digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

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quarta-feira, novembro 04, 2009

Vinho para o meu amigo sábio














Tenho um amigo meu que é sábio e que tem uma certa mania que é ribatejano. Não se julga emproa com tiques marialvas, não se ginga para fazer sobressair demasiadas horas em cima da sela, mas tem um um jeito. Na verdade também tem muito de lisboeta, porque o é.
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Na verdade, o meu amigo sábio é um misto, em versões suaves e polidas, dum castiço alfacinha da Graça e dum orgulhoso ribatejano. Um lado herdou do pai e da convivência e o outro da doce e simpática mãe, que veio ao mundo na Golegã.
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Pois bem, o que faz um sábio? Os sábios podem fazer muitas coisas... tal como os génios. Noto aqui que o meu amigo não é um génio, mas um sábio, o que tem muito mais mérito. Nasce-se génio, mas aprende-se a ser-se sábio. Bem, é filósofo. Um dia percebeu que andava errado na sua vocação de jornalista, fez as malas e partiu para Paris onde fez um doutoramento sobre Michel Foucault. Hoje, diz coisas simples sobre assuntos complicados, mas quando quer afirma complicadíssimas e elaboradas sentenças. O homem é sábio!
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Agora faz também palestras e outro dia mandou-me um email a felicitar-me pelo meu aniversário. Estava no Brasil para um ciclo de aulas e conferências. Naquele dia, em concreto, estava em Angra dos Reis... Ele sabe-a toda. É sábio.
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O que tem isto a ver com vinho? Tem que, como todos os emigrantes, tem saudades da terra e, é claro, do vinho português. A vida nem sempre é fácil para procurar o que se quer nas garrafeiras parisienses e depois há as dificuldades da escolha. Assim, numa conversa telefónica ficou prometido um jantar... Porque, o meu amigo é sábio não lhe posso servir coisa simples de entender ou de entendimento sem o gozo da descoberta. Porque o meu amigo tem raízes ribatejanas fica a promessa do néctar vir duma quinta daquela província. Assim, o vinho será um tinto com boas notas vegetais e elegante. O Quinta da Lagoalva Reserva 2004.
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É que depois duns anos em que estas paragens andaram tristes e esquecidas, felizmente há também gente sábia a fazer bons, modernos e interessantes vinhos pelo Ribatejo. Depois desse jantar, vai para Paris mais sábio o meu amigo sábio... e eu mais feliz com o convívio desse repasto.

Freixo de copo na mão





















Às vezes não sei onde ponho os pés e tropeço. Nem sempre caio, felizmente, mas bato com os pés em muitas coisas, umas grandes e outras nem tanto. Deve ser karma de ter uns pés tão adultos. Tropeço em coisas muito diferentes, o que me permite encontrar algumas preciosidades, além das mais costumeiras contusões e nódoas negras.
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Uma vez andava eu, feito mono, aos pontapés à vida e dei comigo em Freixo de Espada-à-Cinta. Digo aos pontapés à vida, porque cheguei até àquela vila sem esperar nada, quando devia esperar tudo. Pensava:
- Mas o que raio se passa em Freixo de Espada-à-Cinta? O que faz alguém viver ali? O que os prende àqueles torrões ermos?
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A minha arrogância e frieza de lisboeta custou-me uma lição. Aprendi (?) que se as gentes estão em algum lugar é porque lá devem fazer falta e alguma coisa de útil estarão a fazer. Pelo menos têm o direito a querer lá estar, ainda que a minha cabeça pequenina não entenda.
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Bem, mas voltando à estória de Freixo de Espada-à-Cinta... Cheguei ali por causa duma iniciativa inovadora dum empresário irrequieto, com ideias para levar gente a uma terra onde não passa quase ninguém. Lá fui a dar pontapés na vida à espera de narrar mais um investimento, do qual se espera sucesso. Dei por mim numa quinta de calhaus à flor da terra.
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A primeira coisa que percebi foi o significado de crosta terrestre. É verdade! Uma coisa é ter-se terra, essa substância mais ou menos macia, e nela fazer-se agricultura e outra é ter-se um campo de pedras. Depois tudo se acelerou e modificou na minha cabeça, sobretudo quando provei o vinho proveniente daquelas cepas enraizadas no chão pleno de xisto.
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A reportagem fez-se e lembro-me dela porque a ideia inovadora era mesmo boa, mas o que recordarei sempre mais há-de ser o vinho e o chão da Quinta de Maritávora.
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O concelho de Freixo de Espada-à-Cinta ainda está incluído na Região de Demarcada do Douro, no Douro Superior, e naquela quinta fazem-se um tinto, um reserva branco e um reserva tinto.
O Quinta de Maritávora Tinto Reserva de 2004 tem um belo corpo, bem equilibrado, a sentir-se a fruta e a notar-se bem a madeira. É um vinho de espantar. A mim, tirou-me todas as peneiras!