digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

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quarta-feira, julho 29, 2015

Sabat

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Era domingo de manhã e não me esqueço de ter visto cinzas de lenha, algumas pepitas de carvão, tições agonizantes, pingos de sangue, pegadas de galinha e de cabra. Não tive medo, mas as saudades que se sentem antes de ter ou de ir. Quero a infância, troco por tudo o que sei e conheci.
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Nota: Não confundir o sabat das bruxas com o sabat judaico nem com o pagão europeu de génese céltica. Penso que a designação de sabat para assembleia de bruxas com Satanás deriva de prática de propaganda negra, de há séculos, praticada pelo clero católico romano contra a comunidade judaica e populações ainda ligadas ao paganismo. Em paralelo, pela liberdade de culto e de reunião, hoje podem os praticantes de paganismo europeu, de base céltica, realizar os seus sabats, em que assumem a pratica de magia, mas não de missas-negras, recusam qualquer relação com culto ao Diabo e não se vêem como inimigos do cristianismo. Todavia, há cultores do Demónio, cujas reuniões designam também por sabat. Pela acção do tempo, existe esta divergência de conceitos, resultando em três vocábulos homófonos e homógrafos. 

terça-feira, junho 23, 2015

«Os caprichos de Goya» nas Caves Calém

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Umas vezes estou contente e outras triste e para baralhar, ora voo em felicidade ou navego em sentido oposto. Francisco Goya é um daqueles artistas que me dividem. Não tenho uma verdade.
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Tenho certezas: abomino El Greco e Renoir, adoro… adoro? Adiante. Sou um chato!
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Goya é um pintor exposto no meu museu mental desde cedo, por via do apreço do meu pai. Na adolescência efervescia-me com a visão dos quadros «Maja vestida» e «Maja nua». Lembro-me de Manuel Jorge e duma professora na Escola Secundária de Gil Vicente, em Lisboa, enaltecerem-lhe a coragem da pintura.
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Coragem?!
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A coragem de denunciar os abusos do poder, do castigo da morte… Ou mais difícil, o carácter para não retratar, bem pintadinho e embelezando, quem lhe pagava o trabalho. Fazer isso em paz talvez fosse tão arriscado como em guerra.
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Se Francisco Goya retratou os Bourbon, que reinavam em Espanha, com toda a fealdade verdadeira, não deixa de ser notável o modo como a família coroada lidou com isso.
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Tal como Amnófis IV, ou Akenaton, e família se deixaram imortalizar com as suas deficiências corporais. A hidrocefalia, as barrigas desleixadas…
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Gostando deste artista, da transição entre os séculos XVIII e XIX, ou franzindo o nariz permito-me recomendar a exposição «Os caprichos de Goya», patente até 1 de Novembro, nas Caves da Calém, no Cais de Gaia. Pois bem, não fui, mas sei o que lá há. É como nos concertos: não se conhecem o alinhamento das músicas nem os efeitos de luz, mas sabe-se o reportório e o modo de estar em palco.
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Como se diz na promoção do «Rock in Rio»:
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– Eu vou!
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Nota: Para quem não conheça e duvide da pintura vernácula de Goya, fica o retrato da família de Carlos IV de Espanha.
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quinta-feira, agosto 21, 2014

Uma matilha negra de medos

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Tenho cansaço suficiente para mais duas vidas. Deram-me desprezo para mais três. O tédio é tanto que temo ter a eternidade para o gastar. Não fosse a dor, diria que não tinha alma.
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A alma serve para quê, afinal? Talvez seja como o apêndice intestinal, cuja função é mandar gente com dores para o hospital. O apêndice dói uma vez na vida. A alma pode doer a vida toda.
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Se formos a alma... o que é o mais provável... viver pode ser uma dor. Uma dor invisível que puxa tendões, arranha nervos, soca órgãos, massacra a cabeça, derruba tudo, ensona doentiamente  ou gera vigílias violentas. Pura retórica. Bem sei que somos alma e o corpo a veste.
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Tenho esperança, murcha e triste, que a morte exista. Bem se vê que não falo do corpo. Morrer, morrer mesmo... a alma consumida, incinerada, fulminada, degolada, qualquer coisa...
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Já o corpo ilude a certeza de ter alma e a cabeça diz.
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Sim, esperança que a morte exista. Que a desistência espiritual seja possível, não haja eternidade nem reincarnação.
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Os afectos são um pedúnculo que liga corpo e cabeça à vida terrena. Afectos? Que afectos?
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Gostava que Deus me desse a bênção de desexistir. Puf! Estar aqui ou lá e... puf! Nem memória restar ou quem quiser que a tenha.
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Que afectos? Pessoas que se acredita poderem dar ombro, afago e ouvição. A convicção de afectos torna tão difícil engolir comprimidos como saltar para a linha férrea ou mergulhar.
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Afectos? Quais... afectos?
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Uma matilha faminta devora-me os dias. Matilha de bichos maus, escuros de olhos de farol, da cor do sangue... que me devorem então e possa partir. Uma matilha de medos.
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Afectos? Que afectos?

terça-feira, agosto 12, 2014

Como a Maja

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Disse-lhe:
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– Quero deitar-me contigo e passar uma noite suada.
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Chamou-me parvo. Parvo porquê?
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Tenho de aprender a não ser sincero... ou frontal.
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Para a próxima vez digo-lhe:
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– Quero pintar-te como Goya pintou Maja.
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Ela pensará no quadro «Maja vestida» e será tarde quando descobrir que será tempo de «Maja desnudada».
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Curso rápido de Astrologia

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Nasci faltavam cinco minutos para as nove da manhã. Por isso chego sempre antes da hora. Se sou moreno é porque nesse dia se verificou a temperatura mais baixa em Quetta, no Paquistão. O mercúrio do termómetro baixou além dos dezoito negativos – assim fui aclarado como um escandinavo, pelo que tenho fisionomia mediterrânica.
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Comecei a acreditar em signos do zodíaco quando percebi que todas as previsões saem erradas. Concordo, sou do contra e quase tudo dá errado na minha vida. Até quando um reputado astrólogo me consultou e garantiu que a primeira década do novo milénio seria a melhor da minha vida, para mais tendo entrado nos trinta. Foi o pior período da minha vida! Lá estou eu a contradizer.
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Há gente – tanta – que afirma que o meu ascendente é Capricórnio e que tal e tal e tal batem certo com a personalidade. Sei que não bate nada. Espírito de contrariedade dos capricornianos, salientam.
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Há gente – tanta – que afirma que o meu ascendente é Aquário e que tal e tal e tal batem certo com a personalidade. Sei que não bate nada. Espírito de contrariedade dos capricornianos.
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O céu – o Céu – é um campo de estrelas, compostela, como o Caminho para Santiago – e de lá podem os magos tirar o que quiserem e meter na nossa cesta. Claro, que não podemos – o destino escreve-se nos astros.
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E ainda bem que não podemos tirar de lá nada e podia ceder à tentação. Não gosto de tirar nada a ninguém e juro que tudo o que de astral carrego foi porque me deram. Às vezes à força por quem sabe de signos. Espírito de contrariedade dos capricornianos, salientam.
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O que não percebo é como uma estrela a quatro anos-luz pode explicar a minha aversão à matemática ou intolerância ao peixe, falta de jeito e prazer no desporto e talento para a natação, especialmente no crawl.
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O que não percebo é como o achamento dum planeta – planeta-anão, diz-se assim agora – exercer qualquer coisa que antes de ser encontrado não exercia, o Plutão. Se calhar, uma vez que foi despromovido já ninguém lhe dê importância nos mapas.
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O que não percebo é por que aquela estrela, tão visível que fica importante, é um conjunto... até já lhe ouvi chamarem enxame... ou confundo e baralho: há um grupo de duas, de quatro e o tal enxame. Muda alguma coisa? Não. Ao contrário de Plutão.
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O que não percebo é como estrelas, que formam um «ser» no espaço e regem a nossa vida, podem estar mais distantes umas das outras do que outras, apenas afastadas se olharmos para o céu como uma superfície lisa. Penso que se designa por erro de paralaxe, mas o mais provável é eu ser do contra.
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O que não percebo é por que há treze signos no zodíaco – no cinturão de estrelas que «rodeia» a Terra no equador – e apenas doze são contabilizados. Diria que é porque o doze tem magia... divide-se por dois, por três, por quatro e por seis – afinal sou barra em matemática. E doze são os meses do ano. Além de que o três e o quatro também têm significados de transcendência.
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Magia?! Ciência! Ciência milenar, garantem-me, mas não acredito porque sou Capricórnio e na minha essência floresce o espírito da contradição.
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O que não percebo é como uma ciência tão exacta é tão diferente de civilização para civilização. Se o fenómeno é universal, a explicação e a descoberta deveria ser igualmente total. Pronto, já sei... o espírito de Capricórnio.
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O que não percebo é por que têm os signos cerca de trinta dias, quando no zodíaco verdadeiro – aquele que não é mais do que figuras imaginadas no céu – as constelações têm uma amplitude de dias de vidas, entre os sete de Escorpião e os quarenta e cinco de Virgem.
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O signo expulso tem vários nomes e a sua simples consideração na «matemática» adivinhatória baralha tudo, e só o de Peixes fica quietinho... peixe quietos só mortos. Aliás, deve ter sido pelo seu carácter arruaceiro que Esculápio (Serpentário... ) foi banido.
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O que não percebo é por que a «localização» das estrelas no céu é mutante, com grandes afastamentos ao longo dos séculos – a Terra move-se, o Sol move-se, as estrelas movem-se e a galáxia move-se – e os especialistas mantém-se a ler um céu de há três mil e duzentos anos.
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Não tivesse eu a malvadez de contrariar... certamente a criança do quarto ao lado, daquele em que nasci e tivesse nascido comigo, terá aversão à matemática e repugnância ao peixe. Uma conjugação tão incomum que fico com a certeza de ter nascido a solista.
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O que não percebo é por que a leitura varia se for rapaz ou rapariga... isso não devia já vir escrito no manual de instruções? Bem, sou Capricórnio... do segundo decanato – mesmo lá no meio para não haver erros de avaliação derivados da proximidade dos signos anterior e posterior – com o regente em Capricórnio e o ascendente indeciso entre o Capricórnio e Aquário... embora a generalidade dos cientistas zodiacais diga que é Capricórnio.
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Bem, se há coisa que não sou é indeciso. Parece-me que alguém me disse que os aquarianos são indecisos... já basta saber do meu... como escrevi antes, a generalidade dos leitores diz que tenho o ascendente em Capricórnio.
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Já que referi planeta regente, tenho que revelar que é Saturno. Bom! Sou uma pessoa deprimida – doente crónico, embora não pareça – a medicação faz milagres. Mas daí a ser soturno. Pois, soturno deriva de Saturno, que é o deus equivalente a Cronos, na mitologia grega.
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Como em quase tudo, os romanos – povo bastante supersticioso – aproveitaram o que de melhor reconheciam nos povos estrangeiros, nos bárbaros. Não sei que nome se dava a Saturno na Babilónia, mas o vocábulo é latino.
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Pois, eu, ser lúgubre e medonho, tenho por padrinho um deus sombrio e escorraçado por Júpiter. No mundo dos deuses há o patrono da medicina, não sei qual é a especialidade... sendo um deus pode tanto ser psiquiatra como cirurgião plástico... aquelas maminhas de Vénus... Hummmm!... silicone?! Bom, deve haver anti-depressivos e ansiolíticos na morada dos deuses.
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Acontece que o deus da medicina é Esculápio, o tal que os cientistas dos signos baniram do firmamento adivinhatório. Devia ser companheiro de arruaças de Saturno, que foi expulso, mas por Júpiter – vai na volta até foi o deus dos deuses quem ordenou o silenciamento de Esculápio.
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A Lua de Saturno é sanguinária... evocada nos jogos de sangue das arenas romanas. Gosto de carne de vaca mal passada. Ah! Tenho a Lua no signo... blá, blá, blá, blá, blá.
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Pois, mas a história de Saturno não é bem igual à de Cronos... fico mais descansado... ufa! Ainda bem que se pode escolher.
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Mas tanto os gregos como os romanos afirmavam que Cronos-Saturno comia os seus filhos. Ainda bem que não fui pai.
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Há algo positivo: Saturno é um deus de abastança e está ligado à agricultura... escrevo sobre agricultura!... Por isso, qualquer capricorniano pode fazer fortuna na lavoura – na pecuária é melhor não. Não sei se plante uma hortinha – hortinha como substantivo – de salsa ou se mil hectares de aveia.
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Já cumpri o meu dever cívico e vou pôr-me a ler o «Livro da ensinança de bem cavalgar toda a sela», escrito (incompleto) pelo nosso senhor Rei Dom Duarte, que era do signo Mula.
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Como o mundo e a vida seriam tão mais fáceis se as patranhas zodiacais fossem verdadeiras.

quarta-feira, novembro 04, 2009

Em equilíbrio no Douro

Outro dia estava com saudades do Verão e das férias. Porém, os meses fintaram-me e o trabalho não me deixou partir uns dias de descanso nem a semana escapar. Azarinhos, como diz a minha amiga Ger. Ai! Estava mesmo com um daqueles calores na alma, saudoso dos aromas das ermas a secar, dos ruídos dos insectos e até talvez das moscas do campo. Bucólico, digo agora friamente. Patético, dirão os pragmáticos incapazes de se apaixonarem pela beleza irregular das pedras dos caminhos. Pois nesse dia estava com a alma maior do que o corpo, com uma nostalgia nos olhos e melancolia na voz.
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A passagem das horas não acalmou o frenesim, como se tivesse um desses agitados formigueiros que no Verão despontam no campo. Bucólico, insisto. Pois nesse dia estive incapaz de trabalhar, verdade seja dita e só espero que quem me paga o chorudo ordenado não me leia. Estive incapaz de trabalhar e no percurso para casa não dei por nada, a cabeça esteve longe, enquanto o corpo reagiu aos estímulos do exterior... só espero que a Divisão de Trânsito da PSP também não me leia. Nesse dia parti de férias para o Douro.
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Muito embora as carnes estivessem em Lisboa, o espírito esteve a percorrer veredas no vale do Douro em pleno Verão. Num Verão qualquer. Só dei por isso quando cheguei a casa e a vi invadida por amigos. Nesse dia não vieram para jantar, mas tão somente para saudar. Veio a Indizível com a Karine e o Philippe, um par de franceses muito divertido.
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Os franceses não conheciam muito de Portugal e ainda menos do seu vinho. Ele é apreciador e sabia que por cá se fazem vinhos, ela menos conhecedora não se mostrou desatenta. Do que por cá se faz, ambos tinham apenas conhecimento dos Vinhos da Madeira e do Porto. Nesse dia em que as saudades do Verão ardiam dentro de mim, decidi dar-lhes a conhecer vinhos não fortelecidos. Fui vasculhar o que havia lá por casa e descobri, envergonhado, uma garrafa que me esquecera por completo. Não sei como fora possível, mas na verdade aconteceu. Não tinha perdido a memória do vinho que continha, mas olvidara a sua existência. Todavia, estava descoberta e aquele era um bom momento para a revelar.
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Saquei então a garrafa de Casa Burmester Reserva 2004 e em cada copo revelou-se um mago. Magias! É um tinto robusto, cheio em frutos vermelhos maduros e especiarias, com taninos presentes. Um vinho equilibrado e sensato.Calhou-me bem aquele vinho tão duriense. Encheu-me o peito. Satisfez-me. Fui ao Douro sem sair de casa. Os franceses adoraram-no e retornaram ao seu país com vontade de conhecer o vale. Quanto à Indizível... nada posso dizer.

terça-feira, outubro 06, 2009

Tempo





















Às voltas na cama, tento voltar o tempo. Intuo as voltas dos ponteiros, peço a Deus que andem depressa e esqueço-me que o relógio é digital. Oiço, lá fora, os sons a passar, prova inequívoca de tempo. Vivo um sobressalto, de que não passe e de que passe demasiado depressa. Tudo foi ontem: a infância, a escola, a avó, o liceu, a namorada, a outra namorada, as outras namoradas, a faculdade, o trabalho, a promessa, a namorada, uma outra promessa, a casa, a outra casa, a dor grande, a esperança, a dor maior, o desalento, a dor de novo, o desalento e a perdição, a dor da traição, as gatas e o dia de ontem. A vida toda num tempo e a certeza que ainda há mais dias para vir, e a certeza que ainda há dores grandes à espera. Sem saber o que fazer com o tempo, sabendo que o que vai não volta e que um dia lamentarei este que já lamento.

domingo, julho 26, 2009

Sina, a minha

Sóbrio sou monárquico. Gosto da noite e à noite gosto de vinho. Com uma pinga oiço fado e canto, quero ir aos touros, montar a cavalo e sonhar com ser toureiro. Que vida esta, a minha.

sexta-feira, março 13, 2009

Tempo de paixão





















Tenho pedaços de má circulação. Tenho pedaços que nunca circularão, além do meu corpo finito. Nem mesmo pelo meu amor por ti. Mesmo quando me beijas o corpo infinito. Infinitamente transcendente, tanto amor. Porque há coisas que são só minhas e de mim não vão, mesmo quando saem para fora de mim. Por fora de mim não é fora de mim. E tu, se me amas, compreendes que nunca irei além de mim, porque, quando o fui, caí pesado e dorido em mim. Fico-me, aqui e já, à espera que nunca te aproximes de mim. Não vá eu ir além e a minha carne ficar fora de mim.

sábado, abril 26, 2008

Leva-me ao desejo

























Oh Diabo, leva-me a alma para que possa estar com quem desejo. E este desejo é já razão para perder a alma. Às vezes nem sei se sou o corpo se a alma, pois um dia o corpo morrerá e, contudo, viverei. Leva-me, então, para junto do meu desejo. Se o meu desejo é pecado, não é pecado desejar.

segunda-feira, maio 28, 2007

A decisão do tédio

Há noites em que não me deito para não ter de me levantar. Há dias em que não me levanto para não ter de me deitar.

quarta-feira, maio 09, 2007

Evocação de Nasser

A minha amizade por Nasser tem mais anos do que aqueles que passaram desde que nos conhecemos. Conheço-o de há muitas vidas e sei muitas vezes no que pensa e o mesmo sabe ele sobre mim. Para mim, partilhar com ele um jantar é dos maiores prazeres que tenho. Não sei se a mesa tem de nós o mesmo prazer que eu e ele tiramos dela: pobres tábuas!... Havemos de ser muito velhos e ainda desfrutaremos grandes repastos bem regados. Noutras vidas faremos o mesmo, tal como fizemos em passadas.

Nota: Nasser faz hoje anos. Os velhos aqui retratados não são, necessariamente, eu e Nasser.

segunda-feira, março 05, 2007

O desejável naufrágio

O olhar mais bonito é uma amarra que prende o navio ao mar da liberdade. O sorriso é um farol a indicar as vagas. O beijo mais profundo une o casco à água. A cama é a tempestade antes da doce tragédia do náufrago feliz e fortalecido pelo cansaço. Tudo por amor. Tudo pelos olhos e mais luminoso sorriso.