digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

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domingo, fevereiro 21, 2010

Jantar romântico para um homem só – Sem choro (3/8)





















Se chorasse tudo duma vez, os meus olhos morreriam de sede. Olhos com sede não deixariam ver o que vai na alma. A alma ardente sem água lançaria fogo ao coração. Coração queimado e sem água que o apagasse. Amor sem luz.

quarta-feira, novembro 04, 2009

Papar bem com vagares





















Comer devagar não é uma arte, é uma obrigação. Há locais onde o esmero da cozinha não permite equívocos na imposição e quando o tinto tem fama de façanhudo, não há volta a dar às pressas.
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O Bairro Alto terá os seus segredos, mas está quase todo ele descoberto. Os rincões especiais guardam-se para os peritos alfacinhas e moradores bairristas. Para todos os outros, o espaço abre-se franco. É numa rua famosa que está o célebre Papa'Açorda, casa para se repastar devagar.
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Gil Magriço é um engano de homem. É grosso como um tronco de azinho e o apelido alentejano esconde um lisboeta que, por um lado dos costados, leva cinco gerações de lisboetas. Numa das noites frescas de Dezembro subiu a rua do Alecrim e aperitivou um fraco Vinho da Madeira na Brasileira do Chiado com os amigos Maria, uma espanhola de Oviedo que sabe falar Bable, e o Sérgio, um lisboeta que pôs as botas a marchar para Trás-os-Montes, que convenceu a banquetearem-se. O problema foi que o tema deu discórdia: onde ir? Há tantos locais, tanto gato disfarçado de lebre e desastrados mascarados de chefes de cozinha, e tantas ementas tingidas com preços desajustados. Palavra puxa restaurante, restaurante puxa palavra e o sufrágio deu consenso no Papa'Açorda, que tem uma tabuleta quase discreta e uma porta que abre para a rua da Atalaia.
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A entrada não é simpática, é um corredor com um balcão alto que intimida quem não é dotado de uma altura extravagante, além da forma do sítio potenciar o engarrafamento longitudinal nos dias mais concorridos. Mas é o que se pode arranjar e é sacrifício inicial a que o gastrónomo tem de se submeter. Contudo, naquela noite pré-natalícia foi sempre a andar até à boca da sala onde um dos proprietários, e mestre de cerimónias, os recebeu para os conduzir onde se iria dar o sustento do corpo e da alma.
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Curiosamente, aqueles três comensais não soltaram palavras enquadras na época em que o católico São Nicolau faz sorrir as crianças e ajuda ao pagão Mercúrio, que abençoa os comerciantes. O tema foi, à época, a prematura eleição presidencial e o folclórico festival que o acto democrático do botar-cruzinha tem sempre em Portugal. Diabolizaram candidatos, esconjuraram personalidades, enalteceram perfis e rabujaram sobre tiradas sábias, doutas e tolas. Ainda havia tanto para se ver e já tanta certeza, tanto acerto e tão pouca ingenuidade. Em quem disseram que iriam votar e se ganharam a aposta do pódio eleitoral são segredos que não se revelam.
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O que conta por aqui é a matéria sublime que os atraiu ao estabelecimento. Por conveniência de arrumo nos estômagos mandaram vir apenas duas entradas, que partilharam irmãmente: peixinhos da horta, muito gostosos e frescos (se viessem do mar dir-se-ia que estavam vivinhos a saltar) e um folhado de queijo de cabra que veio acompanhado com rúcula (que no Alentejo chamam mastruços), tomate cereja e pão torrado cortado em cubinhos.
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A asturiana pediu meia-desfeita, o lisboeta-transmontano preferiu os filetes de sardinha panados e o Gil pediu cabidela de galinha. Nos restaurantes bem frequentados as pessoas são bem educadas, pelo que não reparam no que as outras fazem. Confiantes neste princípio, o trio decidiu partilhar, discretamente, o conteúdo dos seus címbalos não musicais, para provar mais e deliciar-se melhor. Estava tudo muito bem. Sem surpresas.
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Para saciar as sedes, dos primeiros pratos aos segundos, a escolha foi para um especialíssimo alentejano: Mouchão, colheita de 2001. Não é vinho que se beba ou que se deixe beber. É vinho que, quando se dá por isso, já está bebido. Que belíssimo tinto! Escorreito! Fino e agradável!
O Mouchão é um vinho equilibrado, com fruta, com taninos suaves e bem alentejano, não é um produto. Quando se bebe nota-se que não poderia vir do Chile, da Argentina, da Califórnia ou da Austrália. É Alentejo para o melhor e para o pior. Apesar de ser ano de centenário da Herdade de Mouchão, a colheita de 2001 não é das mais espantosas que saiu daquelas vinhas e adega de Sousel. A meteorologia tem caprichos e as vides ressentem-se. Mesmo assim, a colheita de 2001 vai-se num ápice, embora esteja um pouco encarecida.
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O trio seguiu, empanturrado, para as sobremesas e só Gil Magriço, inteiriço de carnes, se mandou servir de um Vinho do Porto para escoltar o doce. Desta vez voltou a haver partilhas, sem que ninguém notasse, bem se vê. Gil foi para um bolo de chocolate com compota de laranja (absolutamente pecaminoso), o Sérgio descaiu para um sorvete de limão com vodka (tão desenquadrado que há-de pagar por isso no Purgatório dos gulosos) e Maria venceu a contenda pelo acertadíssimo pedido de mousse de chocolate atribuído em dose imprópria para cardíacos, diabéticos e obesos. Postos isto, passearam para digerir. Nessa noite, o fantasma do Natal, de Charles Dickens, visitou-os a todos em pesadelos, fustigando-lhes a consciência... se as gulas festejaram assim naquela noite, que abusos carnavalescos não teriam no Natal? Tiveram de ser de contenção e quase em abstinência!

terça-feira, outubro 06, 2009

sábado, março 28, 2009

Como os palhaços.





















Sou como os palhaços! Alegre por fora e triste por dentro. Muito triste, muito alegre. Detesto palhaços. Detesto-me!
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Nota: Já aqui disse e agora repito: detesto palhaços e arlequins.

domingo, julho 27, 2008

quarta-feira, dezembro 05, 2007

Insensibilidade

Porque nada se passa nem quero saber das notícias. Tudo o que acontece não quero saber. Só importa a arte e o prazer.

Nota: Rótulo de vinho com base em pintura de Picasso. O que eu precisava mesmo era de ter um Picasso, beber um Château Mouton Rothschild e ter dinheiro para ter os dois.

sexta-feira, setembro 21, 2007

Azul, azul

Azul baixinho é aquele que ronda os olhos. Não tão escuro como o prussiano nem tão claro quanto o que se vê perto do Sol.

terça-feira, janeiro 30, 2007

Amores aos molhos

Faço molhos de pequeninos amores. Os meus beijos são breves saudades e os gestos ténues carícias.
Não vivo só, em minha casa há sempre flores. Cada uma tem um nome, uma evocação.
Os dias são povoados por mil mulheres. Todas breves. Todas lindas. A cada uma, uma flor.
Os dias são de silêncio. Na minha cabeça, as vozes de todas as que amei. Até das que me desamaram e das que destratei. No escuro dos quartos e da minha alma não há memória das traições.
Os dias são de silêncio. Não há dias dias absolutamente felizes nem assumidamente tristes. Só nostalgia.
Os meus amores foram todos frágeis. Os meus amores foram todos pequeninos. E nem por isso foram belos. Faço molhos de pequeninos amores para que juntos pareçam que tive um grande amor.