digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

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terça-feira, setembro 03, 2024

Astronauta

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Tenho de ir a Wuppertal, porque tenho de ir. Prevejo-me homem-do-futuro reconhecendo a casa dos seus distantes avós. Não vou procurar o passado, sou quase alérgico à saudade, sinto que preciso de fazer as pazes comigo. Contudo, não matei e fui feliz.

 

segunda-feira, outubro 10, 2022

Renânia do Norte-Vestfália

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Se hoje esta luz-chuva-cheiro-terra-e-verde chegou não é memória que ma faça amar é ainda assim amor que me lembra.

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Era miúdo-excessivo de amor-verdade e ela miúda de amor- excessivo-verdade-ainda.

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Não deverei chorar por saudade que não tenho e todavia dava para voltar a estar naqueles verdes e sentir como era a inocência e a descoberta.

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Não a amo. Amo a miúda que amava quando vou aos sentimentos antigos.

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Arrependimentos, muitos. Voltar não quero porque não sou.

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Fui.

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Não estão escondidos, os sentimentos. São arrumados na caixa bonita do arrumo do que se gosta.

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Quemedera que amanhã não seja soalheiro.

quarta-feira, novembro 01, 2017

Wasabi

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Tenho-te a luz e perco-me de sofrimento no regresso duma música. Uma coisa esquisita. Sou dois momentos e uma biblioteca. A gaveta, ninguém sabe o que tenho teu e tu.

terça-feira, janeiro 03, 2017

Se não foi por mal também

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Uma conclusão de dúvida, não a podendo contestar admito-a verdadeira. Há flores cheirosas e as esquecidas. Se nunca tiver sido feliz.
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O sal de Tavira, a chuva em Wuppertal, a poeira da festa, as fotografias, as fugas nocturnas, o Renault 5 metalizado, os fins-de-ano frios.
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Memória e verdade distinguem-se e na falta de luz a penumbra faz de Sol.
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Estragar não foi querença e os arrependimentos não desfazem. Se não foi por mal também não por bem.
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Não posso ser amigo de todos, ainda acredito. Ainda sou uma causa.
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Estrangeiro, diferente da vida infantil agora descrida, não tenho como não admitir que talvez.
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sábado, dezembro 19, 2015

Coração patinador

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Então:
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– Então, apaixonei-me por ela.
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– Quem? Quem?
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– Uma miúda da minha turma…
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– Como era ela?
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– Não sei bem o porquê… era cool, tinha pinta, popular e boa-onda.
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– Mas, fisicamente…
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– Baixota e… muito bonita.
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– Como bonita?
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– Bonita!
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– O que fizeste?
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– Não fiz nada. Fui tímido até muito tarde. Em contrapartida, sempre fui muito consciente da realidade e que andar de patins era coisa que escusava.
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– Assim é que é não tiveste mesmo hipótese.
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– Nunca teria.
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– O que aconteceu depois? Esqueceste-a? Cortaste os pulsos? Choraste desalmadamente?...
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– Suspirei. Suspirei triste. Na verdade, aos treze anos, não sabia o que era isso de namorar – sabia que tinha de haver uma declaração… e se ela aceitasse, o que fazer?... e se ela me desse uma, mais do que provável nega, o que fazer?... E no dia seguinte?... E os intervalos?...
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– Esqueceste-a?
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– Apaixonei-me por outra.
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– Esqueceste-a depressa, à primeira.
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– Nada! Estava apaixonado pelas duas ao mesmo tempo.
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– Essa segunda miúda como era?
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– Loirinha…
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– Aos treze anos somos muito atraídos por loiras.
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– A primeira também era loira… aloirada… ouro velho.
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– Conta-me mais sobre a segunda.
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– Loira e de olhos azuis… ou seriam verdes?... Penetrantes.
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– O que fizeste?
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– O mesmo que não fiz à primeira.
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– Eram parecidas?
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– Nada. Em nada. A primeira era cool, a segunda era daquelas muito arrumadinhas. A primeira gostava de desporto. A outra preferia ficar à conversa nos intervalos.
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– Essas paixões adolescentes… quanto duraram?
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– O tempo todo em que estive na escola.
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– Bolas! Isso parece uma coisa de Sempre-Noivo ou de Triste-Viuvinha…
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– Nada! Fui apaixonando-me por mais. Mais tarde, aos dezassete anos, é que encontrei uma miúda a quem fui capaz de me declarar.
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– E?...
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– Ela aceitou.
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– Quanto tempo durou?
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– Nem sei. Mas, uma semana depois, fui de férias para o Algarve e comecei a namorar uma alemã.
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– Don Juan...
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– Acho que não.
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– Finalmente esqueceste as outras.
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– Sim. Mas continuei a apaixonar-me sucessivamente, mesmo tendo namorada… tive muitas, mas também ganhei campeonatos de hóquei em patins.
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– O quê?
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– Par de patins.
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– Ah!
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– Só atinei aos vinte e três anos.
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– Quanto tempo?
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– A partir daqui não digo mais nada.
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– Porquê?
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– Não me apetece. Quando esse primeiro amor sério – sérios foram também os outros, no padrão adolescente – terminou voltei a ser namoradeiro e campeão de hóquei no gelo.
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– Mudaste de desporto?
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– Sim… mais fácil de cair, de me manter de pé e de me aleijar.
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– Por isso não contas mais nada a partir de mil novecentos e noventa e três…
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– Não! De dois mil.
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– Sabes delas?
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– Duma, sim. Doutra não.
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– Compreendo.
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– Mas, olha. Dessas duas primeiras namoradas… ainda somos amigos. Falamo-nos, não todos os dias ou semanas ou meses, mas várias vezes por ano.
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– Tá giro, oh patinador.
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– Depois vi a luz.

terça-feira, junho 23, 2015

Na Terra redonda

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Quem me dera um país onde não houvesse memórias nem o lodo.
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Onde sopa fosse sopa e o sono de dormir.
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Sem precisão de sonhos nem de almofadas para abraçar.
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Sem Rei nem política, mas uma montanha de verde ao azul, por vezes de nudez coberta, e estrelas como coroa.
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Dói-me muito nos órgãos que pensam.
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A agonia pela vesícula esfarrapada, cuja serventia desconheço.
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Dói-me muito nos órgãos que amam.
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A agonia contida no apêndice.
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Quem me dera se esvaziasse, quem me dera se amputasse.
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Já fiz amor no restolho duma seara e fotografei o peito da namorada.
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Tão pequeninos.
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Fiz amor de janela recatada por cortina.
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Adolescente fugi pela janela na madrugada adolescente.
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Fiz sexo pensando que era amor.
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Fiz amor que era amor.
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Amei profundo e denso e morri no final.
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Enganei-me e fiz amor pensando que era amor.
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Amores de vai-e-vem, de ida à esperança e volta.
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Roubaram o ar que tinha para respirar.
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Fiz amor que era amor.
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Quase iluminámos os dias.
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Perdi ao perde-lo.
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Perdendo-o, perdi-a.
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Perdendo-a, perdi.
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Além disso tudo. Além e longe. Na Terra redonda.
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Na minha vida paralela, às vezes perpendicular, irrespirei.
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Desisti e matei-me.
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Teimosamente sobrevivi.
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Encontrei.
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Ainda assim.
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Não puseram a pedra da campa rasa.
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Eu esperando.

segunda-feira, junho 30, 2014

Salvar o Tua - O meu manifesto

A razão deste texto pode conhecer-se em http://www.salvarotua.org/
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O meu pai sempre disse:
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– As pessoas são capazes de ir ao estrangeiro ver paisagens e museus e do seu país não conhecem nem paisagens nem museus.
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Citando mal, foi isto que sempre disse. O meu pai, que hoje tem 90 anos, nunca quis conduzir nem ter automóvel e não foi por isso que deixámos de visitar o país. Levavam-se horas imensas! Fixei algumas: seis horas de Lisboa a Castro Verde, doze horas de Lisboa a Mirandela.
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Para quem não sabe, o meu pai é (era) artista plástico, concretamente pintor, e absorvia o que lhe entrava pela janela do autocarro ou do comboio, eventualmente do automóvel de alguém com quem partilhávamos o passeio.
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O meu pai via e contava-nos o que via, porque os olhos de pintor viam muito além. Tenho a reprodução do retrato de Dom Sebastião, de Cristóvão de Morais, e lembro-me que esse trabalho – estudo para um outro, de encomenda, e ambos com autorização do Museu Nacional de Arte Antiga, onde o meu pai passou horas a estudar a obra quinhentista – estava com pequenos adesivos a assinalar minúsculas alterações de tom. Onde se via negro, o meu pai via negros.
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Dessas muitas viagens recordo-me da que fizemos até Bragança. Não havia auto-estrada para o Porto, mas da estopinha não tenho ideia. Devia ter onze anos, um para cima ou um para baixo, e adorei ver os tróleis do Porto, onde um dizia que Avintes – achei o nome tão engraçado... e ainda hoje me sorrio a lembrar-me da alegria parva, dum pré-adolescente, de pronunciar Abintes.
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Do Porto fomos em direcção ao Douro, apanhámos o comboio primeiro na Estação de São Bento – ou Sambento, para quem gosta de falares – mudámos em Campanhã. O que tem de bonito a primeira – uma das mais felizes gares portuguesas, com azulejos de Jorge Colaço – tem de feiura a outra, que parece um apeadeiro gigante e encardido – e assim acontece também em Coimbra.
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A vista da linha do Douro enche a alma. Mas o arrebatar da respiração começou no Pocinho, onde se fazia o transbordo para a linha do Tua, que desaguava em Bragança. O comboio era pequenino e lento e trepava, pouca-terra-pouca-terra, até Trás-os-Montes.
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Com os olhos quase virgens, sem medo mas pensativo, enamorei-me pelas paredes de encosta dum lado e com a vertigem do outro, que só parava no fim troço de água, um risco largo de verde escuro, bordado a branco fininho, dos tropeções nos calhaus. Do outro lado vi, como se fosse um espelho, escarpas brutas, babantes de amarelo-alaranjado do enxofre, escorrentes nos cinzentos, com umas pouquíssimas plantas doidas que nesses muros escolheram fixar-se.
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O comboio corria em bitola estreita e os bancos eram de madeira, com alguma ergonomia. Eram de suma-a-pau e não sumaúma, brincava o Manuel Jorge, o pintor. A minha mãe, quase sempre calada, mostrava o enlevo.
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Conversador e activo, o meu pai meteu conversa com quase toda a gente e tanto se falou sobre aquela linha, aqueles povos, as vidas de outrora e da linha e sua vista. Dessas conversações não me lembro, mas fixei uma piada:
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– Este comboio é tão lento que se pode sair, em andamento, pela porta da frente, fazer xixi, apanhar umas flores, esperar um pouco e entrar pela porta de trás.
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Apaixonei-me por Bragança e por Vinhais. A capital de distrito era uma aldeia grande e longínqua e Vinhais tocou-me pela decadência do património medieval. Voltei lá, muitos anos depois, e essas pedras estavam barradas com cimento, uma tragédia de gosto e bom-senso.
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Uns anos mais tarde (talvez oito, nove ou dez) andei a mostrar Portugal à Kerstin e tive de a levar até Bragança pelo caminho mais bravio. A bitola estava ainda reduzida e a máquina uma ternura que arrastava duas carruagens. Entrei e decepcionei-me, porque tinham tirado os bancos de suma-a-pau por uns bancos chatos, duros, desconfortáveis – umas coisas verdes iguais aos que equipavam a linha de Sintra. Moderno não é sempre progresso, os de madeira eram muito mais confortáveis, por se ajustarem ao corpo.
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Mostrei-lhe o século dezanove e ela deu-me o século vinte; a minha namorada alemã vivia em Wuppertal, uma cidade em que o metropolitano tem os carris em cima e se prende às linhas por um braço, causando o balanço que lhe deu a alcunha, ou o nome próprio, de «comboio que levita», Schwebebahn. Cidade que Wim Wenders filmou em «Alice e as cidades». Cidade onde a bailarina e coreografa Pina Bausch fixara a sua companhia de bailado, a Wuppertal Tanztheater. Cidade onde nasceu a poderosa multinacional Bayer, cujo complexo, o primeiro, foi cercado pela cidade, é atravessado pelo bizarro veículo. Cidade que, fora isso, não tem nada de interessante e onde já não vive a minha grandíssima amiga Kerstin e o fantástico marido Markus.
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Regresso à viagem no século dezanove... Desesperados pelo conforto e, sobretudo, pelo cheirete dum velhote, fomos indagar a carruagem seguinte. Parecia ter metade do tamanho, mas havia uma porta ao fundo. Abrimo-la e era espaço de carga – levava o correio, um ou dois pacotes. Tão larga e comprida para tão pouca coisa...
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Pouca coisa? Não! Uma porta larga, para permitir a entrada de cargas volumosas. Mais do que porta, muito mais do que janela, era o portão para a liberdade dum salto ou varanda, aberta e apenas com um ferro para alguém se agarrar caso fosse preciso. Sentámo-nos no chão, com os pés no estribo e bebemos o ar de cheiros que fazia parte da paisagem.
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Em Portugal teima-se na asneira de abandonar as linhas férreas. Não digo apenas as antigas e quase vazias, até as que não nascem... Aos anos que oiço falar numa linha de mercadorias, em bitola europeia, entre o terminal de carga do porto de Sines, de águas profundas, e França, passando sem salto ou transbordo a fronteira dos Pirenéus – entrada privilegiada e óbvia para grandes cargueiros – e nada se faz. Em contrapartida pensou-se em comboios de alta velocidade sem cidade onde parar e fez-se um aeroporto em Beja, meio caminho de duzentos e setenta e sete quilómetros e quinhentos metros entre Lisboa e Faro – infra-estrutura que serve uma área metropolitana de pouco mais de vinte e cinco mil habitantes. Mas houve tantos mais.
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A força dum povo – inculto mas cioso das suas coisas, que no tempo certo consegue reparar nas patifarias que querem fazer ao que é seu – rasgou a barragem do Vale do Côa. Os portugueses compreenderam que aqueles riscos, que ninguém percebia, eram importantes. Juntaram-se intelectuais e paisanos, assinaram-se papéis do abaixo-assinado; do duque de Bragança, representante de oitocentos anos de Reis, a intelectuais e anónimos. O Vinho do Porto, património único e valioso, deu outra ajuda. Nos momentos importantes, há canções que se tornam hinos. Nesse momento foi o nascente hip hop português a bandeira sonora da causa, dos Black Company.
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 – As gravuras não sabem nadar, yô!
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Foi em 1995 e Portugal fartava-se da democracia de voz grossa do Governo de Cavaco Silva, que levou mais uns tabefes na Ponte 25 de Abril.
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A força das ideias tanto bateu, e com tanta força, no betão que a barragem não vingou. Quase vinte anos depois, os portugueses voltam a ter de se mover, agora pelo Tua. Agora é mais difícil argumentar, não há gravuras, mas nem por isso a luta deixa de valer a pena.
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Do que se fala?
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– Fala-se de defesa do meio ambiente. Fala-se de vinho, do Porto e do Douro. Fala-se da paisagem humanizada por gerações de trabalhadores, que permitiram a agricultar-se nas montanhas. Fala-se em todo esse património que a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) classificou, em 2001, como sendo de interesse da humanidade.
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Não é com intervenções artísticas que se faz a ressurreição de bens públicos. Com a lição aprendida a quando do movimento contra a barragem do Vale do Côa, a EDP arrebanha agora artistas consagrados e arquitectos de prestígio... matar ao luar não é menos criminoso do que o fazer na rua à luz do dia – como se fosse um filme negro com detectives.
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Esta luta pelo Tua tem a «virtude» de mostrar o rosto de alguns dos grandes nomes das artes portuguesas e das elites da arquitectura. Não quero fazer juízos de carácter dos artistas Pedro Cabrita Reis, Pedro Calapez e Joana Vasconcelos, que têm sido convidados a criar arte nas infra-estruturas hidroeléctricas. Ficamos a saber que gostam de ouvir o tilintar das moedas nas algibeiras – o que é o que é – mas nunca lhes ouvi discursos altruístas acerca da defesa do património e pode ser que tanto lhes dá como se lhes deu o Douro dos socalcos, o vinho único de classe mundial e as plantinhas e a bicheza.
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Mas Eduardo Souto Moura e Álvaro Siza Vieira dão-me vómitos. Tudo o que disseram afinal tem uma excepção e a excepção é o atentado ao património onde vão poder mexer, a troco duma transferência bancária, que tanto pode ser dum cêntimo como de três mil milhões de euros.
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Siza Vieira mete-me particularmente nojo, pelo que defendeu para o Chiado e pelos bonitos riscos que traçou da obra humana e natural do Douro. Poderão dizer:
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– A assinatura de tão reputados arquitectos, ambos vencedores do Prémio Pritzker, dá garantias de boa integração na paisagem e vai criar um sítio de interesse cultural.
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Cultura que destrói o único e o frágil lembra-me a Santíssima Inquisição e a perseguição ao pensamento divergente, queimando livros e pessoas. Para mais, matar é sempre matar, nunca se mata mais-ou-menos. Se matarem o património com a barragem do Côa, não serão São Álvaro (santo dominicano, nascido em Córdova em 1368 e morrido em 1430) nem os dois São Eduardos (ambos reis de Inglaterra – O Confessor, 1004 a 1066 e O Mártir, 962 a 978) quem irá miracular a aventesma. Muito menos os arquitectos Álvaro e Eduardo quem irá embelezar a besta-fera.
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Não, não acredito em milagres... Acreditando em Deus – num sentido de consciência moral, ético e espiritual, mesmo em agnósticos e ateus – sei que haverá quem, mais ilustrado «lá do outro lado», agasalhe esta luta. Mas se a barragem do Tua for levada numa enxurrada de cidadania, o correr da água irá lavar os maus pensamentos, será por labor dos conscientes, numa batalha na Terra contra o materialismo.
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Digam: são trezentos e cinco milhões de euros. Quanto vale um abutre, quanto vale a fauna e a flora selvagem? São quatro mil empregos, directos e indirectos. Até quando? Até dois mil e dezasseis. Depois disso? Os mesmos sítios ermos e os paisanos que não morrerem nem abalem para onde a vida dá mais uns trocos.
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E se antes se criassem redes de turismo e se embrulhasse todo o Vale do Douro até ao Planalto Transmontano num pacote de beleza, cultura e recreio? Daria mais trabalho, a Câmaras, empresários... Começando no Porto e acabando em... não só de luxo. Muito mais euros e mais trabalhos daria. Não Já, mas mais logo.
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Ainda que lá não vá ao Tua, quero que exista. Tal como quero vivos o lobo e o urso não tencione encontrar-me com eles.
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Pois, a luz. Que luz essa que ensombra?
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Estou-me nas tintas se vamos importar mais electricidade, que vamos pagar mais... só tenho dez dedos na mão e não cortaria nenhum para que as minhas mãos coubessem numa luva com nove entradas feita de prata e ouro – que confortáveis seriam.
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Ah! Já me ia esquecendo... a soalheira Alemanha consumiu, a nove de Junho passado, cinquenta vírgula seis por cento da energia a partir do Sol.
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O número de horas de Sol em Portugal situa-se entre as duas mil e duzentas e as três mil. Na Alemanha, a variação é entre mil e duzentas e as mil e setecentas.
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Nota 1: Por limitação do número de caracteres nas tag, os créditos dos vídeos são expostos aqui:
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Nota 2: A música «As coisas mais bonitas que vi» é o hino pela defesa do Tua e tem a autoria de Márcia e Luísa Sobral. Nela participam também Amélia Muge, André Tentúgal (We Trust), Catarina Salinas (Best Youth), Frankie Chavez, Mafalda Veiga, Marta Ren, Rui Reininho (GNR), Samuel Úria, Selma Uamusse, Susana Travassos e Tiago Bettencourt.  
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Nota 3: Para quem ficou curioso com o Schwebebahn, aqui fica um vídeo que acompanha parte viagem – tentei pôr a viagem toda, mas os quarenta e quatro minutos de filme são demasiados para a capacidade do Blogger.
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sexta-feira, março 21, 2014

É no Dia da Primavera que é Dia do Amor – coisa tão verdadeira e estúpida que dá saudades do mau e torna desconfortável o que foi bom

PREÂMBULO
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Entre saber e não saber, a dúvida de que se contarei tudo num longo binómio ou se cansarei em número de postas no blogue. Opto pelo lençol de músicas, conversas verdadeiras, sentimentos sérios. São quarenta e quatro anos de muitos enganos e crimes, em que fui quase sempre o ladrão. Mas sofri também. Não julguem, pensem apenas no começo, da primeira borbulha, até aos cabelos brancos na barba. Quase tudo em português, porque só sei amar em português e percebo mal o que dizem as bocas doutros corações.
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Porque hoje São Valentim estuda a complexidade do amor e Santo António pondera na virtude do casamento.
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Porque hoje começa a Primavera, que é a estação mais estúpida do ano.
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A Primavera é a adolescência. Já se sabia, já tinham dito. E é horrível.
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É da Primavera que me lembro e lembro que era feliz. Afinal a doença já cá estava e ainda assim a sinto feliz, a estúpida da Primavera.
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Engravidar nunca me assustou, pois sabia que nunca seria pai.
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A sida tremia-me. Não parava, mas as adolescentes tinham centímetros de amor dentro delas. Bastaria, pensava eu. Bastaria, pensava certo. Bastaria e continuava.
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Primeiro era tímido. Ela, depois de óbvia, colocou os lábios, encostados aos meus.
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Estúpido, não a beijei. Os miúdos fascinavam-se com os gays e elas perguntou se eu era. Não a mim. Era apenas estúpido.
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Wild one involuntário, digo hoje com ternura. Digo Ocarina. Digo Mila. Digo Iggy Pop – Real wild child.

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Era tímido. Invejava e tinha erecções. Via, via que me viam e nada fazia. Uma dia, num autocarro descapotável, perguntei à miúda se queria namorar comigo.
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Ela quis e demos uns beijinhos. Acho que houve uns dias que desaparecia e sem telemóvel ter sido inventado, nem jeito para lhe fixar o nome.
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Depois, atrás do nada duma surpresa, Tavira, branca e quente, com o Gilão e a esplanada que era a única coisa para fazer.
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Fazia-se mais, mas era conversa. A discoteca não interessava e os bares eram para as pipocas.
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Frente nos olhos convidei-a para sair. Tímido e estúpido, convidei a amiga. Depois foram os outros amigos.
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Num relance de galã, cantei-lhe Elvis, o meu herói... na sua versão cafona do «Oh sole mio» («It's now or never»).
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Beijámo-nos e foram dias a entrar pela janela e sair pela porta.
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Sim, era tudo especial. Para os dois. Demasiado novos para ter filhos e felizes como na ingenuidade dos romances para costureirinhas. The Speacials - «Too much too young».
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Ainda que Tavira continue, os Verões também acabam. Regressei, tímido e mentiroso. Nada se passara comigo. Beijinhos sem canção.
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E foi-se. Aí doeu e quando dói sente-se nascer no peito uns chifres.
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Tanto faz! Saía à noite e dançava. Éramos poucos. Quase todos os rapazes beijaram quase todas as raparigas. Quase todos os rapazes gay beijaram quase todos os rapazes gay. Quase todas as raparigas lésbicas beijaram raparigas lésbicas. Quase todos os rapazes gay beijaram raparigas lésbicas.
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Entre absinto, nem sei quem beijei. Se beijei, esqueci. Nunca beijei um rapaz nem um homem. Mas se o fiz, espero que o beijo tenha sido bom.
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Havia tribos e os que se drogavam. Valia muita coisa e o mundo era tranquilo e feliz. Como na animação para miúdos: dávamo-nos todos bem.
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Era tímido, mas uma coisa líquida, pouca porque era pouco o dinheiro... pouca porque não aguentava... pouca, que nem agonizava ter de andar quarenta minutos até casa.
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Um grupo alemão, da primeira geração que se fartou de arcar com o peso dos erros dos avós, cantava o que ninguém entendia. O ritmo não perdoava e os skinheads, que ouviam Mussolini e Hitler, e numa canção em alemão, festejavam o hino.
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Não percebiam nada. Nem eu. Quase ninguém fala alemão. Mas dançava, toda a gente dançava os DAF – «Tanz den Mussolini».

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Num Verão fui com passear com uns amigos. Não havia adolescente que não se identificasse, ainda que o que houvesse para identificar não lhes fosse permitido perceber. Da barragem ao litoral, horas para ir dum lado ao outro das férias.
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Sim, «Dunas», dos GNR - eram quase tudo e as dunas escondiam os desejos que satisfazíamos onde os adultos não nos descobriam.

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Às vezes a nostalgia e a melancolia visitavam-me. Não tinha lembrança, nem crime, nem alibi, nem nada. Cantava como sentisse que tudo aquilo fosse uma verdade minha. Era só música, mas o coração sentiu.
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No íntimo sabia que em algum dia haveria de ter aquela mágoa. Tive-a, mas quando me chegou já a validade estava cem quilómetros para trás.
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Ná! Sempre tive premonições. Sabia, de facto, que a pessoa que tinha, que iria tendo, que perderia... ou outra qualquer me haveria de deixar a fritar na melancolia.
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Os Sétima Legião eram quase alternativos... quando começaram a surgir os alternativos da roupa... que saíam de milénio em milénio e que hoje dizem ter sido noctívagos e vividos. Raispartam a memória e a adolescência...
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«Por quem não esqueci»... hoje são muitas.
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As borbulhas, que nunca tive muitas nem muito chatas, acabam por nos deixar para que possamos ser homens.
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Trabalhava, era importante. E melhor: ainda estava no liceu, num atrasado difícil de explicar mas que em resumo:
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A justiça adolescente nunca permitiu que a criatividade sofresse com a matemática, a física e a química... principalmente a primeira.
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Mudou-se a vida. Não foram dois anos perdidos e o meu pai disse-me: antes perder dois anos da vida do que perder a vida inteira.
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Certíssimo, o meu pai, que sempre foi mais amigo do que pai.
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Errado momento em que mudei. Perdi dois anos, ganhei umas letras e sei que perdi a vida. Hoje escreveria a tinta e certamente já não me lembrava da assassina da matemática.
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Adolescentes e seus caprichos. Justos. Era homem e queria mostrá-lo. Era um homem pequenino e comecei a fumar, na idade em que se merece uma tareia por pôr um cigarro na boca.
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A noite era minha e dançava. Tinha dinheiro e já podia aguentar mais. Ainda assim fiz muitas vezes quarenta minutos a pé até casa. No dia seguinte estava às nove horas no sítio combinado. Almoçava à mesa, bebia um copo de vinho, fumava um cigarro e, às vezes, pouquinhas, deixava entrar um líquido tingido de castanho a que chamava uísqui.
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Era eu e mais outros... restam alguns nas cartas que tenho para jogar. Felizes, superiormente intelectuais, até porque bebíamos uísqui, tínhamos o mundo na mão. As canções deprimentes, os males do amor...
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As borbulhas não tinham saído há tanto tempo. Podíamos ser felizes com ares tristes. Mas éramos importantes. Esta, dos Diva, nunca se me soltou da cabeça. «Amor errante», talvez por isso... e eu que me tornei tão quieto mais tarde.

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Um dia acordei num casal. Borboletas, passarinhos, calmaria num prado, tranquilidade de amor. Tempo, o mais raro componente do amor. Tantas coisas, do bom ao excelente, do mau ao desespero. Um casal.
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Deve ter sido bom, foram quase oito anos. Asneiras, pois. Provavelmente mais minhas. Não me lembro e tenho tudo guardado em gavetas e armários do sótão das emoções. Tantas canções.
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Não sei porquê esta... podia ser Marisa Monte, mas esta é um beijo tão raro que penso que a memória, que tenho algures, merece um abraço especial. Sim, porque foi um grande amor...
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Quase oito anos, uma vida de fumo, numa Smoke City... um amor verdadeiro, que vivia submerso... «Underwater love». Um dia afogou-se em lágrimas. O resto já disse.

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Eu que já me habituara a viver sozinho, sempre desde que saí do ninho, tinha recordações a saltar, como bonecos de mola, de todo o lado. Não tinham rosto, tinham arrepios. Não eram sustos, eram tristezas, lembranças de muitos beijos dados numa cama partilhada.
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Depois veio a dor de corno e a dor de corno só quer ouvir dor de corno. Músicas bonitas, que poliam as hastes córneas da cabeça. Esqueçam, que já me esqueci... não das músicas, mas donde deixei os chifres.
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Ah! As borbulhas! Subcutâneas. Noites de loucura e dias de encher de tempo com qualquer coisa, do trabalho à esplanada, do livro ao sossego das horas. Do jantar à festa.
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Tantas e tão pouco medo. Onde ficou a timidez? Pudor? Talvez... Para quê? Respondem os GNR, ilustradores de vida duma geração, que aqui cantam um brasileiro... «Quero que tudo vá pró Inferno».

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Na verdade, os trinta são ridículos. São uma espécie de adolescência sem borbulhas.
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Ah! Já não tenho vinte anos... já posso fumar cachimbo.
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Janta-se fora e fazem-se jantares em casa. A música é mais séria. Inventam-se situações infantis para criar casais, juntar pessoas solitárias que vivem tristes ou que aparentemente vivem tristes, ou que fingem viver tristes ou que se estão apenas...
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Leva-se um vinho que se julga bom e é-se simpático. Sorrisse-se e às vezes trocam-se números de telemóvel. Na maior parte das vezes não se vai ligar. Nas outras... combinam-se idas ao cinema.
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Finge-se ser uma pessoa adulta e madura, quando na verdade, os solteiros, têm as hormonas aos saltos e não têm paciência para perder tempo, coisa que os adolescentes, curiosamente, têm para estas coisa. Se é prá cueca, é prá cueca...
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Sai-se à noite. É só um cineminha. Podíamos jantar ou comer qualquer coisa. Tomamos um copo? Vamos dançar – e eu que adoro dançar sozinho e para seduzir – dizia que sim. Não queria nada.
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Ou queria largá-la ou queria cueca e se ela não se quisesse largar depressa, depressa saltava da cueca a minha vontade. Dançar? Sim, no Lux, no meu clube para todos os sentimentos.
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A conversa dava ou desandava em minuetos... muita conversa pressupõe horas perdidas em que se podia estar a dar uso aos corpos.
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Olha, vou só ali. Vou ali ao bar buscar uma vodca... três horas depois, uns minutos, ou conversava com o barista ou com a miúda do lado ou com a miúda do lado que infelizmente tinha namorado e resolvera aportar ou encontrava alguém conhecido ou fazia por...
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Canalha alimentado a vinho e vodca regressava, minutos perdidos, depois a conversar sem sentido, a inventar programas recusáveis numa discoteca...
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Crida, perdeste o autocarro para as cuecas e eu perdi a tesão por ti.
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Sim... tudo começara com um jantar de Cupidos, bem intencionado. Mesa e Rui Reininho... talvez a música não tenha nada a ver com isto, mas a referência ao nono andar lembra-me esses quase blaindedeites... «Luz vaga»... podia ser, mas nem sempre aconteceu.

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Claro que as luzes, a música e a bebida criaram paixões. Marés pequeninas para molhar os pés.
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Ah! Os trinta e as tais borbulhas. Muitas negas, na guerra dá-se e leva-se, e muitas miúdas que já nem apresentavam os novos namorados aos pais... aos irmãos... aos amigos.
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Sem espírito de vingança nem mimetismo... acho que é natural na espécie humana... Eu fazia o mesmo.
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Tudo tão intenso! Como um cigarro. Como o beijo adolescente. Tão consumível e mortal. As borboletas vivem poucas e algumas esfumam-se no calor da luz.
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Como os adolescentes... «Agora e para sempre». O agora dura uns três minutos e o sempre é demasiado sério e doloroso para quem aos trintas começou a aprender a fazer patinagem artística no estilo Bamby...
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Em vez de fofinho, é ridículo. Os «Da Weasel» disseram tanta coisa acertada, tantas vezes de modo tortuoso, mas disseram tão bem, que com os GNR são quem mais sabe da vida duma pessoa. Os cotas sabem-na toda, os chavalos estavam a aprender...

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Não fiquei cínico aos quarenta. Nem fui totalmente imbecil nos trinta. Conheci gente bonita, que por alguma estrela em retrógrado, nos fez encontrar fora do momento.
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Uma noite sem data numa rua que desce, só sobe quando vamos no sentido contrário. Ela e ela e ele e ele. Eles nos olhos nela e a ousadia dos trinta. Risos e mentiras, genuínas como os poemas desastrados dos analfabetos honestos.
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Acho que acreditei na mais que provável mentira. Passei dias a ver passar os dias. Na praia, contra-conselho, mandei-lhe uma mensagem para o telemóvel.
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O resto não sei. Sei que fui feliz, entre tempestades estúpidas. Nos despojos dos acidentes trágicos de comboio surgia sempre vida.
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Corpo que pedia corpo. Um mesmo corpo garantia a química e a física. Nitroglicerina faz bem aos corações doentes.
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A nitroglicerina explode e mata. E numa noite de explosão deu vida. Num dia de implosão enterrou-se a vida.
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Alquimia e magia, a força das bombas dos discursos trocados. O amor morreu com palavras e sem ver, esquecido que nascera na sinceridade das expressões.
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Flor dum cacto? A amarela, com espinhos. Não era rosa, que detesto nessa cor. Nem tulipas que também não gramo. A botânica deve ter alguma na colecção.
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O coração é coisa comum, vale pouco. Todos os animais têm um coração. E a alma? Quanto vale uma alma e quanto lhe pesa o coração?
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Não respondem, mas dizem. Não foi essa a minha vida, mas é este o seu sabor, palavra donde dizem sai sal e sabedoria. «Expensive soul», como se não bastasse... «O amor é mágico» e nem só os aprendizes se queimam.

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Hoje, pela primeira vez, não tenho uma música para cantar ao amor. Posso dizer, com alguma segurança – talvez um dia que os quarenta são ridículos – que me estou nas tintas.
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Nas tintas para quase tudo menos para o amor. Paixão? Isso é doença!
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Como é feliz a paixão! A paixão é uma merda!
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Ainda que neste amor, neste abraço tão grande, viva uma paixão sossegada, que se respeita e sabe respeitar.
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A paixão não está velha nem cansada. A paixão foi à escola e não se deixa esgotar na correria das borbulhas.
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Não sou cínico, estou apenas surpreso. Há tanto mundo e o vento que faz abraçar como dantes fazia a paixão.
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Saudades? Muitas. Vergonhas, apaguei a maioria. Repetia as asneiras? Não mas fazia-as, se soubesse tanto como sabia na altura.
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Quero e o meu quero é grande. Somos sete cá em casa.
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Ao contrário dos egoísmos antigos – repito que um dia talvez pense que os quarenta são inocentes – quero por tudo.
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Se a vida começa, de facto aos quarenta, venho ao mundo com as alegrias das dores.
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Convencido que nesta coisa do amor perdi o egoísmo... reconheço toda a saudade e ternuras.
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É bom ter quarenta. Sei que tudo o que de melhor me aconteceu foi provavelmente aos quarenta, mas uma borbulha insistente canta-me novamente os GNR... «Mais vale nunca».
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Como as lágrimas, o tempo não volta. Choro por todas as dores e pela alegria deste ter.

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Nota: Do pouco que sei, da vida e da escrita, embora o diga mais por soberba... dois poetas escreveram o que eu queria ter escrito. Deixaria tudo para os outros, queria que estes fossem meus.
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Stéphane Mallarmé: «Hoje descobri como é bonito o teu nome. Pronunciei-o baixinho muitas vezes e senti que na minha boca crescia um delicioso sabor a ti».
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João Ruiz de Castel-Branco – Cantiga partindo-se:
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Senhora, partem tão tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.
Tão tristes, tão saudosos,
tão doentes da partida,
tão cansados, tão chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.
Partem tão tristes os tristes,
tão fora d' esperar bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

segunda-feira, novembro 25, 2013

Está frio lá fora

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Queridas Flores, lembrei-me de vos escrever para, através das cartas,  que é só uma, conhecerem a mais exótica Flor. Sem maldade nem ingenuidade. Podia tê-lo feito antes, mas não me lembrei. O Natal aproxima-se e talvez a Lua na quinta casa dum signo me tenha criado a necessidade.
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Não podia esperar. Pensei deixar tudo para amanhã, mas tinha de ser agora; passa das quatro da madrugada e o assunto desarrumou-me a alma, e uma alma desarrumada não dá descanso ao corpo.
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Ocorreu-me que o Natal não tarda. É quase Natal, uma data solene, profunda e complexa, e íntima, e a nossa intimidade morreu, e a que temos é tão nossa que está incerta, como um relógio avariado e coberto de pó.
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Começo por ti, Flor Amarela, a primeira que desabrochou. Vesti a camisola de erva e servindo, olhando-me, não me vi nela. Não me pertence e nada farei para ta entregar. Não a deitarei fora, por respeito à dignidade duma peça em perfeito uso. Não a darei, porque não é minha. Desde 2006 que estava por vestir, talvez por causa destas razões, mas de forma inconsciente. Ainda bem que a usei. Agora vai para lavar para ser arrumada e aí ficar até qualquer coisa.
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Percebi que tinha de te escrever porque te quero contar a tua diferença face à Acima-de-Lírio, já que o lírio parece-me ser a mais nobre das flores; não é fatal como a rosa, nem singela como a margarida, nem fidalga como a tulipa nem pirosa como a orquídea, é simples como uma rainha. Não perdeste nem perdi. Hoje, por estes dias, sei que nem perdemos os dois num conjunto. Só perdemos tempo.
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Querias o que queria e dizias o que não querias, acreditando que era isso que querias. Compreendo que a minha incompreensão conduziu ao extremar dos dias do temperamento, aos dias e noites em que dois comboios numa mecha embatiam frontalmente. Não te culpo nem me culpo nem nos absolvo, porque, não me interessa. Todavia sem rancor ou mágoa.
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Ao contrário, a Flor de Luz quer o que quero e di-lo. Tão simples.
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Quanto a ti, Flor Vermelha, a situação é muito mais complexa. Houve momentos bons, razão da longevidade dos beijos.
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Mas foram anos de sobressaltos. Injustos, sei. As feridas a arder. Queimou-se o amor e vivemos com as queimaduras. Estão cá, e nem me lembro. Tenho-te sincera amizade, e chega.
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Ao contrário, a Flor de Luz dá-me tranquilidade. Cada beijo é aconchego. Só isso já me bastava.
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Minha querida Flor Verde, não querendo ser cruel, foste irrelevante. O quase que falta pertence à P.
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A Flor de Luz dá-me... tanto e ainda o Mais.
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Simpática Flor Azul, ninguém te tirará teres sido a primeira. E mais não há para dizer sobre esse século, além dum grande amor e do primeiro desgosto. Enganei-me, mas acreditei que foi bom. Amiga distante, mas amiga.
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Já a Flor de Luz dá-me o que nunca soubeste dar: sentimento de amor.
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Doce Flor Lilás, talvez a segunda Flor que mais adore. E tu tão quente que me queimavas a cada abraço, carta ou palavra, sem mal. Tantas vezes canalha, que digo, para me absolver, que foi a adolescência. Quero-te tanto e também ao M. Há uma amizade que os quilómetros não deixam.
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Por seu turno, a Flor de Luz tem uma leveza que respira.
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A Flor de Luz é mais do que isto. E jamais será mais do que a soma de todos os istos. As pessoas não se amontoam nos sentimentos e memórias, quando têm, porque terão sempre, uma gravura guardada algures numa cavidade do coração.
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O que é, digo-lhe. E tudo não sei. Quero toda a vida para saber e poder recordar enquanto souber amar e for deixado viver.
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Dos olhos nasceu a luz. A Flor de Luz.