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O propósito é o de encontrar um sinónimo essencial – mesmo uma graça de qualquer espécie. Os principiantes podem ter alguma dificuldade na concentração. Para facilitar a abstracção, fechar os olhos é uma boa ferramenta-modo. Quem faz meditação, provavelmente, não terá embaraço. Os materialistas e os inimaginativos não tentem, porque o resultado será zero.
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Exemplo:
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Estão sentados a uma mesa, têm uma janela à frente, por onde entra muita luz, e proximidade de plantas. Pode ser um ser vivo ou um objecto. Para exemplo, uma garrafa de vinho de litro, com o enfeite de seis estrelas, com o seu típico verde.
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Primeira acção: tirar tudo, mas manter a luz ou guardá-la – recomendo a segunda opção, porque poderá ser útil – e ficar só com a garrafa. Extrair também o odor próprio do local.
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Segunda acção: abstrair-se da função do objecto. Descolem a sua utilidade, fica a forma.
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Terceira acção: retirar o significado do som, deixar a sonoridade e decompô-la. Nesse momento, como um rumor-murmúrio, liberta-se e sai à velocidade que entende. Garrafa pode passar a ser uma amálgama de vogais: «a á fa a», «fâ, â» e, por fim, só «âa» – o que se sentir.
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Quarta acção: trabalhar a cor, reduzindo o número de tons. A luz, que possa ter guardado, ajuda à realização desta tarefa.
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Quinta acção: deixar que a forma, a sonoridade e a cor se fundam. Sem pressa, é preciso ter calma.
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Sexta acção: revelar o objecto. Se o resultado tiver forma garrafiforme, verde ou algo que soe a garrafa – basta um elemento – é porque está errado.
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O resultado pode ser uma palavra ou uma cor ou um local ou um animal – qualquer coisa desde que não garrafiforme, verde ou algo que soe a garrafa – basta um elemento concreto para estar errado.
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Uma menina, de quatro anos, muito bonita e muito querida, recebeu duas gatinhas com três meses. Uma tinha nome, antes de ser vista, a outra foi diferente: Paraquedas (insisto em escrever assim) e Amiguinha.
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A vida tem imprevistos, a Paraquedas ficou, temporariamente, em minha casa – onde viviam duas irmãs duma ninhada anterior. Não que lhe fizessem mal, mas nunca teve intimidade com a Granita e a Lioz, coexistiam.
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A Paraquedas era absolutamente estroina! Corria que era um disparate e deitava abaixo qualquer vasilhame de vidro com água dentro – espatifou um jarro que adorava. A maluquice durou até tarde, com treze anos ainda tentava fugir quando se abria a porta da rua. Uma vez, de madrugada e com um táxi à espera para me levar ao aeroporto, andei a correr atrás dela, pelas escadas, entre a cave e o terceiro andar.
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Qualquer pessoa que viesse a casa, em pouco tempo tinha a Paraquedas ao colo. Porém, se sentisse que a agarravam, mesmo muito suavemente, queria fugir – não arranhava nem mordia, torcia-se toda… o famoso «deslarguem-me».
A junção de estroinice, afabilidade, doçura e estrabismo resultavam em ser a gata de que todos mais gostavam.
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Conheceu todos os animais que viveram nesta casa: Granita, Lioz, Chuqui – nome dado por um menino, muito querido, de quatro anos –, Valsa, Mel, Manga e Bobi (teimo em escrever deste modo).
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A Paraquedas foi a gata mais mansa do Universo, não se sabia defender. Nos vinte e anos em que viveu comigo, não a ouvi soprar mais do que dez vezes, dar pouco mais de dez patadas e menos de cinco com as garras de fora. O Chuqui era estouvado, muito brincalhão e não era agressivo. Ela tinha muito medo dele, escondia-se e urinou-se nas duas vezes em que os tentei aproximar.
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Muito sensível, sentiu a morte da Manga. Foi surpreendente, porque não esperávamos grande ligação emocional.
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Foi uma sobrevivente. Um dia chegámos a casa e percebemos um comportamento estranho. Fomos imediatamente ao veterinário:
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– Tem um dia de vida.
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No dia seguinte, voltámos ao veterinário:
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– Tem um dia de vida.
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Não sei quantas vidas de gato precisou, mas aguentou mais de três anos – não me lembro exactamente.
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Devido a várias doenças foi ficando mortiça. De dois quilos passou para um quilograma e seiscentos. Voltou a gastar mais umas vidas e subiu para um quilograma e novecentos e cinquenta, que estabilizou. Era pouco mais do que pele e osso.
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Nas brincadeiras de ternura, com a idade a avançar, foi ganhando novas formas de tratamento: Parquedinhas, Parachute e, recentemente, Parachutinhas.
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Resumindo, envelheceu e foi somando problemas. Cega, cada vez mais frágil e superiormente mimocas. Docinha, docinha e docinha.
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Resultado do meu exercício:
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Margarida.