
Apaixono-me todos os dias entre os dedos. E todos os dias, com dor, deixo de viver. Adormeço com esperança de não voltar e renasço todas as manhãs... em vão.
Na minha campa não há flores e a mais fina brisa corre de terra para o mar. O meu corpo não jaz ainda e evita comprometer-se com a terra. Fico imóvel durante horas a fitar a pedra que há-de sepultar-me. É um seixo muito grande e redondo sem nada escrito. Um meteorito de rio na cidade.
Apaixono-me dolorosamente diariamente. Todos os dias há uma mulher errada na minha vida. Todas as horas são de infinita aflição não correspondida. Há na minha pele o ardor da pele escarlate recém queimada pelas unhas cravadas da ansiedade de que me vejam e desejem. Todos os dias e a quase todas a horas abandono a vontade de me querer bem por causa duma mulher. Todos os dias suicido-me. Todos os dias choro-me aflito diante da minha campa. Todos os dias evito-me defunto. Há em mim uma infinita indefinição. Por amor delas e desamor de mim.