digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

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domingo, fevereiro 28, 2010

Magnólia

Desconheço a cor da magnólia, se é branca, azul ou vermelhona.
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Carne de seiva, aroma fino e desinquietante.
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Serra afora à pergunta dum jardim. O céu de chuva não assusta.
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Assusta a noite que vem tapando as nuvéns e dissimulando o vento.
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As árvores do caminho tornam-se duma só cor e no ar misturam-se as suas cores de olfacto.
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Carne de seiva, não te diria melhor, mulher-árvore, mulher-trepadeira em mim.
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A tua carne são os montes. O teu hálito, o vento. As tuas pernas a queda, mundo abaixo.
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Passe o tempo que passar ou faça o tempo que fizer, não deixo de ter tesão por ti.

segunda-feira, novembro 10, 2008

Oceano portátil

O meu aquário de águas revoltas está na linha do olhar. Afundo olhar com as aves mergulhadoras que desejo e ouço de olhos abertos. No azul sereno atrás do vidro, nos dias lúcidos de ócio, sou anémona ou medusa. Voo da película espumosa à casa abissal. Dias de agitada tranquilidade, uma memória de útero. Sem outro destino-vontade que o de respirar na água. De águas revoltas, porque assim o quer o meu olhar.

sexta-feira, agosto 18, 2006

Conhecer na cama

É na cama que se conhecem as pessoas, porque estão despidas e sem roupas. Os lençóis não têm filtros e recebem os fluídos, os beijos, os suores e os sonhos. As paredes dum quarto são um casulo, um ventre. Não há receios frente ao amante. Está-se franco e desprotegido, porque se confia... mesmo quando se não ama.
É na cama que se conhecem as pessoas, pelos carinhos que dão ou suspendem, pelas palavras que dizem ou calam, pelos olhares que lançam ou escondem... mesmo quando se não ama, a cama é um campo de batalha onde se pode ferir facilmente.
Há letras, sílabas, palavras, frases, períodos, parágrafos, textos que leio e sei dos dedos. Conheço-lhes as horas de solidão e companhia, os fervores, as sedes e horrores, desconfio-lhe dos prazeres, traições, aflições, ansiedades, rubores, desafectos e excitações. Tal como aos olhos e à voz. É na cama que se conhecem as pessoas! Não apenas, mas também.