digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

sexta-feira, agosto 14, 2026

Clã McMesa


 

Re-recordação do amigo João Paulo Guerra

.

As guerras são horrores, mas são também pretexto. Motivo justificativo para reatar conversas. Enquanto o fogo infernal vai fazendo estragos, veio à memória uma anotação acerca dum conflito com décadas.

.

Um dia, o chefe-mestre-amigo disse:

.

– Urânio enraivecido.

.

Duas palavras que juntas têm dois significados idênticos, mesmo que essa particularidade não seja óbvia na primeira leitura. A expressão «urânio enraivecido» é uma síntese. Interprete-se duramente ou gracejando, resume violência. É uma crítica irónica à barbaridade dos exércitos e um juízo moral.

.

Decorria a Guerra do Kosovo – que desgraçou entre 1998 e 1999. Como o acerto das palavras e do tom que as embrulha podem ser mal interpretados, o «urânio enraivecido» foi apagado do ficheiro Word da notícia. Optou-se pelo sisudo, formal, rigoroso e unânime «urânio empobrecido» – material que tem nefastas consequências para a saúde, derivado das poeiras radiológicas.

.

Mas, ao longo dos anos que trabalhei com ele, o João Paulo Guerra disse mais coisas. Naturalmente sobre assuntos menos cruéis e, por isso, gerando risos descomplexados e livres. Diariamente fui aprendendo com esse chefe que foi também mestre e amigo.

.

Trabalhar com o João Paulo Guerra, além da aprendizagem constante, foi uma colecção de piadas inteligentes. Se a graça não começava nele, o amigo rematava. Fosse o primeiro, a equipa acompanhava a jogada.

.

Quase trinta anos depois e os estragos dos esgotamentos, é-me impossível escrever muito sobre os dias (concretos) passados com ele – ficou-me o bom-sentimento, obviamente. Além da raiva do urânio vêm rapidamente à cabeça dois outros momentos: uma remodelação ministerial – sei o primeiro-ministro, mas o ano não me chega – e uma nomeação intrigante – de data igualmente esquecida.

.

António Guterres, que chefiava o Governo, tirou vários ministros e secretários de Estado. Em poucos dias o executivo estava quase completo. «Quase» significa que faltava uma nomeação. Nas habituais conversas de bastidores não surgia um nome ou aparecia muita gente, o que resulta no mesmo. Os dias passavam, a oposição criticava e havia mal-estar no Partido Socialista.

.

– Como é possível tirar um membro do Governo sem ter alguém para o substituir?

.

Até que foi encontrada a pessoa para secretário de Estado da Defesa. Foi escolhido José Penedos, remodelado uns dias antes, deixando a secretaria de Estado da Energia. Justa ou injustamente, a oposição não ficou feliz e no Partido Socialista também se fez um bruá de descontentamento.

.

O João Paulo resumiu a nomeação num título factual e que dava conta das objecções:

.

«Penedos, era o que faltava».

.

Rigoroso e crítico. Ortodoxo e iconoclasta. Tendo em conta a novela, «todos» perceberam que se tratava dum remendo e visto com pouca aceitação.

.

A outra situação também ocorreu num título… aliás, não aconteceu. A ironia do título (provisório) iria criar um conflito desnecessário. Em jornalismo, impõe-se a verdade, mas há modos de a escrever.

.

Há uma nuance que vale a pena referir. Trabalhar com o João Paulo implicava uma permanente actividade criativa. Nos meus trinta e seis anos de jornalismo é caso único. Por isso, a autoria poderia ser total, parcial ou inspirada. Surgiam umas reuniões espontâneas em que a imaginação explodia.

.

O caso seguinte aconteceu numa dessas situações. Não me lembro se a tirada foi dele – penso que sim, com 99% de certeza – ou de um de nós. Recordo-me que foi uma tarde de alegria. Ela resume o que era trabalhar com o João Paulo.

.

A Tratolixo é a empresa de gestão de resíduos urbanos dos municípios de Cascais, Mafra, Oeiras e Sintra. Naturalmente, tem gestores nomeados pelos autarcas destes concelhos. Nas escolhas deu-se uma polémica, resultante duma situação de relação familiar.

.

José Luís Judas presidia o concelho de Cascais. Tinha pertencido ao Partido Comunista Português e fora dirigente da Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses. Nas convulsões resultantes da queda das ditaduras comunistas, tornou-se crítico e saiu. Aproximou-se do Partido Socialista, que o pôs a encabeçar a candidatura a esse concelho. Resumindo: um concentrado de polémica, rancor e facada.

.

Foi escolhido José Manuel Judas, irmão do presidente da Câmara de Cascais. Na reunião quase permanente duma editoria, o João Paulo disparou:

.

«Judas põe irmão no lixo».

.

Foi dos momentos mais divertidos nos meus trinta e seis anos de jornalismo. Possivelmente o maior. Houve bom-senso e escolheu-se outro título.

.

Se não acredito na morte, não tenho mortos. Não choro, aguardo sem ansiedade o dia em que a conversa vai ultrapassar o tempo. Como não sou de saudades, guardo lembranças para mais tarde falar ao telefone.

.

É tão simples. Não vemos um amigo há trinta anos e quando nos reencontramos a conversa não tem idade. Essa é mesma distância quando a separação se faz nos dois planos da vida. É mesmo muito simples.

.

Naturalmente com a ternura que se deve aos amigos, escrevo-lhes um bilhete-postal – dedicado a quem viaja e a quem fica. Quando o João Paulo embarcou, o coração-cabeça disse-me que haveria de lembrar-me também doutros mestres e amigos.

.

https://infotocopiavel.blogspot.com/2024/08/barba-e-bigodes.html

.

As datas valem e não valem, depende do uso que se lhes dá e do espaço que permitimos. Passaram-se, há dias, dois anos dessa viagem do João Paulo. Tenho andado para escrever, não por efeméride, mas porque o coração-cabeça o impõe.

.

– João Paulo, só acabei o texto agora. Ainda dá para hoje ou fica para a edição de amanhã.

.

– Levanto uma página.

.

.

.

João Paulo Guerra – 16 de Abril de 1942 – 4 de Agosto de2024.

quinta-feira, agosto 13, 2026

Real Eclipse

.
Luís, Rei Sol. João, Rei Eclipse.

 

O cerco de Lisboa de 1384

.
A 17 de Agosto de 1384 as tropas castelhanas cercaram Lisboa. Nesse mesmo dia ocorreu um eclipse solar. As tropas portuguesas, como tinham óculos especiais, passaram os portões e castigaram os invasores. Todavia, os castelhanos só se foram embora a 3 de Setembro, não partiram antes porque doíam os olhos. Contrariamente ao que é habitualmente referido, esta imagem é relativa ao cerco da capital portuguesa e não ao combate em Aljubarrota.

 

quarta-feira, agosto 12, 2026

Para eclipsar o tédio 11

.
Eclipse? Não vou ver. Vi um noutra encarnação e fiquei cego.

 

Para eclipsar o tédio 10

.
Em Lisbon, no Dacota do Norte.

 

Para eclipsar o tédio 9


 

Para eclipsar o tédio 8

.
.
.
Nota: Desenas de tentativas, mas desisti. É o resultado menos mau.

 

Para eclipsar o tédio 7

.
É sempre a mesma coisa!... Demoras uma data de tempo para te despachares. A nave só dá cinco vezes a velocidade da luz!... Não dá mais! Acho que vamos chegar tarde para ver o eclipse solar.
 

Para eclipsar o tédio 6


 

Para eclipsar o tédio 5


 

Para eclipsar o tédio 4

.
Um eclipse! Uau! Que excitação!

 

Para eclipsar o tédio 3

 

Para eclipsar o tédio 2


 

Para eclipsar o tédio 1

.
No nosso planeta não há nada disto!...

terça-feira, agosto 11, 2026

Eclipse-de-quarta-feira

.

Aconteceu no modo de pensamento em dois lugares. Em sítios diferentes por impossibilidade de acontecer um encontro. Foi assim:

.

– Amanhã há eclipse solar.

.

– Sim.

.

– Conseguiste arranjar óculos?

.

– Não.

.

– Vi-me aflito para conseguir.

.

– …

.

– Procuraste nas farmácias e nas ópticas?

.

– Não.

.

– Onde procuraste? Não deves olhar directamente.

.

– Não procurei e não tenciono olhar, nem directa nem indirectamente.

.

– A sério?!

.

– A sério.

.

– Não tens curiosidade?

.

– Nenhuma.

.

– Nenhuma?

.

– Não. E então?... Não quero saber de eclipses nem Lua-vermelha nem super-Lua…

.

– Mas é um acontecimento raro. Um acontecimento equivalente só acontecerá no ano 2200… ou algo assim.

.

– Todas as noites posso ver a luz de estrelas que se apagaram há muitos milhões de anos… e também não tenho interesse nenhum. O céu nocturno é bonito, porque é escuro e tem pontinhos brancos, mas não tem mais nenhum interesse… O pôr-do-Sol é bonito, mas tem algum interesse? As auroras bureais são bonitas, mas têm mais algum interesse?

.

– O quê?! Estás a comparar um eclipse com coisas que acontecem todos os dias? Não tem nada a ver.

.

– Pois não. Ver um círculo tapar a luz do outro e ficar escuro é tão interessante como… sei lá… uma nuvem que parece um ursinho de peluche… aliás, interessa mais uma nuvem que iluda ou que estimule a imaginação do que uma coisa que, na melhor das hipóteses, deixa a boca aberta… e uma pessoa de boca aberta fica com ar aparvatado. Uau! Um eclipse!... Enapá! Que interessante! E bocejo.

.

– É uma coisa única! Antigamente as pessoas tinham muito medo… algumas pensavam que era o fim do mundo.

.

– Se fosse o fim do mundo talvez fosse interessante… mesmo assim, não. Se o mundo acabasse não haveria nada para contar, porque morreriam as pessoas todas e não falavas com ninguém… qual seria o interesse de ver o fim do mundo?

.

– Não acredito!... Como é possível não teres interesse numa coisa tão rara.

.

– Tão rara? Estás a falar do fim do mundo ou do eclipse?

.

– …

.

– O Bugatti Royale é uma coisa menos rara e sei que nunca verei nenhum. Ou seja, é mais fácil ver um eclipse do que um Bugatti Royale.

.

– O quê?!

.

– Para ver o eclipse posso pôr uns óculos e olhar para o ar. Ou nem pôr óculos nenhuns e estragar a vista. Para ver um Bugatti Royale nem sei onde o procurar. E se soubesse seria preciso poder ir vê-lo e poderá ser longe. Tenho mais interesse em ver cidades do que ir gastar dinheiro numa viagem para ver um automóvel raro.

.

– …

.

– …

.

– Se vires o eclipse, podes contar aos netos.

.

– Ah! O avô viu a Lua tapar o Sol. Ficou tudo escuro durante uns segundos. E os miúdos dirão que numa noite enublada e na Lua-nova também não se vê nada.

.

– Hã?!

.

– Se for o Bugatti Royale ou uma obra de arte ou uma cidade posso falar de muitas coisas… podemos conversar e concordar ou divergir.

.

– Hã?! Nem acredito!

.

– Então não acredites.

.

– …

.

– Depois do eclipse vais conversar sobre o assunto e dizes o quê? Ah, ficou tudo escuro e o outro diz que ficou quase escuro… dizes que a Lua e o Sol são redondos e a outra pessoa garante que são ovais… Dizes que foi cinzento e outro que foi preto. Que conversa fantástica!... que bocejo!...

.

– Nem acredito no que dizes. Estás a brincar, não estás? Queres meter-te comigo… és sempre o mesmo.

.

– Não me chateies mais com essa maravilha que não atrasa nem adianta.

sábado, maio 02, 2026

segunda-feira, abril 27, 2026

Irresistível como uma inglesa a falar francês

.

Chegava – às vezes olazava o pai e noutras ele dormia. Bife na frigideira, bastava aquecer, e bata frita mortiça e saborosa. Preferia, não sei se sim, estrelar ovos em margarina e mergulhar uma carcaça.

.

O prato num toalhete, copo de água à direita e a câmara dois em frente. Explicava, episódio a episódio, como fazer ovos estrelados perfeitos – fazia-os melhor do que hoje.

.

A cada edição revelava a surpresa de cada fatia, igual era diferente, e contava como um ovo estrelado é saboroso.

Dicionário: Rezar-alcoolizado

.

Constatar a beleza caduca.

domingo, abril 26, 2026

Jantar romântico para um homem só – revisitação

.

A minha memória já foi muito, mas porém. Do que escrevi, sei pouco. Jantar só é só tortura, a comida apenas alimento e nem há vinho convidado. Um dia.

.

Lembro-me dele, tal viesse alguém sentar-se comigo. Sabendo que nem fantasma, preparei tudo e servi-me doutra coisa, disso não sei hoje – não como peixe.

.

Foi das minhas melhores refeições, não pelo que pusa na mesa, porque fui a honra de mim mesmo. Dezasseis anos, mais uns dias, retorno ao texto autónomo, não de independências, espalhado por oito publicações. Aliás, regresso ao consolo desse jantar.

.

Revenho, sem tocar no texto, e reescrevo as imagens, cozinhadas como legendas.

.

.

.

.

1 – A mesa

.

Eu que gosto mais dos alemães sentei-me a ouvir Verdi.
.
No prato bacalhau à Braz acabado de fazer, com parcelas mínimas queimadas, que fazer um jantar sozinho é obra para muita gente.
.
Sala morna, porta fechada e cortinas corridas. Atrás da música não se ouve a chuva. As gatas entram e saem quando querem, nada exigem.
.
Oito velas acesas na casa, nem mais luz. Um vinho branco com vida e frescura certa. Pimenta preta na mesa.
.
Incenso de sândalo, para temperar aromas de prato. Gesto de fumo, oriental, o exotismo obrigatório num jantar de amor.
.
Toalha vermelha com limitados quadrados a branco. Guardanapo às riscas, azuis e brancas. A memória dum passado, recordações de mesa.
.
Depois do jantar, um jogo de cartas, paciências. Baralho novo. À primeira perco. À segunda a mediocridade. É sorte ao amor que aí vem.
.
Há amores que não valem este jantar.

.

.

.

2 – Quase luz

.

A quase luz não é quase escuridão. Uma vela que se apaga é uma falta notada na música orgânica de toda a claridade possível.

.

.

.

3 – Sem choro

.

Se chorasse tudo duma vez, os meus olhos morreriam de sede. Olhos com sede não deixariam ver o que vai na alma. A alma ardente sem água lançaria fogo ao coração. Coração queimado e sem água que o apagasse. Amor sem luz.

.

.

.

4 – Vela

.

Que esta luz não se apague, ainda que a música se vá. Porque uma música pode repetir-se, mas uma vela apagada nunca mais volta a ter vida.

.

.

.

5 – Medo

.

O que será a luz do medo? Uma evocação medieval, um arrepio como os outros. Luz nítida para a escuridão. Não será luz negra, mas luz para a escuridão, como a da esperança e da fé.

.

.

.

6 – Sombra

.

Há sempre sombra atrás da luz. Só a da fé não esconde. Por aqui, todos bem. Espera-se um outro dia. Depois do próximo, o próximo. Sente-se a macieza das mãos. As noites frias já o foram mais. Não se fala do tempo. Todos esperam que o telefone toque, mas não agora, não hoje. Que haja alguém que se preocupe.

.

.

.

7 – O claustro

.

Dentro destas quatro paredes evocam-se fantasmas, idos há muito. Lembranças de claustros e granito, outros corações desfeitos. O toque dos sinos, as trompas e a percussão solene a anunciar um cortejo. Sobre mim se levantam um cantar meu.
.
Um caminho de flores, o chão coberto. No carreiro do bosque, taciturno. A dança dos espectros, o canto chão, o canto dos anjos, um canto de laudas.
.
Por mim, não há manhã. Por mim, só esta escuridão monacal. , esta luz trémula. O medo da nudez.
.
Romperei a noite numa oração, com o frio do aço temperado. Solidão fria de Inverno.
.
Quando as luzes se apagarem será outra noite. Ainda tempo da oração perdida nos tragos de vinho. Que esta luz nunca se acabe e que jamais seja manhã.

.

.

.

8 – A cama

.

Quando finalmente me levanto para ir comigo para o quarto, vou demasiado ébrio para fazer amor comigo. Uma noite de emoções bastantes. O sono justo de quem não quer acordar de manhã ao lado de si mesmo.

.

.

https://infotocopiavel.blogspot.com/2010/02/jantar-romantico-para-um-homem-so-mesa.html

.

https://infotocopiavel.blogspot.com/2010/02/quase-luz-nao-e-quase-escuridao.html

.

https://infotocopiavel.blogspot.com/2010/02/jantar-romantico-para-um-homem-so-sem.html

.

https://infotocopiavel.blogspot.com/2010/02/jantar-romantico-para-um-homem-so-vela.html

.

https://infotocopiavel.blogspot.com/2010/02/jantar-romantico-para-um-homem-so-medo.html

.

https://infotocopiavel.blogspot.com/2010/02/jantar-romantico-para-um-homem-so.html

.

https://infotocopiavel.blogspot.com/2010/02/jantar-romantico-para-um-homem-so-o.html

.

https://infotocopiavel.blogspot.com/2010/02/jantar-romantico-para-um-homem-so-cama.html

Dicionário: Fastio-equívoco

.

Fazer serenamente o que supostamente não se gosta de fazer.

sexta-feira, abril 24, 2026

Paraquedinhas todos os dias

.
Paraquedas com os seus primeiros donos.

.

Vinte e um anos e por ela rio todos os dias.

.

Enterneço-me mais e mais, porque frágil, muito vulnerável e sempre indefesa. Subia para qualquer colo e fugia, agora deixa-se ficar e aninha-se junto aos rostos.

.

Podia escrever um texto enorme só com emojis de < e 3.