digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

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sexta-feira, janeiro 20, 2017

Pecar

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Guardado está o bocado para quem o há-de pecar.
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Nota: Admito que provavelmente alguém escreveu isto, mais ou menos assim. Mas surgiu-me na cabeça há uns dias.

segunda-feira, maio 25, 2015

Não sou de cá nem de lá nem sei

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Durmo e nem sempre foi assim. Houve uma vida em que os anos tinham trezentos e sessenta e cinco dias, às vezes mais um, e vinte e quatro horas dividiam-se.
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É um país longínquo, uma memória escurecida da luz que me punha a sombra atrás dos passos.
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Contos os anos da distância, muito mais longa do que a soma dos anos.
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Entre o agora e o antes há um corredor de ausência, um tubo psicadélico, um atalho no espaço-tempo em inverso.
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Não voei nem flutuei, arrastado num turbilhão de opiáceos – julgo pelo que dizem da papoila dormideira.
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Se morri, se ainda morto, se já vi ou se sempre vivo. Era outra vida, outro planeta, outros e.
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Não tenho saudades, mas remorsos de culpas alheias.
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(suspiro abafado por decoro)
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Mãe, faça-me nascer e dê-me colo.

quarta-feira, dezembro 05, 2007

Foi lá em casa

A mesa pôs-se de roxo, como se põe muitas vezes e, sobre ela, pão, queijo de Azeitão, duas variedades de queijo de cabra, uma enrolada em presunto e outra temperada com ervas, queijo da Ilha, requeijão de ovelha com alho e salsa, e pasta de azeitona cordovil.
O prato de honra foi de carne de vaca aos quadradinhos feita na frigideira com morcela desfeita e molho de vinho branco, mostarda e pimenta preta. Acompanhou batata assada no forno, salada de endívias com molho de mel e azeite e ratatui de tomate, alho-francês e cenouras.
A sobremesa foi iogurte de avelã com amoras, groselhas e framboesas. Sobre os vinhos não me apetece escrever sobre quem foram nem como estiveram. No final houve quem tivesse fumado um Romeo & Julieta.

Nota: Este texto é dedicado à Colher, Mafas, Nês e ao Turco.

sexta-feira, novembro 03, 2006

Medo do Inferno

Digo-te que tenho medo. O pior de todos é do cheiro. Julgo que pior do que a enxofre o Inferno tresande a peixe podre, a imundices gástricas ou vómitos.
Digo-te que tenho medo. Medo das feições das criaturas perdidas na escuridão. Não há pior medo do que aquele que não vemos e não deixamos de ver, apenas pressentido e vislumbrado. Tenho medo das sombras e dos seus cheiros pestilentos, das suas texturas desconhecidas e humidades.
Espero não coinhecer a luz do Inferno, mas deve ser muito mais escura do que a duma trovoada. Talvez como a duma lua nova no campo. Apenas a suficiente para perceber os corpos dos seres e dos outros, mas já tarde demais, quando não fôr possível evitar os hálitos.
Digo-te que tenho medo do hálito das bocas de quem vive no Inferno, porque lá só haverá imundice e porqueiras para comer e nada de limpo para se lavar o rosto. Tenho repugnância das mãos e certamente haverá uma luz a iluminá-las. Será pouca luz, mas certeira, a certa para se perceber o negrum nas unhas tornadas garras dos enfermos e moribundos andrajosos, de todos os habitantes fétidos do Inferno.
Tenho medo de ir para o Inferno. Digo-te que tenho muito medo do cheiro.