digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

quarta-feira, abril 27, 2022

A culpa é do México


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Basicamente, a culpa da Guerra Russo-Ucraniana é do México. Ou doutro país qualquer que seja berço de malaguetas. Explico:

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Vlodimir Zelensky passou mal a noite, com pesadelos e dores de barriga. Ao jantar abusara da «galinha à Kiev» e entusiasmou-se, incauto, com o Paladin Sacana, que a sua prima Irina, que vive em Lisboa, lhe levara na véspera. Acordou incomodado e exausto, e pensou:

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– Apetece–me partir a porcaria deste país e dar cabo desta gente toda.

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Pensou, pensou e pensou e teve uma revelação:

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– Vou distribuir armas pelos civis, incluindo velhos e adolescentes… aliás, e crianças.

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Zelensky pediu a opinião aos psicopatas do governo, aos sociopatas das autoridades regionais e aos celerados dos autarcas. Todos, sem pestanejar aprovaram alegremente, batendo palmas e dando vivas e hurras.

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Porém, o presidente ucraniano não tinha um pretexto. Isto de partir tudo e pôr toda a gente a matar–se tem de ter, para melhorar a estória, um vilão. Mas, já agora, um vilão amigo. Agarrou no telefone e marcou um número.

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– Estou sim?

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– Oh Putin, tás bom?

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– Bons ouvidos te oiçam, Zelensky. Que me contas?

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– Estou a pensar partir o meu país e pôr esta malta toda a matar–se toda uma a outra. Pensei que me podes dar uma ajuda.

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– Estou a ouvir–te. Explica isso melhor. Bem sabes que estou sempre pronto a ajudar–te, amigo. Do que precisas?

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– Preciso que invadas a Ucrânia. Entras por aqui a dentro aos tiros e a partir tudo. Depois mando os civis, incluindo velhos e crianças, matarem–se uns aos outros. Bombardeio teatros, escolas, museus, hospitais… e digo que foste tu. O teatro talvez não, afinal sou um palhaço. Que se lixe! Bombardeio também os teatros.

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– Oh pá… mas isso é guerra. Não me apetece nada começar uma guerra. Já viste o que o mundo vai pensar de mim?...

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– Não te preocupes, já pensei como te vais safar. Dizes que é uma operação especial. Falas no Donbass e que vens resgatar os russos, porque os odiamos e tratamos mal.

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– Boa!... Depois acuso–te de teres tropas nazis. Tropas e mais uma data de nazis à paisana… e digo que vou desnazificar a Ucrânia. A propósito, tenho andado com crises de nostalgia da URSS… fui tão feliz no KGB!... Bons tempos!

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– Opá… sou judeu. A minha família foi vítima dos nazis. Não pode ser.

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– Ninguém vai querer saber disso.

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– Mas isso vai ficar na história… é melhor não.

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– Confia em mim. Esquece lá isso da história. Tudo passa. Achas que alguém se lembra do holomodor? Achas que alguém sabe do Pacto Molotov–Ribbentrop? É como dizíamos quando éramos miúdos: «caga, isso não sai no teste».

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– Achas?!

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– Acho, não. Tenho a certeza.

– Se tu o dizes… Olha, pensando bem, isso dos nazis é uma belíssima ideia. Tu acusas–nos e nós dizemos que até temos para a troca. Tu dizes do Batalhão Azov e eu falo no Grupo Wagner.

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– Epá, não te desbronques… tu bem sabes que sim, mas... nem digas nada que estiveram na anexação da Crimeia. Não toques nesse assunto. Peço–te.

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– Dizes que não sabes de nada. Mas tenho de dizer umas larachas… para dar crédito. Temos de manter as aparências.

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– Combinado. Sim, mas não te estiques com essa cena do Grupo Wagner.

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– Olha lá… e se fosse a Ucrânia a invadir a Rússia?

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– Não. O plano é bom. Mais vale não mexer. Sabes que podes contar comigo. Quando queres?

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– Vem no dia 24. A malta ainda não recebeu os ordenados. Poupo esse dinheiro para comprar armas para estes gajos se matarem todos… e ainda fico a rir, sou tão mauzinho...

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– A que horas me queres aí?

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– Vem cedo, pela noite ou de madrugada. Os gajos são apanhados ainda com sono. Assim ainda podes tomar o pequeno–almoço connosco.

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– Durante a noite não dá. Ainda vou ter de meter gasolina. Estes carrinhos bebem que se fartam, tu nem sabes. Vou pela manhã, é melhor. Ligo–te quando estiver a chegar. Mas à hora de almoço já aí estou de certezinha.

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– Não te esqueças de fazer o cartão frota. Poupas uns cobres.

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– Mas, almoçamos?

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– Não. Se viesses mais cedo ainda dava, mas a essa hora iria dar uma grande bandeira.

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– Bem, estamos combinados. Manda um beijinho meu à Olena.

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– Ela está aqui comigo e também está mandar–te um beijinho, e outro para Ludmila.

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– Tchau.

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– Tchau.


quinta-feira, outubro 28, 2021

Lanço ao mundo «A esperança é mesmo o farol»

 


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No fim vou abrir as portadas, revelando a luz que me ofereceram, amigos e familiares, obviamente amigos, porque o sangue só importa na bondade e amizade. Para já dedico-me ao corridinho das notícias e das explicações.

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Escrevo este texto hoje, terça-feira, porque sei que não conseguirei fazê-lo amanhã e, muito menos, na quinta-feira. Estou a pouco mais de quarenta e oito horas do foguetão estalar a minha barreira do som.

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Este vinte e oito de Outubro será um dos dias mais intensos da minha vida. Assim, à primeira vista – a pouca distância temporal – será tão pleno de inquietude quanto o do meu casamento.

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É mentira, mais do que um engano. A felicidade da melhoria da saúde esquece-me do horror e do terror que passei.

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Se nesse dia ri, agora irei certamente chorar.

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Esta ansiedade é boa.

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É bom sentir a distância de negrum. Ainda angustiante por a saber frágil.

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Parecendo a desastrada letra – não que atinge o grau de mau poema – dum fado de espetar facas nas pedras, não há como as deixar sair, não vejo alternativa:

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Hoje sou feliz quando estou triste. Uma felicidade que vem do mundo que não acaba. A depressão alimenta-se sozinha, sem ajuda. Porém, quando se lhe acrescenta uma contrariedade aceita-a com terrível amizade.

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Esperança? Sim, a esperança de ter esperança – como continuando a má escrita, desse fado, já avisada. O suicida não foge da vida, foge da dor – não sei quem o disse, mas é verdade. Não queria morrer, queria viver e tinha essa esperança de esperança. Noutros dias, vivendo no negrum quase pleno – se o fosse não escreveria este texto –, não queria morrer, queria desexistir.

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Facilitando, a depressão é um bicho. Existe em mim – sou também – e desloca-se. Cria-se, aumenta-se, devora e toma conta de tudo. É um órgão, fígado-estômago-pulmões-coração-cérebro. Que dor quando se levanta e se move… morde até ao querer, ao crer, à existência e chega à alma.

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Agora, melhor em notícias, explicações e contentamento:

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Pelos dias que têm vindo de dois mil e dezoito, uma das principais razões para a escritura do livro, centro-me na visão da ansiedade feliz, porque me faz feliz.

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Sei que sobreviverei ao dia em que vou enfrentar a multidão – estejam dezenas, centenas, milhares ou uma só pessoa na assistência. Será um alívio. Prevejo uma impaciência de dádiva e sofreguidão, e água saindo-me dos olhos, numa confusão de bem e mal e de nudez sem pudor.

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Na busca de exemplos antigos, tentando localizar alguma(s) fonte(s), tristemente descobri uma depressão muito precoce. Sabendo dalguns poemas intensos da juventude, procurei nas folhas que zelosamente guardo. Tristemente alcancei a ignorância dos dias adolescentes. Cheguei aos meus treze anos e parei. Desisti, por prudência, de coscuvilhar. Talvez nem importe saber se foi aos treze ou aos dez ou aos oito anos ou a qualquer data infantil. Essa qualquer data é demasiadamente poderosa para que a queira desafiar. Pousei os cadernos.

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É doloroso identificar uma pessoa que se adora como o mau-da-fita. Recupero algum fôlego quando relembro que sou a vítima.

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Este testemunho não é vingança – coisa estúpida seja pelo que for – nem sequer ajuste de contas. Somos plurais, imperfeitos e, em doses diferenciadas, egoístas e egocêntricos – mais condescendentes connosco do que tolerantes com os outros. O meu pai – verdadeiramente ignorando o mal que me causava – deu-me uma nascente de lágrimas.

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Se magoei o meu pai? Claro, assumo-o com vergonha e alívio por o reconhecer. Porém, este livro não é sobre os meus pecados, mas o do meu sofrer. Espero que não aconteça, mas se vier a suceder será outra pessoa a clarificar os danos que causei, gero e infligirei – espero não errar o suficiente para oferecer tristeza tão funda quanto a minha.

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Esperando não acontecer, tenho de estar preparado para isso. Serei resignado no que conseguir. Contudo, são contas que farão por mim.

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Depois ainda o decisivo empurrão, tiro invisível duma pistola escondida, dum merdinhas que crédulo tive como amigo. Dos antigos e pelos dias que se passam, não acredito na maldade escondida numa mentira. Nem na crueldade duma partida sem adeus. Sem uma palavra verdadeira, sem dizer nada. Vivo nessa ignorância, mas não importa.

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Presentemente, diante de mim estarão os que me têm salvado a vida, sofrendo pelos meus pedidos de ajuda e cuidando, eles mesmos, uns dos outros. Nem todos poderão aparecer na cerimónia, isso não importa, porque o que me auxiliaram – espero que não tenham de o fazer novamente – é tão maior do que parte duma tarde importante.

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Importantes são os dias anónimos.

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Não aceito este texto como autoajuda, independentemente das prateleiras das livrarias onde o coloquem. Não mostro magias, de promessas de alívio e de cura – ilusões perigosas. Não sou profissional que possa tratar o íntimo dos outros. Aconselho, padecentes e seus benqueridos amigos, somente procurar especialistas.

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Porém, se puder ajudar alguém – até mesmo uma só pessoa, ainda que não a conheça ou venha a conhecer – dá-me felicidade. Com a imodéstia da minha modéstia, ou vice-versa ou igualmente, sei que irá acontecer.

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Negrum – vocábulo que decidi criar – é o mais negro dos negrumes. Seja um buraco negro do universo, sorvente do ânimo e da luz, arrastando quem apenas quis generosamente auxiliar.

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Eu não disse «A esperança é mesmo o farol». Foi o meu editor, Francisco Camacho, que o descobriu quando leu as minhas palavras. Quando mo colocou diante dos olhos disse, quando os meus olhos o leram, soube que era o acertado.

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A facção do alinhamento técnico – a estrutura, a sistematização ou onde pôr a vírgula – foi muitíssimo fácil, ainda que a equipa da Leya me tenha sugerido modificações e colocado tópicos a abordar. O problema foi o mexer na intimidade.

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O Francisco Camacho e o seu colega Sebastião Veloso estiveram sempre à distância dum email ou dum telefonema. Concederam-me compreensão por alguma irritabilidade , o que foi vital num texto tão emocionalmente exigente.

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Ambos foram importantes na escrita deste texto de, sensivelmente, duzentas páginas – fica este úmero impreciso, pois não sei o nome do estilo de letra, da sua dimensão e espaçamento que tremendamente ditam a soma final das laudas e doutras partituras. Os dois lançaram desafios, corrigiram-me a mira, mostraram-me onde podia acrescentar.

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Ajudaram-me a escrever. «A esperança é mesmo o farol» não é um trabalho de grupo, mas seria (muito) certamente fraco sem as suas intervenções.

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Serei injusto se não referir o trabalho do revisor, Eurico Monchique, com quem me zanguei e divergi muitas vezes. Se houver enganos de português a responsabilidade será minha, porque assim o exigi. Não é retórica, porque fui exigente e frequentemente distante.

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Os revisores «servem» também para levar pancada dos autores. Assim aconteceu, porque tem de acontecer, pela autoridade, autoritarismo, ganância linguística, pensamento mágico do escritor.

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Espero que os meus golpes não tenham sido nefastos – talvez me esteja a conceder uma importância errónea –, não o tenham magoado. Se o coloco elogiado é porque lhe notei um respeito muito grande e empenhado na revisão destas duzentas páginas.

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Quando se afirma que os amigos são para as ocasiões difíceis não se está longe da verdade. Lembro ainda, e sublinho, que temos sobretudo conhecidos, que tantas vezes estão confundidos com amigos.

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Reconhecendo, afirmo, sem qualquer mentira, que sou um felizardo. Aqueles que cria serem amigos revelaram-se amigos. Alguns precaveram-se, compreensivelmente, da toxicidade que emanei, ainda assim não me abandonaram. Mais ainda: não só ninguém desertou, como apareceram pessoas, de quem não esperava nada, mostrando-me solidariedade e amizade. Numa só palavra: caridade – no melhor o significado. Tenho mais amigos do que julgava ter.

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Isto que acabei de letrar não é bem uma verdade, porque houve quem partisse de mim. Não foram pessoas a quem eu quisesse mal ou me quisessem mal. Foram namoradas – relações breves por minha responsabilidade. Findos esses envolvimentos naturalmente abalaram, não faz sentido, na maioria dos casos, permanecer numa proximidade, mesmo se o parceiro não gere veneno. Não é a mesma coisa que a deserção de cridas amizades.

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Precedendo a galáxia – sem disparate de comicidade de mau-gosto – devo a minha vida também às gatas Granita, Lioz, Paraquedas (sem hífen) e Valsa e aos cães Bobi (sem acento), Chuqui, Manga e Mel. Vidas são vidas e os animais não são brinquedos, têm-nos afecto e concedem-nos momentos doces e divertidos.

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Agora, sim, em delírio (tentado) cómico: o Serzinho Irritante, o Chico-Manel… o meu tão querido filho. Por felicidade, não sabe o que é o meu tormento, embora tenha pressentido o meu amargor e ouvido falar em depressão. É a pessoa que mais gosto no mundo.

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O que dizer agora?

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É esta a época de contar dos heróis. O que fizeram eles? Foram heróis. Há alguém maior do que um herói? Só os seres de luz sublime, que não causa sombra. Acima desses só Deus – afirmo-o porque creio – e chamemos-lhes santos, anjos, amigos espirituais…

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Em que consistiu o seu heroísmo das pessoas terrestes? Literalmente a salvação da minha vida! Desde coisas (aparentemente) pequeninas até à concessão de ombro e colo.

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Não há ordem justa dos enunciar, revelo-os por ordem alfabética:

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Ana Dias (minha mulher), professora Ana Marques Lito (minha psicanalista), Ana Suspiro, Isabel Colher, Carolina Palma, Maria Mestra Palma Tiago, Doutor Mário David (meu psiquiatra), Sérgio Carneiro e Vasco Rosendo.

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Fim. Espero que o meu fim seja – como se existisse fim – quando tiver que ser. Não quando eu pense que seja a minha finalidade.

 

sexta-feira, março 19, 2021

Granita – 24 de Março de 2004 – 19 de Março de 2021

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Há dias felizes, como os há tristes. Um dia, um amigo confidenciou-me a sua dor por perder o pai. Mais ou menos a citação, disse-lhe:

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– A morte não existe. Temos uma só vida e várias reencarnações. Neste lado do mundo, feito de matéria, somos espíritos num fato. É quando o despimos que falamos em morte. É apenas o corpo, não o espírito.

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Esse meu amigo – é sábio pensador e disponível para ouvir sem interromper – respondeu-me:

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– O facto de compreendermos a morte não nos tira a dor da sentir.

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Fiquei sem resposta.

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A verdade é que a morte não me causa medo nem receio nem dúvidas. Muito antes de crer na reencarnação, nunca me causou qualquer penar nem nostalgia. Não sendo frio, não a sinto como uma tragédia. Porém, como diz o meu amigo sábio, compreender não é sentir.

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Não chorei a minha avó materna, cujo desencarne foi o primeiro que constatei. Não chorei familiares. Não chorei amigos. Não chorei o meu pai. Não chorei a minha mãe. Não chorei o meu irmão. Não chorei a minha irmã.

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Fiquei triste? Não. Se me comovi? Claro que sim. Sinto saudades? Não. Lembro-me dos meus «mortos»? Sim. Gostava dos ter aqui e agora? Não. Faz parte da vida. Não há como fugir.

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A matéria recicla-se e nós, que somos espírito, vamos para um local onde não precisamos dum corpo. Regressaremos.

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Hoje, a Granita foi para um outro lugar.

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Morreu – digo assim para facilitar – a poucos dias de completar dezassete anos. Estava em sofrimento e até ao «fim» foi meiga.

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Por ignorância minha, tirei-a da mãe demasiadamente cedo – a ela e à mana Lioz, que feneceu em Novembro de 2015. Alimentei-as a biberão. Fui a mãe.

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A Granita era uma gata muitíssimo dócil que, por causa duma brincadeira parva dum amigo, se tornou menos sociável. Estranhos e menos estranhos habilitaram-se a uma patada ou mordidela quando a iam cumprimentar. Comigo, nunca! Sempre fui a sua adorada mãe. A Ana e o Miguel levaram anos até que ela os considerasse como familiares.

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Esperava-me à porta – na velhice deixou de vir sempre saudar a minha chegada. Amuou duas ou três ou quatro vezes, castigando-me pelos sarilhos que ela criara. Os gatos amuam e são engraçados quando despeitados. Dois dias depois já estava tudo bem.

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Dominou a casa quando viveu só com a Lioz e a Paraquedas. Mandou nos bichos todos, desde os que partiram aos que chegaram. Sempre, mesmo quando adoeceu.

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A Manga, uma épagneul breton, foi a única que a desafiou. Ou seja, uma Canis lupus familiaris com quinze ou dezasseis quilos e uma Felis Catus de três ou quatro – no fim da vida com dois ou três. Quando chegou à nossa casa, a cadela, de raça caçadora e habituada a bulhas em asilos, terá citado Gaius Iulius Caesar:

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Veni, vidi, vici.

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A Granita mostrou-lhe, como os gauleses de Asterix, que não vici.

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Reparámos que a Manga gania quando olhava para a gata. A cadela compreendeu o seu lugar na hierarquia e mostrava respeitinho – aquele respeito com receio – quando se cruzavam ou se aproximavam. Quando se excitava mais, a Granita exercia a sua autoridade.

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Como Rainha e idosa, a Granita foi ganhando caprichos. Manifestava-os, sobretudo, comigo. Desde ter de mudar a tijela de sítio ou exigir um mimo antes de comer. Estas situações causaram-nos gargalhadas, obviamente.

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A Granita, não sendo gigante, foi uma gata grande. Foi gordalhufa e emagreceu. Com o tempo emagreceu e perdeu vitalidade. Por vezes, ficava quase prostrada... é a idade, pensei. Não me apercebi que fosse por estar doente, mas porque os muitos anos simplesmente lhe limitavam o apetite – não tendo sido lenta a perda de peso, não foi repentina.

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Uma noite, por volta do Natal, caiu porque não tinha força nas pernas. Levámo-la ao hospital, onde ficou internada, devido a anemia, decorrente de hipertiroidismo – coisa comum em gatos velhos. Com doença crónica, ficou de tomar diariamente medicação. Sempre com apetite e caprichos gastronómicos: se não gostava duma refeição, não a comia... mesmo faminta!

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Embora muitas vezes estivesse quase letárgica, após começar o tratamento engordou um pouco e o pêlo ficou mais macio. Contudo, há poucos dias emagreceu e perdeu macieza. Ontem, ficou pendurada na roupa da cama, sem força para se erguer ou soltar as garras. A Ana acudiu-a. Depois, peguei-lhe e ronronou diferentemente, como costumam fazer os gatos quando sofrem muito – tal como se chama pela mãe, mesmo quando se tem mais de cem anos.

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Estava novamente com anemia e desidratada, mas sem grande descontrolo da tiróide. Se, desde o Natal, sabíamos que a sua saúde era frágil, não foi propriamente uma novidade quando a veterinária disse que poderia não sobreviver ao tratamento.

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Hoje de manhã, ligaram-me do hospital. A Granita tinha um grande tumor nos intestinos. Poderia ter alta para que pudéssemos despedir-nos. As dores iriam aumentar, em dois ou três dias seriam insuportáveis. Falecer em casa? Não! Deixá-la em padecimento esse tempo, para acabar por ir a correr em emergência?

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Desliguei o telemóvel e pensámos duas ou três frases, trinta ou sessenta segundos – sei lá, foi quase um instante. Que violência! Ela em grande sofrimento e nós a braços com alguém que sabíamos ter horas ou poucos dias.

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Fui ao hospital assinar um documento. Deixaram-me vê-la. Estava enroladinha, voltada de costas para a porta.

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Afaguei-lhe a cabeça e virou-se. Acariciei-a sob o queixo, como tanto gostava. Demorou a ronronar – antes era tão rápida, até antes de lhe tocar, e fazia-o bastante alto –, sem que a ouvisse, sentindo-lhe apenas a vibração. Parou segundos depois.

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O estado de doença agravou-se muito em tão pouco tempo. Em menos de quinze horas, a sua expressão mudara muito, inacreditavelmente muito. Vi-a como se tivesse cem anos.

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Sim, os cães são mais expressivos do que os gatos. Sim, os gatos também expressam sentimentos com o olhar, embora mais subtis. Olhou-me tão triste, com os olhos embaciados pelas cataratas. Baixou a cabeça e enrolou-se, como estava quando ali cheguei.

 

Não tenho medo da morte. Compreendo-a e aceito-a sem dor. Não acredito na morte. Nunca chorei alguém porque partiu. Ainda que tenha lembranças, não sou nostálgico. Hoje deixei verter algumas lágrimas. Tomei a mais extrema decisão da minha vida.

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Não se pense que – por escrever o que acabei de escrever – gosto mais dos animais do que dos familiares e amigos que partiram para um local não material. Mas porque tive (tivemos) de decidir o momento dessa transição.

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Que estranho poder! Que loucura!

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O que fazer? Aceitar a «morte» no seu momento, conhecendo o sofrimento e o agravamento da sua dor? Tantas perguntas, muitas mais respostas e dúvidas.

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Quando cheguei a casa, a Manga olhou-me tristemente. Não sei quanto tempo me olhou. Os cães sentem e pressentem, lêem-nos as expressões e compreendem-nos. Sentem a vida diferentemente, sabem coisas que não conseguimos ler.

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A Valsa, gata que não me pede atenção, saltou para o meu colo. Mimou-me e ronronou. Lambeu-me a mão, algo que os gatos fazem – nem todos – só a quem consideram merecedor. Hoje, pensou que eu precisava desse consolo.

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Nós tristes e a Manga, magnânima e generosa, mostrou a sua dor pela morte da Alfa. A Valsa, a nova Rainha, apiedou-se de nós.

quarta-feira, fevereiro 03, 2021

Órfão de mana

 

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A minha mana mudou-se para a Pátria Espiritual, para onde quis ir. Disso não tenho quase nada a dizer. Quero só contar algumas memórias. Só as do tempo em que vivemos juntos e a última lembrança, com ela, da minha infância.

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Vivi com a Luísa até aos meus cinco anos. Nessa idade, as memórias não são muitas. Umas são reais e outras moldadas por fotografias e palavras que me disseram. Mais vírgula, menos ponto, sei quais as verdadeiras recordações de quando.

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A Luísa contava, com gosto, uma maldade que lhe fiz. Ela tinha comprado uma saia nova e estava muito contente com ela; a natural vaidade duma adolescente. Pegou no seu brinquedo (eu) novo e pô-lo no colo. Só que o brinquedo, com dias ou poucos meses, decidiu fazer um grande cocó e estava sem fralda... pobre Luísa. Não sei quantas vezes lhe ouvi este episódio, mas ria-se sempre.

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A minha mana sempre gostou de crianças, tanto que foi professora primária. Num Carnaval vestiu-me e mascarou-me duas vezes: palhaço e mandarim. Do palhaço só me «lembro», porque há fotografias. Do chinês recordo-me.

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Um dia fiz uma birra – coisa que todas as crianças fazem numa determinada idade, às quais não se pode ceder – e ela foi resolver o caso. Pôs-me em cima da cama dela e disse-me:

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– Vamos fazer uma combinação.

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Para mim, uma combinação era uma peça de roupa. Não percebi como iríamos fazer uma combinação nem para quê. Não me lembro mais do que isto.

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Ofereceu-me dois livros infantis que adorei, um comprido em papel-cartão e o outro em tecido. Embora não me recorde do momento em que mos deu, sempre os tive associados a ela.

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Uma vez, os meus pais iam de viagem a Espanha e eu queria muito ir. Por mais que me dissessem que não iria, acreditava que ia. Levantaram-se cedo, antes do meu acordar. Quando despertei… choradeira. A minha mana consolou-me, deixando-me usar, pela primeira vez, a sua máquina-de-escrever.

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A minha mana levou-me, algumas vezes, à escola onde estudava (Dona Luísa de Gusmão), certamente para exibir o maninho – pode também ter sido uma visita a casa do tio Fernando, que vivia em frente, ou possivelmente as duas coisas. Já quase a chegar, passámos por uma loja que tinha uma miniatura de mota. Pedi-lhe e ela deu-ma. O que adorei aquele brinquedo.

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A última memória de infância que me liga a ela é a mais duradoura e palpável. A Luísa tinha-se casado e eu tinha dez ou onze anos. Numa visita, apresentou-me uma menina doce e contestatária, a Mafalda. A Mafaldinha, como «todos» lhe chamam.

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Adorei tanto o livro que me deu (o volume três) que o li quinhentas mil vezes. Compraram-me os outros – talvez me tenha oferecido mais algum. Está usado por tantos anos de leitura repetida. Sempre que o vejo, a Luísa aparece-me na memória, desde sempre.

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No Verão de 2018, fomos passear ao Norte e pousámos na casa da Luísa. O Miguel tinha onze anos e a mana apresentou-lhe a Mafaldinha. Ofereceu-lhe um livro grande, que junta o conjunto de todos. O miúdo leu-o vorazmente. Uma e outra e outra e outra e outra vez, tal como eu aos onze anos.

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Quando contei ao Miguel que a minha mana se tinha mudado para a Pátria Espiritual, falou-me prontamente na Mafaldinha. Com um olhar de clara saudade por uma pessoa que só viu uma vez.

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Vivendo em Braga e eu em Lisboa, telefonávamo-nos com regularidade. Tanto tempo de falas que um de nós acabava em urgência. Os dias não se fazem só com conversas de manos – estas eram intermináveis, podiam ser eternas. Porém, tenho a sensação que não ficou nada por dizer, só por acabar.

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O nosso espírito é eterno.

quarta-feira, novembro 11, 2020

Órfão de mano

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Fiquei muito contente quando o meu irmão saiu de casa. Tinha eu dez anos, menos onze do que ele. A minha felicidade não era por ele ter saído, mas por ter ficado com o seu quarto.

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A minha casa era, de aspecto, quase monótona, exceptuando o facto de ter paredes cheias com quadros pendurados. Era desconfortável, não havia assento fofo naquela casa. Nem isso, nem música, apenas a da rádio.

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O quarto do meu irmão era diferente. Havia um estrado ou divã onde se podia estar para além de dormir. Para um puto de dez anos, as paredes pintadas de cinzento escuro era uau. Tinha uns projectores coloridos – pelo menos um azul e outro vermelho. Havia uns contraplacados com umas pinturas. Tinha um gira-discos e auscultadores. Além dum bricabraque de objectos incomuns.

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Na verdade, quando saiu já parava pouco lá por casa, pelo que pude usufruir das suas coisas e dos discos sem que ele me mandasse dali para fora. O mano saiu, ganhei o quarto, mas não restou a magia daquele espaço.

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Dos discos do meu irmão, gostava particularmente do álbum «New boots and panties!!», do Ian Dury, por causa do «Sex and drugs and rock n’ rol», e de três álbuns do Frank Zappa – o «Chunga’s revenge», «Studio tan» e outro de que não me lembro o nome.

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Sabendo que se iria embora, tratei de moer-lhe a cabeça para me dar o disco do Ian Dury e o «Studio tan»… consegui o do Zappa. Um dia – obviamente equivocado – ofereceu-me um disco de estórias infantis. Aquilo era para os quatro a seis anos e eu tinha onze ou doze. Fiquei zangado! Ele ria-se. Isso arreliava-me… mais se ria! Muitos anos depois, sempre que lhe falava nisso, sorria e dava uma pequena gargalhada.

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Era muito protector. Ferozmente maternal. Ai de quem tocasse no maninho. Não me lembro de alguma vez se ter zangado comigo. Já, eu, zanguei-me duas vezes com ele: a afronta do disco infantil e por causa dum bonequinho que me partiu a brincar comigo – coisinha de menino mimado.

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Como muitos miúdos – talvez todos – tive a fase de morder. Ninguém gosta de ser mordido. Um dia, avançava para o trincar, deu-me uma volta e reviravolta e mordi-me. Ainda hoje não sei como fez aquilo. Nunca mais mordi.

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O Fanã sofreu bastante com o meu pai. Porém, nunca lhe ouvi um queixume nem censura. Falava dele como exemplo, filtrando toda a negatividade, e mestre – admirava a sua opção pela arte, adorava as suas pinturas e queria a sua aprovação.

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Para o meu mano, ser-se artista era um elogio. Por isso, quando lhe chamei artista, pela primeira vez, disse que não era e relutantemente foi aceitando que lho dissesse. Era, era. Puro e genuíno. Não apenas de desenho e pintura, qualquer modo de exprimir sentimento e criatividade.

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O meu mano teve uma infância dura, com a morte da mãe quando tinha nove anos – acho que era essa a idade. Talvez aí esteja a razão da sua ternura maternal para comigo.

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O que adoro aquela expressão vagamente trocista, o olhar terno e o sorriso de miúdo… um riso único e claro.

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Ontei fiquei órfão de mano, mas não acredito na morte. Não somos o corpo, que é de matéria e se transforma. Somos espírito e imortais. Claro que vou ter saudade. Um dia lá estaremos os dois a fazer qualquer coisa de manos.

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– Está tudo fixe, puto?

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– Está tudo fixe, mano.

sexta-feira, junho 19, 2020

Janela


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Afinal há esperança, do Sol à sombra, às vezes suas mães e outras irmãs e várias vezes sem sentido.
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Se digo sem sentido é por não perceber o pensamento, é turbilhão enrolando-se como as ondas do Meco.
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Percebendo-as, palavra a palavra, vão-se no voo da mosca que não passou.
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Talvez note a janela da paisagem nova ali sempre estada.
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Sento-me na cama ou caio de borco na cama. Tal tão perto do álcool que vence.
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Lembrei-me do telefone, onde se fixa, na secretária lembrada de mim.
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Olhando o telefone, uma possibilidade ou demora ao poder no apetecer e claramente o esquecimento.
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O objecto e a lista telefónica cheia.
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Pousos de horas para dias.
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Passou a mosca levando-me.

terça-feira, setembro 03, 2019

Cinquenta, duas vezes vinte e cinco


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Errático como até aqui, aos cinquenta.
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Sei, já me disseram e sei por mim, porque, apesar de tudo, ainda vou sabendo de mim:
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Aos vinte e cinco anos não se é velho!
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Dizem e até também, os números não são objectivos nem emocionais.
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Assim direi tentando na linha certa e certo de vadio nas datas e momentos.
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Foi difícil entender os vinte e cinco anos e perceber que não faz sentido sentir-se velho aos vinte e cinco anos e quanto mais tempo passou mais percebi que aos vinte e cinco anos não se é velho.
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Senti.
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Senti-me velho quando um tipo, com o ar porreiro e asseado que tinham todos os portugueses na Expo 98, me perguntou:
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– O senhor tem lume?
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O senhor era eu! Valha-me Deus! Que salto, que queda. Ninguém me tratava por senhor, só no dever.
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Doeu um bocadinho, passou. Mas aquela dorzinha…
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Se tivesse acontecido aos vinte e cinco anos talvez me levassem ao banco do Hospital de São José.
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Estou em quase cinquenta anos – acho chegados – e compreendo o sofrimento dos vinte e cinco anos.
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Obviamente, ter vinte e cinco anos dói. Nem fará sentido outra forma, ainda a outra coisa tenha lógica e seja delírio.
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Não sei se sinto nostalgia, sabor quase-pouco saboreado. Um pouquinho.
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Aos quarenta e nove anos assumo-me em cinquenta. Na minha cabeça é claro.
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Os quilogramas todos que perdi deram-me uma vida e o retrato de vida. Estou velho. Olho-me e estou velho.
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O mal é não ter vinte e cinco anos. Aos vinte e seis anos voltei a ter vinte e seis anos, iguais aos vinte e quatro anos. Aos cinquenta sou uma colecção inquieta. Uma colecção é um museu.
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Vejo os meus cinquenta anos nas amigas tornadas mães, parecidas com as mães. Não tardará serão avós, com as feições fofinhas das avós.
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Vejo os meus cinquentas anos nos amigos tornados pais, alguns na meia-idade que é meia-idade. Os pais deles, eram antigos quando eu era jovem, independentemente da idade trazida e levada.
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Dizem as rugas e as expressões dos problemas claros nos olhos e das dores nascendo e crescendo. São autocópias.
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Escrevo mais sobre os homens, porque sou homem. Impressionam-me mais as mulheres porque sou homem. Não quero ser outra coisa que franco nisto do meu ser homem, não é machismo, é impressionismo na impossibilidade do realismo e fujo do fácil-mau-gosto de pôr surrealismo. Leiam-no, se quiserem, contudo estou em verdade. Não é crueldade se isso sentirem – faltam-me outros olhos.
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Não tenho dinheiro para um descapotável. Não compraria. Desejo um Bentley como qualquer cinquentão guloso de tudo e assim seria se estivesse nos vintes, trintas e quarentas.
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A calvície não me incomoda nem a visão faltando ao perto nem os sinais da próstata, remexe o espelho e a numeração disto junto.
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Não me enfio nas festas nostálgicas de música dos anos oitenta. Não oiço Phill Collins, Elton John, Chris de Burgh e outras vozes detestáveis – felizmente, sempre.
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Asseio de e para a saúde.
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Olhando para depois – visto daqui para lá – dos vinte e cinco anos vejo a infância e a adolescência, das suas complicações e ainda. Entre o final duma e início doutra chegaram Kim Wilde e Kim Carnes – talvez os nomes não sejam coincidência, como a cor dos cabelos.
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Vi fotografias da Kim Wilde e os seus mais dez anos do que eu estão iguais aos meus. Não está avó, estou com cinquenta anos.
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A Kim Carnes… velha! Inequivocamente velha. Tão velha como o era em mil novecentos e oitenta e um, quando tinha trinta e seis anos.
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Pouco tempo depois, eu queria um descapotável, o Saab 900. Era lindo!
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Não me imagino a jardinar rosas, sei que ganharei o Euromilhões e comprarei o Bentley.
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Ainda me dói saber que entro na meia-idade, pensando na aposentação – onde estou contrariado e sem o troco.
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Penso mais vezes no Euromilhões do que na reforma.
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Para ilustrar, seria fácil meter aqui o «Forever Young» dos Alphaville… pieguice preguiçosa –  qualquer coisa dos anos oitenta.
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O que me dói de memória não é a década de oitenta, a de noventa.
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Não quero repetir nem ser. Não quero ser a idade a que chego.
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Vivi na Estónia – a primeira casa, tão grande quanto a Estónia e velha como o Báltico.
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Vive fantasmas claramente. Havia um quarto para mudar de roupa, guardar discos e alguns livros – não tinha janelas, a luz entrava pelas bandeiras.
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Nessa câmara mágica ouvia Enya, a mais maravilhosa voz dum país de unicórnios, e enlevava-me com o «Return to inocence», dos Enigma. O Pedro Abrunhosa revolvia o país e a Geração X.
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A luz de Lisboa directamente do rio cria o que faz sempre onde é. Passando as bandeiras era – nem velinhas, incenso, especiaria, taça tibetana ou gato.
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Na sala jantei o meu arroz com compota de ameixa que todos gostavam – o que se tolera nos vintes.
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Na sala gostava de whisky e tinha um aquário – morreram tantos peixes, por quase tudo.
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Na sala fumava, coisa estúpida iniciada estupidamente como as coisas estúpidas, acontecida mais tarde do que a idade parva.
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Na sala ouvia jazz, porque gostava. Só de pensar fico arrepiado, não me envergonho.
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Todo orgulhoso, importante de crescido, escrevia num computador, ao lado duma porta para a varanda onde se pressentia o Tejo, só um traço da cor.
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O quarto era virado para a mesma luz-aragem, aí fiz amor.
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Na cama, no chão e no escritório chorei desenfreado de saudade-ciúme.
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Da varanda pensei cair no dia em que me mudei.
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Ainda uma não se despejara nem a outra se enchera e sentia a saudade-pressentimento duma vida a passar sem voltar. Tinha vinte e oito anos e foi no dia um de Agosto.
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Antes da Estónia ia para casas de amigos. Íamos muito à praia, víamos filmes, líamos livros, dizíamos piadas, jogávamos cartas e Trivial Persuit. Amavam-se genuinamente, como aos trinta.
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Ia à praia, ouvia a Energia, na ponte ou quase no mar. Não havia nada como a Energia e ríamo-nos muito de felizes como quanto temos vinte e trinta.
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Fomos à Tunísia. Que férias!… Ainda sufocando de fugir. Em Hammamet não havia gay que não me descobrisse e se tentasse. Se não engaysei é porque os homens não me atraem.
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Quando deixei a Estónia – disse da saudade-pressentimento – acreditava que comprar uma casa era melhor do que pagar uma renda. Era mais barato, mesmo com o subsídio para o arrendamento dos jovens…
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Ganhava bem e tinha direito ao valor completo. Foram felizes esses dias em que os países ricos nos entornavam dinheiro.
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A noite de trinta e um de Julho para um de Agosto de mil novecentos e noventa e oito passei-a a chorar e a maldizer a distância.
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A saudade-pressentimento epafiniada na Estónia comprovou-se no século que chegava – além dos vários piores em comboio.
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A propósito: sorrio sempre com um pantomineiro dos astros – da magia do céu que nunca existiu – que escreveu a garantia de como seria magnífica, para os capricornianos, a primeira década dos anos zero.
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Tinha tudo para ser feliz, pois não há nada de Capricórnio que não me caia em cima. Eu todo-quase sou diferente do tudo escrito… já me enfiaram ascendentes de quase tudo, proximidades chegadas a Sagitário e a Aquário, até me garantiram que a hora do nascimento estava errada. Por esses caminhos, veredas nocturnas.
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A década maravilhosa fez-se dos piores anos da minha vida!
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Quase tudo de mau – no exagero e falibilidade das palavras absolutas – apareceu naquela casa e em mim, pela casa e naquela casa por mim.
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Vendia-a há poucos meses e apareceu-me um alívio!... Foram dolorosíssimas as antepenúltima e penúltima subidas. Escadas horrorosas de luz e de luz-espírito.
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Seis anos e tal depois, não percebo aquilo nem ter permanecido catorze anos.
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Mas a luz da Estónia não veio e não virá – abuso dos absolutamentes. Aqui tenho outra vida e outras vidas.
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Na Estónia, a vizinha do lado chamava-se Cristina. Redonda, parecia ter sempre azeite sob o lábio até queixo. Às vezes o marido embebedava-se e, se ela não estava, esperava-a na escada com o garrafão, incapaz de usar a chave. Uma vez repetiu-se na minha campainha perguntando-me pela Tininha.
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Dessa vez, decidiu-se a procurá-la. Despejou-se nas escadas como o amigo de cinco litros. Quando chegou, a Tininha deu-lhe um responso.
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Nas semanas que me competia, a Tininha punha na rua o caixote do lixo do prédio, porque sou homem – disse-o.
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A Tininha deixava os recados para o marido, com mais desastres ortográficos do que acertos, no lado de fora da porta de casa:
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– Telefonei a diser que estás mal esposto.
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Talvez até fosse pior. Adoro o «mal esposto».
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A última vez que vi a Tininha foi na televisão. Empunhava um cartaz e bradava pela inocência de Carlos Cruz.
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Na Casa dos Horrores, a vizinha do lado falava e ralhava com os cães, porque me infernizavam as manhãs de domingo. Chamei a polícia duas vezes.
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Ficámos amigos, como se deseja para a vizinhança. Quando mudei as janelas, para novas de vidro-duplo, dei-lhe as minhas, porque, apesar de feias, fechavam a rua e água da chuva.
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Nas semanas que me competiam, a Dona Teresa punha na rua o caixote do lixo do prédio, porque sou homem – disse-o, como a Tininha.
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A Dona Teresa parecia-me ser boa pessoa e passeou um pato. O marido encontrara um patinho na estrada e levou-o para casa. O bicho cresceu e, se passeava os cães, levava o pato à rua com um baraço ao pescoço.
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Os trintas foram tristíssimos e os quarenta começaram amargos. A Casa dos Horrores ditava-me e obedecia-lhe.
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O pouco de bom que guardo do tempo da vivência na Casa dos Horrores é o tratamento dos comerciantes do bairro. Especialmente por a Dona São, da mercearia, me chamar «menino João».
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As coisas endireitaram-se quando comecei a ver o cemitério, numa das ruas mais frias de Lisboa – até no Verão, em algumas horas, é comum passearem-se pinguins.
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Na Casa dos Horrores ouvia Marisa Monte e Adriana Calcanhotto. Ao instaurar-se a ditadura da saudade- incompreensão, toda a música daí para trás ficou proibida – ela surgia de todo o lado, como um boneco de mola se evade da caixa.
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«Você», Mãozinha, com a mensagem clara da minha vida e sem pretérito. Gorillaz fez-me respiração boca-a-boca e Da Weasel foi. Enapá 2000 e Irmãos Catita, sou-lhes muito agradecido.
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Duas gatas, três gatas salvaram-me a vida muitas vezes. Não evitando idas ao Hospital de São José.
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Uma desses dias de negrum marcou-me mais, porque me assassinou um amigo – juro a deslembrança se foi na véspera ou no seguinte.
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Como antes, espatifei amores – pelo mesmo de antes e pela doença. Vampirizei, magoei e outras. Entupi-me de tristezas, de todas a pior é-me a melancolia.
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Na Casa dos Horrores entrou e expulsei a Flor da Luz. Nela reentrou, trazendo as claridades – a sua e a do Menino. Que os saiba aninhar e eles.
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Nos dias magníficos do Capricórnio e mais uns, quase todos os amigos foram amigos – algumas desilusões, mas Sol de quem não esperava nada nem esperava esperar. Por desapego e bondade minhas, não perdi amigos. Acrescentei os outros.
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Há sempre pequenos-médios-grandes-todos-tristes-desastres – aqui, em toda a parte. A memória da Estónia assemelha-se à das birras que os filhos nunca fizeram, nem na idade delas – garantem as mães vinte anos à frente.
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A Estónia é quase perfeita e a Casa dos Horrores é um jazigo com jardim de pétalas secas.
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A Estónia foi a única casa inteiramente feliz – chorei muito naqueles Junho e Julho de mil novecentos e noventa e oito. Depois passei a chorar muitíssimo maisíssimo na Casa dos Horrores.
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Sinceramente, achei-certeza de que a crise da meia-idade seria como a lâmina de fazer a barba a aliviar-me a pele. Refiro, porque descobri o desejo de aliviar carbono na vivência duma angústia: vou cortar o cabelo, barbeio-me ou corto as unhas.
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Sinto-me dúvidas. As amigas parecem-se com as mães e têm vida desenhada no rosto. O espelho diz-me a idade. Das transfusões de vinho dos vintes-trintas-pequeno-quarentas, quase me envergonho do pouco de hoje.
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Os amigos estão piores. Não se parecem com os pais. Parecem-se com eles mesmos em gordos, em escanzelados e carecas. São caricaturas suas como o sou. Há pouco mais dum ano estava disforme, gordíssimo e inchado. Estou magro como nunca. Sou igual, um boneco de mim mesmo.
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As miúdas passam na rua. A Flor da Luz está bonita como nunca esteve e não sinto uma falta. Tenho olhos-cabeça para não me vestir como adolescente nem desejo um descapotável, nem o Saab 900. O Bentley são letras doutra coisa.
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Neste tempo, doem-me os vinte e cinco. Tanto quantos os cinquenta dos meus amigos que chegaram antes e vão acompanhar.
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Há quem seja absoluto em não se arrepender de nada – arrogância, timidez ou distração? Garantem que fariam o mesmo, porque teriam a mesma idade e os momentos. Afirmam ser todos dias passados, as somas.
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Mais do que o Bentley desejo regressar, não para ser novo. Retornar para evitar as lágrimas que fiz e as que me fizeram.
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Perceber isto é, possivelmente, ter cinquenta anos, mas digo-o há muitos anos. Reconhecendo todas as asneiras continuei acrescentando. Efabulo inverter o tempo para me emendar.
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Tirando o homoerotismo, vejo-me o retrato de Dorian Gray. Nem tão chegado a tanto pecado mas da fealdade dos cinquenta anos – a calvície é tranquila.
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Olho para o espelho e não vejo o que espero. Sou eu, mas qual eu? Como veja a fotografia sépia do tio-avô e reconheça os genes.
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Desde uma complicação, tenho dificuldade em fixar caras. Cumprimento quem não conheço e ignoro conhecidos. Posso fixar rostos banais e esquecer-me dos exóticos. No outro dia, na farmácia, disseram-me que isso é prosopagnosia.
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Fui ler e sou abençoado! Há os que não memorizam os familiares. Até mesmo o seu rosto reflectido.
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Não é por prosopagnosia – é mais fácil dizer «mau fisionomista» – a dificuldade em compreender a pessoa que o vidro me envia. É quase como chegava ébrio a casa e me fotografava ao espelho. Nesses autorretratos sou outra pessoa, não só pela falta da nitidez que o álcool roubava.
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Desconheço se não me revejo no espelho por nele ver os cinquenta anos – artifícios do cérebro.
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Fácil não está a ser. Possivelmente, aos cinquenta e um serei os vinte e seis.

sexta-feira, agosto 09, 2019

Galé

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Sim, isso, por aí, por isso.
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Onde o Sol se renova e a Terra se engana, aos olhos.
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Vendo o azul-lilás ao lilás ao lilás-rosa ao rosa ao rosa-laranja ao laranja.
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Como os refrescos e a pele escaldada.
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A noite é cinema, das estrelas que me esqueci de olhar. Talvez nem se vissem no tanto barulho da alegria.
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Vem a noite no Verão e futura-se a praia, só em frente, chegando-se desviando das árvores e das coisas.
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Pela manhã tardia, o doce e a calma. Quase ninguém acordou, mas algures há cães por passear e gatos quase-invisíveis.
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Pela manhã tardia chega-se à praia, onde se chega indo sempre em frente, bastando o desvio das árvores e das coisas.
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O Sol é luz, o mar está salgado, como pudesse ser diferente.
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Não importa a cor denunciando o humor da água.
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Uma bandeira axadrezada não voa sobre a areia, não há meta nem fim.
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Nem o Sol se renova nem o mar se importa.
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Haverá noite e manhã. É claro, nem se precisa acreditar.

Rotina


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Compreendi. Esse momento era e nesse momento compreendi.
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Deito-me noitadamente, mesmo à tarde e, por vezes, pela manhã.
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Sonho com sede e acordo. Se não a água, é uma gata.
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Acordo e uma gata espera. Se acordado, impacienta-se.
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Sirvo-a nos caprichos, a cadela inveja-as. Já acreditou, hoje obedece-lhes.
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Depois de levantado, levanto-me. Levanto-me como todos e, se não todos, contrariado.
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Faço por me esquecer e não atrasar. Banho e barba, se puder estar limpo.
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Lavo os dentes antes de comer, saio apressadamente e compreendo.
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Os dentes lavam-se depois de comer.

quinta-feira, agosto 08, 2019

De vazio vestidos

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Se me disseram e se.
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Se quando a vi e esperei, não esperava outra da aceitação.
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A sua sorte foi não me ter dado a sua.
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Assim vazios como despidos dissemos coisa duma despedida e ficámos.
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Não falha um, diariamente lembro-me dessa e todas como e como se fossem da noite passada.
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Perdi a conta e não desconfio da certeza de muitas mais.
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Se a vergonha tivesse voz, mais vergonha eu teria.
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Nem sei se diga do meu amor-próprio servil e doutros desastres confusos e mais ainda do que o pudor e a memória me permitem contar. Talvez a multidão saiba.
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É assim falando que falo do que quero e não quero e não-quero-que-quero e do que todos desconfiam e do que todos sabem e, pior talvez, do que a dúvida se esqueceram.
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Se confuso? Deviam conhecer-me.
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Pela manhã, bebe-se água.
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À noite toma-se um comprimido, mas é para outras coisas.

quinta-feira, junho 06, 2019

O caminho das pedras

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Se disserem que tenho pressa, irei à velocidade das lágrimas.
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Numa água de mau-marear, pior do que perder o barco é perder o mar.
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Até a água-chão não tem freio nem impedimento, tão abrupta quanto a torrente-súbita.
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Saltando do leito, o caminho de vai-vem fecha-se como muralha – não há atalho nem rota-mais-longa.
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O caminho atrás de mim não será caminho, nem até queimado.
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As pedras todas feitas inúteis por maldade serão o muro – atrás dele me fecharei do lado de fora.
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Nenhuma rocha será pista, porque apressado não terei espera para as semear.

Cada dia


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A minha vida não dá um sonho.

quarta-feira, junho 05, 2019

Siga em frente e vire na segunda rua à direita


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Não conhecerás a vida do silêncio.
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Nem distinguirás os dias da morte olhando para.
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Digo-te, porque pareces ser uma criança inteligente:
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– As coisas partem-se. A princípio custa um bocadinho perder.
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O jarro de vidro, lindo de esbelto, partiu-se porque uma gata.
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O livro perdeu estória ao molhar-se no banho.
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Sobrevivi, lembro-me e já não me encanto.
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A ti, que pareces ser o que queres parecer ser… digo-te:
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– O fumo mostra.
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Tu, que és de conhecimento de qualquer partícula do muito ou do pouco e até da esperança de não saber…
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Digo-te com o atrevimento de quem pensa pouco no que diz:
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– O Sol, a luz e o dia vencem e perdem.
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Mas se tiver de ser, perdem e perdem como o eclipse, o reflexo lunar, o lusco-fusco, a penumbra, a sombra, a noite e o passado.
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O medo esconde-se na luz e escondemo-nos na noite.
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Como o temor divino do trovão e o espanto da luz calada do Demónio.
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Sem pensar não chegarás ao silêncio mas as tuas perguntas não se ouvem.
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Diz-me o que é o silêncio.
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Não to posso mostrar porque apenas na soberba da modéstia exagerada.
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Fico assim parecendo-te vago ou estúpido.
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Modestamente estúpido.

A novidade


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Novo não será nem foi. Haverá tanta coisas assim perenemente caduca mas não me ocorre nem me apetece o aborrecimento de procurar nem me dá vontade de saborear a vitória ou o sangue da derrota.
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Por isso e porque quero, é. Porque aqui é o meu querer todo dos momentos, da glória ao arrependimento.
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Por isso, tanto me faz.
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Por isso, novo não será nem foi.