digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

terça-feira, março 24, 2026

Rendi-me, disse-o há vinte anos

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Continuo cativo. Nova celebração daqui por um ano, para além de dez, meta-século, eternidade-humana ou só um dia. É irrelevante, o tempo.

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Sentei-me de frente para. Onde passei os vinte anos que se fazem hoje. Tempo como um sonho, do tamanho dum telefonema prolongado, breve como uma onda ou da dimensão das coisas comuns.

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No espelho frente a mim não sou eu. E sou. Como também nos alinhamentos das palavras e da sua natureza. O recheio e fronha são diferentes e fazem uma só coisa.

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Vinte anos às 18 horas e 22 minutos. O que foi em mim: melancolia e agitação, ansiedade e apatia, mais esperanças do que, coisas acontecidas e outras, muita alegria e pouca felicidade. Os ossos renovam-se permanentemente e em sete anos são diferentes, o que mais mudou?

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Mudou tudo, sou dessemelhante e estou noutro lugar. Ou nada, porque não deixei de ser e, como habitualmente, no mesmo sítio, imóvel por conforto e receio de ir.

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Erraram-me, falhei-falharam por amor-loucura. Mentiram-me e menti. Zanguei-me e perdoei. Com faca cortei e com linha cosi e recosi. E encontrei o amor-da-vida e o fruto chegado pelos seus ventre e coração. Luzes maiores, de mundo e de estrelas. Se escrevesse tudo, não haveria como o colher integral. Agora, escrevo pouco, por simplicidade.

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O que me foi este tempo? Também melancolia como fosse uma piscina deserta.

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O que me foi este tempo? Também apatia. Sem querer, sem desquerer e sem querer saber.

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O que me foi este tempo? Também medo, uma piscina à noite arrepia-me quando estou sozinho.

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Tenho um bicho unindo-me: intestinos, fígado, pulmões, coração, cabeça e espírito. Arranha-me e alimenta-se lambão. Deixa-me em negrum, local-sentimento mais escuro do que o negrume, porque lhe falta o E da esperança. A luz duma flor segura-me no caminho.

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Esse bicho alimenta-me os textos. Sem ele não haveria vinte anos de escrita. Nem tudo, mas muito. Claro, o amor.

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O que me foi este tempo? Também riso, porque é sempre a minha maneira. As gotas de alegria não encheram tanques, não fingi. Já disse que alegria e felicidade são irmãs.

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Quis morrer e acho que morri, mas renasci, sempre morto e no beiral de morrer outra vez – muitas vezes. A flor de luz e a bondade infantil deram-me salvação. Se feneci, me ressuscitaram.

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Usei todas as letras que conheço. Escrevi as palavras que sei e as esquecidas, inventei porque sim e por necessidade. Rigorizei a gramática, desrespeitei-a inconsciente e espatifei-a por vontade e zanga. Distracções abundantes e continuo sem saber se devo escrever os números com algarismos ou hifenizados.

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Nunca pensei que. Contudo. Sempre esperei. Todavia. Quase sempre excessivo, porque sou de abundar. Se me perguntarem:

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– Ainda?

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Direi:

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– Ainda.

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São vinte anos e muitas esperas agarradas, mentirei se disser que não esperei. Contudo, mesmo incompreendendo, não invejo.

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Colho o que se colhe na árvore certa, na árvore que é minha. Não invejo, porque não duvido do meu lugar. Disseram-me:

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– Escreves bonito.

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– Compreendo-te.

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– Não aguento.

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– Tens tantas meninas a ler-te. Só meninas.

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Quase todos não disseram nada.

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Digo e parece que tudo é inconseguimento, mas são vinte anos, com muitas dúvidas sobre bué coisas e variadas certezas a respeito.

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Vinte anos não são uma viagem, fazem parte da vida. E, tal como a vida, são. De tudo e só pouco se guarda, escolhe-se a colheita.

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No entanto as minhas mãos aguentam os vinte anos que a cabeça lhes exige. Nesta vida e na outra, a dos momentos onde estou obrigado a ser só pessoa.

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Há um local onde estou quando desobrigado de ser quem esperam. Vou contando há vinte anos e cedo mostrei um recanto de seu jardim. Recolhimento que mostrei e, passadas duas décadas, mantém-se verdadeira.

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Estou aí e escrevo e o infotocopiável fica também aí.

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O primeiro instante: https://infotocopiavel.blogspot.com/2006/03/rendido.html

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