digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

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segunda-feira, janeiro 02, 2017

Obituário de quem não morreu

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Pode ser que não valha e pode ser que não me importe e pode ser que nem seja importante.
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É! Um retrato da decadência. Para não me aleijar em esforço, digo a banalidade plebeia da prostituição: Servicinhos a preço de Monsanto, num final de noite em que não se juntou para o sonho e muito menos para a pensão.
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Talvez não preste e o esquecimento seja justo. Uns não podem e outros não querem e outros somam – já lhes disse. Na melhor das hipóteses, pode ser que só não valha a pena, por lastro ou sombra.
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Sem o sal apimentante para encarnecer a índole, a inteligência e a bandeira – tantas vezes lhes contei. Como o corno incompreendente, ou disfarçando saber-se enganado, manso para não zangar.
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É tédio numa neblina. A monotonia da posta de pescada cozida.
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Não tenho analgésicos para esta ressaca nem esquadrinho astrologia conspirativa nem me apoquento com vinganças nem as canções tristes se solidarizam.
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As perguntas irrelevantes, às quais as respostas possam ser tristes, não se fazem. Basta-me o silêncio antigo.
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Importam-me os duzentos escudos pelo servicinho e me são insuficientes.
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Nota: Estive quase para escrever «serviçinho»...

sexta-feira, julho 29, 2016

Arte e ciência – tirado do incrivel.club

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Roubo ao Mário de Cesariny e ao povo:
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 – Afinal o que importa.
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O défice, as sanções da União Europeia, a pré-época dos clubes de futebol e o terrorismo serão esquecidos e virão outras coisas iguais. Mas há que não perde tempo e por isso valor.
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Afinal o que importa é a arte e dentro de quinhentos anos ou mil anos, se ainda houver humanidade, ou até haver humanidade, só a arte resta.
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Porque sei que, mais tarde ou cedo, há sumiços na internet, recrio o trabalho do incrível.club, mas deixo ligação para visitas ao original.
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Vincent van Gogh pintou «A noite estrelada» em junho de 1889, um ano antes de sua morte. Este quadro é conhecido não apenas como um dos melhores trabalhos do artista, mas como uma das obras mais importantes de toda a história da pintura.
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Em 2004, com a ajuda do telescópio espacial ’Hubble’, os cientistas observaram o vórtice de nuvens de pó e gás que rodeava uma estrela distante. Imediatamente, lembraram do quadro de Van Gogh.
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Eles começaram a estudar com detalhe a luz na pintura do artista e encontraram um padrão diferente das estruturas líquidas e turbulentas.
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Acontece que, quando o famoso pintor estava no hospital, na França, ele registrou um dos conceitos mais complexos e difíceis de alcançar na ciência: a turbulência.
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A turbulência é um conceito na mecânica dos fluidos em que as partículas se misturam de forma não linear, isto é, de forma caótica e com o aparecimento de redemoinhos. Por exemplo, as nuvens se formam em função da turbulência. Visualmente, é assim que se vê:
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Há mais de 100 anos, Van Gogh, sofrendo, foi capaz de perceber e expressar uma das mais difíceis noções extremas da natureza, e conectou em sua imaginação os maiores mistérios da circulação e da luz.
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Após analisar os quadros com a luz ’pulsante’ de outros impressionistas, onde também é possível ver a inquietação, os pesquisadores chegaram à conclusão de que suas obras não são tão matematicamente precisas como as criações de Van Gogh. Até mesmo ’O Grito’, de Edvard Munch, está longe de conseguir mostrar a turbulência.
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Nos tempos mais escuros de sua vida, Van Gogh conseguiu, de maneira brilhante, capturar um dos conceitos mais complexos da física e da matemática.
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Este vídeo vai te mostrar mais sobre a turbulência e a pintura de Van Gogh:
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quarta-feira, fevereiro 03, 2016

Todos os sentidos – a perfeição

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O que vale a pena na vida. Digo dos olhos e ainda faltando à verdade – a verdade é absoluta.
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Podia dizer de música. Não há ofício tão benquisto, poucas legendas a caligrafia abandona.
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Pelos olhos se apaixona. Incontável maioria de esquecimento de contar o nome do operário
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Há juras de que não se sabe cheirar. Mais não do que de memória de nomes ou locais e momentos. Do seio ao orgasmo, sangue e ansiedade, por raiva da essência animal – adrenalina.
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O tacto é tudo.
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A boca é sagrada. Com ela se sela o casamento ou outro negócio. Quem sabe dos amargo, doce, salgado e ácido. Umami… O picante é exactamente o quê? A boca começa no nariz e termina no estômago.
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A cama: sono, sono-mimo, mimo, sexo, sono-sexo, orgasmo, pesadelo, pesadelo-erótico, heroísmo e pré-morte. Na cama: preocupação, paixão e outros sofreres, desejo e efabulação, orgasmo, amor, impenetração, fidelidade, adultério e conversas acabadas. Bendita é se na quebra não viver violência.
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Pelos olhos se apaixona. Que digo de minha injustiça?
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– O céu de Rubens, a luz de Rembrandt, um anjo de Leonardo e a terra de van Gogh.
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Ainda o azul.

quinta-feira, novembro 05, 2009

O evangelizador pasmado













Há uns anos, há bastantes, tive uma namorada que teimava que não gostava de vinho. Bem tentava agradar-lhe, escolhendo sempre com cuidado e diferenciado para acertar-lhe no gosto. Nada feito. A miúda jurava que jamais iria apreciar. Eu desesperava, descrente que alguém pudesse ter tal vontade.
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Esta rapariga é o que se pode chamar do amor da minha vida. Não porque agora suspire por ela, mas porque foi a primeira com quem desejei casar e fiz todas as descobertas e dei os grandes passos da minha vida adulta. Foi uma relação impossível de esquecer.
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Nessa altura eu morava numa casinha simpática com duas nesgas de Tejo a entrarem-me pelas portas da minúscula varanda de paredes inclinadas, a ameaçar tornar-se numa água-furtada.
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A casa não era grande coisa, mas eu gostava dela e, talvez mais, da luta pela sobrevivência: eram tantas as despesas e o dinheiro tão pouco. Embora os pais ajudassem, aquela luta era minha. Lá fiz muitas descobertas, até de vinho.
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Um dia num jantar, não me recordo bem se foi nesse meu pequeno palácio ou se num restaurante intimista, que consegui dobrar a vontade da namorada. Escolhi pelo lado direito, como fazia sempre nessa altura, e mandei vir um vinho honesto e sem manias de grandeza. Foi um Pasmados, vinho regional das Terras do Sado. É fácil e insinua-se, mas mais do que tudo representou uma vitória
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A namorada, hoje distante amiga, tomou o gosto ao Pasmados e durante uns tempos foi o vinho ritual, sempre que havia um jantar lá se bebia este tinto. É claro que, com o tempo, não ficámos cristalizados, todavia foi um marco: passei a ter companhia animada, sentia-me, e sinto-me, um evangelizador.
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Foi em Setembro que tudo acabou. Um dia a relação minguou e foi-se. Parece que tudo na vida chega ao fim. Ainda que não se queira, os grandes amores, mesmo pretéritos, regressam de tempos a tempos, sobretudo nas datas grandes. Foi em Setembro que escrevi esta crónica e, é claro, lembrei-me do Pasmados.
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Piu-piu.
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Periquita não é bem uma piriquita. Não, não se trata dum erro ortográfico. Os piriquitos são passarinhos cantadores e Periquita é nome de vinho. Bem sei que Periquita é grafia antiga para designar as pequenas aves, mas hoje uma e outra coisa são diferentes.
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O termo Periquita aliado ao vinho vem do século XIX, da Quinta da Periquita, em Azeitão, onde José Maria da Fonseca se estabeleceu como lavrador. Hoje é uma plantação de edifícios. É o que consta, pelo menos.
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A fama dos vinhos da Periquita ganharam reputação e a casta castelão, para ali levada pelo senhor Fonseca, tomou o nome da quinta, termo adoptado em muito do Sul do país. Mas o Periquita que hoje vem para ser lido é branco, aproveitamento comercial do irmão. E qual é o mal? Nenhum.
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O Periquita Branco é um vinho se pretensões, uma escolha para o dia-a-dia. Mesmo para estes que fazem paredes meias com o Verão, até porque os dias ainda andam quentes e porque não há lei nenhuma que proíba beber brancos no Outono ou mesmo no Inverno.
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Ouro verde
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Outro dia perguntei-me por que nunca tinha escrito sobre azeite. Na verdade, não há qualquer razão para não o fazer. O vinho ainda não me cansa, mas o óleo da azeitona também merece umas linhas e umas palavrinhas.
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Por cá, o vinho é, sobretudo, bebido às refeições. Os bons vinhos casam-se bem com a boa comida e fazem uma festa à mesa. Se não há boa gastronomia sem bons ingredientes, deve-se atender à escolha e não negligenciar qualquer produto. Por tudo isto, vem o azeite à baila.
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Em Vila Velha de Ródão há uma quinta, a Tapada da Tojeira, onde se situa também um centro de artes – dança, plásticas e educação. Com idêntico cuidado estético e atenção aos gestos se fazem azeite e pastas de azeitonas galega (preta) e cordovil (castanho esverdeado).
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A produção é toda biológica. As oliveiras não são tratadas com produtos químicos de síntese. Dizem os entendidos que são melhores os bens alimentares assim criados. Eu acredito, porque sinto lógica. Mas só isso não garante a qualidade final, pelo que o esmagamento dos frutos é feito a frio, para que melhor se conservem os aromas e os paladares. É provar os três alimentos, numa refeição com calmas e apetites.

quinta-feira, outubro 01, 2009

Mudam-se os tempos


Tenho percebido, com o tempo, que o tempo muda-nos. Não gostava de ervilhas nem de favas, passei a gostar das bolinhas e, bem mais tardiamente, das favas. Odiava cozido à portuguesa, passei a gostar depois de me ter convertido à dobrada e à feijoada. Quando era miúdo, até ser crescidinho, a carne tinha de ser quase carvão, prefiro-a agora em sangue.
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Não sei se o tempo nos dá bom gosto, porque não quero pensar no que é bom ou mau gosto. É o gosto que se tem. Ou que se tem em determinada altura.
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Os quadros de Renoir deliciavam-me com as suas subtilezas de luz, sombra e cores, com as pinceladas doces, coquetes, femininas. Van Gogh entediava-me, como que me doesse a barriga ou os olhos ou os olhos e a barriga e mais os olhos da barriga. Hoje não suporto Renoir e rendo-me a Van Gogh.
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Não sei o que o tempo nos dá além de experiência, mas alguma coisa acontece no coração. Se antes preferia rosas, hoje quero as flores da amendoeira.

quarta-feira, setembro 30, 2009

Nada como Janeiro

Nada como Janeiro! Nem o tempo, nem o tempo, nem a luz, nem a paciência. Nada!
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O tempo é de chuva, de chuva… de água, frio, vento, nostalgia, constrangimento, vontade de aconchego, de amores antigos… talvez de reencontros ou duma loucura tão insana que parece Primavera, mas que há-de ser para a vida toda… ou toda como se imagina toda… ou toda aquela que se pensa quando não se pensa em toda.
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O tempo é dos vagares todos, com toda a lentidão que exigem os dias curtos e as noites longas. Os dias duram menos, as noites de dormir duram o mesmo. Sobram mais horas entre o dia e o tempo de dormir.
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A luz é do princípio do mundo, aquela com que nasci, faça sol ou chuva, frio ou calor. A luz é o princípio do mundo, é aquilo que veio depois do nada, depois do escuro, depois da ignorância.
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A paciência vem com o tempo. Depois dos frenesins do Verão, das palpitações da Primavera e dos devaneios outonais… A paciência chega quando o Outono chega à vida, mas só desperta verdadeiramente quando é Inverno. A paciência é um ganho do tempo.
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Que ganho com isso? Nada! Perco quase tudo, como todos nós. Restam-me consolações e ficam-se os desejos por fruir. O frio de Janeiro ajuda a aguentar a vida, porque, numa ilusão compreensível, temos todos a mesma idade… ou vulnerabilidade bastante e suficiente.
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Janeiro começa no Natal, uns dias antes, ainda antes de ser Inverno, e acaba pouco tempo depois da quinzena do primeiro. Só existe quando o frio é mais frio e o escuro mais escuro. Janeiro é o Inverno do Inverno. Dezembro, que é frio e chuvoso, é o Inverno do Outono, e Fevereiro, que às vezes é gelado, é o Inverno da Primavera. Já o Verão não tem Inverno, uma chatice… tem apenas dias chatos de Primavera.
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O Verão devia morrer por decreto. Chegando ao dia tal não haveria mais calor nem estupidez. O Verão tem de ser sempre festa e quando acaba a festa começa a vida. Já o Inverno é diferente. Se um é infância ou outro é esplendor. Pode vir devagar, mas vir. Até ao último suspiro, seja de dor ou de alegria.
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Mas ninguém morre em Inverno. Morre-se a caminho do Inverno ou na viagem para a Primavera. Está demasiado frio para se morrer no Inverno, quero dizer, em Janeiro. Janeiro é tempo da luz única, que começa um pouco antes do Natal.
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Se há calor em Janeiro, não falta nada no Natal, ou desculpam-se as falhas, se as houve. Nasci em Janeiro. Gostava de morrer antes de lá chegar. Morrer depois deixar-me-ia um sabor infeliz na vida.

domingo, setembro 20, 2009

Três horas da manhã

















São quase três horas da manhã e o meu amor não chega. Será que vem? Será que ama? Será que ficou presa numa barco que, no Tejo, não consegue atracar? Será que uma tempestade o afundou? Ou um engatatão a convenceu? São estas horas e nada. Nem um sinal de desistência… nem uma notícia de catástrofe.
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São três horas da manhã e é já tarde na noite. Uma certeza no toque da campainha lá de baixo. Uma incerteza sobre quem nela tocou. Talvez seja ela. Talvez não seja. Quem sabe? Saberei quando chegar ao cimo das escadas… se chegar… se chegar a entrar no prédio. Tão tarde!
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Já passa das três horas da manhã e está ofegante. Ofegante de subir tantas escadas e de tantos atrasos. De tantas aventuras sem aventura. De contratempos sem carisma. São estas horas e sem uma desculpa forçada. Tão tarde e sem uma palavra esquisita além da normalidade entediante.
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São estas horas e tenho sono. É este atraso e não tenho sono algum. Acendo um cachimbo que não quero fumar. E sento-me na sala onde não sei se me quero só. Só escuro e talvez silêncio. Um dia qualquer que não hoje e a palavra e os passos que se ouvem ao longe.
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É tarde e vou dormir contrafeito, com a insegurança dos homens traídos, mas com o ressonar dos egoístas. Amanhã talvez fale ao pequeno-almoço. Talvez continue casado e não diga nada. Um dia destes.

sexta-feira, março 13, 2009

Orelhas





















- Vocês homens não sabem ouvir!
- Claro que sabemos!
- Tu nem estás a prestar atenção!
- Claro que estou!
- Então, olha para mim!
- Para quê?
- Para me ouvires.
- Mas eu oiço sem ser a olhar para ti.
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Nota 1: Lógico, não?!
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Nota 2: Acho que esta posta está, mais ou menos, repetida. Já me plagio.

domingo, janeiro 25, 2009

Até à próxima vida

Estiveste junta. Estiveste próxima. Estiveste distante. Próxima seria se vivesses em Andrómeda. Nem até Sombrero te vejo. Só à velocidade de Deus te posso chegar em vida, se te encontrar.

Nota: Andrómeda está a dois milhões de anos-luz da Terra e Sombrero a 28 milhões de anos-luz. Não sei quanto tempo é nem onde ficam.

sexta-feira, setembro 21, 2007

Azul

Se estou azul é porque estou azul. Se não estou azul é porque estou azul. O que vai dentro não é o olhar dos outros e azul pode ser muita coisa.

segunda-feira, julho 30, 2007

terça-feira, abril 10, 2007

A rosa e o jasmim

Entre o aromas das rosas, um pouco de jasmim e de algumas outras flores. Os cantares variados dos pássaros do outro lado da vidraça. Toda uma tarde depois da manhã sentida nos ossos. O Sol que bate nas janelas e ilumina de amarelo quente a sala. Uma moldura de quatro ou cinco verdes e alguns tons muitos claros, quase brancos: muitos amores desejados e nenhum por vir. Nenhuma certeza além da incerteza do tempo. Ter as palmas das mãos viradas para cima e desejar-lhes o aroma das rosas, um pouco de jasmim de algumas outras flores.