digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

quarta-feira, novembro 04, 2009

Os siameses e o Pequeno João





















Dois amigos, muito amigos, no género gémeos siameses, entram num restaurante e sentam-se numa mesa banhada pela afável luz do Sol. Os dois parceiros juntam-se com regularidade para comer, seja almoço, seja jantar. São siameses porque concordam em tudo e pensavam que só em completa sintonia se pode ser absolutamente amigo e, em última análise, feliz. Quando se abancam pedem a mesma coisa, nem discutem ou duvidam.
.
Naquele começo de tarde no restaurante das alegrias sentaram-se os siameses com vontade de conversar e repastar como habitualmente, como sempre, como só podia ser. Sentaram-se enganados, sem que alguém os levasse ao engano. O enguiço aconteceu por culpa própria, certamente por desacerto astral. Há coisas bizarras que acontecem no céu e desta vez foi à hora do almoço.
.
Escrevo aqui parte do diálogo o melhor que sei, posso e lembro. Digo já, em avançado, que a minha memória já não é o que era, mas continua fiável. Foi assim:
- O que desejam os senhores para almoçar – perguntou o empregado.
- Ovos mexidos com espargos verdes e peixinhos da horta para entrada – afirmou um dos siameses, sem que o outro deixasse o jeito distraído.
- Sim senhor – respondeu o empregado antes de fazer a fatídica pergunta – e para prato principal o que vão querer?
- Ensopado de borrego – exclamou peremptório o mesmo siamês.
.
Foi neste preciso instante que se sentiu um estranho fenómeno meteorológico no Canadá, em resultado duma borboleta ter batido as asas na Austrália. O outro comensal arregalou os olhos e não hesitou em contestar a escolha. Absolutamente não! Gerou-se uma profunda discordância entre os dois. O conflito terminou com uma sábia pergunta do empregado:
- Por que não pedem pratos diferentes? - Fez-se luz e depressa se celebrou um feliz acordo.
- E para beber? – prosseguiu.
.
A situação astral realinhou-se e o consenso voltou a reinar. Mandaram vir Pequeno João 2004, um tinto Regional Alentejano.
.
Os dois amigos compreenderam, naquela refeição, que a amizade não tem de ser simétrica, absoluta e mimética, embora se faça de elementos comuns entre as partes e assente em cumplicidades. Os laços fortaleceram-se, então. Saíram os dois mais felizes do que entraram. E brindaram com aquele tinto. Claro que brindaram, até porque é um vinho «daqueles».

Com cogumelos, trá lá lá lá





















Questiono-me por que não se vêem nos quadros vinhos de colheita tardia ou indícios da sua degustação, pelo menos que me lembre em memória a olho nu. É estranho, visto terem um carácter tão particular e serem bastante apreciados. Aliás, os famosos Tokay – produzidos numa região que se divide hoje entre a Hungria e a Eslováquia – pertencem a esta categoria, são antigos e foram, até à chegada ao estrelato do Vinho do Porto, o grande vinhos das cortes europeias. Depois há os Sauternes, não menos famosos.
.
Mas a verdade é que não me recordo de ver um colheita tardia na pintura. Aliás, nem serão muitos os vinhos brancos retratados… se é que há algum. Talvez a minha memória precise de descansar e de algum magnésio. Certamente a razão deve-se mais à beleza e impacto visual dos tintos. A menos que nenhum pintor nunca tenha degustado estes vinhos especiais.
.
À laia de vingança, pela ausência de referência na pintura, deixo uma dica gastronómica: Seguram-se, delicadamente e com amor – porque são muito sensíveis e simpáticos - os cogumelos portobello e tira-se-lhe o pé. Na cratera do fungo coloca-se fois-gras – ou uma outra pasta de fígado – e, sobre esta, uma rodela de queijo de cabra. Os cogumelos vão, então, a gratinar no forno. Posto isto, é só servir e comer. Para melhor os degustar, é favor servir um vinho de colheita tardia e à temperatura certa, nunca acima dos dez graus.
.
A beleza da ligação está nos fígados e não tanto nos fungos, pelo que a receita é dispensável. Se em vez dos cogumelos servir um doce, também não vai nada mal. Antes pelo contrário. Um colheita tardia acompanha bem o chocolate, tartes e alguns bolos.
.
A sugestão vai para o Quinta da Romeira Colheita Tardia 2004, um vinho de cor dourada, da região de Bucelas. Que tal parece? No nariz notas de frutas, como a pêra e a laranja, além de baunilha e especiarias. Na boca é gordo e doce, com boa acidez, dada pela casta arinto, embora o lote seja composto também pela sercial.Posto isto, estou mais guloso e vou deixar-vos para ir às compras. Não será muito difícil de imaginar o que vou, então, comprar.

Um vinho romântico, se faz favor

Estava a ouvir o «Octeto de cordas» de Max Bruch, uma composição para quatro violinos, duas violas, um violoncelo e um contrabaixo, quando me lembrei dum vinho...
- Será grave andar sempre a lembrar-me de vinho?
- Não será – disse-me o doutor – se os vinhos em que pensar forem de encantar. Esses não fazem mal, fazem bem.
- Oh! Senhor doutor... Os meus vinhos são todos de arte – magiquei.
.
Na verdade desconhecia por completo esta obra deste compositor alemão do período romântico, nascido em Colónia em 1838 e ido em 1920. Desculpo-me com o facto de a obra ser pouco divulgada. Suspiro aliviado quando oiço o radialista da Antena 2 afirmar o facto. Alívio! Alívio! A minha ignorância talvez tenha cura.
.
Para não estar a laborar sozinho, em manifesto egoísmo intelectual, partilho desde já o nome do vinho: La Rosa Reserve 2004. Este é o topo de gama dos vinhos de pasto duma casa que produz ainda belíssimos Vinhos do Porto e que se encontra estabelecida no Pinhão.
.
O que tem mesmo a ver o «Octeto de cordas» de Max Bruch com o La Rosa Reserve 2004? Para começar a região do Douro é musical e romântica. As encostas trabalhadas são uma odisseia, são trágicas, são cénicas, são teatrais. Do Baixo Corgo ao Douro Superior tudo está mergulhado na memória dum passado belo. Não há em Portugal região vitivinícola mais romântica do que o Douro. Porém, tudo isto é genérico para classificar um vinho.
.
É obviamente difícil, ou mesmo impossível, comparar duas artes ou técnicas diferentes. Quando se faz vinho com elevação e aprumo para que seja mais do que uma bebida e alimento e seja conceito e objecto estético a dimensão da palavra amplia-se. Ao ouvir o «Octeto de cordas» de Max Bruch senti a mesma vivacidade, harmonia, alegria e elegância que presenciei no La Rosa Reserve 2004. Tudo o mais que possa disser será abusivo e forçado.
.
Quanto ao vinho, na sua matéria corpórea, nota-se uma boa madeira e simpático equilíbrio com a fruta. Porém, isto são descritores e nada dizem assim a seco. Que importam? Gosto mais de pensar noutras associações. Dizem-me mais!...

Abandonado? É para ficar!

Sentei-me a ver passar as nuvens, à espera de ver acontecer alguma coisa: um acontecimento marcante, uma instante inesquecível ou uma chispa de eternidade. Na varanda de casa, com vista para o Panteão Nacional de Santa Engrácia, não se vislumbra nada além da Primavera e do Tejo.
.
À frente, mesmo diante da vista uma faixa de azul passante a imitar a cor da abóboda celeste. Por cima, uma tontura ao revirar a cabeça: tanta beleza neste tom profundo que embriaga. Se fosse possível tornar sempre a esfera corpórea voltar-se-ia com os olhos ao ponto inicial, mas o pescoço não deixa chegar nem chegar à linha de cor atijolada que fica por baixo do azulão do Tejo e que vai encosta abaixo, em relação ao ponto em que me encontro, até ao rio maior da península que mais além desagua, mais à frente, mais à frente.
.
É neste ponto, de vista sempre diferente, ainda que sempre estática, que gosto de estar: de manhã, à tarde, ao anoitecer, à noite, de madrugada e ao alvorecer. Estou quase sempre. Nunca! Nunca cá estou. É como se não estivesse. A vista é sempre diferente. É um ponto neutro, com a paisagem estática fixa e o cenário em permanente mudança. Este é o local de encontro de todos os afectos.
.
É aqui que gosto de abrir os meus melhores vinhos e dos partilhar com quem amo: as mulheres da minha vida, mais aquelas que julguem serem as grandes paixões e os grandes amigos. Intermináveis conversas à volta de um tema ou a dispersar as palavras que se poisam em muita fruta.
.
Num jantar, outro dia, passei com a minha companhia da mesa para o miradouro da casa e ali ficámos a apreciar o vinho. Que efeito tem? Tem o de amplificar o prazer do enófilo, porque o vinho não é uma coisa amorfa: é alimento, é objecto de criação, musa criadora, objecto de luxo.
Dessa vez brindámos com Abandonado 2004 . Este é um tinto e vem duma vinha homónima com 80 anos da Quinta da Gaivosa. Tem um aroma profundo, tão enigmático como é densa a sua cor, que deixa antever um futuro promissor a quem o quiser guardar. No nariz notas de flores e de frutos pretos. Na boca, ginjas muito maduras e chocolate negro. Que tal estava? Magnífico! Abandonado, só de nome. Prolongado na boca e no prazer.
.
Foi dessa vez que estando sentado a conversar e a ver passar as nuvens, a ver se acontecia alguma coisa, algo surgiu. Uma revelação. Aquele vinho! Um espanto! Porquê ir mais longe?

Folias bordalesas

Há uns anos comi uma carne à bordalesa que ainda hoje a tenho na memória. Foi no restaurante Petite Folie, na avenida António Augusto de Aguiar, em Lisboa. Não me lembro do vinho que acompanhou o repasto, mas apreciei bem o almoço e bastante a tábua de queijos que fechou a aboboda da catedral luminosa que tanto pode ser a boca como a refeição.
.
Não sei por que disparates da vida, mas não mais retornei àquele rincão, pois ainda existe e tenho notícia próxima que serve tão belamente quanto naquele dia me serviu. Ando constantemente, há anos, a repetir a frase: tenho de lá ir.
.
O Petite Folie é um lugar de comida francesa e veio-me à memória hoje, porque tenho andado com apetites afrancesados. Ainda não tenho idade para escrever memórias, apenas para ter apetites. E nas últimas semanas o paladar anda a embater na liberdade, fraternidade e igualdade. Como posso explicar isto? Adolescências...
.
Adolescência? Ai! Vêm à memória – ainda é muitíssimo cedo para a escrever – um Verão em França... ou dois Verões... Os olhos azuis e os cabelos loiros. Na altura os corpos não se preocupavam com o vinho!... Ai! Saudades!
.
A propósito de francesices, anda por aí um vinho feito na Bairrada à moda de Bordéus: o Calda Bordalesa, cujo nome evoca a região e cria um trocadilho com o produto que se jogava às vides. Este tinto faz-se de três castas de boa nomeada: cabernet sauvignon, merlot e petit verdot. O cabernet sauvignon domina, manda mais, com maior percentagem. Porém, está bem tratado, sem aquela sensação a pimento ou a pimentão que tantas vezes implica na boca. As uvas da merlot dão muito de si, em boa e franca quantidade. O petit verdot vem em menor quantidade, mas em maior abundância do que na região do Médoc. Em cada ano, o lote do Calda Bordalesa faz-se com diferente proporção destas três uvas, o que é natural.
.
O Calda Bordalesa de 2004 tem um embate um pouco químico no nariz, mas na boca todo ele é elegância. Não é um típico vinho da Bairrada. Não é um bordalês. É um desafiador tinto, que se pode beber já ou esperar por ele mais uns anos.
.
Por enquanto, fico a tecer apetites e a concretizar alguns... para que um dia possa ter memórias. Já que ano com apetites afrancesados, acho que hoje vou abrir outra garrafa desta ou, então, jantar uma carne à bordalesa ao restaurante há tanto adiado.

Vinho para o meu amigo sábio














Tenho um amigo meu que é sábio e que tem uma certa mania que é ribatejano. Não se julga emproa com tiques marialvas, não se ginga para fazer sobressair demasiadas horas em cima da sela, mas tem um um jeito. Na verdade também tem muito de lisboeta, porque o é.
.
Na verdade, o meu amigo sábio é um misto, em versões suaves e polidas, dum castiço alfacinha da Graça e dum orgulhoso ribatejano. Um lado herdou do pai e da convivência e o outro da doce e simpática mãe, que veio ao mundo na Golegã.
.
Pois bem, o que faz um sábio? Os sábios podem fazer muitas coisas... tal como os génios. Noto aqui que o meu amigo não é um génio, mas um sábio, o que tem muito mais mérito. Nasce-se génio, mas aprende-se a ser-se sábio. Bem, é filósofo. Um dia percebeu que andava errado na sua vocação de jornalista, fez as malas e partiu para Paris onde fez um doutoramento sobre Michel Foucault. Hoje, diz coisas simples sobre assuntos complicados, mas quando quer afirma complicadíssimas e elaboradas sentenças. O homem é sábio!
.
Agora faz também palestras e outro dia mandou-me um email a felicitar-me pelo meu aniversário. Estava no Brasil para um ciclo de aulas e conferências. Naquele dia, em concreto, estava em Angra dos Reis... Ele sabe-a toda. É sábio.
.
O que tem isto a ver com vinho? Tem que, como todos os emigrantes, tem saudades da terra e, é claro, do vinho português. A vida nem sempre é fácil para procurar o que se quer nas garrafeiras parisienses e depois há as dificuldades da escolha. Assim, numa conversa telefónica ficou prometido um jantar... Porque, o meu amigo é sábio não lhe posso servir coisa simples de entender ou de entendimento sem o gozo da descoberta. Porque o meu amigo tem raízes ribatejanas fica a promessa do néctar vir duma quinta daquela província. Assim, o vinho será um tinto com boas notas vegetais e elegante. O Quinta da Lagoalva Reserva 2004.
.
É que depois duns anos em que estas paragens andaram tristes e esquecidas, felizmente há também gente sábia a fazer bons, modernos e interessantes vinhos pelo Ribatejo. Depois desse jantar, vai para Paris mais sábio o meu amigo sábio... e eu mais feliz com o convívio desse repasto.

Monumento nacional





















O Quinta do Vale Meão 2004 é elegante e majestoso, fácil e simpático. É um Rei! Ainda estou maravilhado e sonho com ele quase todas as noites.
.
Gostei quando subi ao monte Meão e avistei a foz do Sabor e as suas águas a juntarem-se às do Douro. Lá de cima avistam-se duas belezas, no mínimo, uma bravia e outra que o homem fez, ou melhor, uma mulher mandou fazer.
.
A Quinta do Vale Meão foi a última obra de Maria Antónia Ferreira, a Ferreirinha e hoje aquela quinta é um primor de vinhedos e olivais. Aquela senhora é célebre e já o foi mais. Dela se contaram inúmeras estórias e rumores. Costa que teve amantes e garantem que foi casta. É sina de quem faz obra a colheita de invejas e maledicências. Importa a herança.
.
No cimo do monte Meão, ali no distante concelho de Vila Nova de Foz Côa, é visível a obra. Dum lado está a beleza selvagem e improdutiva da terra que o marido da Ferreirinha, Silva Torres, não quis arrebatar em leilão e do outro o encanto arranjadinho da lavoura. Mas a questão está mais além do que a ordem em que as parcelas se encontram, está na qualidade dos produtos obtidos e no empenho que aqueles agricultores têm no seu trabalho.
.
A natureza só é generosa para quem a entende e sabe com ela trabalhar. Não há genialidade gratuita. Tudo o que é bom tem uma parte de natural e inato e outra de sabedoria, técnica, esforço e paciência. Há quem possa ou queira acrescentar a sorte, mas nisso não acredito, pois na Quinta do Vale Meão fazem-se vinhos bem feitos há anos sucessivos, pelo que não a qualidade dos espíritos não é fenómeno, mas constância. Há uns anos, a influente e prestigiada Wine Spectator classificou a colheita de 2001 como o vigésimo melhor vinho do mundo. Um feito! Um orgulho com noventa e tal pontos na escala de cem pontos. Este ano, a mesma revista pontuou com noventa e sete (97) pontos o Quinta do Vale Meão de 2004... a mais alta classificação atribuída pela mais influente revista da especialidade a um vinho português que não Vinho do Porto.
.
Confesso-me esmigalhado! Não pela pela pontuação, mas pelo vinho. Fiquei tão deliciado com este tinto que me socorro às palavras de outrem para me exprimir, citadas por grosso sem grande rigor.
.
Dizia-me uma amiga enófila que «muitas vezes os grandes vinhos dão luta, criam dificuldades a entenderem-se, mas que este deixa-se beber com uma enorme facilidade e alegria». É isso! É um vinho muito fácil, extremamente guloso, mas que deixa prontamente perceber que é um Rolls Royce. A colheita de 2004 é um monumento!

Freixo de copo na mão





















Às vezes não sei onde ponho os pés e tropeço. Nem sempre caio, felizmente, mas bato com os pés em muitas coisas, umas grandes e outras nem tanto. Deve ser karma de ter uns pés tão adultos. Tropeço em coisas muito diferentes, o que me permite encontrar algumas preciosidades, além das mais costumeiras contusões e nódoas negras.
.
Uma vez andava eu, feito mono, aos pontapés à vida e dei comigo em Freixo de Espada-à-Cinta. Digo aos pontapés à vida, porque cheguei até àquela vila sem esperar nada, quando devia esperar tudo. Pensava:
- Mas o que raio se passa em Freixo de Espada-à-Cinta? O que faz alguém viver ali? O que os prende àqueles torrões ermos?
.
A minha arrogância e frieza de lisboeta custou-me uma lição. Aprendi (?) que se as gentes estão em algum lugar é porque lá devem fazer falta e alguma coisa de útil estarão a fazer. Pelo menos têm o direito a querer lá estar, ainda que a minha cabeça pequenina não entenda.
.
Bem, mas voltando à estória de Freixo de Espada-à-Cinta... Cheguei ali por causa duma iniciativa inovadora dum empresário irrequieto, com ideias para levar gente a uma terra onde não passa quase ninguém. Lá fui a dar pontapés na vida à espera de narrar mais um investimento, do qual se espera sucesso. Dei por mim numa quinta de calhaus à flor da terra.
.
A primeira coisa que percebi foi o significado de crosta terrestre. É verdade! Uma coisa é ter-se terra, essa substância mais ou menos macia, e nela fazer-se agricultura e outra é ter-se um campo de pedras. Depois tudo se acelerou e modificou na minha cabeça, sobretudo quando provei o vinho proveniente daquelas cepas enraizadas no chão pleno de xisto.
.
A reportagem fez-se e lembro-me dela porque a ideia inovadora era mesmo boa, mas o que recordarei sempre mais há-de ser o vinho e o chão da Quinta de Maritávora.
.
O concelho de Freixo de Espada-à-Cinta ainda está incluído na Região de Demarcada do Douro, no Douro Superior, e naquela quinta fazem-se um tinto, um reserva branco e um reserva tinto.
O Quinta de Maritávora Tinto Reserva de 2004 tem um belo corpo, bem equilibrado, a sentir-se a fruta e a notar-se bem a madeira. É um vinho de espantar. A mim, tirou-me todas as peneiras!

O filho do Roseira












Dois amigos fazem vinho como quem está à conversa. É coisa séria a amizade e, por isso, os vinhos que fazem são de alto lá com eles. Um chama-se Luís Soares Duarte e é enólogo e o outro chama-se João Roseira e é vinhateiro militante.
.
Tem pouco mais de 350 habitantes, a aldeia de Gouvinhas, no concelho de Sabrosa. O que tem a terra para ver? Uma pedra de armas na parede duma casa, uma igreja e uma fonte pública. O que tem Gouvinhas para ver? A família de que lá tem parentes e as vistas do vale do Douro, as vinhas.
.
É numas dessas vinhas, numas já com mais de 60 anos, que nasceu um dos mais belos vinhos daquela região vinhateira, que foi buscar a marca ao modo antigo de dizer o topónimo: Gouvyas.
.
A empresa Bago de Touriga faz mais do que um vinho, por isso convém, desde já, esclarecer que há um a encantar mais do que os outros, embora não conheça nenhum com aquele nome a desagradar no nariz ou na boca. O mais apaixonante é o Gouvyas Vinhas Velhas e o que me faz escrever é o da colheita de 2003.
.
Muito daquilo que somos transmite-se àquilo que fazemos. Por isso, o vinho não tem de ser diferente. O João Roseira é vinhateiro militante; vive o vinho com paixão e não apenas por ser o menino da Quinta do Infantado. Depois, além dos copos, tem a mesa. Na tradição portuguesa, o vinho vai com comida e esta escorrega bem com vinho. Pois este cavalheiro sabe-a toda e conhece onde se prova e manja como deve de ser. Basta conversar com ele um pouco e percebe-se que é homem de garfo e copo, apesar do corpo enganar os olhos. Assim, o Vinhas Velhas é uma sabedoria. Ele sabe onde estão as uvas e com o seu amigo Luís Soares Duarte deve passar horas a conversar sobre o que as uvas vão dar e o que vão permitir fazer.
.
Já que se falou na mesa e no prazer que o produtor tem com os repastos, deixo aqui as recomendações do João Roseira para o seu vinho mais lindo: «atum vermelho e tomates confitados ou terrina de pato sobre redução de Porto». As escolhas do vinhateiro são limitadas e até redutoras, compete agora à imaginação, ao paladar e à curiosidade de quem lê criar mais passeios de sabor.
.
O Gouvyas Vinhas Velhas 2003 faz-se com uvas de quatro hectares, de duas parcelas, uma em Soutelo do Douro e outra de Vale Mendiz. As vinhas quando envelhecem produzem menos, mas dão melhor fruta. Por isso, fazer vinho com uvas de vinhas com mais de 60 anos é uma aposta da qualidade. E o que se conseguiu nesse ano? Um tinto poderoso, com 14,5% de álcool, que não agride, pois está muito equilibrado e elegante. O paladar e o aroma são intensamente durienses, com fruta madura e esteva. É um vinho bem macio e sedutor.
.
O que tem Gouvinhas para se ver? Pouca coisa ou mesmo coisa nenhuma. É uma aldeia como tantas outras no vale do Douro. No Douro há muito para ver, mas Gouvinhas talvez não tenha nada para ver. Contudo, a aldeia tem um nome para provar.

O seis é um número mágico















Houve um jantar de amigos que ficou conhecido pelo jantar dos «aahs», porque houve vários espantos nessa noite. Diria que houve assombrações à mesa! A matemática está em tudo, tal como a física. Por mais que se não queira, a força da gravidade existe. Por mais esclarecidos que sejam os cérebros e vanguardistas os pensamentos, as leis universais fazem-se sempre sentir nos corpos. Não há volta a dar.
.
A sessão de transcendência fez-se em torno dum número mágico: o seis, que é um número natural e o primeiro número perfeito, visto que os seus divisores um, dois e três somados atingem o seu valor. A seguir entrou-se pela poesia adentro e encontrou-se um hexágono.
.
Para que não haja confusão há que esclarecer conceitos: o hexágono é um polígono regular com seis lados e seis ângulos, cuja área se calcula através duma fórmula complicada e de difícil transcrição para alguém de formação em História. Todavia, e para que os leitores mais curiosos saibam o que é um hexágono, deixo o modo de desenho: traça-se uma recta e nela coloca-se um ponto que será o centro duma circunferência. Nos pontos de intersecção da recta com a circunferência traçam-se linhas curvas que irão interceptar a circunferência, em cima e em baixo. Desta forma obtém-se os diversos pontos de intersecção dos segmentos de recta que irão formar o polígono. Basta, então, apagar todos os riscos de estrutura e deixar estes últimos traços.
.
Portanto, foi num dia cabalístico que decorreu o jantar que vos narro. Nesse dia, a Nês e o Turco entretiveram-se sabiamente na cozinha durante a tarde, inventando prazeres em carnes vermelhas, escolhida aprimoradamente e bem temperada. Embora com grandes cuidados e atenções, para que fossem prazenteiros os minutos, tudo decorreu sem cerimónia ou complicações.
.
Para além dos dois anfitriões e de eu próprio, estavam ainda presentes o Alex, o Ares e o Nasser. À mesa. À mesa estávamos seis, é claro. Sobre a tábua estava Hexagon 2000, o vinho maior das Terras do Sado e grande obra do enólogo Domingos Soares Franco.
.
Este tinto, que só se vende em garrafas magnum (litro e meio), é uma festa de tâmaras, chocolate preto, bagas silvestres e tabaco. É complexo, suave e extremamente guloso e desafiante. Os golos sucederam-se alternados com exclamações onomatopeicas de prazer e admiração. De vez em quando surgia um adjectivo, mas estávamos todos abazurdidos com aquela bebida feita de seis castas (touriga nacional, touriga franca, tinto cão, trincadeira, syrah e tannat) em seis diferentes parcelas de terreno. Forma de admiração distinta só a do Ares que foi preferindo banhar-se com o vinho.
.
Encontrar o Hexagon 2000 já não vai ser muito fácil, mas muito em breve a José Maria da Fonseca vai pôr à venda o Hexagon 2001. Ainda não o provei, mas consta que vem mais poderoso. Todavia ainda sei onde existe e sei que Domingos Soares Franco não desilude, muito menos na obra maior.

Já estava à espera que fosse bom, mas tanto!...
















Fico feliz com ameixas, frutos silvestres, baunilha e especiarias. Não é pouco o contentamento quando há equilíbrio e inteligência. Haja alegria e swing!
.
Tenho um amigo a quem chamo de Citrão. Citrão é um citrino muito grande, um grande limão. Os limões são bem dispostos e felizes, embora ácidos. Pois esse meu amigo tem por vezes uma acidez delirante no humor, o que muito me diverte. Houve uma altura em que teimava em vestir uma camisola verde, muito verde, que o notava entre os demais. Foi por essa altura e por essa razão que comecei a tratá-lo por Citrão. Tirando a acrimónia humorística, o companheiro é calmo e fixe, parceiro de muitas aventuras e grandes conversas, e ultimamente tem andado a apreciar vinhos, sobretudo tintos. Ora, outro dia surgiu-me lá em casa para jantar e foi-me à garrafeira.
.
Na verdade, fui eu quem decidiu o que se iria manjar e o que beber. O acontecimento ocorreu em Agosto, numa daquelas noites que desceram, felizmente, não muito quentes e que, por isso, permitiram servir um tinto mais exigente, daqueles que, por regra, só calham bem quando o Verão já se passou. Ainda assim tive o cuidado de verificar a temperatura e de o esfriar um pouco, para que na mesa estivesse nuns aceitáveis 18 graus.
.
Embora com o ar a temperatura amena, houve atenção com a ementa, para que o pasto não pesasse nas barrigas. Preparei uns peitos de galinha do campo de tomatada com amêndoas tostadas, juntei-lhes fetuccine fresco. Reconheço que ponderei se a refeição teria arcaboiço para aguentar o vinho que escolhera para aquela noite: Cortes de Cima Reserva 2003. A escolha não desacertou, embora o tinto aguentasse e pedisse mais.
.
O Cortes de Cima Reserva 2003 não é vinho de todas as vindimas, é um quandocalhário, quero dizer, vem quando calha bem, quando a natureza faz umas piruetas diferentes e as uvas amadurecem melhoradas. Acontece que este tinto é também uma estreia da empresa alentejana. .
O Citrão provou e soltou uma exclamativa de agradado. Eu soltei outra. Estava à espera que fosse belo, mas estava a surpreender-me.
.
É um vinho com complexidade, onde ameixas pretas maduras e pequenos frutos vermelhos festejam na boca, há também nuances abaunilhadas e de especiarias. É um vinho muito macio e agradável, com muito carácter da planície. Quem gosta dos tintos alentejanos vai, certamente, apreciar este. Feliz por nos sentidos não se sentirem agressões pelos 14,5% de álcool.
.
O meu amigo Citrão, que é músico, encontrou-lhe depressa o ritmo, o swing e num estanto estava a entoar melodias dedicadas à sua musa: a touriga nacional, casta que faz parte do lote deste tinto (19%) a par da aragonês (39%) e da syrah (42%).
.
O belo bebeu-se escorreitamente sempre em evolução, sem sobressalto e sem cansaço. No final estava muito melhor do que na entrada. Quando puder volto a prová-lo e ainda com mais calma... ou não fosse um regional alentejano.

Uma estória com groselhas





















Se um melro come groselhas, por que não hei-de eu bebe-las com um prazer feliz nestes dias de calores? Descobri-as numa garrafa vinda do Dão.
.
Hoje vi um melro! Sim, senhor! Um melro em Lisboa! Ía apressado a descer a avenida da Liberdade e tive um vislumbre de alguma coisa estranha que não batia certa com o corrupio habitual de carros para cima e para baixo, com o desatino das buzinas, mais as pressas dos informais e dos executivos e dos engravatados. Continuei a andar tentando perceber o que via e não discernia, sabendo que não eram os pombos sujos nem os pardais aos saltinhos.
.
Quando descobri que era o negro profundo duma ave a estranhar-me nos olhos parei instintivamente. Sou lisboeta e como tal cresci com os corvos no imaginário. Porém, tal ave nunca vi sem ser engaiolada ou distante da cidade. Estranhei feliz. Nesse primeiro embate face ao preto da penugem foi o que pensei, mas a vista foi-se habituando e aos poucos notou que o tamanho do bicho não era o do corvídeo. Era um melro. Que pássaro bonito!
.
Como sou um emocional e um pinga-amores, dei por perdida a tarde e esqueci-me dos afazeres importantes previstos. Nem me dei ao trabalho de telefonar a avisar que iria chegar atrasado ou nem apareceria. Sentei-me embevecido a admirar as tarefas da sobrevivência do melro e a meditar sobre a vida.
.
O melro vinha ao chão e picava aqui e ali e levantava vôo em direcção a uma árvore de que não sei o nome. Depois voltava e tornava a ir. Tinha por ali o ninho. Era um macho, pois era todo negro com o bico de amarelo-alaranjado. As fêmeas têm o dorso preto, mas o ventre é malhado em tons de cinzento e branco. Infelizmente para os meus ouvidos não o escutei a cantar. Constou-me que o seu canto não é menos belo que o do rouxinol. Não sei. Tudo isto desconhecia quando me sentei no banco de madeira da avenida a observar a azáfama do pássaro, escrevo agora, porque cheguei a casa fascinado e fui ler sobre o turdus merula.
.
Para falar com franqueza não sei ao certo quanto tempo estive ali a passarinhar na avenida. Provavelmente nem terá passado de meia hora. Foi mais do que tempo para ganhar um dia para recordar. Marchei para casa, abandonando o carro onde o deixara de manhã. Nesse dia tinham chegado à mercearia do meu bairro as primeira cerejas. Na loja havia também framboesas e groselhas. Que apetite me deram aos olhos! Que calor estava! Um dos primeiros calores do ano. Levei saquinhos das três frutas e fui para o terraço ver os telhados e as pessoas pequeninas lá em baixo na rua. Que festa de vermelhos e que doçuras suaves! Que calor aquele, nesse dia!
.
O Verão estava já a anunciar-se e tomei uma decisão: festejá-lo. Fui à minha garrafeira buscar uma sugestão dum amigo para os dias quentes: o rosé da Quinta da Giesta 2005, feito com uvas touriga nacional, na região do Dão. Ah! Exclamei, depois do provar! Era mesmo aquilo! Um tónico. Não há dia quente que resista a um rosé. Sentei-me na minha cadeira preguiçadeira a ler sobre o melro e a degustar o belo do vinho. O pássaro come bagas e pequenos frutos, entre eles groselhas. Aquele vinho tem um toque suave e um inconfundível perfume a groselhas e um fiozinho de morango. Na boca tem uma elegância, é afidalgado e tem finura. Que delícia! O vinho é bem frutado, a groselha, pois claro, e ligeiramente doce. Li o que tinha a ler e deixei-me estar a saborear o vinho, com o Sol a ir-se a bater-me na cara e o melro a voar na lembrança.

Fantasia para uma mulher ideal




















Foi pela beira mar que ele a levou e enquanto a espuma salgada lhes molhava os pés segredava-lhe brincadeiras e coisas sem importância que a faziam rir. Ela cumpria corando de vez em quando e saltitando para não se molhar toda, mas as pontas da saia tinham já outra cor, aquela mais viva que fica quando a água toca. Dia feliz aquele de maresia com ondas mansinhas e ruído enrolado calmo do mar.
.
Amélia é alta e fina, até de cintura, gosta de se vestir quase só com um vestido quando passeia pela praia e naquele dia usava um curto colar de pérolas e um grande sorriso. Em muitas circunstâncias tem o temperamento duma Amazona, nessa tarde no areal deserto de gentes, era toda doçura e sedução.
.
As pegadas ficaram para trás num trilho a pegar-se no fim da linha, a maré começara a vazar no começo dos passos. Os passos trocaram-se de cá para lá e do outro lado muitas vezes e desacertamente com o ir e vir das vagas pequeninas. Os corpos tocavam-se desalinhados e os mãos deram-se atrás das costas ou paralelas aos troncos, desapegando-se nos saltos e sustos provocados pelos descontrolos do mar.
.
Em tantos risos, risinhos, gargalhadas, amuos, cócegas, brincadeiras, molhas, trocas de lugar, toques, dares-de-mãos e abraços nunca houve, porém, espaço para um beijo. Nem mesmo para um dos mais pequenos. Nem mesmo para um daqueles no rosto. Não que faltasse vontade a ele ou a Amélia, mas porque tudo o resto foi muito mais divertido e um beijo depois de dado já não se pode tirar.
.
A praia era tão longa que os passos voluntariosos não chegaram para a fazer toda e só a certeza de que a maré voltaria a subir, o Sol a descer e a temperatura a baixar fizeram inverter o passeio, sem que nenhuma das brincadeiras ou dos assuntos pequeninos do dia deixassem de por ali esvoaçar.
.
Quase no fim de todo aquele areal tão grande está um poiso, mesmo a tempo de retemperar forças, reforçar laços de afecto, aproximar os olhos e, quem sabe, algo mais. Chegaram quando as pernas pediam por alongamento. Não entraram sem antes se espojarem na areia e nela rebolarem, ainda que em decência e vir à superfície dos lábios o tão esperado primeiro beijo: ficaria para outra altura. Como se fosse uma certeza que não valeria antecipar. Posto tudo isso entraram então na casa sem átrio ou formalismo. No entanto, aquele quase casebre veraneante é um cofre-forte de saberes e sabores, uma ilha de prazeres e gulas e naquele já fim de tarde o paraíso de dois quase amantes.
.
Sentaram-se à mesa indiferentes à roupa húmida e parcialmente molhada, esquecidos do sal mal espalhado pelos corpos, apenas cientes de que os corações começavam a bater acertados e do beijo invisível a enlaçá-los aos poucos.
.
Para a mesa mandaram vir camarões gigantes grelhados e vieiras gratinadas. Aí, as vieiras fizeram de fogo de artifício numa noite limpa e bem escura de Verão, e era ainda Primavera! Para acompanhar mandaram vir uma especialidade digna do momento e das iguarias: Bauget Jouette Grande Reserve – um lote de cave. O Champanhe elevou as duas entradas ao estrelato e sublimou o peixe-galo que pediram para reinar na mesa.
.
Com as bolhas muitíssimo finas vieram ao de cima mais risinhos e o carácter vivo e fresco do Champanhe trouxe inteligência e mais sabor à conversa, pois todo ele é feito de elegância, equilíbrio e subtileza, com aroma a cardo, flores e minerais. Feliz e delicado como o amor. Aquele vinho depois duma praia suave e especial foi o coroar dum dia, dum ano, de duas vidas. Já havia tanta tonteria feliz antes, que depois do Bauget Jouette Grande Reserve foi a felicidade plena, até por ter sido uma escolha unânime dos dois. O futuro quando se traça a dois é, por certo, feliz.
.
Os enamorados saíram dali depois do primeiro beijo. O que fizeram a seguir já não se conta. Sabe-se que estão felizes. Há lugares, livros e canções que marcos vidas e relações. Há vinhos também.

Festa de Verão

Não se aguenta o calor. A praia apetece. A esplanada de cidade é uma tentação. A vida de rua quer-se até tarde nestas noites agradáveis. A companhia é rosada regional ribatejana.
.
Subi ao terraço do Hotel do Bairro Alto e o empregado pôs-me à vontade, perguntando-me o que queria beber. À escolha tinha um branco e um rosado, ambos produzidos na Quinta da Lagoalva de Cima, situada junto a Alpiarça. Duas felicidades! Pensei: Que vida dura, esta a minha! Escolhi o rosado e abanquei-me no banco corrido junto à cobertura de ardósia do edifício.
.
Estava uma tarde linda, com um céu muito azul e um Sol a fazer-se de forte, como que a prometer um Verão de grandes calores. Para quem não conhece fica a sugestão de visitar a esplanada deste hotel do largo de Camões e, já agora, de almoçar ou jantar por lá. A ementa é curta, mas adequada à dimensão da sala. Os espaços são bonitos e sofisticados. Lisboa está mais feliz com este espaço. Mas dizia que estava linda a tarde... e estava mesmo. Dali de cima vê-se o Tejo a dar a curva e fica-se mesmo de frente para Cacilhas, há telhados à volta e a descer a colina até ao rio. É um prazer lavar os olhos naquela vista. Fiquei a ver as carreiras de cacilheiros e doutros navios e os rastos de espuma branca nas proas e popas com aquele rosado vivíssimo a falar-me aos sentidos.
.
A tarde ia avançando, a luz minguando aos bocadinhos, o céu pachorrentamente escurecendo e o dito vinho sempre alegre. Eu estava ali por causa do irmão... do mano do ano anterior. Em 2004, o rosé da Quinta da Lagoalva refrescou-me o Verão com contentamento. Agora era a altura de me ser apresentado o da vindima de 2005. O mais recente está ainda melhor, mais urbano e acertado. Os minutos passavam e alegrava-me com o aroma fresco que me vinha do copo. Quando o provava vinha-me à memória maçãs, fruta vermelha, com toque de groselha.
.
O Ribatejo tem fama de fazer homens fortes e bravos. Dali vêm campinos, forcados, ganadeiros e toureiros. Conhecem-se os ribatejanos pelo temperamento rijo e susceptível. São arquétipos, nem todos são assim, já se sabe. Dos vinhos do Ribatejo diz-se que são brutos, rústicos e alcoólicos. Tal como as pessoas são vastas nos carácteres, nos vinhos há muita coisa para ver, provar e beber. Nos últimos anos, têm sido vários os produtores ribatejanos a quererem desvincular-se da etiqueta tantas vezes lhes imposta. Na Quinta da Lagoalva de Cima faz-se vinho de fino trato e a preço amistoso, porque nem tudo quanto sorri nos sentidos tem de pesar nos bolsos.
.
Esta gente da Lagoalva sabe fazer vinho com elegância. Além do Quinta da Lagoalva Rosé 2005, provei o Quinta da Lagoalva Talhão 1, que é um branco refrescante com forte toque a fruta tropical. Este tem uma grande presença de manga sem que tivesse havido um único bago de sauvignon blanc, casta que se presta à oferta de tal sabor e aroma.
.
A mim encantou-me mais o rosé. Não há coisa melhor quando o dia de trabalho chega ao fim e o apetite pede esplanada. Não há aborrecimento laboral que resista a este vinho. Se o dia correu bem, então pode ser uma coroação de fim de tarde. Não podia ter havido melhor fim de tarde naquele dia de Primavera a apartar-se e a prometer-se já ao Verão. Nesse dia soube que no estio vai haver calores com fartura e decidi que passarei muitas horas na praia e nas esplanadas da cidade. Para já prometo dedicar algumas horas a degustar o Quinta da Lagoalva Rosé 2005. E uma promessa é uma promessa. Vou mesmo cumpri-la!
.
Há uns anos duvidava-se da masculinidade dos homens que bebiam rosé, mas hoje bebê-lo é sinal de tino. E se já os ribatejanos o fazem, não há nada a temer! Façam o favor de pedir um rosado, porque é coisa de homem!

Festarola soalheira


















Dois amigos estarolas não sabiam o que haviam de celebrar e marcaram jantar para casa de um deles para festejar coisa nenhuma. Manias de gente solteira já com idade para ter juízo. É o que dá estar-se solteiro quando os dígitos da idade mandam ter filhos. Na verdade um deles até tem três, mas naquele dia não tinha nenhum. Indagaram quais as amizades disponíveis para essa noite e prepararam festim de se lhe tirar o chapéu.
.
Nuno chamava-se o anfitrião e Jorge o convidado co-cozinheiro. Compareceram à chamada três amigas cada uma mais bonita e inteligente do que a outra. Mas sem segundas intenções, que isto da amizade é coisa bonita e para o vinho não azedar entre amigos tem de haver respeito e tino. Só para esclarecer as coisa. Elas foram a Ana, a Inês e a Xana.
.
Na verdade, já na tarde da véspera tinham andado em maquinações e apalavrado jantarada, pelo que havia já alguma coisa preparada. No dia anterior puseram-se à conversa sobre o que haveriam de cozinhar e acordaram num cabrito no forno. Assim o fizeram no dia das festividades. Trataram do anho com os preceitos e rituais que merece e enfiaram-no na mufla para que padecesse de sua sorte. Nisto o Nuno lembrou-se que não sabia o que dar de beber aos convivas. Jorge, mais prático, respondeu-lhe:
- Quando não sabes o que servir, serve espumante. Mas olha que tenho um que não é segunda opção! É primeira! Este não joga a suplente. Vais cair para o lado, é de beber e chorar por mais. Além disso vai lindamente com cabrito.
- Eu não sou muito de espumante, mas estou sem ideias. Traz lá isso, então.
A amizade de Nuno e Jorge é antiga e quando toca a partilhar e a confiar não há bilhar às três tabelas: vai-se directo ao assunto. Nuno condescendeu e mal sabia que teria de dar a mão à palmatória pela dúvida e pela surpresa que iria ter.
.
O jantar correu magnificamente. Foi um fausto e à luz das velas naquela sala com quadros e livros... Foi quase barroco. A Ana foi a primeira a render-se ao espumante. A Inês e a Xana desmaiaram quase em uníssono nos elogios. O Jorge já o conhecia, portanto não conta. O Nuno, porque é torcidinho, ficou calado para aborrecer o amigo até que soltou a língua para aplaudir surpreendido.
.
Não é famoso nos jornais, mas é um campeão: Quinta de Soalheiro Super Reserva Bruto de 1999, feito apenas com uvas da casta alvarinho e com a segunda fermentação feita em garrafa. A casa faz destas avarias apenas em anos especiais. Depois da colheita de 1999 a data seguinte, que irá em breve debutar no mercado, é a de 2002.
.
É quase onde o Minho se levanta para se encrespar numa montanha de verdes, que o separa de Trás-os-Montes e da Galiza, que vem ao mundo um vinho fino, digno de príncipes e princesas. Nasce em Melgaço, na sub-região dos Vinhos Verdes de Monção, numa quintinha com chão de granito e sem diminuitivo, mas ele é um superlativo de agradável e surpreendente. As uvas são todas da casta alvarinho. Tem bolha persistente e viva e ali há gosto a fruta e toque a mineral. É complexo e sofisticado... deixa-se beber com uma alegria incomum. Aguenta tudo, menos a sobremesa. Retrai-se no doce, porque lhe falta o açúcar. Ainda bem!
.
Os amigos galhofaram a noite toda espantados com os dotes de mesa do Nuno e com as bolhinhas finas e brincalhonas do espumante de Vinho Verde, entre disparates e afirmações sérias sobre a vida. A amizade é uma conversa colorida.
.
Esta estória narrei-a tal e qual ma contaram sem tirar nem pôr vírgula. Provei só o vinho por curiosidade, para saber do que me tinham contado. Falaram verdade. É um belo vinho.

Churchill e as violetas

É nos lugar improváveis que acontecem as surpresas. A Primavera é fértil nesses acontecimentos... e a espécie humana, tão inteligente, ainda se espanta.
.
O Zé enerva-se com calma. Só põe os olhos sérios e faz apenas uma expressão de chá agitado numa xícara (sem transbordar). O Gil é destravado e divertido como um autocarro «tunning».
.
Num dia de Março houve um almoço de gritos, que só não foi de gritos porque ninguém gritou. Mas só faltou isso. Há coisas que quando começam mal estão fadadas a acabar bem, muito bem.
.
Se há coisa que Gil Magriço deteste é passar a hora de almoço sentado à mesa com o trabalho. Preferia alimentar-se a pílulas e produzir mais do que pachorrar a ter de debater com a comida à frente. Por cada pausa para dizer algo de proveitoso recrimina-se por não estar a apreciar o repasto. Por cada garfada saboreada culpabiliza-se por não gastar os neurónios em cálculos e somas.
.
Se há coisa que o Zé aprecie é descontrair-se ao almoço, mesmo que a conversa desague em débitos enquanto contorna um copo de tinto e finta as entradas.
.
Os dois reuniram-se ao almoço num dia de Março. Nesse dia, Gil saiu disposto a fazer um esforço... ou dois: deixou que o parceiro escolhesse o restaurante e vestiu um fato. Este último é um feito e tanto, ou não fosse o Magriço um trintão com o síndrome de Peter Pan. Enfiou-se num meia-estação cinzento-claro, que bem combinou com uma camisa de azul-pálido. Quis pôr uma gravata, mas a que lhe convinha era alaranjada e não a tinha. Estava muito confortável e bem-posto no conjunto Dielmar – a marca portuguesa que a Rita, miúda afinada no gosto e acertada na moda, o convenceu a seguir – mas estava desgolado e sentia-se despido. Na rua compôs-se, depois de jogar a mão a uma violeta dum jardim, que enfiou na lapela.
.
À hora combinada mais uns minutos o Gil chegou à Doca 6 – atrasado porque parou embasbacado a sonhar com os veleiros e para as estrelas de luz no firmamento de Tejo. O Zé disparou perfurante contra o atraso do amigo e parceiro de afazeres.
– Olha lá, isto é que são horas?
– Estás rico ou isso é de imitação? Aposto que o ponteiro dos segundos dá saltinhos. Mandas-me bocas sobre o atraso só para mostrares um Rolex falso? Ora deixa lá ver o teu ChinaTownex!
Já passava do dia 21, já era Primavera e Gil, como a generalidade dos humanos, esquece-se dessas enormidades pequeninas da vida. O ponteiro dos segundos deslizava suave e macio pelo mostrador, tão mais bonito do que os parecidos. Magriço ainda perguntou do que era feito o rosto, mas Zé só respondeu que se chamava Cellinium. Uma voz interrompeu para indicar a mesa, pondo fim a uma conversa que iria dar a números, local onde nenhuma parte ia querer chegar.
.
As barrigas davam horas, muitas horas. Primeiro veio do Alentejo um gostoso queijinho de ovelha. O Zé entrou com «mexilhões gratinados com crostas de ervas» e Gil foi para «chévre gratinado sob aveludado de tomate». A escolha do vinho é que ia dando para o torto, com os dois garnisés a trocarem-se de razões sobre o que de beber. A carta está rica e sortida, a sorrir para muitos apetites e carteiras, pelo que cada apreciador fica convicto da sua certeza e atino na melhor parelha para a comida. Deu-se um quase consenso e chamaram um árbitro. Veio à mesa António Mesquita, escanção reputado, que deu assentamento à decisão do Zé.
.
O escolhido foi um tinto do Douro com nome esmagador: Churchill Estate 2003. É redondo e bem elegante. Quando chega é um vinho, quando parte é outro, muito melhor. Tem fruta e flores sem espalhafato. Flores? «Flores»! Garantiu Gil. «Talvez violetas», admitiu Zé... «como essa extravagância»... em vez de azedarem, riram. «Violeta, é isso. Mas discreta, como uma viúva antiga. Deve ser da touriga franca», prosseguiu Magriço. O Zé acenou que sim com a cabeça, pois o parceiro às vezes levantava voo e melhor é não contrariar.
.
O devaneio foi estratosférico. Fica um breve registo sobre o que se ficou a saber a partir da divagação de Gil a partir deste tópico: «Há cerca de 500 espécies de violeta e algumas florescem em Março. São essas as mais bonitas. Há outras que se dão todo o ano, porque são cultivadas e formatadas em laboratório para que assim seja. Há outras que nunca dão flor, porque só encantam quando tocadas por mestres músicos. A cor da violeta é o triste púrpura, que é de luto pelo e a do Senhor dos Passos. Mas a Provença é alegre, com luz encantadora com os seus campos de lavanda e violetas».
.
Alucinado com o comensal, o Zé ia bebendo o Churchill Estate e olhava para a sua cor concentrada como que a procurar um conjunto de cordas a tocar música enquanto se afogava, mas seguia Gil com interesse. Quando este terminou postou sabedoria: « é tinto para beber e para guardar uns anitos, que há-de aguentar-se bem».
.
Os pratos comportaram-se com aprumo e simpatia. Mas os aplausos foram para as ligações de vinhos com as sobremesas, sugestões do escanção listadas em carta. Há ali especialidade. Os desseres dessa tarde enfadam ao serem postas em letras, o que é enganoso e injusto. Parecem comuns... parecem. O Zé atirou-se a uma «pêra rocha em vinho tinto com especiarias e gelado de pistacho», mais ao Vinho Licoroso do Esporão, que realça os condimentos e os vermelhos, e é tão delicado quanto o fruto. O Gil preferiu uma «queijada de Sintra» (caseira) emparelhada com um Porto tawny com 10 anos. Dois casamentos muito felizes.
.
Este duo tão diferente é mais parecido do que aparenta. Os sisudos que não se aproximem, pois juntos são insuportáveis: divertem-se horrores! Quanto ao assunto da reunião? Foi esquecido. Surpreendente? Já era Primavera e o Peter Pan nunca deixaria...

Em equilíbrio no Douro

Outro dia estava com saudades do Verão e das férias. Porém, os meses fintaram-me e o trabalho não me deixou partir uns dias de descanso nem a semana escapar. Azarinhos, como diz a minha amiga Ger. Ai! Estava mesmo com um daqueles calores na alma, saudoso dos aromas das ermas a secar, dos ruídos dos insectos e até talvez das moscas do campo. Bucólico, digo agora friamente. Patético, dirão os pragmáticos incapazes de se apaixonarem pela beleza irregular das pedras dos caminhos. Pois nesse dia estava com a alma maior do que o corpo, com uma nostalgia nos olhos e melancolia na voz.
.
A passagem das horas não acalmou o frenesim, como se tivesse um desses agitados formigueiros que no Verão despontam no campo. Bucólico, insisto. Pois nesse dia estive incapaz de trabalhar, verdade seja dita e só espero que quem me paga o chorudo ordenado não me leia. Estive incapaz de trabalhar e no percurso para casa não dei por nada, a cabeça esteve longe, enquanto o corpo reagiu aos estímulos do exterior... só espero que a Divisão de Trânsito da PSP também não me leia. Nesse dia parti de férias para o Douro.
.
Muito embora as carnes estivessem em Lisboa, o espírito esteve a percorrer veredas no vale do Douro em pleno Verão. Num Verão qualquer. Só dei por isso quando cheguei a casa e a vi invadida por amigos. Nesse dia não vieram para jantar, mas tão somente para saudar. Veio a Indizível com a Karine e o Philippe, um par de franceses muito divertido.
.
Os franceses não conheciam muito de Portugal e ainda menos do seu vinho. Ele é apreciador e sabia que por cá se fazem vinhos, ela menos conhecedora não se mostrou desatenta. Do que por cá se faz, ambos tinham apenas conhecimento dos Vinhos da Madeira e do Porto. Nesse dia em que as saudades do Verão ardiam dentro de mim, decidi dar-lhes a conhecer vinhos não fortelecidos. Fui vasculhar o que havia lá por casa e descobri, envergonhado, uma garrafa que me esquecera por completo. Não sei como fora possível, mas na verdade aconteceu. Não tinha perdido a memória do vinho que continha, mas olvidara a sua existência. Todavia, estava descoberta e aquele era um bom momento para a revelar.
.
Saquei então a garrafa de Casa Burmester Reserva 2004 e em cada copo revelou-se um mago. Magias! É um tinto robusto, cheio em frutos vermelhos maduros e especiarias, com taninos presentes. Um vinho equilibrado e sensato.Calhou-me bem aquele vinho tão duriense. Encheu-me o peito. Satisfez-me. Fui ao Douro sem sair de casa. Os franceses adoraram-no e retornaram ao seu país com vontade de conhecer o vale. Quanto à Indizível... nada posso dizer.

Pontual e vírgula





















Outro dia tirei a hora de almoço e anexei uns momentos mais só para mim e fiquei a pensar. Desliguei o telemóvel e sentei-me frente ao Tejo, a menos de dez metros, separado por um curto cais e uma parede de vidro ou janela. Fiquei só com um Pontual Syrah de 2003.
.
Entrei no restaurante Vírgula, ali ao Cais do Sodré um pouco antes da hora do almoço invadir os espaços e desde que o fiz até que me levantei tudo à volta pouco me interessou. O serviço foi competende e não me perturbou mais do que o nessário à competência. Quanto à audiência, mais não foi do que uma projecção narcísica que, de vez em quando me assaltou a mente. Acredito que ninguém reparou ou quis saber que estava ali. Eu era tão transparente quanto as janelas, só que muito menos interessante.
.
A comezaina, obra do mestre Bertílio Gomes, foi bochecha de vaca estufada em vinho tinto. Só! Sem direito a entrada nem a sobremesas. O vinho bastou! O luxo foi o repasto demorado e mais o seu motivo.
.
Escolhi o restaurante Vírgula num acto de paz e de reconciliação, para fazer uma trégua com um vinho. A última vez que o tinha tragado o refeição não correu pelo melhor e o sabor não me alegrou como de costume. Fiquei triste. E com razão: tinha gasto dinheiro, o respasto irritou-me, zanguei-me com um local e o belo do vinhito apanhou por tabela. Para agravar a situação, a garrafa não é muito fácil de encontrar, pelo que é preciso saber onde ela se esconde e ir dar-lhe caça.
.
Já agora, para que não fiquem suspeitas no ar ou a sensação de que as crónicas só dizem bem, cá vai um pouco de amargura e de veneno. O jantar azarado ocorreu no restaurante Vaskus, ali na Passos Manuel, na zona de Arroios em Lisboa. A casa tem piada, com ar germânico, com a estrutura de gaiola pintada de côr escura, as toalhas à italiana e a comida brasileira. O sítio tinha fama de servir boa carne, mas vive do nome e as batatas fritas são cogeladas. O serviço cumpre, mas não é simpático nem compentente em absoluto. Ora veja-se: «Está na lista o Pontual, mas qual deles é? O Syrah ou o Touriga Nacional com Trincadeira?» Sem um sorriso a rapariga respondeu uma das hipóteses, afinal tinha 50 por cento de hipóteses de acertar, até que voltou para dizer que tinha os dois. A comida veio e já não é o que foi. Paciência! Tão cedo não volto lá e não me vou esquecer de não recomendar a casa.
.
Mas voltemos ao que interessa, ao Vírgula que encanta pela vista, pelo serviço, pela comida, pela carta de vinhos, e ao Pontual Syrah. Naqueles olhares pela janela fiquei a contemplar o passado, quando Cacilhas era uma vila de pescadores e imaginei um pomar no laranjeiro. Por daí à frente seriam montados de azinho, sobro e olivais, todo um Alentejo que se chegava mais aqui a Lisboa.
Dei por mim a voar sobre as planícies e a aterrar numa herdade perto de Borba, bem junto à Capela de Nossa Senhora da Boa Nova, que é exactamente um dos berços do Pontual. Há outros dois, que se situam junto a Portalegre. Naquele monte de Borba avista-se o lago de Alqueva, que nunca chegará a imitar o Tejo nem as suas brumas, por mais que as gentes alentejanas digam que o clima já mudou e que se sente o ar mais húmido e nebuloso.
.
Onde existe um certo nevoeiro é no meu discernimento. Confesso que não consigo decidir qual dos vinhos Pontual prefiro. O Pontual Touriga Nacional e Trincadeira é uma festa. A primeira casta é pujante como um toureiro e a segunda delicada como uma bailarina. As duas juntas, unidas pela sabedoria de mestre Paolo Nigra, dão muito contentamento. Eu que que acho os monovarietais aborrecidos vibro com o Pontual Syrah, que elegante, sabe falar em qualquer festa e acompanha bem muitas comidas. É mais discreto que o anterior, mas não tem menos carácter.
.
A empresa que os produz tem ainda poucos anos de vida e as vinhas são ainda novas, pelo que estão a dar os primeiros cachos. O ano de 2003 foi o primeiro a sério. Já provei os Pontuais de 2004 e a coisa melhorou... e não desiludiu, porque o par não ultrapassou o Syrah nem o monocasta puxou dos galões de variedade internacional e remeteu para segundo plano o lote das primas uvas portuguesas. A empresa tem outros vinhos e desses outro merece também uma notinha: o Boa Nova branco, o único cara pálida da gama. E destingue-se bem dos branquelas alentejanos, pois não é nada pesado, tem fruta sem exagero, com qualquer coisa de citrino, com um aroma muito agradável e bebe-se refrescantemente sem constrangimento na alma nem remorso tardio. Aliás, se isto acontece com este, imagine-se o prazer permitido pelos Pontuais!...
.
Engana-se quem pensar que me vim embora daquela tarde frente à janela. Continuo lá sentado a apanhar um pequeno e frio banho de Sol e a ver os cacilheiros a cortar o Tejo ou a imaginar as velas das fragatas a empurrarem cascos de madeira e varinas descalças a correrem com canastas de peixe à cabeça pelo empedrado do cais. Lisboa com Sol merece sempre um mergulho de delírio e um brinde!

Papar bem com vagares





















Comer devagar não é uma arte, é uma obrigação. Há locais onde o esmero da cozinha não permite equívocos na imposição e quando o tinto tem fama de façanhudo, não há volta a dar às pressas.
.
O Bairro Alto terá os seus segredos, mas está quase todo ele descoberto. Os rincões especiais guardam-se para os peritos alfacinhas e moradores bairristas. Para todos os outros, o espaço abre-se franco. É numa rua famosa que está o célebre Papa'Açorda, casa para se repastar devagar.
.
Gil Magriço é um engano de homem. É grosso como um tronco de azinho e o apelido alentejano esconde um lisboeta que, por um lado dos costados, leva cinco gerações de lisboetas. Numa das noites frescas de Dezembro subiu a rua do Alecrim e aperitivou um fraco Vinho da Madeira na Brasileira do Chiado com os amigos Maria, uma espanhola de Oviedo que sabe falar Bable, e o Sérgio, um lisboeta que pôs as botas a marchar para Trás-os-Montes, que convenceu a banquetearem-se. O problema foi que o tema deu discórdia: onde ir? Há tantos locais, tanto gato disfarçado de lebre e desastrados mascarados de chefes de cozinha, e tantas ementas tingidas com preços desajustados. Palavra puxa restaurante, restaurante puxa palavra e o sufrágio deu consenso no Papa'Açorda, que tem uma tabuleta quase discreta e uma porta que abre para a rua da Atalaia.
.
A entrada não é simpática, é um corredor com um balcão alto que intimida quem não é dotado de uma altura extravagante, além da forma do sítio potenciar o engarrafamento longitudinal nos dias mais concorridos. Mas é o que se pode arranjar e é sacrifício inicial a que o gastrónomo tem de se submeter. Contudo, naquela noite pré-natalícia foi sempre a andar até à boca da sala onde um dos proprietários, e mestre de cerimónias, os recebeu para os conduzir onde se iria dar o sustento do corpo e da alma.
.
Curiosamente, aqueles três comensais não soltaram palavras enquadras na época em que o católico São Nicolau faz sorrir as crianças e ajuda ao pagão Mercúrio, que abençoa os comerciantes. O tema foi, à época, a prematura eleição presidencial e o folclórico festival que o acto democrático do botar-cruzinha tem sempre em Portugal. Diabolizaram candidatos, esconjuraram personalidades, enalteceram perfis e rabujaram sobre tiradas sábias, doutas e tolas. Ainda havia tanto para se ver e já tanta certeza, tanto acerto e tão pouca ingenuidade. Em quem disseram que iriam votar e se ganharam a aposta do pódio eleitoral são segredos que não se revelam.
.
O que conta por aqui é a matéria sublime que os atraiu ao estabelecimento. Por conveniência de arrumo nos estômagos mandaram vir apenas duas entradas, que partilharam irmãmente: peixinhos da horta, muito gostosos e frescos (se viessem do mar dir-se-ia que estavam vivinhos a saltar) e um folhado de queijo de cabra que veio acompanhado com rúcula (que no Alentejo chamam mastruços), tomate cereja e pão torrado cortado em cubinhos.
.
A asturiana pediu meia-desfeita, o lisboeta-transmontano preferiu os filetes de sardinha panados e o Gil pediu cabidela de galinha. Nos restaurantes bem frequentados as pessoas são bem educadas, pelo que não reparam no que as outras fazem. Confiantes neste princípio, o trio decidiu partilhar, discretamente, o conteúdo dos seus címbalos não musicais, para provar mais e deliciar-se melhor. Estava tudo muito bem. Sem surpresas.
.
Para saciar as sedes, dos primeiros pratos aos segundos, a escolha foi para um especialíssimo alentejano: Mouchão, colheita de 2001. Não é vinho que se beba ou que se deixe beber. É vinho que, quando se dá por isso, já está bebido. Que belíssimo tinto! Escorreito! Fino e agradável!
O Mouchão é um vinho equilibrado, com fruta, com taninos suaves e bem alentejano, não é um produto. Quando se bebe nota-se que não poderia vir do Chile, da Argentina, da Califórnia ou da Austrália. É Alentejo para o melhor e para o pior. Apesar de ser ano de centenário da Herdade de Mouchão, a colheita de 2001 não é das mais espantosas que saiu daquelas vinhas e adega de Sousel. A meteorologia tem caprichos e as vides ressentem-se. Mesmo assim, a colheita de 2001 vai-se num ápice, embora esteja um pouco encarecida.
.
O trio seguiu, empanturrado, para as sobremesas e só Gil Magriço, inteiriço de carnes, se mandou servir de um Vinho do Porto para escoltar o doce. Desta vez voltou a haver partilhas, sem que ninguém notasse, bem se vê. Gil foi para um bolo de chocolate com compota de laranja (absolutamente pecaminoso), o Sérgio descaiu para um sorvete de limão com vodka (tão desenquadrado que há-de pagar por isso no Purgatório dos gulosos) e Maria venceu a contenda pelo acertadíssimo pedido de mousse de chocolate atribuído em dose imprópria para cardíacos, diabéticos e obesos. Postos isto, passearam para digerir. Nessa noite, o fantasma do Natal, de Charles Dickens, visitou-os a todos em pesadelos, fustigando-lhes a consciência... se as gulas festejaram assim naquela noite, que abusos carnavalescos não teriam no Natal? Tiveram de ser de contenção e quase em abstinência!

Numa pedra a caminho de Bucelas





















A Patrícia não parou, durante toda a viagem, de perguntar quando chegávamos. O que valeu foi Lisboa ter sido o ponto de partida e Bucelas o destino. Mas quem mandou prometer-lhe visitar uma quinta onde nascem as uvas?
.
A miúda tem quatro anos a caminho dos cinco e um olhar muito vivo e meigo. É esperta e irrequieta, curiosa, mas obediente. Onde nascem as uvas? - Perguntou e continuou: Mas para quê? Para fazer vinho, respondeu-se-lhe. Nada disse. Que estranho! Ela que critica sempre que se bebe vinho... alguém lhe deve ter encomendado um sermão sobre os malefícios do álcool.
.
Quando chegamos? Quando Chegamos? E já chegámos? E falta muita muito? Quero fazer chi-chi. Mãe, dói-me a cabeça!...
.
Os menos de vinte quilómetros que vão da capital àquela vila saloia tiveram mais perguntas do que respostas. Com a auto-estrada é um tirinho, mas é só até ali à frente, até ao subúrbio, porque depois entra-se na província e não se saiu da Área Metropolitana de Lisboa. Bucelas é mesmo uma vila e rodeia-se da paisagem que envolve as povoações rurais. É um encanto conduzir pelas estradas de curvas e de sobe-e-desces verdejantes, mesmo que o céu tenha tons cinza e as encostas mostrem algures castanhos outonais. Era já o tempo de vindimas que começava.
.
Uf! Lá se chegou à pequena quinta do Chão do Prado, pertencente ao mais pequeno produtor-engarrafador da região de Bucelas, uma terra que só certifica brancos, embora em tempos tivesse dados tintos e, ao que consta, não eram de fazer cara feita. Porquê o Chão do Prado? Por quatro razões: a qualidade do vinho, a comida do restaurante, a vista e os afectos. Cada coisa será explicada a seu tempo.
.
A Patrícia não desatou a correr pelas vinhas alinhadas nem estranhou muito aqueles frutos serem bem mais pequenos do que aqueles que se comem em casa. Havia de ser bonito explicar que a feitura do vinho precisa de variedades com bagos mais pequenos... Por isso, e ainda bem, não perguntou se as uvas têm nome: como se explica a uma miúda de quatro anos que algumas daqueles frutos chamam-se arinto (quase todas), esgana-cão e rabo-de-ovelha? O que a imaginação dela não lhe mandaria perguntar a seguir?!... A miúda fez o que gostam de fazer os miúdos de quatro anos: agarrar em paus, saltar nos montes de parras amareladas, provar as uvas, descobrir caminhos entre as fileiras de vides, alcançar o muro e ver a abertura onde estivera um portão e onde hoje fica um buraco que dá para a estrada.
.
O restaurante situa-se numa extremidade da quinta do Chão do Prado e encosta-se à loja da propriedade. O lado que dá para a estrada fez-se em pedra, mas as vistas iluminam-se no envidraçado que deixa entrar a quase totalidade dos oito hectares da propriedade. Só não entram os que se escondem no ondulado da paisagem. São vinhedos e vinhedos alinhados, montes e cerros como um mar desalinhado, feito com história. Por ali combateu-se nas Invasões Francesas, por ali passam umas das Linhas de Torres. O Sol, naquele começo de tarde, aquecia quanto baste e a vidraça travava a ventania constante daquele lugar. António Paneiro Pinto, o dono desta quinta, explica que àquele sopro se deve parte da frescura do Bucelas, uma outra cabe à acidez suave que a terra lhe dá.
.
É quase tonto que uma cena tão simples e quase parada quanto uma vinha possa encantar tanto, mas encanta. Não me recordo, ao certo, o que manjei, mas tenho certa a entrada de ovos mexidos com morcela, que deliciaram até à tremura. E como casaram bem com o Chão do Prado Colheita Seleccionada 2004! Aliás, este branco bateu-se muito bem com a carne de porco grelhada que veio depois.
.
Enquanto o pasto decorria, a Patrícia fazia a fita que fazem quase todas as crianças de quatro anos. Mafalda inventou depressa forma de a encantar. Primeiro vieram uns lápis de cor e mais tarde levou-a para o exterior para brincar com Xana, uma gatinha mimada e dócil.
.
À porta do restaurante está uma grande pedra comprida. Um automóvel, já vê... Patrícia agarrou na Xana e levou-a a passear. Na sala, atrás do vidro, saboreava-se, o Chão do Prado Colheita Seleccionada 2004. Não apetecia pensar em mais nada, apenas naquele vinho e na doçura feliz da pirralha com a gata ao colo.
.
Os Bucelas têm o dom de refrescar como poucos. Contudo, o Chão do Prado é especial, com uma acidez muito equilibrada e baixo teor alcoólico. Bebe-se melhor, com mais agrado, refresca mais e sem mágoa posterior. Naquela quinta fez-se também o primeiro espumante da região e faz-se ainda um colheita tardia, filho do fungo botrytis cinerea (podridão nobre).
.
Nesse domingo já não havia para provar o Chão do Prado Colheita Tardia 2004 (o de 2005 ainda não nascera), mas tenho-o na memória. Foi no Verão passado e apesar de ser, normalmente, servido como aperitivo ou como acompanhante de sobremesa suave, aguentou-se ao sabor forte do bacalhau português.
Findo o repasto, lá me sentei no banco de trás do carro-pedra com Patrícia ao volante. Saía eu e entrava Maria, a mãe. Ela bem queria levar-nos aos dois no banco de trás, mas não cabiamos. Quanto ao resto desse domingo e aos afectos há ainda a dizer que é uma alegria ser recebido por alguém como António João e Mafalda Paneiro Pinto. Depois de os conhecer, o vinho que fazem passou a alegrar-me mais do que antes.

Romeu e Julieta





















Numa mesa posta de toalha de xadrez vermelho e branco está um solitário e um cravo, que há-de sair quando os clientes se sentarem. Não por fé de esquerda, mas por ser flor das Primaveras e da tradição portuguesa. Lá fora chove, por teimosia e hábito do mês de Abril. A sala, de verde-pardacento-claro está húmida, com uma luz triste, feita de mescla da lâmpada desusável e da filtragem do saguão que resguarda o quarto.
.
A casa vive de afectos de paladares e rigor na fórmula e mão de quem cozinha. Está na Baixa de Lisboa, porque era onde almoçavam dos doutores da capital. Está fora de moda porque vieram as artrites, os reumáticos e as reformas dos costumeiros comensais. A marcha dos ponteiros do relógio redondo, pendurado à entrada, mantém-se e tudo o resto também. As chapeleiras, onde agora só param jornais dobrados, e os bengaleiros garantem que ali houve sempre bons modos e respeito.
.
Hoje é quase tudo memória. Vive da simpatia e do afecto dos da casa e a mesma ementa de sempre: desde o bife à inglesa, coisa de gente burguesa no antigamente, aos croquetes macios de vitela, às folhas de louro (linguadinhos) ou à mousse de chocolate inesquecível pelo toque do caramelo. Hoje vêm alguns velhos, clientes despreocupados e necessitados de refúgio de olhares e ouvidos. Hoje é o dia em que Gertrudes e Jorge entraram para celebrarem em segredo um ano de namoro.
.
Passada a portada de vidros martelados onde está pintado o nome da casa veio um sorriso do dono da casa de pasto, fiel servidor das mesas e seguro ouvidor das intimidades de alguns clientes. O homem conduziu o casal à sala mais fugida da entrada, à mesa do canto junto à janela, que não deixa ver o saguão: «Leve a jarra, mas deixe a flor». Num assento de cabeça assim fez o servente que deixou as listas e deslizou. O amante ofereceu-a à amada e esta fez-lhe uma festa no rosto.
.
Hoje, naquela casa de pasto, dois amantes reservaram-se e guardaram-se com tempos roubados aos trabalhos. Há médicos, avarias, eléctricos descarrilados, vacinas para levar e muitas outras desculpas para atrasos. Ela avançou para bacalhau à lagareiro e ele foi para iscas à portuguesa, das verdadeiras, das que vêm com batata cozida. Bem conversadas as coisas e descobertas as gulas refez-se o pedido: que venha primeiro o peixe e depois a carne.
.
E porque hoje é dia de festa e os empregos já quase se assumem como esquecidos mandaram vir vinho. Um branco do Douro, nascido numa aldeia perto daquela onde cresceu o senhor Lopes, o guardador deste recanto de paladares. Mas para melhor se contar a história tem primeiro de se contar a do tinto. Junto a Mirandela fica Jerusalém de Romeu, uma aldeia, ou talvez duas, no meio da maior propriedade de Trás-os-Montes, mas dentro da região vinhateira do Douro. A evocação da capital das três religiões monoteístas deve-se ao antigo dono das terras: a Ordem do Hospital de São João de Jerusalém (Ordem de Malta). A aldeia é um encanto de se ver, tão bem preservada que está, sem atropelos à tradição nem ao conforto. Aquele quase ermo tem até um restaurante supimpa: O Maria Rita. Quanto aos vinhos: Ao tinto chamaram-lhe Romeu e, por analogia, ao branco Julieta.
.
A escolha dos amantes fez-se pela rima daquele momento com a tragédia de Shakespeare, mas na terra onde as videiras fincam as raízes há mais versos e entoações. João Pedro Menéres, homem que dirige a Sociedade Clemente Menéres, explica que a terra é uma coisa viva, que na vida tem de haver ética e nos negócios respeito pelas coisas viventes. A lavoura faz-se em regime biológico, o que exige mais esforço, mas que retribui com o consolo da consciência leve. São seis mil hectares onde videiras, oliveiras e sobreiros não provam herbicidas, fungicidas e pesticidas de síntese. As práticas são as antigas, as que menos agridem a vida. Quem faz as coisas assim, fá-las porque as quer bem feitas, o que nem sempre é verdade quando se fala noutros sistemas de produção ou quando o objectivo final ou único é a rentabilidade. As contas têm de bater certas e as parcelas das despesas têm de somar menos do que as das receitas. O mercado paga estes cuidados, sobretudo no estrangeiro e o negócio está saudável.
.
O azeite de Romeu é macio, fino e suave, com um toque frutado. Foi ele que acompanhou, embora incógnito, o bacalhau que Gertudes partilhou com Jorge. O Julieta de 2003 fresco é bem vivo e alegre e aguenta-se bem quando mata a sede de um bacalhau a nadar em azeite. É peculiar, com o carácter forte das mulheres decididas, mas nada pesado ou quente de paladar. Tanto assim é que no contra-rótulo uma citação de Marguerite Yourcenar ajusta-se-lhe. O Romeu de 2001 é generoso e amigo, não esmagou as iscas, mas bater-se-ia bravo se defrontasse um pato. Não tem o carisma dos enormes duriense, mas é honesto e tem tudo o que se pede aos nascidos naquelas bandas.
.
O almoço correu feliz e terminou com algumas pequenas gotas tintasa alegrar a toalha de mesa. O enlevo dos amantes distraíu-lhes a atenção das marés enchente e vazante dos clientes. A comida esteve um esmero e o vinho – deixado quase todo nas garrafas, porque o que é bom não é para abusar, nem mesmo nas festas – uma surpresa contente. O que Gertrudes e Jorge não sabiam é que o que se faz com amor transmite-se e sublima-se. Por isso, foi mais doce o beijo que deram ao despedirem-se depois do repasto.

Ora eu





















Sou um playboy miserável. Figura do neo-realismo num beberete burguês... ou um menino-bem a viver de caridade.

Lágrima

Pode ser que te chores...

Letra H


terça-feira, novembro 03, 2009

A chuva e o imprevisto

Os imprevistos são imprevistos, como a chuva é chuva. Não há meios imprevistos, como não há meia chuva. É como estar-se zangado: pode estar-se muito ou pouco zangado, mas nunca mais ou menos zangado.
.
O problema dos imprevistos é ser imprevisto. A chuva imprevista é um problema. A chuva imprevista faz-me zangar com alguém, normalmente comigo. A menos que a chuva imprevista não chegue em momento de caminho para um lugar onde se tem de chegar seco.
.
Chegar cedo é, talvez, a melhor forma de enfrentar um imprevisto. Sendo que bom ou mau, um imprevisto é desarmante. Rápida deve ser a reacção. A chuva, imprevista ou não, pede rápida reacção, a menos que não chegue em momento de caminho para um lugar onde tem de se chegar seco.
.
Sou do tempo em que os homens só usavam guarda-chuvas pretos. Outra cor seria sinónimo de dúvida. Todas as outras cores e as fantasias estavam para o outro género. Docemente, sem imprevisto nem previsto, mudou a vida. Mas a um chapéu-de-chuva, hoje como ontem, só se pede que proteja a roupa, o rosto e a pele. A menos que o caminho se faça para um lugar onde não é preciso chegar seco. E se os umbelas dos homens, tal como os das mulheres, podem ter qualquer cor, diga-se que estão mais perto do imprevisto, porque o imprevisto é sempre colorido.

Restos





















Tu partiste e eu fiquei de cabeça perdida. Despeitado, abandonei o coração que me abandonou. Na minha loucura ia perdendo a vida que se agarra à alma. Nesta solidão lamento as perdas, como se um incêndio me tivesse levado tudo e não houvesse forma de resgatar o que fora meu. Tenho as memórias. Não será essa uma forma de nada perder?

Letra G


Letra F