digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

domingo, dezembro 11, 2016

Infantil

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Queria ser de todos amigo e ninguém tivesse de me perdoar.
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Creio, desgraço e insisto. Dizem estúpido e infantil. Sou sem amor-próprio e irrelevante.
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Sou doutro sítio. Sou sem sapatos. Sou sonâmbulo.
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Às vezes inconsigo andar e noutras levitando – os mesmos locais, na mesma vida e a mesma noite.
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Sou uma estátua de sono, inútil e irrelevante.
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Sem amor-próprio acredito num dia.
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Partirei como todos e aqui não deixarei nada e de mim poucos querem.
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Queria ser de todos amigo.
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Dizem estúpido e infantil.

Sem

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Às vezes acordo morto e noutros subitamente. Caio como um avião sem querosene e nada sobrevivo e ressuscito. Às vezes é gripe e outras é impaciência e tédio, a vida como se me fosse uma ténia e incompreendendo rompendo de silêncio ou raiva gasto-me a viver o que não quero.

sábado, dezembro 10, 2016

terça-feira, dezembro 06, 2016

Dirás

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Se em ti voam negras em círculo, urrando e uivando, e tombas de morte, uma luz pousará e voz tépida dirá bem, dissipando as aves da escuridão medonha. Deixa-te ouvir a paz e dirás amor ao mundo. Saboreando-o é mais fácil fazê-lo.

Outro sítio

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Às vezes tenho de aceitar a realidade e dizer que sou mais gasoso do que sólido. A verdade interessa-me pouco e tenho medo da matemática, uma manta de aço oxidado. Durmo nesta rua mas vivo no sítio do querer, onde estarei depois de morrer. Ninguém entende por que voo. Ninguém me entende porque voo. Ninguém vê. Sou triste por tudo isso.

Estar quando ser

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A luz é incapaz de ser som e a cor está a que se quer. A quietude diz melancolia e solidão.
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A vida quando vai, fica

Noite

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A noite não tem horas, começa e acaba e antes desfaz-se da luz e depois deixa-se afogar de claridade.
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À noite vê-se o Caminho de Santiago e as sombras mal se vêem mesmo ainda que a Lua.
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A noite é um fundo de cenário quando pelo palco vagueiam snarks.
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No teatro há peixes voando e as florestas são orvalhadas como nas lendas.
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À noite já vazio, o teatro é só noite. Ser só noite é poder ser quase tudo.
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Sob as estrelas há melancolia e pensamento. E a solidão que deixa ver a Via Láctea é um unicórnio triste.
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Letra H


quarta-feira, novembro 30, 2016

As pragas

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Tinham dezasseis anos e namoravam desde os treze. Antes de fazerem dezassete, ela deixou-o. Disse-o baixinho numa folha amarrotada do caderno da escola. Pediu aos professores para mudar de lugar e ele pediu, não sabe a quem, para que conseguisse engolir a vida do choro sem que ninguém notasse.
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Ainda não tinha dezassete anos quando ficou quieto, mexendo as pálpebras, segurando-as por segundos para que os olhos não vertessem. Uma tristeza danada, assobiando por sítios até aí desconhecidos. Noites de insónia e de sono por dormir.
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Uma tristeza absoluta e inexpressável, porque ao primeiro amor veio a incompreensão. Escondeu tudo, porque nem tinha dezassete anos. Quase a esquecera, viu-a sorrindo, montando-se na moto dum rapaz que já tinha feito a tropa.
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Ainda não tinha dezassete anos quando começou a odiar. Pediu ao Demónio para que nunca fossem felizes. Mas foram-no.
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Pediu ao Demónio que as famílias nunca os aceitassem, afinal ele era mais velho e tinha uma moto. Era encantador e cortês e ela simpática e inteligente como dantes.
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Pediu ao Demónio que fossem inférteis. Mas tiveram três meninas e um rapaz.
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Pediu ao Demónio que tivessem um acidente de viação mortal ou que caísse o avião que os levava para férias. Não o satisfez.
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Pediu ao Demónio para que ficassem doentes. Terminais e sofridos, gemendo de arrependimento: ela porque o deixara e ele porque lha roubara. Nem de dor de dentes se queixaram.
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Pediu ao Demónio para que fossem pobres, desempregados, desvalidos, indigentes ou enlouquecessem. Ele chegou a director-geral duma multinacional e ela foi sócia num escritório de advogados, com vista para o Tejo.
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Pediu ao Demónio equívocos judiciais, para que, pelo menos, um fosse preso numa masmorra medieval. O casal era de moralidade superior.
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Odiava desde os dezassete anos e nunca foi capaz de amar nem de assentar nem deixou que a vida lhe. Em desespero, suplicou extremamente ao Diabo:
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– Faz com que morram.
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E morreram. Tantos anos juntos e feneceram com poucos dias de diferença. Ela com noventa e dois e ele com noventa e seis.
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Odiou até desencarnar aos cem. Viveu menos de dezassete.

Continuando a andar


quarta-feira, novembro 23, 2016

Letra E


E envelhecem

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As horas passam sem fim e os anos na luz. O tempo expande-se e incompreendo-o, não em nostalgia, são remorsos dos finais que precipitei, a calvície e a vista cansada.
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Acordei com quarenta e tais anos, já me achara adulto aos trintas e senhor nos vintes, com responsabilidade pesada dos falhanços e da carga agravando-se.
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Não percebi se ganhei ponderação ou perdi paciência. Sei que a vida leva-se, tem de ser, mesmo desesperançando-me. Desejo vidas como nos videojogos, recomeçar num sítio doutros dias, rever os males e aprender dos outros.
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Crescer, envelhecer, é uma tristeza. Não é a luz nem a chuva nem o frio nem a noite nem o escuro nem o soalheiro nem o calor nem o dia nem Outonos nem Primaveras. É um bicho dentro a esgravatar, sem veneno que o mate sem lhe ser solidário no destino.
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Os miúdos estão grandes, não tarda arrependem-se e envelhecem.
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Nota: Desenho do século XVI.