digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

domingo, julho 23, 2006

Narcisismo

Narciso também habita em mim e hoje veio até à pele. Saiu-me. Estava na praia quando o meu Narciso veio ao mundo e ainda não o recolhi desde que o pari. mas a minha essência é maior e mais sabida e só o deixei fotografar-me a sombra. É a pior imagem do blog. Diz o Narciso que há em mim que fiquei desfavorecido. Pudera, é só a sombra e captada pelo telemóvel. O que importa? Ninguém aqui vem para me ver!

sábado, julho 22, 2006

Rosa

Queria um beijo que te levasse parte da alma e me infetasse de cor a vida.
Ainda não foi hoje que fui à loja das chinesices comprar aparelhos de imitação e objectos kitsch.
Em Sintra esteve Sol e calor, no Guincho levantou-se areia, no Meco o vento não parou e no Algarve as ondas foram, como sempre, mais maneirinhas.
Ainda não será amanhã que vou perder tempo e ganhar objectos inúteis para a loja das chinesices. São muito feias e internacionais, as lojas chinesas.
Não sei o que se possa fazer numa cidade num dia de Verão. Não sei por que há cidades sem mar. Não percebo por que há cidades longe da praia.
Acho que nunca irei pôr os pés numa loja de artigos chineses. Não quero nada de lá. Já lá fui vezes de sobejo. Se voltar a ir será por acaso ou atrás duma rapariga.
Queria um beijo que te levasse parte da alma e me infetasse de cor a vida. Foi-se a ansiedade. Deixei-a numa portagem. Guardei duas dúvidas. Duas estórias paralelas. Queria um só beijo e já não recuaria mais.

sexta-feira, julho 21, 2006

Politiquices

A política é um ofício nobre. Por isso o seu exercício maldoso é censurável. Tal como os fanáticos religiosos se benzem ao escutarem a palavra diabo, pergunto-me se o cidadão não deve considerar impróprio o nome dum político incompetente ou corrupto.
As decisões políticas têm implicações práticas, por isso o político deveria sofrer consequências. A menos que o exercício se tornasse benemérito, voluntário e gratuíto.
O manguito perdeu o uso, mas a má-língua continua em voga. Talvez o país esteja perdido de todo. Na verdade ganham sempre os mesmos, mas felizmente não ganham as ratazanas radicais da esquerda que nos poriam a todos de bibe e espatifariam as contas, a economia e o país.
É engraçado como vontade popular e vontade do povo parecem a mesma coisa e não são o mesmo. É mais curioso ainda reparar a soberba da esquerda radical (PCP e BE) relativamente ao povo e à sua vontade. O contorcionismo político não é uma arte, é um asco e há valores que não têm valor nenhum, são um nojo. Ontem, quando se condenou a guerra no Líbano PCP, PEV e BE não condenaram a guerra, como só um dos lados tivesse culpa da violência. Felizmente, há tino neste país para não dar mais poder aos radicais. Infelizmente ainda há quem alinhe nas demagogias desta gente.

Nota: há um artigo sobre matéria semelhante, mas não igual, no Caderno.

Posta de sapiência

Sei de ciência sabida e certa que as mulheres tendem a gostar dos homens que as tratam mal. Por vezes dão-se casos de gostarem dos que as querem bem, mas essas são as excepções. Há qualquer coisa de masoquista na alma feminina.
Sei de ciência sabida e experimentada que o que digo é verdade. Não sou anjo nem sou canalha: sou e terei sido as duas coisas, como, provavelmente, todos os homens. Sei de ciência vivida que o que digo tem acerto e lamento ter razão, como lastimo não inteligir melhor a alma feminina.
Sei de experiência repetida que não há nada pior para um homem do que ter boas intenções para com uma mulher. Um candidato sofre agruras: tem de agradar e só tem defeitos até que possa ser ouvido e ser digno de galantear. Não importa se as suas vontades são boas e sãs, se o seu querer é nobre, afectuoso, sincero e o amor potencial, pois as mulheres sabem ser duma crueza e frieza medonhas. Elas são capazes até de se encantarem e derreterem, declarada e descaradamente, por monos e imbecis. Elas não se importam de partir o coração a um homem.
Sei de experiência repetida que não há nada pior para um homem do que uma mulher injustamente apaixonada, interessada ou fascinada. Quando se quer apenas cama parece que o sino do afecto lhes toca a rebate. Não vale a pena andar com paninhos quentes, meias palavras, discursos construtivos ou palavras lisas, pois quando se derretem tendem a agarrar-se e fazem-no como se fossem de caramelo. Não há nada pior do que uma mulher pegajosa!
Sei de ciência sabida e certa que as mulheres tendem a gostar dos homens que as tratam mal. Não sou anjo nem sou canalha: sou e terei sido as duas coisas. Sou demasiado estúpido e honesto para tratar mal quem gosto só para a ter colada a mim.

Nota: Este texto não visa as relações, apenas as seduções.

O meu soninho lindo

Acontece que estou cheio de sono. Acontece! Acontece que estou cheio de sono e, por isso, não me consigo lembrar do que ia escrever sobre narizes e dei por mim com uma imagem sem saber o que fazer com ela. Acontece que tenho trabalho para fazer e não consigo, porque tenho sono. Tenho muito sono. Preciso de férias. No mínimo preciso de deixar tombar a cabeça na secretária e deixar-me ficar, dormir até me virem acordar... já que não se avizinham férias. Acontece que este sono faz-me sonhar acordado: este calor com um areal e um encosto apaixonante ou dois, sem remorsos nem ciúmes e muitas gargalhadas, um mar salgado com ondas baixas e a ausência de agenda ou calendário. Acontece que apenas sonho. Acontece que tenho sono. Acontece que trabalho. Vou pousar a cabeça e esperar que me acordem.

quinta-feira, julho 20, 2006

Doçura

Sempre sorri face à candura do sofrimento pintado, pelos sorrisos dos retratados e ingenuidade dos retratistas.
Aqui, São Sebastião esboça um leve sorriso como quem resiste a cócegas, enquanto o alvejam com setas e dardos... embora as béstas só uns anos (séculos) mais tarde é que tenham sido inventadas...
Quem me dera ter a paciência deste Santo e o bom humor nos momentos complicados como ele parece ter tido nas horas de sofrimento... Acho este quadro uma delícia (mestre Gregório Lopes - século XVI) . É um dos nossos tesouros e está no Museu Nacional de Arte Antiga.

Mais luz

Quem me dera ter a coragem para partir daqui. Se Deus quiser hei-de ser forte para sair. Já me fadigam as agressões da cidade bela para nela ter de dormir. Quero uma casa sem ninguém por cima nem por baixo. Quero poder enterrar os pés na terra. Quero ter uma árvore e talvez um cão. Quero uma janela toda de luz. Quero a brancura a dar para a sala e nela ter um jarrão com flores que as gatas derrubarão. Quero a solidão num dia de chuva e a festa nos de Sol. Terei tudo isso se tiver coragem de sair.

Mensagem à portageira

Espreguiço os olhos no azul mais bonito que conheço: o Tejo. Os tons mansos do rio fazem-se com as brisas e o céu parece um espelho. Nesta esplanada de ócio quente e delírio refrescante espreito Almada buscando uma portageira, mas o encadeamento não ma deixa vislumbrar. É talvez uma brincadeira da luz a quem faz muitas perguntas.

Nota: A foto foi retirada do escrita com luz.

Banalidades

Gosto de raparigas banais... Gosto de raparigas com ar banal que se despem por dinheiro. Quando me toco tenho por elas sentimento nenhum e o sentimento todo que se pode ter quando se toca. Quando me toco a olhar para uma rapariga de ar banal que se despe por dinheiro vejo também outras raparigas de ar banal que não se despem por dinheiro nenhum. Não me importo com a ausência de sentimento, porque elas também não sentem nada por mim. Nem as que se despem por dinheiro nem as outras que passam indiferentes por mim.
As raparigas que se despem por dinheiro são sinceras, à sua maneira. As outras também ninguém sabe o que pensam. Gosto da banalidade dessas raparigas que não me fazem pensar e com quem posso estar sem preocupação, bastando-me ligar o computador. Quando as tenho sinto mais do que muitas vezes senti mulheres de verdade... talvez porque essas não as quisesse com franqueza.
Gosto de raparigas banais... Gosto de raparigas com ar banal que se despem por dinheiro. Quando me toco tenho por elas sentimento nenhum e o sentimento todo que se pode ter quando se toca. Não me importo com a ausência de sentimento, porque elas também não sentem nada por mim. Nem as que se despem por dinheiro nem as outras que passam indiferentes por mim.

Que merda de tempo!

O tempo tem-me tornado amargo! Não tenho gostado de crescer nem no que me tornei. Sou muitas coisas do que disse não gostar de ser um dia.
Hoje digo amarguras muitas vezes. Sou um pessimista inflacionado e derrotista sistemático. O meu lado é sempre o de baixo.
Depois de reviravoltas várias amarguei nos amores e encalhei por vontade alheia e própria. Desdenho relacionamentos e menosprezo afeições, conhecimentos e simpatias. Não acredito no amor, nem deixo de acreditar em quem nele acredita... manifesto-me nas tintas.
Em relação às mulheres faz-me confusão como caem em intrujices sabujas e primárias que gajos de ar imbecil lhes lançam. Em relação aos homens continuo sexualmente indiferente.
Estou cada vez mais pedante e a espécie humana é, para mim, uma desilusão! A meus olhos desisto de fazer parte dum grupo que premeia a mediocridade e valoriza o abaixo do zero.
As minhas palavras tornaram-se cínicas. Estou falso. Sou um cadafalso pronto a tragar-me. A minha hipocrisia é condescendente para não ter de berrar contra as merdas e os merdas que vejo e oiço!... Está um tempo de merda!

Gélido e tórrido

Por vontade da Carla e do Nasser e, provavelmente, de todos os meus amigos tiraria o coração da caixa e voltaria a pô-lo na caixa toráxica para pulsar e bombear sentimentos.
No entanto, devo afirmar que sou uma rocha inamovível na convicção de que as mulheres foram feitas para admirar e não para amar ou conviver. Não me verão constituir família nem ter qualquer outro tipo de convulsão que se aproxime de algo semelhante a um maremoto ou vontade de partilhar afeições íntimas que me possam voltar a fazer sangar. Já me esfolei de sobejo.
Por vontade da Carla, do Nasser, de todos os amigos voluntariosos, de todos os leitores curiosos e sedentos de novas e de todos os outros tenho a acrescentar que o meu coração tem dona. É uma caixa de ébano de trinta por trinta centímetros em ébano e forrada a veludos vermelhos e azuis, com nódoas de sangue (do dito órgão). O paralelipípedo está guardado num segredo que eu próprio não sei decifrar.
Quanto a mim, sou uma rocha. Sou gelo. Estou tórrido por uma miúda. Não irei ceder!

terça-feira, julho 18, 2006

Snark

Hoje lembrei-me do snark. Era adolescente quando vi a peça «A caça ao snark», de Lewis Carrol, e não cresci muito desde então. Continuo a apreciar a «Alice no País das Maravilhas» e «Alice do outro lado do espelho». Tenho pena de nunca ter lido o texto que deu origem à razão porque aquela tarde foi tão bem passada no teatro.
Alguém pergunta:
- O que é um snark?
O snark é um animal fabuloso, de sabor seco e oco, nas palavras do seu criador. Recordo-me que era qualquer coisa entre a cobra (snake) e o tubarão (shark), mas não tinha nada a ver. Aliás, há vários tipos de snark. Alguns têm plumas e mordem outros têm bigodes de gato e arranham, mas os mais perigosos são os Boojuns. Se alguém encontrar um Boojum irá desvanecer-se no ar e nunca mais será encontrado. Se a memória não me atraiçoa aqui há dois géneros, os que causam uma choradeira de morte e os que trazem um riso mortal. Assim, quem quiser caçar snarks mete-se numa grande aventura.
Se algum amigo ou leitor me quiser oferecer «A caça ao snark» está, pois, à vontade para o fazer. Vou ficar muito agradecido. By the way, prefiro uma versão portuguesa.

Nota: Os exemplares repetidos serão igualmente acarinhados, mas reciclados como presentes... é preciso ter muita lata!

Insónia

Aperto a almofada pelo desejo por satisfazer. Suo toda a noite a relembrar o teu esmalte branco feliz e o esverdeado dos olhos, luzires da alma.
Amarroto os lençóis perguntando por ti, reviro-me no leito buscando-te e acho-te sorrindo sentada na mesma rua onde te conheci.
Se tivesse dormido desde o nosso encontro... Mas, desde essa noite que passo as horas em claro. Porém sonho. Sonho-te. Sonho-te sorrindo com esses brilhos orgânicos que são etéreos e vejo-te enfeitada com jasmins, rosas, violetas e flores pequeninas azuis que ninguém conhece o nome. Sonho-te envolta num perfume tão mágico quanto as noites do Verão e sonho-te princesa moura e encantada só para eu poder ser um corsário raptor e enamorado, incerto da sua sorte.
Amarroto os lençóis sonhando acordado ainda espantado com os brilhos do teu esmalte branco e da felicidade esverdeada do teu olhar... luzires da alma, centelhas orgânicas enfeitadas por flores de perfumes finos. Amarroto-me nos dias sonhando-te. Insónias ansiosas e felizes de desejo.

Felicidade fútil

Estou feliz e nem sei muito bem explicar o porquê. Há fome em África e não me lembro. Há doenças no hemisfério Sul e não sei. Há guerra no Líbano e esqueço-me. Há racismo e não vejo. Há violência e viro a cara.
Estou feliz e não sei explicar o porquê. Deve ser deste calor impositivo e do amor que espero vir a sentir por ti.

segunda-feira, julho 17, 2006

Swing

O jazz tem de ter swing. Sem swing o jazz não presta!
Muito melhor do que comer romãs é beber um bom espumante e ouvir um jazz cheio de swing... de quando o jazz ainda puxava o pé prá dança...
Muito mais fresco do que gelado de baunilha é beber um bom espumante e ouvir um jazz cheio de swing... de quando o bebop não era mero exercício...
Muito melhor do que usar uma flor branca na lapela é beber um bom espumante e ouvir um jazz cheio de swing... de quando a improvisação não era ensaiada e toda masturbação...
O jazz tem de ter swing. Sem swing o jazz não presta! Por estas razões e por apreciar novidades que me cansa ouvir jazz. Encontro mais swing nas romãs, nas rosas brancas, nos gelados de baunilha e nos espumantes. Mas há canções e músicos que não têm tempo nem substituição. É uma questão de swing.

Safio

Trouxe um safio para comermos numa tarde de pachorra na companhia dum vinho branco muito seco e bem fresco.
Trouxe este jovem congro para alegrar umas horas de longas conversas e loucura ébria. Uma festa de aromas marinhos casados com vinhos e amizade. Estamos todos e todos tratamos do assunto. Primeira tarefa, a escolha da ementa:
- Ensopado à moda de Bragança!
Grita o mais alto. Alguns acenam que sim com a cabeça, mas há quem desminta com a preferência pelo guisado. Opção recusada sem amuos. A alegria estabelece-se em convénio e quase uníssona:
- Em escabeche!
O safio é amanhado como deve de ser e cortado em postas de um centímetro de comprimento. Chega-se-lhe o sal e espera-se quatro horas. Venha o branco para entreter.
Passada a espera tira-se o sal e as postas são divididas em pequenas partes, livres de espinha, que se enfarinham. A seguir, vão as partes do peixe a fritar em azeite. Ao óleo da oliva da fritura junta-se vinagre, dentes d'alho, cebolinha cortada, folhas de louro e pimenta preta em grão para se fazer o molho que se deita a cobrir os bocados do safio.
Está feito e resta abrir mais uma garrafa do mesmo fresco e citrino branco seco. Para o repasto, uma mesa posta com singeleza: toalha branca de linho, guardanapos do mesmo pano, apenas as alfaias necessárias para a desmancha e trinchamento de tão belo animal, os copos justos para o vinho e pratos e travessa de boa loiça.
Sem pressa nem prazos, a conversa continua caudalosa como um rio rumo à foz. Há-de vir outro dia e ainda estaremos à volta desta mesa de madeira com aquela janela de vidrinhos a deixar entrar luz bonita. Quando acabar a patuscada haveremos de pensar numa outra, sem prometer o petisco a seguir. Será surpresa.

Dia gordo

O dia custa a passar. As horas arrastam-se. Por momentos há sobressaltos de coragem. A ansiedade acalma-se um pouco, mas a guerra não se vence. O dia continua por passar. O dia leva semanas a passar. O Sol não se põe. O Sol não se põe nas incertezas e as dúvidas são estrelas perenes.
Estou pesado para levar os dias. Estou pesado para os dias me levarem. Não saio donde estou. O Sol não se põe. A espera não passa. A coragem não chega para vencer a incerteza. O medo não esclarece.
Este dia longo é gordo. É gordo, porque todo ele é pesado, redondo, imenso, sôfrego e difícil. A ansiedade não vai e o medo não esclarece. A coragem não pode vencer a incerteza, porque o tempo não passa.
A mentira tem encantos e o riso diverte a vida. Quanto vale o divertimento no tédio dos dias? Queria que o feitiço nunca passasse. Queria que o feitiço fosse real. Queria que a coragem vencesse o medo e que os dias longos se tornassem em dias muito curtos, porque felizes.
Sob este Sol escaldante sonho com estrelas caducas: as dúvidas que fazem voltar a pulsar o coração. Voltei a sonhar num dia gordo. Tenho medo do que fizer. Tenho medo do que não chegar a fazer. Tenho medo das ilusões. Tenho medo de mim. Tenho medo dos dias gordos. Mas, a mentira tem encantos e faz voltar a sonhar.

Luz

Preciso de luz, duma que me ilumine as decisões e o amor. Preciso duma solução como a encontrada por Johannes Vermeer: uma janela.
De que me valem o compasso e as cartas do geografo se não tenho luz para saber das terras e das distâncias? O meu coração parte-se. Parte-se novamente como se pudesse ainda partir-se depois de se ter partido todo. E eu que garanto já não o ter!...
Preciso duma janela que me dê luz, porque os meus olhos são frouxos e não alcançam os gestos e os quereres da mulher desejada. Sou de novo adolescente, não sei o que fazer e do tempo desconheço a virtude e o uso. Preciso duma luz, é tudo quanto sei.

Solidão

A solidão anda à roda. Por vezes vai, mas volta. Muitas vezes monto-me nela e não a largo ainda que a maldiga e lamente a sorte, outras vezes sento-me à espera deixo que passe e volte.
Atiro pedras à solidão. É inatingível. Tenho saudades da minha mãe. Tenho saudades da minha avó. Tenho saudades do meu pai. Tenho saudades minhas. Tenho saudades da Rita. Estou sentado frente às memórias.
Não é Verão. Não é Inverno. É uma estação ferroviária. Aqui só chegam saudades e partem vontades. Aqui tudo se faz de indolência e dor.
O vento toca a música da árvores. Por vezes acompanha-o a chuva. Está vazio de gentes. O carrossel vazio é uma dor, uma fonte de lágrimas e sorrisos trementes. Sento-me nos cavalos e sonho com a alegria da festa de quando se mexem, se acendem as luzes e tocam as músicas. Não é Verão nem Inverno. É uma estação de saudades: do pai, da mãe, da avó e da Rita.
Sento-me a mandar pedras à saudade e já não choro. Não me deixo chorar. Choro. Sorrio das alegrias antigas. Já não choro. Volto a chorar. Dou a volta ao carrossel, porque ele não roda. Dou a volta à saudade e à solidão, porque elas não se vão. Dou a volta para ver se partem. Não partem. Já não choro, sorrio. Sorrio e choro. É uma estação de lembranças e saudades. Um carrossel parado. A minha vida não está parada, está fingida.

Aflição

Estou aflito num dia calmo. Preso por um beijo, suspenso pelo olhar e detido no tempo. A espera é uma tempestade. No mais bonito luar produzem-se sombras de assustar. No silêncio fica a dúvida se dois corações podem bater acertados e se ao cavalgarem se ouvem na quietude da natureza. Haverá duas pessoas suspensas numa mesma aflição? Se houver um desejo de pele será mais aflitiva a espera e a incerteza antes do primeiro beijo. Se acontecer.
Se acontecesse uma noite, depois de todas as noites, haveria amor suado de beijos soltos, molhados em lençóis amarrotados de confidências. Se acontecesse o desejo... Mas estou aflito num dia calmo, desejando um desejo igual ao meu.

domingo, julho 16, 2006

Amor novo

Queria um amor novo. Um amor incondicional. Queria ser capaz de te amar sem te mostrar onde escondo as minhas dores.
Que frescura é a dos teus lábios? As minhas mãos querem tocar-te a carne toda e todo eu abraçar-te. Queria ser capaz de te amar sem te esconder as minhas dores.
Queria um amor novo e levar-te onde não levei ninguém. Levar-te à sombra das árvores fruteiras, beijar-te na luz baixinha da quase noite, estar em ti até à alvorada.
Os meus olhos são duas mariposas presas na fogueira dos teus. A minha alma sossega-se no sobressalto do riso de mentiras quase cândidas que me lanças.
Queria um amor novo e tempo para amainar. Tempo para esperar e saber. Queria uma nova adolescência e até medo. Beijar-te à luz mansinha até à alvorada, encostados às árvores fruteiras.

Vermelho absoluto

Tenho uma parte de mim a desapegar-se. Não sei qual. Evaporo-me ao ver-me no espelho. Evaporo-me por existir. Evaporo-me na vermelhitude destes dias.
Tenho o coração escondido. Está numa caixa. Bate por mania e o sangue que lhe resta é a memória da vida. O meu coração é um cardo. O meu coração desapegou-se e guardo-o numa caixa de boas madeiras e forrada a veludo vermelho. Tenho uma parte de mim a desapegar-se. Foge para onde está a brasa, porque sou frio e já perdi o coração. Um dia fujo-me todo.

Nova paixão

Acho que estou apaixonado! Foi hoje! Foi esta noite! Não me saem da cabeça: Aqueles ollhos, aquele jeito, aquela voz, aquelas mentiras!... Aqueles ollhos, aquele jeito, aquela voz, aquelas mentiras!... Aqueles ollhos, aquele jeito, aquela voz, aquelas mentiras!...
Este calor!
Este calor!
Acho que estou apaixonado!
Aqueles ollhos, aquele jeito, aquela voz, aquelas mentiras!...

sexta-feira, julho 14, 2006

Fruta vermelha

Apeteceu-me hoje jantar e amigar. As noites andam quentes e a puxar as gentes para fora de casa. O cheiro do Verão tem sensualidade. O cheiro do Verão é o da roupa estendida, é o dos secos, das ervas a incensarem-se.
Apeteceu-me amigar e degustar um tinto fácil e jovem, com um bons frutos vermelhos a saltarem de dentro dos vasos. Lamentavelmente, hoje vejo-me desermanado.
Apeteceram-me frutos vermelhos. Em vista a noite de previsível solidão precavi-me abastecendo-me com cerejas e framboesas. Vão ser o meu jantar. Em vez de vinho tinto escolhi uma bebida gasosa em versão light, já que o açúcar só me apaixona na doçaria e na fruta.
Apeteceu-me jantar e amigar, uma festa a dois ou a três feita de conversas, confidências, parcialidades e cumplicidades. Queria frutos vermelhos. Que seja vermelha a noite.

Tango e fado

Quando ouvi dizer duma ligação entre o fado e o tango achei estapafúrdio. Encolhi os ombros e disse cá pra comigo:
- Eles lá é que são doutores dessas coisas é que devem saber, mas cá pra mim é disparate. O tango e o fado?!... Nã!
Lá fui pensando, pensando, pensando e, pensando pensei nas varinas de canastras à cabeça e nas dançarinas de pés a arrastar pela sala. Tudo gente fina, já se vê! Os peraltas gingões cá do burgo e os pintas de Buenos Aires não devem divergir muito, até devem atinar nos bigodinhos.
No entanto, as guitarras e as violas a trinar não me soavam ao arrastar do bandoneón, nem os gargarejos sentidos dos fadistas me ajuizavam certo com os passos certos das coreografias ridículas dos bailarinos. A teoria da ligação entre o fado e o tango estava a afastar-se, definitivamente, na minha cabeça. Deixei de encolher os ombros para afirmar premptório a inexistência de parentesco dos géneros.
Porém, hoje, ao ver esta fotografia tudo mudou. O alinhado das escadinhas é um bandoneón aberto, os passos arrastados de quem as sobe são os de quem dança, a velocidade de quem as desce é a paixão de quem quer beijar, Alfama é tão popular, que se o tango ali tivesse nascido, ali teria medrado.
Agora que me rendi à teoria dum elo de sangue entre esta canção e esta dança falta-me convidar uma menina para dançar. Não a vou buscar a Buenos Aires, mas, quem sabe, ao meu bairro? Ela é uma alfacinha e eu um manjerico. É Verão em Lisboa!

Nota: Alfacinha, este é o teu presente de aniversário.

Dia Universal da Liberdade

Hoje é o Dia Universal da Liberdade! Oficialmente a democracia moderna começou a desenhar-se a 14 de Julho de 1789. A história não é perfeita e faz-se de solavancos. Com os mesmos soluços que os homens dão em tudo o que fazem. Tudo tem um rascunho. A história não pára nem tem fim, porque o tempo não pára nem tem fim. A democracia de hoje existe depois de muitos enganos, de graves asneiras e até crimes.
Na história usam-se marcos balizadores. Um deles está posto no dia 14 de Julho de 1789, data da tomada da fortaleza da Bastilha, em Paris, que servia de cárcere. Após o assalto foi possível afirmar que todos os homens são iguais e que nascem iguais. Para isso teve de se extinguir a ordem da nobreza. A nobreza de carácter não se extinguiu. Nem terminou a nobreza no preconceito de sangue e de classe - as mentalidades levam anos a mudar. Mas terminou na lei, e já foi muito. A igualdade substituiu o privilégio... ainda que apenas na lei e no ideário discursivo. Ainda que em nome do 14 de Julho se tenha entornado sangue.
A propósito de sangue entornado: o revolucionário marxista Ernesto Che Guevara foi registado a 14 de Julho. Contudo, alguém que queria impor regimes ditadoriais de esquerda não poderia ter vindo ao mundo numa data de liberdade. Na verdade nasceu num dia banal e apenas por ter ultrapassado o prazo legal, e para não pagar multa, a mãe o registou nesta data.
Quando se diz uma coisa deve ter-se presente o seu oposto. E o oposto de liberdade é reclusão. Reclusão de voz, censura, repressão política, incapacidade de organizativa espontânea e livre, impossibilidade de debate e de discussão de ideias, castigos corporais, polícia política, delito de opinião... Tudo isso aconteceu há pouco tempo. Tudo isso é ilustrável com a cidade de Berlim dividida pelo muro da vergonha, que durou entre 13 de Agosto de 1961 e 9 de Novembro de 1989. Quando se diz libedade tem de se saber o seu significado e o seu oposto. Sei que eras menina quando caiu aquela coisa de betão muito dura. Foi abaixo num dia muito feliz, num dia sem medos.

Pequei!



Senhores, pequei! E gostei! Voltaria a pecar! Não foi a primeira vez! Certamente voltarei a pecar!
Todos os argumentos contra a tourada são, muito provavelmente, verdadeiros, válidos e aceitáveis. Não contesto. Resumo: a tourada é bárbara! Contudo, gosto!
Não contra-argumento, porque o que conta não é saber se o animal sofre muito ou pouco. Sofre. É quanto basta. Não desvalorizo, não finjo, não escamoteio: há um animal que sofre involuntariamente. E isso basta. A tourada é bárara! Contudo, gosto!
Fui ao Campo Pequeno ver seis touros (seis) da ganadaria da Herdade das Pégoras, cuja divisa é azul e branca. Estava calor, muito mais do que na rua... que triste ideia a da cúpula amovível, que não se mexe de três quartos para trás! As águas esgotaram e apesar de não se poder fumar em recintos fechados, ou semi-fechados ou em espaços para espectáculos, fumou-se na Monumental de Lisboa, quase cheia de gente, muita dela que não sabia comportar-se numa festa de toiros. Que calor! Cavaleiros: Joaquim Bastinhas, João Salgueiro e Vítor Ribeiro. Forcados: os Amadores de Lisboa. O primeiro toureiro continua a ser um espalha-brasas! Todo ele é espalhafato! Admira-me não ter preferido a carreira circense ou adoptado um traje de luzes!... Não há paciência. Gosto do estilo de João Salgueiro, esteve sereno e seguro, sempre com música, mas sem grandes deslumbramentos. Em grande esteve o mais jovem cavaleiro, e nas suas duas lides, que acabou a dar uma volta à arena e a sair da praça em ombros. Os forcados não foram felizes. A corrida foi agradável, calma, média e sem tédio. Fui ao Campo Pequeno ver seis toiros (seis) que, não sendo de grande bravura, não se portaram mal e deram algumas boas lides.
Antes de ir para a praça tinha já decidido fazer o meu voto de culpa. Pesa-me a consciência. Sinceramente, custa-me gostar de tourada... e essa é uma das razões porque não vou mais ou porque quase não vou. Contudo, gosto! Gosto, porque a tridimensionalidade da tourada é diferente de qualquer opinião contra. A maioria das pessoas que é contra só o é porque nunca entrou num redondel para assistir ao espectáculo. Lá dentro a cabeça muda. Os pensamentos alteram-se, invertem-se... ainda que a lógica possa ser discutível, ilegítima e indefensável.
Contudo, gosto! Gosto, porque os cavalos rodam as orelhas para prestar atenção ao touro e ao cavaleiro. Gosto, porque há confiança da montada no homem que a monta. Gosto, porque o touro é duma enorme nobreza. Gosto, porque há uma beleza de movimentos naturais de músculos de touro, de cavalo e de homem e gestos encenados de equídeo e cavaleiro. Gosto, porque tem cheiro. Gosto, porque tem pasos dobles tocados ao vivo. Gosto, porque tem tensão... e na tourada a tensão é de sangue, a tensão é de morte... o nosso maior medo é o de morrer... um touro mete muito respeito.
Gosto da tourada à portuguesa. Os espanhóis desdenham-na e apelidam-na de «numero del caballito». A nossa é mais antiga e tradicional, a deles é que foi adulterada. Só a nossa permite que uns bravos se atirem para a frente do toiro. A minha preferência não se deve a nacionalismo. Gosto da tourada à portuguesa, porque é mais bonita. Gosto da tourada à portuguesa, porque ela dá, talvez, a única razão válida para justificar o nascimento desta arte: o treino para a guerra, para cavalo e cavaleiro. Se é que a guerra é uma razão válida...
Senhores, pequei! E gostei! Voltaria a pecar! Certamente voltarei a pecar! Lamento, mas ainda não estou aperfeiçoado para não pecar. No entanto, só aceito as críticas de quem já foi à tourada.

Adenda: Custa-me também que não se encontrem boas imagens de tourada à portuguesa na internet. Já me bastavam os problemas de consciência e as dificuldades em expressar as contradições em mim... agora ainda me vejo forçado a fotografar com o telemóvel... safa! Isto é demasiado!

quinta-feira, julho 13, 2006

Um abuso!

Hoje chegou a conta do telemóvel... uma abuso! Dava para comprar uma garrafa de Pêra Manca tinto e ainda sobrava dinheiro!... Já no mês passado foi assim!... No anterior também!... No precendente, idem!... É um escândalo, o que eu gasto em telefone! Eu devia era gastar apenas a diferença entre o Pêra Manca e o que está na minha factura... e já era muito!... uns quinze ou vinte euros! Mentira! Ao todo, a conta dava quase para comprar duas num sítio que eu cá sei. Estou es-can-da-li-za-do!

A terceira gata

A menina dos olhos meigos tem uma filhota doce e divertida. Um dia, a baixinha ganhou duas gatas, às quais prantou os nomes de Amiguinha e Paraquedas.
A Amiguinha é branca com manchas cinzentas e tão estouvada, que a mãe da catraia a levou para uma casa espaçosa no campo, onde pode fazer estragos e doidivanices à vontade. A Paraquedas é siamesa e estrábica, é a favorita da criança e é um amor ternurento e chega para lá e pára lá com isso e ronrom-marradinhas de felídeo.
Além de mãe e filha serem uns amores e se terem cruzado na minha vida, aconteceu estarem para mudar de habitat e não terem onde pôr o bichano. As minhas cinco assoalhadas têm servido de abrigo à Paraquedas... três gatos num apartamento causou, nos primeiros dias do convívio, ciúmes, bufadeiras, arranhões e sustos a todos os quadrúpedes que cá moram.
Há umas semanas, ou meses, nem sei, que vivo feliz com uma terceira gata. Dão-se todas bem e dão-me mimos. A terceira é um exagero de ternura! Vou sentir a falta da Paraquedas quando a menina dos olhos meigos e uma filhota patifória encontrarem o seu novo lar.

quarta-feira, julho 12, 2006

Nasser

Desde criança que Nasser merca em tapetes. Nasceu para ser príncipe, mas a vida fez dele mercador de tapetes. Não se pense que é um sujeito modesto, da sua boca nunca se ouvirá para um cliente uma reverência, uma vassalagem ou, mesmo, um tratamento por senhor. Nasser não chama senhor a ninguém.
O irmão mais velho, Yassouf, sempre acusou Nasser de ser agarrado ao dinheiro. Pudera, um tapete dá muito trabalho a vender. Não é preciso talento para vender um tapete, mas paciência. Calha bem, porque Nasser não tem nenhum talento, mas tem muita paciência. Nasser só se impacienta quando Yassouf lhe chama agarrado ao dinheiro e de judeu, o que para um muçulmano pode ser ofensivo; naquele caso pretende ser.
Yassouf e Nasser têm feições muito diferentes. Dir-se-ia que não têm o mesmo pai e a mesma mãe. Contudo, para confirmar o parentesco surgiu o irmão mais novo, Abdulah, cujo rosto é meio um e meio o outro. A Natureza tem destas coisas.
Nasser arrelia-se com a fama de avaro. Nem tem grande culpa, mas deixou que se lhe assentasse o bruá e agora já não se desapega. Para falar com verdade, Nasser é um amigo que dá tudo o que tem e pode. Tal como Yassouf. Se Nasser não dá mais é porque as suas precisões são muitas. No entanto, no que respeita a impalpável oferece-se como ninguém: é generoso e franco, aberto e sereno. Nasser é um amigalhão!

Nota: Este texto é dedicado a Nasser, que não se chama Nasser nem nunca vendeu um tapete.