Deixei de saber escrever e não sei a cor do céu sob o qual me deito. É tarde! É cedo! Dissabor.
Estou sentado num jardim e consego imaginar que não oiço todos os sons que não quero ouvir. É quase orgásmico. Porém, vem um odor a flores que me perturba. É demasiado agradável para que me tenha todo aqui.
É curioso que se aprecie o odor das flores e se critique o seu sabor. Num vinho, por exemplo. O ramalhete torna-se num velório ou noutra coisa qualquer que não num vinho. O aroma das flores é quase ácido, corrosivo, faz mal ao estômago.
Por excesso de vinho ou por abstinência sexual, reconheço que vejo as rectas como se fossem curvas ligeiras. Não digam que é ilusão de óptica, pois só tal o afirma quem pode desfazer o equívoco. Apenas noto que muitos afiançam tratar-se duma coisa que teimo ser outra.
Porém há muito que deixei de teimar. Sei ter poderes diferentes dos outros. Ainda há popouco notava o ar incomodado com que me olhavam, mas apenas pensava. pensava apenas no sabor. No sabor amargo da cera dos meus ouvidos. Não é escatologia, pois sinto à distância o seu sabor.
Não teimo. Deixei de teimar até as certezas. Com todo este cansaço, não sei mais escrever. Lanço-me no Verão e seja o que vier.
digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.
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sexta-feira, junho 22, 2007
terça-feira, julho 25, 2006
Sorvete
Tomei-me de amores e fui tomado de coragem, e convidei a rapariga-dos-sorrisos para um sorvete. Fingi a voz num telefone emprestado e ainda assim desvendou-me nas primeiras sílabas. Disse-me que ninguém lhe faz telefonemas como os meus... Só lhe fiz dois.À rapariga-dos-sorrisos convidei para um sorvete... não para um gelado, que é leitoso, nem para um rajá que se vai num instante, nem para um granizado, mas para um sorvete, que é fresco e doce.
Se ela fosse um malmequer poderia querer desfolha-la, mas ela faz-se de sorrisos e tem um tom avermelhado pelo Sol. Não sei se é frágil e se a fragilidade é a duma flor, que até resiste ao vento e as gotas que caem do céu.
À rapariga-dos-sorrisos convidei para um sorvete... não para um semi-frio, nem praliné nem mesmo para um picolé, que não sei o que é, mas para um sorvete, porque é doce e refresca.
Pensei no doce acre da tangerina, pensei. Pensei na frescura da lima ou do limão, pensei. Pensei no pêssego e na meloa, pensei. Pensei no ananás, pistacho e maracujá, pensei. Pensei em baunilha, caramelo, café e menta, pensei. Pensei além... pensei em gengibre, cerejas, chá verde e Champanhe, pensei. Não lho disse. Não lhe cheguei a dizer.
Não lhe cheguei a dizer que a sonho e que os seus beijos pequeninos, dados nos meus lábios, evocam a tangerina. Não lhe cheguei a dizer que a sonho e tudo o que se faz quando se faz amor tem mais sabores do que os sabores duma geladaria. Se fosse um malmequer talvez a quisesse desfolhar, mas a rapariga-dos-sorrisos é outra flor. Não sei se alguma vez lhe irei dizer tudo isso ou se apenas a convidarei para um sorvete.
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