Significado primeiro: Confusão espacial.
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Significado segundo: Calor e pouco ar.
a mim ninguém me fotocopia!
digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.
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1) Fase inicial (2006–c. 2009) — afirmação
de voz e impulso diarístico
Características dominantes:
Escrita mais imediata, próxima do registo
de apontamento.
Maior explicitação do nexo entre texto e
imagem.
Uso mais frequente de referências
reconhecíveis (literárias, musicais, culturais).
Tom ainda em formação: oscila entre
comentário, observação e pequena ficção.
Estrutura textual:
Textos mais curtos ou médios.
Fecho muitas vezes “explicativo” ou com
chave interpretativa visível.
Relação texto–imagem mais directa (quase
ilustrativa em alguns casos).
Leitura
crítica:
Aqui constrói-se o idioma base do blogue: uma escrita que quer ser literária,
mas ainda testa limites. Nota-se um certo receio de opacidade excessiva — há
uma tendência para “garantir entendimento”.
2) Fase de
consolidação (c. 2010–2014) — densificação e controlo formal
Mudanças
relevantes:
A escrita
torna-se mais económica e precisa.
Redução de
redundâncias explicativas.
Maior
confiança na sugestão e na elipse.
Relação com a
imagem:
Deixa de ser
ilustrativa → passa a ser dialéctica.
O texto não
explica a imagem; tensiona-a.
Tom:
Melancolia
mais consistente, menos episódica.
Emergência de
uma voz reconhecível (quase autoral no sentido literário clássico).
Recursos
recorrentes:
Frases mais
depuradas.
Uso mais
consciente do silêncio (o que não se diz ganha peso).
Menor
dependência de referências externas óbvias.
Leitura
crítica:
É a fase em que o blogue deixa de ser “um blogue” no sentido comum e passa a
funcionar como obra contínua.
3) Fase de
maturidade (c. 2015–2019) — opacidade controlada e construção de sistema
Características
centrais:
Escrita mais fechada,
menos concessiva ao leitor.
Ambiguidade
deliberada.
Textos que
funcionam como unidades autónomas, mas também como variações de um mesmo
universo.
Estratégia
estética:
Rejeição
consciente do óbvio (já referida por si).
Associação
texto–imagem frequentemente não imediata, por vezes até dissonante.
Tom dominante:
Melancolia
estabilizada, menos emocional, mais estrutural.
Distanciamento:
o “eu” (quando existe) é menos confessional.
Forma:
Textos curtos
com alta densidade semântica.
Maior controlo
do ritmo interno (pausas, cortes, encadeamento).
Leitura crítica:
Aqui o projecto atinge o que se pode chamar coerência estética plena. Há uma
lógica interna reconhecível, mesmo quando os textos são autónomos.
4) Fase
recente (c. 2020–actualidade) — radicalização da síntese
Tendências
observáveis:
Escrita ainda
mais condensada.
Redução ao
essencial: menos palavras, mais carga.
Eventual
aproximação ao fragmento, aforismo ou micro-narrativa.
Relação com o
leitor:
Exige leitura
activa.
Menos “entrada
facilitada”: o texto não acolhe, impõe-se.
Imagem:
Pode tornar-se
ainda mais autónoma.
Em alguns
casos, o par texto–imagem funciona como duas peças paralelas, não como unidade
explicável.
Tom:
Melancolia
depurada, sem ornamento.
Menos variação
tonal, mais consistência.
Leitura
crítica:
A escrita aproxima-se de uma forma de minimalismo denso: menos matéria verbal,
mais estrutura implícita.
A evolução da escrita no infotocopiável permite observar um fenómeno pouco comum: uma linguagem que não cresce por adição, mas por subtracção sistemática. Ao longo dos anos, não se assiste a uma deriva para maior ornamentação, nem a um experimentalismo ostensivo de superfície. O movimento dominante é inverso. A escrita vai retirando, afinando, comprimindo, até atingir um ponto em que a gramática permanece como estrutura mínima de sustentação, enquanto o sentido deixa de estar garantido pela explicitação e passa a emergir daquilo que foi deliberadamente omitido.
Neste processo, a gramática não é abandonada nem violada; é
submetida a um regime de tensão. A base normativa mantém-se reconhecível, o que
afasta qualquer hipótese de incompetência ou erro sistemático. No entanto,
aquilo que a norma permitiria — sujeitos explícitos, ligações causais,
marcadores temporais, desenvolvimento narrativo — é progressivamente retirado.
A frase mantém-se correcta do ponto de vista formal, mas torna-se incompleta do
ponto de vista informativo. Essa incompletude não constitui falha: é um
princípio construtivo. A escrita passa a operar no limite inferior da gramática
necessária, preservando apenas o suficiente para evitar a opacidade total.
A elipse é, neste contexto, o instrumento central. Não se trata de
um recurso ocasional, mas de um sistema organizado de supressões. Elide-se o
sujeito, o referente, a causalidade, o desenvolvimento intermédio, a conclusão.
Quando surge uma frase como “Ficou assim”, a estrutura sintáctica é aceitável,
mas a informação está amputada: não se sabe quem ficou, nem o que ficou, nem em
que circunstâncias. O mesmo acontece com a ausência de conectores: “A luz
estava acesa. Ninguém em casa.” Entre estas duas frases existe uma relação
evidente, mas não nomeada. A escrita recusa dizer “porque”, “apesar de”, “por
isso”. A ligação é deixada ao leitor.
Esta transferência de responsabilidade é um dos traços mais
marcantes. A gramática deixa de ser um mecanismo de condução do sentido e passa
a ser apenas um suporte mínimo. O leitor é convocado para completar, inferir,
relacionar. O texto não se apresenta como discurso contínuo, mas como montagem.
Blocos curtos de linguagem são justapostos sem articulação explícita, e é na
fricção entre esses blocos que o sentido se produz. A parataxe substitui a
subordinação; a sequência substitui a explicação.
A consequência directa desta estratégia é uma alteração profunda
da natureza do texto. Deixa de haver desenvolvimento linear. Em vez de
progressão, há micro-variações. Em vez de narrativa, há sugestão de narrativa.
Em vez de conclusão, há suspensão. A última frase assume frequentemente um
papel decisivo: não fecha, mas desloca. Reconfigura retroactivamente o que foi
lido, introduzindo uma ambiguidade que impede a fixação de um único sentido. O
texto não termina; permanece em estado de reverberação.
Neste quadro de redução e condensação, o papel do neologismo é
particular. Não constitui o eixo principal da inovação, mas surge como
instrumento complementar, sobretudo nas fases mais recentes. Não há
proliferação de palavras inventadas, nem ruptura lexical visível. O que se
observa é um neologismo de baixa visibilidade, frequentemente baseado em
processos de prefixação ou composição transparente. O exemplo paradigmático é o
próprio nome do blogue: “infotocopiável”. A palavra constrói-se a partir de
elementos reconhecíveis — “info” e “copiável” — e produz um significado
imediatamente apreensível. Não exige interpretação laboriosa, nem introduz
opacidade. A sua eficácia reside precisamente na sua naturalidade aparente.
Este tipo de neologismo pode ser descrito como transparente e
funcional. Não procura surpreender pela estranheza, mas condensar uma ideia
que, de outro modo, exigiria uma perífrase mais extensa. Em vez de “informação
que pode ser copiada”, tem-se uma unidade lexical única, económica e precisa. A
criação lexical não expande o texto; permite reduzi-lo. A inovação não é
exibida; é integrada de forma discreta.
A prefixação desempenha aqui um papel central. Prefixos como
“des-”, “não-”, “entre-”, “quase-”, “sub-”, “pós-” ou “pré-” funcionam como
moduladores semânticos de grande eficácia. Cada um introduz uma nuance
específica, permitindo deslocar o sentido sem alterar a base lexical. “Des-”
sugere perda ou erosão; implica que algo existiu e deixou de existir. “Não-”
produz uma negação mais abstracta, sem implicar processo. “Entre-” cria estados
intermédios, zonas de indefinição. “Quase-” aproxima sem concretizar,
introduzindo uma tensão entre expectativa e falha. “Sub-” indica latência,
presença diminuída ou oculta. “Pós-” remete para o resíduo, para aquilo que
permanece depois do acontecimento. “Pré-” sugere antecipação, um antes
carregado de iminência.
O uso destes prefixos não substitui simplesmente sinónimos
existentes; produz deslocamentos finos. Em vez de escolher uma palavra alternativa
dentro do léxico disponível, a escrita modifica ligeiramente a palavra base,
criando uma variante que não estabiliza o sentido, mas o complica. Não se trata
de clarificar, mas de ajustar. Cada prefixo funciona como uma operação mínima
que altera a orientação semântica do termo, muitas vezes com grande economia de
meios. Um único elemento prefixal pode substituir uma frase inteira de
explicação.
Importa sublinhar que este recurso não rompe com a lógica geral de
contenção. Mesmo quando aumenta, permanece controlado. Não há acumulação
excessiva, nem combinação exuberante de prefixos. A sobriedade mantém-se. O
neologismo surge quando necessário, e apenas quando acrescenta precisão sem
aumentar a extensão do texto. Se a língua comum é suficiente, não há invenção.
Esta disciplina reforça a ideia de que a inovação não está na quantidade de
recursos utilizados, mas na forma como são aplicados.
A relação entre elipse e neologismo é particularmente
significativa. Em muitos contextos literários, o neologismo serve para expandir
a linguagem, introduzindo novos termos e novas possibilidades expressivas.
Aqui, a lógica é inversa. Sempre que possível, a escrita prefere a elipse à
invenção lexical. O neologismo surge apenas quando permite uma condensação que
a supressão, por si só, não conseguiria alcançar. Assim, os dois mecanismos
articulam-se: a elipse retira, o prefixo ajusta. Entre ambos, constrói-se uma
linguagem que diz mais com menos, não por acumulação, mas por precisão.
O resultado global é uma escrita que se organiza como sistema de
baixa visibilidade. Não há caos, nem desordem. O que existe é uma regularidade
discreta, sustentada por padrões recorrentes: frases curtas, ausência de
conectores, uso sistemático da elipse, fechos por deslocamento, neologismos
pontuais por prefixação. Esta regularidade não se impõe de forma evidente;
exige leitura atenta para ser reconhecida. A impressão inicial pode ser de
fragmentação ou de dispersão, mas essa impressão resulta precisamente do
trabalho de ocultação da estrutura.
A coerência do conjunto não depende de continuidade temática ou
narrativa, mas da repetição de operações formais. Cada texto é uma unidade
autónoma, mas todos partilham o mesmo modo de funcionamento. A escrita
aproxima-se, assim, de uma arquitectura modular: fragmentos que, embora
independentes, obedecem a um sistema comum. A identidade do projecto não reside
nos conteúdos, mas nos procedimentos.
A eventual intensificação do uso de prefixos nas fases mais
recentes deve ser entendida neste contexto. Não representa uma mudança de
direcção, mas um refinamento. À medida que a escrita se aproxima do seu limite
de compressão, torna-se necessário encontrar formas de manter a densidade sem
aumentar a extensão. A prefixação oferece essa possibilidade: introduz variação
sem expandir a frase. Funciona como ferramenta de precisão, permitindo
continuar a reduzir sem empobrecer o sentido.
Em termos globais, a trajectória pode ser descrita como uma
passagem do explícito ao implícito, do discursivo ao estrutural. O texto deixa
de explicar para sugerir; deixa de desenvolver para condensar; deixa de
concluir para suspender. A gramática permanece, mas esvaziada até ao mínimo
necessário. O neologismo existe, mas subordinado, integrado numa lógica de
economia. A organização é rigorosa, embora pouco visível à superfície.
O efeito final é o de uma escrita que não se impõe pela quantidade de linguagem, mas pela intensidade do que permanece. Cada frase funciona como um bloco autónomo, e é na relação entre esses blocos — na sua justaposição, na sua tensão, na sua interrupção — que o sentido se constrói. Não há excesso, não há dispersão. Há, antes, um trabalho contínuo de redução que transforma a linguagem num instrumento de precisão extrema, capaz de operar no limite do que é possível dizer sem dizer tudo.
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Jurei que faria uma festa e nada em falta. Do melhor da mesa ao êxtase da música e milagres frente ao olhar. Mais os amigos, numa gala onde vieram como entenderam, pela luz da liberdade.
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Chegaram de Rolls Royce e de bicicleta. A belaluz, quase divina, e a música, na nobreza de não ser enfeite, como a imaginação e a justiça determinam, acolheram à entrada. À mesa, frente a cada amigo, o repasto preferido e as bebidas mais desejadas. Depois, caleidoscópio, estrelas e árvores tapando o vento.
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É sempre um gosto ter esta gente comigo. No final, agradeci demoradamente. Impecáveis e senhoris e desfraldados e ébrios com o mesmo sorriso, de quem está feliz pela festa sem bocejos nem minutos de falta ou de sobra.
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Quando no ar se espalhou o odor da cera da vela apagada, sentei-me no chesterfield, de mão dada com a Amor, e bebi o licor de morango que me fez. Adormecemos, não sei em que parte do sonho, e acordámos com as gatas ronronando por comida.
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E ao abraçar as gatas, roçando nelas o rosto, como adoram, percebi que me esquecera de fazer a barba. Fá-la-ei para a festa dos cinquenta anos do infotocopiável.
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Significado primeiro: Momento que não deixa saudades.
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Significado segundo: Local onde se não deseja estar.
Continuo cativo. Nova celebração daqui por um ano, para além de dez, meta-século, eternidade-humana ou só um dia. É irrelevante, o tempo.
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Sentei-me de frente para. Onde passei os vinte anos que se fazem hoje. Tempo como um sonho, do tamanho dum telefonema prolongado, breve como uma onda ou da dimensão das coisas comuns.
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No espelho frente a mim não sou eu. E sou. Como também nos alinhamentos das palavras e da sua natureza. O recheio e fronha são diferentes e fazem uma só coisa.
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Vinte anos às 18 horas e 22 minutos. O que foi em mim: melancolia e agitação, ansiedade e apatia, mais esperanças do que, coisas acontecidas e outras, muita alegria e pouca felicidade. Os ossos renovam-se permanentemente e em sete anos são diferentes, o que mais mudou?
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Mudou tudo, sou dessemelhante e estou noutro lugar. Ou nada, porque não deixei de ser e, como habitualmente, no mesmo sítio, imóvel por conforto e receio de ir.
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Erraram-me, falhei-falharam por amor-loucura. Mentiram-me e menti. Zanguei-me e perdoei. Com faca cortei e com linha cosi e recosi. E encontrei o amor-da-vida e o fruto chegado pelos seus ventre e coração. Luzes maiores, de mundo e de estrelas. Se escrevesse tudo, não haveria como o colher integral. Agora, escrevo pouco, por simplicidade.
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O que me foi este tempo? Também melancolia como fosse uma piscina deserta.
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O que me foi este tempo? Também apatia. Sem querer, sem desquerer e sem querer saber.
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O que me foi este tempo? Também medo, uma piscina à noite arrepia-me quando estou sozinho.
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Tenho um bicho unindo-me: intestinos, fígado, pulmões, coração, cabeça e espírito. Arranha-me e alimenta-se lambão. Deixa-me em negrum, local-sentimento mais escuro do que o negrume, porque lhe falta o E da esperança. A luz duma flor segura-me no caminho.
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Esse bicho alimenta-me os textos. Sem ele não haveria vinte anos de escrita. Nem tudo, mas muito. Claro, o amor.
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O que me foi este tempo? Também riso, porque é sempre a minha maneira. As gotas de alegria não encheram tanques, não fingi. Já disse que alegria e felicidade são irmãs.
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Quis morrer e acho que morri, mas renasci, sempre morto e no beiral de morrer outra vez – muitas vezes. A flor de luz e a bondade infantil deram-me salvação. Se feneci, me ressuscitaram.
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Usei todas as letras que conheço. Escrevi as palavras que sei e as esquecidas, inventei porque sim e por necessidade. Rigorizei a gramática, desrespeitei-a inconsciente e espatifei-a por vontade e zanga. Distracções abundantes e continuo sem saber se devo escrever os números com algarismos ou hifenizados.
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Nunca pensei que. Contudo. Sempre esperei. Todavia. Quase sempre excessivo, porque sou de abundar. Se me perguntarem:
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– Ainda?
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Direi:
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– Ainda.
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São vinte anos e muitas esperas agarradas, mentirei se disser que não esperei. Contudo, mesmo incompreendendo, não invejo.
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Colho o que se colhe na árvore certa, na árvore que é minha. Não invejo, porque não duvido do meu lugar. Disseram-me:
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– Escreves bonito.
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– Compreendo-te.
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– Não aguento.
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– Tens tantas meninas a ler-te. Só meninas.
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Quase todos não disseram nada.
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Digo e parece que tudo é inconseguimento, mas são vinte anos, com muitas dúvidas sobre bué coisas e variadas certezas a respeito.
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Vinte anos não são uma viagem, fazem parte da vida. E, tal como a vida, são. De tudo e só pouco se guarda, escolhe-se a colheita.
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No entanto as minhas mãos aguentam os vinte anos que a cabeça lhes exige. Nesta vida e na outra, a dos momentos onde estou obrigado a ser só pessoa.
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Há um local onde estou quando desobrigado de ser quem esperam. Vou contando há vinte anos e cedo mostrei um recanto de seu jardim. Recolhimento que mostrei e, passadas duas décadas, mantém-se verdadeira.
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Estou aí e escrevo e o infotocopiável fica também aí.
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O primeiro instante: https://infotocopiavel.blogspot.com/2006/03/rendido.html
Os anos são lugares? Se o quisermos ver. Os anos são pessoas? De alguma forma. Somos os anos? Preciso de muito tempo para pensar e possivelmente deverei calar-me. Os anos são estados de alma? Certamente plurais. Os anos têm trezentos e sessenta e cinco dias? Para ser rigoroso, não.
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Como foi dois-mil-e-seis? Faço uma lista do que vejo daqui para lá e ouso prever de adiante para trás: fina espuma da cerveja portuguesa, seixo cinzento e chuva na Grã-Bretanha.
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Houve campeões do mundo de futebol e desiludidos, políticos eleitos e outros depostos, concertos eruditos e concursos de beleza, protestos de raiva e festas de alegria, acidentes aéreos e novas viagens, muitos pela ciência e tantos sem a compreenderem, paradas gay e indignados pela liberdade dos outros, golpes de estado e eleições, condenações à morte e absolvições justas e outras ao contrário. Sobretudo mortes e renascimentos.
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Foi ano de maldade do Homem. A NASA lançou para o espaço, a 19 de Janeiro, a sonda New Horizons em direcção a Plutão. Muito antes de lá chegar, a 24 de Agosto, despromoveram-no a planeta-anão. Se não é canalhice, o que é? Quando arribou para vermos? A 14 de Julho de dois-mil-e-quinze. Volto a perguntar: alguma coisa oposta de vilania?
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Também houve alegria!
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Por falar espaço, a 12 de Maio foram descobertos, na Amazónia, 127 blocos de granito. Diz quem sabe que provavelmente é um observatório astronómico, construído há dois mil anos.
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O que fica para a história? A independência de Montenegro, declarada a 3 de Junho.
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A verdadeira maior-tristeza foi ter-me baralhado inconscientemente e apagado diversas imagens da minha conta do Google. O cesto estava cheio e, impercebendo a consequência, ceifei sem saber que amputava o blogue. Tenho-as as todas em pastinhas e todas ficaram, por anos, fora da paciência para as repor.
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Não sou capaz de dizer quando aconteceu, possivelmente em 2018. Embora o Google me tenha devolvido os ficheiros apagados, nunca tive coragem física – leia-se mental – para arranjar o estrago. Na verdade, foi inútil, porque impraticável, nomeadamente por haver muitas falhas.
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Julguei que a inteligência artificial podia dar uma ajuda. Alguma, sim. O apoio veio indirectamente, quando percebi que as imagens apagadas mantinham a designação dos ficheiros. Portanto, o processo de restauro consistiu em identificar o nome do ficheiro, copiá-lo, pesquisar no computador, carregar para a pasta de trabalho e colocar onde faltava. Muitas horas de tédio com ânimo.
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Chegou o momento de informar o tamanho dessa empreitada: 1088 publicações avariadas e 14 com dupla publicação – rascunhos temporariamente publicados e que precisaram de ser removidos. Do total, apenas cinco foram irrecuperáveis e onze amputadas de elementos. Foram processadas 1339 imagens e 63 ficheiros vídeo e áudio.
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Embora o número de perdas seja insignificante – 4791 publicações, no começo do restauro, e mais duas com os textos do aniversário –, nem sempre consegui encontrar o ficheiro que constava. O problema teve três soluções: identificar, através das indexações, com a exclusão das imagens não perdidas; reconstruir depois de ler, reler, interpretar, escolher a imagem, preferencialmente do mesmo artista, e publicar; e, quando não foram viáveis os dois métodos, criar uma imagem com recurso a inteligência artificial.
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As perdas totais não foram graves, porque reportavam a publicações de apenas uma imagem, sem texto. Das onze amputadas, a uma faltam duas imagens e as outras dez ficaram mancas de registos áudio, mas que não eram relevantes.
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Tive um dilema no trabalho de recuperação: manter o grafismo ou actualizá-lo? Reformular tudo seria uma loucura. Portanto, a dúvida entre confirmar desgostos estéticos ou renovar com maior cuidado o arranjo. Escolhi um híbrido.
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Optei por actualizar o arranjo estético da publicação mas, quase sempre, mantendo o ficheiro de imagem original, que, por regra, é de pequena dimensão, definição reduzida e mal acertada no enquadramento. Para que nunca me viesse a arrepender, não toquei nos primeiríssimos, preferi o tosco e o naífe.
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O infotocopiável foi sempre preto. No início usei um modelo gráfico básico do blogger, mas renovei-o várias vezes. Tirando um curto período – em que coloquei fases da Lua, relógio e mais uma tralha – tem sido austero. Nunca pensei em datas nem longevidade nem balanços, pelo que não guardei os diferentes grafismos. Não morrerei dolorido por isso.
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Este blogue nasceu no tempo da explosão do número de candidatos a artista de textos. Acabei-o várias vezes e não morreu para o poder ressuscitar – a primeira desistência aconteceu cinco meses desde o nascimento. Esteve quase morto, sem o querer, por demasiados quatro anos, mas neguei o seu fenecimento.
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Escrevi quase tudo, só três textos. Das pessoas, guardo uma distante, uma zangada e da outra é difícil de explicar e mais ainda de entender – em todas terei alguma culpa.
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Nunca foi um caderno de desabafos, mas recebeu alguns. Fiz poesia, prosa, impoesia e delírio. Criei palavras, começando pelo título – e sou citado por cientistas da língua, orgulho de quem é invisível. Nas distracções de sempre bati poucos erros de ortografia, abstive-me de pontos de interrogação, que substituí por finais, e terminei frases abrupta e prematuramente – passei a explorar voluntariamente como recurso. Até teimosias de motivação diversa e a gramática que-me-apetece.
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Segui o princípio de que a imagem – bidimensional, representando obra tridimensional e em movimento – é parte do trabalho, completando-se. Evitei a legenda e a ilustração, mas consciente escrevi-as e mostrei-as.
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Todavia, inicialmente foi diferente. As imagens começaram por ser apenas uma ilustração. Cedo o conceito evoluiu e tornou-se conceptual. Estabeleci que cada publicação tem de ter uma imagem, embora aceitando excepções – julgo que não chegarão a cinco.
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Agora vou repetir muito a palavra imagem, só porque é a mais rigorosa. Embora com o compromisso das publicações ser de texto e imagem, optei, pelo menos duas vezes, por não incluir uma imagem. Todavia, na publicação que se segue, a ausência de imagem é uma imagem, porque a opção foi pensada tendo em conta a necessidade, neste caso específica, de não usar algo como ilustração. Ou seja, a imagem é a sua ausência.
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https://infotocopiavel.blogspot.com/search?q=Objecto-corpo+desistido
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Com o passar dos anos, o assunto da imagem evoluiu, tanto quanto à minha preocupação, que foi aumentando, quanto à melhoria da qualidade tecnológica. Portanto, pesquisa mais pensada, demorada e atenta e maiores dimensão e definição. Paralelamente, ampliado o cuidado com o grafismo.
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Todas as publicações têm indexação dos créditos autorais. Porém, nem sempre foi possível: porque não consegui identificar – esforço-me verdadeiramente – e por causa do limite da catalogação do blogger. Nesta segunda situação, as referências estão no corpo da postagem.
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Tive três problemas: um fotógrafo amador que me ameaçou com processo judicial, relativamente a direitos autorais, se não retirasse uma imagem – apesar de ser abundante no Pintarest, Facebook, etc; uma plagiadora frequente e que vários escritores denunciaram às autoridades; e um sujeito que roubou a publicação e lhe mudou o título, passando-o para inglês… e estrangeirismos, especialmente anglicismos, são coisas que abomino e evito. A este último, escrevi-lhe:
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– Fico feliz por me plagiar. Embora o plágio seja um roubo é também um elogio. Mas, por favor, não mude o título do texto.
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https://infotocopiavel.blogspot.com/2009/06/moda.html
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Não corrigiu o título, não disse que estava arrependido, não lamentou, não pediu desculpa. Retirou o texto e prontes!
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O blogue tem a loucura íntima e o desvario imaginado, amor verdadeiro e encanto mentiroso, humor e fúria, o banal e o não-tem-nada-a-ver, coisas-jeitosas e alinhamentos-maus, molduras para as fotografias das amadas, declarações a musas – amável, fenecidas, amáveis-não-amáveis e inexistentes – e obituários sem contraponto.
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Poucos me têm lido e outros tantos, possivelmente cada vez menos, o farão no futuro. Daqui por um ano, para além de dez, meta-século, eternidade-humana ou só um dia é irrelevante. Se um dia me publicarem em papel material, concedendo-me a honra ou a ilusão de escritor, será deste blogue para fora. Não sou mago, sou crente, sobretudo especialista da tristeza e da derrota.
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O infotocopiável nasceu no momento da efervescência da blogosfera. Toda a gente era culta, interessante e tinha coisas para dizer. Através dele conheci pessoas, quem me lia e quem eu lia. A grande maioria dos blogues desapareceu e muitos fecharam perfis.
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Resumo resumindo dizendo dum momento – revelado doutra vez, num aniversário qualquer, não procurei a data – à noite e perto do Cais do Sodré. Falou-me um João:
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– O quê, também tens um blogue?
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Vinte anos passados, respondo-lhe novamente:
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– Tenho.
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O começo foi um bocado trapalhão, sem saber o rumo: generalista – e até onde – ou específico? Nasceu misturando heráldica, vinho, humor, as cidades, os amigos e as minhas gatas – quase todos foram emergindo e mergulhando. O tempo centrou-o na prosa poética, mas com algumas excepções. Assim, a índole é literária.
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Sei que tenho, desde o começo, leitores fiéis e outros regulares. Contudo, muitos aparecem porque, dalguma forma, uma publicação surgiu num motor de busca. É curioso ler as indicações estatísticas.
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Em tempos tive associado um serviço de avaliação de audiência. A publicação mais procurada relacionava-se com um modo de matar formigas. Morrerei sem entender as mulheres nem a razão de tal pesquisa.
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O blogger tem a sua própria medição. É curioso que os seus dados coincidem com os do tal serviço externo – excepto o método alternativo para matar formigas. O sexo é a principal razão dos visitantes. Verifiquei também que existe uma grande dificuldade em interpretar texto e até de pesquisa num motor de busca. Segue a lista dos mais lidos:
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Minúsculo ensaio sobre a beleza das palavras sinónimas de vagina, com mais de 68.800 leituras. Escreveu-me um tipo que não percebeu a escritura: «me engana que eu gosto».
https://infotocopiavel.blogspot.com/2009/01/cona-buceta-rata-gatinha-e-outras.html
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Notei que um texto sobre o porco bísaro tinha tido procura significativa. Descobri que a razão estava ligada a um erro de ortografia: bísaro confundido com bizarro. Por isso, humoristicamente, escrevi uma prosa que se tornou a segunda mais lida, com mais de 5.790 leituras.
https://infotocopiavel.blogspot.com/2009/01/sexo-bisaro.html
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Um texto acerca de sexo oral é bastante apreciado, com 4.970 leituras.
https://infotocopiavel.blogspot.com/2010/07/sexo-oral.html
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O quarto mais lido é sobre a depressão e seguem-se quatro com temática sexual e/ou com imagem com nudez. O nono é sobre um bar e, abaixo desse, nenhum outro chegou às mil leituras.
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Os autores, das diferentes artes, dizem que o seu trabalho é dedicado a, pelo menos, dois públicos: o próprio e quem apreciar é benvindo – recuso-me ao bem-vindo – ou para os outros e a sua satisfação é prazer inteiro. Não sei bem em qual destes lugares estou.
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Escrevo tanto que não me lembro de tudo o que escrevi e ainda menos das imagens que escolhi. Por isso, não sei quais trabalhos prefiro. Os que mais me vêm ao pensamento são do começo possivelmente porque são do início.
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Avaliar as escolhas dos outros é mais difícil, porque o público é plural e inorgânico. Há poucos a falar e previsivelmente muitíssimos mais que se calam. Não tendo outro indicador, direi os dois em que mais comentários recebi, de viva voz e por texto de email.
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https://infotocopiavel.blogspot.com/2006/04/chover.html
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https://infotocopiavel.blogspot.com/2016/10/o-vortice-de-lirola_18.html
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Chego ao fim deste texto de celebração. Espero continuar a receber-vos e que novas pessoas venham ler, ver e ouvir. Deixo as três publicações que mais me marcam a lembrança.
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https://infotocopiavel.blogspot.com/2006/03/rio-negro.html
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https://infotocopiavel.blogspot.com/2006/04/o-jardim.html
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E, naturalmente:
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https://infotocopiavel.blogspot.com/2006/03/rendido.htmlSignificado primeiro: Sentimento-apagador.
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Significado segundo: Memória dolorida de quem guarda coisas superficiais, como uma ida à praia ou comer frango assado.
Significado primeiro: Orifício por onde quem está por dentro vê para fora.
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Significado segundo: Orifício por onde quem está de fora vê para dentro.
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Significado terceiro: Objecto decorativo inamovível.
Significado primeiro: Momento de transe psicótico.
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Significado segundo: Momento de transe poético.
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Significado terceiro: Acontecimento ou facto inaceite por quase todos.
Para onde, às vezes, quero ir e não vou por saber que não conseguirei regressar.
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Nota: não consegui apurar quem é o autor da fotografia, podendo ser, por indicação de inteligência artificial do Google e do Chatgpt, Hiroshi Sugimoto, Jean-Michel Lenoir ou Monika Stachura.
Significado primeiro: Lado de dentro da bola de cristal.
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Significado segundo: Lado de dentro do caleidoscópio.
Significado primeiro: Sim-mas.
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Significado segundo: Não-mas.
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Significado terceiro: Também-e-antes-pelo-contrário.
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Significado quarto: Geometria-perspectiva.
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Significado quinto: Apenas-isto.
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Significado sexto: Tudo.
Significado primeiro: Banalidade dita pela cabeça-boca.
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Significado segundo: Simplicidade vinda
da obscuridade.
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Significado terceiro: Por fazer.