digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.
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terça-feira, setembro 15, 2015
quarta-feira, novembro 04, 2009
Pontual e vírgula

Outro dia tirei a hora de almoço e anexei uns momentos mais só para mim e fiquei a pensar. Desliguei o telemóvel e sentei-me frente ao Tejo, a menos de dez metros, separado por um curto cais e uma parede de vidro ou janela. Fiquei só com um Pontual Syrah de 2003.
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Entrei no restaurante Vírgula, ali ao Cais do Sodré um pouco antes da hora do almoço invadir os espaços e desde que o fiz até que me levantei tudo à volta pouco me interessou. O serviço foi competende e não me perturbou mais do que o nessário à competência. Quanto à audiência, mais não foi do que uma projecção narcísica que, de vez em quando me assaltou a mente. Acredito que ninguém reparou ou quis saber que estava ali. Eu era tão transparente quanto as janelas, só que muito menos interessante.
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A comezaina, obra do mestre Bertílio Gomes, foi bochecha de vaca estufada em vinho tinto. Só! Sem direito a entrada nem a sobremesas. O vinho bastou! O luxo foi o repasto demorado e mais o seu motivo.
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Escolhi o restaurante Vírgula num acto de paz e de reconciliação, para fazer uma trégua com um vinho. A última vez que o tinha tragado o refeição não correu pelo melhor e o sabor não me alegrou como de costume. Fiquei triste. E com razão: tinha gasto dinheiro, o respasto irritou-me, zanguei-me com um local e o belo do vinhito apanhou por tabela. Para agravar a situação, a garrafa não é muito fácil de encontrar, pelo que é preciso saber onde ela se esconde e ir dar-lhe caça.
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Já agora, para que não fiquem suspeitas no ar ou a sensação de que as crónicas só dizem bem, cá vai um pouco de amargura e de veneno. O jantar azarado ocorreu no restaurante Vaskus, ali na Passos Manuel, na zona de Arroios em Lisboa. A casa tem piada, com ar germânico, com a estrutura de gaiola pintada de côr escura, as toalhas à italiana e a comida brasileira. O sítio tinha fama de servir boa carne, mas vive do nome e as batatas fritas são cogeladas. O serviço cumpre, mas não é simpático nem compentente em absoluto. Ora veja-se: «Está na lista o Pontual, mas qual deles é? O Syrah ou o Touriga Nacional com Trincadeira?» Sem um sorriso a rapariga respondeu uma das hipóteses, afinal tinha 50 por cento de hipóteses de acertar, até que voltou para dizer que tinha os dois. A comida veio e já não é o que foi. Paciência! Tão cedo não volto lá e não me vou esquecer de não recomendar a casa.
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Mas voltemos ao que interessa, ao Vírgula que encanta pela vista, pelo serviço, pela comida, pela carta de vinhos, e ao Pontual Syrah. Naqueles olhares pela janela fiquei a contemplar o passado, quando Cacilhas era uma vila de pescadores e imaginei um pomar no laranjeiro. Por daí à frente seriam montados de azinho, sobro e olivais, todo um Alentejo que se chegava mais aqui a Lisboa.
Dei por mim a voar sobre as planícies e a aterrar numa herdade perto de Borba, bem junto à Capela de Nossa Senhora da Boa Nova, que é exactamente um dos berços do Pontual. Há outros dois, que se situam junto a Portalegre. Naquele monte de Borba avista-se o lago de Alqueva, que nunca chegará a imitar o Tejo nem as suas brumas, por mais que as gentes alentejanas digam que o clima já mudou e que se sente o ar mais húmido e nebuloso.
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Onde existe um certo nevoeiro é no meu discernimento. Confesso que não consigo decidir qual dos vinhos Pontual prefiro. O Pontual Touriga Nacional e Trincadeira é uma festa. A primeira casta é pujante como um toureiro e a segunda delicada como uma bailarina. As duas juntas, unidas pela sabedoria de mestre Paolo Nigra, dão muito contentamento. Eu que que acho os monovarietais aborrecidos vibro com o Pontual Syrah, que elegante, sabe falar em qualquer festa e acompanha bem muitas comidas. É mais discreto que o anterior, mas não tem menos carácter.
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A empresa que os produz tem ainda poucos anos de vida e as vinhas são ainda novas, pelo que estão a dar os primeiros cachos. O ano de 2003 foi o primeiro a sério. Já provei os Pontuais de 2004 e a coisa melhorou... e não desiludiu, porque o par não ultrapassou o Syrah nem o monocasta puxou dos galões de variedade internacional e remeteu para segundo plano o lote das primas uvas portuguesas. A empresa tem outros vinhos e desses outro merece também uma notinha: o Boa Nova branco, o único cara pálida da gama. E destingue-se bem dos branquelas alentejanos, pois não é nada pesado, tem fruta sem exagero, com qualquer coisa de citrino, com um aroma muito agradável e bebe-se refrescantemente sem constrangimento na alma nem remorso tardio. Aliás, se isto acontece com este, imagine-se o prazer permitido pelos Pontuais!...
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Engana-se quem pensar que me vim embora daquela tarde frente à janela. Continuo lá sentado a apanhar um pequeno e frio banho de Sol e a ver os cacilheiros a cortar o Tejo ou a imaginar as velas das fragatas a empurrarem cascos de madeira e varinas descalças a correrem com canastas de peixe à cabeça pelo empedrado do cais. Lisboa com Sol merece sempre um mergulho de delírio e um brinde!
Numa pedra a caminho de Bucelas

A Patrícia não parou, durante toda a viagem, de perguntar quando chegávamos. O que valeu foi Lisboa ter sido o ponto de partida e Bucelas o destino. Mas quem mandou prometer-lhe visitar uma quinta onde nascem as uvas?
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A miúda tem quatro anos a caminho dos cinco e um olhar muito vivo e meigo. É esperta e irrequieta, curiosa, mas obediente. Onde nascem as uvas? - Perguntou e continuou: Mas para quê? Para fazer vinho, respondeu-se-lhe. Nada disse. Que estranho! Ela que critica sempre que se bebe vinho... alguém lhe deve ter encomendado um sermão sobre os malefícios do álcool.
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Quando chegamos? Quando Chegamos? E já chegámos? E falta muita muito? Quero fazer chi-chi. Mãe, dói-me a cabeça!...
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Os menos de vinte quilómetros que vão da capital àquela vila saloia tiveram mais perguntas do que respostas. Com a auto-estrada é um tirinho, mas é só até ali à frente, até ao subúrbio, porque depois entra-se na província e não se saiu da Área Metropolitana de Lisboa. Bucelas é mesmo uma vila e rodeia-se da paisagem que envolve as povoações rurais. É um encanto conduzir pelas estradas de curvas e de sobe-e-desces verdejantes, mesmo que o céu tenha tons cinza e as encostas mostrem algures castanhos outonais. Era já o tempo de vindimas que começava.
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Uf! Lá se chegou à pequena quinta do Chão do Prado, pertencente ao mais pequeno produtor-engarrafador da região de Bucelas, uma terra que só certifica brancos, embora em tempos tivesse dados tintos e, ao que consta, não eram de fazer cara feita. Porquê o Chão do Prado? Por quatro razões: a qualidade do vinho, a comida do restaurante, a vista e os afectos. Cada coisa será explicada a seu tempo.
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A Patrícia não desatou a correr pelas vinhas alinhadas nem estranhou muito aqueles frutos serem bem mais pequenos do que aqueles que se comem em casa. Havia de ser bonito explicar que a feitura do vinho precisa de variedades com bagos mais pequenos... Por isso, e ainda bem, não perguntou se as uvas têm nome: como se explica a uma miúda de quatro anos que algumas daqueles frutos chamam-se arinto (quase todas), esgana-cão e rabo-de-ovelha? O que a imaginação dela não lhe mandaria perguntar a seguir?!... A miúda fez o que gostam de fazer os miúdos de quatro anos: agarrar em paus, saltar nos montes de parras amareladas, provar as uvas, descobrir caminhos entre as fileiras de vides, alcançar o muro e ver a abertura onde estivera um portão e onde hoje fica um buraco que dá para a estrada.
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O restaurante situa-se numa extremidade da quinta do Chão do Prado e encosta-se à loja da propriedade. O lado que dá para a estrada fez-se em pedra, mas as vistas iluminam-se no envidraçado que deixa entrar a quase totalidade dos oito hectares da propriedade. Só não entram os que se escondem no ondulado da paisagem. São vinhedos e vinhedos alinhados, montes e cerros como um mar desalinhado, feito com história. Por ali combateu-se nas Invasões Francesas, por ali passam umas das Linhas de Torres. O Sol, naquele começo de tarde, aquecia quanto baste e a vidraça travava a ventania constante daquele lugar. António Paneiro Pinto, o dono desta quinta, explica que àquele sopro se deve parte da frescura do Bucelas, uma outra cabe à acidez suave que a terra lhe dá.
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É quase tonto que uma cena tão simples e quase parada quanto uma vinha possa encantar tanto, mas encanta. Não me recordo, ao certo, o que manjei, mas tenho certa a entrada de ovos mexidos com morcela, que deliciaram até à tremura. E como casaram bem com o Chão do Prado Colheita Seleccionada 2004! Aliás, este branco bateu-se muito bem com a carne de porco grelhada que veio depois.
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Enquanto o pasto decorria, a Patrícia fazia a fita que fazem quase todas as crianças de quatro anos. Mafalda inventou depressa forma de a encantar. Primeiro vieram uns lápis de cor e mais tarde levou-a para o exterior para brincar com Xana, uma gatinha mimada e dócil.
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À porta do restaurante está uma grande pedra comprida. Um automóvel, já vê... Patrícia agarrou na Xana e levou-a a passear. Na sala, atrás do vidro, saboreava-se, o Chão do Prado Colheita Seleccionada 2004. Não apetecia pensar em mais nada, apenas naquele vinho e na doçura feliz da pirralha com a gata ao colo.
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Os Bucelas têm o dom de refrescar como poucos. Contudo, o Chão do Prado é especial, com uma acidez muito equilibrada e baixo teor alcoólico. Bebe-se melhor, com mais agrado, refresca mais e sem mágoa posterior. Naquela quinta fez-se também o primeiro espumante da região e faz-se ainda um colheita tardia, filho do fungo botrytis cinerea (podridão nobre).
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Nesse domingo já não havia para provar o Chão do Prado Colheita Tardia 2004 (o de 2005 ainda não nascera), mas tenho-o na memória. Foi no Verão passado e apesar de ser, normalmente, servido como aperitivo ou como acompanhante de sobremesa suave, aguentou-se ao sabor forte do bacalhau português.
Findo o repasto, lá me sentei no banco de trás do carro-pedra com Patrícia ao volante. Saía eu e entrava Maria, a mãe. Ela bem queria levar-nos aos dois no banco de trás, mas não cabiamos. Quanto ao resto desse domingo e aos afectos há ainda a dizer que é uma alegria ser recebido por alguém como António João e Mafalda Paneiro Pinto. Depois de os conhecer, o vinho que fazem passou a alegrar-me mais do que antes.
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