digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

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quarta-feira, setembro 16, 2026

Paraquedas – 24 de Abril de 2005 – 16 de Setembro de 2026

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Desafio. Procurar a essência:

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O propósito é o de encontrar um sinónimo essencial – mesmo uma graça de qualquer espécie. Os principiantes podem ter alguma dificuldade na concentração. Para facilitar a abstracção, fechar os olhos é uma boa ferramenta-modo. Quem faz meditação, provavelmente, não terá embaraço. Os materialistas e os inimaginativos não tentem, porque o resultado será zero.

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Exemplo:

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Estão sentados a uma mesa, têm uma janela à frente, por onde entra muita luz, e proximidade de plantas. Pode ser um ser vivo ou um objecto. Para exemplo, uma garrafa de vinho de litro, com o enfeite de seis estrelas, com o seu típico verde.

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Primeira acção: tirar tudo, mas manter a luz ou guardá-la – recomendo a segunda opção, porque poderá ser útil – e ficar só com a garrafa. Extrair também o odor próprio do local.

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Segunda acção: abstrair-se da função do objecto. Descolem a sua utilidade, fica a forma.

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Terceira acção: retirar o significado do som, deixar a sonoridade e decompô-la. Nesse momento, como um rumor-murmúrio, liberta-se e sai à velocidade que entende. Garrafa pode passar a ser uma amálgama de vogais: «a á fa a», «fâ, â» e, por fim, só «âa» – o que se sentir.

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Quarta acção: trabalhar a cor, reduzindo o número de tons. A luz, que possa ter guardado, ajuda à realização desta tarefa.

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Quinta acção: deixar que a forma, a sonoridade e a cor se fundam. Sem pressa, é preciso ter calma.

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Sexta acção: revelar o objecto. Se o resultado tiver forma garrafiforme, verde ou algo que soe a garrafa – basta um elemento – é porque está errado.

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O resultado pode ser uma palavra ou uma cor ou um local ou um animal – qualquer coisa desde que não garrafiforme, verde ou algo que soe a garrafa – basta um elemento concreto para estar errado.

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Uma menina, de quatro anos, muito bonita e muito querida, recebeu duas gatinhas com três meses. Uma tinha nome, antes de ser vista, a outra foi diferente: Paraquedas (insisto em escrever assim) e Amiguinha.

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A vida tem imprevistos, a Paraquedas ficou, temporariamente, em minha casa – onde viviam duas irmãs duma ninhada anterior. Não que lhe fizessem mal, mas nunca teve intimidade com a Granita e a Lioz, coexistiam.

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A Paraquedas era absolutamente estroina! Corria que era um disparate e deitava abaixo qualquer vasilhame de vidro com água dentro – espatifou um jarro que adorava. A maluquice durou até tarde, com treze anos ainda tentava fugir quando se abria a porta da rua. Uma vez, de madrugada e com um táxi à espera para me levar ao aeroporto, andei a correr atrás dela, pelas escadas, entre a cave e o terceiro andar.

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Qualquer pessoa que viesse a casa, em pouco tempo tinha a Paraquedas ao colo. Porém, se sentisse que a agarravam, mesmo muito suavemente, queria fugir – não arranhava nem mordia, torcia-se toda… o famoso «deslarguem-me».

 

A junção de estroinice, afabilidade, doçura e estrabismo resultavam em ser a gata de que todos mais gostavam.

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Conheceu todos os animais que viveram nesta casa: Granita, Lioz, Chuqui – nome dado por um menino, muito querido, de quatro anos –, Valsa, Mel, Manga e Bobi (teimo em escrever deste modo).

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A Paraquedas foi a gata mais mansa do Universo, não se sabia defender. Nos vinte e anos em que viveu comigo, não a ouvi soprar mais do que dez vezes, dar pouco mais de dez patadas e menos de cinco com as garras de fora. O Chuqui era estouvado, muito brincalhão e não era agressivo. Ela tinha muito medo dele, escondia-se e urinou-se nas duas vezes em que os tentei aproximar.

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Muito sensível, sentiu a morte da Manga. Foi surpreendente, porque não esperávamos grande ligação emocional.

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Foi uma sobrevivente. Um dia chegámos a casa e percebemos um comportamento estranho. Fomos imediatamente ao veterinário:

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– Tem um dia de vida.

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No dia seguinte, voltámos ao veterinário:

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– Tem um dia de vida.

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Não sei quantas vidas de gato precisou, mas aguentou mais de três anos – não me lembro exactamente.

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Devido a várias doenças foi ficando mortiça. De dois quilos passou para um quilograma e seiscentos. Voltou a gastar mais umas vidas e subiu para um quilograma e novecentos e cinquenta, que estabilizou. Era pouco mais do que pele e osso.

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Nas brincadeiras de ternura, com a idade a avançar, foi ganhando novas formas de tratamento: Parquedinhas, Parachute e, recentemente, Parachutinhas.

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Resumindo, envelheceu e foi somando problemas. Cega, cada vez mais frágil e superiormente mimocas. Docinha, docinha e docinha.

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Resultado do meu exercício:

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Margarida.


terça-feira, março 24, 2026

Rendi-me, disse-o há vinte anos

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Continuo cativo. Nova celebração daqui por um ano, para além de dez, meta-século, eternidade-humana ou só um dia. É irrelevante, o tempo.

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Sentei-me de frente para. Onde passei os vinte anos que se fazem hoje. Tempo como um sonho, do tamanho dum telefonema prolongado, breve como uma onda ou da dimensão das coisas comuns.

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No espelho frente a mim não sou eu. E sou. Como também nos alinhamentos das palavras e da sua natureza. O recheio e fronha são diferentes e fazem uma só coisa.

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Vinte anos às 18 horas e 22 minutos. O que foi em mim: melancolia e agitação, ansiedade e apatia, mais esperanças do que, coisas acontecidas e outras, muita alegria e pouca felicidade. Os ossos renovam-se permanentemente e em sete anos são diferentes, o que mais mudou?

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Mudou tudo, sou dessemelhante e estou noutro lugar. Ou nada, porque não deixei de ser e, como habitualmente, no mesmo sítio, imóvel por conforto e receio de ir.

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Erraram-me, falhei-falharam por amor-loucura. Mentiram-me e menti. Zanguei-me e perdoei. Com faca cortei e com linha cosi e recosi. E encontrei o amor-da-vida e o fruto chegado pelos seus ventre e coração. Luzes maiores, de mundo e de estrelas. Se escrevesse tudo, não haveria como o colher integral. Agora, escrevo pouco, por simplicidade.

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O que me foi este tempo? Também melancolia como fosse uma piscina deserta.

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O que me foi este tempo? Também apatia. Sem querer, sem desquerer e sem querer saber.

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O que me foi este tempo? Também medo, uma piscina à noite arrepia-me quando estou sozinho.

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Tenho um bicho unindo-me: intestinos, fígado, pulmões, coração, cabeça e espírito. Arranha-me e alimenta-se lambão. Deixa-me em negrum, local-sentimento mais escuro do que o negrume, porque lhe falta o E da esperança. A luz duma flor segura-me no caminho.

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Esse bicho alimenta-me os textos. Sem ele não haveria vinte anos de escrita. Nem tudo, mas muito. Claro, o amor.

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O que me foi este tempo? Também riso, porque é sempre a minha maneira. As gotas de alegria não encheram tanques, não fingi. Já disse que alegria e felicidade são irmãs.

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Quis morrer e acho que morri, mas renasci, sempre morto e no beiral de morrer outra vez – muitas vezes. A flor de luz e a bondade infantil deram-me salvação. Se feneci, me ressuscitaram.

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Usei todas as letras que conheço. Escrevi as palavras que sei e as esquecidas, inventei porque sim e por necessidade. Rigorizei a gramática, desrespeitei-a inconsciente e espatifei-a por vontade e zanga. Distracções abundantes e continuo sem saber se devo escrever os números com algarismos ou hifenizados.

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Nunca pensei que. Contudo. Sempre esperei. Todavia. Quase sempre excessivo, porque sou de abundar. Se me perguntarem:

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– Ainda?

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Direi:

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– Ainda.

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São vinte anos e muitas esperas agarradas, mentirei se disser que não esperei. Contudo, mesmo incompreendendo, não invejo.

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Colho o que se colhe na árvore certa, na árvore que é minha. Não invejo, porque não duvido do meu lugar. Disseram-me:

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– Escreves bonito.

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– Compreendo-te.

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– Não aguento.

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– Tens tantas meninas a ler-te. Só meninas.

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Quase todos não disseram nada.

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Digo e parece que tudo é inconseguimento, mas são vinte anos, com muitas dúvidas sobre bué coisas e variadas certezas a respeito.

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Vinte anos não são uma viagem, fazem parte da vida. E, tal como a vida, são. De tudo e só pouco se guarda, escolhe-se a colheita.

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No entanto as minhas mãos aguentam os vinte anos que a cabeça lhes exige. Nesta vida e na outra, a dos momentos onde estou obrigado a ser só pessoa.

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Há um local onde estou quando desobrigado de ser quem esperam. Vou contando há vinte anos e cedo mostrei um recanto de seu jardim. Recolhimento que mostrei e, passadas duas décadas, mantém-se verdadeira.

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Estou aí e escrevo e o infotocopiável fica também aí.

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O primeiro instante: https://infotocopiavel.blogspot.com/2006/03/rendido.html

quarta-feira, dezembro 24, 2025

Neutrão

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Quero contar do Natal. Do meu Natal, acerca doutros faço-me calado. Vou explicar a minha neutralidade dando conta duma entrevista que me fizeram. Os diálogos deste texto foram escritos em memória, são fiéis em espírito.

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Dei várias entrevistas. Não serão muitas, mas para quem tem ganho a vida da fazer perguntas e a ouvir respostas são bastantes – até dizem que o jornalista nunca é notícia. É verdade, desde que.

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A maioria delas foi sobre a depressão e do meu livro de testemunho, mas também acerca do Interrail, da gulodice e do Natal. Possivelmente terá havido outras, a memória não me mostra, pelo menos por agora.

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Essa entrevista acerca do Natal foi, de muito longe, a mais divertida e marcante – antes, durante e depois, indo para lá de quinze anos. Começou logo pelo tema: Pessoas que não gostam do Natal. Há um problema, não tenho nada contra a festa do 25 de Dezembro, nem contra refeições familiares, aparatos, papel colorido rasgado, homilias e meias-noites.

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Quando o jornalista chegou, a minha casa, perguntou-me se não tinha árvore-de-Natal, presépio ou enfeites.

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– Não. Não ligo ao Natal.

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O homem achou estranho – não é retórica nem converseta para alegrar leitores – não haver nada alusivo ao Natal. Prontamente lhe disse que não sou contra o Natal, não desgosto do Natal, mas não me contenta o Natal. Simplesmente, não ligo.

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Durante a entrevista fui lembrando que não sou contra o Natal, mas a conversa ia poisando no mesmo com frequência. Expliquei-lhe que em miúdo gostava, na adolescência desinteressou-me, celebrei-o novamente porque era «obrigado» por uma namorada e que estava novamente abstémio de natalidades, porque esse relacionamento terminara.

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Portanto, acho que houve um erro de escolha do elenco. O homem foi falar não com alguém que não gostava do Natal, mas para quem é indiferente. Perguntou-me dos pratos da consoada e dos doces da época. Finalmente, quis saber se tinha tido algum Natal diferente, do ponto de vista de quem não liga ao Natal.

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Contei-lhe que, dois ou três anos antes, tinha saído na noite a 24 de Dezembro, com um amigo, e que o Bairro Alto estava deserto, porque fechado. Ou quase deserto e quase fechado, um vez que um pequeníssimo bar tinha a porta aberta e algumas poucas pessoas tomavam um copo, conversavam e ouviam música.

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– Falaram sobre o Natal? O que disseram?

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– Não. Não falámos sobre o Natal. Ninguém estava ali por causa do Natal. Éramos pessoas que não celebravam o Natal, nada mais.

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– Não pagaste um copo a alguém?

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– Sou capaz de ter pago um copo ao meu amigo ou ele a mim.

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Pediu-me, terminada a entrevista, para ir à rua ser fotografado com a iluminação natalícia, uma vez que não havia cenário caseiro. Ri, ri mais, ri muito, fiz ar contente e expressão muito feliz.

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A revista saiu na semana seguinte. Boas fotografias – o modelo era bom, só ajudou –, texto bem escrito e.

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E que o texto terminou dizendo que eu tinha pago um copo ao amigo, porque, afinal, sempre era Natal.

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Nota: Celebro o Natal desde 2011. Em mim não mudou nada, mas mudou a minha vida. A Ana gosta do Natal e chegou com um miúdo, de quatro anos, agarrado a ela. O Natal continua neutro, mas sentir a família feliz dá muito prazer.

sexta-feira, agosto 09, 2019

Galé

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Sim, isso, por aí, por isso.
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Onde o Sol se renova e a Terra se engana, aos olhos.
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Vendo o azul-lilás ao lilás ao lilás-rosa ao rosa ao rosa-laranja ao laranja.
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Como os refrescos e a pele escaldada.
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A noite é cinema, das estrelas que me esqueci de olhar. Talvez nem se vissem no tanto barulho da alegria.
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Vem a noite no Verão e futura-se a praia, só em frente, chegando-se desviando das árvores e das coisas.
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Pela manhã tardia, o doce e a calma. Quase ninguém acordou, mas algures há cães por passear e gatos quase-invisíveis.
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Pela manhã tardia chega-se à praia, onde se chega indo sempre em frente, bastando o desvio das árvores e das coisas.
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O Sol é luz, o mar está salgado, como pudesse ser diferente.
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Não importa a cor denunciando o humor da água.
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Uma bandeira axadrezada não voa sobre a areia, não há meta nem fim.
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Nem o Sol se renova nem o mar se importa.
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Haverá noite e manhã. É claro, nem se precisa acreditar.

terça-feira, maio 07, 2019

Estrela da Sé, por causa do Santo António


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Comi a melhor musse de chocolate. Quase aos cinquenta, o doce das crianças é-me, sem qualquer memória daquela, qualquer coisa que, não o sendo, é luz, por falta duma banal palavra – acontece falhar um termo no conceito-língua. Como pude esperar. Aguardei porque há o dom da ignorância e do privilégio do conhecimento.
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Não pergunto, sou claro: como pude esperar. Graças – a quem ou quê, na falta doutra coisa-ser – ao dom da ignorância e do privilégio do conhecimento.
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O resto já sabia. É comida do sempre, da Lisboa do meu pai – a minha mãe não é daqui. Dá tanto trabalho explicar, muito mais do que dizer. Vagamente, guardando por pirraça, sedução ou impaciência.
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Se não sabem, leiam a cidade inexistente – ainda antes dos turistas a ocuparem –, passem os olhos pelas ruas fixadas na verdade das fotografias e na infidelidade dos traços.
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Se não sabem é porque foram morrendo, movendo-se para a borda da terra e sem vergonha de perderem a aldeia da foz do Tejo – todas as aldeias definham, assim Lisboa.
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Perto da Sé, só não conhece o milagre da sobrevivência quem não olha para cima nem para baixo, apenasmente para uma coisa qualquer que nos livrinhos e cibernáticos se lêem.
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A Estrela da Sé existe, não está escondida, não foi devassada e é uma verdade, porque não é quem não é. Não finge o passado nem se nega a qualquer vento de feição que possa soprar para a tal-coisa-que-preguiçosamente-se-chamará-luz.
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Há as ceboladas, os bacalhaus, as veganices e a musse de chocolate.
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A musse tem segredo à vista como a casa de pasto. Não se esconde nem se exibe. Só não vê quem.
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A Estrela da Sé é o que é e tenho a certeza de quem ama o que faz – e com a chave da porta da mina de ouro – é fiel, não se vai embora, porque pertence à cidade.
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Só quem não leu a cidade pode incompreender.
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Nota 1: voltei hoje ao Estrela da Sé, por milagre de Santo António, taumaturco com o menino que o meu pai pintou e ficou para o Museu de Santo António – ali juntinho à Sé Patriarcal de Lisboa.
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Nota 2: A qualidade da imagem é péssima, não por culpa do pintor, mas do fotógrafo (eu).
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quinta-feira, fevereiro 28, 2019

Gelo como no Verão


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Vivo uma premonição, como o gelo que às vezes o Entrudo.
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Repentinamente lembrei-me e aquela dor ficou onde estivera.
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Foi quando te soube nua. Como tu outra neste agora de antes há uns tempos.
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Agora a dor da nudez que não toco nem sei nem percebo nem consigo querer compreender.
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A pele só pele antes sem pecado e agora de antes há uns tempos na vergonha de sem-vergonha.
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Sim, qualquer coisa, uma sirene chegando e partindo depressa ou a chuva repentina como antigamente.
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Sei há muito tempo sofrer e não me habituei por mais habitual que seja.
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Hoje não sei nem se será como em todos os Verões neste agora de antes há uns tempos.
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Quando Julho ou Agosto ou Setembro uma nudez perdida e achada por alguém.
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Se a minha casa fosse outra e o eu for a do meu corpo.
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Se eu pudesse ser um outro, nem que fosse por desexistir. Mais tarde recriado sem vida antes de.
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Se eu não fosse e as premonições não viessem.
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Quantas tu tenho para contar dessa nudez que não vi noutros lugares.
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É uma premonição, um sono repetido e descubro. Como és bonita quando fazes amor.
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Sinceramente, muito banalmente digo que não sei onde moro nem sei se tenho sonhado que vivo.
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A escuridão voltou ao anoitecer como a manhã fôra de punhal e o dia de torcer de vagas.
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Sinceramente, muito adolescentemente digo que não sei quem sou nem se sou.
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Sinceramente, repito que não sei o que faço aqui nem se neste lugar tenho vivido nem se sonho um pesadelo de ausências, da minha aos tu da minha vida.
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É Julho, Agosto e Setembro no Entrudo quando tu nua me desapareces e surges despida noutro luar.

terça-feira, novembro 27, 2018

Água e estrela


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Sou-te e em ti sou-me. Em ti sou e em mim despejas-te como o rio da vida na direcção de ir ao local certo por nós sabido desde o teu primeiro ver-me e meu tremor.
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Tenho-te caída sobre o peito e igual em ti. Tens-me como sempre no amor incansável da água que transborda e da que falta.
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As noites afastadas não se juntam por dor ou passado. As noites de acolher são de tudo e sempre.
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Não duvides do teu amor nem do meu. Assim do prazer, além do mais em todo – completo a ti de quem não duvido amor, além do mais em todo – não duvides.
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Fogo impensável por ser rio, incansável pela vontade do muito-amar.
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Amar-te é amar-me – os dois de tudo – daí revela-se igual.
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Por tantas viagens é esta agora o destino. Isso diz a luz e a voz da certeza-certa-celestial. Aliás mais.
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A multidão dos abraços furacãoza quem-engano-erro-desamor-olhos-coração-mente sopra as maldades da inveja e da matéria. Como seja ferro, o rio fará ferrugem.
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Nunca desistirei do destino. Tu é igual – sei porque as dores se evaporaram e choveram como alegrias.
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O destino corrige as margens da água enganada no leito. O mar só é mar se rio lhe chegar.
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Ser o destino do outro é o nosso destino. Só precisamos seguir a estrela e a ela chegar.

quarta-feira, outubro 31, 2018

Flores

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Pétala a pétala a pétala e a pétala. Pétalas-me a pétalas-me a pétalas-me e a pétalas-me.
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Já nus, olhando-nos, cantamos em conto as pequenas folhas de malmequer e bem-me-quer, sabendo da vida o prazer.
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Sabendo, sabor e sabedoria, vamos. Entende-se, onde fomos e iremos sempre que.
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Vendo-te, ui. Vendo-me, ui.
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A vida é assim vai-e-volta.
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Dessa maneira aiando, naquela dor do prazer, do que somos em todo, abraçamo-nos.
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Quando o calor interior arrefece na pele, o beijo-ponto-final. Ainda esperando saciados esperando, o beijo-reticências.
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Etecetera. Etecetera e tal.
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Pétalas-te a pétalas-te a pétalas-te e a pétalas-te. Pétalo-me a pétalo-me a pétalo-me e a pétalo-me.
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A vida vai e volta, daquele antigamente ao iremos até onde, assim também em vai-e-volta.
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Pétalar, cola de unir e consolar.

sexta-feira, outubro 05, 2018

Estações

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A árvore do Inverno acolhe-me na ramagem, para o frio ser fora e anteparando-me da água.
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A árvore da Primavera alegra-me pelas cores das flores dizendo promessas e os animais falam.
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A árvore do Verão sacia-me com seus frutos e sob si há a sombra.
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A árvore do Outono concede-me descanso e visto-me como se fosse eu alguma das suas cores.
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As quatro são uma e a sua luz é a claridade dos dias passando e eu ficando junto sem querer ir.
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Sob a sua vida, sou a parte da terra.
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Sou a Terra a que se deseja segurar.
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A árvore é uma luz que chega do céu.
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Que me leva onde.
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O amor não precisa mais.

terça-feira, setembro 25, 2018

Assim


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Quero escrever eternamente poemas de amor, dos pirosos aos pirosos. Pretendo levar a vida teclando textos com parágrafos de amor, dos pirosos aos pirosos.
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Quero ir do amor rodando os dias. Quero o amor indiferente aos movimentos de rotação e de translação.
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Quero o amor para lá das luzes, das estrelas do longe, das chegadas depoismente da sua morte, doutras quaisquer e do Sol.
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Quero mergulhar no mar todo e lá encontrar amor, do piroso ao piroso. Quero descer ao núcleo e de lá trazer amor, do piroso ao piroso.
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Quero tudo isso. Irei entregá-lo à luz da pirosada que sinto por ti, Flor de Luz.

sexta-feira, setembro 21, 2018

A água quando nasce tem o rio para ir ao mar


fhrei
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Da plataforma número um o trem até à gare da meta.
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Entre uma e outra estação pôde descarrilar, ficando no odor sobre o aço, o óleo, a madeira e a pedra.
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William M. Vander Weyde

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Por caminho de engano.
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Noutro horário saiu da linha número dois o trem destinando-se ao cais da sina.
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Entre uma e outra estação pôde descarrilar, ficando no odor sobre o aço, o óleo, a madeira e a pedra.
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Levy & fils
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Por caminho de engano.
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Noutro horário – cada no seu lugar-nenhum – saíram dos escombros até à plataforma do desacaso.
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Imediatamente os maquinistas-passageiros reconheceram a linha de ir até.
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kerko

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Dos desastres à celebração.
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Os comboios coincidentes chegam sempre à mesma estação.
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Roman Loranc


quinta-feira, setembro 06, 2018

Coisas que se dizem e podem dizer porque se podem dizer


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Disse-me:
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– Não dizes nada?
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– O que queres que te diga?
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– Não notas nada?
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– …
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– Passei horas no cabeleireiro e não dizes nada?
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– O que queres que te diga?
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– Irritaste-me!
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Que estou linda!
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Deixa estar…
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– Por que te haveria de dizer isso?
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– …
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– Estás sempre linda!
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És linda!
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– Mas arranjei-me.
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Foram horas!...
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– Amor, é impossível seres mais bonita de que sempre és!
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– Então não valeu a pena arranjar-me…
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– Claro que valeu!
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– O quê?!
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Não entendo…
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– Temos um novo motivo de conversa.
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– Parvo!

quinta-feira, agosto 16, 2018

Lábios do mesmo beijo


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Vivo o sonho de ter sonho.
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Dá-me sonho e retribuo-te.
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Adormecendo em ti, deitado em ti.
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Caídos no ardor desejado, a luz. Onde pela luz és tu – só tu toda inteira.
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És-me antes, agora e depois, de tempo sem o ser.
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És em mim como se me desflorasses – eternidade.
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Vivo como num sonho de sermos abraçados-beijados.
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Estou nesse delírio da impávida felicidade de sermos.
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Pairo no devaneio da verdade, bebendo-nos numa febre macia de ternura.
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És do encantamento de. Em nova revelação.
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Seta de Cupido vindo-nos.
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Depois, regresso e volto no país da felicidade.
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No meu sonho, sonhas comigo.
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Não há muitas verdades como esta.
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Nem ninguém como tu.

Para lá do prado


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É da luz vindo e do encadeamento da sua melodia silenciosa, sou. Sendo, sou diluído na humana-sobrenatural-beleza-corpo-mente-alma.
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A luz-conforto-amor ainda irrevelada e já era – promessa e obscura presença – benfazeja.
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Além das cores, luz de sagrada querença.
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No prado universal do amor.

segunda-feira, agosto 13, 2018

Tentaram-nos o ânimo

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Bebes-me o sangue e alimento-me de ti. Como as letras formando o livro, o temperamento fez-nos completos em permanente construção, da vertical vontade de subir a todas as montanhas donde se beija em ânimo e libertação.
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Assaltas-me na noite e fazemos amor e roubo-te as manhãs e caímos na frenética paixão. Trocamos a circunstância das horas.
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Fazemos amor amamo-nos, na cama sem amanhã nem ontem.
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Saro-te a ferida por mim cortada. Curas-me da mágoa de lamento.
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Nenhuma paisagem força o vento, antes ou depois de ido.
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Por nós em nós, vamos.
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A recordação dos males é na casa assombrada que deixámos para nem mesmo esquecer. Indizemos nomes e rostos.
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Fazemos amor, por nós em nós. O teu odor colado a mim e o meu cheiro apegado a ti.
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Sensuais como os vampiros, bebemo-nos e damo-nos em troca.
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A minha carne e o meu sangue são-te, tal a minha alma.
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A tua carne e o teu sangue são-me, tal a tua alma.
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Nenhuma ofensa nos ofende. Quem corta, desta-feita-sempre, um rumor biliático, não é faca ou quilha. É a garantia do nosso amor.
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Só na sensualidade dos lábios querendo-se em união – leveza e pedra de amantes – se pode imaginar benévolos vampiros.
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Nem claridade nem breu, vampiros de nós em nós, sensuais e felizes.

Sentei-me para


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Sentei-me para te escrever. Sinto que tudo te relatei, por isso – uma certeza é sempre falha – pus-me a pensar no indito e, numa palavra por inventar, imbeijado. Olhei, comecei indeciso. Enumerei-te virtudes para tas dizer.
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Quis despertar, construindo um país sem terra, feito da pureza da verdade, para nos amarmos esquecidos de datas. Nessa nação, isenta de carência, bem-querer eternamente. Qual o primeiro mérito assomando-se-me.
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Qual escolher primeiro? O primeiro a socorrer-me a memória ou o que mais o tenho por valor? É tão complicado assumir uma virtude. Não existe um universal, é inegável essa impossibilidade. Os seus pesos variam no dia, na hora, em qualquer instante.
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Nessa dificuldade, reconheço a fraqueza, decidi contar das mais madrugadoras neste exercício. Quando acabar a escritura, irei lembrar-me de muitas mais alegrias. O texto terá de parar para que to possa oferecer. Em mim, sei do prolongamento dos elogios.
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Ignorante em mim e tolerante por o ser, escolhi a ordem de chegada ao meu coração-cabeça-espírito. Se falhar, chamar-me-ei de fraqueza… talvez mentira, por ainda involuntária.
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Foi deste modo que aconteceu, em prosa, como texto das regras obedecido e seguindo de cima no valor até… ou como queiramos eleger.
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Cândida, bondosa, generosa, benevolente, paciente, esperançosa, amorosa, amorante, doce, tolerante, compreensiva, mansa, meiga, tépida, clara-no-dizer-amor, grata.
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Por aí ao sem-fim.
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Se deixei longe a sensualidade foi porque isso é doutra maneira noutro universo.

sábado, agosto 11, 2018

De luz-verdade


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Se disse, da tua alma, luz.
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A verdade dos sonâmbulos é de verdade.
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A boca-coração diz da alma, ainda que a cabeça não pense nem a mande calar.
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As flores não têm luz, por isso vivem as suas cores.
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A luz pode ter qualquer cor e só por sua vontade se deixa colher.
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Ser-se luz de alguém é uma promessa oferecida.
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Ser-se tido por luz é um privilégio.
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É inacreditável.
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O destino, se existisse, afirmaria esta verdade.
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Podendo mudar-se o destino, a última palavra, emocionalmente útil, são duas:
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– Amar-o-outro-e-ser-se-pelo-outro-amado.
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– A outra é segredo nosso, sem tampouco o sabermos todo.

Esperar ser seu

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Esperar ser seu, da carne à emoção, é um ardor razoável.
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Se o seu desejado quiser ser seu, será seu.
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Se o seu-desejado não cumprir tal ensejo, teimar será cobiça.
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A cobiça é inveja adulta, qualquer inveja discursa a derrota.
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O postigo não é porta nem o buraco faz de túnel.
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Parar é inteligência, insistir é arrombo.
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Enraizando-se numa birra – do melindre e do ciúme – a porta é só de saída e o orifício estreita-se do desalentar ao ferir.
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Implorando crescentemente, como nova-chegada, resta-se como súplica de soluçar.
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Escangalhado-cego-e-surdo, o amor-próprio é um nado-morto e a sua lágrima do desgosto afoga-se patética.
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Não havendo ânsia das outras alma e corpo, talqualmente tudo, quando não é, não é.
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As indevidas querenças, de eternidade e luxúria, são peçonha incessante e maníaca – uma doença crónica voluntária.
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Porque já chega, diga-se:
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Um envenena e outro empesta.
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Se existisse, que escolhesse – o Diabo.
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Por cá, escolhemos e certezantes amamo-nos.

sexta-feira, agosto 10, 2018

Dívidas

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Que dívida terei de pagar por te ter.
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Que valor terei para me teres?
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Seguraste-me na mão e deste-te. Absorvi-te como a areia salgada e o mar.
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Desapareci, numa infelicidade sem tempo de visão do seu fim.
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Fizemos amor. Sem o termos feito. Fizemo-lo no amor nunca negado e no afecto incrível.
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Sempre adiantado, atrasei-me muitos anos.
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Sempre atrasada, aguardaste-me.
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Saciaste a sede por me ter morrido.
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Esperaste-me como uma viúva do mar.
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Esperaste-me com a paciência dos anjos e a certeza dos crédulos.
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Esperaste-me com a esperança dos vencedores e a certeza dos gloriosos.
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Estiveste na chegada, que desejaste e pediste.
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Estiveste no sonho, pedindo-me.
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Estiveste no silêncio dos mudos.
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De olhos abertos, desconhecendo que lavravas a completa minha absoluta salvação.
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Livre nas vagas do sono, cativa em burburinho de tristeza, quiseste-me e pronunciaste, em bondade e fé.
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Que palavra te disse?
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Primeira, amor.
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Segunda, raiva. Por uma agonia injusta.
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Pela dor do sal, das lágrimas da distância e da aflição dos anos do longo naufrágio.
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Então cortei-te, queimando-te.
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Perdoaste-me, chorando.
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Novamente me chamaste com a esperança e a bondade de quem ama e ama de certeza.
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Não tenho muitas palavras para te beijar, chorando de alegria e arrependimento.
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Desculpa é todo e tudo, por não existir mais grande e pleno.
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Obrigado é todo e tudo, por não existir mais grande e pleno.
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Dizes-me que me amas.
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Lacrimejando ou desértico, digo que te amo.
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O que mais dizer?

sexta-feira, agosto 03, 2018

Poente a Nascente


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Estas saudades só passam se te tiver desde ontem, se pudesse ao momento em que foste.
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Os tantos dias têm sido das memórias de azul. Sorris e fazemos amor… como dizer, assim…
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Cada dia completo pela quarta-feira.
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Uma lembrança-boa-triste cada vez que, sem ti, fiz amor contigo. Todos os dias nos amámos.
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À noite falámos e diluí-me na tua voz. Depois morrendo enlevado, sonhei caindo-te-me, pelas horas nocturnas.
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Sinto uma maré: a saudade leva-te e vens mais próxima na onda da certeza-do-tempo.
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Não é necessário este Verão para nos derretermos abraçados.
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Perdi a ânsia de fulminar o espaço-tempo. Sinto-te no sítio-lugar.
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Ainda não percorrida a viagem e o tempo jaz. Não merece clemência, pela dor. Sim um festejar pela sua chegada.
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O raciocínio nega ao passado ser futuro. Por isso, a minha saudade só morrerá quando te abraçar no beijo mais azul.