digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

sexta-feira, março 19, 2021

Granita – 24 de Março de 2004 – 19 de Março de 2021

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Há dias felizes, como os há tristes. Um dia, um amigo confidenciou-me a sua dor por perder o pai. Mais ou menos a citação, disse-lhe:

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– A morte não existe. Temos uma só vida e várias reencarnações. Neste lado do mundo, feito de matéria, somos espíritos num fato. É quando o despimos que falamos em morte. É apenas o corpo, não o espírito.

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Esse meu amigo – é sábio pensador e disponível para ouvir sem interromper – respondeu-me:

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– O facto de compreendermos a morte não nos tira a dor da sentir.

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Fiquei sem resposta.

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A verdade é que a morte não me causa medo nem receio nem dúvidas. Muito antes de crer na reencarnação, nunca me causou qualquer penar nem nostalgia. Não sendo frio, não a sinto como uma tragédia. Porém, como diz o meu amigo sábio, compreender não é sentir.

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Não chorei a minha avó materna, cujo desencarne foi o primeiro que constatei. Não chorei familiares. Não chorei amigos. Não chorei o meu pai. Não chorei a minha mãe. Não chorei o meu irmão. Não chorei a minha irmã.

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Fiquei triste? Não. Se me comovi? Claro que sim. Sinto saudades? Não. Lembro-me dos meus «mortos»? Sim. Gostava dos ter aqui e agora? Não. Faz parte da vida. Não há como fugir.

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A matéria recicla-se e nós, que somos espírito, vamos para um local onde não precisamos dum corpo. Regressaremos.

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Hoje, a Granita foi para um outro lugar.

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Morreu – digo assim para facilitar – a poucos dias de completar dezassete anos. Estava em sofrimento e até ao «fim» foi meiga.

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Por ignorância minha, tirei-a da mãe demasiadamente cedo – a ela e à mana Lioz, que feneceu em Novembro de 2015. Alimentei-as a biberão. Fui a mãe.

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A Granita era uma gata muitíssimo dócil que, por causa duma brincadeira parva dum amigo, se tornou menos sociável. Estranhos e menos estranhos habilitaram-se a uma patada ou mordidela quando a iam cumprimentar. Comigo, nunca! Sempre fui a sua adorada mãe. A Ana e o Miguel levaram anos até que ela os considerasse como familiares.

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Esperava-me à porta – na velhice deixou de vir sempre saudar a minha chegada. Amuou duas ou três ou quatro vezes, castigando-me pelos sarilhos que ela criara. Os gatos amuam e são engraçados quando despeitados. Dois dias depois já estava tudo bem.

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Dominou a casa quando viveu só com a Lioz e a Paraquedas. Mandou nos bichos todos, desde os que partiram aos que chegaram. Sempre, mesmo quando adoeceu.

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A Manga, uma épagneul breton, foi a única que a desafiou. Ou seja, uma Canis lupus familiaris com quinze ou dezasseis quilos e uma Felis Catus de três ou quatro – no fim da vida com dois ou três. Quando chegou à nossa casa, a cadela, de raça caçadora e habituada a bulhas em asilos, terá citado Gaius Iulius Caesar:

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Veni, vidi, vici.

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A Granita mostrou-lhe, como os gauleses de Asterix, que não vici.

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Reparámos que a Manga gania quando olhava para a gata. A cadela compreendeu o seu lugar na hierarquia e mostrava respeitinho – aquele respeito com receio – quando se cruzavam ou se aproximavam. Quando se excitava mais, a Granita exercia a sua autoridade.

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Como Rainha e idosa, a Granita foi ganhando caprichos. Manifestava-os, sobretudo, comigo. Desde ter de mudar a tijela de sítio ou exigir um mimo antes de comer. Estas situações causaram-nos gargalhadas, obviamente.

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A Granita, não sendo gigante, foi uma gata grande. Foi gordalhufa e emagreceu. Com o tempo emagreceu e perdeu vitalidade. Por vezes, ficava quase prostrada... é a idade, pensei. Não me apercebi que fosse por estar doente, mas porque os muitos anos simplesmente lhe limitavam o apetite – não tendo sido lenta a perda de peso, não foi repentina.

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Uma noite, por volta do Natal, caiu porque não tinha força nas pernas. Levámo-la ao hospital, onde ficou internada, devido a anemia, decorrente de hipertiroidismo – coisa comum em gatos velhos. Com doença crónica, ficou de tomar diariamente medicação. Sempre com apetite e caprichos gastronómicos: se não gostava duma refeição, não a comia... mesmo faminta!

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Embora muitas vezes estivesse quase letárgica, após começar o tratamento engordou um pouco e o pêlo ficou mais macio. Contudo, há poucos dias emagreceu e perdeu macieza. Ontem, ficou pendurada na roupa da cama, sem força para se erguer ou soltar as garras. A Ana acudiu-a. Depois, peguei-lhe e ronronou diferentemente, como costumam fazer os gatos quando sofrem muito – tal como se chama pela mãe, mesmo quando se tem mais de cem anos.

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Estava novamente com anemia e desidratada, mas sem grande descontrolo da tiróide. Se, desde o Natal, sabíamos que a sua saúde era frágil, não foi propriamente uma novidade quando a veterinária disse que poderia não sobreviver ao tratamento.

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Hoje de manhã, ligaram-me do hospital. A Granita tinha um grande tumor nos intestinos. Poderia ter alta para que pudéssemos despedir-nos. As dores iriam aumentar, em dois ou três dias seriam insuportáveis. Falecer em casa? Não! Deixá-la em padecimento esse tempo, para acabar por ir a correr em emergência?

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Desliguei o telemóvel e pensámos duas ou três frases, trinta ou sessenta segundos – sei lá, foi quase um instante. Que violência! Ela em grande sofrimento e nós a braços com alguém que sabíamos ter horas ou poucos dias.

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Fui ao hospital assinar um documento. Deixaram-me vê-la. Estava enroladinha, voltada de costas para a porta.

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Afaguei-lhe a cabeça e virou-se. Acariciei-a sob o queixo, como tanto gostava. Demorou a ronronar – antes era tão rápida, até antes de lhe tocar, e fazia-o bastante alto –, sem que a ouvisse, sentindo-lhe apenas a vibração. Parou segundos depois.

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O estado de doença agravou-se muito em tão pouco tempo. Em menos de quinze horas, a sua expressão mudara muito, inacreditavelmente muito. Vi-a como se tivesse cem anos.

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Sim, os cães são mais expressivos do que os gatos. Sim, os gatos também expressam sentimentos com o olhar, embora mais subtis. Olhou-me tão triste, com os olhos embaciados pelas cataratas. Baixou a cabeça e enrolou-se, como estava quando ali cheguei.

 

Não tenho medo da morte. Compreendo-a e aceito-a sem dor. Não acredito na morte. Nunca chorei alguém porque partiu. Ainda que tenha lembranças, não sou nostálgico. Hoje deixei verter algumas lágrimas. Tomei a mais extrema decisão da minha vida.

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Não se pense que – por escrever o que acabei de escrever – gosto mais dos animais do que dos familiares e amigos que partiram para um local não material. Mas porque tive (tivemos) de decidir o momento dessa transição.

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Que estranho poder! Que loucura!

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O que fazer? Aceitar a «morte» no seu momento, conhecendo o sofrimento e o agravamento da sua dor? Tantas perguntas, muitas mais respostas e dúvidas.

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Quando cheguei a casa, a Manga olhou-me tristemente. Não sei quanto tempo me olhou. Os cães sentem e pressentem, lêem-nos as expressões e compreendem-nos. Sentem a vida diferentemente, sabem coisas que não conseguimos ler.

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A Valsa, gata que não me pede atenção, saltou para o meu colo. Mimou-me e ronronou. Lambeu-me a mão, algo que os gatos fazem – nem todos – só a quem consideram merecedor. Hoje, pensou que eu precisava desse consolo.

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Nós tristes e a Manga, magnânima e generosa, mostrou a sua dor pela morte da Alfa. A Valsa, a nova Rainha, apiedou-se de nós.

quarta-feira, fevereiro 03, 2021

Órfão de mana

 

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A minha mana mudou-se para a Pátria Espiritual, para onde quis ir. Disso não tenho quase nada a dizer. Quero só contar algumas memórias. Só as do tempo em que vivemos juntos e a última lembrança, com ela, da minha infância.

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Vivi com a Luísa até aos meus cinco anos. Nessa idade, as memórias não são muitas. Umas são reais e outras moldadas por fotografias e palavras que me disseram. Mais vírgula, menos ponto, sei quais as verdadeiras recordações de quando.

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A Luísa contava, com gosto, uma maldade que lhe fiz. Ela tinha comprado uma saia nova e estava muito contente com ela; a natural vaidade duma adolescente. Pegou no seu brinquedo (eu) novo e pô-lo no colo. Só que o brinquedo, com dias ou poucos meses, decidiu fazer um grande cocó e estava sem fralda... pobre Luísa. Não sei quantas vezes lhe ouvi este episódio, mas ria-se sempre.

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A minha mana sempre gostou de crianças, tanto que foi professora primária. Num Carnaval vestiu-me e mascarou-me duas vezes: palhaço e mandarim. Do palhaço só me «lembro», porque há fotografias. Do chinês recordo-me.

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Um dia fiz uma birra – coisa que todas as crianças fazem numa determinada idade, às quais não se pode ceder – e ela foi resolver o caso. Pôs-me em cima da cama dela e disse-me:

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– Vamos fazer uma combinação.

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Para mim, uma combinação era uma peça de roupa. Não percebi como iríamos fazer uma combinação nem para quê. Não me lembro mais do que isto.

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Ofereceu-me dois livros infantis que adorei, um comprido em papel-cartão e o outro em tecido. Embora não me recorde do momento em que mos deu, sempre os tive associados a ela.

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Uma vez, os meus pais iam de viagem a Espanha e eu queria muito ir. Por mais que me dissessem que não iria, acreditava que ia. Levantaram-se cedo, antes do meu acordar. Quando despertei… choradeira. A minha mana consolou-me, deixando-me usar, pela primeira vez, a sua máquina-de-escrever.

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A minha mana levou-me, algumas vezes, à escola onde estudava (Dona Luísa de Gusmão), certamente para exibir o maninho – pode também ter sido uma visita a casa do tio Fernando, que vivia em frente, ou possivelmente as duas coisas. Já quase a chegar, passámos por uma loja que tinha uma miniatura de mota. Pedi-lhe e ela deu-ma. O que adorei aquele brinquedo.

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A última memória de infância que me liga a ela é a mais duradoura e palpável. A Luísa tinha-se casado e eu tinha dez ou onze anos. Numa visita, apresentou-me uma menina doce e contestatária, a Mafalda. A Mafaldinha, como «todos» lhe chamam.

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Adorei tanto o livro que me deu (o volume três) que o li quinhentas mil vezes. Compraram-me os outros – talvez me tenha oferecido mais algum. Está usado por tantos anos de leitura repetida. Sempre que o vejo, a Luísa aparece-me na memória, desde sempre.

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No Verão de 2018, fomos passear ao Norte e pousámos na casa da Luísa. O Miguel tinha onze anos e a mana apresentou-lhe a Mafaldinha. Ofereceu-lhe um livro grande, que junta o conjunto de todos. O miúdo leu-o vorazmente. Uma e outra e outra e outra e outra vez, tal como eu aos onze anos.

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Quando contei ao Miguel que a minha mana se tinha mudado para a Pátria Espiritual, falou-me prontamente na Mafaldinha. Com um olhar de clara saudade por uma pessoa que só viu uma vez.

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Vivendo em Braga e eu em Lisboa, telefonávamo-nos com regularidade. Tanto tempo de falas que um de nós acabava em urgência. Os dias não se fazem só com conversas de manos – estas eram intermináveis, podiam ser eternas. Porém, tenho a sensação que não ficou nada por dizer, só por acabar.

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O nosso espírito é eterno.

quarta-feira, novembro 11, 2020

Órfão de mano

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Fiquei muito contente quando o meu irmão saiu de casa. Tinha eu dez anos, menos onze do que ele. A minha felicidade não era por ele ter saído, mas por ter ficado com o seu quarto.

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A minha casa era, de aspecto, quase monótona, exceptuando o facto de ter paredes cheias com quadros pendurados. Era desconfortável, não havia assento fofo naquela casa. Nem isso, nem música, apenas a da rádio.

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O quarto do meu irmão era diferente. Havia um estrado ou divã onde se podia estar para além de dormir. Para um puto de dez anos, as paredes pintadas de cinzento escuro era uau. Tinha uns projectores coloridos – pelo menos um azul e outro vermelho. Havia uns contraplacados com umas pinturas. Tinha um gira-discos e auscultadores. Além dum bricabraque de objectos incomuns.

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Na verdade, quando saiu já parava pouco lá por casa, pelo que pude usufruir das suas coisas e dos discos sem que ele me mandasse dali para fora. O mano saiu, ganhei o quarto, mas não restou a magia daquele espaço.

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Dos discos do meu irmão, gostava particularmente do álbum «New boots and panties!!», do Ian Dury, por causa do «Sex and drugs and rock n’ rol», e de três álbuns do Frank Zappa – o «Chunga’s revenge», «Studio tan» e outro de que não me lembro o nome.

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Sabendo que se iria embora, tratei de moer-lhe a cabeça para me dar o disco do Ian Dury e o «Studio tan»… consegui o do Zappa. Um dia – obviamente equivocado – ofereceu-me um disco de estórias infantis. Aquilo era para os quatro a seis anos e eu tinha onze ou doze. Fiquei zangado! Ele ria-se. Isso arreliava-me… mais se ria! Muitos anos depois, sempre que lhe falava nisso, sorria e dava uma pequena gargalhada.

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Era muito protector. Ferozmente maternal. Ai de quem tocasse no maninho. Não me lembro de alguma vez se ter zangado comigo. Já, eu, zanguei-me duas vezes com ele: a afronta do disco infantil e por causa dum bonequinho que me partiu a brincar comigo – coisinha de menino mimado.

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Como muitos miúdos – talvez todos – tive a fase de morder. Ninguém gosta de ser mordido. Um dia, avançava para o trincar, deu-me uma volta e reviravolta e mordi-me. Ainda hoje não sei como fez aquilo. Nunca mais mordi.

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O Fanã sofreu bastante com o meu pai. Porém, nunca lhe ouvi um queixume nem censura. Falava dele como exemplo, filtrando toda a negatividade, e mestre – admirava a sua opção pela arte, adorava as suas pinturas e queria a sua aprovação.

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Para o meu mano, ser-se artista era um elogio. Por isso, quando lhe chamei artista, pela primeira vez, disse que não era e relutantemente foi aceitando que lho dissesse. Era, era. Puro e genuíno. Não apenas de desenho e pintura, qualquer modo de exprimir sentimento e criatividade.

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O meu mano teve uma infância dura, com a morte da mãe quando tinha nove anos – acho que era essa a idade. Talvez aí esteja a razão da sua ternura maternal para comigo.

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O que adoro aquela expressão vagamente trocista, o olhar terno e o sorriso de miúdo… um riso único e claro.

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Ontei fiquei órfão de mano, mas não acredito na morte. Não somos o corpo, que é de matéria e se transforma. Somos espírito e imortais. Claro que vou ter saudade. Um dia lá estaremos os dois a fazer qualquer coisa de manos.

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– Está tudo fixe, puto?

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– Está tudo fixe, mano.

sexta-feira, junho 19, 2020

Janela


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Afinal há esperança, do Sol à sombra, às vezes suas mães e outras irmãs e várias vezes sem sentido.
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Se digo sem sentido é por não perceber o pensamento, é turbilhão enrolando-se como as ondas do Meco.
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Percebendo-as, palavra a palavra, vão-se no voo da mosca que não passou.
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Talvez note a janela da paisagem nova ali sempre estada.
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Sento-me na cama ou caio de borco na cama. Tal tão perto do álcool que vence.
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Lembrei-me do telefone, onde se fixa, na secretária lembrada de mim.
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Olhando o telefone, uma possibilidade ou demora ao poder no apetecer e claramente o esquecimento.
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O objecto e a lista telefónica cheia.
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Pousos de horas para dias.
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Passou a mosca levando-me.

terça-feira, setembro 03, 2019

Cinquenta, duas vezes vinte e cinco


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Errático como até aqui, aos cinquenta.
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Sei, já me disseram e sei por mim, porque, apesar de tudo, ainda vou sabendo de mim:
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Aos vinte e cinco anos não se é velho!
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Dizem e até também, os números não são objectivos nem emocionais.
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Assim direi tentando na linha certa e certo de vadio nas datas e momentos.
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Foi difícil entender os vinte e cinco anos e perceber que não faz sentido sentir-se velho aos vinte e cinco anos e quanto mais tempo passou mais percebi que aos vinte e cinco anos não se é velho.
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Senti.
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Senti-me velho quando um tipo, com o ar porreiro e asseado que tinham todos os portugueses na Expo 98, me perguntou:
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– O senhor tem lume?
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O senhor era eu! Valha-me Deus! Que salto, que queda. Ninguém me tratava por senhor, só no dever.
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Doeu um bocadinho, passou. Mas aquela dorzinha…
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Se tivesse acontecido aos vinte e cinco anos talvez me levassem ao banco do Hospital de São José.
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Estou em quase cinquenta anos – acho chegados – e compreendo o sofrimento dos vinte e cinco anos.
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Obviamente, ter vinte e cinco anos dói. Nem fará sentido outra forma, ainda a outra coisa tenha lógica e seja delírio.
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Não sei se sinto nostalgia, sabor quase-pouco saboreado. Um pouquinho.
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Aos quarenta e nove anos assumo-me em cinquenta. Na minha cabeça é claro.
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Os quilogramas todos que perdi deram-me uma vida e o retrato de vida. Estou velho. Olho-me e estou velho.
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O mal é não ter vinte e cinco anos. Aos vinte e seis anos voltei a ter vinte e seis anos, iguais aos vinte e quatro anos. Aos cinquenta sou uma colecção inquieta. Uma colecção é um museu.
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Vejo os meus cinquenta anos nas amigas tornadas mães, parecidas com as mães. Não tardará serão avós, com as feições fofinhas das avós.
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Vejo os meus cinquentas anos nos amigos tornados pais, alguns na meia-idade que é meia-idade. Os pais deles, eram antigos quando eu era jovem, independentemente da idade trazida e levada.
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Dizem as rugas e as expressões dos problemas claros nos olhos e das dores nascendo e crescendo. São autocópias.
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Escrevo mais sobre os homens, porque sou homem. Impressionam-me mais as mulheres porque sou homem. Não quero ser outra coisa que franco nisto do meu ser homem, não é machismo, é impressionismo na impossibilidade do realismo e fujo do fácil-mau-gosto de pôr surrealismo. Leiam-no, se quiserem, contudo estou em verdade. Não é crueldade se isso sentirem – faltam-me outros olhos.
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Não tenho dinheiro para um descapotável. Não compraria. Desejo um Bentley como qualquer cinquentão guloso de tudo e assim seria se estivesse nos vintes, trintas e quarentas.
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A calvície não me incomoda nem a visão faltando ao perto nem os sinais da próstata, remexe o espelho e a numeração disto junto.
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Não me enfio nas festas nostálgicas de música dos anos oitenta. Não oiço Phill Collins, Elton John, Chris de Burgh e outras vozes detestáveis – felizmente, sempre.
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Asseio de e para a saúde.
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Olhando para depois – visto daqui para lá – dos vinte e cinco anos vejo a infância e a adolescência, das suas complicações e ainda. Entre o final duma e início doutra chegaram Kim Wilde e Kim Carnes – talvez os nomes não sejam coincidência, como a cor dos cabelos.
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Vi fotografias da Kim Wilde e os seus mais dez anos do que eu estão iguais aos meus. Não está avó, estou com cinquenta anos.
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A Kim Carnes… velha! Inequivocamente velha. Tão velha como o era em mil novecentos e oitenta e um, quando tinha trinta e seis anos.
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Pouco tempo depois, eu queria um descapotável, o Saab 900. Era lindo!
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Não me imagino a jardinar rosas, sei que ganharei o Euromilhões e comprarei o Bentley.
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Ainda me dói saber que entro na meia-idade, pensando na aposentação – onde estou contrariado e sem o troco.
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Penso mais vezes no Euromilhões do que na reforma.
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Para ilustrar, seria fácil meter aqui o «Forever Young» dos Alphaville… pieguice preguiçosa –  qualquer coisa dos anos oitenta.
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O que me dói de memória não é a década de oitenta, a de noventa.
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Não quero repetir nem ser. Não quero ser a idade a que chego.
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Vivi na Estónia – a primeira casa, tão grande quanto a Estónia e velha como o Báltico.
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Vive fantasmas claramente. Havia um quarto para mudar de roupa, guardar discos e alguns livros – não tinha janelas, a luz entrava pelas bandeiras.
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Nessa câmara mágica ouvia Enya, a mais maravilhosa voz dum país de unicórnios, e enlevava-me com o «Return to inocence», dos Enigma. O Pedro Abrunhosa revolvia o país e a Geração X.
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A luz de Lisboa directamente do rio cria o que faz sempre onde é. Passando as bandeiras era – nem velinhas, incenso, especiaria, taça tibetana ou gato.
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Na sala jantei o meu arroz com compota de ameixa que todos gostavam – o que se tolera nos vintes.
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Na sala gostava de whisky e tinha um aquário – morreram tantos peixes, por quase tudo.
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Na sala fumava, coisa estúpida iniciada estupidamente como as coisas estúpidas, acontecida mais tarde do que a idade parva.
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Na sala ouvia jazz, porque gostava. Só de pensar fico arrepiado, não me envergonho.
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Todo orgulhoso, importante de crescido, escrevia num computador, ao lado duma porta para a varanda onde se pressentia o Tejo, só um traço da cor.
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O quarto era virado para a mesma luz-aragem, aí fiz amor.
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Na cama, no chão e no escritório chorei desenfreado de saudade-ciúme.
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Da varanda pensei cair no dia em que me mudei.
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Ainda uma não se despejara nem a outra se enchera e sentia a saudade-pressentimento duma vida a passar sem voltar. Tinha vinte e oito anos e foi no dia um de Agosto.
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Antes da Estónia ia para casas de amigos. Íamos muito à praia, víamos filmes, líamos livros, dizíamos piadas, jogávamos cartas e Trivial Persuit. Amavam-se genuinamente, como aos trinta.
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Ia à praia, ouvia a Energia, na ponte ou quase no mar. Não havia nada como a Energia e ríamo-nos muito de felizes como quanto temos vinte e trinta.
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Fomos à Tunísia. Que férias!… Ainda sufocando de fugir. Em Hammamet não havia gay que não me descobrisse e se tentasse. Se não engaysei é porque os homens não me atraem.
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Quando deixei a Estónia – disse da saudade-pressentimento – acreditava que comprar uma casa era melhor do que pagar uma renda. Era mais barato, mesmo com o subsídio para o arrendamento dos jovens…
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Ganhava bem e tinha direito ao valor completo. Foram felizes esses dias em que os países ricos nos entornavam dinheiro.
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A noite de trinta e um de Julho para um de Agosto de mil novecentos e noventa e oito passei-a a chorar e a maldizer a distância.
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A saudade-pressentimento epafiniada na Estónia comprovou-se no século que chegava – além dos vários piores em comboio.
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A propósito: sorrio sempre com um pantomineiro dos astros – da magia do céu que nunca existiu – que escreveu a garantia de como seria magnífica, para os capricornianos, a primeira década dos anos zero.
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Tinha tudo para ser feliz, pois não há nada de Capricórnio que não me caia em cima. Eu todo-quase sou diferente do tudo escrito… já me enfiaram ascendentes de quase tudo, proximidades chegadas a Sagitário e a Aquário, até me garantiram que a hora do nascimento estava errada. Por esses caminhos, veredas nocturnas.
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A década maravilhosa fez-se dos piores anos da minha vida!
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Quase tudo de mau – no exagero e falibilidade das palavras absolutas – apareceu naquela casa e em mim, pela casa e naquela casa por mim.
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Vendia-a há poucos meses e apareceu-me um alívio!... Foram dolorosíssimas as antepenúltima e penúltima subidas. Escadas horrorosas de luz e de luz-espírito.
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Seis anos e tal depois, não percebo aquilo nem ter permanecido catorze anos.
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Mas a luz da Estónia não veio e não virá – abuso dos absolutamentes. Aqui tenho outra vida e outras vidas.
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Na Estónia, a vizinha do lado chamava-se Cristina. Redonda, parecia ter sempre azeite sob o lábio até queixo. Às vezes o marido embebedava-se e, se ela não estava, esperava-a na escada com o garrafão, incapaz de usar a chave. Uma vez repetiu-se na minha campainha perguntando-me pela Tininha.
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Dessa vez, decidiu-se a procurá-la. Despejou-se nas escadas como o amigo de cinco litros. Quando chegou, a Tininha deu-lhe um responso.
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Nas semanas que me competia, a Tininha punha na rua o caixote do lixo do prédio, porque sou homem – disse-o.
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A Tininha deixava os recados para o marido, com mais desastres ortográficos do que acertos, no lado de fora da porta de casa:
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– Telefonei a diser que estás mal esposto.
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Talvez até fosse pior. Adoro o «mal esposto».
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A última vez que vi a Tininha foi na televisão. Empunhava um cartaz e bradava pela inocência de Carlos Cruz.
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Na Casa dos Horrores, a vizinha do lado falava e ralhava com os cães, porque me infernizavam as manhãs de domingo. Chamei a polícia duas vezes.
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Ficámos amigos, como se deseja para a vizinhança. Quando mudei as janelas, para novas de vidro-duplo, dei-lhe as minhas, porque, apesar de feias, fechavam a rua e água da chuva.
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Nas semanas que me competiam, a Dona Teresa punha na rua o caixote do lixo do prédio, porque sou homem – disse-o, como a Tininha.
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A Dona Teresa parecia-me ser boa pessoa e passeou um pato. O marido encontrara um patinho na estrada e levou-o para casa. O bicho cresceu e, se passeava os cães, levava o pato à rua com um baraço ao pescoço.
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Os trintas foram tristíssimos e os quarenta começaram amargos. A Casa dos Horrores ditava-me e obedecia-lhe.
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O pouco de bom que guardo do tempo da vivência na Casa dos Horrores é o tratamento dos comerciantes do bairro. Especialmente por a Dona São, da mercearia, me chamar «menino João».
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As coisas endireitaram-se quando comecei a ver o cemitério, numa das ruas mais frias de Lisboa – até no Verão, em algumas horas, é comum passearem-se pinguins.
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Na Casa dos Horrores ouvia Marisa Monte e Adriana Calcanhotto. Ao instaurar-se a ditadura da saudade- incompreensão, toda a música daí para trás ficou proibida – ela surgia de todo o lado, como um boneco de mola se evade da caixa.
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«Você», Mãozinha, com a mensagem clara da minha vida e sem pretérito. Gorillaz fez-me respiração boca-a-boca e Da Weasel foi. Enapá 2000 e Irmãos Catita, sou-lhes muito agradecido.
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Duas gatas, três gatas salvaram-me a vida muitas vezes. Não evitando idas ao Hospital de São José.
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Uma desses dias de negrum marcou-me mais, porque me assassinou um amigo – juro a deslembrança se foi na véspera ou no seguinte.
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Como antes, espatifei amores – pelo mesmo de antes e pela doença. Vampirizei, magoei e outras. Entupi-me de tristezas, de todas a pior é-me a melancolia.
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Na Casa dos Horrores entrou e expulsei a Flor da Luz. Nela reentrou, trazendo as claridades – a sua e a do Menino. Que os saiba aninhar e eles.
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Nos dias magníficos do Capricórnio e mais uns, quase todos os amigos foram amigos – algumas desilusões, mas Sol de quem não esperava nada nem esperava esperar. Por desapego e bondade minhas, não perdi amigos. Acrescentei os outros.
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Há sempre pequenos-médios-grandes-todos-tristes-desastres – aqui, em toda a parte. A memória da Estónia assemelha-se à das birras que os filhos nunca fizeram, nem na idade delas – garantem as mães vinte anos à frente.
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A Estónia é quase perfeita e a Casa dos Horrores é um jazigo com jardim de pétalas secas.
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A Estónia foi a única casa inteiramente feliz – chorei muito naqueles Junho e Julho de mil novecentos e noventa e oito. Depois passei a chorar muitíssimo maisíssimo na Casa dos Horrores.
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Sinceramente, achei-certeza de que a crise da meia-idade seria como a lâmina de fazer a barba a aliviar-me a pele. Refiro, porque descobri o desejo de aliviar carbono na vivência duma angústia: vou cortar o cabelo, barbeio-me ou corto as unhas.
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Sinto-me dúvidas. As amigas parecem-se com as mães e têm vida desenhada no rosto. O espelho diz-me a idade. Das transfusões de vinho dos vintes-trintas-pequeno-quarentas, quase me envergonho do pouco de hoje.
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Os amigos estão piores. Não se parecem com os pais. Parecem-se com eles mesmos em gordos, em escanzelados e carecas. São caricaturas suas como o sou. Há pouco mais dum ano estava disforme, gordíssimo e inchado. Estou magro como nunca. Sou igual, um boneco de mim mesmo.
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As miúdas passam na rua. A Flor da Luz está bonita como nunca esteve e não sinto uma falta. Tenho olhos-cabeça para não me vestir como adolescente nem desejo um descapotável, nem o Saab 900. O Bentley são letras doutra coisa.
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Neste tempo, doem-me os vinte e cinco. Tanto quantos os cinquenta dos meus amigos que chegaram antes e vão acompanhar.
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Há quem seja absoluto em não se arrepender de nada – arrogância, timidez ou distração? Garantem que fariam o mesmo, porque teriam a mesma idade e os momentos. Afirmam ser todos dias passados, as somas.
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Mais do que o Bentley desejo regressar, não para ser novo. Retornar para evitar as lágrimas que fiz e as que me fizeram.
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Perceber isto é, possivelmente, ter cinquenta anos, mas digo-o há muitos anos. Reconhecendo todas as asneiras continuei acrescentando. Efabulo inverter o tempo para me emendar.
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Tirando o homoerotismo, vejo-me o retrato de Dorian Gray. Nem tão chegado a tanto pecado mas da fealdade dos cinquenta anos – a calvície é tranquila.
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Olho para o espelho e não vejo o que espero. Sou eu, mas qual eu? Como veja a fotografia sépia do tio-avô e reconheça os genes.
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Desde uma complicação, tenho dificuldade em fixar caras. Cumprimento quem não conheço e ignoro conhecidos. Posso fixar rostos banais e esquecer-me dos exóticos. No outro dia, na farmácia, disseram-me que isso é prosopagnosia.
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Fui ler e sou abençoado! Há os que não memorizem os familiares. Até mesmo o seu rosto reflectido.
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Não é por prosopagnosia – é mais fácil dizer «mau fisionomista» – a dificuldade em compreender a pessoa que o vidro me envia. É quase como chegava ébrio a casa e me fotografava ao espelho. Nesses autorretratos sou outra pessoa, não só por falta da nitidez que o álcool roubava.
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Desconheço se não me revejo no espelho por nele ver os cinquenta anos – artifícios do cérebro.
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Fácil não está a ser. Possivelmente, aos cinquenta e um serei os vinte e seis.

sexta-feira, agosto 09, 2019

Galé

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Sim, isso, por aí, por isso.
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Onde o Sol se renova e a Terra se engana, aos olhos.
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Vendo o azul-lilás ao lilás ao lilás-rosa ao rosa ao rosa-laranja ao laranja.
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Como os refrescos e a pele escaldada.
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A noite é cinema, das estrelas que me esqueci de olhar. Talvez nem se vissem no tanto barulho da alegria.
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Vem a noite no Verão e futura-se a praia, só em frente, chegando-se desviando das árvores e das coisas.
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Pela manhã tardia, o doce e a calma. Quase ninguém acordou, mas algures há cães por passear e gatos quase-invisíveis.
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Pela manhã tardia chega-se à praia, onde se chega indo sempre em frente, bastando o desvio das árvores e das coisas.
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O Sol é luz, o mar está salgado, como pudesse ser diferente.
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Não importa a cor denunciando o humor da água.
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Uma bandeira axadrezada não voa sobre a areia, não há meta nem fim.
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Nem o Sol se renova nem o mar se importa.
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Haverá noite e manhã. É claro, nem se precisa acreditar.

Rotina


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Compreendi. Esse momento era e nesse momento compreendi.
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Deito-me noitadamente, mesmo à tarde e, por vezes, pela manhã.
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Sonho com sede e acordo. Se não a água, é uma gata.
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Acordo e uma gata espera. Se acordado, impacienta-se.
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Sirvo-a nos caprichos, a cadela inveja-as. Já acreditou, hoje obedece-lhes.
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Depois de levantado, levanto-me. Levanto-me como todos e, se não todos, contrariado.
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Faço por me esquecer e não atrasar. Banho e barba, se puder estar limpo.
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Lavo os dentes antes de comer, saio apressadamente e compreendo.
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Os dentes lavam-se depois de comer.

quinta-feira, agosto 08, 2019

De vazio vestidos

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Se me disseram e se.
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Se quando a vi e esperei, não esperava outra da aceitação.
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A sua sorte foi não me ter dado a sua.
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Assim vazios como despidos dissemos coisa duma despedida e ficámos.
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Não falha um, diariamente lembro-me dessa e todas como e como se fossem da noite passada.
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Perdi a conta e não desconfio da certeza de muitas mais.
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Se a vergonha tivesse voz, mais vergonha eu teria.
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Nem sei se diga do meu amor-próprio servil e doutros desastres confusos e mais ainda do que o pudor e a memória me permitem contar. Talvez a multidão saiba.
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É assim falando que falo do que quero e não quero e não-quero-que-quero e do que todos desconfiam e do que todos sabem e, pior talvez, do que a dúvida se esqueceram.
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Se confuso? Deviam conhecer-me.
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Pela manhã, bebe-se água.
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À noite toma-se um comprimido, mas é para outras coisas.

quinta-feira, junho 06, 2019

O caminho das pedras

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Se disserem que tenho pressa, irei à velocidade das lágrimas.
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Numa água de mau-marear, pior do que perder o barco é perder o mar.
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Até a água-chão não tem freio nem impedimento, tão abrupta quanto a torrente-súbita.
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Saltando do leito, o caminho de vai-vem fecha-se como muralha – não há atalho nem rota-mais-longa.
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O caminho atrás de mim não será caminho, nem até queimado.
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As pedras todas feitas inúteis por maldade serão o muro – atrás dele me fecharei do lado de fora.
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Nenhuma rocha será pista, porque apressado não terei espera para as semear.

Cada dia


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A minha vida não dá um sonho.

quarta-feira, junho 05, 2019

Siga em frente e vire na segunda rua à direita


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Não conhecerás a vida do silêncio.
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Nem distinguirás os dias da morte olhando para.
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Digo-te, porque pareces ser uma criança inteligente:
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– As coisas partem-se. A princípio custa um bocadinho perder.
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O jarro de vidro, lindo de esbelto, partiu-se porque uma gata.
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O livro perdeu estória ao molhar-se no banho.
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Sobrevivi, lembro-me e já não me encanto.
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A ti, que pareces ser o que queres parecer ser… digo-te:
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– O fumo mostra.
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Tu, que és de conhecimento de qualquer partícula do muito ou do pouco e até da esperança de não saber…
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Digo-te com o atrevimento de quem pensa pouco no que diz:
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– O Sol, a luz e o dia vencem e perdem.
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Mas se tiver de ser, perdem e perdem como o eclipse, o reflexo lunar, o lusco-fusco, a penumbra, a sombra, a noite e o passado.
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O medo esconde-se na luz e escondemo-nos na noite.
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Como o temor divino do trovão e o espanto da luz calada do Demónio.
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Sem pensar não chegarás ao silêncio mas as tuas perguntas não se ouvem.
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Diz-me o que é o silêncio.
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Não to posso mostrar porque apenas na soberba da modéstia exagerada.
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Fico assim parecendo-te vago ou estúpido.
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Modestamente estúpido.

A novidade


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Novo não será nem foi. Haverá tanta coisas assim perenemente caduca mas não me ocorre nem me apetece o aborrecimento de procurar nem me dá vontade de saborear a vitória ou o sangue da derrota.
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Por isso e porque quero, é. Porque aqui é o meu querer todo dos momentos, da glória ao arrependimento.
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Por isso, tanto me faz.
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Por isso, novo não será nem foi.

terça-feira, junho 04, 2019

Como também se faz o negro


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Se não sabe o escuro não compreende a cor. O negro se faz pelo vermelho e demora a explicar as outras quase quanto a vida e o seu sentido.
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Demorado de contar resume-se a deixa lá, um dia conto.
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Se incompreende, talvez um dia conte.
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Como o espanto do assalto pela bolsa ou a vida, talvez um dia.
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Possa o cego ver e o tolo compreender.
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Que o escarlate furtivo do fazer vida é negro.
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A luz-negra dá à luz a inclaridade e a sombra da sombra.
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Não há verdade que a luz não revele até essa.

domingo, junho 02, 2019

Os estranhos


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Só falo aos estranhos que conheço, incerto de desencanto.
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Estrangeiros, caminham paralelamente afastados à distância duma mão.
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Excepcionais, falam línguas que não conhecem além da boca.
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Extraordinários, juram palavras de bondade, guardando os enganos na boca com que beijam.
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Nem os desastres configuram os rostos desfigurados no leito da água de toda a maneira.
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A água não mente, mas com água se.
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Deitado no leito da água trago e também o intragável.
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A água traz e o barco leva e a água leva.

sábado, junho 01, 2019

Previsão do tempo

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Previsão meteorológica:
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– Céu limpo e calor temperado.
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Quase como aqueles dias todos, de calor desmesurado, onde distante mais distante estive enganado na vida.
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Lá fora como nesses dias, a imprevisão meteorológica:
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– Chuva em cada feixe e congelação na ascensão ao Inferno.
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A previsão meteorológica:
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– Céu limpo e calor desmesurado.
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Longe só à noite o repouso em bem porque foram tempestades da vontade.
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Se veleja ao contrário do mar não há previsão se haverá uma praia para pernoitar seja a que for.
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O tempo é inexacto.

quinta-feira, maio 30, 2019


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É a esquina, a paragem para a vista e conhecer que as estradas são rios e o caminho obrigatório não é das marés e das correntes, é do que tem de ser.
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O resto são o beijo da chegada e o abraço da partida. Tanto faz.

quarta-feira, maio 29, 2019

Dela cair


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Bebi do copo na fonte e da boca e deixei-me molhar no tempo dela cair e da geada se formar.
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As pedras cinzentas banais do coração molhado são-me do que quiserem e não as querendo.
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A água é ponte daqui lágrima e dali vida.
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Se a água é parda e o pesar manda por si.

Gatos porque os vi ao Sol


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Um dia voltarias, assim o Verão chegasse no minuto quando entra a primeira brisa levando as cortinas de finura translúcida e o gato a recolher-se como doutra vez igual ou diferente.
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Falavas-me da Lua e dos gatos, das Luanas e da Lua, das Lunas e da Lua e dos gatos da Lua, como todos os gatos.
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Sabes como sei da luz e dos incensos, da magia mística junta a folhas de plantas esquisitas e outras, acolhidas nas caixas de madeira e embutidos de osso, não escondidas e sim recatadas.
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Sabes dos cheiros do que não fumámos.
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Sei desse ímpeto, coisa de bichinho perfurador e hoje sei explicar como sabia e ainda. Recordo-me da minha sombra na areia e do frango junto à estrada da volta.
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Dos gatos tibetanos bebendo nas taças e a luz forçando as cortinas na entrada com o vento nas tardes infinitas até às noites.
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Como breve se foi sem nada ficado como os gatos na luz e no luar. Sem te amar foste e no ficares foste amada. Saíste como chegaste como os gatos do telhado à luz e ao luar e ainda mesmo nas casas.
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Sabia que voltarias sem que te amasse e esquecida me lembrasses dos gatos, da Lua, das Luanas e das Lunas, das taças tibetanas, dos incensos e disso tudo que unidos nos separaram.
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Não por isso e ficamos assim numa sombra na praia, estéreis.
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Estéreis mudos esquecidos por só por lembrar se lembra, estéreis. Se não ficou foi para não ficar, só centelha por causa de ver um gato ao Sol.

terça-feira, maio 07, 2019

No Museu de Santo António


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O meu pai não pintou muito temas religiosos, quase nada. Talvez por ser lisboeta ou por ser do mundo, Santo António ficou bem no coração do mestre e este é um dos raros trabalhos nesta temática.
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Hoje libertei esta pintura a petróleo, que encontrou casa no Museu de Santo António. Situado junto à Sé Patriarcal de Lisboa, é uma reunião pequenina, tratada com rigor e agrado. Quem quiser pode ser rápido ou demorar-se.
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Agradeço a disponibilidade e o acolhimento de Pedro Teutónio Pereira, responsável pelo Museu de Santo António.
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Nota: A fraca qualidade da imagem não se deve ao pintor, mas ao fotógrafo (eu).

Estrela da Sé, por causa do Santo António


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Comi a melhor musse de chocolate. Quase aos cinquenta, o doce das crianças é-me, sem qualquer memória daquela, qualquer coisa que, não o sendo, é luz, por falta duma banal palavra – acontece falhar um termo no conceito-língua. Como pude esperar. Aguardei porque há o dom da ignorância e do privilégio do conhecimento.
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Não pergunto, sou claro: como pude esperar. Graças – a quem ou quê, na falta doutra coisa-ser – ao dom da ignorância e do privilégio do conhecimento.
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O resto já sabia. É comida do sempre, da Lisboa do meu pai – a minha mãe não é daqui. Dá tanto trabalho explicar, muito mais do que dizer. Vagamente, guardando por pirraça, sedução ou impaciência.
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Se não sabem, leiam a cidade inexistente – ainda antes dos turistas a ocuparem –, passem os olhos pelas ruas fixadas na verdade das fotografias e na infidelidade dos traços.
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Se não sabem é porque foram morrendo, movendo-se para a borda da terra e sem vergonha de perderem a aldeia da foz do Tejo – todas as aldeias definham, assim Lisboa.
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Perto da Sé, só não conhece o milagre da sobrevivência quem não olha para cima nem para baixo, apenasmente para uma coisa qualquer que nos livrinhos e cibernáticos se lêem.
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A Estrela da Sé existe, não está escondida, não foi devassada e é uma verdade, porque não é quem não é. Não finge o passado nem se nega a qualquer vento de feição que possa soprar para a tal-coisa-que-preguiçosamente-se-chamará-luz.
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Há as ceboladas, os bacalhaus, as veganices e a musse de chocolate.
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A musse tem segredo à vista como a casa de pasto. Não se esconde nem se exibe. Só não vê quem.
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A Estrela da Sé é o que é e tenho a certeza de quem ama o que faz – e com a chave da porta da mina de ouro – é fiel, não se vai embora, porque pertence à cidade.
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Só quem não leu a cidade pode incompreender.
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Nota 1: voltei hoje ao Estrela da Sé, por milagre de Santo António, taumaturco com o menino que o meu pai pintou e ficou para o Museu de Santo António – ali juntinho à Sé Patriarcal de Lisboa.
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Nota 2: A qualidade da imagem é péssima, não por culpa do pintor, mas do fotógrafo (eu).
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Espelho

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Se voltasse voltava para não voltar a sentir-me assim como me sinto, volta-não-volta, por me voltarem, à cabeça, dias que estraguei.
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Que vergonha!
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Como me posso vestir sem ver ao espelho? Como me posso ver com a memória? Porque, não há volta a dar. Como me posso vestir sem ver ao espelho. Como me posso ver com a memória.
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Disso tudo, saboreio as canções. Do resto.
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Resta-me saber o bom e entristecer do mal.
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Sinceramente, não se ralam – quase certezo.
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Sei, lembro-me e envergonhado.
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Não há volta a dar.

quinta-feira, abril 25, 2019

Pai hoje


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O meu pai – nesta vida – faria hoje noventa e cinco anos. Hoje era o melhor dia, não pelo seu aniversário. Era supremo, dizia que esse, o de setenta e quatro, fora mais feliz do que os da luz de qualquer um dos seus três filhos.
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Manuel Jorge afirmava-se comunista – não porque o fosse por absoluta convicção, mas pela gratidão aos tombados contra o Estado Novo. Assumia-se, ainda que, ocasionalmente, vertesse em incontida denúncia de engano.
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A verdade – a sua, generosa e real – corria-lhe íntegra. Como outras coisas, nascia-lhe infantilmente e seguia em curso selvagem. Por essa consciência, nunca quis ser um combatente da ditadura – não se sentiu capaz de ajudar, por isso recusou-se a estragar.
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Escolhera assim ser comunista. Não o sendo, era-o, porque, tal como ele, o pensamento era autoritário. Os pais não são perfeitos, o meu era dogmático, com a violência emocional que tal implica.
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Sei que numa ditadura comunista, Manuel Jorge seria anticomunista, porque amava a liberdade. Para si e para os outros, mesmo sendo tirano em família. O meu pai era uma contradição!
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Tanto era comunista quanto dizia que talvez não o fosse, mas grato, foi com bondade que se ligou ao Partido Comunista Português.
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O meu pai era verdadeiro e íntegro! Já agora o escrevi.
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Como agora, escrevi que se ofereceu ao Partido Comunista Português, repito. Deu-lhe tudo e nada recebeu em troca, nem pediu ou desejou. Como artista plástico – dono do seu tempo, vítima dos ganhos em moeda e da irregularidade do recebimento  – deu-lhe tempo de trabalho, materiais e disponibilidade para tudo o que fosse preciso, fosse como trolha na Festa do Avante ou segurança do recinto.
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Aos setenta e muitos anos, Manuel Jorge estava insensível das mãos e trémulo dos olhos. Foi morto pela natureza, chegou ao fim a arte nos dias. Do Partido Comunista Português não recebeu qualquer homenagem – coisa que não exigia nem gostaria –, louvor ou agradecimento. Foi abandonado, como são abandonados, nas ditaduras, os sinceros e os inúteis. Manuel Jorge era ingénuo, mas inteligente e sábio – teve o infortúnio de ser genuíno e franco.
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Não por vaidade nem por orgulho ofendido – nunca quis a justiça com que deveria ter sido tratado pelo Partido Comunista Português –, Manuel Jorge percebeu que não era comunista e, nos seus últimos anos neste corpo, nesta vida, feneceu sem o dizer – nunca o diria, não por vergonha, só era assim o seu modo.
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Um dia, o cobrador das quotas bateu-lhe à porta para colher o dízimo, a parte da renda do senhor terratenente, e Manuel Jorge falou com o humor de toda a sua vida, a brutalidade da sua franqueza e a ingenuidade dos autênticos.
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A minha mãe disse-me:
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– Não sei o que o teu pai lhe disse.
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O recebedor saiu porta fora, batendo-a incrédulo e ofendido, remoendo qualquer coisa de ódio. Manuel Jorge nunca contou dessa curta conversa, nem mostrou sentimento, nem suavemente.
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Manuel Jorge não deixou de ser comunista por causa do abandono. A arte finou-se em mil novecentos e oitenta e oito e o cobrador resmungou pouco tempo antes de Manuel Jorge ter cumprido a sua vida, em dois mel e quinze.
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Deixou de ser comunista porque era sábio – da sua sabedoria. Possivelmente, deixou de ser ingénuo, continuando franco, directo e frontal.
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Como comunista, ganhou rancor ao Partido Socialista e a Mário Soares, por causa dos anos do Período Revolucionário Em Curso – nunca desejou a morte de ninguém, mas, se pudesse, mandava o político para um sítio em que não o visse nem ouvisse nem pressentisse.
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Com a genuinidade de quem tem uma certeza, afirmava que, se não existisse o Partido Comunista Português, seria do Partido Social Democrata e até tinha simpatia por Francisco Sá Carneiro.
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Já o escrevi outra vez agora, Manuel Jorge era ingénuo. O meu pai acreditava que os fachos estavam no partido do Centro Democrático Social – afastou-se do catolicismo romano por causa do padre da paróquia de Santa Engrácia, que fazia campanha a partir do púlpito. Vertia cólera devido às desavenças dos primeiros dias de liberdade e do terrorismo ideológico – na verdade era cruzado, recíproco.
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Manuel Jorge tinha essa zanga, porque era ingénuo – escrevi novamente agora. O meu pai não percebeu que muitos, talvez quase todos, não apoiavam a ditadura por ideologia, mas por situacionismo – faziam pela vida e a revolução estragou-lhes a existência.
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Esses – não sabia – queriam a fonte no bolso e mudaram-se para os partidos que vencessem nos votos. Para o Partido Socialista e para o Partido Social Democrata, sobretudo para este último.
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Tenho quase a idade que Manuel Jorge tinha no vinte e cinco de Abril de mil novecentos e setenta e quatro. Não sou mais sábio do que o meu pai – muito longe disso. Viveu muito mais do que eu até esse dia, até depois. Porém, só me falta um ano.
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Apesar de ser também ingénuo e tristemente frontal e verdadeiro – da minha verdade – sou muito menos do que ele, mas já vivi alguma coisa e anos diferentes dos seus, em tempos e idades diversas. Conta-me a existência que os fachos – os reacças falam pejorativamente da revolução como abrilada e do vinte e cinco do barra quatro – estão sobretudo num lugar diferente do que acreditava o meu pai.
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Manuel Jorge faria hoje noventa e cinco anos. Era religioso por ânimo e revoltado com a Igreja Católica por azar – nunca o desdisse. Embora eu sendo cristão espírita, dei-lhe, por respeito – também pela família –, um funeral católico romano. No final da liturgia falei ao padre – depois escrevi-lhe a agradecer – o quanto admirei a homilia, porque fizera do meu pai um homem e não um santo.
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Manuel Jorge, na sua verdade genuína e franca, afirmou tantas vezes que a morte não torna as pessoas boas. O meu pai era ingénuo, mas era sábio.
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Já agora que revelei que foi dogmático e totalitário – o que os íntimos sabem –, nunca me criticou por eu ter deixado precocemente a fé na religião comunista. Também tolerou, com idêntica abertura, eu ser apoiante – quase sempre – do Centro Democrático Social.
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O meu pai era uma contradição. Mas.
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Por tudo o que foi o meu pai – desta vida – faço-lhe, como sempre fiz, uma homenagem, onde cabe um brinde com o melhor vinho que tenho em casa.
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Apesar de todos os muitos seus defeitos, amo muito Manuel Jorge. Das poucas virtudes que tenho, a maioria devo-as ao meu pai.
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