digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.
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domingo, dezembro 04, 2016
sexta-feira, novembro 14, 2014
Por aí
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Não escondo nada, nem o coração. Dum lado ao outro do tronco
há um tubo, quem espreitar verá que não vive lá um coração.
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Não escondo nada, nem o fígado. As histórias que tem para
contar são meia dúzia, aventuras que na adolescência nos fazem muito grandes e
na maturidade nos iludem com uma vida que não conhecemos.
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Não escondo as pernas nem disfarço a vontade de não as
mexer. Não escondo o falar, porque os olhos já contaram.
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Não escondo os temores e as incertezas, é tanto o ruído que
fazem que só um surdo não escutará.
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Não escondo nada, nem o pensamento. Se me tirarem a tampa do
crânio, como se fosse um chapéu, verão um brique-a-braque de banalidades e estupidez,
que tudo mostram e nada escondem.
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Não escondo nada? Escondo alguém. Nu numa praça cheia,
suspiro e gritos.
sexta-feira, fevereiro 08, 2013
Sob a sombra
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Disseram que Zanskar é uma terra maravilhosa e distante. Disseram-me
como se fosse uma terra de literatura, de literatura oral. Disseram-me que só
foi descoberta, para além dos antepassados de quem lá está, em meados do século
vinte.
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Disseram-me, é certo que sou crente. Tanto faz. Fica longe e
é terra de mitos. Lá chegaram poucos, porque são poucos os que lá vão.
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Agradam-me as terras impossíveis, os territórios invisíveis
nos mapas, os reinos de pouca gente. Sou sedentário e com os pés cansados. Não irei
a Zanskar.
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Aqui tenho Sol e não me obrigam a andar. Basta-me uma
imperial fresca e uns amendoins ou pevides de abóbora. Basta-me a chuva e um
cálice de vinho, quente cá dentro.
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Basta-me o chão e os olhos bastam-se no pavimento. Sossegam-se
na monotonia dum cão a passar e alegram-se fantasiando coisas obscenas quando
passa uma bela rapariga.
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Olho e vejo árvores. A cerveja desfoca além da linha dos
pés, quando as pernas estão esticadas. A sombra seduz-me, cruzada com a música
inquietante de ébria. Os tremoços acabam por enfastiar, no Verão comem-se
caracóis, mas gosto mais de amêijoas à Bulhão Pato, das verdadeiras.
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O dia roda e as sombras esticam-se, pardam-se, intensam-se. O
que fica entre a sombra e o chão. Enigma de física, religião ou filosofia? Poesia
de se esquecer. Vinho.
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Sob a sombra há um espaço ínfimo-infinito. Uma terra de
anões microscópicos, que colhem floras específicas da penumbra. Esse mundo
acaba quando o lusco-fusco se apaga e renasce sossegado no primeiro bocejo da
manhã.
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Sob a sombra, um reino ínfimo-infinito. Zanskar, por que
não?
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