digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

quinta-feira, julho 16, 2015

Fiel e canino

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Cavaleiro andante, bravo, romântico e voluntarioso, com a frontalidade dos estúpidos e a mansidão dos indigentes de íntimo, fiel e canino, pelos seus daria o sangue.
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E houve o dia em que caí, o cavalo sobre mim galopou, e imóvel pela armadura.
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Nem manopla que segurasse o espeto depois de exigir clemência se a não pedisse. Nem manopla que espetasse impiedosa – afinal misericordiosa. Nem montada para partilhar, nem braço, nem capa.
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Pedro negou-o por três vezes. Quantas vezes mo fizeram?!
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Calado como os estúpidos. Calado para não perder quem me deu por perdido. Fiel e canino.

A queda de que me joguei e salto sempre

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É mais fácil ser-se do favor. É mais fácil ser-se do contra. E é tão fácil dizer-se diferente, concordar divergindo e desviando no aceitar.
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Onde estou?
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Monárquico distraído, republicano preguiçoso e cansado de explicar a quem não quer ouvir.
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Onde estou?
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Talvez nos cínicos. Talvez até nos hipócritas. Nos medrosos, certamente nos merdosos.
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Onde estou?
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Nos tolos. Nos que acreditam em qualquer coisa aparentemente possível. Nos da bondade de boca e barriga cheias, de bolsos vazios. Nos que acreditam terem uma importancizinhar.
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Nos peremptórios. Nos das excepções. Asseado por fora e sujo para dentro. Dolorido e lastimoso: chame-se índole e consciência.
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Voz em frequência modelada: social-cristão para ser revolucionário e poder agradar ao mundo.
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O mundo não se importa. Importo-me e espero que alguém se importe. Não importo, nem preciso de me preocupar com gregos e troianos.
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Social-cristão, a coisa imprecisa e fácil de pronunciar.
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E é tão fácil dizer-me diferente, concordar divergindo e desviando no aceitar.
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Tão simples como ser do favor e da contestação, só que numa névoa – dispensável, mas obrigatória – de ridículo.
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Onde estou?
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Onde me deixam estar.
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Provavelmente tem a ver:
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– O meu futuro é aquilo que se viu.
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Nota: Obrigado Fernando Tordo por este último verso.

quarta-feira, julho 15, 2015

O amargor depois da mentira

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Dividido entre a razão e o coração. E se o coração for razão e sem ele não havendo tino?
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Que culpa têm, sabiam, pois sabiam. Sabendo, pois sabiam ou não quiseram saber, nada fizeram porque a vida ia bem. Um dia a vida desamparou-se. E a vida continuou como se não houvera tombado pois vinha de lá e nada se fazia para cumprir juramentos.
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E agora, sim neste momento, o que fazer com os fracos se os fortes são fracos?
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As bocas sujas falaram da limpeza e da luz duma verdade mentirosa.
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Sabiam, pois sabiam ou fingiram não saber. De olhos fechados na tranquilidade do impossível prometido.
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Então forte, a canalha fez fracos os fortes. Durante meses suicidando-se e na urgência do tempo sujaram o sujo e assim mais os fracos.
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A verdade era mentira e a força a duma bufa. Tão fortes e ajoelhados, porque tão fracos e de boca suja. Pela traição humilharam aqueles, os mesmo fracos, que sabiam, pois sabiam ou fingiram não saber. A vida corria, porque alguém dava e ali nada se fazia por cumprir juramentos.
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Por fim, sem saída a canalha tombou. Humilhada, a Grécia se ajoelhou e a outra canalha riu-se, desprezível e mesquinha, em revanche de gente pequenina.
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Explicado, pergunto:
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– A razão ou o coração, se o coração é razão para não. E sabiam, pois sabiam.
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Todos sabiam e a vida corria. Até ao dia. E ainda o Juízo Final por chegar, mais sombrio por causa do tempo do suicídio da canalha, dizendo mentiras pelas bocas sujas e mãos transtornadas.
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O povo é fraco e por isso vai pagar. Pois escolheu a vida que ia continuando e no fundo do bolso deixou a mentira enganar.
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E os fracos, os mesmo fracos?
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Entre a razão e o coração. Entre a dignidade que não se nega aos derrotados e a reprimenda merecida. Pois sabiam, pois sabiam. Mas a vida ia e as promessas, para quem dava, não.
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E os mais fracos?
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Nota: Alexis Tsipras e o sinistro Yanis Varoufakis que castigo merecem, se ninguém pode tirar a vida a alguém?

O que beber com Alexis Tsipras

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Por não valer grande coisa, por estragar mais e, no final, se ter ajoelhado e deixado o país humilhado: Jägermeister.


Desmomento

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– E se…?
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Disse-me no vácuo duma conversa por iniciar. Não chegou a ser suspiro nem sussurro.
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– E se…?

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Repetiu e percebi que falava acerca de qualquer coisa a meu respeito, não tendo como certa a minha existência além de.
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Uma conversa acabada, um pensamento solto, sem início. Eu estava ali, não estando, suspenso do depois.
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– E se…?
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Tomei-me por excedentário e afastei-me duma fonte que se recusava a secar-me a sede.
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Sou um homem-de-papel, personagem em letra impressa e vontade imprecisa. Até onde se chega, quando um ponto final é sucedido pela palavra fim. Não passo pela lombada.
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Ou isso, ou não entro por direito, intruso que se vale mais do que dão.
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– E se…?
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Repetiu novamente, já estava no caminho do sair. Não parei mais do que o tempo necessário para lhe dizer:
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– E se…?
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Olhou através de mim. A conversa terminara.


Letra C

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Luíz Vaz de Camões.

terça-feira, julho 14, 2015

Ausente negligente impotente

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Pois que e. Às voltas com um cansaço que chega ao terço do caminho, e o corpo perdente da vertical e conformado só diz não conseguir. Sente o polvo malhado antes do tacho com água fervente e respondendo às questões do Trivial Pursuit.
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Os olhos fixos no ecrã que neles se fixa. Os gestos inertes do sistema que talvez corra no computador.
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Hoje não faço mais nada e ontem também não farei e amanhã quem sabe se talvez um dia que pode ser. Uma cama não chega. Nem um sono, todos e seguidos, sem pausas por sede ou fome.
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Desencarno e vejo-me (sobrevoando) incapacitado, não esperando nada, vazio. As correntes de ar trazem os pós do mundo, não levam.
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O mundo e chatices e as discussões moentes, não sossegam nem espicaçam. Aguento as ondas e um dia. Que é hoje e foi ontem e numa data de dias para trás. Esparramado sob.
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Aos dias:
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– Sejam calmos, de Sol e repouso. Vão sem mim, que não consigo ir lá ter. 


sábado, julho 11, 2015

Letra M


Ateimar... Teimar... Ateimar... Teimar

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Um teimoso nunca teima sozinho. O chato chateia em qualquer plateia, até quando está sozinho. 

Qualquer vasilhame serve para beber o chá... não se pode é sorver

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Entrei na loja e disse:
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– Bom dia.
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– Bom dia. Faça o favor de dizer.
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– Tem paciência e boa-educação?
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– Tenho, sim senhor. Quanto quer de cada?
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– Olhe, aí uns cinco quilos de paciência e nove quilos e trezentos de boa-educação.
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– Aqui tem. Deseja que embrulhe?
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– Sim, mas só a boa-educação. É para oferecer. 

Jeitinho de mãos

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Sou fantástico em bricolage. Consigo desarranjar tudo.

sábado, julho 04, 2015

Zona de exclusão aérea

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Depois de mim a paz e a guerra, como antes de mim, como depois de mim. Pago a irrelevância por ser indiferente. Os meus dias são normais, tão banais pelo que absurdos.
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Houve o tempo do drama, amores e desamores, consequências e coincidências – argumento para telenovelas venezuelanas. Os dias eram absurdos.
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Agorafobia enclausurado. Claustrofobia no mundo. Nem ruas cheias nem casas vazias nem inversos.
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Não sirvo para isto e só disto tenho. Como procurar a paz se não conheço. Basta-me uma floresta para me perderem ou um ribeiro afluente do mar, cortando o mundo em veredas de muros de arbustos e árvores.
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Komorebi dá alegria desde que não se oiça além da floresta infinita… e permita pelo menos waldeinsamkeit, nem que por conforto de ilusão. Podia.
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Podia ser um jardim nas traseiras, em que muros altos e paliçadas compactas de ciprestes fechassem para azinhagas esquecidas e desautomobilizadas. A luz só no pino e a meio, em redor sombras magníficas.
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Num canto um pomar só de limoeiros e laranjeiras-da-baía. Os figos chamam moscas e as macieiras dão fruta aborrecida. Talvez uma romanzeira, duas para terem companhia.
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O jardim não seria secreto. Seria invisível. Os ciprestes dão pouca sombra, mas tapam muito. Que outras árvores? Oliveiras centenárias, azinheiras tortas e sobreiros cabeçudos.
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A que distância dos ciprestes se podem plantar estás árvores? Talvez heras ou videiras se não estrangularem troncos e cones.
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Assaltado por inquietação, pergunto:
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– E a mãe?!
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 Não seria mais fácil sem mãe? Nem morta nem perdida. Sem mãe e o seu colo.
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A mãe não traz a paz ao mundo. Talvez não traga a guerra. Não a evita.
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Sem colo não há saudades. Neste jardim grande das traseiras não há a mãe. É uma dimensão sem mãe.
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A mãe dói. Os dias fazem-na doer e um dia. No jardim das traseiras não há mãe, e não é uma quinta dimensão onde é a quinta-essência. Só a mãe não é. Nem pai.
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O mundo é guardado lá fora, depois dos ciprestes e dos muros altos, muralhas nas azinhagas esquecidas. Só voando se sai e não voo. Nem voando se entra.
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Há gatos, mas não palmeiras. As palmeiras são ervas estranhas. Os gatos podem ser estranhos.
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No jardim há poço? Não há a árvore-espelho, subindo-se de tronco os anos e ramificando tristezas, saudades, lugares sem destino. Nem tampouco alegria, que é como figo chamando as moscas.
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Árvores dessas não se abatem. Não é a do Conhecimento do Bem e do Mal. Só de sombra e poleiro para aves.
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Não é árvore do esquecimento. Para isso tenho o jardim:
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– Se não me esqueço ou não esquecem, ao menos não me encontram.
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Nem se alimenta do ridículo. Para isso tenho o jardim:
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– Se não me esqueço ou não esquecem, ao menos não me encontram.
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Queria ter valor ou se o tendo mo vissem e mo vissem por mim dissessem aos outros que quisessem.
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O jardim nas traseiras, em que muros altos e paliçadas compactas de ciprestes fecham para azinhagas esquecidas. Sombras magníficas.
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Queria ser bom, e sigo no caminho do parvo. Perdido, em círculos, teimoso na vontade e chegada.
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Ridículo! Nenhuma mãe merece ver o filho em tal tristeza. No jardim a mãe não é.
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Dor de corno por saber que não se tem valor, doutra forma alguém. Mais corno se tendo valor e ninguém.
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Ridículo! Nenhuma mãe merece ver o filho em tal tristeza. Pior sabendo que aqueles e nada. No jardim a mãe não é.
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Nenhum filho merece ver a mãe a vê-lo em tal tristeza.
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Agora a mãe não é e amizades não são. Tenho o jardim das traseiras.
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O jardim das traseiras é melhor do que o suicídio. Não precisa despedida nem lágrima nem conversa. No jardim fica-se e o esquecimento floresce nos lugares todos do mundo. Se alguma memória vier, depressa se irá no pensamento:
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– O que será feito?! A ver se lhe ligo.
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Ligará? Não ligará? O telefone não existe e não há campa nem urna para as cinzas. Sem morte não há fantasma. Esquecido fica esquecido, não se fala mais nisso.
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Não preciso que leiam a mão direita. Não preciso que me leiam a mão esquerda. Qualquer adivinhação é certeira e falha. Dizem as estrelas:
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– Sol e Lua em Capricórnio, ascendente em Capricórnio e Saturno na Casa Três. O Sol na Casa Um, em conjugação com o ascendente. A Lua na Casa Um, tal como Vénus, que se conjuga com o ascendente. Saturno na Casa Três.
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Mas há treze signos e têm vidas de tamanhos diferentes e todos se vêem num planisfério inexistente… gosto tanto!
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Assim se explicam os dias absurdos. À noite amena de lua-nova, os brilhares são os vizinhos da frente. Por nada me mudaria.
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No céu não acontecem Komorebi.
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Nem há palavra waldeinsamkeit que troque árvores por estrelas.
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Diferentemente do jardim das traseiras, em que muros altos e paliçadas compactas de ciprestes fecham para azinhagas esquecidas. Sombras magníficas.
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Dele não se voa nem para ele se chega voando. Zona de exclusão aérea.

quinta-feira, julho 02, 2015

O cuco não pode cucar quando o comboio apita

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Os cucos são, para além do ser humano, o único animal que apanha comboios. Como não sabem ler e não entendem a tabela dos horários, perdem-nos muitas vezes. Todavia, sabem perfeitamente para onde querem ir e não costumam levar bagagem.

quarta-feira, julho 01, 2015

O que as chamas não queimam

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Nos coliseus não se queimavam almas, nem nos rossios nem nas câmaras dos campos de extermínio nazi. As almas incineram-se nos remorsos, no espanto e na incompreensão.

Silogismo

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Disse-me:
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– Amanhã vamos ao teatro.
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No dia seguinte telefonei-lhe e respondeu-me:
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 – Não tens amor-próprio?
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Disseram:
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– Temos de usar anestesia, o tubo não passa.
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Respondi-lhes:
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– Não faz mal, tanto-faz.
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Conclusão:
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– Por vezes o não-faz é igual ao tanto faz.

Que o tempo me passe com um Nomos

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Cansado de rir:
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Palhaço.
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Cansado de estar:
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Carbonário.
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Cansado de ser o que querem que seja:
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Invertebrado.
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Cansado de estar a rir:
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Verbo irregular, intransitivo e reflexivo.


Para mim tanto faz, pode ser uma imperial e uns amendoins

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Estar parado é um tanto-faz. De olhos abertos ou fechados, tanto faz. Deitado seminu e encaixado num sofá mole, tanto-faz. Flutuar sobre a desarrumação da casa quieta, tanto-faz. Dormente de comprimidos esperando o que se já tem e navegando febril, tanto-faz.
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Tanto-faz tanta coisa, as que importam e as que não interessam e as que tanto-fazem.
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Tanto-faz não é estar mole, é um dos estados de pré-morte, donde se regressa ou se faz, porque tanto-faz.
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O pão é d’ontem e tanto faz. Os iogurtes passaram de prazo há dois dias, tanto-faz. Não há nada para comer, tanto faz. Sei de cor o número de telefone da Pizza Hut, mas tanto-faz, não morrei por isso e por isso tanto-faz.
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Amanhã tenho consulta no psiquiatra. Vai espreitar-me para dentro pelo que sai da boca e que os olhos deixam entrar. Perguntará e só lhe posso dizer que tanto-faz. Vai perguntar-me e passar receitas e não sei se as irei aviar ou tomar tudo, pois tanto-faz.
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Amanhã tenho consulta no dentista. Vou gastar dinheiro para comer confortavelmente e ter uma boca mais bonita. Sinceramente, tanto-faz. E tenha cárie ou não, tanto-faz.
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Tenho uma estação de metro no final da rua e o comboio segue directo, mas talvez apanhe um táxi, porque tanto-faz. Se a volta for fraudulenta estarei alheado porque tanto-faz e se for rápida e correcta estarei alheado porque tanto-faz.
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A rua tem falta de passadeiras para peões e atravesso-a à mesma, porque tanto-faz tê-las como não as ter, pode ser-se sempre atropelado. Se o for, tanto-faz, não há tempo para dar importância aos odores do sangue e do alcatrão nem às vozes aflitas que dizem:
– Já ligaram para o 112? Vou ligar para o 112.
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Sinceramente, tanto-faz. O prazer não tem erecção e as erecções são o que sempre foram na espécie humana: erecções. Nada mais do que erecções. Isso é o animal e o tanto-faz fica.
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O amor?! Hum! Tanto-faz ou se faz, tanto-faz.
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Quando tanto-faz nem os seios redondos e cheios da adolescente fazem com que não tanto-faça. Quando tanto-faz nem o brilho dos olhos verdes, nem o penteado à garçonne, nem a barriga lisa, nem os cabelos compridos, nem o sorriso, nem as palavras, nem as juras, nem a feliz celulite, nem o peito pequenino que é leito de cheia de beijinhos, nem as vidas, nem todo o amor do mundo concentrado numa só pessoa. Tanto-faz.
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Tanto-faz é um lugar incompreensível para quem nunca lá esteve e quase indefinível para quem lá está. Tanto-faz alegre, tanto-faz triste, tanto-faz que tanto-faça. O que for que seja e o que não for que não seja.
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Não quero lembrar-me do passado e não quero saber do futuro. No tanto-faz talvez a única coisa que importe seja o tempo a passar e que de dentro dele não se saia, nunca amanheça, nunca entardeça, nunca enoiteça e nada haja que faça. Até ao dia.
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Esse dia, para todos aqueles tanto-faz-como-se-não-faz, será a semente duma coisa qualquer. Quando o tanto-faz tiver uma consequência pode ser que. Ou tanto-faça e escorreguem duma vez todas as memórias com as imperiais bebidas à mesa da esplanada frente à boca que engole ou incinera.
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As traições e ainda assim amizades! A fome e o não ter muito, do precisar e esperar. Não tanto-faz quando se sabe que aquele corpo com quem se partilhou a mesa um dia disse:
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– É complicado.
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Quando o amigo em vez de se ver ao espelho, sonhando que eu o pudesse partir, e assim perdesse a cadeira, não disse e desaconselhou. Na falta escolheu.
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O que fazer?! Tanto faz.
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Calei ou disse baixinho a alguém e outras vezes chorei até ao tanto-faz. Enquanto me fizeram corno deixaram-me desamparado como amputado de préstimo. Quando tive frio e não abriram o armário para me darem um abafo.
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Que fiz, então? Disse tanto-faz, são meus amigos. Corno como as senhoras de antigamente, calei-me e disse baixinho a alguém e outras vezes chorei até ao tanto-faz.
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Tanto-lhes-fez-como-não-fez e sabendo que não-tanto-fazia e que ficaria no tanto-faz. O que fiz?
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Se para uns tanto-fez e fiquei tanto-faz, digo que faço e faça, para que não perca mais. Já bastam os tanto-faz que me deixaram tanto-fazer-como-assim-como-assado-como-frito-ou-cozido.
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Tanto-faz é um sítio com duas portas e numa entra-se e deixa sair e outra por onde só se sai. É um desses locais onde o gemido dos feridos balbucia o verbo seguinte.
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No tanto-faz espera-se e o tempo é tempo sem tempo. Por uma porta entra-se e sai-se e a outra abre-se e tranca-se atrás do último passo. Aí fica o jardim dos insuficientes.
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Se a morte não existe e a vida tanto-faz, que Deus permita desexistir.
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Que bebam imperiais e comam tremoços e amendoins.

O que beber com Winston Churchill

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Chá Gorreana. De certeza que diria qualquer coisa sarcasticamente engraçada e deselegante, mas beberia até ao fim e exclamaria:
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– Jamais o tomaria com Lady Astor!...
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segunda-feira, junho 29, 2015

O resto é água

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Olhar de cão. Ouvido de gato. Estômago de pecado. Fígado de batalha. Pulmões entediados. Coração de cristal. Olhos de janela. Cérebro de galinha, Cabeça de basalto.

Queres mesmo que te responda?

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– Há tantas palavras para preto, mas a densidade é tal que conhecemos poucas. Mesmo os olhos são incapazes de abarcar toda a dimensão. Penso que as guardo todas num pantone íntimo.
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–  E o branco?
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– O branco é a mesma coisa, mas não interessa nada. O branco não interessa nada!
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– Por que não?
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– Porque não o vejo nem sinto nem pressinto, é uma coisa, uma coisa plana sem nada, que pode tudo e não tem nada.
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– É como a esperança?
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– A esperança tem uma semente e o branco não tem nada.
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– E as outras cores?
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– Só o azul importa, porque é o belo. Fora do azul há o escarlate e o caminho do lilás ao roxo.
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– As outras cores?...
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– Importam o mesmo que o branco. Ou lhe são úteis dando algo de si ou misturam-se como cães rafeiros em cópula, numa propagação irrevogável.
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– Irrevogável?
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– Sim! O que mais há?... Amarelo, e amarelo é só amarelo. O carmesim tem dois filhos felizes, o escarlate, feito com o azul, e o laranja, arranjado com o amarelo. Ao verde, nem a beleza do azul o salva. Amarelo é amarelo, e tanto faz. Carmesim é carmesim, e tanto faz. Laranja é laranja, e tanto faz. Verde é verde, e tanto faz.
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– Então, e o castanho?!
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– Queres mesmo que te responda?

E até

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Queres mais do que não te dei e sei que nisso pensaste e até te tocaste. O que fizemos não sei, mas sei o que fizemos – o que não é a mesma coisa. Enquanto pensas, fechas os olhos derretendo o enigma como um rebuçado e.
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Confesso-te que gostei e gostando gostaste que tivesse gostado e eu a mesma coisa.
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Veste-te para que te dispa novamente e te dê o que me pedes, sem que digas e ou nos vejamos.
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Sei que pensas nisso e logo, quando a casa estiver calada, vais abafar os risinhos e sons rebeldes porque os demónios dos dedos fazem o que desejas te faça.


Que números têm as palavras palhaço e palhacito no pantone de negros?

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Chamaram-me palhaço. Era a brincar, disseram, e que era com ternura. Chamaram-me palhacito. Era a brincar, disseram, e que era com ternura. Não é por odiar palhaços e arlequins que. É pela verdade das palavras, espelhos que me impõem. Palhaço, sim – triste pela condição. Mais cruel é palhacito – triste pela condição de nem chegar a ser adulto.
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Não conto piadas porque sou palhaço. Conto piadas para poder ser amigo.
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– O que sou? .
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– Palhaço. Não há volta a dar. Pelas piadas e pela triste infância em que vivo.
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Pergunto e respondo, porque ninguém dialoga com os palhaços quando não estão pintados.

A vontade da água

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A água do mar vai onde quer e a doce às vezes.

O inenarrável é contável e a tristeza é tóxica – como se fosse o texto derradeiro

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Nado-morto nasceu, e morto viveu. Deixou de mamar, de arrotar e bolsar. Foi o bebé mais bonito que viram. Havia colos e a avó era outra mãe e a outra mãe era a outra mãe. Ria-se e fez birras, e como sempre essas lembranças apagam-se do pensamento da mãe – de todas as mães.
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Usou calças-à-boca-de-sino e foi fotografado a preto-e-branco e a cores na praia, no campo na cidade e no Carnaval. Acreditou no Pai Natal até tarde, até depois dos colegas lhe terem assassinado o amigo das barbas. Tinha um olhar doce e a doçura não o defendeu dos pontapés dos colegas de turma, as canelas estavam sempre negras e não se queixava à professora nem à mãe, mas a mãe via e contava à professora que não via nada nem fazia nada para ver.
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Gostava da praia e teve de engordar por causa do mar, porque uma bactéria dizimara milhões. Era o campeão dos carrinhos-de-rolamentos e jogou mal futebol, mas com os nabos da turma fez uma equipa vencedora e por fim perdeu. Um dia disse mal do melhor amigo e o venerando mais pequeno assinou a declaração com palavras de assentimento, e reconciliado espancou o pobre-diabo, e ficou com dores de arrependimento para o resto da vida. Depois odiou a escola preparatória, um lugar de vómito, e ingressou na secundária, onde continuava gordo e foleiro, embora ténis de marca e roupa com etiqueta, e cresceu em altura, ficou esbelto, bonito e dandy.
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Namorava e não namorava ninguém e à noite os demónios desengaiolavam a líbido e acontecia sempre qualquer coisa que se poderia chamar de namoro, que durava umas horas, talvez três dias ou até um mês, mas aconchegado em mais afectos e desejos. Na escola decidiu trair a vocação e encontrar passagem noutra coisa, noutras coisas que até gostava. Adeus às artes, veio a história e ainda antes as notícias. Tão imaturo, o jovem adulto dos mais palermas. Tão infantil que mimetizou nos cigarros e whisky.
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Sempre os demónios à solta, desprendendo a líbido, fazendo dele um crocodilo manso, que magoou sem perceber nada, chame-se-lhe egoísmo ou imaturidade, e ficou com dores de arrependimento para o resto da vida. Tão infantil que um dia acreditou no amor eterno vivido na carne.
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Tão infantil que acreditou na subida permanente e na satisfação no trabalho. Um dia caiu e houve poucas mãos. Respirou e um dia perdeu quase tudo e o amor, e uns dias mais um grande amigo matou-o sem explicação, e matou-se depois e sobreviveu para continuar a morrer, suicidando-se por teimosia, e ficou com dores de arrependimento para o resto da vida.
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Felicidades breves e pela líbido conquistou relampejante um amor, dois amores, três amores, quatro amores, cinco amores, seis amores, todos desamores e ficou com dores de arrependimento para o resto da vida.
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Dinheiro. Uma risada de tristeza e de lágrimas rasas nos olhos, mas em repuxo na intimidade. Trabalho? Incontratável, imprestável, evitável – quando um patrão perguntou, a amiga disse que era complicado. A outra empresa e contratar e o amigo calou-se, não se sujaria recomendando, pois o afecto para uns é cunha e para outros cruz e nem vale a pena falar de competências. Podia ter sido e ter sido depois ainda, mas o amigo calou-se e ele culpando-se ficou com dores de arrependimento para o resto da vida.
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Sentido remorsos do que não fez nem deixaram fazer. Inviável sentou-se em tédio e insónia, e em insónia prolongada viu e viu que pouca coisa valera a pena. Incomodado no tédio morreu constantemente nos intervalos em que se não tentou matar ou esteve dormindo. O sono – é antecâmara da morte – o melhor remédio para presente, passado e desejo, e culpando-se ficou com dores de arrependimento para o resto da vida.
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O sono quando não aleijou foi aliviando e os minutos tornaram-se balas à queima-roupa, e foram anos e anos e anos e anos e outros virão. Depois um amor e de tanto imerecimento acordou com vontade de adormecer, mas queria apanhar o navio-fantasma. Ficou com dores de arrependimento para o resto da vida, com dores alheias, desejando a morte, mas preferia inexistir, porque inconseguiu muito.
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Dos pontapés na escola, à traição inexplicável, às quedas e às poucas mãos da ajuda, e outras poderiam ter estado, mas ele era complicado e o melhor foi não recomendar, e outras poderiam ter estado se o silêncio não lhe tivesse sido mais útil do que o afogamento em pestilências do náufrago, que ficou com dores de arrependimento para o resto da vida.
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E dos seus defeitos, erros e falhanços, que foram tantos, ficou ainda com mais dores de arrependimento para o resto da vida.
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Quarenta e cinco anos e meio escrevem-se com as oito letras do falhanço. É o que acontece quando nasce um nado-morto que ficou para viver. As coisas boas são poucas, talvez dez e por pudor não conta para que não tenha mais dores de arrependimento para o resto da vida.
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Para repousar dorme e às vezes tem descanso e outras calvário, é melhor do que. Pergunta-se se a vida existe e se está vivo. Distrai-se inventando-se actor num teatro vazio, onde as cortinas de flanela negra têm buracos das traças e fantasmas de corvos observam e fantasmas de gente observam, dizem e gritam. É de arame, o veludo. A sala negra é de negrum, porque negrume é mais claro. Aí se esconde e lambe as feridas das dores de arrependimento, que viverá para o resto da vida.
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A Terra é redonda e dentro só há negro e fora também.

!

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Est vita coitus interruptus
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Nota: Se o latim estiver incorrecto, avisem-me.

Letra I


domingo, junho 28, 2015

Água

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Se digo, é uma maré de ondas grandes que me transpõe. Se não digo, fico em represa a transbordar. Afogo-me no rebentar irado da partida ou no cansaço de inalcançar uma margem.
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Quando era pequenino tinha colo e festas na cabeça. Agitavam-me devagarinho para que me acalmasse e fechasse os olhos em sonhos de miminhos.
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A vida corria magra entre seixos, fresca, transparente e limpa. Afluentes, os anos e as suas lágrimas encheram o leito, onde à noite me deito e desejo dexistir ou adormecer até chegar o sopro.
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Sinto muito e peço-me desculpa e perdão aos outros. Se uma luz viesse iluminando-me, para que lavasse, levasse em graça e esquecimento.
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Um copo de água fresca amolecendo pela noite do dormir e pela manhã ainda lá estar com pequenas esferas de ar aprisionado e eu longe.

sábado, junho 27, 2015

A máquina-incrível

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Em cada copo de vinho tento esquecer-me de me lembrar dos jantares felizes com gente infeliz ou que infelizmente.
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A memória mata.
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Em cada copo de vinho esqueço-me de me lembrar dos jantares felizes com gente feliz.
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A memória mata.
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Em cada refeição esqueço-me de orar agradecido por ter comida na mesa.
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A memória mata-se quando o desamor. A mesa apaga-se, porque a gula é segregada no cérebro e não no estômago.
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Quando compro roupa percebo que o Diabo conspira contra mim.
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Quando compro roupa esqueço-me de saber que o Diabo não existe.
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Quando compro roupa e tenho o discernimento de lembrar que o Diabo não existe enfado-me e irrito-me por não haver quem para me carregar com as culpas da gula.
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Prestem atenção:
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– O sumo de limão é doce.
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O doce também amarga e para isso basta alinhar, por ordem cronológica, as minhas camisas e calças.
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Canso-me de contar anedotas a mim mesmo.
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enfado-me por as saber todas.
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Desespero quando tento dormir e o Diabo – que se soltou na mente – matraqueia-me com:
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– Lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização.
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Irrito-me por tropeçar sempre que pronuncio, ainda que mentalmente:
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– EBITDA.
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Tenho pesadelos por estar acordado. Ressono, tenho apneia e tesão. O pior são os pesadelos eróticos.
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Gostava de vomitar pela cabeça e de ser a Bela Adormecida rodeada pelas minhas gatas e o cão ao lado e quieto.
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Dormisse por cem anos ou duzentos ou trezentos ou que me encontrassem o corpo mumificado.
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Gostava de ter uma máquina-incrível. Uma máquina para qualquer coisa e que continuasse anónimo.
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Gostava de ser invisível e conhecer a nudez duma data de miúdas.
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Gostava de flutuar e ascender por degraus invisíveis.
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Gostava de ter poderes telepáticos ou uma máquina-incrível para conhecer a nudez duma data de miúdas – caso não conseguisse ser invisível – e que essa máquina me apagasse das câmaras de vigilância e sossegasse os alarmes e distraísse os seguranças.
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Gostava de ser rico. Gostava de ser rico e sem ser pelo trabalho. Ser rico porque sim. Ser rico e sem mérito, pois uma virtude chega-me e fico com a primeira para que outros tenham a segunda.
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Gostava de sair.