digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

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sábado, maio 02, 2026

domingo, abril 26, 2026

Jantar romântico para um homem só – revisitação

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A minha memória já foi muito, mas porém. Do que escrevi, sei pouco. Jantar só é só tortura, a comida apenas alimento e nem há vinho convidado. Um dia.

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Lembro-me dele, tal viesse alguém sentar-se comigo. Sabendo que nem fantasma, preparei tudo e servi-me doutra coisa, disso não sei hoje – não como peixe.

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Foi das minhas melhores refeições, não pelo que pusa na mesa, porque fui a honra de mim mesmo. Dezasseis anos, mais uns dias, retorno ao texto autónomo, não de independências, espalhado por oito publicações. Aliás, regresso ao consolo desse jantar.

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Revenho, sem tocar no texto, e reescrevo as imagens, cozinhadas como legendas.

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1 – A mesa

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Eu que gosto mais dos alemães sentei-me a ouvir Verdi.
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No prato bacalhau à Braz acabado de fazer, com parcelas mínimas queimadas, que fazer um jantar sozinho é obra para muita gente.
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Sala morna, porta fechada e cortinas corridas. Atrás da música não se ouve a chuva. As gatas entram e saem quando querem, nada exigem.
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Oito velas acesas na casa, nem mais luz. Um vinho branco com vida e frescura certa. Pimenta preta na mesa.
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Incenso de sândalo, para temperar aromas de prato. Gesto de fumo, oriental, o exotismo obrigatório num jantar de amor.
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Toalha vermelha com limitados quadrados a branco. Guardanapo às riscas, azuis e brancas. A memória dum passado, recordações de mesa.
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Depois do jantar, um jogo de cartas, paciências. Baralho novo. À primeira perco. À segunda a mediocridade. É sorte ao amor que aí vem.
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Há amores que não valem este jantar.

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2 – Quase luz

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A quase luz não é quase escuridão. Uma vela que se apaga é uma falta notada na música orgânica de toda a claridade possível.

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3 – Sem choro

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Se chorasse tudo duma vez, os meus olhos morreriam de sede. Olhos com sede não deixariam ver o que vai na alma. A alma ardente sem água lançaria fogo ao coração. Coração queimado e sem água que o apagasse. Amor sem luz.

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4 – Vela

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Que esta luz não se apague, ainda que a música se vá. Porque uma música pode repetir-se, mas uma vela apagada nunca mais volta a ter vida.

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5 – Medo

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O que será a luz do medo? Uma evocação medieval, um arrepio como os outros. Luz nítida para a escuridão. Não será luz negra, mas luz para a escuridão, como a da esperança e da fé.

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6 – Sombra

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Há sempre sombra atrás da luz. Só a da fé não esconde. Por aqui, todos bem. Espera-se um outro dia. Depois do próximo, o próximo. Sente-se a macieza das mãos. As noites frias já o foram mais. Não se fala do tempo. Todos esperam que o telefone toque, mas não agora, não hoje. Que haja alguém que se preocupe.

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7 – O claustro

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Dentro destas quatro paredes evocam-se fantasmas, idos há muito. Lembranças de claustros e granito, outros corações desfeitos. O toque dos sinos, as trompas e a percussão solene a anunciar um cortejo. Sobre mim se levantam um cantar meu.
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Um caminho de flores, o chão coberto. No carreiro do bosque, taciturno. A dança dos espectros, o canto chão, o canto dos anjos, um canto de laudas.
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Por mim, não há manhã. Por mim, só esta escuridão monacal. , esta luz trémula. O medo da nudez.
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Romperei a noite numa oração, com o frio do aço temperado. Solidão fria de Inverno.
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Quando as luzes se apagarem será outra noite. Ainda tempo da oração perdida nos tragos de vinho. Que esta luz nunca se acabe e que jamais seja manhã.

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8 – A cama

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Quando finalmente me levanto para ir comigo para o quarto, vou demasiado ébrio para fazer amor comigo. Uma noite de emoções bastantes. O sono justo de quem não quer acordar de manhã ao lado de si mesmo.

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quinta-feira, abril 23, 2026

Isso da saudade

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Desconhecia, digo desconheço. Perguntei e disseram-me que a nostalgia é sentir saudade pungentemente.

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– Saudade é o quê?

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– Sentir a perda.

 

– Isso, afinal não é nada. Por quê tanto barulho por pouquíssimo.

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Explicaram-me e não entendi. Esclareceram-me melhor e continuei sem perceber. Outra vez, sempre o mesmo.

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Então compreendi. Como se fosse a dor de dentes ensinada a um pássaro.

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– Que coisa, essa.

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Qualquer coisa, entende-se o que não se entende, mas não se vive esse viver.

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Percebo melhor os dias inúteis e as vidas sem vida.

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Olhar o céu e vê-lo, manter os olhos abertos conseguindo estrelas no seu caminho, como a criança contra o sono.

sábado, março 21, 2026

Dicionário: Amor-revolto

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Significado primeiro: Sentimento-apagador.

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Significado segundo: Memória dolorida de quem guarda coisas superficiais, como uma ida à praia ou comer frango assado.

quarta-feira, março 18, 2026

Dicionário: Janela

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Significado primeiro: Orifício por onde quem está por dentro vê para fora.

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Significado segundo: Orifício por onde quem está de fora vê para dentro.

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Significado terceiro: Objecto decorativo inamovível.

terça-feira, março 17, 2026

Dicionário: Faca-que-corta-o-céu

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Significado primeiro: Momento de transe psicótico.

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Significado segundo: Momento de transe poético.

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Significado terceiro: Acontecimento ou facto inaceite por quase todos.

quarta-feira, março 11, 2026

Dicionário: Horizonte

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Para onde, às vezes, quero ir e não vou por saber que não conseguirei regressar.

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Nota: não consegui apurar quem é o autor da fotografia, podendo ser, por indicação de inteligência artificial do Google e do Chatgpt, Hiroshi Sugimoto, Jean-Michel Lenoir ou Monika Stachura.

terça-feira, março 10, 2026