digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.
domingo, dezembro 18, 2016
sábado, dezembro 17, 2016
sexta-feira, dezembro 16, 2016
Estavam isentos de morte
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Tinham a adolescência e a isenção de morte. Não passavam
juntos a porta, porque era segredo. Caíam loucos de desejo e atrasados nos
orgasmos. As tardes infinitas terminavam prematuramente e só tinham estado a
estudar. Ele corado ficava para jantar e os pais dela mostraram-se ingénuos,
deixando-os contentes como as crianças visitadas pelo Pai Natal.
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Um dia acabou-se. As marés sobem e descem e o mundo tem
muitos mares e praias para naufragar. Estavam isentos de morte. Provavelmente choraram
despedaçados por sete dias e oito noites, usaram as mãos e os olhos fechados e
abandonaram-se noutros quartos e tendas.
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A vida continuou. Nenhum sexo foi tão mau quanto aquele, o
melhor das suas vidas.
quinta-feira, dezembro 15, 2016
O meu Natal
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Chegou o Natal, com tudo. Como digo tudo não falo do
bacalhau cozido com grão nem do peru seco nem da Missa do Galo nem do presépio.
Não digo das meias quentinhas de lã, com ursinhos, da tia Hortense, nem do
gorro, também de lã, com renas, que a tia Hortense comprou para o tio Álvaro
oferecer. Quando digo Natal não falo dos presentes, quase todos detestáveis,
que as tias, as amigas dos pais, as primas e as parentelas oferecem. Quando
digo Natal e não digo isso também não falo do vinho que recebo do doutor, que lhe
fora oferecido, e não gosta, por um paciente agradecido. Não falo das gravatas
pirosas generosamente compradas pelo pessoal do hospital que me assiste
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Empurraram-me para o
Natal. Não há angústia como a do Natal, nem a da Primavera a ir-se nem a do
Verão a chegar-se nem a do Verão a durar. O Natal é melancolia concentrada. O
Natal é tédio e agonia. É o túnel donde não se sai por mais que se vá. A luz
não chega. Há um momento em que é luz, mas é tarde. O Natal é sempre lento, com
excepção do tempo que leva a chegar. Os dias estão cada vez mais breves, o ano
mais encolhido e as horas mais longas. Em menos de nada é Natal. Como se não
fosse triste haver Natal, todos os anos há Natal. Ontem fiz a árvore-de-natal e
ontem disse que fora ontem quando a tinha desmontado e anteontem a fizera.
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As pessoas matam-se no Natal porque são sós e daí não saem.
O pior é ficar-se no Natal, só ou só com gente à volta. O Natal é uma dose de
realidade doentia, verde e viscosa, que mesmo na escuridão completa se mostra e
dá a cheirar. Os presentes patéticos da tia Hortense e das pessoas do hospital
são a parte boa do Natal, se concedermos a graça de dizer que há uma parte boa
do Natal.
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Cristo nasceu no Natal e veja-se o que lhe aconteceu. O que
lhe aconteceu não foi a paixão. O que lhe aconteceu é quase ninguém, em
milénios, ter entendido o que disse. Também por isso celebram-se farturas, as
que têm, as desejadas, as merecidas e as imerecidas. Dá-se, exige-se e
retira-se. Oferecem-se presentes, cinismo e inveja. No ano seguinte haverá
Natal e pode cumprir-se a vingança, oferecendo desnecessidades e horrores a quem
desiludiu, e prémios aos generosos da festa anterior.
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Não fosse ter os olhos incapazes de continuar a ver e as
mãos com Parkinson passageiro doendo na escrita e dizia mais sobre o Natal e
das pessoas que. Que me, porque o Natal é o pior momento da vida. O Natal chega
antes e parte depois. Não fossem os olhos, mas pouco mais posso.
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Não perceberam nada do que disse Cristo!
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Nota: Porém, há quem goste genuinamente do Natal e entenda do que Cristo diz.
Essa cena da atracção
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Não revelo qual a música que oiço. Milhares delas caindo de
amor por mim e milhares deles prometendo-me castigo por inveja.
Quase cosmonauta
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Como todos, queria ser astronauta. Se não pudesse ser
calceteiro, queria ser astronauta. Se não pudesse ser nem calceteiro nem
bombeiro, queria ser astronauta. Não fui nem bombeiro nem calceteiro, porém não
vivo na Terra.
quarta-feira, dezembro 14, 2016
A minha vida
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Acordo no outro lado, quando não é nesse é porque é noutro, às vezes não acordo e costumo ter dúvidas. Sou assim ou não serei e
estarei onde estiver e estou onde sou.
terça-feira, dezembro 13, 2016
Um muro pela frente
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Os quadrados vêem o mundo redondo, penso com erro de
paralaxe. Os outros não voam e não sei andar.
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Não compreendo a vida nem as vizinhanças nem a mim nem sentido
nos dias.
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Por ter nascido aqui, por falta de mercê, por descrença de
graça não fui astronauta. Em contrapartida sou extraterrestre.
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Se não sou do espaço também não sou da Terra.
Cume
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Estivemos nus à mesma hora, de cada lado da parede. Fizemos amor
separados e vento esvoaçou-nos os cabelos. Olhámo-nos sem nos vermos e
esquecidos não pensámos nisso.
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Se um dia estivermos nus, de cada lado da parede, se houver
vento, lembremo-nos que as portas abrem-se como os lábios e as estradas não têm
horas.
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Quando nos despirmos sem relógio, num sítio para morrermos
descalços, teremos o que ficou por fazer.
segunda-feira, dezembro 12, 2016
Navio imperfeito
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À janela como num espelho de Magritte, o tempo é irrelevante
no lugar, quieto de província, onde o comboio já não passa. O pequeno viaduto
com cheiro antigo é a preto e branco.
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A cidade abandonou-se e à noite é deserta como de dia. Os alcoólicos
bebem e não se fazem perguntas. As ruas sem papéis, reconheço-me no espelho e não
me conheço, como a solidão de Hopper.
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Há uma praia de Inverno, a sua areia cristalizada quebra-se
sob os pés e até o mar é diferente.
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Sou de penumbra e névoa, cinzento e invisível, lusco-fusco de
entardecer e madrugar. Sou revolução de sal e areia arremessada sem horas.
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Sou um navio imperfeito esperando uma maré.
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Aí, a poucos minutos da estação central.
domingo, dezembro 11, 2016
A tarde e a noite
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Tirar-tas, de algodão, claras com florzinhas, como seria naquela tarde, sentir-te os aromas do talco e do despertar.
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Faremos o que desejámos e nunca soubemos.
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Tirar-tas, de seda negra, como uma noite proibida de que se
guardará silêncio.
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Faremos o que desejamos e sempre soubemos.
A cama
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A minha hora encontrará o teu Norte e o que disse a bruxa
será inadiável e nem um segundo deixará de ser momento nem o prazer finito
antes de nos cansarmos.
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Será um acontecimento épico, serei o Vasco da Gama e tu a
Índia.
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Serás sal e eu a água. Serei a pimenta e tu o pão.
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Quando te despires e comigo te deitares, quando o destino
for o impensável, saciar-se-á a memória e o tempo não terá sentido.
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Será um acontecimento bíblico e daqui a cinco mil anos ainda
falarão dos nossos lençóis.
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Imagem: de «História de Merlin e outros romances arturianos», Poitiers cerca de 1450-1455.
Infantil
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Queria ser de todos amigo e ninguém tivesse de me perdoar.
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Creio, desgraço e insisto. Dizem estúpido e infantil. Sou
sem amor-próprio e irrelevante.
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Sou doutro sítio. Sou sem sapatos. Sou sonâmbulo.
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Às vezes inconsigo andar e noutras levitando – os mesmos
locais, na mesma vida e a mesma noite.
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Sou uma estátua de sono, inútil e irrelevante.
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Sem amor-próprio acredito num dia.
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Partirei como todos e aqui não deixarei nada e de mim poucos
querem.
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Queria ser de todos amigo.
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Dizem estúpido e infantil.
Sem
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Às vezes acordo morto e noutros subitamente. Caio como um
avião sem querosene e nada sobrevivo e ressuscito. Às vezes é gripe e outras é
impaciência e tédio, a vida como se me fosse uma ténia e incompreendendo
rompendo de silêncio ou raiva gasto-me a viver o que não quero.
sábado, dezembro 10, 2016
sexta-feira, dezembro 09, 2016
quinta-feira, dezembro 08, 2016
quarta-feira, dezembro 07, 2016
terça-feira, dezembro 06, 2016
Dirás
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Se em ti voam negras em círculo, urrando e uivando, e tombas
de morte, uma luz pousará e voz tépida dirá bem, dissipando as aves da
escuridão medonha. Deixa-te ouvir a paz e dirás amor ao mundo. Saboreando-o é
mais fácil fazê-lo.
Outro sítio
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Às vezes tenho de aceitar a realidade e dizer que sou mais
gasoso do que sólido. A verdade interessa-me pouco e tenho medo da matemática,
uma manta de aço oxidado. Durmo nesta rua mas vivo no sítio do querer, onde
estarei depois de morrer. Ninguém entende por que voo. Ninguém me entende
porque voo. Ninguém vê. Sou triste por tudo isso.
Estar quando ser
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A luz é incapaz de ser som e a cor está a que se quer. A quietude
diz melancolia e solidão.
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A vida quando vai, fica
Noite
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A noite não tem horas, começa e acaba e antes desfaz-se da luz e depois deixa-se afogar de claridade.
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À noite vê-se o Caminho de Santiago e as sombras mal se vêem
mesmo ainda que a Lua.
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A noite é um fundo de cenário quando pelo palco vagueiam
snarks.
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No teatro há peixes voando e as florestas são orvalhadas
como nas lendas.
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À noite já vazio, o teatro é só noite. Ser só noite é poder
ser quase tudo.
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segunda-feira, dezembro 05, 2016
domingo, dezembro 04, 2016
sábado, dezembro 03, 2016
sexta-feira, dezembro 02, 2016
quinta-feira, dezembro 01, 2016
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