digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

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segunda-feira, novembro 02, 2015

Uma das duas verdades

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No maior desalento que a boca consegue, disse-lhes:
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– Assim tento.
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Olharam-me sem expressão e esperando que sorrisse. As palavras foram ditas e por magia.
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– Vêem? Não há sujidade. Está tudo limpo. As folhas insistem e a água cola-as, porém o vento. Mas está tudo limpo.
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Olharam-me sem expressão e esperando que dissesse outra coisa, que percebessem. As palavras foram ditas e por dimensão.
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– Vêem? Os paralelepípedos de granito vão para fazer estradas, estão ali para que se possam retirar facilmente. Os pneus, ali naquele canto à espera de interesse.
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Olharam-me sem expressão e esperando compreender o que acabara, se por graça ou desvio. As palavras foram ditas e as coisas invisíveis ficaram.
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– Vêem? O Outono é assim. É impossível o chão ser perfeitamente plano, por isso a chuva cria poças.
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Olharam-me sem expressão e despediram-se informalmente, nem esperando compreender e descontando-me todo o talento, qualquer capacidade ou ínfima vontade. As minhas palavras consumiram-se invisíveis e imateriais.
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Olharam-me amnésicos do talento, capacidade e força, não retroviram nem esperaram saber. Sabia-o e disse-lhes uma das duas verdades. A que não interessa, porque para a outra não têm cadeira para que me sente. Andaram com a desculpa e comprovada certeza – sem se saber ou perceber não há remorsos.
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Reconheço que a realidade raramente interessa. O dia-a-dia é fastidioso, porque a vida acontece muito devagar ou só acelera um pouquinho e quase sempre num só sítio. Poucas vezes se verte em euforia: muitas tristezas, poucas alegrias e quase tudo tépido.
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Quando sinto a vida tépida lembro-me, numa memória inventada por decalque de fotografias, de quando minha mãe me banhava. Não tinha de pensar, o dia-a-dia não acontecia, bastava-me o amor e de comer. Esse tempo suspeito que fosse de alegria.
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Às vezes faço um leito quente onde mergulho esperando que outra vida, mesmo o indesejável. Saio desiludido, com desgostos e mágoas, e o desejo indesejável. Apercebo-me que podia ter urinado no banho para rebentar a raiva, sou manso e nulo.

domingo, fevereiro 21, 2010

Jantar romântico para um homem só – A cama (8/8)

Quando finalmente me levanto para ir comigo para o quarto, vou demasiado ébrio para fazer amor comigo. Uma noite de emoções bastantes. O sono justo de quem não quer acordar de manhã ao lado de si mesmo.

quinta-feira, maio 03, 2007

Lágrimas

Perdi todas as lágrimas. Não secaram, porque sinto fontes. Entre a nascença, na reentrância obscura de mim, e a finura salgada à flor da pele há um mistério sem razão. Tenho tremuras de peito, o assombro do arrependimento, o torpor do medo, a insegurança do fim da vida, a insensatez dos loucos, a paixão dos mortais, o sono das crianças, a ternura das mães, a sensibilidade das abelhas... tenho tudo ou quase. Tenho tudo e nada lamento. Do que me falta só cobiço as lágrimas que já não me escorrem francas e fingidas. Nem mesmo contas de vidro.

terça-feira, abril 03, 2007

Rosa-vida

A vida é feita de finuras e maneiras delicadas de passar páginas. Os anos passam numa espiral delirante, numa espiral de vertigem: uma rosa de odores mesclados, ora forte ora frágil.
Tinhas os pés a chapinhar numa poça de praia, junto às rochas, com o sorriso da infância e já, num instante, se notava o peito adolescente. Pouco depois as borbulhas da puberdade, as vergonhas, os primeiros beijos, os namoros, os temíveis segredos, o inconfessável segredo, o partilhável leito, as grandes amizades, as intermináveis tardes de Verão, os dissabores amorosos, as distâncias, o amor estável, o casamento, os filhos, as traições, as zangas, as reconciliações, o significado da família e do Natal, o distanciamento, a solidão, a velhice. A infindável rosa da vida.
Desconcertante vida, feita de finura e enternecimento. Sentado o corpo frente a outro parilham-se memórias e sabedorias: as alegrias das tristezas. A vida e suas finuras.

terça-feira, março 20, 2007

Um Natal qualquer

Sonhei com um ano próximo e o Natal, ao contrário deste ano, a calhar em Março. Haverá bolo de chocolate e laranjas, sonhei.
Num país próximo haverá destino, descoberta e lembrança: uma queda de água, quartos grandes, cama larga e fofa e uma piscina com vista para a casa.
Era Natal. Sonhei. Egoismo.