digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

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quarta-feira, novembro 04, 2009

Um vinho romântico, se faz favor

Estava a ouvir o «Octeto de cordas» de Max Bruch, uma composição para quatro violinos, duas violas, um violoncelo e um contrabaixo, quando me lembrei dum vinho...
- Será grave andar sempre a lembrar-me de vinho?
- Não será – disse-me o doutor – se os vinhos em que pensar forem de encantar. Esses não fazem mal, fazem bem.
- Oh! Senhor doutor... Os meus vinhos são todos de arte – magiquei.
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Na verdade desconhecia por completo esta obra deste compositor alemão do período romântico, nascido em Colónia em 1838 e ido em 1920. Desculpo-me com o facto de a obra ser pouco divulgada. Suspiro aliviado quando oiço o radialista da Antena 2 afirmar o facto. Alívio! Alívio! A minha ignorância talvez tenha cura.
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Para não estar a laborar sozinho, em manifesto egoísmo intelectual, partilho desde já o nome do vinho: La Rosa Reserve 2004. Este é o topo de gama dos vinhos de pasto duma casa que produz ainda belíssimos Vinhos do Porto e que se encontra estabelecida no Pinhão.
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O que tem mesmo a ver o «Octeto de cordas» de Max Bruch com o La Rosa Reserve 2004? Para começar a região do Douro é musical e romântica. As encostas trabalhadas são uma odisseia, são trágicas, são cénicas, são teatrais. Do Baixo Corgo ao Douro Superior tudo está mergulhado na memória dum passado belo. Não há em Portugal região vitivinícola mais romântica do que o Douro. Porém, tudo isto é genérico para classificar um vinho.
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É obviamente difícil, ou mesmo impossível, comparar duas artes ou técnicas diferentes. Quando se faz vinho com elevação e aprumo para que seja mais do que uma bebida e alimento e seja conceito e objecto estético a dimensão da palavra amplia-se. Ao ouvir o «Octeto de cordas» de Max Bruch senti a mesma vivacidade, harmonia, alegria e elegância que presenciei no La Rosa Reserve 2004. Tudo o mais que possa disser será abusivo e forçado.
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Quanto ao vinho, na sua matéria corpórea, nota-se uma boa madeira e simpático equilíbrio com a fruta. Porém, isto são descritores e nada dizem assim a seco. Que importam? Gosto mais de pensar noutras associações. Dizem-me mais!...

quinta-feira, janeiro 03, 2008

A luz





















É da natureza da luz. É da natureza do negro. A luz quando chega não se vai a escuridão. A escuridão ao chegar despeja a luz.
Sou apenas um homem. Tenho olhos grandes para um homem. tenho olhos pequenos para um bicho. Não tenho olhos para aceitar a luz toda. Tenho medo da escuridão absoluta. Sei onde quero chegar, mas custa-me ir.
A luz é tolerante. A escuridão uma tirania. Já vi a luz. Não sei o que fazer com ela.

terça-feira, janeiro 23, 2007

Pianista

Ouvi a respiração do pianista. Julgo que era um pianista, mas como tenho mau ouvido deveria ser uma mulher. Ninguém respira assim! É inconfundível aquele modo de inalar... e de expirar... só um homem respira assim. E como me enganam os meus ouvidos.
Não sei que concerto era. Sei do piano e da respiração do pianista. E da respiração do piano. Música com carne. Não sei se é bom a música ter esta carnação toda. Não gostei do concerto por causa daquele respirar. Tocou-me fundo a humanidade. Não gostei.
Depois, às vezes, surgiam umas cordas... de um violoncelo ou dum contrabaixo. Não sei, o meu ouvido é mau, já o disse. Surgiam umas cordas arrastadas, como um sussurro. Repare-se como a palavra sussurro é uma onomatopeia... Porém, este sussurro não era. Este era um arfar. Doía ouvir aquelas cordas, como magoa escutar alguém com asma.
Hoje ouvi vozes. O que importa o concerto?! O que interessa quem compôs o quê?! Aquilo foi interpretação em grande nível, mesmo que eu não tenha gostado... ainda que eu desconheça quem tocou e respirou.

Nota: Foi entre as 19h10m e as 19h30m de hoje na Antena 2, estava eu no trânsito de Lisboa.

segunda-feira, julho 17, 2006

Luz

Preciso de luz, duma que me ilumine as decisões e o amor. Preciso duma solução como a encontrada por Johannes Vermeer: uma janela.
De que me valem o compasso e as cartas do geografo se não tenho luz para saber das terras e das distâncias? O meu coração parte-se. Parte-se novamente como se pudesse ainda partir-se depois de se ter partido todo. E eu que garanto já não o ter!...
Preciso duma janela que me dê luz, porque os meus olhos são frouxos e não alcançam os gestos e os quereres da mulher desejada. Sou de novo adolescente, não sei o que fazer e do tempo desconheço a virtude e o uso. Preciso duma luz, é tudo quanto sei.