digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

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sábado, maio 05, 2007

A mulher de Hopper


Nunca percebi Edward Hopper. Percebo agora que não o entendi no seu tempo. Não digo com isto que o entenda. Não! Houve uma época em que cismei como era suíço e não havia maneira de me tirarem da ideia de que as paisagens norte-americanas eram a negação uteriana dos Alpes.
Nunca terei um quadro de Edward Hopper. Não tenho sequer o direito a sonhar com um esboço em papel amarrotado pela sua mão. Não são para mim as luzes entardecidas nem as mulheres pensativas nem os envelheceres esquecidos nem os diálogos silenciados nem os vazios momentâneos. Não são para mim os quotidianos, urbanos ou rurais, quase sonoros, quase zonzos, quase tangíveis.
Nunca terei a mulher dos meus sonhos. Muito provavelmente a pessoa dos sonhos não existe. A flor mais bela está por desabrochar ou abriu-se num século em que não tínhamos os olhos previstos. A mulher por quem percorro o escuro e delinio a penumbra lilás da memória existe, mas não será minha. A flor mais bela tem a cor mais improvável de eu amar.
No meu tempo lamento não ter percebido Edward Hopper nem amado a mulher certa. Quem me dera o tempo em que me iludia. Havia luz no caminho ou, então, um reflexo... talvez só mesmo uma ilusão. Tanto fazia!...

P.S. - Hesito na avaliação: Havia de ter tido o dobro das namoradas ou apenas metade?

domingo, março 25, 2007

Uma outra hora qualquer

A tarde de domingo, a queda antes do impacto. Uma festa quieta de gente sentada a olhar um vale, um piquenique gordo acabado posto na toalha estendida sobre a melancolia. Um balcão sem parapeito sobre o rio fino de azul nostálgico, esmagado pelo cinzento incompreensivo do céu e o corpo deixado para trás pela alma e pelos olhos.
O desejado impacto da queda durante a vertigem. A pesada quietude dos minutos da gente parada numa melancolia contemplativa dum rio sufocantemente fio. A tarde de domingo é uma corda enlaçada a apertar-se que não mais estrafoga, um sem fim de agonia e ausência no olhar. Quem me dera fosse já uma outra hora qualquer.