que outras. Costumo sentar-me na esplanada fronteira à casa Ramos Pinto. Uma alegria de mirada. Dessa de vinhos, de fachada vistosa, nasceu há pouco um tinto fácil, guloso e elegante. Chamaram-lhe Collection e vem do Douro… Pausa para respirar, pensar e recordar.
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Tão bom quanto o néctar é o embrulho: garrafa negra com os dois enamorados quase beijando-se, com a bênção do Cupido, desenhados por René Vincent, a imagem mais forte da casa. Nova pausa para respirar… foi uma bela surpresa e descoberta.
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O africanista
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O meu tio-avô Ernesto fez carreira na Marinha até que se fartou. Preferiu as terras de Angola e Moçambique às donde nasceu, na chamada metrópole. Quando vinha a Lisboa havia longos serões de conversa e saudades.
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O meu tio-avô Ernesto vestia, muitas vezes, um fato de linho, que alinhava com um chapéu claro e arejado. Isto no Verão, porque no Inverno não havia quem o apanhasse por cá. Saído da Armada, tornou-se caçador de animais de grande porte. No apartamento que mantinha em Lisboa, de grandes e muitos quartos, sobravam lembranças e troféus de caça grossa.
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O meu tio-avô Ernesto tomava uma beberagem que eu era demasiado novo para o provar. Um vinho licoroso com quinino.
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Em África, ou nos trópicos em geral, o quinino era tomado para precaver da malária. Sinceramente, não sei se a coisa resultava. Por isso, julgo que o gin tónico deve ter sido inventado para os repousos nas terras próximas do equador. O que tenho a certeza é da criação do vinho quinado para fins terapêuticos.
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O vinho quinado é quase um xarope, feito de Vinho do Porto e quinino. Actualmente só se faz o Ramos Pinto Quinado. Só outro dia o traguei. A revelação não é brilhante, mas vale pelo engraçado da experiência.
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Dois de trunfo
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O rei dos vinhos é português e chama-se Vinho do Porto. Não me venham com a conversa dos Champanhes, porque esses são festivos e alegres, mas o nosso tem um porte de majestade e soberba. Na verdade o francês é a rainha.
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Aliás, tanto o Vinho do Porto como o Champanhe são famílias. Agora apenas interessa o português. Há dois ramos, os tawny e os ruby. Os primeiros estagiam em barricas e os outros evoluem em garrafa.
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Em cada um destes ramos há variações, ou indivíduos. Dos reais Vintage ao simples ruby ou tawny sem indicação de idade. As linhas mais baixas são essas, mas o Vinho do Porto alegra mais, e a preços muito simpáticos, com os special reserve, cujos lotes que os compõem, sempre de vários anos, resultam de colheitas com mais idade.
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O Porto Solene faz-se de dois primos, um tawny e outro ruby, onde a média de idade dos vinhos dos seus lotes se situa entre os cinco e os nove anos. Impressiona já a diferença, mas regala também o olhar: garrafas elegantes, desenhadas de propósito para marca.
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Eu, que sou conservador e moderno, além de playboy, fiquei impressionado… tanto com o conteúdo como com o recipiente. Pode ter-se estilo e dar-se à festa mesmo sem Champanhe ou um vintage. À saúde!

O evangelizador pasmado













Há uns anos, há bastantes, tive uma namorada que teimava que não gostava de vinho. Bem tentava agradar-lhe, escolhendo sempre com cuidado e diferenciado para acertar-lhe no gosto. Nada feito. A miúda jurava que jamais iria apreciar. Eu desesperava, descrente que alguém pudesse ter tal vontade.
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Esta rapariga é o que se pode chamar do amor da minha vida. Não porque agora suspire por ela, mas porque foi a primeira com quem desejei casar e fiz todas as descobertas e dei os grandes passos da minha vida adulta. Foi uma relação impossível de esquecer.
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Nessa altura eu morava numa casinha simpática com duas nesgas de Tejo a entrarem-me pelas portas da minúscula varanda de paredes inclinadas, a ameaçar tornar-se numa água-furtada.
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A casa não era grande coisa, mas eu gostava dela e, talvez mais, da luta pela sobrevivência: eram tantas as despesas e o dinheiro tão pouco. Embora os pais ajudassem, aquela luta era minha. Lá fiz muitas descobertas, até de vinho.
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Um dia num jantar, não me recordo bem se foi nesse meu pequeno palácio ou se num restaurante intimista, que consegui dobrar a vontade da namorada. Escolhi pelo lado direito, como fazia sempre nessa altura, e mandei vir um vinho honesto e sem manias de grandeza. Foi um Pasmados, vinho regional das Terras do Sado. É fácil e insinua-se, mas mais do que tudo representou uma vitória
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A namorada, hoje distante amiga, tomou o gosto ao Pasmados e durante uns tempos foi o vinho ritual, sempre que havia um jantar lá se bebia este tinto. É claro que, com o tempo, não ficámos cristalizados, todavia foi um marco: passei a ter companhia animada, sentia-me, e sinto-me, um evangelizador.
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Foi em Setembro que tudo acabou. Um dia a relação minguou e foi-se. Parece que tudo na vida chega ao fim. Ainda que não se queira, os grandes amores, mesmo pretéritos, regressam de tempos a tempos, sobretudo nas datas grandes. Foi em Setembro que escrevi esta crónica e, é claro, lembrei-me do Pasmados.
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Piu-piu.
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Periquita não é bem uma piriquita. Não, não se trata dum erro ortográfico. Os piriquitos são passarinhos cantadores e Periquita é nome de vinho. Bem sei que Periquita é grafia antiga para designar as pequenas aves, mas hoje uma e outra coisa são diferentes.
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O termo Periquita aliado ao vinho vem do século XIX, da Quinta da Periquita, em Azeitão, onde José Maria da Fonseca se estabeleceu como lavrador. Hoje é uma plantação de edifícios. É o que consta, pelo menos.
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A fama dos vinhos da Periquita ganharam reputação e a casta castelão, para ali levada pelo senhor Fonseca, tomou o nome da quinta, termo adoptado em muito do Sul do país. Mas o Periquita que hoje vem para ser lido é branco, aproveitamento comercial do irmão. E qual é o mal? Nenhum.
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O Periquita Branco é um vinho se pretensões, uma escolha para o dia-a-dia. Mesmo para estes que fazem paredes meias com o Verão, até porque os dias ainda andam quentes e porque não há lei nenhuma que proíba beber brancos no Outono ou mesmo no Inverno.
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Ouro verde
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Outro dia perguntei-me por que nunca tinha escrito sobre azeite. Na verdade, não há qualquer razão para não o fazer. O vinho ainda não me cansa, mas o óleo da azeitona também merece umas linhas e umas palavrinhas.
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Por cá, o vinho é, sobretudo, bebido às refeições. Os bons vinhos casam-se bem com a boa comida e fazem uma festa à mesa. Se não há boa gastronomia sem bons ingredientes, deve-se atender à escolha e não negligenciar qualquer produto. Por tudo isto, vem o azeite à baila.
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Em Vila Velha de Ródão há uma quinta, a Tapada da Tojeira, onde se situa também um centro de artes – dança, plásticas e educação. Com idêntico cuidado estético e atenção aos gestos se fazem azeite e pastas de azeitonas galega (preta) e cordovil (castanho esverdeado).
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A produção é toda biológica. As oliveiras não são tratadas com produtos químicos de síntese. Dizem os entendidos que são melhores os bens alimentares assim criados. Eu acredito, porque sinto lógica. Mas só isso não garante a qualidade final, pelo que o esmagamento dos frutos é feito a frio, para que melhor se conservem os aromas e os paladares. É provar os três alimentos, numa refeição com calmas e apetites.

Canção elegante

Ao certo ninguém pode afirmar conhecer um vinho dos séculos XV ou XVI. Na verdade pode sonhar-se ou intuir-se, mas não conhecer. Ainda que houvesse alguma garrafa ou outro vaso estaria já falecido: o vinho é coisa viva.
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Mais próximo da verdade está o conhecimento acerca da música antiga anterior ao Barroco. Só não será completamente porque o sistema de notação não era tão completo quanto o moderno. Nos séculos das grandes descobertas portuguesas floresciam, musicalmente, o madrigais. Este género profano versava diversos temas, especialmente heróicos e bucólicos.
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Se eu soubesse cantar, pudesse expressar essa arte e transmiti-la ou conhecesse poderia aqui deixar um madrigal. Para que serviria aqui um madrigal? Para animar o leitor, porque é ainda Verão (não é humor sarcástico nesta época tão esdrúxula) e o apetite presta-se a festejos finos, porque o humor melhora não apenas com vinhos de piscina.
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Porém, não sou dotado de voz, nem em potência nem acerto, ou sabedoria musical para aqui começar em delírios. Graças a Deus, a imprensa não se presta a cantorias. Assim, não sai nenhum leitor com as orelhas danificadas pelas minhas agressões vocais.
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Hoje os madrigais estão fora de moda, o que não quer dizer que não sejam belos e agradáveis de se ouvir. Refiro-me apenas ao abandono do género pelos compositores contemporâneos. Agora, madrigal tem um sentido diferente.
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O Madrigal é um vinho, de seu nome completo Quinta do Monte d’Oiro Madrigal. O tema aprimorado desta vez é a edição de 2006, que continua na bela senda. Felizmente há tradições. Este é um branco Regional Estremadura feito com uvas da casta viognier.
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Que tal é ele? Floral e fresco, com muitas frutas a descobrir. Diz o produtor que vai bem com pratos perfumados e alegres, sejam eles de peixe, sejam de carne. O dito escolta aprimoradamente molhos cremosos e legumes. Não contrario a opinião do vitivinicultor. Abano a cabeça na vertical, dando assim o meu consentimento a tais palavras. Espargos são uma das sugestões… pelo que vou nessa dos ovos mexidos com espargos verdes a casarem-se com o Quinta do Monte d’Oiro 2006. Haja saúde!
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Rosa de seu nome.
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Neste momento preciso vou fingir que sei latim: rosa, rosa, rosam / rosae, rosae, rosa / rosae, rosae, rosas / rosarum, rosis, rosis. Pronto! Já disse! Já aliviei a minha fúria intelectual e esclarecida. Sou um homem realizado. Sou um homem feliz.
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É Verão e apetecem os rosés. Não há nada a fazer! Os rosés são uma necessidade, não se pode viver sem eles por esta época. Os pés enterradinhos na areia, o mar azul pela frente, umas sardinhas assadas, um marisco guloso, carnes brancas… festins sublimes! Não há nada muito mais para fazer por esta altura.
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A ideia é essa. Mas para ser mais preciso na sugestão digo ao que vou e onde gosto de ir: Rosé da Peceguina 2006. Um rosado Regional Alentejano obtido a partir de uvas de touriga nacional e de aragonês… castas da moda, portanto. E que mal tem isso? Nenhum, até porque o resultado é feliz.
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No nariz é fresco e frutado. Na boca tem elegância, frescura e alguma doçura. Que se quer mais? Só se for cotações em alta na venda e em baixa na compra, mas isso são assuntos para tratar noutro departamento.
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O tinto da vaquinha.
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Muuuu! Faz a vaca. Pelo menos é o que consta. Digo consta, porque não sei propriamente escrever vacum e a minha experiência rural pode ser assídua, mas não é permanente. Ou seja, quando digo que a vaca faz muuuu não sei bem o que digo nem o que quero dizer. Aliás, não acredito que ninguém saiba. Desafio alguém a provar-me que consegue dialogar com bovinos. Para mim a língua de vaca é no prato, mas não aprecio.
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A vaca é um animal simpático e enternecedor. Não será por acaso que na escola primária se fazem ou faziam redacções com o tema da vaca… ela dá-nos o leite, a carne, a pele e, provavelmente, mais coisas que não sei ou não me ocorre.
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Pois uma bonita vaquinha, de ar simpático, vive nos rótulos do vinho Malhadinha. O desenho foi feito por um dos filhos do casal que dirige a Herdade da Malhadinha Nova, em Albernoa, no Baixo Alentejo.O Malhadinha 2005 é um vinho tinto Regional Alentejano, proveniente duma parcela de 18 hectares, obtido a partir dum lote formado pelas castas alicante bouschet, aragonês, cabernet sauvignon, sirah e touriga nacional. Ao nariz vêm aromas de flores e de frutos vermelhos. É um vinho bem estruturado e elegante. Para a mesa tanto pode ir com cozinhados típicos alentejanos como com sofisticadas e modernas criações.

A chegada do pintor

No outro dia encomendaram-me um quadro, uma peça de arte sacra. Queriam uma inspiração do maravilhoso e o mistério do Oriente. Não pensei muito e talvez tenha sido óbvio: recorri à memória e aos apontamentos da iconografia bizantina. E lá pintei o quadro.
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Pintei o quadro o melhor que sei. Depois sentei-me a pensar no que poderia ter sido se não fosse pintor – pintor por vocação, mas não por opção, porque a vida encarregou-se de me dar outra vida que não essa. Antes de aí chegar deambulei pelas galerias dos museus que conheço. Descobri que gosto mais dos pré-rafaelitas do que pensava, quase tanto quanto de Rembrandt ou Rubens. Pensei mais e saciei os minutos a brindar a obra de José Pedro Croft. Até conclui que afinal, bem pensadas as coisas, aprecio os quadros de Pedro Calapez... há coisas que só o tempo e a experiência permitem apreciar!...
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Matutava, alheio ao ruído do bairro e da proximidade do rio, quando fiz a pergunta duma vida: o que seria eu se não fosse pintor? Fez-se silêncio dentro da minha cabeça e no coração houve uma névoa de angústia. Fiz a segunda pergunta duma vida: o que tenho eu de fazer para ser pintor?
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As uvas conhecem o pintor por alturas de meados de Agosto. Não se pode dizer ao certo quando chega o pintor, mas lembro-me sempre que era Agosto quando presenciei o tingir das uvas tintas. Também nisso pensei nessa tarde de descobertas e questões íntimas de vital importância. Descansei o viver nos prazeres da natureza e no impressionismo da vida.
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No passear sem rumo perguntei-me se no Douro o pintor chega no mesmo tempo que no Alentejo. Continuo sem saber, mas sei que na bela Quinta de Erva Moira faz calor de Inferno e as vindimas começam no oitavo mês do ano. Por ali, o pintor chega mais cedo.
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Foi essa quinta um dos berços do vinho que bebi nessa tarde. Um berço, porque teve outro, a Quinta dos Bons Ares, vinte quilómetros mais acima, mais próxima da terra de gentes.
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Nesse fim de tarde jantei na varanda um rosbife e deliciei-me com o Duas Quintas Reserva 2003, que é vinho de vermelho bem forte. É macio e aveludado, com muita classe.
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Abraço do Norte e do Sul
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Portugal não é um país grande, mas é comprido. De cima a baixo, na faixa não muito larga do seu território, cabem várias gentes, com suas canções, comeres e beberes. Bem se sabe que hoje as distâncias minguaram nas horas e a vida moderna esbate as diferenças.
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E então? Não é por isso que Portugal se torna menos largo ou menos comprido nos seus bairrismos e profundidades.
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No corpo do país dão-se abraços. Os gaspachos (porque há vários) do Alentejo e Algarve sublimam-se quando acompanhados por Vinho Verde. Para acompanhar o Vinhas Altas 2006 fica uma receita: dois tomates, uma cebola, um dente d’alho, meio pepino, meio pimento, orégãos a gosto, um fio de azeite de Moura e um forte salpico de vinagre... e, claro, uma pitada de sal. Os vegetais são migados – não passados, que isso é uma modernice espanholada – em bocados pequeninos. Depois juntam-se os temperos e dois de água fresca. Está feito!
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Quanto ao vinho: é frutado e cítrico, tal como a sua cor. Nele há ainda outros frutos frescos, dados pela ligação das castas arinto, loureiro e trajadura. Por ser levemente frisante, a frescura é maior. Já que este Verão não quer vir até nós, que vamos nós até ele.
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Verde, que te quero Minho
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No Entre-Douro-e-Minho não se faz apenas Vinho Verde. Ah, pois não! Porém, por ali tudo é verde: até o caldo é verde. Só o chão é quase sempre, teimosamente, de granito. Por mim, tudo bem, não me impressiona a cor dos rochedos.
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O que pinta o contentamento são os salpicos de eiras, as latadas, o casario espalhado por milhões de aldeolas e o falar das pessoas. Há ainda o vinho. Há sempre o vinho. Esqueçam-se os rojões, porque, apesar do Verão andar fugidio, esta não é época para comezainas tão pesadas e quentes.
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O que importa agora são pratos de peixe e marisco ou, então, de carnes brancas e magras. Os verdes, como o Minho, são frescos como os rios daquela província e recomendáveis como as paisagens do Noroeste.
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Mas comecei por dizer que não há só Vinho Verde. Há também os regionais Minho. Um deles é o Vinhas Altas Reserva 2006. Este estagiou em barricas de carvalho allier, o que lhe molda o gosto e a frescura. É frutado, com maçã e pomagem tropical.
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Embora diferente do típico, vai bem com as comidas recomendáveis para o estio. Depois disto tudo há os mergulhos na praia e as promessas de repouso no final dum dia de Sol.

De Lisboa a Paris pelo Douro





















Outro dia perdi-me. Cansado de perder os passos por Lisboa e de me distrair pelas terras de Portugal… e sem tempo nem dinheiro para ir para as Maldivas ou para as Seychelles, ou mesmo sem pachorra para apanhar um avião duma qualquer companhia de baixo custo ou de luxo extraordinário para a Europa ou Nova Iorque… descobri um modo de viajar muito económico e prático.
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Depois do aborrecimento do dia-a-dia, não há como chegar a casa e ter um belo jantar a começar a aromatizar o ar. As janelas abertas sobre o Tejo e convidam a escolher um vinho depois de indagar o que se vai manjar. Desta vez é borrego em crosta mediterrânica. Está decidido que vai um Quinta do Infantado 2004, um Douro precisado de bom tempo de respiração.
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Que tal pareceu o vinho? Muito equilibrado. Nele estava fruta vermelha madura e algumas notas de madeira. Notava-se ainda frescura e encanto. Um vinho concentrado e, ao mesmo tempo, leve, com bom final.
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Mas com isto tudo ainda nem contei como encontrei a forma ideal de viajar para os dias cansados. Nesse dia, instalei-me na chaise-longue na varanda em frente ao Tejo com uma mantinha nas pernas e sobre elas o computador portátil, Ao lado ficou uma mesinha ao lado onde pousei o bendito do Quinta do Infantado 2004 e mais o copo.
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Accionei a imaginação e o Goggle Earth e fui visitar Paris, uma das cidades ideais para saborear um vinho.
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Nas primeiras vistas, é um bocadinho complicada a orientação na cidade, mas depois de se localizar a Torre Eifel tudo se torna mais simples; as ruas começam a fazer sentido, as lembranças vêm ao de cima e o vinho faz algum efeito. Visto de cima é muito mais rápido chegar do monumento férreo até ao Arco do Triunfo do que a pé. Porém, a avenida Foch perde encanto e os Campos Elísios em versão digital não têm qualquer graça.
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Na verdade não me perdi em Paris. Perdi-me foi de amores pela vista do Tejo, pelo vinho e palas memórias da cidade-luz.
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No dia da última manhã fria
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As manhãs de princípio de Junho são as primeiras que não têm frieza. Não sou friorento, mas complico com a temperatura das manhãs. Esta implicância de ter a ver, provavelmente, com o facto de não gostar de me levantar cedo. No entanto, as manhãs de princípios de Junho são diferentes. Ainda não são absoluto calor e já não têm frio para aborrecer os mortais.
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No dia da última manhã fria deste ano acabei por ter uma surpresa agradável. Não quero dizer com isto que todas as manhãs frias me façam os dias correr mal. Não. Não é isso. O que quero dizer é que foi a última manhã fria da Primavera e nessa noite bebi um vinho que me deu um prazer valente. Foi uma coincidência marcante. Ou talvez não tivesse sido coincidência de todo.
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Foi um Quinta de Pancas Reserva Especial 2003: vinho escuro e vaidoso nos aromas, com notas de fruta, vegetais e minério. Na boca notavam-se a madeira e a fruta.
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Além do frio que se vai em começos de Junho, chega por essa altura uma nova claridade ao céu pela manhã. A luz perdura, depois, até mais tarde e há um odor que só Junho pode ter. Junho é um mês prodigioso.
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De volta à juventude
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A juventude é um tempo de beleza. Por mim tinha sempre 16 anos e não me preocupava com nada. Se pudesse parava o tempo e ficava para sempre no Verão e na praia. Por mim tudo era bicicletas, ondas, livros e artes plásticas. Havia ainda tempo para amigos, namoradas e risotas. Tudo o mais era desnecessário.
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O problema é que aos 16 anos não se sabe nem se conhece muita coisa, nem se pode ainda apreciar coisa que só o tempo permite. O vinho é uma dessas coisas. Arrisco a dizer que ninguém nessa idade o aprecia. Os néctares precisam de sabedoria e experiência. Além do mais quem não bebeu chá em pequenino não pode, na idade adulta, dissertar sobre o vinho. E aos 16 anos é ainda tempo de se tomar muito chá.
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Porém vinho e juventude não são incompatíveis. Há vinhos que são para se beberem novos, e é em novos que têm o seu encanto. Assim é o Paço do Conde 2004, um Regional Alentejano de fruta gulosa e fácil de agradar.
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Ai se eu pudesse ter outra vez 16 anos!... O que eu não faria!... Ter novamente essa idade e saber o que sei hoje… isso é que era!

Do Alentejo e do Douro

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Tenho uma teima com um amigo que termina sempre em galhofa. Conheço-o vai para 20 anos e é sempre a mesma coisa. Quando nos conhecemos a teima era a fotografia, os ângulos, o obturador, o diafragma e as exposições. Mais tarde passou a ser a política. Agora é o vinho.
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Para falar verdade, nós nunca estamos nem estivemos de desacordo. Gostamos mesmo é de discutir. Uma das teimas recorrentes é sobre os perfis dos vinhos do Douro e do Alentejo, sendo que as preferências vão variando de modo a contradizer o outro. Na última discussão estranhamente estivemos de acordo. Gostamos do mesmo vinho e não entendemos a «perseguição» da lei ao chamado vinho de mesa.
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Ora, chegando aqui é preciso dar um salto e explicar seriamente uma coisa:
Há uma certa mania, nos países antigos, de que o vinho como deve de ser provém duma região determinada. Isto, no passado já distante, traduzia uma certa garantia de qualidade e é válido não apenas para o vinho, mas também para outros produtos alimentares. Nos novos países produtores o fascínio começou por vir das castas. Uns anos depois da instalação e depois do embate, os países do Velho Mundo repararam nas castas e os do Novo Mundo demarcaram regiões. Contudo, há um mistério: o vinho de mesa.
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O vinho de mesa é, regra geral, o mais rasca que há. Este tipo de vinho não tem direito a ostentar proveniência das uvas nem o ano da safra. Não tem direito a quase nada. Porém, há quem o faça com muito brio e empenho. Aliás, isto acontece não apenas em Portugal.
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O vinho que aqui trago é um desses casos. Chama-se Uvas Castas ALDO 04 e o rótulo não pode explicitar o que vou adiantar a seguir. Este vinho faz-se com uvas do Douro e do Alentejo e a colheita é referente ao ano de 2004. Já se percebe que para bom entendedor uma cifra basta... o AL indica uma proveniência, o DO aponta outra e o zero-quatro esclarece o ano. Quando a lei está ultrapassada ou é tonta...
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Quanto ao Uvas Castas na boca... O resultado é um vinho curioso, complexo, com personalidade e elegância.
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Voltando às discussões com o meu amigo, não acredito que este vinho tenha o poder de acabar com elas. Assim espero. Tal como não irá solucionar as que opõem os apreciadores dos vinhos do Alentejo e os do Douro... mas talvez dê uma trégua.
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Memória fotográfica
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Só outro dia descobri que a minha casa tem uma particularidade… e já cá moro vai fazer nove anos. Na verdade, a particularidade não está na físionomia do imóvel, mas no seu recheio e, aí, o facto curioso é ainda mais insólito, pois o prazo dilata. A que me refiro? Um momento! Foi preciso alguém ter chegado e exclamado pasmado para, finalmente, entrar pelos meus olhos a dentro a mais completa evidência. A que me refiro? Explico finalmente:
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Fotografias. Não tenho fotografias da parentela. Nem da mãe nem do pai nem dos avós nem dos manos nem do cão nem do gato nem do piriquito nem do défice. Ninguém, e nunca tinha dado por nada ou pela ausência.
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A memória basta-me para lembrar-me de quem gosto e tenho mecanismos de obliteração da banalidade. Recordo os perigos e os sinistros, os dissabores envergonham-me ainda, as lições importantes existem e não preciso de fotografias.
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Hoje lembrei-me dum vinho que provei uma só vez. E uma só vez encantou-me. Terei de o repetir se voltar a apanhar uma das mil garrafas irmãs. Chama-se Casa de Mouraz Tinto 2004 Private Selection e vem do Dão, feito com uvas provenientes de agricultura biológica. Tem boa complexidade, feita de frutos silvestres, minério, chocolate e fumo. Para que se visualize o que digo, deixo a fotografia da garrafa.
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Consolo na Fronha
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É pela almofada que entro pelos sonhos dentro. No dia em que me confrontaram com a ausência de retratos fotográficos em casa, abracei-me ao objecto confessor em busca de consolo e esperei adormecer. Diz-se que o travesseiro é um bom conselheiro. Em vão!
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No dia seguinte acordei tão incomodado quanto estava na véspera, questionando-me:
- Será que não amo a minha família?
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Levei dias a digerir a ausência de retratos da família pela casa. Pensei em encomendar milhares de ampliações de todos os parentes, claro que pensei. Porém, a solução pareceu-me tão forçada quanto inestética.
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Foi, então, que procurei conselho numa loja da especialidade. Não numa loja de almofadas, mas na garrafeira que me costuma abastecer a casa, saciar a sede e reprimir a ansiedade. O conselho foi para um tinto do Dão acessível e bem disposto: Porta Fronha 2005.
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O nome deste vinho é inspirado nas portas do gado nas casas agrícolas da região do Dão. Com um nome tradicional, as castas são, elas também, de tradição: touriga nacional e tinta roriz. É um vinho com bom vigor e onde se nota bem a fruta.
Depois de consolado perdi a memória ao meu problema de não ter fotografias dos parentes em casa. Pode ser que um dia a casa se transforme num museu: a casa do homem sem parentes nas paredes.