As guerras são horrores, mas são também pretexto. Motivo justificativo para reatar conversas. Enquanto o fogo infernal vai fazendo estragos, veio à memória uma anotação acerca dum conflito com décadas.
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Um dia, o chefe-mestre-amigo disse:
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– Urânio enraivecido.
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Duas palavras que juntas têm dois significados idênticos, mesmo que essa particularidade não seja óbvia na primeira leitura. A expressão «urânio enraivecido» é uma síntese. Interprete-se duramente ou gracejando, resume violência. É uma crítica irónica à barbaridade dos exércitos e um juízo moral.
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Decorria a Guerra do Kosovo – que desgraçou entre 1998 e 1999. Como o acerto das palavras e do tom que as embrulha podem ser mal interpretados, o «urânio enraivecido» foi apagado do ficheiro Word da notícia. Optou-se pelo sisudo, formal, rigoroso e unânime «urânio empobrecido» – material que tem nefastas consequências para a saúde, derivado das poeiras radiológicas.
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Mas, ao longo dos anos que trabalhei com ele, o João Paulo Guerra disse mais coisas. Naturalmente sobre assuntos menos cruéis e, por isso, gerando risos descomplexados e livres. Diariamente fui aprendendo com esse chefe que foi também mestre e amigo.
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Trabalhar com o João Paulo Guerra, além da aprendizagem constante, foi uma colecção de piadas inteligentes. Se a graça não começava nele, o amigo rematava. Fosse o primeiro, a equipa acompanhava a jogada.
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Quase trinta anos depois e os estragos dos esgotamentos, é-me impossível escrever muito sobre os dias (concretos) passados com ele – ficou-me o bom-sentimento, obviamente. Além da raiva do urânio vêm rapidamente à cabeça dois outros momentos: uma remodelação ministerial – sei o primeiro-ministro, mas o ano não me chega – e uma nomeação intrigante – de data igualmente esquecida.
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António Guterres, que chefiava o Governo, tirou vários ministros e secretários de Estado. Em poucos dias o executivo estava quase completo. «Quase» significa que faltava uma nomeação. Nas habituais conversas de bastidores não surgia um nome ou aparecia muita gente, o que resulta no mesmo. Os dias passavam, a oposição criticava e havia mal-estar no Partido Socialista.
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– Como é possível tirar um membro do Governo sem ter alguém para o substituir?
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Até que foi encontrada a pessoa para secretário de Estado da Defesa. Foi escolhido José Penedos, remodelado uns dias antes, deixando a secretaria de Estado da Energia. Justa ou injustamente, a oposição não ficou feliz e no Partido Socialista também se fez um bruá de descontentamento.
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O João Paulo resumiu a nomeação num título factual e que dava conta das objecções:
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«Penedos, era o que faltava».
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Rigoroso e crítico. Ortodoxo e iconoclasta. Tendo em conta a novela, «todos» perceberam que se tratava dum remendo e visto com pouca aceitação.
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A outra situação também ocorreu num título… aliás, não aconteceu. A ironia do título (provisório) iria criar um conflito desnecessário. Em jornalismo, impõe-se a verdade, mas há modos de a escrever.
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Há uma nuance que vale a pena referir. Trabalhar com o João Paulo implicava uma permanente actividade criativa. Nos meus trinta e seis anos de jornalismo é caso único. Por isso, a autoria poderia ser total, parcial ou inspirada. Surgiam umas reuniões espontâneas em que a imaginação explodia.
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O caso seguinte aconteceu numa dessas situações. Não me lembro se a tirada foi dele – penso que sim, com 99% de certeza – ou de um de nós. Recordo-me que foi uma tarde de alegria. Ela resume o que era trabalhar com o João Paulo.
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A Tratolixo é a empresa de gestão de resíduos urbanos dos municípios de Cascais, Mafra, Oeiras e Sintra. Naturalmente, tem gestores nomeados pelos autarcas destes concelhos. Nas escolhas deu-se uma polémica, resultante duma situação de relação familiar.
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José Luís Judas presidia o concelho de Cascais. Tinha pertencido ao Partido Comunista Português e fora dirigente da Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses. Nas convulsões resultantes da queda das ditaduras comunistas, tornou-se crítico e saiu. Aproximou-se do Partido Socialista, que o pôs a encabeçar a candidatura a esse concelho. Resumindo: um concentrado de polémica, rancor e facada.
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Foi escolhido José Manuel Judas, irmão do presidente da Câmara de Cascais. Na reunião quase permanente duma editoria, o João Paulo disparou:
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«Judas põe irmão no lixo».
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Foi dos momentos mais divertidos nos meus trinta e seis anos de jornalismo. Possivelmente o maior. Houve bom-senso e escolheu-se outro título.
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Se não acredito na morte, não tenho mortos. Não choro, aguardo sem ansiedade o dia em que a conversa vai ultrapassar o tempo. Como não sou de saudades, guardo lembranças para mais tarde falar ao telefone.
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É tão simples. Não vemos um amigo há trinta anos e quando nos reencontramos a conversa não tem idade. Essa é mesma distância quando a separação se faz nos dois planos da vida. É mesmo muito simples.
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Naturalmente com a ternura que se deve aos amigos, escrevo-lhes um bilhete-postal – dedicado a quem viaja e a quem fica. Quando o João Paulo embarcou, o coração-cabeça disse-me que haveria de lembrar-me também doutros mestres e amigos.
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https://infotocopiavel.blogspot.com/2024/08/barba-e-bigodes.html
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As datas valem e não valem, depende do uso que se lhes dá e do espaço que permitimos. Passaram-se, há dias, dois anos dessa viagem do João Paulo. Tenho andado para escrever, não por efeméride, mas porque o coração-cabeça o impõe.
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– João Paulo, só acabei o texto agora. Ainda dá para hoje ou fica para a edição de amanhã.
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– Levanto uma página.
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João Paulo Guerra – 16 de Abril de 1942 – 4 de Agosto de2024.
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