digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

sexta-feira, dezembro 16, 2016

Estavam isentos de morte

.
.
Tinham a adolescência e a isenção de morte. Não passavam juntos a porta, porque era segredo. Caíam loucos de desejo e atrasados nos orgasmos. As tardes infinitas terminavam prematuramente e só tinham estado a estudar. Ele corado ficava para jantar e os pais dela mostraram-se ingénuos, deixando-os contentes como as crianças visitadas pelo Pai Natal.
.
Um dia acabou-se. As marés sobem e descem e o mundo tem muitos mares e praias para naufragar. Estavam isentos de morte. Provavelmente choraram despedaçados por sete dias e oito noites, usaram as mãos e os olhos fechados e abandonaram-se noutros quartos e tendas.
.
A vida continuou. Nenhum sexo foi tão mau quanto aquele, o melhor das suas vidas.

Oferendas para Otão III


quinta-feira, dezembro 15, 2016

O meu Natal

.
Chegou o Natal, com tudo. Como digo tudo não falo do bacalhau cozido com grão nem do peru seco nem da Missa do Galo nem do presépio. Não digo das meias quentinhas de lã, com ursinhos, da tia Hortense, nem do gorro, também de lã, com renas, que a tia Hortense comprou para o tio Álvaro oferecer. Quando digo Natal não falo dos presentes, quase todos detestáveis, que as tias, as amigas dos pais, as primas e as parentelas oferecem. Quando digo Natal e não digo isso também não falo do vinho que recebo do doutor, que lhe fora oferecido, e não gosta, por um paciente agradecido. Não falo das gravatas pirosas generosamente compradas pelo pessoal do hospital que me assiste
.
Empurraram-me para o Natal. Não há angústia como a do Natal, nem a da Primavera a ir-se nem a do Verão a chegar-se nem a do Verão a durar. O Natal é melancolia concentrada. O Natal é tédio e agonia. É o túnel donde não se sai por mais que se vá. A luz não chega. Há um momento em que é luz, mas é tarde. O Natal é sempre lento, com excepção do tempo que leva a chegar. Os dias estão cada vez mais breves, o ano mais encolhido e as horas mais longas. Em menos de nada é Natal. Como se não fosse triste haver Natal, todos os anos há Natal. Ontem fiz a árvore-de-natal e ontem disse que fora ontem quando a tinha desmontado e anteontem a fizera.
.
As pessoas matam-se no Natal porque são sós e daí não saem. O pior é ficar-se no Natal, só ou só com gente à volta. O Natal é uma dose de realidade doentia, verde e viscosa, que mesmo na escuridão completa se mostra e dá a cheirar. Os presentes patéticos da tia Hortense e das pessoas do hospital são a parte boa do Natal, se concedermos a graça de dizer que há uma parte boa do Natal.
.
Cristo nasceu no Natal e veja-se o que lhe aconteceu. O que lhe aconteceu não foi a paixão. O que lhe aconteceu é quase ninguém, em milénios, ter entendido o que disse. Também por isso celebram-se farturas, as que têm, as desejadas, as merecidas e as imerecidas. Dá-se, exige-se e retira-se. Oferecem-se presentes, cinismo e inveja. No ano seguinte haverá Natal e pode cumprir-se a vingança, oferecendo desnecessidades e horrores a quem desiludiu, e prémios aos generosos da festa anterior.
.
Não fosse ter os olhos incapazes de continuar a ver e as mãos com Parkinson passageiro doendo na escrita e dizia mais sobre o Natal e das pessoas que. Que me, porque o Natal é o pior momento da vida. O Natal chega antes e parte depois. Não fossem os olhos, mas pouco mais posso.
.
Não perceberam nada do que disse Cristo!
.
.
.
Nota: Porém, há quem goste genuinamente do Natal e entenda do que Cristo diz.

Vida e morte

.
O que o óvulo e o sémen têm de vida tem o orgasmo de morte.

Essa cena da atracção

.
Não revelo qual a música que oiço. Milhares delas caindo de amor por mim e milhares deles prometendo-me castigo por inveja.

Quase cosmonauta

.
Como todos, queria ser astronauta. Se não pudesse ser calceteiro, queria ser astronauta. Se não pudesse ser nem calceteiro nem bombeiro, queria ser astronauta. Não fui nem bombeiro nem calceteiro, porém não vivo na Terra.

quarta-feira, dezembro 14, 2016

A minha vida

.
Acordo no outro lado, quando não é nesse é porque é noutro, às vezes não acordo e costumo ter dúvidas. Sou assim ou não serei e estarei onde estiver e estou onde sou.

terça-feira, dezembro 13, 2016

Um muro pela frente

.
Os quadrados vêem o mundo redondo, penso com erro de paralaxe. Os outros não voam e não sei andar.
.
Não compreendo a vida nem as vizinhanças nem a mim nem sentido nos dias.
.
Por ter nascido aqui, por falta de mercê, por descrença de graça não fui astronauta. Em contrapartida sou extraterrestre.
.
Se não sou do espaço também não sou da Terra.

Cume

.
Estivemos nus à mesma hora, de cada lado da parede. Fizemos amor separados e vento esvoaçou-nos os cabelos. Olhámo-nos sem nos vermos e esquecidos não pensámos nisso.
.
Se um dia estivermos nus, de cada lado da parede, se houver vento, lembremo-nos que as portas abrem-se como os lábios e as estradas não têm horas.
.
Quando nos despirmos sem relógio, num sítio para morrermos descalços, teremos o que ficou por fazer.

segunda-feira, dezembro 12, 2016

Navio imperfeito

.
À janela como num espelho de Magritte, o tempo é irrelevante no lugar, quieto de província, onde o comboio já não passa. O pequeno viaduto com cheiro antigo é a preto e branco.
.
A cidade abandonou-se e à noite é deserta como de dia. Os alcoólicos bebem e não se fazem perguntas. As ruas sem papéis, reconheço-me no espelho e não me conheço, como a solidão de Hopper.
.
Há uma praia de Inverno, a sua areia cristalizada quebra-se sob os pés e até o mar é diferente.
.
Sou de penumbra e névoa, cinzento e invisível, lusco-fusco de entardecer e madrugar. Sou revolução de sal e areia arremessada sem horas.
.
Sou um navio imperfeito esperando uma maré.
.
Aí, a poucos minutos da estação central.

domingo, dezembro 11, 2016

A tarde e a noite

.
Tirar-tas, de algodão, claras com florzinhas, como seria naquela tarde, sentir-te os aromas do talco e do despertar.
.
Faremos o que desejámos e nunca soubemos.
.
Tirar-tas, de seda negra, como uma noite proibida de que se guardará silêncio.
.
Faremos o que desejamos e sempre soubemos.

A cama

.
A minha hora encontrará o teu Norte e o que disse a bruxa será inadiável e nem um segundo deixará de ser momento nem o prazer finito antes de nos cansarmos.
.
Será um acontecimento épico, serei o Vasco da Gama e tu a Índia.
.
Serás sal e eu a água. Serei a pimenta e tu o pão.
.
Quando te despires e comigo te deitares, quando o destino for o impensável, saciar-se-á a memória e o tempo não terá sentido.
.
Será um acontecimento bíblico e daqui a cinco mil anos ainda falarão dos nossos lençóis.
.
.
.
Imagem: de «História de Merlin e outros romances arturianos», Poitiers cerca de 1450-1455.

Infantil

.
Queria ser de todos amigo e ninguém tivesse de me perdoar.
.
Creio, desgraço e insisto. Dizem estúpido e infantil. Sou sem amor-próprio e irrelevante.
.
Sou doutro sítio. Sou sem sapatos. Sou sonâmbulo.
.
Às vezes inconsigo andar e noutras levitando – os mesmos locais, na mesma vida e a mesma noite.
.
Sou uma estátua de sono, inútil e irrelevante.
.
Sem amor-próprio acredito num dia.
.
Partirei como todos e aqui não deixarei nada e de mim poucos querem.
.
Queria ser de todos amigo.
.
Dizem estúpido e infantil.

Sem

.
Às vezes acordo morto e noutros subitamente. Caio como um avião sem querosene e nada sobrevivo e ressuscito. Às vezes é gripe e outras é impaciência e tédio, a vida como se me fosse uma ténia e incompreendendo rompendo de silêncio ou raiva gasto-me a viver o que não quero.

sábado, dezembro 10, 2016

terça-feira, dezembro 06, 2016

Dirás

.
Se em ti voam negras em círculo, urrando e uivando, e tombas de morte, uma luz pousará e voz tépida dirá bem, dissipando as aves da escuridão medonha. Deixa-te ouvir a paz e dirás amor ao mundo. Saboreando-o é mais fácil fazê-lo.

Outro sítio

.
Às vezes tenho de aceitar a realidade e dizer que sou mais gasoso do que sólido. A verdade interessa-me pouco e tenho medo da matemática, uma manta de aço oxidado. Durmo nesta rua mas vivo no sítio do querer, onde estarei depois de morrer. Ninguém entende por que voo. Ninguém me entende porque voo. Ninguém vê. Sou triste por tudo isso.

Estar quando ser

.
A luz é incapaz de ser som e a cor está a que se quer. A quietude diz melancolia e solidão.
.
A vida quando vai, fica

Noite

.
A noite não tem horas, começa e acaba e antes desfaz-se da luz e depois deixa-se afogar de claridade.
.
À noite vê-se o Caminho de Santiago e as sombras mal se vêem mesmo ainda que a Lua.
.
A noite é um fundo de cenário quando pelo palco vagueiam snarks.
.
No teatro há peixes voando e as florestas são orvalhadas como nas lendas.
.
À noite já vazio, o teatro é só noite. Ser só noite é poder ser quase tudo.
.
Sob as estrelas há melancolia e pensamento. E a solidão que deixa ver a Via Láctea é um unicórnio triste.
.

Letra H