digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

Mostrar mensagens com a etiqueta Pintura de João Barbosa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Pintura de João Barbosa. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, setembro 23, 2024

Balanço breve de pouca coisa e alguma esperança

.
Aos dezasseis anos acreditamos que seremos o que quisermos. Gosto das  noites de negro e azul e via-me a caminhar para onde sabia chegar. Contudo. O tempo apaga certezas.

.

Depois de dois anos a estudar artes, no secundário, mudei-me para humanidades. Fora das aulas escrevia, desenhava e fotografava. Comecei no Diário Económico, em Janeiro de 1990, e jornalismo tornou-se a árvore que sorve toda a água da floresta.

.

Cansado do quase ócio na escrita profissional – embora não duvide do meu talento criativo e estilístico nem da competência – pensei que voltar ao estirador pode ser uma opção profissional complementar séria e desanuviador da mente. Nas palavras sou João Barbosa, nas artes João 25.

.

Em 2022 soube do concurso Luxembourg Art Prize e concorri. Recuperar totalmente a mão direita, a outra não tem remendo porque foi sempre nula, levou algum tempo. Por isso, a quantidade de obras foi pequena e não me senti confiante nos trabalhos mais recentes.

.

Senti uma coisa, uma sensação muito íntima, distante há mais de trinta anos: o prazer de pensar, conceber e fazer. Daí para cá, tenho o sentimento juvenil, do tempo um pouco antes da primeira namorada até à entrada no jornalismo. Uma felicidade de libertação.

.

Na minha primeira candidatura ao Louxembourg Art Prize apresentei três desenhos e duas pinturas, a mais antiga de 1987 e a mais recente de 2008. Prometi-me, consciente que cumpriria, repetir no ano seguinte. Decisão reforçada por me ter sido concedido reconhecimento de mérito artístico.

.

Em 2022 concorri com este desenho de 1987.

.

É estimulante, mas. Quando as artes plásticas eram a minha vida, ganhei vários prémios de fotografia e consegui ser selecionado para a Bienal de Artes Plásticas da Festa do Avante, quando a mostra era uma verdadeira referência nacional – era miúdo e acreditava ser comunista, mas a crença durou pouco, pois reparei que não tenho nada a ver com essa ideologia. O Luxembourg Art Prize é milhares de vezes mais difícil, sou humilde ainda que sonhador.

.

Catálogo da VI Bienal de Artes Plásticas da Festa do Avante, 1989.
.

No ano seguinte, ainda com algumas inseguranças, concorri ao Louxembourg Art Prize com nove desenhos e quarenta e três fotografias. Os rabiscos datam de 2023, mas as fotos foram antigas, a mais velha reportando a 1987. Novamente, recebi a distinção de mérito artístico.

.

Em 2023 concorri com esta fotografia tirada em Coimbra, em 1989. Adorava a minha Lomo, que infelizmente está espatifada.
.
Gosto de monstros, mostrengos, fabulosos, fantásticos e bestas-feras.
.

Pensei em apostar mais na fotografia, quase jurei. Comprei rolos para as duas Canon e para a Rolleiflex, mas não correu como desejava. Foram muito poucas e, mais dum ano depois, ainda não as mandei revelar. Juntei um conjunto de inseguranças – confusões técnicas, dioptrias, receio em riscar os óculos e  sensação de que uma das câmaras está com problemas.

.

A segurança viria, teoricamente, com uma câmara digital. Porém, não tenho dinheiro, nem disponibilidade mental, para comprar. A isso acresce a incerteza de que quero realmente fotografar e de ter tempo, porque continuo a escrever, não deixei o jornalismo. A liberdade juvenil passou, estou na meia-idade e vejo o mundo diferentemente.

.

Voltei claramente aos desenhos, ainda que tenha pintado alguma coisa. O número de obras de traço chegou às dezenas e preenchi dois cadernos. Esses livros permitiram-me ocupar a cabeça, estimular o pensamento e exercitar a mão direita.

.

No momento em que escrevo, apresentei a concurso Luxembourg Art Prize uma pintura e oitenta e três desenhos. Hesito em entregar mais ou poupar alguma coisa para o ano. Entalada na indecisão está uma obra digital que publiquei aqui. https://infotocopiavel.blogspot.com/2024/01/pergunta.html

.

O processo de candidatura é monótono e trabalhoso, mas vale-me a empolgação. Sem câmara digital de qualidade, sem scanner e receoso de que a digitalização em loja possa amolgar o papel, fotografei os trabalhos com o telemóvel.

.

Este ano apresento sobretudo criptideos de caudas gigantescas.

.

Queda de Ícaro, por João 25, a partir da Pieter Bruegel, o Velho. Aguarela, guache e lápis sobre papel.
.

A qualidade dos registos fotográficos é fraca: não consegui rectângulos perfeitos – é o problema maior porque distorce –, a focagem é incerta e a luz pode atrapalhar. Por isso, repeti imensamente. Além dessa trabalheira houve o aborrecimento da escolha dos trabalhos. Finalmente introduzir os dados… ano, título, género, técnica, dimensões e descrição.

.

Já que fotografei todos os trabalhos, resolvi fazer o mesmo com os cadernos de desenho. Esses livrinhos, através da datação, atestam os anos em que andei distante do estirador e do cavalete.

.

O meu pai dizia que desenho como respiro. É verdade: um papel e um lápis ou caneta obrigam-me a rabiscar compulsivamente, uma espécie de vício. Sempre foi assim. Porém, uma coisa são uns bonecos e outra é trabalhar com objectivo.

.

Antes dos dois cadernos recentemente preenchidos, tive um primeiro álbum em 1991 e que só o terminei em 2016. O segundo foi preenchido em 2023, tinha apenas um desenho feito em 1993. Comecei o terceiro no ano passado e terminei-o há poucos meses. O quarto está fazendo-se.

.
Primeiro caderno: o meu grande amigo Sérgio.
.
Segundo caderno: um trengo e o seu habitat.
.
Terceiro caderno: répteis criptideos e um gato.
.

Há um outro elemento que traduz o meu afastamento das artes visuais: o género. Gosto muito de heráldica e teimosamente desenho brasões, parafernália acompanhante e mais umas coisinhas. Sinceramente, não me dá grande trabalho… é rápido e graficamente simples de colorir sem tinta.

.

Comecei um armorial. Todos os meus amigos e pessoas por quem tenho estima receberam um brasão particular. Há uma regra de ouro: não pode existir qualquer relação com armas familiares existentes.

.

Esse primeiro caderno está ocupado sobretudo com heráldica. Muito do que lá está nem foi criado por mim, há igualmente desenhos de registo, como, por exemplo, do «emblema» da Baviera – faço recolha de heráldica de domínio e a tarefa é trabalhosa, basta dizer que o Sacro Império Romano-Germânico era formado, em 1806, por mais de quatrocentos «países». 

.


.

Os meus desenhos heráldicos iniciais eram conservadores, embora com liberdades. Fartei-me da ortodoxia despreocupada e criei um formato único. Reconheço que o escudo e o ordenamento são muito feios e demasiadamente-extremamente-inacreditavelmente heterodoxos. Um dia terei paciência para redesenhar em papel, por agora estou quieto nesse assunto, ocupo-me com o trabalho profissional.

.

Quis ser original, mas a novidade não correu bem. Na fotografia o púrpura ficou assim. Tive a ousadia de usar o proibido laranja.
.

A minha imaginação e a necessidade de matar o tédio foram maiores do que o número de amigos. Assim, os mais chegados receberam vários novos desenhos, formando armas complexas.

.

Destravado, continuei criando e cheguei a um momento em que tive de trazer ao mundo dos vivos uns países imaginários. Vim a descobrir que não sou o único biruta e aprendi a palavra geoficção.

.

E, basicamente, é isto que quis partilhar.

.

Descobri, há poucos dias, que aos 18 anos já gostava de vodka com limão.








terça-feira, setembro 17, 2024

Ícaro queixou-se menos

.
Não voarei no Concorde, mas não faz mal, nem no Caravelle, e isso já dói.

.

Nem no Super Constellation nem no Electra nem no Tristar.

.

Nem no DC-8 nem no DC-9 nem DC-10 nem no MD-11. Vou suspirando, qual menina adolescente vendo o cartaz da banda, pelo DC-3, que já aterrou sozinho. Largaram-no e lá foi ele, trabalhador humildemente arrogante. Velho e teimoso, aterrou sozinho.

.

O 707, às vezes, fazia vibrar os vidros da minha janela. Ainda estava sobre o Tejo e já o ouvia no outro lado da casa. Corria para o ver chegar e corria para o ver ir embora. Não voarei.

.

Voei no 727 e no Tu-154, que têm parecenças. No Boeing entrei pela traseira, sob o motor do meio e no soviético foi pela frente, sentei-me mesmo ao fundo, sob o engenho central.

.

Gosto do 737… há tantos. É como as louras na Escandinávia, por tantas, prefiro as morenas mediterrânicas, e metade das vezes ao contrário.

.

Infeliz, não melancólico, pensando no 747, que já não se faz. Devia ser proibido deixar de construir a Rainha dos Céus… por que não um fundo, das Nações Unidas ou da União Europeia, para proteger o passarinho cabeçudo?

.

Nem no VC-10 nem no Il-62. Há tantos… a mim, que não tenho cagufas de voar, não me apanham num Comet. Como se houvesse um Comet para apanhar. Não voarei.

.

Havia tantos e agora há tantos que não voarei… lembrei-me do VFW-F 614, esquisito como… escaganifobético, esdrúxulo, com aquelas asas… um zingarelho, uma mofamagarifamafofinha, que tem um ninho com sete mafamagarifamafofinhos. Voava cuncatoriamente, quase de certeza. Tão feio que não há foto de jeito para mostrar.

.

Sim, o 787 é bonito, mas eu, sem dinheiro, não tenho o outro lado do mundo para ir. Só este, porque o Boeing são iguais aos Airbus e os Airbus são todos iguais. Rezo tanto.

.

Não me falem no A380, que também é diferente. Pois é. Pois é um trambolho grande, mais feio do que uma francesinha a transbordar do prato.

.

Já que falei numa mixórdia do Porto… ou dos arredores… fui para lá na barriga da minha mãe, num Caravelle.

.

A minha primeira vez foi de Faro para Lisboa e do alto percebi que o Algarve é talqualmente no mapa, definido pelo Guadiana, o Atlântico e as serras.

.

Do Porto, do FCP, não sei. Sei que não verei jogar o Peyroteo, o Eusébio nem tampouco o Matateu.

.

Já ouvi:

.

– Lisboa tem a águia, o leão e a cruz de Crist’e, o Porto tem a pantera e o dragão, animal que não existe.

.

Tantas lamentações e mais o calor tardio que está lá fora e também cá dentro. Cerveja? Não beberei nem irei a lado nenhum.

terça-feira, outubro 13, 2015

Sei quem tu és – na Escrytos – ligações para a compra

.
Escrevi um romance e publiquei-o na plataforma Escrytos. Tem personagens e enredo – essas coisas que as narrativas têm. Está entre um mundo e o outro.
.
Toca a comprar, divulgar e voltar a comprar mais para oferecer.
.
Seguem as ligações para as lojas online.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.

domingo, setembro 27, 2015

Sei quem tu és – o romance que não acredito ter conseguido escrever

.
Não consigo ler, pois cansa-me muito. Nem romances nem romances históricos. Reescrevo-os e torna-se num sufoco. Dos perfeitos aos desastres, sem excepção são alteradas letras, palavras e personagens.
.
Detenho-me quando a minha estória é incompatível com a do autor. Um dia agarrei num manual de relojoaria e no estirador coloquei um relógio morto e as ferramentas. Abri-o e fui anotando, por ordem e camadas. Que pesadelo! Comecei a arrumar as pecinhas na caixa, mas sobravam e, quando ajeitadas, a tampa não se fechava. Consegui, em menos duma hora, perceber que não poderia ser relojoeiro.
.
Foi mais ou menos o mesmo tempo para compreender que nunca serei romancista.
.
.
.
Nota 1: Escrevi um romance, mas não sei como. É curto e deu tanto trabalho quanto as obras completas de Leon Tolstoi. É curto no número de letras, mas é denso como ósmio e doloroso como a orfandade precoce.
.
Terminei-o no Verão de 2003, se não erro, e farto de o aturar expulsei-o em Janeiro deste ano. Recebi elogios, que guardo em segredo, mas ninguém quis com ele tingir papel. Editei-o em formato digital porque ninguém o quis. Vivera demasiado em casa.
.
Nota 2: A dada altura, há um capítulo com o título «benvindo sejas». Não é erro, é teima – sei que tenho razão! Se Maria é bem-vinda e Benvinda quer dizer bem-vinda, por que benvindo se haveria de escrever bem-vindo?!
.
.
.
.
.
quem o quiser comprar:
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.

sábado, março 24, 2007

Um ano de rendição

Rendi-me há exactamente um ano. Nem mais um minuto para além da data. O Infotocopiável começou sem imagem e depois com vinhos e brasões. O protesto da Rita fez eco e abriram-se espaços, então, para a heráldica (Armorial) e para os bebes e os comes (Os Três à Mesa - projecto já finado -, A Adega e o João à Mesa), deixando este blogue apenas para as prosas e as imagens. Porque andavam a confundir-me a vida com as palavras veio o Caderno, para onde vão retalhos da realidade. Na verdade, quase só tenho um blogue, porque todos nasceram do Infotocopiável, que pode continuar, volta e meia, a ter um brasão a mostrar, porque é belo, ou um vinho para dar de beber, porque há sede.
O Infotocopiável é e será sempre o meu primeiro canal, onde me encontro mais e mais me vêem, apesar de aqui não se ler a minha vida. Mas a vida está sempre nas palavras que se escrevem, como está sempre nas letras que se lêem.
É no Infotocopiável que me encontro com o Paulo, parceiro da Adega e de tantas aventuras, com Calvin e suas palavras sem fim e no blogue e no firmamento, com tantos amigos que só visitam e com outros que têm blogues com pseudónimos. O Infotocopiável deu-me também a conhecer gente que me tem encantado com os seus espaços, como a Alfacinha e sua horta, a Ana Fonseca e sua praia, o Formiga Bargante e sua arte, a Maria e seus tiques de menina bcbg, a Moonlover e sua Lua, a Soukha e suas transcendências, a Tânia e seu ecoponto de almas, a T&V e seus tangos e valsas, ou As Velas Ardem Sempre Até Ao Fim e seu blogue homónimo... Há mais amigos, mais descobertas e mais blogues que gosto, mas não vou pôr aqui mais os restantes, pois estão todos aqui ao lado pendurados, em sinal de reconhecimento, gratidão, afinidade ou sintonia.
A todos aqueles que aqui me encontram e que aqui encontro, mesmo sem saber, agradeço este ano de troca de palavras e de imagens. Porque hoje é um dia de partilha e de evocação deixo uma imagem minha recente, acabada ontem. Espero que mais anos venham e mais águas passem por esta fonte em que nos sentamos a beber e conversar. Há um ano começou assim: rendido.

Nota: Sim, confesso que acertei a data no Blogger... até escrevi o texto de véspera... imaginem que me finava ou o mundo acabava antes... havia de ter muita graça!...