digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

domingo, julho 13, 2014

O Sarrazola e eu

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Escrevo poemas toscos de contra-senso barroco.
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O Sarrazola escreve poemas finos, de arestas vivas por serem tão polidas.
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Escrevo poemas a respirar.
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O Sarrazola escreve poemas a doer de parto.
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Faço tudo em bruto, aos trambolhões da cabeça abaixo.
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O Sarrazola escreve pensando. Volta a pensar, rasga, pensa, escreve, rasga, rescreve e escreve.
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Desculpo-me no argumento do genuíno, no poema-bom-selvagem.
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O Sarrazola diz-me para limpar a sujidade do quase improviso.
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Escrevo acreditando na inspiração.
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O Sarrazola escreve com trabalho.
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Acredito em musas...
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O Sarrazola...
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Acredito no talento e no talento do Sarrazola e convenço-me que tenho algum.
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O Sarrazola...
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Escrevo poemas num blogue – serão eternos.
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O Sarrazola escreve livros pequenos.
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Os meus poemas ficarão esquecidos na multidão da internet e os que terão uma mão de fora estarão maltratados pelo tempo.
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O Sarrazola estará nas bibliotecas e será citado.
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Gostaria de um dia ser reconhecido, mas suicido-me a cada poema que escrevo.
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O Sarrazola escreve poesia e sabe escrevê-la.
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Tenho preguiça.
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O Sarrazola sua das palavras.
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Sou leviano.
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O Sarrazola é fiel.
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O Sarrazola é um grande poeta e gostava-o maior que.
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Sou um malabarista e detesto circo. Como toda arte morta circense, nem mesmo eu me lembro do que escrevi.
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O Sarrazola é um grande poeta.
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Nota: Dedico este meu poema ao meu grande amigo Alexandre Sarrazola, que publica na editora Averno – editora pequenina mas muito séria.

Auto-entrevista a um poeta que ainda treme de medo de ridículo por assumir que o é

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Perguntou ao poeta um homem ou mulher ou juvenil curioso:
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– Senhor poeta, o que é uma musa?
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– A musa é uma fonte de inspiração.
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– Todos os poetas têm musas?
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– Acho que sim... mas haverá alguns que dirão que não têm, porque não sabem ou farronca materialista. Todos os poetas e todos os artistas... até os criadores filosóficos, físicos e matemáticos.
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– E inspiração, todos os poetas têm?
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– Alguns dirão que não, que é só trabalho. Mas sem inspiração, escrever poesia será tão oficinal quanto fazer sapatos ou ladrilhar o chão. Os outros, os que acrescentei, também.
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– Fazer sapatos ou ladrilhar o chão são indignos dos poetas? Valem menos do que a poesia?
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– Nada disso. Há certamente sapateiros, ladrilhadores ou outros oficiais que serão inspirados. Não são é tão óbvios... foi um exemplo. Tal como há poetas sem inspiração ou talento. Deixa-me corrigir, sem inspiração, a poesia é letra, tenha ritmo ou rima, como a sola ou o prego.
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– O talento, julgo, nasce connosco...
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– Nasce, mas se não o trabalharmos não medra.
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– E sem inspiração?
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– Digo-te o mesmo que há pouco, sobre o trabalho.
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– E o talento, há inspiração?
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– Sim, há... certamente medíocre. Talento sem inspiração e talento e inspiração sem trabalho são palavras mortas, estéreis ou inanimadas.
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– Voltamos às musas...
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– Mais reais do que sereias... também as há, e muitas.
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– Dragões?
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– Os dragões podem ser medos, consomem-nos dando-nos como carne a nós mesmos.
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– Que comem as sereias?
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– Ilusões várias... algumas muito pirosas.
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– De que se alimenta uma musa?
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– De tusa!
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– São reais, então... as musas?
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– Quase todas.
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– As musas sabem que são musas?
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– Algumas saberão.
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– Os outros, os paisanos... sabem das musas? Conhecem as musas dos poetas?
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– Alguns sim, uns concordam outros discordam. Podem só conhecer a musa da letra e não o seu corpo de carne e pensamento.
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– Os poetas têm sempre musas?
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– Às vezes não. Vão e vêm. Umas partem e outras chegam.
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– Se é tusa o seu alimento... o que acontece com a disfunção eréctil do poeta?
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– Do poeta ou da poetisa... a disfunção eréctil está na cabeça, sonho e língua, no talento, na inspiração e no trabalho.
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– As musas permitem tudo?
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– Tudo. Tudo. Tudo.
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– Tudo?
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– Tudo, desde que a carne do poema não queira morder a carne da musa.
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– Tens alguma musa?
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– Tenho!... e muita tusa. De fome não morrerá.
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Nota: Devo este texto ao verso inspirado de Fernando Grade, «Exclamativo à porta da cidade»:
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– Não há tusa
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Para tanta musa!


A volta ao mundo em 80 dias – Cantinflas – Cinema de alívio 5/5

O tédio é tanto que vou fazer a barba e deixar um bigodinho «à foda-se», enquanto vejo «A volta ao mundo em 80 dias», com o pegajoso Cantinflas, realizado pela triplete Michael Anderson, Kevin McClory e Sidney Smith.
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Nota: O filme «A volta ao mundo em 80 dias», do Cantinflas, tem em mim o efeito 7 Up.

Os tambores de Fu Manchu – Cinema de alívio 4/5

O tédio é tanto que tenho vontade de dar golpes de karaté na inércia doentia enquanto vejo «Os tambores de Fu Manchu», de Sax Rohmer.
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Nota: O filme «Os tambores de Fu Manchu» tem em mim o efeito Red Bull.

O monstro da lagoa negra – Cinema de alívio 3/5

O tédio é tanto que só «O monstro da lagoa negra», de Jack Arnold, me poria a dar pequenos saltos felizes no sofá.
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Nota: O filme «O monstro da lagoa negra» tem em mim o efeito mazagrã.

O ataque dos tomates assassinos – Cinema de alívio 2/5

O tédio é tanto que não consigo sair para almoçar nem aproximar-me da cozinha, mas mataria a fome colado ao ecrã colorido com «O ataque dos tomates assassinos», de John de Bello.
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Nota: O filme «O ataque dos tomates assassinos» tem em mim o efeito gaspacho.

O regresso dos mortos vivos – Cinema de alívio 1/5

O tédio é tanto que só um abraço mortal, como n’«O regresso dos mortos vivos», de Dan O’Bannon, me poderá renascer.
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Nota: O filme «O regresso dos mortos vivos» tem em mim um efeito ginger ale.

Os canibais – Cinema traumático 5/5

O tédio é tanto que pondero ser comido vivo enquanto vejo «Os Canibais», de Manoel de Oliveira.
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Nota: «Os canibais» é dos piores filmes que alguma vez vi.

Non ou vão glória de mandar – Cinema traumático 4/5

O tédio é tanto que estou capaz de me deitar no chão, com estrutura para me prender a cabeça, e ver o «Non ou vã glória de mandar», de Manoel de Oliveira, até que deseje ser fechado numa santa por ordem do Tribunal do Santo Ofício.
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Nota: O «Non ou vã glória de mandar» é dos piores filmes que alguma vez vi.

Pallomella Rossa – Cinema traumático 3/5

O tédio é tanto que estou capaz de dar cabeçadas no ar enquanto vejo o «Pallombela Rossa», de Nanni Moretti, a ver se parto a cervical.
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Nota: O« Pallombella Rossa» é dos piores filmes que alguma vez vi.

Bilbao – Cinema traumático 2/5

O tédio é tanto que estou capaz de me amarrar à cadeira, enquanto vejo o filme «Bilbao», de Bigas Luna, para que na ânsia de fugir trinque a língua.
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Nota: O ««Bilbao» é dos piores filmes que alguma vez vi.

Melo – Cinema traumático 1/5

O tédio é tanto que estou capaz de ver o filme «Melo», de Alain Resnais, só para ver se me irrito e digo uma caralhada.
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Nota: O «Melo» é dos piores filmes que alguma vez vi.

sábado, julho 12, 2014

Levitação

Não é torpor nem sono, é levitação. Uns dez centímetros acima da realidade, o que não me interessa. Nem sei se tenho pescoço no fim da cabeça ou troco abaixo. Parece-me sentir – não chega a ser ouvir – um vrruuum em mim em ligeiros câmbios, do suposto levantar ao alegado caminhar.
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Talvez não esteja vivo, pois insinto o deslocar do ar da passagem, só o eventual vrruuum.
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Se fecho os olhos penso-me dentro dum ovo ou passageiro duma nave silenciosa a voar do conhecido para o incerto.
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Esforço-me na concentração e lembro-me do colo da avó materna, duas vezes mãe, a quem pedia socorro e deitava a cabeça.
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Um remorso de não a ter amado como devia e ela sem nunca se queixar, com a paciência longa e calma de quem conhece o segredo da eternidade.
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Um remorso que faço esquecer. Aquele colo e mãos, a voz quieta, o tempo sem tempo... penso como se estivesse dentro dum ovo.
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A candura e a paciência dos santos, desta minha mãe e mãe da mãe.
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Podendo dizer injustiças... quendera largar a tralha e o corpo para que este meu levitar crescesse em voo.
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Triste. Apenas um fio de seda prende a âncora que me segura.
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A vida tão frágil e um desejo marinheiro.
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Sim, gostaria de partir. Guardando em fetal como dentro dum ovo.
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Se fecho os olhos sinto o motor cantar vrruuum e apenas o silêncio vagaroso que se interrompe fora de mim.
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Saudades serão prováveis, o lastro fixa-me.
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Vrruuum... soltar, largar e subir.

A palavra

Poema de Paulo Veiga

Um homem disse a uma mulher:
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– Quero-te por três razões,
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Das quais revelarei apenas duas:
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A primeira é porque és o Arquétipo.
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– Dou-te os meus olhos, respondeu ela.
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A segunda razão é porque estás aqui.
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– Dou-te a minha boca e a minha voz,
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Mas preciso de as saber todas, disse a mulher.
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– Impossível; a terceira é uma quimera
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Que me encanta, mas falta-me a Palavra.

A pergunta do desejo

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Quero-te toda duma vez, que possa decidir o que querer numa próxima. Que faças comigo o mesmo. Que sejamos indecisos. Que sejamos teimosos na busca. Que nunca nos falte vontade de ciência e iluminação pagã. Sob todas as fruteiras conhecer o bem como se sob a do conhecimento do bem e do mal. Se a encontrarmos cairemos, um sob o outro e curiosos investigaremos sempre uma pergunta sem resposta, não faltarão horas.

O Paraíso tem sinos que chamam a rebate

Estás tão alta
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Ainda assim vejo-te
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Tão alta que vejo-te o que inventar
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Inventando posso dar-te o que quiseres que te dê
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Tocar-te-ei e cantarás laudes.
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Tocar-te-ei nesse sino
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Irás ao céu segurando-me
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Exausto da subida cairemos
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Sobre o outro e novas laudes
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Sino sempre a rebate
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Até que as horas nos expulsem do Paraíso.

sexta-feira, julho 11, 2014

Luz

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Um dia vi uma luz que não trazia sombras.
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A paz era de anjo e a palavra a de Deus.
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Os teus olhos de luz são estéreis de penumbras.
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Creio porque vi e porque te vejo.
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A luz dos anjos e a dos teus olhos.
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A das revelações e a que me ilumina com o teu amor.

Se a Lua e o Sol iluminarem Vénus

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Fui cego e hoje vejo-te sem que me vejas como me vias quando te não via.
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O tempo recua nos sonhos. Na vida nada se tira nem põe ao por fazer.
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Deito-me de olhos fechados vendo o tecto branco, tela de cinema dos meus quereres e medos.
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Vejo um filme com princípio mas sem fim.
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Vejo uma espera impossível.
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Impossível é não morrer de corpo.
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A luz que me ilustra as pálpebras fechadas poderia iluminar-te a nudez diante de mim.
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O escuro do quarto esconde a tua ausência como a tua presença.
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Feito homem na solidão suspiro em fazer-te mulher.
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Só me acodes em sonhos.
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Só me alivio na alvorada.
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O que ficou por dizer esquece-se.
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O que ficou por fazer far-se-á se Lua e Sol iluminarem Vénus.
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Acredito? Não acredito e sei que a vida faz-nos os inacreditanços.

Terramoto-te, maremoto-te, incendeio-te de prazeres

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Deixa-me falar dentro de ti. Deixa-me abraçar-te e nos unamos compactos como terramoto.  Deixa-me levantar maremoto e te afogue num prazer de sal e espuma. Deixa-me ser fogo e te incendeie.
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Serei primeiro de Novembro de mil setecentos e cinquenta e cinco.
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Serás Lisboa, sempre bela e cheia de luz.
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Serei telúrico e te farei exausta.
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Serás Lisboa cansada em ais de prazer.
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Deixa-me falar-te ao ouvido, ao coração, à carne e à alma.
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Dá-te que te darei.
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Nota: Desenho do século XVIII

Mar na boca

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Prometeste-me um beijo salgado. Espero-o e sonharei com ele até ao momento em que as nossas bocas se tocarem e as línguas se abraçarem.
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– Por favor, mais...
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Esse prazer de dor tão boa que se pode morrer sorrindo, exausto e sôfrego.
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Em troca desse beijo salgado, sal da vida, uma onda, um maremoto de mim sobre ti, que o teu prazer se crave na minha carne, se faça viva da força, do ritmo, do calor dos corpos e das tuas garras de rapina, das minhas mãos de guindaste.
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Dirás:
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– Mais... não pares agora...
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Direi:
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– Mais...
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Que o teu sal nos tempere, para que ao comermo-nos não digamos insonso.
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No final, depois de tantos ais... a minha força possível me alente para te beijar doce e a boca te saiba dizer a verdade da razão por estarmos assim exaustos.
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Deitados lado a lado. Deitados de cabeça sobre o outro.Deitados vendo o tecto. E que lá decima voes como rapina e me apanhes.
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Os lençóis como ondas amarrotadas de espuma de mar e seu sal.
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Beijando-nos onde se guardam os segredos faremos nova agitação.
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As horas não sobram e o dia irá esperar, ganharemos da luz nova novo sal.
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Se me beijares primeiro com sal na língua.
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Se eu chegar primeiro, será com doce.
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Talqulmente como o sal.
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Com doce nos entregaremos à mesma morte feliz e seu renascimento.
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Quando tiver de ser, beijar-nos-emos como se fosse a última vez, com nostalgia e culpa, vontade de ficar e repetir.
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O relógio só terá horas mortas, para que as tenhamos sempre vivas.
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Até à próxima, língua salgada.
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Até à próxima, língua doce.
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quarta-feira, julho 09, 2014

A toilette cigana – O racismo comunista

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Voltando ao racismo e comunismo – sete milhões de ucranianos mortos às mãos de Josef Vissarionovitch Stalin; conhecido em Portugal por Estaline ou carinhosamente como «Zé dos Bigodes». Stalin, acrescentou ele ao nome: «Homem de Aço». E como todos são iguais à luz do comunismo, Josef Vissarionovitch Stalin mudou o nome da cidade de Volgogrado para Estalinegrado.
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Sim sete milhões de ucranianos mortos à fome no Inverno de 1932/1933. Porquê? Porque era necessário alimentar os russos! Já se percebe por que os ucranianos saudaram os alemães a quando da invasão? Já se percebeu por que alguns (erradamente) se tornaram fascistas, apesar de continuarem a ser eslavos sub-humanos? Já antes, um milhão e setecentos mil cazaques tinham passado pelo mesmo suplício da morte por inanição.
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Mais seis milhões de camponeses e pequenos proprietários rurais morreram à fome ou fuzilados no período da colectivização forçada.
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A 30 de Janeiro de 1933, um austríaco, alistado no exército bávaro na Primeira Grande Guerra, um insignificante cabo chegou a chanceler da Alemanha e pôs em prática o que escreveu no primeiro volume de «Mein Kampf» («A minha Luta»), em 1925, e no segundo volume, em 1926.
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Entre 1933 e 1945 calcula-se que o regime nazi tenha morto seis milhões de judeus... «pelo menos Estaline não fez perseguições religiosas ou étnicas» – orgulha-se um camarada menos beato, ignorante e optimista.
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Não?! Em 1943 – lutava-se contra a Alemanha anti-semita – Estaline lançou um programa de perseguição de judeus... e Marx era judeu e tantos bolcheviques da primeira hora eram judeus. Em 1953, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas denunciou a «Conspiração Judaica».
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Pois, o Grande Capital! O Grande Capital aliado dos nazis. Em 23 de Agosto de 1939 o «Pai dos Povos» mandou o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Viatcheslav Molotov – um dos responsáveis pelos sete milhões de mortos da Ucrânia – assinar com o seu homólogo alemão Joachim von Ribbentrop um acordo de paz e não agressão... o tal que foi rasgado pouco depois pelos germânicos.
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Em 1934 foi constituída uma província autónoma, no cu da Sibéria, para acolher a população judia da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. O argumento foi benemérito: para que pudessem preservar a cultura iídiche dentro dum país ateu.
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Historiadores – supostamente independentes ou macabramente tendenciosos anticomunistas – referem que os planos de Estaline abrangiam um total de vinte milhões de judeus. Verdadeiro ou falso? O número presta-se a especulações, interpretações e mentiras – seja que lado for na contenda.
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Não foram apenas os judeus, as vítimas dos nazis: social-democratas, comunistas, socialistas de vária ordem, anarquistas, homossexuais, testemunhas de Jeová, eslavos, ciganos... Tal como não foram apenas ucranianos e judeus as vítimas de Estaline: cazaques, polacos, coreanos, alemães, checos, búlgaros, finlandeses... além de todas as raças, etnias e religiões do Paraíso na Terra.
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Porque o grande país comunista foi um dos vencedores da Segunda Grande Guerra e porque houve mais do tempo para se apagarem as listas de vítimas do Estalinismo, os números serão sempre especulativos: entre vinte milhões e cinquenta milhões de vítimas. Talvez nesses números estejam contabilizados os combatentes republicanos, entre eles comunistas, da Guerra Civil de Espanha, deixados ao abandono em França e que pereceram à máquina da morte nazi.
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– Mentira!
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Dirão os beatos comunistas, os comunistas cínicos e os sacerdotes comunistas.
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Certo, certo não se sabe bem... os números vão de pouco menos de dois milhões a pouco mais de três milhões. Mas não contam com os judeus deixados para trás, abandonados à voragem nazi.
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Sim, e agora, que uma nova luz irradia na Rússia, homem dos serviços secretos e polícia política da União das Repúblicas Soviéticas, redescobrem-se nazis na Ucrânia. Sim, agora, tal como em 2007 quando se vandalizaram sepulturas de judeus russos.
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Não! Não vale a pena mudar a pontaria da conversa para o conflito israelo-palestiniano. Não tem a ver, não é a mesma coisa, ainda que tristemente haja também racismo e intolerância religiosas. Não, esse tema não é este – e que tantas vezes serve para distrair com poeira e fumaça argumentatória.
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Pois é, a história é fodida! É memória. Pois, mentiras, canalhices, filha-da-putice, obscurantices, maldades de toda a ordem, gritarão os inocentes beatos, os beatos, os cínicos, os situacionistas, os sacerdotes e o grande sacerdote do comunismo.
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Pois, e a prova de que nazis e países de democracia «burguesa»são muito amigos – dizem os comunistas, obliterando o pacto de amizade nazi-comunista de 1939 – é que muitos alemães, muitos nazis, muitos criminosos de guerra migraram para os Estados Unidos da América e países com ditaduras de extrema-direita da América Sul, apaparicadas por Washington.
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Sim! É verdade! É tudo verdade e não vale a pena justificar com a Guerra Fria. Sim! É verdade! E quantos passaram para o lado da União Soviética?
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– Ai que vem aí o argumento que eram presos de guerra – o que justifica a situação... ou que viram a «Luz» ou que tão-somente tentaram salvar a pele... pois, pois. Idem, idem. Aspas, aspas.
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Tudo isso é verdade, nem que parcialmente.
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Sabem o que aconteceu ao general Friedrich von Paulus? O homem que comandou o sexto exército alemão na Batalha de Estalinegrado e que, perante a derrota iminente, Adolf Hitler promoveu a marechal-de-campo, ordem subliminar para que se suicidasse... O que lhe aconteceu?
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Viveu na República Democrática Alemã – a palavra democrática ou é cinismo ou é cinismo – como chefe policial... Sim, aquele país onde se construiu um muro para que os alemães não caíssem na tentação do Demónio capitalista – foi por bondade.
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E todavia, a Terra roda em torno do seu eixo e à volta do Sol. Houve quem morresse por causa disso.
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Tudo isto a propósito de quê? Esta minha resenha, assumidamente anticomunista, não surge porque acordei a trautear «A Internacional» e fiquei com azia. Não. Aliás, o hino é muito bonito.
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Hoje, dia nove de Julho do ano civil de dois mil e catorze, uma edilidade governada por três vereadores comunistas – os únicos com poder executivo – decidiu perseguir a comunidade cigana.
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A simpática vila da Vidigueira, terra outrora famosa pelos seus vinhos brancos, tem à frente gente que manda demolir o abrigo de duas famílias ciganas – ou clã, pois são setenta pessoas, uma é a dos Azuis e, a outra, a dos Cabeça. A Guarda Nacional Republicana avançou com aparato para defender os operários camarários, que com máquinas pesadas deitaram abaixo o pavilhão – atenção, pavilhão, não palácio.
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Qual a diferença quando é um comunista a agir desta forma ou quando, em 2010, o presidente de França, o conservador Nicolas Sarkozy, quis expulsar do país imigrantes ciganos?
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Não, não vale argumentar que uns estão cá desde o século XVI e outros, «aqueles», estavam lá desde há uns anos ou meses – isso seria racismo. Humanamente é igual.
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Vamos aos estereótipos: o cigano é machista, a viúva não pode voltar a casar, os casamentos são arranjados, andam armados ilegalmente, não pagam impostos, vivem de rendimentos pagos pelos contribuintes e não fazem nada, são criminosos, dedicam-se ao tráfico de droga, roubo, assalto e venda de produtos roubados e contrafeitos.
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Elencados os estereótipos tenho a dizer que: vi um casal de ciganos numa repartição de Finanças, que muitos estão integrados na sociedade dominante, que em vários locais se dedicam à produção de artefactos oficinais – hoje, por desuso, são artesanais.
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Ainda que poucos, que os estereótipos representem 99% da verdade sobre a comunidade cigana, o que há a fazer é impor a lei quando dos ilícitos. Seja o que for, os ciganos da Vidigueira são pobres e viviam em situações deploráveis – se há bandidos entre eles, que os detenham, julguem e condenem.
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O que se não diria se tivessem sido políticos de direita a fazer o que fizeram os camaradas autarcas da Vidigueira...
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Nas últimas eleições legislativas, o chefe do Centro Democrático Social – que é de direita e não de centro – pregou contra os abusos na atribuição do Rendimento Social de Inserção. Pois, que ali viram, por causa dos estereótipos, um ataque à comunidade cigana.
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Se justiça há ou havia nessa acusação subliminar de racismo contra os ciganos, o actual Governo – criticável por tantas coisas – tirou o lar, com total falta de condições, a ciganos pobres. No Porto, o edil social-democrata Rui Rio – homem que tem horror à cultura e aos artistas – quis reabilitar o bairro do Aleixo, onde habitavam criminosos entre outros populares. O que o Partido Comunista não disse e acusou...
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O Partido Comunista Português – tão cioso do seu passado antifascista, apesar de algumas colaborações contra inimigos comuns e homossexuais, e das fantasias e mentiras da sua historiografia – não se cansa de citar a fome e a miséria dos camponeses alentejanos.
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Nesse Alentejo de camponeses sem terra viviam ciganos, gente mais pobre, que vendia gado ou se dedicava a pequenos ofícios. Na sua itinerância recebiam dos pobres alguma ajuda.
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Esses pobres, que o Partido Comunista Português toma como todos seus, não maltratavam os ciganos. Se os comunistas portugueses respeitassem as suas afirmações e a memória dos «seus» camponeses seriam os primeiros a denunciar a pobreza dos ciganos alentejanos – ah! O estereótipo – de fora deixo a outra polémica da Reforma Agrária, é outra coisa.
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Tudo não passaria duma mentira de Verão, não fossem as vozes, sobretudo, do Bloco de Esquerda e da Cáritas. Todos os partidos condenaram. São quase dez e meia da noite e não li nem vi nem ouvi qualquer condenação por parte do Partido Comunista Português.


A estupidez

Nascemos do suor do prazer despido, nu. Chamamos amor ao sexo. Nascemos com a nossa mãe escancarada.
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Toleramos o ódio... religioso, social, rácico, étnico... em nome da superioridade moral da democracia. Matamos em nome da paz e da democracia, normalmente dos subgéneros de diferentes recursos naturais ou estratégicos. Deixamos que povos fanáticos nos insultem pela nossa liberdade e crítica.
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E desse medo de chocar herdeiros das vergonhas pudendas de há séculos – que nos fazem sorrir – abdicamos da liberdade da afirmação e do pensamento.
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Não é humildade cristã, não é consciência democrática, não é liberdade religiosa – pois aceitamos os lenços obrigatórios às muçulmanas e toleramos quem as condena às burcas... e em nome do respeito cultural até desculpamos a mutilação genital feminina.
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A Europa dos valores democráticos, civis, humanistas, cristãos...
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Pornográfica é a atitude de quem mandou remover a obra de Leena McCall, «Retrato da senhora Ruby May, em pé», da exposição anual da Society of Women Artists, patente na Mall Galleries. No centésimo quinquagésimo terceiro ano de realização.
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Que Europa é esta?
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Nota: Quem perceber inglês pode ler a notícia do TheGuardian neste linque.

sábado, julho 05, 2014

Pulseira verde

Apetece-me coisa nenhuma. Um dia de tédio. Não de tristeza de lamber feridas e aiar. Nem música, nem Sol nem cama, nem televisão nem gatas e nem cão, nem solidão nem multidão, nem vinho nem combustão, nem viver nem morrer.
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Dia de eclipse, de viagem sideral mas sem procurar Deus, sem querer chegar ao fim do universo nem aterrar.
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O tédio é uma dor como a dos dentes, ora em lume brando ora carbonizando. Os ais aliviam, mas já disse que aiar hoje não resolve nem apetece.
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É Verão sem praia, Outono sem chuva, Inverno sem frio nem Primavera sem chatice. Só me falta o acne para espremer.
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Este tédio é bom para sala de espera num hospital central quando o mal é tão fraco que nos põem uma bracelete verde, para nos fazer compreender que estamos ali a mais.
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De que mal me irei queixar ao Hospital de São José? Que direi para justificar o meu empate no trabalho de quem está a tratar gente com problemas?
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Este tédio, este tédio... vou de táxi para não me preocupar com estacionamento. Podia ir a pé, caminhar faz bem e o ar limpa os pensamentos, mas e o tédio que dá só de pensar nisso?
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Sei! Na recepção vou queixar-me de tédio e vão pôr-me na sala de espera dos maluquinhos. É muito mais pequena e silenciosa. O tédio é treino para aguentar e talvez consiga passar o tempo aiando. Se tiver sorte terei bracelete verde.
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Será verde? No outro dia deram-me uma amarela por estar perigosamente agitado. Agora que estou perigosamente enfadado... espero que seja verde.
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Deve haver um comprimido mágico para o tédio.
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Enapá! Um suspiro. Fraquito. Vou sair já para apanhar o táxi para o Hospital de São José antes que o tédio se amenize.

A lógica da batata

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A vida não é madrasta mas às vezes somos enteados!
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Não tem lógica nenhuma. É daqueles disparates que se dizem, sendo que este é da minha autoria.
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Mas para dar um ar de intelectual cito uma frase douta:
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– E contra isso, batatas! 

A pergunta certa

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– Não me façam perguntas que não sei responder.
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– Como por exemplo?
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– Não sei.

quinta-feira, julho 03, 2014

Espuma de mim e mar

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Vou tropeçar-me e na beleza duma queda num mar baixinho de murmúrios molhar-me como se mergulhasse numa onda da altura dum deus. Aleijar-me será castigo por inoportuno desassossego e não valerá a pena justificar-me com as nuances de horizonte, do seu céu e sua água.

Ficheiros secretos desclassificados

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Se te escrevi numa loucura que tive receio que acreditasses e com senso me sacudiste... aos anos. Porei agora à janela o que te escrevi. Talvez te lembres. Talvez me encontres. Talvez não tenhas. Qualquer que seja o teu destino, no que escrevi continuo a querer o que então quis de ti. Fora das letras, fora das vidas. Um passado de insanidade é normal que dê um presente de.

Quinhentos metros crawl

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Não vejo nada e continuo a nadar.
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– À vontade, para terminar a aula – crawl.
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– Hoje é à vontade – crawl.
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– João! João! Pára! Não nades apenas crawl.
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– Não é à vontade?
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– É... nada lá crawl.
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Crawl... não conto braçadas nem respirações nem piscinas nem metros – meço pelo avanço que tenho sobre os outros. Uma de avanço, duas de avanço, três de avanço... conforme a metragem imposta.
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– Hoje vamos começar com bruços. João, não quero ouvir uma palavra.
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– Bruços não...
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– Não gostas do que toda a gente gosta e gostas de crawl que é mais difícil e ninguém gosta.
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Olho à volta – rostos, olhos, bocas confirmam.
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– Acabou a aula, podem fazer duas piscinas à vontade. João, já sei que é crawl.
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Nunca gostei de nadar bruços e até tive um professor que foi campeão e recordista nacional e que apesar de entradote ainda deu luta a federados – fiz de carro-vassoura. O homem insistia para que nadasse na forma clássica: abre os braços e fecha as pernas, fecha os braços e abre as pernas. Tão dotado para sincronismos, após três momentos certos e já abria pernas e braços ao mesmo tempo e fechava em sintonia. Não nasci para sapo e sempre me senti uma rã disfuncional quando tive de nadar bruços.
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– Tens a mania que és o Yokochi...
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– Não consigo.
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Nas muitas vezes que regressei à natação já ensinaram os bruços «à Yokochi».
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Ainda assim, nadar bruços é um castigo, desajeito-me e sou tão lento... uma rã disléxica em que a frente desacerta a traseira e a esquerda engana a direita.
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Um dia, um instrutor sádico iniciou o ensino do estilo mariposa. Uma violência. Não tinha caparro para ser bom naquilo, mas espantei-o por ter aprendido na perfeição na terceira ou quarta piscina.
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– Nunca vi ninguém assim...
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– Assim como?
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– Que aprendesse a nadar mariposa na primeira aula – e a nadar bem.
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Mariposa? Rezava pela aproximação do topo e fingia-me um hydrofoil para me entreter a mente durante a brutalidade.
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Uns anos depois mandaram-me nadar a mariposa. Fiz duas piscinas, voltei a meter para dentro os pulmões e pus-me a nadar crawl para descansar e descomprimir.
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No nadar de costas fui sempre o melhor. Mas duvido que fosse um pouco melhor que bom se me confrontasse com outros, que não das minhas turmas – turmas, porque foram tantas as desistências e tantos os regressos.
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Se pensar... talvez tenha um terço da vida dentro de água. Os elogios afastaram-me sempre. Talvez com medo de falhar, nunca quis competir – bem me pressionaram. Um dia o bem-intencionado instrutor disse-me:
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– Tenho muitas esperanças em ti para as provas da INATEL.
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– Provas da INATEL?
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– Sim, nas outras já não tens hipóteses, com a tua idade e com as vezes que paraste...
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Nunca mais lá meti os pés. Era o que faltava ter mais um a querer levar-me às corridas.
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Depois passou de todo a idade e nunca mais nenhum treinador me sugeriu ir a provas.
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Mas no crawl... na última vez que piscinei, o maior adversário era um tipo magrinho e má-onda – nadava que se desunhava e era perneta. Tenho feito tudo para enganar o ego... um perneta quase a bater-me no crawl. A verdade é que o tipo fazia aquilo há anos e anos e anos. Constou-me que era paralímpico, o certo é que ia todos os dias e ficava pelo menos o tempo de três sessões e pagava uma pista só para ele. Um dia, não sei porquê, ficou no meu corredor. O tipo era uma besta e quase que ia andando ao estalo.
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Em ritmo de passeio, porque embora possa parecer bazófias sei bem que não sou o super-homem, fazia dois mil e cem metros e quarenta minutos. Os outros cinco eram para o aquecimento e adaptação à temperatura da água.
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– Façam duas piscinas à vontade.
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– João, não estás farto de nadar crawl? Não te fartas? Não estás cansado? Pára um bocado...
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– Profe, canso-me mais parado do que a nadar (crawl).
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Os exercícios de membros também eram engraçados. Nunca dei hipóteses. Havia até quem brincasse e dissesse que eu tinha um motor fora-de-bordo.
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E o sepide (speed) do treino com barbatanas? Todos a gozarem...
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– Profe, não dês ao João. Já viste o tamanho dos pés dele? Não precisa de barbatanas.
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Rebentei três pares.
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– Nunca vi nada assim...
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Que posso fazer se tenho força nas pernas e pés grandes?
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Tive um profe que quando chegava à piscina para ministrar o treino e eu já nadava (crawl) não me dizia nada. Muitas vezes a sessão terminava e só percebia que tinha acabado quando via outras pessoas a nadar e que não faziam parte do meu grupo.
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– Nunca te cansas de nadar crawl?
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Tantas vezes ouvi. Não, não me cansei de nadar crawl e juro que até descansava.
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O único desporto em que tive talento foi uma contínua desistência. Desporto? Crawl.
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Desisti por culpa de quem? Minha, claro, que sempre fui pouco dado a relações, compromissos e pressões.
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Não lamento nunca ter ido a corridas. Nadar bem crawl sempre deu satisfação bastante.
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A única vez que estive numa aflição – piscina vazia, ao ar livre, sem aquecimento e professor momentaneamente distraído – estava a nadar bruços. Cãibras tenebrosas do princípio da coxa até meio do pé – na esquerda e na direita ao mesmo tempo. Quem disse que eu sabia nadar só com braços? Quem disse que eu naquela aflição conseguia nadar só com braços. Bem ou mal safei-me.
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Piscina vazia porque treinava à parte e com um treinador exclusivo – ao ar livre e sem aquecimento, porque era o espaço do clube para os treinos do Verão, só que era Março e o local habitual fechara momentaneamente para obras.
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Patati patata corridas e medalhas e de crawl dali para fora.
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Um dia e crawl outra vez lá pra dentro.
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Nota: O meu pai, o meu tio António e o meu mano também nasceram para nadar.

quarta-feira, julho 02, 2014

Crawl: dez braçadas e respira para a direita, dez braçadas e respira para a esquerda

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Existir – inspirar.
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Expirar – inspirar.
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Inspirar – viver.
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Expirar – suspense.
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Inspirar – alívio.
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Desistir – cansaço.
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Desexistir – vontade.
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Pensamento – acção – consequência
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Pensamento – acção – reacção – consequência.
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Hiato – indecisão – inspirar – expirar.
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Ponderar – fazer – expirar.
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Ponderar – não fazer – automatismo melancólico.
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Inspirar fundo – tédio.
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Expirar fundo – tédio.
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Vida – angústia.
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Inspirar – expirar.
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Esperar – agir.
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Passar do tempo – inspirar – expirar.
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Sucumbir ao peso do tempo – inspirar – expirar – desistir.
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Uma recordação para a viagem – inspirar.
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Expirar – por fim.
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Existir – desistir.
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Desejar – desexistir.