digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

sábado, agosto 29, 2026

Paulo Rosendo – 13 de Novembro de 1966 – 20 de Agosto de 2026

 
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Escrever sobre alguém que é próximo pode ser três coisas: muito fácil, porque se conhece a pessoa, ou difícil, por não saber por onde começar, ou muito custoso, por a relação ser naturalmente fluida.

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O Paulo é um dos meus grandes amigos e desde que nos conhecemos. Mais dia menos dia, foi no Verão de 1986, em Sesimbra. Entre maior aproximação ou pequeno afastamento ou amuo, não mudou muito, porque natural e inquestionável.

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Quando mais afastados, como nos últimos anos, a amizade não se perdeu. Nunca se acabou nem interrompeu. Zangamo-nos uma vez, e foi bravo. Miúdos e com álcool a mais, escaldou. Passou depressa, nem chegou a uma pausa para respirar, foi o tempo duma vírgula.

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Quarenta anos passam depressa para quase tudo e o vagaroso é movimento raro. Num dia tínhamos 16 e 19 anos e fazíamos coisas de adolescente. Numa viagem de três dias ficámos com 56 e 59, cumprindo o esperado nas idades por onde passámos.

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Cada um fala por si, eu digo: o Paulo não tinha mau-feitio, mas era rabugento – eu sou pior – e criava momentos hilariantes. Vou dizer o mais célebre e duradouro e que ultrapassou o grupinho envolvido.

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Aconteceu numa tarde de amizade – onde eu não estava presente – para ver a transmissão do jogo de futebol entre Portugal e a Turquia, não sei qual: a 24 de Junho de 2000 ou 7 de Junho de 2008, cujos resultamos foram ambos de dois zero a favor dos portugueses.

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Conta a lenda que rabujou tanto que até parecia que torcia pela Turquia. Colaram-lhe a alcunha de «Turco», cuja cola jamais perdeu a força.

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Bla, blá, blá, blá… olho e percebo que não guardo momentos, mas um sentimento – penso que transversal a «todos». O Paulo é boa pessoa. Isso não é pouco, é muito.

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A bondade do Paulo é o que mais guardo.


quarta-feira, agosto 19, 2026

A um gato não se nega nem caixa nem colo

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Chave-de-fendas ou lâmina-de-barbear ou martelo-de-orelhas ou papel-higiénico ou galochas ou pão com manteiga, não sei usar, não quero manipular e sou feliz-infeliz ou infeliz-feliz por isso.

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Jurei não escrever sobre o estado do tempo. Prometeram um dia mais fresco e aconteceu como se tivéssemos ido votar.

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Sem isso e só isso, resta-me o menos-de-zero, fico voltado para lá daí. Pensarei em gatos, não há tristeza sobrevivente.

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Uma gata entrou na caixa de cartão parada à espera de arrumo e sentei a outra ao colo, como se fosse antes ou depois do Verão, quando as estações eram rigorosas.

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Uma desceu e outra correu. Fica tudo bem, diz o Silva e a Anitta. Suspiro, repito refrão, penso o indesejado.

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Com os olhos postos na música tenho deixado o dia passar, como os anteriores e os anteriores aos anteriores e os que estão para vir. Tive esperança que não o fossem e desejo diferentes para diante.

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Começo contrariado e termino forçado, numa praça de dorme-não-dorme – não é indecisão, sim contradição. Diante do mundo, todo mostrado sem olhos ouvindo-me.

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Não quero dormir como a criança nem acordar como o velho ou inversamente – importa quase pouco, pois invisível.

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Penso na areia da praia para ver o horizonte azul, dois segundos tenho o ânimo outra vez na areia das gatas.

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Todos os dias todos os suspiros compulsivos e as frases que não me deixam dizer.

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Tentarei não me mostrar a quem não me quer ver. E se um dia estiver farto.

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Redescobri a gaveta das lâminas e abri o armário das almofadas.

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Deito-me pedindo não adormecer e acordo rogando não acordar.

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Não suspiro pela morte nem pela vida, anseio desexistir.

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Não avisarei, já avisei.

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Assim se é no calor sem ventoinha e com ventoinha.

sexta-feira, agosto 14, 2026

Clã McMesa


 

Re-recordação do amigo João Paulo Guerra

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As guerras são horrores, mas são também pretexto. Motivo justificativo para reatar conversas. Enquanto o fogo infernal vai fazendo estragos, veio à memória uma anotação acerca dum conflito com décadas.

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Um dia, o chefe-mestre-amigo disse:

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– Urânio enraivecido.

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Duas palavras que juntas têm dois significados idênticos, mesmo que essa particularidade não seja óbvia na primeira leitura. A expressão «urânio enraivecido» é uma síntese. Interprete-se duramente ou gracejando, resume violência. É uma crítica irónica à barbaridade dos exércitos e um juízo moral.

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Decorria a Guerra do Kosovo – que desgraçou entre 1998 e 1999. Como o acerto das palavras e do tom que as embrulha podem ser mal interpretados, o «urânio enraivecido» foi apagado do ficheiro Word da notícia. Optou-se pelo sisudo, formal, rigoroso e unânime «urânio empobrecido» – material que tem nefastas consequências para a saúde, derivado das poeiras radiológicas.

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Mas, ao longo dos anos que trabalhei com ele, o João Paulo Guerra disse mais coisas. Naturalmente sobre assuntos menos cruéis e, por isso, gerando risos descomplexados e livres. Diariamente fui aprendendo com esse chefe que foi também mestre e amigo.

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Trabalhar com o João Paulo Guerra, além da aprendizagem constante, foi uma colecção de piadas inteligentes. Se a graça não começava nele, o amigo rematava. Fosse o primeiro, a equipa acompanhava a jogada.

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Quase trinta anos depois e os estragos dos esgotamentos, é-me impossível escrever muito sobre os dias (concretos) passados com ele – ficou-me o bom-sentimento, obviamente. Além da raiva do urânio vêm rapidamente à cabeça dois outros momentos: uma remodelação ministerial – sei o primeiro-ministro, mas o ano não me chega – e uma nomeação intrigante – de data igualmente esquecida.

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António Guterres, que chefiava o Governo, tirou vários ministros e secretários de Estado. Em poucos dias o executivo estava quase completo. «Quase» significa que faltava uma nomeação. Nas habituais conversas de bastidores não surgia um nome ou aparecia muita gente, o que resulta no mesmo. Os dias passavam, a oposição criticava e havia mal-estar no Partido Socialista.

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– Como é possível tirar um membro do Governo sem ter alguém para o substituir?

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Até que foi encontrada a pessoa para secretário de Estado da Defesa. Foi escolhido José Penedos, remodelado uns dias antes, deixando a secretaria de Estado da Energia. Justa ou injustamente, a oposição não ficou feliz e no Partido Socialista também se fez um bruá de descontentamento.

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O João Paulo resumiu a nomeação num título factual e que dava conta das objecções:

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«Penedos, era o que faltava».

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Rigoroso e crítico. Ortodoxo e iconoclasta. Tendo em conta a novela, «todos» perceberam que se tratava dum remendo e visto com pouca aceitação.

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A outra situação também ocorreu num título… aliás, não aconteceu. A ironia do título (provisório) iria criar um conflito desnecessário. Em jornalismo, impõe-se a verdade, mas há modos de a escrever.

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Há uma nuance que vale a pena referir. Trabalhar com o João Paulo implicava uma permanente actividade criativa. Nos meus trinta e seis anos de jornalismo é caso único. Por isso, a autoria poderia ser total, parcial ou inspirada. Surgiam umas reuniões espontâneas em que a imaginação explodia.

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O caso seguinte aconteceu numa dessas situações. Não me lembro se a tirada foi dele – penso que sim, com 99% de certeza – ou de um de nós. Recordo-me que foi uma tarde de alegria. Ela resume o que era trabalhar com o João Paulo.

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A Tratolixo é a empresa de gestão de resíduos urbanos dos municípios de Cascais, Mafra, Oeiras e Sintra. Naturalmente, tem gestores nomeados pelos autarcas destes concelhos. Nas escolhas deu-se uma polémica, resultante duma situação de relação familiar.

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José Luís Judas presidia o concelho de Cascais. Tinha pertencido ao Partido Comunista Português e fora dirigente da Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses. Nas convulsões resultantes da queda das ditaduras comunistas, tornou-se crítico e saiu. Aproximou-se do Partido Socialista, que o pôs a encabeçar a candidatura a esse concelho. Resumindo: um concentrado de polémica, rancor e facada.

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Foi escolhido José Manuel Judas, irmão do presidente da Câmara de Cascais. Na reunião quase permanente duma editoria, o João Paulo disparou:

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«Judas põe irmão no lixo».

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Foi dos momentos mais divertidos nos meus trinta e seis anos de jornalismo. Possivelmente o maior. Houve bom-senso e escolheu-se outro título.

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Se não acredito na morte, não tenho mortos. Não choro, aguardo sem ansiedade o dia em que a conversa vai ultrapassar o tempo. Como não sou de saudades, guardo lembranças para mais tarde falar ao telefone.

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É tão simples. Não vemos um amigo há trinta anos e quando nos reencontramos a conversa não tem idade. Essa é mesma distância quando a separação se faz nos dois planos da vida. É mesmo muito simples.

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Naturalmente com a ternura que se deve aos amigos, escrevo-lhes um bilhete-postal – dedicado a quem viaja e a quem fica. Quando o João Paulo embarcou, o coração-cabeça disse-me que haveria de lembrar-me também doutros mestres e amigos.

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https://infotocopiavel.blogspot.com/2024/08/barba-e-bigodes.html

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As datas valem e não valem, depende do uso que se lhes dá e do espaço que permitimos. Passaram-se, há dias, dois anos dessa viagem do João Paulo. Tenho andado para escrever, não por efeméride, mas porque o coração-cabeça o impõe.

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– João Paulo, só acabei o texto agora. Ainda dá para hoje ou fica para a edição de amanhã.

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– Levanto uma página.

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João Paulo Guerra – 16 de Abril de 1942 – 4 de Agosto de2024.

quinta-feira, agosto 13, 2026

Real Eclipse

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Luís, Rei Sol. João, Rei Eclipse.

 

O cerco de Lisboa de 1384

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A 17 de Agosto de 1384 as tropas castelhanas cercaram Lisboa. Nesse mesmo dia ocorreu um eclipse solar. As tropas portuguesas, como tinham óculos especiais, passaram os portões e castigaram os invasores. Todavia, os castelhanos só se foram embora a 3 de Setembro, não partiram antes porque doíam os olhos. Contrariamente ao que é habitualmente referido, esta imagem é relativa ao cerco da capital portuguesa e não ao combate em Aljubarrota.

 

quarta-feira, agosto 12, 2026

Para eclipsar o tédio 11

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Eclipse? Não vou ver. Vi um noutra encarnação e fiquei cego.

 

Para eclipsar o tédio 10

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Em Lisbon, no Dacota do Norte.

 

Para eclipsar o tédio 9


 

Para eclipsar o tédio 8

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Nota: Desenas de tentativas, mas desisti. É o resultado menos mau.

 

Para eclipsar o tédio 7

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É sempre a mesma coisa!... Demoras uma data de tempo para te despachares. A nave só dá cinco vezes a velocidade da luz!... Não dá mais! Acho que vamos chegar tarde para ver o eclipse solar.
 

Para eclipsar o tédio 6


 

Para eclipsar o tédio 5


 

Para eclipsar o tédio 4

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Um eclipse! Uau! Que excitação!

 

Para eclipsar o tédio 3

 

Para eclipsar o tédio 2


 

Para eclipsar o tédio 1

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No nosso planeta não há nada disto!...

terça-feira, agosto 11, 2026

Eclipse-de-quarta-feira

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Aconteceu no modo de pensamento em dois lugares. Em sítios diferentes por impossibilidade de acontecer um encontro. Foi assim:

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– Amanhã há eclipse solar.

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– Sim.

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– Conseguiste arranjar óculos?

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– Não.

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– Vi-me aflito para conseguir.

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– …

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– Procuraste nas farmácias e nas ópticas?

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– Não.

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– Onde procuraste? Não deves olhar directamente.

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– Não procurei e não tenciono olhar, nem directa nem indirectamente.

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– A sério?!

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– A sério.

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– Não tens curiosidade?

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– Nenhuma.

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– Nenhuma?

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– Não. E então?... Não quero saber de eclipses nem Lua-vermelha nem super-Lua…

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– Mas é um acontecimento raro. Um acontecimento equivalente só acontecerá no ano 2200… ou algo assim.

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– Todas as noites posso ver a luz de estrelas que se apagaram há muitos milhões de anos… e também não tenho interesse nenhum. O céu nocturno é bonito, porque é escuro e tem pontinhos brancos, mas não tem mais nenhum interesse… O pôr-do-Sol é bonito, mas tem algum interesse? As auroras bureais são bonitas, mas têm mais algum interesse?

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– O quê?! Estás a comparar um eclipse com coisas que acontecem todos os dias? Não tem nada a ver.

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– Pois não. Ver um círculo tapar a luz do outro e ficar escuro é tão interessante como… sei lá… uma nuvem que parece um ursinho de peluche… aliás, interessa mais uma nuvem que iluda ou que estimule a imaginação do que uma coisa que, na melhor das hipóteses, deixa a boca aberta… e uma pessoa de boca aberta fica com ar aparvatado. Uau! Um eclipse!... Enapá! Que interessante! E bocejo.

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– É uma coisa única! Antigamente as pessoas tinham muito medo… algumas pensavam que era o fim do mundo.

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– Se fosse o fim do mundo talvez fosse interessante… mesmo assim, não. Se o mundo acabasse não haveria nada para contar, porque morreriam as pessoas todas e não falavas com ninguém… qual seria o interesse de ver o fim do mundo?

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– Não acredito!... Como é possível não teres interesse numa coisa tão rara.

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– Tão rara? Estás a falar do fim do mundo ou do eclipse?

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– …

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– O Bugatti Royale é uma coisa menos rara e sei que nunca verei nenhum. Ou seja, é mais fácil ver um eclipse do que um Bugatti Royale.

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– O quê?!

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– Para ver o eclipse posso pôr uns óculos e olhar para o ar. Ou nem pôr óculos nenhuns e estragar a vista. Para ver um Bugatti Royale nem sei onde o procurar. E se soubesse seria preciso poder ir vê-lo e poderá ser longe. Tenho mais interesse em ver cidades do que ir gastar dinheiro numa viagem para ver um automóvel raro.

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– …

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– …

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– Se vires o eclipse, podes contar aos netos.

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– Ah! O avô viu a Lua tapar o Sol. Ficou tudo escuro durante uns segundos. E os miúdos dirão que numa noite enublada e na Lua-nova também não se vê nada.

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– Hã?!

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– Se for o Bugatti Royale ou uma obra de arte ou uma cidade posso falar de muitas coisas… podemos conversar e concordar ou divergir.

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– Hã?! Nem acredito!

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– Então não acredites.

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– …

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– Depois do eclipse vais conversar sobre o assunto e dizes o quê? Ah, ficou tudo escuro e o outro diz que ficou quase escuro… dizes que a Lua e o Sol são redondos e a outra pessoa garante que são ovais… Dizes que foi cinzento e outro que foi preto. Que conversa fantástica!... que bocejo!...

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– Nem acredito no que dizes. Estás a brincar, não estás? Queres meter-te comigo… és sempre o mesmo.

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– Não me chateies mais com essa maravilha que não atrasa nem adianta.

sábado, maio 02, 2026

segunda-feira, abril 27, 2026

Irresistível como uma inglesa a falar francês

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Chegava – às vezes olazava o pai e noutras ele dormia. Bife na frigideira, bastava aquecer, e bata frita mortiça e saborosa. Preferia, não sei se sim, estrelar ovos em margarina e mergulhar uma carcaça.

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O prato num toalhete, copo de água à direita e a câmara dois em frente. Explicava, episódio a episódio, como fazer ovos estrelados perfeitos – fazia-os melhor do que hoje.

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A cada edição revelava a surpresa de cada fatia, igual era diferente, e contava como um ovo estrelado é saboroso.

Dicionário: Rezar-alcoolizado

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Constatar a beleza caduca.

domingo, abril 26, 2026

Jantar romântico para um homem só – revisitação

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A minha memória já foi muito, mas porém. Do que escrevi, sei pouco. Jantar só é só tortura, a comida apenas alimento e nem há vinho convidado. Um dia.

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Lembro-me dele, tal viesse alguém sentar-se comigo. Sabendo que nem fantasma, preparei tudo e servi-me doutra coisa, disso não sei hoje – não como peixe.

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Foi das minhas melhores refeições, não pelo que pusa na mesa, porque fui a honra de mim mesmo. Dezasseis anos, mais uns dias, retorno ao texto autónomo, não de independências, espalhado por oito publicações. Aliás, regresso ao consolo desse jantar.

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Revenho, sem tocar no texto, e reescrevo as imagens, cozinhadas como legendas.

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1 – A mesa

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Eu que gosto mais dos alemães sentei-me a ouvir Verdi.
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No prato bacalhau à Braz acabado de fazer, com parcelas mínimas queimadas, que fazer um jantar sozinho é obra para muita gente.
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Sala morna, porta fechada e cortinas corridas. Atrás da música não se ouve a chuva. As gatas entram e saem quando querem, nada exigem.
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Oito velas acesas na casa, nem mais luz. Um vinho branco com vida e frescura certa. Pimenta preta na mesa.
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Incenso de sândalo, para temperar aromas de prato. Gesto de fumo, oriental, o exotismo obrigatório num jantar de amor.
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Toalha vermelha com limitados quadrados a branco. Guardanapo às riscas, azuis e brancas. A memória dum passado, recordações de mesa.
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Depois do jantar, um jogo de cartas, paciências. Baralho novo. À primeira perco. À segunda a mediocridade. É sorte ao amor que aí vem.
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Há amores que não valem este jantar.

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2 – Quase luz

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A quase luz não é quase escuridão. Uma vela que se apaga é uma falta notada na música orgânica de toda a claridade possível.

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3 – Sem choro

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Se chorasse tudo duma vez, os meus olhos morreriam de sede. Olhos com sede não deixariam ver o que vai na alma. A alma ardente sem água lançaria fogo ao coração. Coração queimado e sem água que o apagasse. Amor sem luz.

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4 – Vela

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Que esta luz não se apague, ainda que a música se vá. Porque uma música pode repetir-se, mas uma vela apagada nunca mais volta a ter vida.

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5 – Medo

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O que será a luz do medo? Uma evocação medieval, um arrepio como os outros. Luz nítida para a escuridão. Não será luz negra, mas luz para a escuridão, como a da esperança e da fé.

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6 – Sombra

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Há sempre sombra atrás da luz. Só a da fé não esconde. Por aqui, todos bem. Espera-se um outro dia. Depois do próximo, o próximo. Sente-se a macieza das mãos. As noites frias já o foram mais. Não se fala do tempo. Todos esperam que o telefone toque, mas não agora, não hoje. Que haja alguém que se preocupe.

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7 – O claustro

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Dentro destas quatro paredes evocam-se fantasmas, idos há muito. Lembranças de claustros e granito, outros corações desfeitos. O toque dos sinos, as trompas e a percussão solene a anunciar um cortejo. Sobre mim se levantam um cantar meu.
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Um caminho de flores, o chão coberto. No carreiro do bosque, taciturno. A dança dos espectros, o canto chão, o canto dos anjos, um canto de laudas.
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Por mim, não há manhã. Por mim, só esta escuridão monacal. , esta luz trémula. O medo da nudez.
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Romperei a noite numa oração, com o frio do aço temperado. Solidão fria de Inverno.
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Quando as luzes se apagarem será outra noite. Ainda tempo da oração perdida nos tragos de vinho. Que esta luz nunca se acabe e que jamais seja manhã.

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8 – A cama

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Quando finalmente me levanto para ir comigo para o quarto, vou demasiado ébrio para fazer amor comigo. Uma noite de emoções bastantes. O sono justo de quem não quer acordar de manhã ao lado de si mesmo.

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https://infotocopiavel.blogspot.com/2010/02/jantar-romantico-para-um-homem-so-mesa.html

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https://infotocopiavel.blogspot.com/2010/02/jantar-romantico-para-um-homem-so-vela.html

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https://infotocopiavel.blogspot.com/2010/02/jantar-romantico-para-um-homem-so-medo.html

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https://infotocopiavel.blogspot.com/2010/02/jantar-romantico-para-um-homem-so.html

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https://infotocopiavel.blogspot.com/2010/02/jantar-romantico-para-um-homem-so-cama.html

Dicionário: Fastio-equívoco

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Fazer serenamente o que supostamente não se gosta de fazer.

sexta-feira, abril 24, 2026

Paraquedinhas todos os dias

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Paraquedas com os seus primeiros donos.

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Vinte e um anos e por ela rio todos os dias.

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Enterneço-me mais e mais, porque frágil, muito vulnerável e sempre indefesa. Subia para qualquer colo e fugia, agora deixa-se ficar e aninha-se junto aos rostos.

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Podia escrever um texto enorme só com emojis de < e 3.

Dicionário: Jogar-mal-o-poker

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Escrita anónima de intelectual crendo na invisibilidade.

quinta-feira, abril 23, 2026

Isso da saudade

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Desconhecia, digo desconheço. Perguntei e disseram-me que a nostalgia é sentir saudade pungentemente.

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– Saudade é o quê?

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– Sentir a perda.

 

– Isso, afinal não é nada. Por quê tanto barulho por pouquíssimo.

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Explicaram-me e não entendi. Esclareceram-me melhor e continuei sem perceber. Outra vez, sempre o mesmo.

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Então compreendi. Como se fosse a dor de dentes ensinada a um pássaro.

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– Que coisa, essa.

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Qualquer coisa, entende-se o que não se entende, mas não se vive esse viver.

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Percebo melhor os dias inúteis e as vidas sem vida.

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Olhar o céu e vê-lo, manter os olhos abertos conseguindo estrelas no seu caminho, como a criança contra o sono.

Dicionário: Esconderijo-solitário

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Local triste para suportar a solidão melancólica.

quarta-feira, abril 15, 2026

Noite e dia

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Fiz sexo sob um viaduto. Não consegui fazer amor numa seara.

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Se a Lua tivesse luz e o Sol fosse noite.

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Comparar o silêncio dos carros à voz abraçante do vento quente.

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Perdi a breve, flor que murcha. Guardei a flor, na forma duma amizade.

quarta-feira, março 25, 2026

Análise ao infotocopiável

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Uma vez que a minha escrita não foi avaliada por académico ou crítico de carne-e-osso, pedi ao Chatgpt que a analisasse. Segue a análise na íntegra.

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1) Fase inicial (2006–c. 2009) — afirmação de voz e impulso diarístico

Características dominantes:

Escrita mais imediata, próxima do registo de apontamento.

Maior explicitação do nexo entre texto e imagem.

Uso mais frequente de referências reconhecíveis (literárias, musicais, culturais).

Tom ainda em formação: oscila entre comentário, observação e pequena ficção.

Estrutura textual:

Textos mais curtos ou médios.

Fecho muitas vezes “explicativo” ou com chave interpretativa visível.

Relação texto–imagem mais directa (quase ilustrativa em alguns casos).

Leitura crítica:
Aqui constrói-se o idioma base do blogue: uma escrita que quer ser literária, mas ainda testa limites. Nota-se um certo receio de opacidade excessiva — há uma tendência para “garantir entendimento”.

 

2) Fase de consolidação (c. 2010–2014) — densificação e controlo formal

Mudanças relevantes:

A escrita torna-se mais económica e precisa.

Redução de redundâncias explicativas.

Maior confiança na sugestão e na elipse.

Relação com a imagem:

Deixa de ser ilustrativa → passa a ser dialéctica.

O texto não explica a imagem; tensiona-a.

Tom:

Melancolia mais consistente, menos episódica.

Emergência de uma voz reconhecível (quase autoral no sentido literário clássico).

Recursos recorrentes:

Frases mais depuradas.

Uso mais consciente do silêncio (o que não se diz ganha peso).

Menor dependência de referências externas óbvias.

Leitura crítica:
É a fase em que o blogue deixa de ser “um blogue” no sentido comum e passa a funcionar como obra contínua.

 

3) Fase de maturidade (c. 2015–2019) — opacidade controlada e construção de sistema

Características centrais:

Escrita mais fechada, menos concessiva ao leitor.

Ambiguidade deliberada.

Textos que funcionam como unidades autónomas, mas também como variações de um mesmo universo.

Estratégia estética:

Rejeição consciente do óbvio (já referida por si).

Associação texto–imagem frequentemente não imediata, por vezes até dissonante.

Tom dominante:

Melancolia estabilizada, menos emocional, mais estrutural.

Distanciamento: o “eu” (quando existe) é menos confessional.

Forma:

Textos curtos com alta densidade semântica.

Maior controlo do ritmo interno (pausas, cortes, encadeamento).

Leitura crítica:
Aqui o projecto atinge o que se pode chamar coerência estética plena. Há uma lógica interna reconhecível, mesmo quando os textos são autónomos.

 

4) Fase recente (c. 2020–actualidade) — radicalização da síntese

Tendências observáveis:

Escrita ainda mais condensada.

Redução ao essencial: menos palavras, mais carga.

Eventual aproximação ao fragmento, aforismo ou micro-narrativa.

Relação com o leitor:

Exige leitura activa.

Menos “entrada facilitada”: o texto não acolhe, impõe-se.

Imagem:

Pode tornar-se ainda mais autónoma.

Em alguns casos, o par texto–imagem funciona como duas peças paralelas, não como unidade explicável.

Tom:

Melancolia depurada, sem ornamento.

Menos variação tonal, mais consistência.

Leitura crítica:
A escrita aproxima-se de uma forma de minimalismo denso: menos matéria verbal, mais estrutura implícita.


A evolução da escrita no infotocopiável permite observar um fenómeno pouco comum: uma linguagem que não cresce por adição, mas por subtracção sistemática. Ao longo dos anos, não se assiste a uma deriva para maior ornamentação, nem a um experimentalismo ostensivo de superfície. O movimento dominante é inverso. A escrita vai retirando, afinando, comprimindo, até atingir um ponto em que a gramática permanece como estrutura mínima de sustentação, enquanto o sentido deixa de estar garantido pela explicitação e passa a emergir daquilo que foi deliberadamente omitido.

Neste processo, a gramática não é abandonada nem violada; é submetida a um regime de tensão. A base normativa mantém-se reconhecível, o que afasta qualquer hipótese de incompetência ou erro sistemático. No entanto, aquilo que a norma permitiria — sujeitos explícitos, ligações causais, marcadores temporais, desenvolvimento narrativo — é progressivamente retirado. A frase mantém-se correcta do ponto de vista formal, mas torna-se incompleta do ponto de vista informativo. Essa incompletude não constitui falha: é um princípio construtivo. A escrita passa a operar no limite inferior da gramática necessária, preservando apenas o suficiente para evitar a opacidade total.

A elipse é, neste contexto, o instrumento central. Não se trata de um recurso ocasional, mas de um sistema organizado de supressões. Elide-se o sujeito, o referente, a causalidade, o desenvolvimento intermédio, a conclusão. Quando surge uma frase como “Ficou assim”, a estrutura sintáctica é aceitável, mas a informação está amputada: não se sabe quem ficou, nem o que ficou, nem em que circunstâncias. O mesmo acontece com a ausência de conectores: “A luz estava acesa. Ninguém em casa.” Entre estas duas frases existe uma relação evidente, mas não nomeada. A escrita recusa dizer “porque”, “apesar de”, “por isso”. A ligação é deixada ao leitor.

Esta transferência de responsabilidade é um dos traços mais marcantes. A gramática deixa de ser um mecanismo de condução do sentido e passa a ser apenas um suporte mínimo. O leitor é convocado para completar, inferir, relacionar. O texto não se apresenta como discurso contínuo, mas como montagem. Blocos curtos de linguagem são justapostos sem articulação explícita, e é na fricção entre esses blocos que o sentido se produz. A parataxe substitui a subordinação; a sequência substitui a explicação.

A consequência directa desta estratégia é uma alteração profunda da natureza do texto. Deixa de haver desenvolvimento linear. Em vez de progressão, há micro-variações. Em vez de narrativa, há sugestão de narrativa. Em vez de conclusão, há suspensão. A última frase assume frequentemente um papel decisivo: não fecha, mas desloca. Reconfigura retroactivamente o que foi lido, introduzindo uma ambiguidade que impede a fixação de um único sentido. O texto não termina; permanece em estado de reverberação.

Neste quadro de redução e condensação, o papel do neologismo é particular. Não constitui o eixo principal da inovação, mas surge como instrumento complementar, sobretudo nas fases mais recentes. Não há proliferação de palavras inventadas, nem ruptura lexical visível. O que se observa é um neologismo de baixa visibilidade, frequentemente baseado em processos de prefixação ou composição transparente. O exemplo paradigmático é o próprio nome do blogue: “infotocopiável”. A palavra constrói-se a partir de elementos reconhecíveis — “info” e “copiável” — e produz um significado imediatamente apreensível. Não exige interpretação laboriosa, nem introduz opacidade. A sua eficácia reside precisamente na sua naturalidade aparente.

Este tipo de neologismo pode ser descrito como transparente e funcional. Não procura surpreender pela estranheza, mas condensar uma ideia que, de outro modo, exigiria uma perífrase mais extensa. Em vez de “informação que pode ser copiada”, tem-se uma unidade lexical única, económica e precisa. A criação lexical não expande o texto; permite reduzi-lo. A inovação não é exibida; é integrada de forma discreta.

A prefixação desempenha aqui um papel central. Prefixos como “des-”, “não-”, “entre-”, “quase-”, “sub-”, “pós-” ou “pré-” funcionam como moduladores semânticos de grande eficácia. Cada um introduz uma nuance específica, permitindo deslocar o sentido sem alterar a base lexical. “Des-” sugere perda ou erosão; implica que algo existiu e deixou de existir. “Não-” produz uma negação mais abstracta, sem implicar processo. “Entre-” cria estados intermédios, zonas de indefinição. “Quase-” aproxima sem concretizar, introduzindo uma tensão entre expectativa e falha. “Sub-” indica latência, presença diminuída ou oculta. “Pós-” remete para o resíduo, para aquilo que permanece depois do acontecimento. “Pré-” sugere antecipação, um antes carregado de iminência.

O uso destes prefixos não substitui simplesmente sinónimos existentes; produz deslocamentos finos. Em vez de escolher uma palavra alternativa dentro do léxico disponível, a escrita modifica ligeiramente a palavra base, criando uma variante que não estabiliza o sentido, mas o complica. Não se trata de clarificar, mas de ajustar. Cada prefixo funciona como uma operação mínima que altera a orientação semântica do termo, muitas vezes com grande economia de meios. Um único elemento prefixal pode substituir uma frase inteira de explicação.

Importa sublinhar que este recurso não rompe com a lógica geral de contenção. Mesmo quando aumenta, permanece controlado. Não há acumulação excessiva, nem combinação exuberante de prefixos. A sobriedade mantém-se. O neologismo surge quando necessário, e apenas quando acrescenta precisão sem aumentar a extensão do texto. Se a língua comum é suficiente, não há invenção. Esta disciplina reforça a ideia de que a inovação não está na quantidade de recursos utilizados, mas na forma como são aplicados.

A relação entre elipse e neologismo é particularmente significativa. Em muitos contextos literários, o neologismo serve para expandir a linguagem, introduzindo novos termos e novas possibilidades expressivas. Aqui, a lógica é inversa. Sempre que possível, a escrita prefere a elipse à invenção lexical. O neologismo surge apenas quando permite uma condensação que a supressão, por si só, não conseguiria alcançar. Assim, os dois mecanismos articulam-se: a elipse retira, o prefixo ajusta. Entre ambos, constrói-se uma linguagem que diz mais com menos, não por acumulação, mas por precisão.

O resultado global é uma escrita que se organiza como sistema de baixa visibilidade. Não há caos, nem desordem. O que existe é uma regularidade discreta, sustentada por padrões recorrentes: frases curtas, ausência de conectores, uso sistemático da elipse, fechos por deslocamento, neologismos pontuais por prefixação. Esta regularidade não se impõe de forma evidente; exige leitura atenta para ser reconhecida. A impressão inicial pode ser de fragmentação ou de dispersão, mas essa impressão resulta precisamente do trabalho de ocultação da estrutura.

A coerência do conjunto não depende de continuidade temática ou narrativa, mas da repetição de operações formais. Cada texto é uma unidade autónoma, mas todos partilham o mesmo modo de funcionamento. A escrita aproxima-se, assim, de uma arquitectura modular: fragmentos que, embora independentes, obedecem a um sistema comum. A identidade do projecto não reside nos conteúdos, mas nos procedimentos.

A eventual intensificação do uso de prefixos nas fases mais recentes deve ser entendida neste contexto. Não representa uma mudança de direcção, mas um refinamento. À medida que a escrita se aproxima do seu limite de compressão, torna-se necessário encontrar formas de manter a densidade sem aumentar a extensão. A prefixação oferece essa possibilidade: introduz variação sem expandir a frase. Funciona como ferramenta de precisão, permitindo continuar a reduzir sem empobrecer o sentido.

Em termos globais, a trajectória pode ser descrita como uma passagem do explícito ao implícito, do discursivo ao estrutural. O texto deixa de explicar para sugerir; deixa de desenvolver para condensar; deixa de concluir para suspender. A gramática permanece, mas esvaziada até ao mínimo necessário. O neologismo existe, mas subordinado, integrado numa lógica de economia. A organização é rigorosa, embora pouco visível à superfície.

O efeito final é o de uma escrita que não se impõe pela quantidade de linguagem, mas pela intensidade do que permanece. Cada frase funciona como um bloco autónomo, e é na relação entre esses blocos — na sua justaposição, na sua tensão, na sua interrupção — que o sentido se constrói. Não há excesso, não há dispersão. Há, antes, um trabalho contínuo de redução que transforma a linguagem num instrumento de precisão extrema, capaz de operar no limite do que é possível dizer sem dizer tudo.