Os anos são lugares? Se o quisermos ver. Os anos são pessoas? De alguma forma. Somos os anos? Preciso de muito tempo para pensar e possivelmente deverei calar-me. Os anos são estados de alma? Certamente plurais. Os anos têm trezentos e sessenta e cinco dias? Para ser rigoroso, não.
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Como foi dois-mil-e-seis? Faço uma lista do que vejo daqui para lá e ouso prever de adiante para trás: fina espuma da cerveja portuguesa, seixo cinzento e chuva na Grã-Bretanha.
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Houve campeões do mundo de futebol e desiludidos, políticos eleitos e outros depostos, concertos eruditos e concursos de beleza, protestos de raiva e festas de alegria, acidentes aéreos e novas viagens, muitos pela ciência e tantos sem a compreenderem, paradas gay e indignados pela liberdade dos outros, golpes de estado e eleições, condenações à morte e absolvições justas e outras ao contrário. Sobretudo mortes e renascimentos.
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Foi ano de maldade do Homem. A NASA lançou para o espaço, a 19 de Janeiro, a sonda New Horizons em direcção a Plutão. Muito antes de lá chegar, a 24 de Agosto, despromoveram-no a planeta-anão. Se não é canalhice, o que é? Quando arribou para vermos? A 14 de Julho de dois-mil-e-quinze. Volto a perguntar: alguma coisa oposta de vilania?
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Também houve alegria!
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Por falar espaço, a 12 de Maio foram descobertos, na Amazónia, 127 blocos de granito. Diz quem sabe que provavelmente é um observatório astronómico, construído há dois mil anos.
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O que fica para a história? A independência de Montenegro, declarada a 3 de Junho.
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A verdadeira maior-tristeza foi ter-me baralhado inconscientemente e apagado diversas imagens da minha conta do Google. O cesto estava cheio e, impercebendo a consequência, ceifei sem saber que amputava o blogue. Tenho-as as todas em pastinhas e todas ficaram, por anos, fora da paciência para as repor.
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Não sou capaz de dizer quando aconteceu, possivelmente em 2018. Embora o Google me tenha devolvido os ficheiros apagados, nunca tive coragem física – leia-se mental – para arranjar o estrago. Na verdade, foi inútil, porque impraticável, nomeadamente por haver muitas falhas.
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Julguei que a inteligência artificial podia dar uma ajuda. Alguma, sim. O apoio veio indirectamente, quando percebi que as imagens apagadas mantinham a designação dos ficheiros. Portanto, o processo de restauro consistiu em identificar o nome do ficheiro, copiá-lo, pesquisar no computador, carregar para a pasta de trabalho e colocar onde faltava. Muitas horas de tédio com ânimo.
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Chegou o momento de informar o tamanho dessa empreitada: 1088 publicações avariadas e 14 com dupla publicação – rascunhos temporariamente publicados e que precisaram de ser removidos. Do total, apenas cinco foram irrecuperáveis e onze amputadas de elementos. Foram processadas 1339 imagens e 63 ficheiros vídeo e áudio.
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Embora o número de perdas seja insignificante – 4791 publicações, no começo do restauro, e mais duas com os textos do aniversário –, nem sempre consegui encontrar o ficheiro que constava. O problema teve três soluções: identificar, através das indexações, com a exclusão das imagens não perdidas; reconstruir depois de ler, reler, interpretar, escolher a imagem, preferencialmente do mesmo artista, e publicar; e, quando não foram viáveis os dois métodos, criar uma imagem com recurso a inteligência artificial.
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As perdas totais não foram graves, porque reportavam a publicações de apenas uma imagem, sem texto. Das onze amputadas, a uma faltam duas imagens e as outras dez ficaram mancas de registos áudio, mas que não eram relevantes.
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Tive um dilema no trabalho de recuperação: manter o grafismo ou actualizá-lo? Reformular tudo seria uma loucura. Portanto, a dúvida entre confirmar desgostos estéticos ou renovar com maior cuidado o arranjo. Escolhi um híbrido.
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Optei por actualizar o arranjo estético da publicação mas, quase sempre, mantendo o ficheiro de imagem original, que, por regra, é de pequena dimensão, definição reduzida e mal acertada no enquadramento. Para que nunca me viesse a arrepender, não toquei nos primeiríssimos, preferi o tosco e o naífe.
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O infotocopiável foi sempre preto. No início usei um modelo gráfico básico do blogger, mas renovei-o várias vezes. Tirando um curto período – em que coloquei fases da Lua, relógio e mais uma tralha – tem sido austero. Nunca pensei em datas nem longevidade nem balanços, pelo que não guardei os diferentes grafismos. Não morrerei dolorido por isso.
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Este blogue nasceu no tempo da explosão do número de candidatos a artista de textos. Acabei-o várias vezes e não morreu para o poder ressuscitar – a primeira desistência aconteceu cinco meses desde o nascimento. Esteve quase morto, sem o querer, por demasiados quatro anos, mas neguei o seu fenecimento.
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Escrevi quase tudo, só três textos. Das pessoas, guardo uma distante, uma zangada e da outra é difícil de explicar e mais ainda de entender – em todas terei alguma culpa.
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Nunca foi um caderno de desabafos, mas recebeu alguns. Fiz poesia, prosa, impoesia e delírio. Criei palavras, começando pelo título – e sou citado por cientistas da língua, orgulho de quem é invisível. Nas distracções de sempre bati poucos erros de ortografia, abstive-me de pontos de interrogação, que substituí por finais, e terminei frases abrupta e prematuramente – passei a explorar voluntariamente como recurso. Até teimosias de motivação diversa e a gramática que-me-apetece.
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Segui o princípio de que a imagem – bidimensional, representando obra tridimensional e em movimento – é parte do trabalho, completando-se. Evitei a legenda e a ilustração, mas consciente escrevi-as e mostrei-as.
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Todavia, inicialmente foi diferente. As imagens começaram por ser apenas uma ilustração. Cedo o conceito evoluiu e tornou-se conceptual. Estabeleci que cada publicação tem de ter uma imagem, embora aceitando excepções – julgo que não chegarão a cinco.
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Agora vou repetir muito a palavra imagem, só porque é a mais rigorosa. Embora com o compromisso das publicações ser de texto e imagem, optei, pelo menos duas vezes, por não incluir uma imagem. Todavia, na publicação que se segue, a ausência de imagem é uma imagem, porque a opção foi pensada tendo em conta a necessidade, neste caso específica, de não usar algo como ilustração. Ou seja, a imagem é a sua ausência.
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https://infotocopiavel.blogspot.com/search?q=Objecto-corpo+desistido
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Com o passar dos anos, o assunto da imagem evoluiu, tanto quanto à minha preocupação, que foi aumentando, quanto à melhoria da qualidade tecnológica. Portanto, pesquisa mais pensada, demorada e atenta e maiores dimensão e definição. Paralelamente, ampliado o cuidado com o grafismo.
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Todas as publicações têm indexação dos créditos autorais. Porém, nem sempre foi possível: porque não consegui identificar – esforço-me verdadeiramente – e por causa do limite da catalogação do blogger. Nesta segunda situação, as referências estão no corpo da postagem.
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Tive três problemas: um fotógrafo amador que me ameaçou com processo judicial, relativamente a direitos autorais, se não retirasse uma imagem – apesar de ser abundante no Pintarest, Facebook, etc; uma plagiadora frequente e que vários escritores denunciaram às autoridades; e um sujeito que roubou a publicação e lhe mudou o título, passando-o para inglês… e estrangeirismos, especialmente anglicismos, são coisas que abomino e evito. A este último, escrevi-lhe:
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– Fico feliz por me plagiar. Embora o plágio seja um roubo é também um elogio. Mas, por favor, não mude o título do texto.
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https://infotocopiavel.blogspot.com/2009/06/moda.html
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Não corrigiu o título, não disse que estava arrependido, não lamentou, não pediu desculpa. Retirou o texto e prontes!
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O blogue tem a loucura íntima e o desvario imaginado, amor verdadeiro e encanto mentiroso, humor e fúria, o banal e o não-tem-nada-a-ver, coisas-jeitosas e alinhamentos-maus, molduras para as fotografias das amadas, declarações a musas – amável, fenecidas, amáveis-não-amáveis e inexistentes – e obituários sem contraponto.
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Poucos me têm lido e outros tantos, possivelmente cada vez menos, o farão no futuro. Daqui por um ano, para além de dez, meta-século, eternidade-humana ou só um dia é irrelevante. Se um dia me publicarem em papel material, concedendo-me a honra ou a ilusão de escritor, será deste blogue para fora. Não sou mago, sou crente, sobretudo especialista da tristeza e da derrota.
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O infotocopiável nasceu no momento da efervescência da blogosfera. Toda a gente era culta, interessante e tinha coisas para dizer. Através dele conheci pessoas, quem me lia e quem eu lia. A grande maioria dos blogues desapareceu e muitos fecharam perfis.
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Resumo resumindo dizendo dum momento – revelado doutra vez, num aniversário qualquer, não procurei a data – à noite e perto do Cais do Sodré. Falou-me um João:
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– O quê, também tens um blogue?
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Vinte anos passados, respondo-lhe novamente:
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– Tenho.
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O começo foi um bocado trapalhão, sem saber o rumo: generalista – e até onde – ou específico? Nasceu misturando heráldica, vinho, humor, as cidades, os amigos e as minhas gatas – quase todos foram emergindo e mergulhando. O tempo centrou-o na prosa poética, mas com algumas excepções. Assim, a índole é literária.
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Sei que tenho, desde o começo, leitores fiéis e outros regulares. Contudo, muitos aparecem porque, dalguma forma, uma publicação surgiu num motor de busca. É curioso ler as indicações estatísticas.
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Em tempos tive associado um serviço de avaliação de audiência. A publicação mais procurada relacionava-se com um modo de matar formigas. Morrerei sem entender as mulheres nem a razão de tal pesquisa.
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O blogger tem a sua própria medição. É curioso que os seus dados coincidem com os do tal serviço externo – excepto o método alternativo para matar formigas. O sexo é a principal razão dos visitantes. Verifiquei também que existe uma grande dificuldade em interpretar texto e até de pesquisa num motor de busca. Segue a lista dos mais lidos:
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Minúsculo ensaio sobre a beleza das palavras sinónimas de vagina, com mais de 68.800 leituras. Escreveu-me um tipo que não percebeu a escritura: «me engana que eu gosto».
https://infotocopiavel.blogspot.com/2009/01/cona-buceta-rata-gatinha-e-outras.html
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Notei que um texto sobre o porco bísaro tinha tido procura significativa. Descobri que a razão estava ligada a um erro de ortografia: bísaro confundido com bizarro. Por isso, humoristicamente, escrevi uma prosa que se tornou a segunda mais lida, com mais de 5.790 leituras.
https://infotocopiavel.blogspot.com/2009/01/sexo-bisaro.html
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Um texto acerca de sexo oral é bastante apreciado, com 4.970 leituras.
https://infotocopiavel.blogspot.com/2010/07/sexo-oral.html
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O quarto mais lido é sobre a depressão e seguem-se quatro com temática sexual e/ou com imagem com nudez. O nono é sobre um bar e, abaixo desse, nenhum outro chegou às mil leituras.
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Os autores, das diferentes artes, dizem que o seu trabalho é dedicado a, pelo menos, dois públicos: o próprio e quem apreciar é benvindo – recuso-me ao bem-vindo – ou para os outros e a sua satisfação é prazer inteiro. Não sei bem em qual destes lugares estou.
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Escrevo tanto que não me lembro de tudo o que escrevi e ainda menos das imagens que escolhi. Por isso, não sei quais trabalhos prefiro. Os que mais me vêm ao pensamento são do começo possivelmente porque são do início.
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Avaliar as escolhas dos outros é mais difícil, porque o público é plural e inorgânico. Há poucos a falar e previsivelmente muitíssimos mais que se calam. Não tendo outro indicador, direi os dois em que mais comentários recebi, de viva voz e por texto de email.
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https://infotocopiavel.blogspot.com/2006/04/chover.html
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https://infotocopiavel.blogspot.com/2016/10/o-vortice-de-lirola_18.html
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Chego ao fim deste texto de celebração. Espero continuar a receber-vos e que novas pessoas venham ler, ver e ouvir. Deixo as três publicações que mais me marcam a lembrança.
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https://infotocopiavel.blogspot.com/2006/03/rio-negro.html
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https://infotocopiavel.blogspot.com/2006/04/o-jardim.html
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E, naturalmente:
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https://infotocopiavel.blogspot.com/2006/03/rendido.html
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