
Hoje proponho um exercício acerca da santidade. Peço desde já aos ateus e agnósticos que façam um esforço para ler estas linhas com olhos de crente, não lhes peço que o sejam. Só peço alguma agilidade de raciocínio. Porém, não é nada difícil, pois nem eu sou filósofo nem a questão me parece substancialmente complexa. O exercício poderá ser mais complexo para que acredita em Deus; há várias religiões e muitos credos. As questões podem ser mais ingratas para os católicos apostólicos romanos.
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Isto vem a propósito da canonização ou hipótese de canonização de D. Nuno Álvares Pereira. Sei que a Igreja Católica Apostólica Romana vai fazer uma votação, mas não sei se o resultado não está já tomado. Coisa que, aliás, não seria inédita e que não difere das práticas dos partidos comunistas deste mundo ou, de forma mais dissimulada, como os referendos contínuos de Hugo Chàvez até que dêem o resultado pretendido pelo ditador ou como os referendos acerca da liberalização da morte através do aborto, que também foi votada até dar o resultado que se queria e nunca mais a questão voltará a ser posta, porque esta é a que «interessa». Portanto, em matéria de democracia não devemos aprender muito com a Igreja Católica, mas também não é esta estrutura eclesiástica a única prevaricadora.
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A agência noticiosa Ecclesia informou ontem, 16 de Fevereiro de 2009, que o condestável de D. João I iria subir do patamar de beato para o terraço de santo. Neste sábado que vem (e há-de ir) realiza-se um consistório público para a votação de dez causas de canonização. O senhor Papa vai lá estar. A agência adianta ainda que esta reunião é um acto formal, em que Bento XVI pede a opinião a um conjunto de cardeais (que são aqueles que têm umas roupas lindas de negro e escarlate), que, por acaso, até já responderam se concordam com a canonização.
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Portanto, a santidade não se faz dum conjunto de virtudes morais e espirituais, mas por concordância duma maioria. Não fossem os cardeais, príncipes da Igreja, nomeados, e de forma vitalícia, poderia dizer-se que a canonização reflectia um espírito democrático. Por outro lado, se a decisão já é sabida, para que raio fazem uma reunião? Para mais, pública… não bastaria um comunicado?! O que estão os simples mortais paisanos lá a fazer?!
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Porém, o que me choca não é se o consistório é público ou privado. O que me encanita é a santidade ser fruto da opinião dum punhado de cardeais. Senhores! Acredito que Deus é justo e bom. Que ama todos os seus filhos por igual. Que tem consigo, trabalhando na sua vinha pelo aprimoramento moral e espiritual dos homens, filhos mais evoluídos, que podemos chamar de anjos, santos, etc.
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Se Deus é inteligência suprema e causa primária de todas as coisas, será que precisa que um Papa e uma mancheia de cardeais decida, decrete e torne pública a santidade de alguém?! Pode alguém, honestamente, dizer que sim, que precisa?!
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Será que os católicos apostólicos romanos não pensam nisto ou pensam e baixam as orelhas, porque não têm a coragem de dizer que o Rei vai nu?! É que uma coisa é fazermos parte o rebanho do Senhor, outra é sermos ovelhas por direito… é que os ovinos não se questionam e não devem quase nada à inteligência.
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Esta coisa da popularidade não me parece ser um atributo válido para canonização. Quando João Paulo II desencarnou, gritou-se na praça de São Pedro: Santo subito! Ou seja, já. O homem era muito querido pelos fiéis, pelo que merecia subir de elevador até à santidade, distância que outros tiveram de subir, padecendo, pelas escadas … que devem ser muitas.
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Constou-me que o nosso Santo António de Lisboa foi o quem mais depressa percorreu a estrada para a santidade. Já o nosso D. Nuno Álvares Pereira parece ser um aluno repetente, que vai chumbando todos os anos e que, só agora, vai prestar provas no exame. Ora, depois de séculos a tentar entrar no clube restrito dos santos católicos, o Santo Condestável conseguiu tornar-se beato em 1918. Contudo, os seus apoiantes meteram os papéis (literalmente) para santo em 1940. No entanto, a comissão nacional para a candidatura de Nuno não teve os conhecimentos certos, as cunhas, e / ou não soube mexer os cordelinhos certos, e aquele bom português só agora tem reconhecimento. Quer isto dizer: até 1918, Nuno era um borra-botas, bonzito e tal, mas sem relevância. Mas nesse ano, talvez por causa da participação de Portugal na Primeira Guerra Mundial (não nos esqueçamos que Nuno era condestável e génio militar), passou a ser «alguém» notavelmente bondoso. Agora é, definitivamente, bom… santo. Quem o disse? Deus? Não! Os homens!
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Sei lá se D. Nuno é santo. Não sei. Não tenho autoridade moral e espiritual para o afirmar. Sou apenas um simples crente em Deus e essa matéria não é da minha competência. Mas não tenho eu e não terão todos, ou a maioria, dos eclesiásticos que o decretaram, ou vão proclamar.
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A questão da popularidade também se põe ao contrário. Recentemente, há uns anos, a Igreja Católica Apostólica Romana tirou alguns santos dos altares. Porquê? Porque sentiu dúvidas acerca da sua existência e dos milagres que os tinham promovido. Se os homens os erguem, os homens os derrubam.
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O raciocínio está todo errado. É que milagres não existem! Tudo tem uma explicação lógica e racional. A ciência, a filosofia e o conhecimento, em geral, não conseguem negar a existência de Deus, mas desmontam o que os homens põem na sua boca. E isso a Igreja Católica Apostólica Romana (e outras) não percebeu, não compreendeu com base nas experiências do passado, pelo que confunde os conceitos.
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Se a Igreja Católica Apostólica Romana se assumisse, de facto, como feita por homens, com as suas limitações, e compreendesse que não há milagres, não passaria por vergonhas como as que passou. Hoje, envergonhados com as posições totalitárias e obscurantistas de seus predecessores, os prelados querem tornar plausível o que antes era maravilhoso. Deviam celebrar a bondade, a caridade, a humildade e outros nobres atributos. Não os milagres atarrachados aos homens.
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Isto já para não falar no politeísmo católico. A cada santo o seu pelouro, a quem se reza conforme a especialidade. Até a organização da Igreja Católica Apostólica Romana deriva da utilizada no Império Romano. Nem mais! Além do suborno e tráfico de influências que, supostamente, envolvem os santos… é a velinha e a esmolinha na caixa para que se faça o milagre, é a promessa para que algo seja concedido. Contra isto, esta crendice, nunca ouvi uma palavra ao clero católico.
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Nesta coisa das despromoções de santos criam-se situações incómodas. O que fazer a São Patrício, padroeiro da Irlanda? Se não o fosse poderia ter sido retirado do panteão, tal como Estaline fez com as fotografias dos seus bons camaradas, que foram deixando de o ser. É que entre os milagres de São Patrício está a expulsão das cobras da ilha.
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Um outro exemplo de como os católicos não se interrogam ou não sabem dalgumas maroscas da sua Santa Madre Igreja: Quem foi Santa Isabel? Bem, rainha de Portugal… ou dir-se-ia da Hungria? É que há as duas, aparentadas por sinal, e realizaram os mesmos milagres, incluindo o, tão nosso, das rosas.
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Voltando atrás. Se pensam que o processo de erguer um espírito à categoria de santo terminou, enganam-se. É que o Papa ainda há-de dizer quando é que, exactamente, o homem se torna santo. Não basta os senhores cardeais votarem e revelarem o seu voto colectivo, é necessária uma cerimónia que levantará, por fim, o homem à categoria superior. Deve concluir-se que quem faz os santos não é Deus, mas os homens, reconhecidos pelas suas virtudes… numa determinada conjuntura histórica. Hoje, São Jorge já não mataria o dragão. Pormenores.
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A coisa tem ainda outros contornos. Diz a Igreja Católica Apostólica Romana (tal como os restantes cristãos, judeus e muçulmanos) que Deus é único. Ou seja, de todos. Ainda que não queiram ou saibam, é-o também dos xintuístas, animistas, hinduístas, sikhs, budistas, etc. Então, por que não há santos doutras religiões reconhecidos pela Santa Igreja Católica Apostólica Romana? Por outro lado, por que a generalidade dos santos é posterior à instalação do rito católico?
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Porque Deus é justo e bom, e universal, é que há homens bons em todas as religiões, em todas as latitudes e longitudes, em todas as épocas. Entre os agnósticos e os ateus. Tenho a certeza que Deus prefere um bom filho ateu do que um facínora rato-de-sacristia.
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No entanto, as diligências dos eclesiásticos católicos não se fica por aqui. Enquanto em Portugal se pondera a divisão do território, através da regionalização, nos vastos territórios da espiritualidade o movimento é inverso, de concentração. Primeiro havia o Céu e o Inferno. Depois, a Igreja Católica criou o Purgatório e, mais tarde, o Limbo. Há poucos anos, o Papa extinguiu o Limbo. Porque tem mais lógica, provavelmente, como antes tivera o inverso. E lá devem andar as alminhas aos tombos dum lado para o outro, numa azáfama à procura do novo lugar a que agora pertencem. Não é Deus quem organiza e reorganiza os mundos espirituais, mas o clero católico.
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Dir-se-á que as decisões do Papa são inspiradas pelo divino… enfim! Quero só recordar que os Papas são escolhidos por cardeais, inspirados pelo divino Espírito Santo - dizem. A avaliar pelas obras e perfis de alguns pontífices, os prelados não distinguiram o corvo agoirento duma alva pomba.
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É por estas e por outras que não compreendo como gente boa e inteligente ainda alinha com a Igreja Católica Apostólica Romana, com o seu clero. Não pensam, nunca pensaram, não querem pensar ou… não conseguem.

















