A janela separa a vida da vida do outro lado.
digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.
sexta-feira, julho 20, 2012
Casa
A casa é uma fonte. A casa da revolução e do tédio. A casa
da serenidade e da inveja. Casa escreve-se com todas as letras, tal como ódio, amor
e mãe. A casa guarda e um cão guarda a casa. Os gatos vivem a casa e o cão vive
o dono. Na casa durmo, na casa como, na casa faço amor, na casa sofro, na casa
quero morrer, na casa vivo. Da janela para lá há o mundo. Do vidro para dentro sou eu.
Que tal sorte
Antes que a velhice esqueça, prefiro esquecer-me da velhice,
melhor será que a vida dela não se lembre.
Dormitar
O meu amor não vem e as palavras para distracção abafam-se
na leitura dos pensamentos. É tarde e está Sol, há uma cidade lá fora e tempo
para não fazer nada. Podia sair e ver o dia, mas a luz filtrada do quarto e o
quase tédio do silêncio abraçam-me, numa resignada prisão.
Céu
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Os olhos gordos de beijo descrevem uma elipse, fogo de artifício, fogo caínte. O céu de cima estrelado, aberto e generoso, como um pai. Afecto denso como uma mãe e seu abraço. Mãos dadas e apertadas, ternura perante o infinito e nas dúvidas no Deus, se existe, se nos vê, se nos ama, se é ou apenas está. O céu é uma abóbada e por momentos um dedo apontado é engenharia, pilar quase único que o sustenta. Todo o momento de luz e escuro é de música que se faz em ausência. O quase nada é tudo e é muito o pouco que se entende. Aí faz sentido o amor, os reencontros e a reencarnação, o tempo banal e finito, a alma única, se a houver, a irrepetição do tempo e tudo o que não caiba na boca e venha ao ar pelos lábios ou tão pequeno que não chegue a ter ar para se ouvir; tudo cabe sob o céu da noite. Tudo, pouco ou quase nada é quase tudo quando os olhos se vidram para um beijo.
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quarta-feira, julho 18, 2012
Tágide
É com a boca que me vences. Com a boca te bebo, com as mãos
me alimento do teu corpo. Sei-te ninfa e escolhi-te musa. Em ti me banho e
contigo faço amor. Que um beijo seja um poema e o final não tenha remorsos.
segunda-feira, julho 16, 2012
Dias
Uma canção pode salvar o dia. Um sítio pode mudar a vida.
Pode ir-se a sítio que não existe ou que existindo não existe. Pode-se ir a um
sítio e não estar. Uma canção pode salvar o dia.
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O salto para o sofá pode salvar uma vida. Uma troca de
olhares, um esse-éme-ésse, uns vodkas e um sofá podem salvar a vida.
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Mas a vida não acontece.
Piscina
Sou um vencido. Não amo chefes nem venero mestres. Nem sei
se chego a querer Deus na vida. Tenho a vida que me permitem. Tenho a vida que
faço e não culpo ninguém por esta não ser a vida que sonhei.
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Um dia de azul-roxo e Sol amarelo-laranja. O azul do fundo
da piscina e água vazia, ter coragem de deixar cair para trás, mas que seja de
braços abertos, de olhos abertos. Ter coragem de não ser um salto, de braços
fechados, de pé e olhos abertos. Em surdina um hit da pop com memórias e o
burburinho indiferente de vozes e vida. Ébrio e zonzo. Uma queda, uma forma de arte. Que seja breve esse infinito e que
seja já.
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Que vá na viagem. Que vá ao chegar. Que não chegue ao
instante a seguir ao chegar. O Sol forte num dia de água azul.
domingo, julho 15, 2012
O dia
Doem-me as veias como se não tivesse mãe. Tenho a vida presa
entre o queixo e a cova do pescoço, um certo aperto estrangulador.
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Não é só tédio, são dias a mais, dias rápidos na vida, dias
longos para o dia. Agora volta o mundo e não tenho saudades.
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O doloroso dia, de sono e desistência, de medo e birra. Quero
adiar. Um dia longo numa semana curta, que já parece longa. E a vida passa a
correr.
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Não é só tédio, nem melancolia, nem tristeza, nem nostalgia,
nem saudade, nem ciúme, nem impotência, nem desânimo, nem falta de vontade, nem
desistência, nem contrariedade… é a vida e a filha-da-puta duma vontade de
gritar.
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Opá! Quero amar e ser amado. Quero um amor como o da Bela
Adormecida. Uma casa com piscina, uma vinha, um olival e vista para o rio e sem
vizinhos. Quero esta mas outra cidade. Preciso de céu azul e nuvens de
tempestade. Não dispenso o vento.
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Não preciso que me empurrem. Tenho regresso. Não sei para
onde, mas sei que será a gritar. Nem que fossem cem anos, esta sesta é curta. Ao
acordar, o sentimento duma vida estúpida.
sábado, julho 14, 2012
Por favor
Poupa-me à tua beleza, que os beijos que se me impulsam podem desfeiar-te. Ou então chega-te aqui, onde a proximidade não me deixa
ver-te e os lábios não têm distância.
sexta-feira, julho 13, 2012
Como vinho
Quero ver-te nua e que mais alguém te ame, para que te possa
perder ou nunca ter. Não quero ganhar, quero saborear. Quero a bebedeira e sei
que esquecerei a breve ressaca. O mundo é tão novo, a vida tão breve, a vida
eterna, para que se possa ter ou não ter alguém. Um beijo não me chega.
O que nunca farei
Prometo-te vento na janela quando já deveríamos estar a
dormir. A rua ainda em silêncio e o Sol nascido. O Verão fez-se para os amores
breves e paixões eternas. A loucura do Inferno é precisa antes da calma
melancólica do Outono e da ternura do Inverno.
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O calor da água fresca, que aviva o hálito, revitaliza a
língua e exige beijo com os olhos nos olhos. O Verão é para o Verão dos
sentidos. Para a sensualidade da melancia, para a gulodice da meloa. Para a
pele e para a carne.
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Sim, desejo. Como se só uma virgem não soubesse. Não sei se
as sereias falam coisa que se entenda ou falando mo queiram dizer. Tenho
contudo a esperança e medo de ouvir.
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O Verão fez-se para tremer antes do primeiro beijo. Para sair
de mansinho pela janela, na quase manhã, em segredo mas com vontade de gritar o
prazer que se teve e quer mais.
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O Verão é para transgredir. O recato tem mais graça quando o
vento voltar húmido. O Verão é para guardar segredo, do que se fez e não se
chegou a fazer.
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Não sei mas sonho. Imagino querido por Vénus. Desejo o
abandono depois da loucura. Porque o mundo tem de voltar para quando vida
regressar de viagem.
Vénus imaterial
Imagino-te com o peito de Eva e a boca de Vénus. O monte da
Lua na mão direita bem desenhado e na esquerda invisível, escondido. Imagino uma
dança oriental no leito de espertina e suor. Ventre quente e segredo profundo. O
abraço da dádiva egoísta que recebe dando. A loucura como uma onda salgada. Prazer
sem descanso e repouso inquieto do cansaço e do desejo. A boca da sabedoria de
Vénus e o peito do pecado primeiro por cometer.
Noite clara de Vénus
Magnífica como num quadro. O cabelo escuro, os olhos em
descanso, o rosto claro e tudo à volta branco: lençóis, almofada e aura. Cupido
matreiro destapou-lhe o ombro e começaram a tocar clarins; o céu azuleceu e
abriu-se entre as alvas nuvens. Enxame de querubins e faunos brincando e dando
risinhos. Dei-lhe um beijo. Não acordou.
quarta-feira, julho 11, 2012
quinta-feira, julho 05, 2012
Espero que esteja bom tempo
Estou preocupado. Não tenho dinheiro para os programas giros
que quero fazer antes do fim do mundo. Nem tenho nada previsto para o caso de haver
22 de Dezembro.
quarta-feira, julho 04, 2012
Sob
Conquistando-te conquisto o mundo, toco no tecto do céu. Depois
acordo do meu sonho de olhos abertos, em que me oiço e escuto o mundo,
interpretando o universo.
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Tenho a certeza que nos pontos de luz vive gente. No entanto
está-se só quando apenas se tem por companhia os milhares de milhões de
estrelas da Via Láctea.
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Não sei muitos nomes de estrelas. Aldebarã soa-me bem:
fortaleza, barbacã. Guardiã de parte do céu. Digo eu. É aquela que se segue,
chamaram-lhe os árabes.
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Quem nos olha atrás da Via Láctea? Ou se dissimula numa
multidão de estrelas… Deus vê ou Deus sabe?
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Sei que o céu é já aqui, quando nus sob ele. Num leito de
chão, amor feito. Conquistada, toquei-lhe no tecto.
quinta-feira, junho 28, 2012
Não estou aqui nem volto já
Um dia caio no Snob como um cocainómano insiste no jornalismo. Como a velha guarda, que morreu, apaixono-me por olhos e sorrisos que não são para mim, eventualmente por pernas. Digo cona alto, porque penso não me ouvirem.
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Para mim só o uísque, que não gosto, a cerveja que me dilata o estômago e o vinho que evito beber. Frenet-Branca? Era miúdo e não respondo.
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Era ela. E hoje, quem me resta? Que me resto? Estou e vou estando, desejando estar onde não consigo.
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Azeitonas, Martinis. Alguns vodkas às escondidas, que os séniores não gostam, gins, que ninguém liga, e uísques de garrafa verde.
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Queria ser crescido: tinha namorada e casa, e carro.
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Sou crescido, porque já não me dou com os crescidos.
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O que é feito? De que sou feito? Quantos anos… a casa não é a mesma e a outra foi. Vejo-me antes do princípio sabendo quase tudo, conhecendo quase todos, e sem ter onde me sentar.
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Não é triste. É Patético. Para mim? Para todos. Sobretudo para mim.
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Para mim só o uísque, que não gosto, a cerveja que me dilata o estômago e o vinho que evito beber. Frenet-Branca? Era miúdo e não respondo.
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Era ela. E hoje, quem me resta? Que me resto? Estou e vou estando, desejando estar onde não consigo.
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Azeitonas, Martinis. Alguns vodkas às escondidas, que os séniores não gostam, gins, que ninguém liga, e uísques de garrafa verde.
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Queria ser crescido: tinha namorada e casa, e carro.
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Sou crescido, porque já não me dou com os crescidos.
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O que é feito? De que sou feito? Quantos anos… a casa não é a mesma e a outra foi. Vejo-me antes do princípio sabendo quase tudo, conhecendo quase todos, e sem ter onde me sentar.
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Não é triste. É Patético. Para mim? Para todos. Sobretudo para mim.
Ler primeiro, ouvir depois e escolher no fim... ou aceitar
O que é mais importante? A Madonna e o seu super-big-mac-show ou a intimidade apurada de Caetano Veloso? Um hambúrguer num dia de fome e fúria ou uma preciosidade de trufa num dia de tédio? Não hesito! David Byrne ao acordar, com camarão tigre grelhado e Leonard Cohen ao jantar, com vinho, kasher já agora, por exemplo.
Caracol
– Não devia ter comido caracóis…
– Porquê? Porque rima com espanhóis?
– Não. Porque vinte cervejas são demasiado rápidas…
Oi...
– Crida...
– Sim, môr?
– Tás a drumir?
– Tava, sim…
– Ah!
– Que crias?
– O jantar não me caiu bem…
– Vais vomitar?
– Não…
– Do que precisas?
– Que pagues o próximo. Pode ser na Trindade.
segunda-feira, junho 25, 2012
Uma noite
Estou um rio exausto. Parte de ar e muita terra. Caído, num
sono de impaciência, esperando a baixa-mar do tédio. Fundo no leito, abraçado
ao tudo, até o horizonte subir tapando o Sol. Noite de morte descansada, vida
de dias intranquilos. Uma noite descansada e um beijo na testa desistente. Dias
para arrendar.
domingo, junho 17, 2012
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