digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

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quinta-feira, setembro 06, 2018

Objecto-corpo desistido

A depressão pode chegar até onde alguém deixa de ter ar e esperança. Peço àqueles que, por uma situação aflitiva duma vontade desesperada, sentiram, de alguma forma, o epílogo da violência desesperada numa derradeira coragem.
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Não encontro imagem-ferramenta que explique. Até será melhor. Quem sabe é quem sabe.
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Não encontro outras palavras. Não li corrigindo nada. Este texto é o que é. De quem compreende o que é.
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Hoje vi-me num corpo-objecto parado.
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Um suicídio é sempre um suicídio, tenha o objecto-corpo terminado ou salvado.
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Não faz diferença, um suicídio é um suicídio. Não é outra coisa.
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É a morte – aquela que diz a maioria.
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Um suicídio não é outra coisa do que um suicídio.
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Resgatado pelas mãos chegadas em afogo-desesperado de quem tem esperança.
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Ainda, aquele objecto-corpo era assim morto.
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Morrendo mais quando for – da morgue-terra ou da morgue-de-perdurada do sol-não-sol.
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O suicídio é do espírito deslargado do corpo-objecto porque.
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Não se sobrevive ao suicídio. Qualquer coisa-tanto-faz.
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É a dor de escolher, na coragem inestimável da solidão.
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O corpo-objecto é não-vida e matar-nos é ser não-vida.
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Seja aquilo vindo ou aquilo ido.
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Recupere o corpo-objecto, na dor inestimável da solidão.
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A dor inestimável da solidão é incompreensível àqueles que não.
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Estar diante das desrespostas não faz sentido quando as desrespostas são a resposta.
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Tanto faz como se chega ao não-lugar.  O não-lugar é único aos olhos-alma.
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Não era o meu corpo-objecto. Eu estava ali morto.
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Fui sobrevivente-morto, tantos tempos. Egocêntrico, eu era aquele corpo-objecto derrubado na solidão que.
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Na calma-quieta do suicídio, eu estava ali à porta do não-lugar, que só se.
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Pela mão da coragem de não ter coragem. Pela mão de não ter coragem de ter coragem.
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Não importa como. O suicídio é sempre instante-prolongado-agoniante. Aloja-se dentro muito tempo e quem não, não pode.
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Só quem, compreende absolutamente.
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De tanto tempo. Por tanto tempo.
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Aquele corpo era o meu – é o meu.
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Não chorei aquela vida-corpo-objecto-suicidado.
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Pensei-tentei-orar e não consegui.
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No meu egocentrismo, aquele corpo-objecto era o meu. Por isso tanto faz.
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Não chorei tal.
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Não choro almas idas ou corpos-objectos derrubados, por vontade ou por contrato.
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Não choro e não me incomodo.
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Tantas vezes me chorei demasiado prendido ao corpo-objecto.
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Contudo, ali.
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Como sempre, não choro.
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Aquele corpo-objecto era o meu e não chorei, porque não o faço por ninguém.
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Diante dos olhos contemplei o meu corpo-objecto e eu que tantas vezes me chorei não me comovi pois aquilo a que a maioria chama morte não me comove.
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Não me senti. Não me sinto. Nunca me senti.
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Apenas quem compreende o que os outros não.
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Assim olhando o corpo-objecto desprendendo-se.
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É duro. Muito duro. Não sei escrever nem.

terça-feira, março 24, 2026

Balanço de 20 anos do infotocopiável – 24 de Março de 2006, 18 horas e 22 minutos

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Os anos são lugares? Se o quisermos ver. Os anos são pessoas? De alguma forma. Somos os anos? Preciso de muito tempo para pensar e possivelmente deverei calar-me. Os anos são estados de alma? Certamente plurais. Os anos têm trezentos e sessenta e cinco dias? Para ser rigoroso, não.

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Como foi dois-mil-e-seis? Faço uma lista do que vejo daqui para lá e ouso prever de adiante para trás: fina espuma da cerveja portuguesa, seixo cinzento e chuva na Grã-Bretanha.

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Houve campeões do mundo de futebol e desiludidos, políticos eleitos e outros depostos, concertos eruditos e concursos de beleza, protestos de raiva e festas de alegria, acidentes aéreos e novas viagens, muitos pela ciência e tantos sem a compreenderem, paradas gay e indignados pela liberdade dos outros, golpes de estado e eleições, condenações à morte e absolvições justas e outras ao contrário. Sobretudo mortes e renascimentos.

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Foi ano de maldade do Homem. A NASA lançou para o espaço, a 19 de Janeiro, a sonda New Horizons em direcção a Plutão. Muito antes de lá chegar, a 24 de Agosto, despromoveram-no a planeta-anão. Se não é canalhice, o que é? Quando arribou para vermos? A 14 de Julho de dois-mil-e-quinze. Volto a perguntar: alguma coisa oposta de vilania?

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Também houve alegria!

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Por falar espaço, a 12 de Maio foram descobertos, na Amazónia, 127 blocos de granito. Diz quem sabe que provavelmente é um observatório astronómico, construído há dois mil anos.

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O que fica para a história? A independência de Montenegro, declarada a 3 de Junho.

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A verdadeira maior-tristeza foi ter-me baralhado inconscientemente e apagado diversas imagens da minha conta do Google. O cesto estava cheio e, impercebendo a consequência, ceifei sem saber que amputava o blogue. Tenho-as as todas em pastinhas e todas ficaram, por anos, fora da paciência para as repor.

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Não sou capaz de dizer quando aconteceu, possivelmente em 2018. Embora o Google me tenha devolvido os ficheiros apagados, nunca tive coragem física – leia-se mental – para arranjar o estrago. Na verdade, foi inútil, porque impraticável, nomeadamente por haver muitas falhas.

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Julguei que a inteligência artificial podia dar uma ajuda. Alguma, sim. O apoio veio indirectamente, quando percebi que as imagens apagadas mantinham a designação dos ficheiros. Portanto, o processo de restauro consistiu em identificar o nome do ficheiro, copiá-lo, pesquisar no computador, carregar para a pasta de trabalho e colocar onde faltava. Muitas horas de tédio com ânimo.

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Chegou o momento de informar o tamanho dessa empreitada: 1088 publicações avariadas e 14 com dupla publicação – rascunhos temporariamente publicados e que precisaram de ser removidos. Do total, apenas cinco foram irrecuperáveis e onze amputadas de elementos. Foram processadas 1339 imagens e 63 ficheiros vídeo e áudio.

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Embora o número de perdas seja insignificante – 4791 publicações, no começo do restauro, e mais duas com os textos do aniversário –, nem sempre consegui encontrar o ficheiro que constava. O problema teve três soluções: identificar, através das indexações, com a exclusão das imagens não perdidas; reconstruir depois de ler, reler, interpretar, escolher a imagem, preferencialmente do mesmo artista, e publicar; e, quando não foram viáveis os dois métodos, criar uma imagem com recurso a inteligência artificial.

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As perdas totais não foram graves, porque reportavam a publicações de apenas uma imagem, sem texto. Das onze amputadas, a uma faltam duas imagens e as outras dez ficaram mancas de registos áudio, mas que não eram relevantes.

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Tive um dilema no trabalho de recuperação: manter o grafismo ou actualizá-lo? Reformular tudo seria uma loucura. Portanto, a dúvida entre confirmar desgostos estéticos ou renovar com maior cuidado o arranjo. Escolhi um híbrido.

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Optei por actualizar o arranjo estético da publicação mas, quase sempre, mantendo o ficheiro de imagem original, que, por regra, é de pequena dimensão, definição reduzida e mal acertada no enquadramento. Para que nunca me viesse a arrepender, não toquei nos primeiríssimos, preferi o tosco e o naífe.

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O infotocopiável foi sempre preto. No início usei um modelo gráfico básico do blogger, mas renovei-o várias vezes. Tirando um curto período – em que coloquei fases da Lua, relógio e mais uma tralha – tem sido austero. Nunca pensei em datas nem longevidade nem balanços, pelo que não guardei os diferentes grafismos. Não morrerei dolorido por isso.

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Este blogue nasceu no tempo da explosão do número de candidatos a artista de textos. Acabei-o várias vezes e não morreu para o poder ressuscitar – a primeira desistência aconteceu cinco meses desde o nascimento. Esteve quase morto, sem o querer, por demasiados quatro anos, mas neguei o seu fenecimento.

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Escrevi quase tudo, só três textos. Das pessoas, guardo uma distante, uma zangada e da outra é difícil de explicar e mais ainda de entender – em todas terei alguma culpa.

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Nunca foi um caderno de desabafos, mas recebeu alguns. Fiz poesia, prosa, impoesia e delírio. Criei palavras, começando pelo título – e sou citado por cientistas da língua, orgulho de quem é invisível. Nas distracções de sempre bati poucos erros de ortografia, abstive-me de pontos de interrogação, que substituí por finais, e terminei frases abrupta e prematuramente – passei a explorar voluntariamente como recurso. Até teimosias de motivação diversa e a gramática que-me-apetece.

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Segui o princípio de que a imagem – bidimensional, representando obra tridimensional e em movimento – é parte do trabalho, completando-se. Evitei a legenda e a ilustração, mas consciente escrevi-as e mostrei-as.

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Todavia, inicialmente foi diferente. As imagens começaram por ser apenas uma ilustração. Cedo o conceito evoluiu e tornou-se conceptual. Estabeleci que cada publicação tem de ter uma imagem, embora aceitando excepções – julgo que não chegarão a cinco.

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Agora vou repetir muito a palavra imagem, só porque é a mais rigorosa. Embora com o compromisso das publicações ser de texto e imagem, optei, pelo menos duas vezes, por não incluir uma imagem. Todavia, na publicação que se segue, a ausência de imagem é uma imagem, porque a opção foi pensada tendo em conta a necessidade, neste caso específica, de não usar algo como ilustração. Ou seja, a imagem é a sua ausência.

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https://infotocopiavel.blogspot.com/search?q=Objecto-corpo+desistido

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Com o passar dos anos, o assunto da imagem evoluiu, tanto quanto à minha preocupação, que foi aumentando, quanto à melhoria da qualidade tecnológica. Portanto, pesquisa mais pensada, demorada e atenta e maiores dimensão e definição. Paralelamente, ampliado o cuidado com o grafismo.

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Todas as publicações têm indexação dos créditos autorais. Porém, nem sempre foi possível: porque não consegui identificar – esforço-me verdadeiramente – e por causa do limite da catalogação do blogger. Nesta segunda situação, as referências estão no corpo da postagem.

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Tive três problemas: um fotógrafo amador que me ameaçou com processo judicial, relativamente a direitos autorais, se não retirasse uma imagem – apesar de ser abundante no Pintarest, Facebook, etc; uma plagiadora frequente e que vários escritores denunciaram às autoridades; e um sujeito que roubou a publicação e lhe mudou o título, passando-o para inglês… e estrangeirismos, especialmente anglicismos, são coisas que abomino e evito. A este último, escrevi-lhe:

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– Fico feliz por me plagiar. Embora o plágio seja um roubo é também um elogio. Mas, por favor, não mude o título do texto.

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https://infotocopiavel.blogspot.com/2009/06/moda.html

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Não corrigiu o título, não disse que estava arrependido, não lamentou, não pediu desculpa. Retirou o texto e prontes!

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O blogue tem a loucura íntima e o desvario imaginado, amor verdadeiro e encanto mentiroso, humor e fúria, o banal e o não-tem-nada-a-ver, coisas-jeitosas e alinhamentos-maus, molduras para as fotografias das amadas, declarações a musas – amável, fenecidas, amáveis-não-amáveis e inexistentes – e obituários sem contraponto.

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Poucos me têm lido e outros tantos, possivelmente cada vez menos, o farão no futuro. Daqui por um ano, para além de dez, meta-século, eternidade-humana ou só um dia é irrelevante. Se um dia me publicarem em papel material, concedendo-me a honra ou a ilusão de escritor, será deste blogue para fora. Não sou mago, sou crente, sobretudo especialista da tristeza e da derrota.

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O infotocopiável nasceu no momento da efervescência da blogosfera. Toda a gente era culta, interessante e tinha coisas para dizer. Através dele conheci pessoas, quem me lia e quem eu lia. A grande maioria dos blogues desapareceu e muitos fecharam perfis.

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Resumo resumindo dizendo dum momento – revelado doutra vez, num aniversário qualquer, não procurei a data – à noite e perto do Cais do Sodré. Falou-me um João:

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– O quê, também tens um blogue?

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Vinte anos passados, respondo-lhe novamente:

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– Tenho.

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O começo foi um bocado trapalhão, sem saber o rumo: generalista – e até onde – ou específico? Nasceu misturando heráldica, vinho, humor, as cidades, os amigos e as minhas gatas – quase todos foram emergindo e mergulhando. O tempo centrou-o na prosa poética, mas com algumas excepções. Assim, a índole é literária.

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Sei que tenho, desde o começo, leitores fiéis e outros regulares. Contudo, muitos aparecem porque, dalguma forma, uma publicação surgiu num motor de busca. É curioso ler as indicações estatísticas.

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Em tempos tive associado um serviço de avaliação de audiência. A publicação mais procurada relacionava-se com um modo de matar formigas. Morrerei sem entender as mulheres nem a razão de tal pesquisa.

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O blogger tem a sua própria medição. É curioso que os seus dados coincidem com os do tal serviço externo – excepto o método alternativo para matar formigas. O sexo é a principal razão dos visitantes. Verifiquei também que existe uma grande dificuldade em interpretar texto e até de pesquisa num motor de busca. Segue a lista dos mais lidos:

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Minúsculo ensaio sobre a beleza das palavras sinónimas de vagina, com mais de 68.800 leituras. Escreveu-me um tipo que não percebeu a escritura: «me engana que eu gosto».

https://infotocopiavel.blogspot.com/2009/01/cona-buceta-rata-gatinha-e-outras.html

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Notei que um texto sobre o porco bísaro tinha tido procura significativa. Descobri que a razão estava ligada a um erro de ortografia: bísaro confundido com bizarro. Por isso, humoristicamente, escrevi uma prosa que se tornou a segunda mais lida, com mais de 5.790 leituras.

https://infotocopiavel.blogspot.com/2009/01/sexo-bisaro.html

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Um texto acerca de sexo oral é bastante apreciado, com 4.970 leituras.

https://infotocopiavel.blogspot.com/2010/07/sexo-oral.html

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O quarto mais lido é sobre a depressão e seguem-se quatro com temática sexual e/ou com imagem com nudez. O nono é sobre um bar e, abaixo desse, nenhum outro chegou às mil leituras.

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Os autores, das diferentes artes, dizem que o seu trabalho é dedicado a, pelo menos, dois públicos: o próprio e quem apreciar é benvindo – recuso-me ao bem-vindo – ou para os outros e a sua satisfação é prazer inteiro. Não sei bem em qual destes lugares estou.

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Escrevo tanto que não me lembro de tudo o que escrevi e ainda menos das imagens que escolhi. Por isso, não sei quais trabalhos prefiro. Os que mais me vêm ao pensamento são do começo possivelmente porque são do início.

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Avaliar as escolhas dos outros é mais difícil, porque o público é plural e inorgânico. Há poucos a falar e previsivelmente muitíssimos mais que se calam. Não tendo outro indicador, direi os dois em que mais comentários recebi, de viva voz e por texto de email.

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https://infotocopiavel.blogspot.com/2006/04/chover.html

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https://infotocopiavel.blogspot.com/2016/10/o-vortice-de-lirola_18.html

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Chego ao fim deste texto de celebração. Espero continuar a receber-vos e que novas pessoas venham ler, ver e ouvir. Deixo as três publicações que mais me marcam a lembrança.

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https://infotocopiavel.blogspot.com/2006/03/rio-negro.html

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https://infotocopiavel.blogspot.com/2006/04/o-jardim.html

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E, naturalmente:

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https://infotocopiavel.blogspot.com/2006/03/rendido.html