digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

Mostrar mensagens com a etiqueta Pintura de autor não identificado. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Pintura de autor não identificado. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, novembro 10, 2015

Calar, infinitivo do verbo saber

.
Guarda o silêncio – disse pausadamente.
.
Disse pausadamente:
.
– Guarda o silêncio.
.
Disse pausadamente como se entediado. Mas os mestres da serenidade não se inquietam e digerem sacrifícios e tristezas. Repetiu-me:
.
– Guarda o silêncio.
.
– (…)
.
– O silêncio é uma arma sem estrondo. Desarma porque nos falam do cheio até ao vazio. Ainda que se irritem, o silêncio leva à acalmia e à desistência.
.
– (…)
.
– Quando não souberes, cala. Ficarão na dúvida se sabes, se te devem temer ou ignorar. Estás escondido e refugiado no silêncio.
.
– E se souber?
.
– Silencias. Não deixes que os outros saibam que sabes ou saibam o quanto sabes nem te leiam fraquezas nem forças. Se um dia te inimigarem não saberão. Mas saberás.
.
– E se tiver de ser? Se a voz for maior que o ânimo?
.
– Não tem. Diz o menos possível, fala baixinho e em privado e a pouca gente. Não digas toda a verdade e nem só verdades.
.
– Se não aguentar?...
.
– Diz disparates. Muitos e loucos. Fala muito, como uma máquina moderna. Interrompe e vai mudando de assunto. Fala alto, mas não chegues ao escândalo, o que te porá para sempre de parte, e tu precisas de ficar dentro.
.
– Porquê essa insanidade?
.
– Porque ninguém liga aos tontos, ninguém os ouve ou quer ouvir. Fica escondido na multidão, onde todos te possam ver.
.
– No final, o que ganho com isso?... Guardar o silêncio.
.
– Passo a passo verás. Se tiveres sucesso, tudo o que disseres será lei – nunca contes tudo e efabula, sê humorado e diz do esforço e das pequenas derrotas, sê humano para que te aceitem o modelo. Se fracassares, ninguém te conhecerá a queda ou terás o seu perdão.
.
– (…)
.
– Todos sabem que peixes nadam e muitos sabem que saltam. Há os que voam.
.
.
.
Nota: Se alguém souber da autoria desta imagem, por favor informe-me, para que possa atribuir o nome do autor. 

quarta-feira, outubro 07, 2015

Letra L

.
Batalha de Lepanto, a 7 de Outubro de 1571. Pintura anónima, considerada como do final do século XVI e possivelmente flamenga ou espanhola.

domingo, julho 26, 2015

A arte e o Soviete Supremo

.
Não, é demasiado bom para não ser naïf – um galicismo, por ter tanto de ternurento e tão pouco de ingénuo – que alcança o patético… Engano!
.
O que ainda se guarda do academismo, patrioteirismo e serventilismo nos confins da antiga União Soviética. Não consegui encontrar o nome do autor, apenas que esteve entre as finalistas para uma exposição de Centro de Belas Artes da República de Basquíria, situado em Ufa.
.
Oportuníssimo, o artista. A obra – não fora pintada a acrílico e ainda estaria em mutação oleosa – mostra ao mundo cinco chefes de Estado no Zen dum amanhã cantor.
.
A querida Dilma Rousseff, a brasileira que desconhece e maltrata a língua portuguesa, sorri como nunca… o som das palavras cínico e cinismo lembra-me russo. Conjecturas infundadas.
.
Narendra Modi e o ar bondoso de todos os chefes indianos. A calma, a serenidade, a bondade e tranquilidade…
.
Um certo racismo na falta de espaço para o sul-africano Jacob Zuma, que sorri mal como numa fotografia de modelo sem fotogenia, acentuado pelo puxar do braço encolhido de Xi Jinping, com o olhar vazio e silencioso dos secretários-gerais do Partido Comunista Chinês.
.
Ao centro, puxando pela China e pelo Brasil, deixando o indiano atrás sem espaço nem jeito para colocar as mãos, o russo Vladimir Putin. À frente, com pose de gelo militar e olhar de sedutor esclarecido.
.
Pombinhas brancas esvoaçam em paz e alegria, dando vida ao compromisso pela fraternidade e o trabalho... um ícone naïf... 
.
O soviético Vladimir Putin. Tudo aqui conta que o gigante euro-asiático tem as feridas quase saradas, não as lambe e lhe apetece afiar as garras.
.
Na Ucrânia, nada de novo.
.
Pode não ser uma obra-prima e obra de arte até pode ser também um exagero, mas conta muita coisa, como as peças dos grandes mestres.
.
.
.
Nota 1: Se alguém conhecer o nome do autor desta obra que fará história, por favor informo-me para lhe atribuir o crédito nas referências.
.
Nota 2: A exposição foi organizada no âmbito da reunião, de 8 e 9 de Julho, dos BRICS (sigla em inglês do grupo do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), em Ufa.

sexta-feira, julho 17, 2015

Da esperança à desilusão

.
O dia já perdido e digo já porque nem o tentei tornar útil pois a derrota é em mim e as esperanças da infância e as vontades adolescentes e as estrelas da inicial maioridade passaram a fronteira com um sítio de cama-prisão no interior dum cubo de negrum fechado por fora e como já perdido o dia recolho-me aos aposentos donde fingi ter saído porque perdida vai a vida.
.
.
.
Nota: Se alguém souber da autoria desta fotografia que me informe, de modo a citar a autoria.

terça-feira, junho 23, 2015

Cabernet sauvignon

.
Nada é tão belo quanto o dinheiro!
.
Não quero ser banqueiro nem anarquista nem banqueiro anarquista. Quero ser rico, muito rico, rico até. Quero ser rico sem esforço e sem mérito.
.
Inútil?!
.
Inútil é nadar sem sair do sítio.
.
Inútil?!
.
Enquanto isso, ir de avião privado beber um vermute ao Mónaco ou entardecer em Beirute deixando-me ir na maré dum cabernet sauvignon.
.
.
.
Nota: Vista de Beirute, no século XIX, de autor desconhecido.

Nem só sangue

.
O Drácula bebe Champanhe, Vinho do Porto e Tokay.
.
.
.
Nota: Se alguém souber qual o autor deste selo postal, dos Estados Unidos da América, por favor informe-me, de modo a indicar os créditos.

segunda-feira, maio 11, 2015

Fazer vinho é canja mas galináceos não fazem parte dos lotes

.
Chrétien de Toyes escreveu e fez-se o Graal.
.
José de Arimateia levou-o e o tempo perdeu-o. Achá-lo só os puros e de merecimento. Sir Galahad, Sir Bors e Sir Percival conseguiram.
.
O Graal desapareceu. Se está escrito, existe. A letra impressa não mente.
.
Muito mais antiga é a demanda da Pedra Filosofal. Tão antiga que, pelos artifícios da alquimia, se descobriram verdades de ciência.
.
Antiga e já conseguida. Cientistas conseguiram fabricar ouro. Ouro que vale mais do que ouro, só um trilionário sem juízo compra esse metal. A natureza vende mais barato...
.
Se bem que o conseguimento não é bem um concretizamento. A Pedra Filosofal tem de transformar em ouro qualquer metal plebeu; os sábios apenas conseguiram fazê-lo e não que consiga metamorfosear qualquer calhau.
.
Ah! O mais prosaico… o Elixir da Eterna Juventude. A morte chega a todos e assusta muita gente. Também os poderosos do mando falecem e temem o dia em que a gadanha os faça fechar os olhos.
.
Com o ouro pagaram a homens de ciência e virtude. Como nos contos das «Mil e Uma Noites», a habilidade estava em conseguir manter o patrono entretido, acreditando que os progressos se faziam.
.
Aldrabão e famoso, o alquimista era chamado à Corte. O ouro tão perto, puro veneno. A cobiça e o pesadelo. A maior competência não era fabricar vida, mas não criar a morte. Ter as perícias para progressos e um sofrimento esperançoso por não ter tido ainda sucesso.
.
A vida eterna é no Além. Ou… a espada, cutelo, machado, garrote, forca ou. O fabuloso mercúrio. O mortal mercúrio.
.
Todos os mestres foram um dia aprendizes, mais tarde ainda esperaram como oficiais. Entre os mestres, uns melhores do que outros – nunca esquecendo que dois mais dois podem não ser cinco.
.
Johann Wolfgang von Goethe poemou «O Aprendiz de Feiticeiro», que não poderei ser. Acreditei nos livros das ciências sem mestre e montei um laboratório com os ingredientes e ferramentas, sabendo colher dos mestres o conhecimento aproveitável, vinho monovarietal engarrafado.
.
Em segredo comprei as essências e pela noite até de manhã nada mais fiz do que procurar o Graal, a Pedra Filosofal e o Elixir da Eterna Juventude.
.
Vinho!
.
Não sei que horas eram quando finalizei a poção. O melhor vinho do mundo!
.
Engarrafei-o em frascos de perfume de sete decilitros e meio, devidamente rolhados. Sobre o todo, lacre, como antigamente.
.
Exausto adormeci, sonhando com Xerazade, Isolda, Julieta, Dulcineia, Dinamene, Bela Adormecida e Maria Carolina de Bourbon Duas Sicílias.
.
Ainda fatigado, revelei o vinho – Elixir da Eterna Juventude, Pedra Filosofal e Graal.
.
Não tentem fazer isto em casa. Dos vários escolhidos, enófilos de escol ou só de folia, recebi um quase unânime:
.
– Não é bom. Acho que nem é propriamente mau, é muito esquisito.
.
Houve um que sentenciou:
.
– É uma grande…
.
Se tivesse sido um êxito, não revelaria a fórmula. Para memória de chacotas futuras, deixo a composição:
.
Encruzado (15,3%), arinto (15,3%), chardonnay (15,3%), touriga franca (15,3%), alicante bouschet (15,3%), loureiro (7,7%) touriga nacional (7,2%), alvarinho (5,7%) e syrah (2,9%).
.
Era suposto ser palheto, mas só consegui tinta de escrever, mas em encarnado.
.
Com as sobras aproveitáveis criei uma pujança, uma espécie de tiro da Big Bertha, por isso dei-lhe a alcunha de Thor. Alvarinho (40%), syrah (33,4%) e touriga nacional (26,6%). Um pouco mais bronzeado do que o anterior, e mais bebível.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
Nota 1: Por incapacidade da caixa de etiquetas, deixo aqui a relação dos artistas cujas obras tiveram a infelicidade de ilustrar o meu vinho... Lawrence Alma-Tadema, Paul Delvaux, André Derain, Ticiano, Constant Troyon e Mårten Eskil Winge.
.
Nota 2: A imagem principal designa-se por «O Alquimista» e é de autoria desconhecida, mas enquadrável no género alemão, estando datada de 1880.





quarta-feira, abril 08, 2015

Vida para vida

.
Os computadores sugam a vida das pessoas. Dou Graças por ser vampiro e ter alimento que me cuida… mas tenho poucos gigas de memória disponível.
.
Mal passado, por favor.
.
.
.
Nota 1: Pintura húngara do século XVI.
.
Nota 2: Para quem não saiba, a condessa húngara Isabel Báthory ficou com fama de vampira.

quinta-feira, agosto 14, 2014

Levitemos

.
Pouco a pouco, boca a boca.
.
Boca a boca e mão na mão.
.
Mãos nas mãos, pelos rostos e pescoços.
.
Mãos calmas. Mãos seguras. Sem sofreguidão, mas com certezas.
.
Mãos que descem e roupas que caem.
.
Caem os corpos e sobre eles os desejos se entornam.
.
Mergulhados os amantes, indo ao fundo e à tona, salvos por respiração boca-a-boca.
.
Corpo todo, boca tudo.
.
Dentro num abraço.
.
Dentro num galope.
.
Dentro numa loucura de perder o corpo e misturar as almas.
.
No final...
.
Fazer amor assim não é pecado. É voar como um santo e repousar nas nuvens que Deus dá.
.
.
.
Nota: Se alguém souber quem foi o autor desta pintura, por favor informe-me.

sábado, maio 03, 2014

A história do mundo contada num poema blasfemo

.
Alguém disse que a Arca de Noé não levava gatos. Alguém disse que eram muitos, para caçar a comunidade de ratos que não parava de aumentar.
.
Entre uma e outra fica a agricultura. E o cão?
.
O cão deixava-se abraçar por Noé e Naamá abraçava-o também.
.
Os cavalos impacientavam-se com as corridas repetidas das ovelhas, sempre estúpidas.
.
Onde se guardavam os leões estavam as pulgas, pois enquanto os felinos se coçavam não comiam mais nada.
.
Sem, Came e Jafé tentavam agarrar os gatos e um feriu-se depois de ignorar um sopro.
.
Quando Adão foi moldado já o cão tinha sido domesticado.
.
Adão nasceu não num jardim, mas numa horta com pomar?
.
Os gatos já caçavam os ratos, que se alambazavam dos víveres armazenados por...
.
Que cultivavam os campos havia anos e sabiam das estrelas os tempos e os actos.
.
Sabiam por astrologia, dos doze signos mágicos do zodíaco ou dos treze da ciência.
.
Conheciam-lhe os dias, e suas distancias de tempo, ou jogavam ao destino?
.
Adão seria irresponsável se tentasse montar um cavalo...
.
Nesse tempo mágico, que criaturas poderiam nascer, se Deus assim o permitisse, das pegadas dum equídeo?
.
Onde aconteceu? No lugar que Deus deu ao homem, na sua obra de seis dias.
.
No primeiro, Deus criou o dia e a noite, pensando já no cansaço que teria acumulado no final da obra imaginada.
.
No segundo, separou a água dos céus. Obra acabada, parecendo inacabada. Foi com o propósito de se deliciar pela beleza do pingar à enxurrada, do som e da luz.
.
No terceiro, dividiu a água, abrindo espaço para a terra, donde haveria de tirar a carne do seu primeiro filho.
.
No quarto, inventou o Sol, a Lua e as estrelas, tudo ferramentas e entretenimento durante milénios. Deus pensou no futuro.
.
No quinto, pensou que se as águas e os céus eram tão belos, de azul, com certeza, que mereciam ser habitados. Fez as aves e todos os animais marinhos.
.
No sexto, fez os animais terrestres e o homem. Tirou-o do barro e do seu barro tirou sua mulher, Eva.
.
Contam alguns eruditos, que houve outra antes de Eva... há quem fale em cinco mulheres. Teria sido feliz ou infeliz, o Adão?
.
Certo, é que Adão e Eva foram comer fruta proibida e Deus, que gosta de ser obedecido, os mandou embora.
.
Na Terra, nascidos pela primeira vez do sémen e do óvulo, vieram os irmãos Caim e Abel. Terá sido quando?
.
Ao sexto dia. Ainda no sexto dia. Só pode. Porque os homens começaram por matar. Caim matou Abel. Não deixaram Deus descansar.
.
E descansou ao sétimo? Não! Com balanço de operário e mente irrequieta de artista, lembrou-se do amor. Era tarde para desmatar Abel.
.
Quando terá Deus inventado a morte? Ninguém sabe. Abel morreu.
.
Ao sétimo dia concebeu o gato, a mais sublime criatura de Deus. Não sendo verdade, é o que apetece. Ama quando ama e está quando quer. Não faz favores, faz amor. Amor verdadeiro e condicional.
.
Inspirou-se o Deus em Bastet, Deusa mais antiga.
.
Terá o Deus se apaixonado por uma Deusa-gata?
.
Ao sétimo dia, Deus não inventou o gato. Concebeu-o, no suor e no calor da cama onde julgara poder repousar.
.
Ao sétimo dia, Deus descansou, fazendo amor com Bastet.
.
Daí nasceram os gatos, a quem deu o planeta Kryon, acabado de inventar, ainda as rochas se ajeitavam em ronronares.
.
.
Sentindo que o homem precisava de obediência, Deus trouxe alguns gatos para a Terra.
.
Entregues ao homem pela sua mãe Bastet.
.
Os gatos cedo amaram os seus irmãos homens, perseguindo os ratos que se empanturravam com as sobras agrícolas.
.
Vieram pois os gatos ajudar a humanidade. Nasceram antes, sabem mais. Um dia talvez vejamos Kryon com nossos olhos, abraçados pelos irmãos gatos. Ou talvez façamos da Terra um novo Kryon.
.
Contando para trás, há que falar em Anubis, um chacal que era cão e também Deus.
.
Foi tudo há muito tempo e há muito tempo aconteceu o momento em que o homem ouviu a verdade. Não se sabe bem.
.
Sabe-se que Anubis e Bastet se amaram. Uns dizem no prazer e outros na família. Mãe ou amante?
.
De toda a forma, o Deus enfureceu-se com ciúmes e expulsou-os da Terra.
.
Isto é o que se sabe, o que dizem os antigos ainda vivos... que se lembram de Isaque já ser idoso, com cento e oitenta anos.
.
Isaque viveu pouco, quando comparado com Matusalém, seu décimo segundo avô, que viveu novecentos e sessenta e nove anos, quase tantos viveu Noé, seu décimo antepassado.
.
Há treze mil milhões de anos surgiu o Universo. Foi o que fez Deus no dia antes do primeiro dia.
.
Não havia nada, só escuro e não era da noite. Paciente. Tido como irascível, o Deus sabe ser paciente. Um dia, aborrecido, há quatro mil e quinhentos milhões de anos, inventou a Terra.
.
Foi nesse dia, de há novecentos e trinta e seis anos, que Deus moldou Adão e lhe soprou a vida.
.
Suspirando ainda por Bastet, Deus sofria no Egipto, onde amara a Deusa-gata.
.
Era já velhinho, o Deus. Com longas barbas brancas e pouca paciência para aturar as garotadas dos seus filhos... e filhos dos filhos... e filhos, dos filhos dos filhos...
.
Cansado, escreveu onze ordens e entregou-as a Moisés.
.
Hoje só se referem dez. É o que consta, até nas escrituras. Mas alguns sábios sabem que eram onze os mandamentos.
.
O décimo primeiro era para Moisés sair do Egipto... Deus queria tanto descansar.
.
Mas não ficou assim tão tranquilo, no Egipto ficaram por lá outros homens que não eram seus filhos, eram familiares de Anubis e Bastet... lembrança permanente, o ciúme.
.
O seu filho mais novo foi quem o compreendeu. O seu filho perfeito, feito de espírito e não de matéria.
.
Tão livre e sábio que conseguiu tornar-se carne para mostrar o amor aos homens e ensinar-lhes o significado e como fazer o bem. Para que, por fim, o Pai pudesse descansar, para um dia abraçar todas as criaturas.
.
Foi há coisa de dois mil anos e daí para cá é vasta a bibliografia que conta como tem sido a vida na Terra.
.
Ou em parte dela.
.
E o Diabo? O Satanás, que tarrenego, tarrenego, tarrenego?...
.
Esse foi inventado pelo homem, criatura criança mimada, fazendo birra... alguém capaz de puxar as barbas ao velho.
.
Serviu também o Inexistente para os homens meterem medo aos homens.
.
Se soubessem o que é o amor... o Inexistente é um mal-amado, filho sem pai nem mãe.
.
Forçado à escuridão iluminada pelo calor das chamas, sufocado por enxofre... o Inexistente morreria só de lá estar.
.

Foi assim que tudo aconteceu.
.
.
.
.
Nota: Adoro os kryonitas!

sexta-feira, março 31, 2006

A Corvina

.
Já há muito tempo que não via a Corvina. Vi-a ontem. Fazia mais de três anos! Almocei com ela. Ela pediu fuzili a três cores e eu ravioli amarelo da cor da gema d'ovo. Tínhamos uns 18 anos quando nos conhecemos e ... e é metade de uma vida. É bom saber que há gente feliz no mundo. Mesmo que a vida nem sempre seja cor-de-rosa, fico contente quando sei que há gente que chega a casa e tem um beijo à espera de quem a espera há mais de dez anos... e mais os abracinhos e beijinhos bons de um filhote João. Vi ontem a Corvina e está na mesma... com o mesmo ar de corvina sorridente!

quinta-feira, março 30, 2006

Justiça

.
Preciso de ser justo e verdadeiro. O amarelo faz falta e até gosto. Limão, girassol, Sol, eléctrico, chá, malmequer, papéis velhos, reflexos de luz ao entardecer... a luz de Lisboa ao entardecer. Aquele prédio, naquele pequeno largo de Alfama com a gorda à janela a gritar pelos filhos, é amarelo! O vestido que cai melhor à minha vizinha especial cá do bairro é amarelo. O que seria do verde sem o amarelo? De que diríamos mal, se não fosse o amarelo? As louras têm o cabelo amarelo! Afinal gosto! Gosto, gosto muito, gosto tanto. Não tanto como do azul... ou do escarlate... ou do negro... ou do roxo... ou... mas gosto, gosto!

Não quero

.
Cada ruga é um caminho, quanto mais profunda mais numerosas a estórias para contar. Enredos simples, pequenos dramas, beijos de amores impossíveis, rupturas dolorosas e reencontros felizes. A fundura dos olhos foi escavada pelas lágrimas que não se verteram e as olheiras têm a cor das noites por dormir. Os lábios tiveram uma carne mais rija a segurá-los, hoje descaem de tanto se terem banzado, mas já nada espanta o homem. A cor do cabelo é da prata, por nenhuma razão que não a da idade. Simples! As orelhas cresceram e o nariz aumentou como acontece a todos os velhos. As desilusões de amor tonaram o coração num amontoado de cicatrizes. Primeiro endurecido, agora flácido e enfraquecido, à espera que uma vintona lhe assobie para se enamorar sem erecção. Daqui por quanto tempo será? Não quero!

quarta-feira, março 29, 2006

Veludo

.
Um cardeal tinha um corvo no salão nobre. Era lá que aquecia os pés e recebia as confidências das Excelências. Naquela sala de reposteiros pesados em veludo escarlate, o cardeal era um santo homem: absolvia os pecados em troca de umas tantas orações. A ave era malvado e com o bico feria os incautos poderosos pecadores. Era no braço, era no rosto, era numa parte qualquer onde causasse dor. Não porque tivesse fome, mas por crueldade.
.
Naquela sala onde o ar da rua não chegava senão filtrado pela espessura do escarlate, o príncipe eclesiástico era um velhaco: conjurava contra amigos, urdia ciladas e intrigava alianças, com nós de sorrisinhos e lacinhos de poder, colares de putas e ligas de duquesas. O corvo era mais puro, só bicava porque sim e não pensava nas consequências. Os dois tiveram da vida bom proveito: morreram de velhos, sós e apenas com o outro como companhia. Desta vida com nada ficaram, nem com o próprio corpo que usaram... só uma impressão escarlate.

terça-feira, março 28, 2006

Gosto

.
Gosto de tulipas. Gosto de tulipas vermelhas e de copos com vinho tinto. Também aprecio rosas rubras, apaixonadas rosas, sentidas, saudosas e tristes rosas cor de sangue. As tulipas são mais serenas e alegres. Penso que ficariam bem os areais que emolduram as praias cobertos por tulipas multicores, como se fossem canteiros imperfeitos, desgrenhados nas tonalidades. Porém, quase uniformes. Não falam de amor, não segredam, não exigem, impõem-se sem esmagar. Gosto de tulipas e já disse o que tinha a dizer.