digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

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terça-feira, março 24, 2015

Duas gatas infotocopiáveis

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O tempo voa e voa tão depressa que os aviões parecem parados quando comparados à constatação do passar da vida. Comecei o infotocopiável há nove e não sei por que razão, mas sei por que continuo a alimentá-lo e a ser por ele a ser alimentado. São nove anos de casamento entre um tipo e suas palavras, residindo numa casa inexistente.
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Neste mesmo dia, mas há onze anos, nasceram as manas Granita e Lioz. Vieram da mãe demasiadamente cedo, reconheço… reconheço que lhes amputei infância. Um mês depois do nascimento entraram em casa.
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Carentes de mãe e doces como ela. Nunca lhes faltei a uma mamada nem recusei mimos. A Paraquedas veio mais tarde e no seu dia dela contarei.
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A Granita ronrona alto como uma chaleira de água fervente, muito mimada e mimadora. É quem pede a comida ou para ser mudada a areia. A Lioz é frágil e muito terna, com uns olhos azuis, muito grandes, muito abertos e muitos espantados. Raramente mia, mas quando fala… o que tagarela…
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Hoje há festa! Comidinha húmida para todas… é a loucura!

sexta-feira, dezembro 19, 2014

Medição do amor

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O amor não se mede em metros, nem em quilogramas nem em litros!
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Mede-se em polegadas, pés, braças e palmos.
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E em jardas, se na declaração não houver bujardas.
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Nota: Não conhecia esta versão do «Hemem de Vitrúvio», pelo que não juro se esta é também original de Leonardo Da Vinci.

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Uma gata, duas gatas, três gatas - A Granita, a Lioz e a Paraquedas





















O que gosto nas minhas gatas, nas três, é que só estão preocupadas em serem gatas. Nada mais. Não pretendem ser humanas, embora o sejam.
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Nota: Sei que são lugares comuns e repetidos por muita gente - quanto mais conheço as pessoas, mais gosto dos animais. Deram-me mais que muita gente, nunca me faltaram, não têm fingimentos (são o que são), são como as pessoas deviam ser.

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Sonho

Na paz, tempo para as árvores e para as bocas. Na loucura, a calma... antes que se engula a terra e o sangue.

sábado, abril 29, 2006

Regresso ao ventre

Quero voltar ao ventre da mãe. Quero o calor, a protecção e o aconchego anichado. Quero ser o óvulo acabado de fecundar e o quase nascente. Não antes nem depois. Sem memória anterior nem experiência seguinte. Quero ser o antes da brincadeira, dos amigos, da escola, das correrias, das aventuras, das namoradas e dos corações partidos. Quero ser apenas ouvinte do seu coração e comer o que ela come. Quero rir-me com ela e nunca a ouvir chorar. Quero senti-la no seu sangue por dentro de mim. Quero a protecção do castelo de carne frágil. Quero o seu calor e doçura. Não quero ser cá fora nem viver sem que o meu corpo seja outro que não o dela. Quero voltar para bem fundo do ventre de minha mãe.

terça-feira, abril 25, 2006

Coração

É o músculo central da circulação sanguínea. Sem ele este meu corpo era apenas corpo. Existe em mim e acho-o muito mais do que é. Existe em muitos outros animais, além do homo sapiens sapiens. As minhas gatas têm um coraçãozinho que bate dum modo muito terno. Já os escutei sob os pêlos macios e quentes. O sangue delas corre mais quente do que o meu.
Atribuo-lhe capacidades de guardar e processar sentimentos. Sei que não o faz. Em sentido figurado é senhor de sentido moral, coragem, ânimo, benevolência, valor, franqueza, memória, boa-vontade e piedade.
O de algumas aves fica bem na sopa... na canja! Não gosto de canja. Quero dizer, não gosto de canja com massinha nem com arroz. Não gosto de arroz nem de massinhas na sopa. Em nenhuma delas. É por culpa desse hábito que rejeito as canjas. Prefiro a de pato à de galinha.
Os heróis destemidos e habilidosos com as mãos fazem façanhas: cortam o da vaca em fatias grossas e temperam-nas com sal e especiarias, e cobrem-nas com bom vinagre, onde fica a marinar dez horas. Depois escorrem-se as lâminas dessa carne e juntam-se numa caçarola com toucinho derretido, com o qualsão salteadas por um quarto de hora em lume bravo. As lascas do dito vão depois para uma panela de loiça com cebolinhas e dentes de alho acompanhadas de vinho tinto para cozer por sete horas. Nessa altura está o músculo pronto a comer.
O meu palpita de gulodice só de escrever estas linhas. Ainda não digeri a canja anterior e já sonho com pitéus demorados. O coração ainda me mata de prazer!...

quarta-feira, abril 19, 2006

Sabedorias

Ouvi dizer a um velho que a sua geração era riquíssima, porque assistiu a tudo. Viu tudo e aprendeu a ter esperança em tudo, na ciência. Todos os males terão uma cura que a ciência descobrirá a tempo.
Ouvi dizer a esse velho que a sua geração era feliz, porque assistiu a tudo, desde a rádio à descoberta do genoma humano... A sua geração passou o tempo a espantar-se com tudo. Até se boqueabriu quando viu um corta-unhas.
Não ouvi um outro velho, mais velho que esse velho, dizer que a minha geração é que tem sorte e é mais feliz, porque está a ver perder aquilo que herdou.
Não quero o passado dos outros. É só mudança e é disso que se faz o tempo, o mundo e o modo. Deixem a minha geração viver.

terça-feira, abril 04, 2006

Nervo

Tenho os nervos a pular. As mãos estão a tremer. Tenho os nervos a pular. A voz quase a gemer. Pelo óculo entra a luz e as imagens, não sei como não sai o sangue.
Se quisesse agora desenhar iria fazer torto e inseguro. Será que a minha massa encefálica faz centrifugação? Não é quieta e tem os mistérios das coisas paradas.
Vivo com os meus nervos a pular. Respiro, como e tento dormir. Tento que seja sempre amanhã. Que venha um tempo futuro, porque tenho medo da noite e do só.
Tenho os nervos a tremer. Vêem-se os músculos a saltar sem que eu queira. Umas vezes são as carnes das pernas, outras as dos braços... as mãos, os olhos, os pés, todo eu, todo eu... todo eu mexo sem me querer mexer, porque tenho os nervos a pular. Pelo óculo entra a luz e o mundo. Não sei por que não jorra o sangue. Por que não me vomito rubro ou me abro em qualquer cor? Esventrado, de barriga aberta e vísceras à mostra estaria todo eu à luz. Pelo óculo entra a luz.