digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

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segunda-feira, abril 27, 2026

Irresistível como uma inglesa a falar francês

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Chegava – às vezes olazava o pai e noutras ele dormia. Bife na frigideira, bastava aquecer, e bata frita mortiça e saborosa. Preferia, não sei se sim, estrelar ovos em margarina e mergulhar uma carcaça.

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O prato num toalhete, copo de água à direita e a câmara dois em frente. Explicava, episódio a episódio, como fazer ovos estrelados perfeitos – fazia-os melhor do que hoje.

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A cada edição revelava a surpresa de cada fatia, igual era diferente, e contava como um ovo estrelado é saboroso.

quinta-feira, novembro 13, 2025

Manga – 2010 – 13 de Novembro de 2025

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A Manga chegou porque tinha de chegar, embora eu não quisesse mais nenhum cão. Mas se veio é porque havia razão, ninguém surge sem um motivo.

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Disse exigindo:

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– Um cão, só se não ladrar.

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Sou gatófilo. Adoro cães, mas criam-me ansiedade – por várias razões. Os animais sentem o nosso estado de espírito e não quero transmitir-lhes intranquilidade. O ladrar incomoda-me bastantíssimo.

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Sinceramente, acreditei que a minha condição não iria ser tida em conta. Não esperava que a Ana procurasse um cão que fosse silencioso. Estudou e descobriu que o épagneul breton não ladra.

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Nunca privilegiámos raças e, por isso, a escolha não seria baseada em pedigree nem, muito menos, compraríamos um animal. A procura seria feita em associações e com a condição explícita de não ladrar ou de fazê-lo pouco.

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A condição era essa, tanto fazendo se de raça ou rafeirice. Porém, encontrou uma épagneul breton para adopção. Se achou, cumpri a minha parte: adoptar a bichinha.

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Fomos visitar a UPPA já decididos a trazê-la. Tinha sido abandonada no canil de Sintra, resgatada com sete anos e estava há um para adopção. Quem visitou a associação, antes de nós, dizia que era linda, mas que «ia pensar». O «ir pensar» significa «é velha». Por isso, os voluntários ficaram visivelmente felizes quando a viram no banco traseiro do nosso pequeno carro.

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Saiu da Terrugem chamando-se Manga-Rosa e chegou a Lisboa só com o nome de Manga. Com o tempo passei a chamar-lhe Manga Maria e Mangalética.

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Veio o caminho todo a arfar. Compreendemos, pois não nos conhecia, estava num automóvel – sem sabermos qual a sensação ou memória que isso lhe causava – e entrou numa casa com soalho de madeira – desconhecíamos se já vivera com esse chão.

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Durante uns dias arfava e dormia. O sono é explicável pelo défice de descanso numa colónia de cães, onde o ladrar é constante. Todavia, a respiração deixou-nos apreensivos, mas passou com o tempo.

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Chegou a pensar que iria ficar com o quarto lugar na hierarquia da casa, logo abaixo dos Homo sapiens sapiens, e corria atrás das gatas – o que, uma vez, poderia ter sido fatal para a Valsa. A gata saltou a tempo e o prejuízo foi apenas uma jarra ligeiramente lascada.

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Um dia vimo-la a olhar para a Granita e a ganir. Portanto, a gata alfa deve ter-lhe explicado, com os «garfinhos», que o gato tem estatuto superior ao cão.

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A Manga, de facto, não ladrava – devo tê-la ouvido duas ou três vezes. Fazia, às vezes, um som parecido quando dormia e nada mais.

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A doçura era outra das suas características. Era muito mansa e dócil, gostava de crianças, mas era impiedosa com pombos – assassinou um no jardim da Parada do Alto de São João. Um dia, uma veterinária fez-lhe a patifaria de espetar uma agulha… não mordeu nem rosnou… deu-lhe beijinhos.

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Com o tempo, o meu amor por ela cresceu enormemente e ela retribuiu na mesma quantidade e qualidade. Uma relação que até espantou a treinadora que a ajudou a ultrapassar uns comportamentos indesejáveis. Passei a dizer:

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– Gosto mais de gatos do que de cães. Mas a Manga é a Manga. A Manga não é um gato e também não é um cão. A Manga é a Manga!

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A Ana tirou o Bobi da rua. Não sabíamos se a Manga o iria aceitar ou, no mínimo, criar pequenas disputas. Não podia ter corrido melhor, ficaram os melhores amigos, sem ciúmes ou qualquer azedume.

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Quando o Bobi morreu, em Abril de 2024, a Manga deprimiu e envelheceu, perdendo o interesse em ir passear à rua. Lentamente, foi ficando menos ágil. Neste Verão foi connosco para o campo, melhorou nitidamente o ânimo e passou a andar melhor, embora eu tivesse continuado a ajudá-la a subir escadas. Conclusão:

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– Confirma-se, estava um pouco desajeitada a andar por fazer pouco exercício.

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Errado.

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Numa tarde de final de Agosto começou com espasmos. Dificilmente consegui acalmá-la e levei-a imediatamente à Sociedade Protectora dos Animais. A Manga estava com uma doença neurológica. Resumindo, o mal progrediu rapidamente e hoje.

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Direi sempre:

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– Gosto mais de gatos do que de cães. Mas a Manga é a Manga. A Manga não é um gato e também não é um cão. A Manga é a Manga!

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Nota: Gostava de pôr uma fotografia mais humana do que esta, mas, devido a problema com o computador, não tenho melhor.

domingo, julho 27, 2025

Onde pertenço não é aqui

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Passei, desejando passar, enganado passei, querendo ir, tendo passado, julgando o caminho certo, crendo ser no caminho, é passado, agora passo, andando sempre sem ver, olhando parado, retomando o passo, virando, revirando-me e continuando na direcção para onde dizem os pés e, como sempre, não o tino, que não é mais atinado, vou desperto como dormindo desejando o pedestal, crédulo num sonho da infância, mas não alcançarei mais do que a lápide das datas, avisa-me o senso-sincero-insensível, mago do desânimo, conselheiro ignorado, se não for para ser cinza.

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Entardecendo vejo o futuro. Agora querendo aqueles anos de tintura e película, da sala do cinema, do cheiro do teatro, quando comia as letras como se fosse traça, sei dos equívocos e os meus pés estão moídos.

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Aqueles dias, somente novos, os outros arderam como a folha listada onde se começou um poema desinspirado, quase plagiado, de amor ou melancolia.

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Onde errei e quantas vezes, pergunto-me sem interrogação.

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Desejar o regresso é caminhar numa rotunda de becos sem saída e sentidos proibidos, relógio sem ponteiros, conduzindo à inglesa.

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Nem saudade nem nostalgia, valha-me a graça de não ser de tais interesses. Nem imagino se. Porém.

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Não peço o regresso, mas a seta certeira e a quantidade de metros para chegar. Pergunto-me e é a cabeça quem responde.

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– Por que errei?

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– Porque tenho os pés mais feios do mundo.

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Olhando-me ao espelho percebo que estou quebrado e leio-percebo-constato as décadas de azar.

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As vitórias foram derrotas. Não sei se me impuseram à verdade ou se a mentira iludiu por mim. Tinha tanto brilho e ouro.

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Abro a mesa e liberto uma toalha de algodão, vincada pelas dobras da guarda prolongada, baixo as janelas, acalmo a luz com uma vela, jogo as setenta-e-oito cartas e pergunto-lhes e não leio o que entendo.

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Acaricio a bola dos meus estilhaços, a minha esfera só se transcende com o passado, ansioso leio as borras do chá na caneca e decifro os resíduos do café na chávena – as tais rugas e sulcos do pano naftalino, irregularidades de encantar, não desviam previsões nem calam engodos.

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Não me assusto com fantasmas, ilumino-os com preces, explico o momento e indico o caminho. Contudo.

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Não comigo. Alvoroço-me, sou fantasma de mim, não me desencosto com pau de incenso aceso, malva queimada, cânfora no bolso da camisa e velas na capela. Tanto quanto creolina e lixívia.

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Se há labirinto sem saída, é. Não tenho portas abertas e janelas fechadas nem o contrário, em negrum só paredes-cantos e ar sem luz.

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Como sempre, a cabeça responde à cabeça, porque sabe a verdade, da ilusão ao desgosto, assim acredita ou diz que.

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– Onde errei?

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– Em quase tudo.

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Por que quero conhecer o futuro quando sei o passado, se a minha curiosidade não tem apetite.

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Tenho-me em excesso e ainda me sobram erros e ilusões, doenças crónicas.

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Tão desviado que caído, por tão caído desviei-me, tão enganado que tão derrotado, tão derrotado que caído, constato a minha derrota no sucesso dos imerecedores. Lambo as lágrimas da inveja e do desrespeito que me dão sobradamente, tantas que.

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Pés tão feios só vão erradamente – diz a cabeça.

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Pés feios andam para o erro. Não há ajuda que ajude pés tão feios. 

segunda-feira, junho 09, 2025

Às vezes os meus olhos não são castanhos

 

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O meu olhar é triste como o da minha mãe como o da minha avó e como parentes antigos.

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É a minha meia-idade, que não me envergonha nem amedronta, mesmo sem um descapotável encarnado, rede de apanhar miúdas impressionáveis, é sonolenta, interessante como a hora do almoço de balconista ou escriturário.

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Tenho a pele presa por si mesma, porque o Sol impõe. Não posso fazer nada sem viver à sombra, como vivo.

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A água morna torna-a areosa. Não posso fazer nada além de poupar a higiene e não vou cheirar mal das axilas.

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Dos meus destroços, da vida quotidiana e universal, o lixo vai para o aterro e o resto vai para reciclar.

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Os poemas sem poesia valem como os resíduos indiferenciados, não são recicláveis e, pensando a correr, não são reutilizáveis.

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Há poetas que juntam palavras como se fossem poemas e, mesmo sem poesia, têm palmas e até ganham prémios.

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Desejo que os meus poemas sejam lidos, traduzidos, estudados, premiados e que, acima de todos os tudos, sejam poesia.

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Não leiam mais do que escrevi nem diferentemente ao posto. Este texto não é um poema, é um conjunto de pequenos parágrafos.

terça-feira, abril 22, 2025

Mandar ao azul

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– O azul é triste!

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Ouvi e respondi, afirmo e falarei:

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Quem disse, é estúpido. Triste é o negro e a inquietação, o roxo e a exéquia, e o vermelho e sua euforia.

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Ou com tamanha venda na frente que uma pesadíssima cortina negra de veludo não serviria melhor.

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Desconhece a cor do céu soalheiro e o mar tranquilo e infinito.

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Não entende de cores ou todas as suas entranhas são daltónicas ou até só uma.

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O azul mata a dor melhor que a bala de prata e a estaca de madeira, em união redundante, conseguem com o vampiro.

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Se te disserem que é triste, manda ao azul para curar as coisas tristes.

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O azul está na minha agenda. Todos os dias o escrevo para não me falte.

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Nota: o comprimido é de Lamotrigina.

sexta-feira, outubro 25, 2024

Cor de expirar


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Há uma cor só de dois dias, não mais de quatro, íntima e infantil. Os anos esconderam-me o momento anual, mas um asterisco cola-o na altura em que se vê o vapor expirado.

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Abria os olhos matinalmente e admirava-a pela pequena janela quadrada do tecto. Tinha-a como a certeza da mãe. Como ave migratória, nunca duvidei da sua chegada e sabedor dos poucos dias do ninho feito no céu.

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Quando vinha, queria estar na rua para ainda a ver, apesar da sua decadência e desvanecimento.

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O tom lilás-azul existe, embora a memória da última vez que a vi esteja deserta. Não a irreconhecerei, se assomar, sei.

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Há umas noites surgiu-me uma outra, ao modo da pessoa velha-conhecida quando nos é apresentada. Estava deitado, esperando o sono, e olhei para a janela.

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O tom tardio é longe do matinal, ainda assim infantilmente agradável. Se não vier breve, venha nos mesmos dias doutros anos ou, pelo menos, seja aneiro.

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Uma pomada macia untada nas asperezas da minha alma ubérrima de ansiedades e tristuras. E morna, bálsamo quando se vê o vapor expirado.

segunda-feira, setembro 23, 2024

Balanço breve de pouca coisa e alguma esperança

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Aos dezasseis anos acreditamos que seremos o que quisermos. Gosto das  noites de negro e azul e via-me a caminhar para onde sabia chegar. Contudo. O tempo apaga certezas.

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Depois de dois anos a estudar artes, no secundário, mudei-me para humanidades. Fora das aulas escrevia, desenhava e fotografava. Comecei no Diário Económico, em Janeiro de 1990, e jornalismo tornou-se a árvore que sorve toda a água da floresta.

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Cansado do quase ócio na escrita profissional – embora não duvide do meu talento criativo e estilístico nem da competência – pensei que voltar ao estirador pode ser uma opção profissional complementar séria e desanuviador da mente. Nas palavras sou João Barbosa, nas artes João 25.

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Em 2022 soube do concurso Luxembourg Art Prize e concorri. Recuperar totalmente a mão direita, a outra não tem remendo porque foi sempre nula, levou algum tempo. Por isso, a quantidade de obras foi pequena e não me senti confiante nos trabalhos mais recentes.

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Senti uma coisa, uma sensação muito íntima, distante há mais de trinta anos: o prazer de pensar, conceber e fazer. Daí para cá, tenho o sentimento juvenil, do tempo um pouco antes da primeira namorada até à entrada no jornalismo. Uma felicidade de libertação.

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Na minha primeira candidatura ao Louxembourg Art Prize apresentei três desenhos e duas pinturas, a mais antiga de 1987 e a mais recente de 2008. Prometi-me, consciente que cumpriria, repetir no ano seguinte. Decisão reforçada por me ter sido concedido reconhecimento de mérito artístico.

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Em 2022 concorri com este desenho de 1987.

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É estimulante, mas. Quando as artes plásticas eram a minha vida, ganhei vários prémios de fotografia e consegui ser selecionado para a Bienal de Artes Plásticas da Festa do Avante, quando a mostra era uma verdadeira referência nacional – era miúdo e acreditava ser comunista, mas a crença durou pouco, pois reparei que não tenho nada a ver com essa ideologia. O Luxembourg Art Prize é milhares de vezes mais difícil, sou humilde ainda que sonhador.

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Catálogo da VI Bienal de Artes Plásticas da Festa do Avante, 1989.
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No ano seguinte, ainda com algumas inseguranças, concorri ao Louxembourg Art Prize com nove desenhos e quarenta e três fotografias. Os rabiscos datam de 2023, mas as fotos foram antigas, a mais velha reportando a 1987. Novamente, recebi a distinção de mérito artístico.

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Em 2023 concorri com esta fotografia tirada em Coimbra, em 1989. Adorava a minha Lomo, que infelizmente está espatifada.
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Gosto de monstros, mostrengos, fabulosos, fantásticos e bestas-feras.
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Pensei em apostar mais na fotografia, quase jurei. Comprei rolos para as duas Canon e para a Rolleiflex, mas não correu como desejava. Foram muito poucas e, mais dum ano depois, ainda não as mandei revelar. Juntei um conjunto de inseguranças – confusões técnicas, dioptrias, receio em riscar os óculos e  sensação de que uma das câmaras está com problemas.

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A segurança viria, teoricamente, com uma câmara digital. Porém, não tenho dinheiro, nem disponibilidade mental, para comprar. A isso acresce a incerteza de que quero realmente fotografar e de ter tempo, porque continuo a escrever, não deixei o jornalismo. A liberdade juvenil passou, estou na meia-idade e vejo o mundo diferentemente.

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Voltei claramente aos desenhos, ainda que tenha pintado alguma coisa. O número de obras de traço chegou às dezenas e preenchi dois cadernos. Esses livros permitiram-me ocupar a cabeça, estimular o pensamento e exercitar a mão direita.

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No momento em que escrevo, apresentei a concurso Luxembourg Art Prize uma pintura e oitenta e três desenhos. Hesito em entregar mais ou poupar alguma coisa para o ano. Entalada na indecisão está uma obra digital que publiquei aqui. https://infotocopiavel.blogspot.com/2024/01/pergunta.html

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O processo de candidatura é monótono e trabalhoso, mas vale-me a empolgação. Sem câmara digital de qualidade, sem scanner e receoso de que a digitalização em loja possa amolgar o papel, fotografei os trabalhos com o telemóvel.

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Este ano apresento sobretudo criptideos de caudas gigantescas.

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Queda de Ícaro, por João 25, a partir da Pieter Bruegel, o Velho. Aguarela, guache e lápis sobre papel.
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A qualidade dos registos fotográficos é fraca: não consegui rectângulos perfeitos – é o problema maior porque distorce –, a focagem é incerta e a luz pode atrapalhar. Por isso, repeti imensamente. Além dessa trabalheira houve o aborrecimento da escolha dos trabalhos. Finalmente introduzir os dados… ano, título, género, técnica, dimensões e descrição.

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Já que fotografei todos os trabalhos, resolvi fazer o mesmo com os cadernos de desenho. Esses livrinhos, através da datação, atestam os anos em que andei distante do estirador e do cavalete.

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O meu pai dizia que desenho como respiro. É verdade: um papel e um lápis ou caneta obrigam-me a rabiscar compulsivamente, uma espécie de vício. Sempre foi assim. Porém, uma coisa são uns bonecos e outra é trabalhar com objectivo.

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Antes dos dois cadernos recentemente preenchidos, tive um primeiro álbum em 1991 e que só o terminei em 2016. O segundo foi preenchido em 2023, tinha apenas um desenho feito em 1993. Comecei o terceiro no ano passado e terminei-o há poucos meses. O quarto está fazendo-se.

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Primeiro caderno: o meu grande amigo Sérgio.
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Segundo caderno: um trengo e o seu habitat.
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Terceiro caderno: répteis criptideos e um gato.
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Há um outro elemento que traduz o meu afastamento das artes visuais: o género. Gosto muito de heráldica e teimosamente desenho brasões, parafernália acompanhante e mais umas coisinhas. Sinceramente, não me dá grande trabalho… é rápido e graficamente simples de colorir sem tinta.

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Comecei um armorial. Todos os meus amigos e pessoas por quem tenho estima receberam um brasão particular. Há uma regra de ouro: não pode existir qualquer relação com armas familiares existentes.

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Esse primeiro caderno está ocupado sobretudo com heráldica. Muito do que lá está nem foi criado por mim, há igualmente desenhos de registo, como, por exemplo, do «emblema» da Baviera – faço recolha de heráldica de domínio e a tarefa é trabalhosa, basta dizer que o Sacro Império Romano-Germânico era formado, em 1806, por mais de quatrocentos «países». 

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Os meus desenhos heráldicos iniciais eram conservadores, embora com liberdades. Fartei-me da ortodoxia despreocupada e criei um formato único. Reconheço que o escudo e o ordenamento são muito feios e demasiadamente-extremamente-inacreditavelmente heterodoxos. Um dia terei paciência para redesenhar em papel, por agora estou quieto nesse assunto, ocupo-me com o trabalho profissional.

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Quis ser original, mas a novidade não correu bem. Na fotografia o púrpura ficou assim. Tive a ousadia de usar o proibido laranja.
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A minha imaginação e a necessidade de matar o tédio foram maiores do que o número de amigos. Assim, os mais chegados receberam vários novos desenhos, formando armas complexas.

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Destravado, continuei criando e cheguei a um momento em que tive de trazer ao mundo dos vivos uns países imaginários. Vim a descobrir que não sou o único biruta e aprendi a palavra geoficção.

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E, basicamente, é isto que quis partilhar.

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Descobri, há poucos dias, que aos 18 anos já gostava de vodka com limão.








domingo, setembro 08, 2024

Azul, azul de azul tão azul

 

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Receio tocar no assunto, porque ao fazê-lo sei que a porta se abre e voo para baixo, e a queda não finda.

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Penso em madeira: o caixilho da janela, o soalho como mosaico ou o piano.

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Poderei sair e ver o céu que prevejo azul, azul de azul tão azul.

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Do chão não passo e o teclado dar-me-á. Dará ao dará, o que for, voto por azul.

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Contemplo as teclas, adianto a direita, a esquerda enjeitou-me, hesito como num salto. Não sei tocar nem cair.

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Da fenestra para dentro há luz escurecente do ânimo. Claridade feia, podia calar-se a revelar-me o estado da minha alma, conheço-a da sentir.

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Escolho uma cadeira para ver o azul.

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Nesse meu sonho as pernas esticam-se correndo para a pedra da janela onde deixo os pés libertos.

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Estou na prisão, por não saber fazer mais nada.

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Não quero saber, se dizem amavelmente haver azul, tomo o rebuçado dessa cor, apago a luz da sombra e, sem olhar, contemplo os destroços como uma obra de arte.

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Resto de olhos fechados com o sorriso mais azul. Ninguém mo roubará. Lá fora é azul e esconjuro bicho.

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Azul, azul de azul tão azul.

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Não volto a tocar no assunto! A arte é o que se quiser e quero que seja.

quarta-feira, setembro 04, 2024

O branco, se devaneio, sonhei ou minto

 

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Foi um branco de dourado barroco, numa sala ambarina – um templo consagrado pelas chamas dos círios, onde vozes dos ausentes não entram e dos presentes se cativam  – verteu-se com cerimónia, silenciosa reverência e ansiedade infantil.

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Regrando silêncio casto, pecando por vontade boateira, em custo liberto duas verdades amplas e opacas. Genéricas para esconder e obscuras por desconhecer palavras de justiça, sou mero iniciado, e não virtuoso pudor.

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Aromas raros e paladares de mistérios.

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Um vinho de biblioteca restrita e regiamente nocturno. Sugeri conhecer o claviculário e a tranca da estante invisível e bebi-o fingindo saber carolíngio.

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Tocou-me a boca como o fantasma se encosta na vidente. Deixei-o ficar e em segundos de paz alvoroçou-me, como a dor do orgasmo. Engoli-o e fez-me seu escravo. Por ele recebi a bondade magnânima de Deus e a maldade rechonchuda do Diabo.

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Subi a escada celeste e numa nuvem… conte o quiser quem quiser, resto em silêncio cartuxo.

quinta-feira, abril 25, 2024

A Paraquedas fez 19 anos

 

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A Paraquedas completou ontem dezanove anos. O que se diz a uma gata desta idade?

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Digo-lhe tudo o que disse durante todos os anos da nossa vida comum.

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Por alturas do Entrudo, a família estremeceu quando, ronronando baixinho, por duas vezes se escondeu. Só com um quilo e meio, desatenta e de olhar vago. Esteve com três patinhas no Outro Mundo. Porém, a Paraquedas não quis ir, não sei quantas das suas sete vidas gastou, pesa dois quilos e cem.

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Parabéns, Paraquedinhas.

segunda-feira, fevereiro 06, 2023

Necrologia


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Tantas vezes escrevi sobre a morte que um dia. Tantos que se formaram quotidianos. Sem o querer, comecei a ter defuntos – não eu. Sobrevivo e este caderno tornou-se em necrologia frequente.

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De pessoas e animais, agora é doutra coisa. Quando se olha de longe, com horas de ver, fenecer é fenecer, tal como saudade é de vivos e de inanimados.

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Por vários assuntos – afinal só o mesmo – ganhei desvontade de escrever para as páginas doutros. Teimar no destino que se deseja tornou-se num capricho. Obstinação inútil, porque a multidão, muita quanto ínfima, não pede que lhe crie textos.

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Mais do que muitos, rebuçadam-me:

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– Escreves muito bem.

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Como se os adjectivos fossem substantivos, ou os substantivos fossem adjectivos, como se uns e outros fossem alguma coisa prestimosa.

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Assim iludido, por verdadeiros e mentirosos, acreditei ter tantas palavras para vender. Porém sem papel para as drenar nem linhas para as ordenar.

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Quando dos momentos de densidade mais negra, no precipício da campa, tive no jornalismo uma centelha. Irreal, sei hoje, mas esperançosa. Todos os dias disse que haveria de trabalhar notícias, só ou numa redacção. Sinceramente, acreditei que tinha competência e daí reconhecimento.

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Alguma coisa iria acontecer, num prazo de dia, semana, mês ou ano. Induvidoso do sucesso, com a crença optimista do cão. Como não?

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A saúde aligeirou-se e o desejo-merecimento de trabalho permaneceu em fé. Na minha cabeça havia um livro sagrado e o altar estava no coração.

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Por tanto orar e a qualquer hora, vi a luz: a cintilância da crença era falsa. Depois de iluminado pela verdade, caí finalmente no ateísmo. Onde foi alegria ficou um triste-enfado, como parque de diversão à chuva.

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Agora a índole é desistida e sem remorsos. Nem enjoo e muito menos cólica. Quem não quis que fique com as encomendas, não cobro nem entrego inexistências. Estou mudo de súplicas, mendiguei demasiado.

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As minhas (outras) palavras não se me morrem. Ainda que se escondam, estão onde e para quando assim aqui.

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Se diz para não regressar onde houve felicidade. Será o caminho indicado para qualquer sismo? Se nem um nem outro – como o velho, a criança e o burro – só poderá ser em novidade.

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O que fazer se não apetecer uma nova primeira vez e a vontade não aceitar os determinados recentes avistando-se? É de ir até ao lado qualquer que Deus decida?

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O que fazer com a vida é ir e esperar, apressar e permanecer. Que o tempo tenha, a sorte imponha e, se ainda couber, o Criador determine.

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Hoje com riscos começo a tingir papel doutra substância. Avanço para o passado, para quando a idade sabia certezas, e escolhi mal.

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Quem sabe se novo equívoco... Talvez o meu papel seja ainda outro: azul e de vinte e cinco linhas, que mancharei com o carimbo da desimaginação. Viver numa repartição em vez de numa redacção ou ateliê.

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Bem sei que o caminho-tempo não leva tudo. Ficam a memória e o que se quer esquecer, a teimosia e a desistência e a quimera e o sabor do seu engano.

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Hoje rescindi a parte faltante do escrito: palavras de dias que não me lembro mas ciente de sua existência. Rasguei muitos papéis, sendo tantos couberam num saco de tamanho irrelevante.

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Se são passado sem presente nem futuro, não valem nada. Não prestando, arrumem-se onde cabem e fiquem onde merecem.

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Homenageando lonjuras, escrevo a necrologia. Como se fosse o sepultamento dum primo em quinto grau de quem se desconhece o nome próprio – cabendo-me o elogio, por ser o seu único parente, não pesando lágrimas – há pouquíssimo de contar.

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Foram quatro anos de Diário Económico e dois de A Capital: manchetes, primeiras-páginas, chamadas, aberturas, últimas, cachas, legendas, curiosidades, crónicas, ansiedade e dois esgotamentos.

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Tal habitualmente, tingiram-se os dedos nos últimos recortes datados. Sujou-se a mão, não o ânimo, pois o que tinha de ácido já pesara onde era de ferir. Agora o declamo: Não é alívio nem dor.

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Ainda assim, registo em acta, não negarei um chamamento de quem precise de palavras. Provavelmente-precisamente as algumas poucas vozes, de quase silêncio, pedirão o escasso que ainda agora me.

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Vão sobrar as vozes caladas e que há anos são vento sem ruído. Tanto agora, como antes e daqui, são inúteis. Dirão, sinceras ou falsas, que têm pena:

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– Escreves tão bem.

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Farto dessa afirmação garantir uma injustiça. Não peço mais, porque não mereço pedir mais.

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Se fui continental, sou península: terra cercada, ligada por um pedúnculo ao chão antigo.

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Tantos anos enganado e enganando, assim.

segunda-feira, outubro 10, 2022

Renânia do Norte-Vestfália

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Se hoje esta luz-chuva-cheiro-terra-e-verde chegou não é memória que ma faça amar é ainda assim amor que me lembra.

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Era miúdo-excessivo de amor-verdade e ela miúda de amor- excessivo-verdade-ainda.

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Não deverei chorar por saudade que não tenho e todavia dava para voltar a estar naqueles verdes e sentir como era a inocência e a descoberta.

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Não a amo. Amo a miúda que amava quando vou aos sentimentos antigos.

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Arrependimentos, muitos. Voltar não quero porque não sou.

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Fui.

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Não estão escondidos, os sentimentos. São arrumados na caixa bonita do arrumo do que se gosta.

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Quemedera que amanhã não seja soalheiro.

sexta-feira, março 19, 2021

Granita – 24 de Março de 2004 – 19 de Março de 2021

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Há dias felizes, como os há tristes. Um dia, um amigo confidenciou-me a sua dor por perder o pai. Mais ou menos a citação, disse-lhe:

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– A morte não existe. Temos uma só vida e várias reencarnações. Neste lado do mundo, feito de matéria, somos espíritos num fato. É quando o despimos que falamos em morte. É apenas o corpo, não o espírito.

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Esse meu amigo – é sábio pensador e disponível para ouvir sem interromper – respondeu-me:

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– O facto de compreendermos a morte não nos tira a dor da sentir.

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Fiquei sem resposta.

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A verdade é que a morte não me causa medo nem receio nem dúvidas. Muito antes de crer na reencarnação, nunca me causou qualquer penar nem nostalgia. Não sendo frio, não a sinto como uma tragédia. Porém, como diz o meu amigo sábio, compreender não é sentir.

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Não chorei a minha avó materna, cujo desencarne foi o primeiro que constatei. Não chorei familiares. Não chorei amigos. Não chorei o meu pai. Não chorei a minha mãe. Não chorei o meu irmão. Não chorei a minha irmã.

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Fiquei triste? Não. Se me comovi? Claro que sim. Sinto saudades? Não. Lembro-me dos meus «mortos»? Sim. Gostava dos ter aqui e agora? Não. Faz parte da vida. Não há como fugir.

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A matéria recicla-se e nós, que somos espírito, vamos para um local onde não precisamos dum corpo. Regressaremos.

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Hoje, a Granita foi para um outro lugar.

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Morreu – digo assim para facilitar – a poucos dias de completar dezassete anos. Estava em sofrimento e até ao «fim» foi meiga.

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Por ignorância minha, tirei-a da mãe demasiadamente cedo – a ela e à mana Lioz, que feneceu em Novembro de 2015. Alimentei-as a biberão. Fui a mãe.

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A Granita era uma gata muitíssimo dócil que, por causa duma brincadeira parva dum amigo, se tornou menos sociável. Estranhos e menos estranhos habilitaram-se a uma patada ou mordidela quando a iam cumprimentar. Comigo, nunca! Sempre fui a sua adorada mãe. A Ana e o Miguel levaram anos até que ela os considerasse como familiares.

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Esperava-me à porta – na velhice deixou de vir sempre saudar a minha chegada. Amuou duas ou três ou quatro vezes, castigando-me pelos sarilhos que ela criara. Os gatos amuam e são engraçados quando despeitados. Dois dias depois já estava tudo bem.

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Dominou a casa quando viveu só com a Lioz e a Paraquedas. Mandou nos bichos todos, desde os que partiram aos que chegaram. Sempre, mesmo quando adoeceu.

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A Manga, uma épagneul breton, foi a única que a desafiou. Ou seja, uma Canis lupus familiaris com quinze ou dezasseis quilos e uma Felis Catus de três ou quatro – no fim da vida com dois ou três. Quando chegou à nossa casa, a cadela, de raça caçadora e habituada a bulhas em asilos, terá citado Gaius Iulius Caesar:

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– Veni, vidi, vici.

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A Granita mostrou-lhe, como os gauleses de Asterix, que não vici.

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Reparámos que a Manga gania quando olhava para a gata. A cadela compreendeu o seu lugar na hierarquia e mostrava respeitinho – aquele respeito com receio – quando se cruzavam ou se aproximavam. Quando se excitava mais, a Granita exercia a sua autoridade.

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Como Rainha e idosa, a Granita foi ganhando caprichos. Manifestava-os, sobretudo, comigo. Desde ter de mudar a tijela de sítio ou exigir um mimo antes de comer. Estas situações causaram-nos gargalhadas, obviamente.

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A Granita, não sendo gigante, foi uma gata grande. Foi gordalhufa e emagreceu. Com o tempo emagreceu e perdeu vitalidade. Por vezes, ficava quase prostrada... é a idade, pensei. Não me apercebi que fosse por estar doente, mas porque os muitos anos simplesmente lhe limitavam o apetite – não tendo sido lenta a perda de peso, não foi repentina.

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Uma noite, por volta do Natal, caiu porque não tinha força nas pernas. Levámo-la ao hospital, onde ficou internada, devido a anemia, decorrente de hipertiroidismo – coisa comum em gatos velhos. Com doença crónica, ficou de tomar diariamente medicação. Sempre com apetite e caprichos gastronómicos: se não gostava duma refeição, não a comia... mesmo faminta!

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Embora muitas vezes estivesse quase letárgica, após começar o tratamento engordou um pouco e o pêlo ficou mais macio. Contudo, há poucos dias emagreceu e perdeu macieza. Ontem, ficou pendurada na roupa da cama, sem força para se erguer ou soltar as garras. A Ana acudiu-a. Depois, peguei-lhe e ronronou diferentemente, como costumam fazer os gatos quando sofrem muito – tal como se chama pela mãe, mesmo quando se tem mais de cem anos.

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Estava novamente com anemia e desidratada, mas sem grande descontrolo da tiróide. Se, desde o Natal, sabíamos que a sua saúde era frágil, não foi propriamente uma novidade quando a veterinária disse que poderia não sobreviver ao tratamento.

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Hoje de manhã, ligaram-me do hospital. A Granita tinha um grande tumor nos intestinos. Poderia ter alta para que pudéssemos despedir-nos. As dores iriam aumentar, em dois ou três dias seriam insuportáveis. Falecer em casa? Não! Deixá-la em padecimento esse tempo, para acabar por ir a correr em emergência?

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Desliguei o telemóvel e pensámos duas ou três frases, trinta ou sessenta segundos – sei lá, foi quase um instante. Que violência! Ela em grande sofrimento e nós a braços com alguém que sabíamos ter horas ou poucos dias.

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Fui ao hospital assinar um documento. Deixaram-me vê-la. Estava enroladinha, voltada de costas para a porta.

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Afaguei-lhe a cabeça e virou-se. Acariciei-a sob o queixo, como tanto gostava. Demorou a ronronar – antes era tão rápida, até antes de lhe tocar, e fazia-o bastante alto –, sem que a ouvisse, sentindo-lhe apenas a vibração. Parou segundos depois.

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O estado de doença agravou-se muito em tão pouco tempo. Em menos de quinze horas, a sua expressão mudara muito, inacreditavelmente muito. Vi-a como se tivesse cem anos.

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Sim, os cães são mais expressivos do que os gatos. Sim, os gatos também expressam sentimentos com o olhar, embora mais subtis. Olhou-me tão triste, com os olhos embaciados pelas cataratas. Baixou a cabeça e enrolou-se, como estava quando ali cheguei.

 

Não tenho medo da morte. Compreendo-a e aceito-a sem dor. Não acredito na morte. Nunca chorei alguém porque partiu. Ainda que tenha lembranças, não sou nostálgico. Hoje deixei verter algumas lágrimas. Tomei a mais extrema decisão da minha vida.

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Não se pense que – por escrever o que acabei de escrever – gosto mais dos animais do que dos familiares e amigos que partiram para um local não material. Mas porque tive (tivemos) de decidir o momento dessa transição.

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Que estranho poder! Que loucura!

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O que fazer? Aceitar a «morte» no seu momento, conhecendo o sofrimento e o agravamento da sua dor? Tantas perguntas, muitas mais respostas e dúvidas.

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Quando cheguei a casa, a Manga olhou-me tristemente. Não sei quanto tempo me olhou. Os cães sentem e pressentem, lêem-nos as expressões e compreendem-nos. Sentem a vida diferentemente, sabem coisas que não conseguimos ler.

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A Valsa, gata que não me pede atenção, saltou para o meu colo. Mimou-me e ronronou. Lambeu-me a mão, algo que os gatos fazem – nem todos – só a quem consideram merecedor. Hoje, pensou que eu precisava desse consolo.

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Nós tristes e a Manga, magnânima e generosa, mostrou a sua dor pela morte da Alfa. A Valsa, a nova Rainha, apiedou-se de nós.

terça-feira, setembro 03, 2019

Cinquenta, duas vezes vinte e cinco


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Errático como até aqui, aos cinquenta.
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Sei, já me disseram e sei por mim, porque, apesar de tudo, ainda vou sabendo de mim:
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Aos vinte e cinco anos não se é velho!
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Dizem e até também, os números não são objectivos nem emocionais.
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Assim direi tentando na linha certa e certo de vadio nas datas e momentos.
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Foi difícil entender os vinte e cinco anos e perceber que não faz sentido sentir-se velho aos vinte e cinco anos e quanto mais tempo passou mais percebi que aos vinte e cinco anos não se é velho.
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Senti.
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Senti-me velho quando um tipo, com o ar porreiro e asseado que tinham todos os portugueses na Expo 98, me perguntou:
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– O senhor tem lume?
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O senhor era eu! Valha-me Deus! Que salto, que queda. Ninguém me tratava por senhor, só no dever.
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Doeu um bocadinho, passou. Mas aquela dorzinha…
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Se tivesse acontecido aos vinte e cinco anos talvez me levassem ao banco do Hospital de São José.
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Estou em quase cinquenta anos – acho chegados – e compreendo o sofrimento dos vinte e cinco anos.
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Obviamente, ter vinte e cinco anos dói. Nem fará sentido outra forma, ainda a outra coisa tenha lógica e seja delírio.
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Não sei se sinto nostalgia, sabor quase-pouco saboreado. Um pouquinho.
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Aos quarenta e nove anos assumo-me em cinquenta. Na minha cabeça é claro.
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Os quilogramas todos que perdi deram-me uma vida e o retrato de vida. Estou velho. Olho-me e estou velho.
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O mal é não ter vinte e cinco anos. Aos vinte e seis anos voltei a ter vinte e seis anos, iguais aos vinte e quatro anos. Aos cinquenta sou uma colecção inquieta. Uma colecção é um museu.
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Vejo os meus cinquenta anos nas amigas tornadas mães, parecidas com as mães. Não tardará serão avós, com as feições fofinhas das avós.
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Vejo os meus cinquentas anos nos amigos tornados pais, alguns na meia-idade que é meia-idade. Os pais deles, eram antigos quando eu era jovem, independentemente da idade trazida e levada.
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Dizem as rugas e as expressões dos problemas claros nos olhos e das dores nascendo e crescendo. São autocópias.
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Escrevo mais sobre os homens, porque sou homem. Impressionam-me mais as mulheres porque sou homem. Não quero ser outra coisa que franco nisto do meu ser homem, não é machismo, é impressionismo na impossibilidade do realismo e fujo do fácil-mau-gosto de pôr surrealismo. Leiam-no, se quiserem, contudo estou em verdade. Não é crueldade se isso sentirem – faltam-me outros olhos.
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Não tenho dinheiro para um descapotável. Não compraria. Desejo um Bentley como qualquer cinquentão guloso de tudo e assim seria se estivesse nos vintes, trintas e quarentas.
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A calvície não me incomoda nem a visão faltando ao perto nem os sinais da próstata, remexe o espelho e a numeração disto junto.
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Não me enfio nas festas nostálgicas de música dos anos oitenta. Não oiço Phill Collins, Elton John, Chris de Burgh e outras vozes detestáveis – felizmente, sempre.
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Asseio de e para a saúde.
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Olhando para depois – visto daqui para lá – dos vinte e cinco anos vejo a infância e a adolescência, das suas complicações e ainda. Entre o final duma e início doutra chegaram Kim Wilde e Kim Carnes – talvez os nomes não sejam coincidência, como a cor dos cabelos.
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Vi fotografias da Kim Wilde e os seus mais dez anos do que eu estão iguais aos meus. Não está avó, estou com cinquenta anos.
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A Kim Carnes… velha! Inequivocamente velha. Tão velha como o era em mil novecentos e oitenta e um, quando tinha trinta e seis anos.
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Pouco tempo depois, eu queria um descapotável, o Saab 900. Era lindo!
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Não me imagino a jardinar rosas, sei que ganharei o Euromilhões e comprarei o Bentley.
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Ainda me dói saber que entro na meia-idade, pensando na aposentação – onde estou contrariado e sem o troco.
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Penso mais vezes no Euromilhões do que na reforma.
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Para ilustrar, seria fácil meter aqui o «Forever Young» dos Alphaville… pieguice preguiçosa –  qualquer coisa dos anos oitenta.
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O que me dói de memória não é a década de oitenta, a de noventa.
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Não quero repetir nem ser. Não quero ser a idade a que chego.
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Vivi na Estónia – a primeira casa, tão grande quanto a Estónia e velha como o Báltico.
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Vive fantasmas claramente. Havia um quarto para mudar de roupa, guardar discos e alguns livros – não tinha janelas, a luz entrava pelas bandeiras.
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Nessa câmara mágica ouvia Enya, a mais maravilhosa voz dum país de unicórnios, e enlevava-me com o «Return to inocence», dos Enigma. O Pedro Abrunhosa revolvia o país e a Geração X.
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A luz de Lisboa directamente do rio cria o que faz sempre onde é. Passando as bandeiras era – nem velinhas, incenso, especiaria, taça tibetana ou gato.
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Na sala jantei o meu arroz com compota de ameixa que todos gostavam – o que se tolera nos vintes.
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Na sala gostava de whisky e tinha um aquário – morreram tantos peixes, por quase tudo.
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Na sala fumava, coisa estúpida iniciada estupidamente como as coisas estúpidas, acontecida mais tarde do que a idade parva.
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Na sala ouvia jazz, porque gostava. Só de pensar fico arrepiado, não me envergonho.
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Todo orgulhoso, importante de crescido, escrevia num computador, ao lado duma porta para a varanda onde se pressentia o Tejo, só um traço da cor.
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O quarto era virado para a mesma luz-aragem, aí fiz amor.
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Na cama, no chão e no escritório chorei desenfreado de saudade-ciúme.
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Da varanda pensei cair no dia em que me mudei.
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Ainda uma não se despejara nem a outra se enchera e sentia a saudade-pressentimento duma vida a passar sem voltar. Tinha vinte e oito anos e foi no dia um de Agosto.
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Antes da Estónia ia para casas de amigos. Íamos muito à praia, víamos filmes, líamos livros, dizíamos piadas, jogávamos cartas e Trivial Persuit. Amavam-se genuinamente, como aos trinta.
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Ia à praia, ouvia a Energia, na ponte ou quase no mar. Não havia nada como a Energia e ríamo-nos muito de felizes como quanto temos vinte e trinta.
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Fomos à Tunísia. Que férias!… Ainda sufocando de fugir. Em Hammamet não havia gay que não me descobrisse e se tentasse. Se não engaysei é porque os homens não me atraem.
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Quando deixei a Estónia – disse da saudade-pressentimento – acreditava que comprar uma casa era melhor do que pagar uma renda. Era mais barato, mesmo com o subsídio para o arrendamento dos jovens…
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Ganhava bem e tinha direito ao valor completo. Foram felizes esses dias em que os países ricos nos entornavam dinheiro.
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A noite de trinta e um de Julho para um de Agosto de mil novecentos e noventa e oito passei-a a chorar e a maldizer a distância.
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A saudade-pressentimento epafiniada na Estónia comprovou-se no século que chegava – além dos vários piores em comboio.
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A propósito: sorrio sempre com um pantomineiro dos astros – da magia do céu que nunca existiu – que escreveu a garantia de como seria magnífica, para os capricornianos, a primeira década dos anos zero.
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Tinha tudo para ser feliz, pois não há nada de Capricórnio que não me caia em cima. Eu todo-quase sou diferente do tudo escrito… já me enfiaram ascendentes de quase tudo, proximidades chegadas a Sagitário e a Aquário, até me garantiram que a hora do nascimento estava errada. Por esses caminhos, veredas nocturnas.
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A década maravilhosa fez-se dos piores anos da minha vida!
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Quase tudo de mau – no exagero e falibilidade das palavras absolutas – apareceu naquela casa e em mim, pela casa e naquela casa por mim.
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Vendia-a há poucos meses e apareceu-me um alívio!... Foram dolorosíssimas as antepenúltima e penúltima subidas. Escadas horrorosas de luz e de luz-espírito.
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Seis anos e tal depois, não percebo aquilo nem ter permanecido catorze anos.
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Mas a luz da Estónia não veio e não virá – abuso dos absolutamentes. Aqui tenho outra vida e outras vidas.
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Na Estónia, a vizinha do lado chamava-se Cristina. Redonda, parecia ter sempre azeite sob o lábio até queixo. Às vezes o marido embebedava-se e, se ela não estava, esperava-a na escada com o garrafão, incapaz de usar a chave. Uma vez repetiu-se na minha campainha perguntando-me pela Tininha.
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Dessa vez, decidiu-se a procurá-la. Despejou-se nas escadas como o amigo de cinco litros. Quando chegou, a Tininha deu-lhe um responso.
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Nas semanas que me competia, a Tininha punha na rua o caixote do lixo do prédio, porque sou homem – disse-o.
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A Tininha deixava os recados para o marido, com mais desastres ortográficos do que acertos, no lado de fora da porta de casa:
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– Telefonei a diser que estás mal esposto.
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Talvez até fosse pior. Adoro o «mal esposto».
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A última vez que vi a Tininha foi na televisão. Empunhava um cartaz e bradava pela inocência de Carlos Cruz.
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Na Casa dos Horrores, a vizinha do lado falava e ralhava com os cães, porque me infernizavam as manhãs de domingo. Chamei a polícia duas vezes.
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Ficámos amigos, como se deseja para a vizinhança. Quando mudei as janelas, para novas de vidro-duplo, dei-lhe as minhas, porque, apesar de feias, fechavam a rua e água da chuva.
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Nas semanas que me competiam, a Dona Teresa punha na rua o caixote do lixo do prédio, porque sou homem – disse-o, como a Tininha.
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A Dona Teresa parecia-me ser boa pessoa e passeou um pato. O marido encontrara um patinho na estrada e levou-o para casa. O bicho cresceu e, se passeava os cães, levava o pato à rua com um baraço ao pescoço.
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Os trintas foram tristíssimos e os quarenta começaram amargos. A Casa dos Horrores ditava-me e obedecia-lhe.
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O pouco de bom que guardo do tempo da vivência na Casa dos Horrores é o tratamento dos comerciantes do bairro. Especialmente por a Dona São, da mercearia, me chamar «menino João».
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As coisas endireitaram-se quando comecei a ver o cemitério, numa das ruas mais frias de Lisboa – até no Verão, em algumas horas, é comum passearem-se pinguins.
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Na Casa dos Horrores ouvia Marisa Monte e Adriana Calcanhotto. Ao instaurar-se a ditadura da saudade- incompreensão, toda a música daí para trás ficou proibida – ela surgia de todo o lado, como um boneco de mola se evade da caixa.
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«Você», Mãozinha, com a mensagem clara da minha vida e sem pretérito. Gorillaz fez-me respiração boca-a-boca e Da Weasel foi. Enapá 2000 e Irmãos Catita, sou-lhes muito agradecido.
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Duas gatas, três gatas salvaram-me a vida muitas vezes. Não evitando idas ao Hospital de São José.
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Uma desses dias de negrum marcou-me mais, porque me assassinou um amigo – juro a deslembrança se foi na véspera ou no seguinte.
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Como antes, espatifei amores – pelo mesmo de antes e pela doença. Vampirizei, magoei e outras. Entupi-me de tristezas, de todas a pior é-me a melancolia.
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Na Casa dos Horrores entrou e expulsei a Flor da Luz. Nela reentrou, trazendo as claridades – a sua e a do Menino. Que os saiba aninhar e eles.
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Nos dias magníficos do Capricórnio e mais uns, quase todos os amigos foram amigos – algumas desilusões, mas Sol de quem não esperava nada nem esperava esperar. Por desapego e bondade minhas, não perdi amigos. Acrescentei os outros.
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Há sempre pequenos-médios-grandes-todos-tristes-desastres – aqui, em toda a parte. A memória da Estónia assemelha-se à das birras que os filhos nunca fizeram, nem na idade delas – garantem as mães vinte anos à frente.
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A Estónia é quase perfeita e a Casa dos Horrores é um jazigo com jardim de pétalas secas.
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A Estónia foi a única casa inteiramente feliz – chorei muito naqueles Junho e Julho de mil novecentos e noventa e oito. Depois passei a chorar muitíssimo maisíssimo na Casa dos Horrores.
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Sinceramente, achei-certeza de que a crise da meia-idade seria como a lâmina de fazer a barba a aliviar-me a pele. Refiro, porque descobri o desejo de aliviar carbono na vivência duma angústia: vou cortar o cabelo, barbeio-me ou corto as unhas.
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Sinto-me dúvidas. As amigas parecem-se com as mães e têm vida desenhada no rosto. O espelho diz-me a idade. Das transfusões de vinho dos vintes-trintas-pequeno-quarentas, quase me envergonho do pouco de hoje.
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Os amigos estão piores. Não se parecem com os pais. Parecem-se com eles mesmos em gordos, em escanzelados e carecas. São caricaturas suas como o sou. Há pouco mais dum ano estava disforme, gordíssimo e inchado. Estou magro como nunca. Sou igual, um boneco de mim mesmo.
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As miúdas passam na rua. A Flor da Luz está bonita como nunca esteve e não sinto uma falta. Tenho olhos-cabeça para não me vestir como adolescente nem desejo um descapotável, nem o Saab 900. O Bentley são letras doutra coisa.
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Neste tempo, doem-me os vinte e cinco. Tanto quantos os cinquenta dos meus amigos que chegaram antes e vão acompanhar.
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Há quem seja absoluto em não se arrepender de nada – arrogância, timidez ou distração? Garantem que fariam o mesmo, porque teriam a mesma idade e os momentos. Afirmam ser todos dias passados, as somas.
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Mais do que o Bentley desejo regressar, não para ser novo. Retornar para evitar as lágrimas que fiz e as que me fizeram.
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Perceber isto é, possivelmente, ter cinquenta anos, mas digo-o há muitos anos. Reconhecendo todas as asneiras continuei acrescentando. Efabulo inverter o tempo para me emendar.
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Tirando o homoerotismo, vejo-me o retrato de Dorian Gray. Nem tão chegado a tanto pecado mas da fealdade dos cinquenta anos – a calvície é tranquila.
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Olho para o espelho e não vejo o que espero. Sou eu, mas qual eu? Como veja a fotografia sépia do tio-avô e reconheça os genes.
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Desde uma complicação, tenho dificuldade em fixar caras. Cumprimento quem não conheço e ignoro conhecidos. Posso fixar rostos banais e esquecer-me dos exóticos. No outro dia, na farmácia, disseram-me que isso é prosopagnosia.
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Fui ler e sou abençoado! Há os que não memorizam os familiares. Até mesmo o seu rosto reflectido.
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Não é por prosopagnosia – é mais fácil dizer «mau fisionomista» – a dificuldade em compreender a pessoa que o vidro me envia. É quase como chegava ébrio a casa e me fotografava ao espelho. Nesses autorretratos sou outra pessoa, não só pela falta da nitidez que o álcool roubava.
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Desconheço se não me revejo no espelho por nele ver os cinquenta anos – artifícios do cérebro.
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Fácil não está a ser. Possivelmente, aos cinquenta e um serei os vinte e seis.