digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

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terça-feira, abril 14, 2015

Dormes cá?

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Então, foi assim:
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– Ficas cá a dormir?
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– Não. Não fico.
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– Por que não?
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– Porque não quero dormir contigo.
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– Que queres fazer?...
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– Dormir contigo…
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– Jantamos primeiro ou começamos na cozinha e o jantar que se queime?
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– Amanhã, pela manhã, jantamos.

quinta-feira, março 19, 2015

A sina

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As musas não gostam de poetas. Por isso sofrem e transpiram letras, se fazem fontes e desmaiam, fixados nos olhares que não lhes oferecem e na roupa que não tiram ou na nudez escondida intangível ou de brinquedo de gato.
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Talvez por ser mau poeta talvez por ser bom poeta voo acima da razão e não vejo e ultrapasso a mão que talvez me queira puxar para o leito.
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Nada, não pode ser. As musas temem os poetas cuidando que o doce se lhes agarre e se prendam.
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Compreendo-as. Os poetas não têm razão e como mariposas queimam-se no fogo da luz das musas que não os comem e os deixam consumir-se nas letras, se fazem fontes e desmaiam.

terça-feira, fevereiro 03, 2015

O beijinho

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– Não gosto de ti!... dá-me um beijinho.
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– Se não gostas de mim, por que hei-de te dar um beijinho?
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– Ficas a gostar de mim, se te der um beijinho?
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– Não. Mas gosto de beijinhos. 

sexta-feira, setembro 19, 2014

Pensas nas mil vezes – ou – Estás linda na tua primeira selfie

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Linda como sempre e no ócio aceitando a beleza de si. Aqueles dias de luz em que a pele, os lábios e os olhos, de vaidade decente e justa.
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Fantasias e pensas nas mil como fizeste e nas mil que tens por fazer e nas mil que pensas repetir, das feitas e das de vir.
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Conversas-te e enamoras-te por amante imaginário, pela pessoa proibida, pelo indevido da transgressão e na ordem do cosmos.
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Frente ao espelho desnudas um ombro, sorris, franzes um sobro-lho e olhas-te nos olhos e despes o outro ombro. Pensas no eterno e fotografas-te. Repetes por não te excitar o que pensas que pode pensar o amante se a visse. Guarda-la para ver e ponderar. Nova fotografia.
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Pousas o celular na bancada e despes-te, com a blusa sob o sutiã. Estás um pouco excitada e fotografas-te. Olhas-te nos olhos, franzes um sobrolho, rodas a cabeça várias vezes, com a boca fazendo beicinho e a sobrancelha inquiridora. Fotografas-te e fotografas-te.
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Despes mais e fotografas-te. Tiras finalmente o sutiã e deslumbras-te, como se visses uns seios pela primeira vez, como te visses os seios pela primeira vez, como se percebesses como são belos pela primeira vez. Sorris, quase ris e estás já. Fotografas-te sete vezes – sem atentar que é um número mágico e que a magia tudo pode.
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Lamentas os vincos que a peça te deixou, mas a luz da pele. Pensas nesse amante – que desejo ser eu – e guardas-te sob os lençóis.
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Fantasias e pensas nas mil como fizeste e nas mil que tens por fazer e nas mil que pensas repetir, das feitas e das de vir.
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Reconfortada e ansiosa ponderas. Queres e sabes que será como saltar de muito alto.
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Pensas nesse amante – que desejo ser eu – e envias uma fotografia com o peito desnudo, engoles em seco e quase desmaias. Rezas para que não chegue ou que não a veja. Rezas para que a veja. Rezas para que chegue. Rezas para que não chegue. Rezas que te chegue.
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Feliz e medrosa trincas os lábios, franzes o sobrolho. Reflectes-te e não tens vincos. Fotografas-te e recomeças.
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Queira Deus que seja para mim a fotografia.