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Falo sempre com o meu cão e as minhas gatas... mas às vezes tenho a sensação que não me compreendem.digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.
sábado, fevereiro 22, 2014
sexta-feira, fevereiro 21, 2014
Do escuro à claridade
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O que é o escuro? Como vejo se sinto. Toco os seios e desço
a mão, enquanto a outra sofre, por engano, sob o meu corpo, por deitado precipitado,
quase adolescente.
O escuro é descer a mão livre, acariciar em torno do umbigo,
subir, descer, criar expectativa acerca da certeza. Descer, mas antes enganar.
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No escuro o beijo que vem antes de muitos. A boca adivinha
caminhos e pára sempre nos sítios do leite e prolonga-se lenta e quente no
ventre.
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Meia-luz, escuro, amanhecer, até as palavras aguentarem
tanto quanto os corpos. Uma mão, travando a minha, rendeu-se e toco... seja
gruta de musgo ou rocha aberta aos regatos.
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A boca volta à boca. A outra mão aceita o castigo de
permanecer quieta. Terá um prémio, com certeza. Tocará as costas, afagará onde
houver prazer a querer nascer.
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A boca beija e a mão faz-se onda. As tuas... boca e mãos... finalmente aceitam o que já tinham aceitado.
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A boca beija e a mão faz-se onda. As tuas... boca e mãos... finalmente aceitam o que já tinham aceitado.
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A boca onde sou homem e os dedos ajudando a erguer o prazer.
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Engolido. Todo homem. Onde a mulher quiser, por quanto tempo
quiser. Enquanto lhe der palavras de suor e calor.
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No escuro, o homem sabe onde fica a mulher. A mulher sabe
sempre onde está. Fingindo-se presa caça.
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O tempo é o tempo e o escuro é o que deixa a persiana.
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Seja a noite toda ou mera visita... será sagrada.
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Sagrada como o pão. Sagrada como o vinho. Sagrada como o
azeite.
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A Luz. A que vem e a que fica. A que se deixa entrar, e
voltar.
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O homem quer ser um rio, bebe-o o quanto puder. A mulher é
um império.
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O sono, fingimento da morte, acolhe-o. Nela, o pensamento é o
triunfo da beleza, a luz manda no mundo.segunda-feira, fevereiro 17, 2014
A fruta proibida
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É certo que foi uma maçã que fez Newton elaborar acerca da
lei da gravidade... mas isso foi um acidente que Deus tocou.
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Se fosse o figo... é uma fruta que se come tão sofregamente
que nunca daria luz.
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É certo que há guerras, mas o mundo também tem paz.
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Para mim foi a uva. Não percebemos quase nada de Deus e por
isso erramos...
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A videira não é uma árvore, mas dá fruta de cores e arco-iris
de aromas.
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Qualquer serpente se dissimula melhor numa trepadeira do que
num tronco largo.
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Deus fez-nos inteligentes e deu-nos o direito do vinho.
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Da alegria ao desacato.
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A uva tem a alma do homem.
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Nota: Lúcifer caiu porque estava bêbado...
Jardim de amores calados
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Um jardim de sombras com ventos, baixos para não
interromperem a respiração. Água tépida cainte, fruta de cheiro e enclaves de
terra no corpo.
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Desnuda? Embrulhada no lençol da noite de insónia de amor,
com a respiração suspirada pela gratidão e o arrependimento. Por sorte não há
cigarros. Por azar fazem falta ao pensamento.
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A árvore é uma oliveira e a sombra prolonga-se e vive um
tempo que não se mede, por imprecisão, por não precisão. Mexe-se, quando? Não se
sente, o tempo revela-a e não importa.
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O lençol não aquece e a caneca de café aguado solta vapores exaustos.
Os corpos refugiados nos pudores, envergonhados pelo prazer, ainda quentes
tremem de frio e querenças.
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Insónia de amor, sem juras. O plano é ter tempo. A
estratégia de avançar. Táctica de beijo sem recuo. Invasão antes do convite, e rodopiar
de yin e yang... tudo no mesmo patamar de julgamento.
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O universo chega para todos e é numa planície agitada que se
morre em glória e esforço. Nunca se terá o fim e há caminhos para se ir
perdendo indo. Ela incendiada e encharcada, ele sangrado e sufocando-se de
alegria. Ainda assim abraçam-se. Ainda assim repelem-se.
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Rastejante, no frio húmido da terra... não se percebe onde
acaba a natureza e começa o homem. O que é pensado e agido ou o que é agido por
vontade de escrito iniciático.
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Porque a natureza é
natureza e a natureza do homem é a natureza do homem. A natureza do homem é
desrespeitar a natureza e assim a realiza respeitosamente. Amén. Nunca basta. E
sempre. Aleluia.
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Não há quem ensine a loucura a ser branda. Não há moral que
derrube o desejo, nem desejo que não se castre. Pior do que o remorso é o
remorso de não ter feito. Pior, só se sabido.
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Manhã fresca que pede maçãs, lençóis espojados que desejam
cama, corpos ardentes, ardidos, perdidos por chamas. As palavras não servem nem
promessa válida.
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O que acontece na casa do jardim das sombras não é soprado
pelos ventos e desfaz-se, sem ilusão, com o pragmatismo belo do que é simples e
verdadeiro.
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O que foi dele marca o branco e o suor dela perfuma a manhã,
tenha maçãs ou cigarros, pólen, plasma, orvalho, formigas ou calor.
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Encostada à oliveira, desvestida num lençol, aos pés, exausto,
possuído pelo prazer, um fauno-poeta olha-a como se ele fosse o Demónio.
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Arrependimento? Não haverá tempo para isso. O silêncio fecha
as bocas e o vento baixinho, junto ao chão, encalha nas raízes e arbustos.
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Pã encobre Príapo. Ela, de raminho de oliveira, distrai-se
com o verde-pardo das folhas compridas. Evitando dizer, deseja calando, e vendo
fora do mundo permite a chegada dos lábios, que lhe contarão o que já sabe, o
que os corpos querem.
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Moral e nudez? É quase dia, ainda sem Sol erguido...
fresquinho até fora das sombras ténues do jardim de semi-silêncios. Olhos que
vêem... corações que sentem... pressentem?
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Mais perigoso é o sono, que pode proibir o que a alma, o
coração e a cabeça querem. Daí a nada é outro dia e o Deus tem-nos noutros
lugares.
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O mundo só parou por instantes, em alguns sítios. Pára tão
certo à noite como no pino da luz.
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Que se recomece o cansaço, para que a força renasça do lume
da exaustão e as vozes cantem.
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Não há calma que segure, quando os olhos encalham na pele
que se revela por distracção ou veneno.
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Não há tempo quando os seios deslizam para o espaço. A distância
encurta-se entre bocas. E a pele alimenta-se de pele.
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O que importa não é estar dentro, é entrar sem pedir, quando
o pedido é pedido sem dizer.
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Mais bonito do que entrar é o gesto. Maior tremor, o
primeiro toque, no lugar do corpo onde a alma se refugia.
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Qualquer dia, numa semana qualquer.
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E dito e feito, soprado por caninhas, ninguém ouvirá se
delas fizerem flautas.
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A Terra é redonda, mesmo quando é lisa como uma cama.
domingo, fevereiro 16, 2014
Comida de Santo - o que é que a Baía tem em Lisboa
Se não foi o primeiro, terá sido o segundo restaurante
brasileiro em Lisboa. A minha estreia foi noutro. Mas neste, o do Príncipe
Real, que me recebeu barrigadamente. Do outro tenho memórias de sangue; deste,
memória de leveza na vida.
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O Comida de Santo abriu as portas em 1981... tinha 11 anos e
Lisboa estava a modernizar-se. Os bigodes rapavam-se, as calças à boca-de-sino
tornaram-se roupa para fazer esfregões... os brados da revolução democrática já
não pesavam tanto na vida e na música.
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Mil novecentos e oitenta e um mexeram-se com os Heróis do
Mar, a primeira banca com estética na roupa, fardas de músico, evocação
nacionalista, que irritou a malta mais à esquerda, que lhes chamava fascista.
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Mil novecentos e oitenta e um, um agitador de visual fora-de-tudo
arrasou a televisão, num programa para toda a família, em que Júlio Isidro
juntava o que hoje é inconciliável. De macacão amarelo, com bolas as nódoas de
tinta, barba farta, cabelo oxigenado, uma força tremenda...
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Mil novecentos e noventa e um quase ninguém tinha televisão
a cores António Variações... desde 1978 que andava a cantar e ninguém lhe
ligava. Nem os Heróis do Mar, quando estes fizeram um casting para vocalista.
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Mil novecentos e oitenta e um era tudo novo, não era só eu. Saía-se
do país com mais facilidade, descobria-se a Europa, vinha roupa de marca e de
formatos diferentes. A Guerra Fria estava no auge e havia algum medo.~
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Mil novecentos e oitenta e um e não existia o bar Frágil no
Bairro Alto. Aqueles quarteirões tinham tabernas, tascos, putas e dancings,
tinham jornais e jornalistas... Um ano depois surgiu um dos mais icónicos bares
(dançantes) da capital.
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Quem ia à frente, ia ao Frágil. Era gay friendly, numa época
em que muito pouco dava direito a ser chamado de maricas e paneleiros. Ali
havia outra música e pensamentos novos.
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Mil novecentos e oitenta e um e a móvida (movida, em
espanhol) de Madrid estava no auge, farol de toda a Europa, excepto Londres. Com
Espanha já ao lado... artistas, jornalistas, comerciantes de arte... romperam
Lisboa.
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Todos os anos, Manuel Reis, Rei do Frágil e desde 1998 Rei
do Lux, mudava o cenário das duas salas onde se dançava e conversava. Gente gira,
gente diferente, onde se podia ser tudo. E eu na escola a ouvir Heróis do Mar.
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Em Madrid, a lua da móvida estava cheia e em Lisboa em
quarto crescente. Misturava-se gente, conceitos, as novas tendências
juntavam-se mais do que se afastavam... e eu entrei no Lux com o meu pai, não
sei bem porquê, em 1982... talvez.
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Nessa onda de novidade, quando a casa se arrumava e
redecorava, quando havia tanto cotão para limpar que surgiu, também na comida,
uma estrelinha: o Comida de Santo. No Príncipe Real, na Calçada Engenheiro
Miguel Pais, concretamente no número 39.
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Eu, com 11 anos, comia na cantina da escola. Quando me deram
liberdade para sair sozinho à noite, em 1986, tinha 16 anos, pouco dinheiro
guardava para jantares. Não sei quando entrei pela primeira vez na Comida de
Santo, mas deve ter sido por volta de 1990, quando já trabalhava, no novíssimo
Diário Económico, e não tinha de cravar os pais... ganhava 450 euros (em
formato actual, tradução literal). Na altura dava para pouco e agora tem de
sobrar.
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Que exotismo aquela comida... às vezes próxima e outras
distante. Comida da Baía, trazida, e sem tradução, por António Pinto Coelho. Com
o oceano pelo meio, a mesa põe-se sempre à moda da terra das negras gordas, que
rodam as ancas, com enfeites nos cabelos e alegres e cheios peitos guardados em
vestidos coloridos.
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Para mim... era tudo novo... ter dinheiro mesmo meu, comer
fora sem paizinhos, namoradas, o glamour da noite (vestíamo-nos para sair,
perfumávamo-nos, sorriamos muito bem encantados, pela e para a sedução), o
cosmopolitismo pequenino alegrava tanto... e eu não sabia nada da Baía, nem via
telenovelas.
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Sei, que é autêntico o sítio. Só a honestidade da mesa faz
com que uma casa se aguente. Imagino que pela cozinha da Comida de Santo tenham
passado muitos artesãos, enquadrados por Pinto Coelho.
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Dois mil e catorze cabe tanta coisa em Lisboa e, ou estou
velho, que a novidade fica de fora. O que é bom, o colo da mãe, o colo da mesa
que se aprendeu a gostar, nunca parte – haja saúde e alegria.
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Houve uma época em que ia com frequência ao Comida de
Santo... não deixei lá dinheiro para comprar Pinto Coelho comprar um Porsche,
mas as caipirinhas (ui, que boas) impediram-me de pegar num volante.
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Marisco, peixe, carne, fruta... tudo à moda da Baía. Até
vinho brasileiro (da portuguesa Dão Sul)... fui sempre feliz ali. E agora que
conheci Pinto Coelho leio uma paixão, sábia de deixar falar e ouvir.
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Quando há quem diga que tem «o melhor bolo de chocolate do
mundo»... ah! O pagode!... Pinto Coelho diz, rindo-se, mas com trunfos na
manga, de brasileiros profissionais da crítica, ter o melhor quindim do mundo. Afirma-o
aos amigos e aos comensais... e talvez seja verdade.
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Local: Calçada Engenheiro Miguel Pais, 39 (Príncipe Real –
Lisboa)
Telefone: 21 396 33 39
Aberto: De quarta-feira a segunda-feira
Horário: 12h30 às 15h30 e das 19h30 à 1h00.
domingo, fevereiro 09, 2014
Queda
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Tenho tanto azar que se me defenestrasse haveria de
passar um tapete voador no momento em que o tempo passa parado.
Um tempo que não deixa
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Fazer da vida o quê? Não me custa envelhecer, custa-me
perder a paciência, que, aliás, nunca tive. Faltou drogar-me, e drogar-me até o
vício ser um túnel sugador e psicadélico. Faltam-me danças por seduzir e muitas
vodkas para enganar a luz do dia.
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Nunca tendo tido paciência nem medo da morte, pergunto-me se
ao falhar a morte não falhei a vida. Devo ter tido medo de arreliar a mãe e
alguns amigos.
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Faltam-me beijos. Sobram-me asneiras no jogo com as
mulheres. Contudo, triste não me sentiria agora... devia ter feito pior. Cair fundo
até ao suicídio involuntário. Até à guerra. A cocaína ou merda mais abjecta que
satisfaz a vontade do Diabo, pessoa que não existe.
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Fazer ou não sentido? Hoje como à noite, como todos os dias.
De excitante tenho as unhas das mãos para cortar. As dos pés precisam de tempo
que me tira o tesão para o fazer.
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Vale a pena? Valerá como toda a alienação inútil, só que em
mais chato.
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Nunca tive coragem para chegar perto do bordo. Sonhei com a
espiral multicor, sentindo mais nojo da droga do que medo. Mais medo do sermão
da mãe do que das suas lágrimas.
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Morra agora ou daqui por cem anos, não deixo nada. Nem genes,
não valem nada.
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A amizade é tudo, menos a morte. Porém morre e às vezes
consome-se depressa. Morre-se por amizade.
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Devia ter tido todas as mulheres que quis, além daquelas de
que me arrependo ter acordado ao lado ou fugido numa distracção. Devia tê-las
tido todas. Até daquelas cuja tentativa me teriam valido um estalo.
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Seria uma vitória de espuma, que não daria valor à vida. Tenho
pena de ter perdido tantas, mas as que deixei, ou deixaram-me, deram-me tempo
para outras que consumi e algumas dores para me queixar, alimento calórico para
quem quer engordar as hortas das campas.
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Sim, estúpido. Vazio e oco. Inútil e indeciso, nem consigo que
esta seja uma carta de despedida.
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A minha tristeza tem felicidade a mais para que salte. A minha
vida tem tempo a mais para que queira ficar.
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Digo: a luz da luz, a flor de luz da flor de luz, brilha com
sorriso de anjo. Só isso prova que transmitir os genes vale tanto quanto uma
fatia de torrada barrada com manteiga virada caída no chão.
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A vida é tão bela como o tédio angustiante do cheiro do
galão claro, num cubículo feio, de azulejos, alumínio e mediocridade.
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Sem isso... talvez conseguisse escrever essa carta que faria
com que a minha vida tivesse um sentido.
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Consumo ar e corto as unhas das mãos uma vez por semana,
julgo eu.
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O resto é respirar. Andar por aí não conta. Nunca estou
sozinho. Só a respiração faço sem aquelas sombras.
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Contenta-me respirar o vento, ter as orelhas e o nariz frio.
E isso serve para quê?
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Dentro o tédio e a aridez duma floresta de dores, muitas por
conhecer.
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Viver dói. Não pelos desgostos, mas por viver.
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Sem mais nada para fazer, faço qualquer coisa. Respiro e
corto as unhas. Durmo o que posso e me deixam, porque sonho que cá não ando.
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A alegria, sobretudo a alegria contagiante, deprime-me. Não de
inveja, porque não quero isso para mim. Entristece-me saber que alguém possa
estar contente num mundo em que existe tudo e do qual não quero saber.
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Até digo que acredito em Deus para ocupar tempo. Calo-me a
respeito para não ter de mostrar que acredito. Sobretudo que a minha fé é de
lógica, não de amor de coração nem de desinteresse de alma.
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Vale a pena? Tudo isto? Nem um texto de comiseração, de
justificação dum não acontecimento.
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Respiro e isso mantém-me vivo. Respiro contra o vento e
gosto.
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Preferia ser mais leve e só sentir o vento. Não preciso de
nada do que tenho para ser feliz. Nem infeliz. As unhas são apenas dez.
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As linhas da mão desaguam no mesmo mar vazio. Sem iodo, nem
cheiro a peixe nem nada de que me queixar.
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Quem me dera ter a sorte de ter razão para ir, determinação
sem remorso e uma saudade para morrer novamente.
sábado, fevereiro 08, 2014
O sacrifício dos «Outros»
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A primeira vez que enfrentei a palavra utilizada por quem se
farta fiquei com um vazio de inteligência para perceber o que pensaria a
família, matemática doutras contas. Não senti dor, nem uma comichão sem nome
que afecta quando o falecido é jovem e aparenta saúde. Não falo no assunto, a
menos que o tragam. É lâmina comprida.
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Um dia vi uma tia deitada. Ouvira-a entrar pouco antes. Ela preparou
o almoço e deitou-se. O meu pai chegou uns minutos mais tarde, perguntou por
ela e tocou-lhe à porta; e ninguém respondeu. Enquanto pôs ao lume um cozido à
portuguesa, sussurra-me a memória, deitou-se beijando comprimidos.
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Descobri-a deitada e serena, tranquila por nada esperar,
porque se cansou de esperar. Depois, no tempo, espaçadamente, alternava entre a
bênção à salvação e a praga pelo contra-golpe.
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Uma prima tentou e encolhi os ombros. Gostava e gosto muito
dela. Uma outra consegui-o e nutro por ela equivalente afecto.
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Um dia foi o «Outro» e uns anos mais tarde um «Outro». Em 2013
juntou-se-lhes «Outro». Sento-me a pensar e pergunto-me se não faz todo o
sentido.
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Não posso afirmar que a morte não dói nem que as saudades
não ferem... nunca tive medo da morte. Respeito-a. Gosto tanto dela quanto da
vida, sem desrespeito por nenhuma. Tenho os instintos de sobrevivência
alertados e prontos, protejo-me, evito riscos, mas viver não me assusta. Atormenta-me.
Quantas vezes?
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Talvez nem goste da morte. Abomino tanto a vida que não
quero morrer, quero deixar de existir... mas sobre as dores: sim, comovo-me,
com os que ficam e choram. Converso com quem parte e assisto, bastas vezes, ao
momento em que despem os últimos liames de união entre os planos. Sim, chorei
em funerais, talvez mais por histeria juvenil ou para disfarçar a pouca
apoquentação... não sei.
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Hoje que creio, rezo. E rezo todos os dias. Mais do que uma
vez ao dia. Orgulhoso ou distraído, julgando-me diferente, esqueço-me de orar por
mim. Alguém o fará. Mas os «Outros» têm sempre o meu sopro de palavra, para
que. Seja.
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Isto de ir pode ser curiosidade, o que é parvo ou infantil. Mas
é, quase sempre, a dor de alma, que às vezes são dores no corpo, alterações
fisiológicas... chatices que acabam por pesar à volta, como esfera de aço em
lençol de seda quase solto.
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Pensei muitas vezes. Suficientes para não ter medo e ganhar
respeito. Ah! Mas há uma grande diferença: o querer ir e o mandarem-nos ir. Uma
vez entornei um copo de cerveja sobre um amigo, porque me dirigiu essa zanga;
sabendo ele que sofria.
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Quando namorada quis deixar de ser, foi-se sem zanga, sem
loiça partida nem casa desarrumada. Uma casa como uma campânula de museu: baça,
triste, esquecida, sombria e esquecida. Esquecida assim, só numa sala por
arrumar. Um jazigo.
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Os dias puxaram a vontade e cada dia enleou mais
determinação ao novelo do queixume. Quanto mais pensava escuro, mais claro via.
Porém, o «Outro» fê-lo primeiro. Doeu-me muito, incomodou-me e incomoda-me.
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Não quero enumerar personagens, avaliar afectos e
importâncias. A morte deste «Outro» é uma das três que mais me custou. No
entanto... a outra, que me esqueço tantas vezes nem se pôde defender. No
entanto... dizia...
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Não porque fosse meu amigo, mas por ser o maior amigo dum
grande amigo. O vazio que deixou levou-me a oportunidade. Uma dor clara, de
claridade. O «Outro» fez o que ninguém podia fazer por ele quando o que
precisava lhe era vedado – tenha sido o que se quiser.
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Entre saltinhos de anos-minutos... perdi um amigo, que
queria, quero e quererei como um bom irmão mais velho. Para quem não tem
coração que se emocione com as perdas de morte, o seixo é a definição mais
exacta para relicário. Dizem-me as relíquias aí guardadas que a maior razão
para alguém se matar é a perda dum amigo.
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Esse suicidou-me a amizade, brusco, inexplicável, súbito...
mulheres (homens) há muitas e o dinheiro deve-se. As perdas que dão solidão são
de trato áspero. Por vezes, passa-se a linha entre o que sei e não gosto e o
que não sei se gosto, mas prefiro sentir.
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Tantas coisas cabem na palavra amigo. Uma palavra tão boa
que até nos esquecemos que nela cabem também os nossos disparates. Nem a
traição a mata; essa dá raiva, gana de matar, mas remorso de perda. Amigo é um
amor escolhido antes de nascer.
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Não muitos dias de luto sem cadáver, cismava em encontrar a
porta para. Aninhado na cama, fantasiava com as formas, escolhera e projectava
de esperança e leveza a que chegaria. Falsamente alegre, recebi a chamada
triste. Mais «Outro». Jogou-se, deixando Natal e Ano Novo vazios depois de
cheios.
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Em vez de ir, fiquei. No que pude amparei o amigo que mais o
chorou.
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Quando o amigo me deixou de mal feita no cais a ver o
comboio partir, como uma noiva patética dum romance de meados do século (dum
qualquer) nunca parei de engendrar, nem mesmo o amigo que tanto padecia pela
partida do «Outro».
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Faltando apenas a data certa, descobria-a numa manhã de
tédio e silêncio. Tomei e arrependi-me, voltei a tomar e arrepender-me, e outra
vez, e outra... mais de dez. Na inconstância foi para as urgências. Sozinho e
porque fiz tudo sem ajuda de ninguém. Nas dificuldades da entubagem pedia a
médicos e enfermeiros que não se maçassem e me deixassem ir. Se o tubo não
entrava e me fazia engasgar, não valia a pena insistir... até porque até no
hospital continuava indeciso.
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Não sei se foram oito ou doze horas que estive entubado,
deitado numa maca, partilhando o ar com gemidos de doentes a sério. Todos tão
indiferentes quanto o tempo. Não dei por nada, entrei de manhã e saí. Pedi ao
senhor doutor que me deixasse ir ao bar comer uma sandes e fez-me prometer que
voltaria.
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Voltei e fui-me embora. Pedi a ajuda daquela a que, por
isso, desse dia, será sempre a amiga maior do que o Terreiro do Paço. Voltei a
casa, tive mimo e dormi.
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Acordei com as mesmas dores. Em desespero, parti vidros com
murros, esmurrei paredes e pregos, cabeceei azulejos, arranhei-me esperando
tirar carne, bati muito e com força com os punhos na cabeça, encarnicei-me nos
três lados de mim. Comi menos, enjoei.
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Fizeram-me uma festa de anos e fingimos todos ter um ar
feliz.
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Desde então, a morte convida-me mais vezes, mais cordata,
discreta, rara e suave
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A nostalgia do
macambúzio encontra consolo no escuro-todo do manto da velha-esqueletada que
anda de gadanha a ceifar almas. Taciturno, obrigado a rir. Forçado a explicar
tudo, enquanto dizem que não é assim, que não pode ser, que é psicológico, que
preciso de sexo, que o Sol faz bem (matam-se mais no Verão), que preciso de
amigos, de sair, de espairecer. Comprimidos não são precisos, pois há uns chás
fantásticos no Celeiro ou na casa da tribo urbana que construiu uma sociedade
alternativa baseada em nada e assente em tudo o que dizem pretender combater. Há
remédio para tudo! E depois há os outros, os que simpáticos e ingénuos que dizem:
– Não há nenhum comprimido para isso?
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Há! E se tomados em versão festa de do Viagra ou da espuma,
preferencialmente com um álcool forte... ui, a diversão é tão fixe, que o
remédio fez aquilo para o qual estava destinado a não servir.
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Há isso. Há o 605 Forte. Há os detergentes para a casa de
banho, a electrocutado, há a injecção de ar numa veia, o clássico número dos
pulsos serrados ou do tiro na cabeça. Tubinhos com cianeto são difíceis de
encontrar.
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Qualquer coisa serve. O lençol onde se faz amor, onde o
casal engendrou serve para acabar com o abafo quente e escuro da colónia de
bicheza feia que come o ânimo. E sempre assim foi. Enquanto escrevo este textos
sobre mim e os «Outros».
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Dos meus «Outros» falta-ma falar daquele que ria e tinha piada,
sempre uma graçola, um apontamento, boa disposição com o Alka Seltzer e a quem
prometia, olhando-o enquanto ele me sorria, que haveríamos de ir almoçar. Um
dia, num sonho repreendi-o, por se ter ido embora sem se despedir de mim.
Riu-se e disse:
– Estavas à espera de quê?
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Certamente lançou os seus avisos, deu os seus sinais. Há quem
se esconda e os que se agitam náufragos, esperando ser içados para o mundo onde
a alma não dói.
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Este «Outro» teve razão: Eu estava à espera de quê? Gostei
de o ver ir. Estava feliz. Deixou saudades? Certamente. Agora vai seguir para
onde tiver de ser. Tal como cá... reconheço que é uma hipótese.
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Na verdade, não sei. O suicídio é um sacrifício. Uma oferenda
para formulação dum pedido
– Leva-me esta dor ou
leva-me.
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Na soberba dos mortais ameaçamos:
– Se não me tirares o peso nem me levares, vou sozinho.
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O suicídio é última esperança. De todas as coisas que lhe
podem pôr em cima como significado, só há uma que é certa: a derradeira
esperança.
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Ando mais calmo, vendo comprimidos onde estão apenas
comprimidos. Vejo-os pouco e até os tenho amado como remédios.
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É a cair. Depressa é o mínimo e pesado é pouco. Irrespirável
e angustiante. A Ida... o que se escreveu e diz sobre a ida... Não é coragem
nem falta dela, espera-se por um momento de surdez, num ruído zangado, e de
cegueira, para não os ouvir dizer: mãe, filho, animal, amigo. É um instante e
decide-se a vida
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Um dia, já adulto, comprei uma pista de comboios. Acrescentei-a
e ficou tão grande e complexa que ninguém a consegue montar ou tem espaço para
a pôr a trabalhar. Comprei catálogos das marcas que fazem as miniaturas... não
são baratos. Os comboios que gosto mais são os mais feios.
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Trabalhava junto à estação de Santos e tantas vezes me
sentei a pensar no mergulho. Nem todos param ali, pelo que o embate é
fulminante. Pensei tantas vezes. Espero a passagem do comboio com o mesmo
desejo de quando me atirei para a piscina da prancha, com não sei quantos
metros, para impressionar as miúdas.
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Não se pense nem em coragem nem em falta dela. Há
determinação sem oportunidade e hesitação por distracção ou palavra. No fundo é
como na selva: entre arbustos, lianas árvores de grande porte, calor e
humidade, bicheza vária... ninguém pede licença para passar ou autorização para
sair da mesa.
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Creio por razões lógicas – oro com fé de pensamento e pouco de
coração, ofereço da alma, que é onde tenho mais de dar, mas é de pouco valor...
Sei que os «Outros», estes e outros têm abrigo e bom conselho. Deus só pode
amar, porque é essa a perfeição: ama os «Outros», aos que querem sair e aos que
não são, foram nem serão «Outros».
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Eu, que creio por razões lógicas, garanto a existência de
anjos. Homens sem asas nem resplendores, amigos das horas e companheiro, irmão
e professores de todos. Dum qualquer modo, agarram, antes que se torne n’«Outro».
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Uma dor sem remédio e medicamento para outra dor. Fui despido,
só de pijama para o Rossio, figuradamente, atarantar-me, com os pés a
puxarem-me para Santos e seu apeadeiro. Faltavam cinco segundos para a
bilheteira fechar. Cinco segundos para saltar ou perder a viagem. Atrasei o
passo e fui às urgências.
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Vim de lá como entrei: indiferente à vida. Mas prometi, que
cuidaria de mim e não abrace o mudo dos «Outros». Tomo os remédios e a
retroescavadora está sossegada.
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Não há pessoas perfeitas. Nem nós nem os «Outros»...
nem quem gosta de nós. Pudesse agora e abraçaria alguma gente.
terça-feira, fevereiro 04, 2014
Telefone-revólver
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Um dia, pode ser um qualquer, mas dá-me jeito que seja
ontem. Das alegrias e couberam os anteontens. Hoje, pela manhã, ou talvez ainda
ontem, houve alegrias, pelo menos esperanças.
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Acreditei e foram morrendo luzes. Nos pensamentos infantis não
se morre, ou longe e velhinho, num sítio. Com mais de idade duvidei que
existisse além de mim. Não por ego, mas de infantil dúvida: o que sentimos e compreendemos existe ou é
apenas algo que brota de dentro e faz as partes?
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Com a inerente soberba, ganância de vida e arrogância fiz-me
homem. Acreditando em tudo, jurei que quase nada, com inteligência com visão de
lince. Vi morrer insignificâncias, cego quanto a mim.
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E morrendo não entendi que esvaziava-me. Percebendo-me
poucochinho. Perdendo e orando a Deus, que é de lógica como de bondade, dizendo
vazios.
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Ainda sem perceber, ofuscado pela luz da infância, acreditei
nos amores. Cada um, suas chagas, uma morte e a descoberta de insignificâncias.
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Infantil, bati-me como se fosse a última luta... ter uma
importância. Podia ser pequenina. Podia até ser a insignificância mais insignificante.
Mas sou mais insignificante do que alguém.
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Ah, sim! Os outros existem. Não me apetece que não existam. Sem
eles, como posso justificar a dor negra.
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Não me matam e ressuscito. Implacável como a impotência. Triste
numa solidão de chuva. Patético um palhaço viúvo, tigre emocional, incapaz de
esquecer.
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Peço a Deus que me desexista. Não quero viver depois de
morto. Nem vivo-morto. Nem ser objecto de tempo.
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Devia haver uma cicuta que destruísse ou uma estricnina que
anulasse, do antes e do depois da carne, do antes e do depois do espírito.
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Os números dizem tudo na sua frieza. Que pena não terem alma
para se arrependerem. Disto tudo quanto sobra?
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Não percebo de contas e asneio nos afectos. Gostava que Deus
me desfizesse. E tanto me faz que fique memória ou sombra.
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Vida de sonhos tristes. Dias que passam por passar. Dias que
se contam até à libertação, duma pena sem cúmulo conhecido.
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Amigos que foram, que se foram. Amigos que nos esquecemos. Amigos
de lábios. Relógios parados e estilhaços-facas de espelho, cinzentos e baços,
onde o pó não deixa alcançar o tecto de memórias.
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Amigos que se mataram. Amigos que mataram-me com tempo e
quase duma vez só. Amigos dos sonoros silêncios, surdos de dor.
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Tivesse agora a coragem que já tive...e não tivesse um que
me agarrasse na queda, nem outro que me fez o mesmo. Tivesse agora a coragem
que já tive... não fossem as gatas... não fosse o coiso.
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Tivesse agora a arrogância juvenil e o cinismo dos
inexperientes. Se pensasse menos.
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Mais um na estatística. Não se escapa da estatística. Quando
não se está do lado de lá, é porque se está noutro lugar de números.
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Se... se... se... se... se... se... se...coragem para um
salto, esforço para um empurrão uma goela para passar uísqui. Se...
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Apontar o revólver à têmpora e não marcar qualquer número. Não
ligar, ser o super-herói inaudível aos inaudíveis e invisíveis.
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Só com sonhos de miséria e os mesmos dias de merda com
sorrisos.
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Tenho a certeza. Habito um corpo vivo que está morto, e os
olhos contemplam as mortes inalcansáveis.
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Um suicídio possível, como um parto sem dor. Ainda a dor dos
aflitos.
terça-feira, janeiro 28, 2014
Sida
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Se pudesse ter fodido com toda a gente que quis ter fodido, a minha sida teria morrido de orgasmos. Como não fodi o suficiente, se tivesse sida teria morrido de vergonha de não ter sida suficiente. Felizmente inventaram a internet e as figuras resguardam-se. E já fodi tanta gaja com sida.
Mercedes
Sim, nua. Não te consigo ver sem ser nua. Sentada,
conversando. Sendo e sendo sempre nua. Nunca objecto, mas mandante do prazer
obrigatório que duas pessoas têm de ter quando partilham, no mesmo tempo, lugar
e nudez.
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Nudez. A nudez é um conceito estranho. Nascemos nus e nus nos
vestem já mortos. Só vivos, com vida, vida suficiente para dar vida ou vida
suficiente para se pensar que se pode dar vida, estamos nus.
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Naufragar contigo numa ilha remota tem a graça de
algodão-doce. Tocar as mãos nos cinema, em segredo é patético como fingir que
se tem um almoço de trabalho numa pizaria.
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Sonho suburbano. Mediocridade que faz acordar enjoado.
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Não te quero mostrar nem que me mostres. Quero tanto que me
vejam como não vejam. Quero beijar e amar. Que fiques a fumar enquanto bebo uma
cerveja. Ou que vás à casa de banho enquanto acabo com a última garrafa dum gin
imprestável.
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O cheiro do sexo. Dum e doutro. Doutronum e doutro e um num
sem ser um nem outro. E, claro, suor e sede. Tesão, sim. E o tempo que foge.
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No final, outra queca. Ou então, dormir. Para outra queca. Meter
as chaves no Mercedes suburbano, deixar-te a duzentos metros de casa ou
deixares-me ao pé da paragem do metro, que nem passa à minha porta ou
fazcaminho.
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Descartável prazer em ser descartável e imprescindível.
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No caminho, já sós, dois ou três orgasmos egoístas e
aflitos. Com remorsos de não ter remorsos.
Frutas feridas
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Descobri que não preciso de estar mal contigo para estar mal
comigo. Que Passeio Alegre é um nome tão estúpido como Praça da Alegria. Felizmente
que quem inventa toponímia também cria Cemitério dos Prazeres ou Cedofeita. A mim,
dá-me tesão foder em Calhabé, Madragoa ou Miragaia.
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Não tem de haver rio. Tem de haver justiça no nome que se dá
às coisas ou às coisas que se fazem nas coisas.
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Os rios dão corrimentos românticos? Ordinarice bárbara. As cidades
estão cheias de palavras que se lêem meias. Em cada arco, quando as noites
ainda escuras... fiz colecção... tentei... poemei... sentir mulher as miúdas
que se deixavam tocar, mexer, foder, penetrar...
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Fui feliz quando deixaram. Fui feliz quando se baixaram. Fui
feliz quando deixaram. Fui feliz quando conseguimos. Fomos quando ninguém viu.
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Nesse tem, ainda ateu, rezei para que ninguém tivessem visto.
Hoje, crente, rezo para que alguém tenha filmado.
domingo, janeiro 26, 2014
Os cravos são vermelhos as rosas são encarnadas e os malmequeres são brancos
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Não tenho vergonha de dizer a um amigo que o amo. Digo-lhe
baixinho, ao pé de gente, grito no Rossio, digo em família, entre amigos entre
quem acabo de conhecer.
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Amar é sublime. Ainda que as dores sejam rios. Da inofensiva
nascente, à força da largura, à traiçoeira fundura. Do curso abrupto e rodopio confuso. Da maturidade à foz. À maturidade do oceano.
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Não morrerei se um amigo morrer. Nem morrerei se morrer
antes dele. Amá-lo-ei até à inexistência. Esperarei por ele como ele por mim. Mesmo
que a vida tenha um fim...
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Perder um amigo, por qualquer coisa, é um bocadinho desexistência,
uma mão de nada que se tira ao universo.
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No momento da tristeza, mesmo que só se tenha morrido um
bocadinho, sabemos mesmo que gostamos.
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Não há raiva que derrote amor. Nem que passando mil anos.
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Digo com a certeza do ricochete das palavras. Digo com o
infinito eco das palavras. Digo com a imortalidade das palavras. Digo com a
certeza do arquivo da memória, seus esconderijos, refúgios, lixos, arrumações e
cicatrizes. Digo com os bumerangues e os maremotos. Digo abraço, com lágrimas, seco, soluço, , arrependimento, consolo, festa.
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No amor, as pedras são flores. Com e mãos dóceis, campo, jarra, lapela, mundo em qualquer parte. Se atiradas caem. As
pedras doem. Se uma flor se tornar pedra, a flor tornará; que sejam precisos mil anos. E as flores são o que se quiser de bem.
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Amo-te e beijo-te, amigo, irmão, pai doutros sangues.
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Digo com a certeza da gravidade. Com gravidade digo erro. Com a certeza da gravidade digo infinito e já agora. Deus. Amor. Amigo.
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Digo com as flores brancas das palavras amigas. Digo com qualquer cor,que te amo. Do baixinho ao
eco.
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Digo a toda a gente!
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Digo:
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Amo-te, amigo.
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Sem ti não morria, mas desexistia um bocadinho.
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Nota: a V.
sábado, dezembro 07, 2013
Remédio para qualquer dor
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O que preciso é mesmo dum tiro na nuca. Fogo que calcinasse a ferida duma vida sem vida. Porque o amor é uma pomada, não cura, mas alivia. Já a bala é remédio para qualquer dor.
quinta-feira, dezembro 05, 2013
terça-feira, dezembro 03, 2013
segunda-feira, dezembro 02, 2013
Perito em linguagem binária
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Sempre fui muito esperto a matemática. Enquanto os colegas
aprendiam continhas e equações, eu dedicava-me à suprema e elitista linguagem binária... em todos
os testes tinha ou zero ou um.
segunda-feira, novembro 25, 2013
A Flor de Luz
Quando acordares dá-me um beijo. Dá-me outro ao deitar. Para não enjoar, dá-me quinhentos durante o dia. E outros tantos durante a noite.
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Nota: No entanto, não vêem nada. A luz da Flor é só minha.
Está frio lá fora
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Queridas Flores, lembrei-me de vos escrever para, através
das cartas, que é só uma, conhecerem a mais exótica Flor. Sem maldade nem ingenuidade. Podia
tê-lo feito antes, mas não me lembrei. O Natal aproxima-se e talvez a Lua na
quinta casa dum signo me tenha criado a necessidade.
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Não podia esperar. Pensei deixar tudo para amanhã, mas tinha
de ser agora; passa das quatro da madrugada e o assunto desarrumou-me a alma, e
uma alma desarrumada não dá descanso ao corpo.
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Ocorreu-me que o Natal não tarda. É quase Natal, uma data
solene, profunda e complexa, e íntima, e a nossa intimidade morreu, e a que
temos é tão nossa que está incerta, como um relógio avariado e coberto de pó.
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Começo por ti, Flor Amarela, a primeira que desabrochou.
Vesti a camisola de erva e servindo, olhando-me, não me vi nela. Não me
pertence e nada farei para ta entregar. Não a deitarei fora, por respeito à
dignidade duma peça em perfeito uso. Não a darei, porque não é minha. Desde 2006
que estava por vestir, talvez por causa destas razões, mas de forma
inconsciente. Ainda bem que a usei. Agora vai para lavar para ser arrumada e aí
ficar até qualquer coisa.
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Percebi que tinha de te escrever porque te quero contar a tua
diferença face à Acima-de-Lírio, já que o lírio parece-me ser a mais nobre das flores; não é fatal como a rosa, nem singela como a margarida, nem fidalga como a tulipa nem pirosa como a orquídea, é simples como uma rainha. Não perdeste nem perdi. Hoje, por estes dias,
sei que nem perdemos os dois num conjunto. Só perdemos tempo.
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Querias o que queria e dizias o que não querias, acreditando
que era isso que querias. Compreendo que a minha incompreensão conduziu ao
extremar dos dias do temperamento, aos dias e noites em que dois comboios numa
mecha embatiam frontalmente. Não te culpo nem me culpo nem nos absolvo, porque, não me interessa. Todavia sem rancor ou mágoa.
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Ao contrário, a Flor de Luz quer o que quero e di-lo. Tão simples.
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Quanto a ti, Flor Vermelha, a situação é muito mais
complexa. Houve momentos bons, razão da longevidade dos beijos.
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Mas foram anos de sobressaltos. Injustos, sei. As feridas a arder. Queimou-se o amor e
vivemos com as queimaduras. Estão cá, e nem me lembro. Tenho-te sincera
amizade, e chega.
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Ao contrário, a Flor de Luz dá-me tranquilidade. Cada beijo
é aconchego. Só isso já me bastava.
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Minha querida Flor Verde, não querendo ser cruel, foste irrelevante. O quase que falta pertence à P.
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A Flor de Luz dá-me... tanto e ainda o Mais.
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Simpática Flor Azul, ninguém te tirará teres sido a
primeira. E mais não há para dizer sobre esse século, além dum grande amor e do
primeiro desgosto. Enganei-me, mas acreditei que foi bom. Amiga distante, mas
amiga.
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Já a Flor de Luz dá-me o que nunca soubeste dar: sentimento
de amor.
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Doce Flor Lilás, talvez a segunda Flor que mais adore. E tu tão quente que me queimavas a cada abraço, carta ou palavra, sem mal. Tantas vezes canalha, que digo, para me absolver, que foi
a adolescência. Quero-te tanto e também ao M. Há uma amizade que os quilómetros não
deixam.
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Por seu turno, a Flor de Luz tem uma leveza que respira.
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A Flor de Luz é mais do que isto. E jamais será mais do que
a soma de todos os istos. As pessoas não se amontoam nos sentimentos e
memórias, quando têm, porque terão sempre, uma gravura guardada algures numa
cavidade do coração.
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O que é, digo-lhe. E tudo não sei. Quero toda a vida para
saber e poder recordar enquanto souber amar e for deixado viver.
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Dos olhos nasceu a luz. A Flor de Luz.
Um milímetro é maior do que a desgraça
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O peso das palavras e o desconhecimento das unidades de medida.
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Nota: Há pessoas que não sabem o que dizem. Como se pode classificar de «desumana» a afirmação de que um golo foi nos descontos quando ocorreu aos oitenta e nove minutos. A paixão cega.
sexta-feira, novembro 08, 2013
Os jovens não sabem o que é mandar um fax e talvez só saibam o que é «mandar um fax»... Portugal vai de fax
Um rebut já não dá. O «sair e voltar a entrar» aqui não dá. Só
formatando. O drama é se é um problema de hardware. Se está mesmo escangalhado
irá para o lixo e nós iremos também.
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Nota: Vou classificar a imagem como «fotografia», mas o género artístico é «fax art».
quinta-feira, novembro 07, 2013
Concerto
Apresenta-me esse sono que cai como morte se a morte
existisse. Que um sonho desentedie a noite e acorde aliviado.
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Apresenta-me uma memória, lembra-me um sentimento. Um concerto,
um charro, uma noite, uma bebedeira, um momento tine.
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No relvado a dançar. No relvado deitado. No concerto a
curtir. A namorada e um cigarro, e não fumando. Ah, o charro...
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Deitado sob as estrelas diluídas pela cidade. Deitado encaixado
na namorada. Ela fumando e ouvendo o concerto e eu ouvindo e vendo-a,
apaixonado e com uma tesão descarada, suspensa pelo momento e sentimento
pré-consciente da poesia e fragilidade do momento. Sim, sabia que me haveria
sempre lembrar. Sim, sabia que me haveria de esquecer. Sim, sabia que um dia,
muito mais velhos, numa conversa tranquila, despida de nostalgia, me haverias
de lembrar.
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Onde foi pouco importa.
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É uma memória rescrita, não inventada. Um tapete de momentos
e virgindades. Foi tudo há muito tempo e no muito tempo cabe muita gente e no
muito tempo cabem muitos eus e muitas noites e dias, dos alvoreceres às
madrugadas.
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Pode ter sido num lado qualquer contigo, sejas tu quem
fores.
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Sejas tu quem fores, amei-te. Com a brevidade e intenção dos
zetários. Tanta borbulha na alma e por dentro da cabeça. Tanta certeza de tanta
ignorância.
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Ainda hoje me apaixono. Infelizmente, a virgindade passou e
quase nada deslumbra.
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Os teus olhos castanhos, escuros pela noite, brilhavam e
tinhas a boca tranquila. Estavas a ouver o concerto e eu estava apenas contigo
e queria beijar-te, para perceber que não gostava do sabor dos cigarros.
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Nesse tempo difícil, o da borbulha, estavas lá. De lá
ninguém te tira. Nem da memória que não me lembrava e que me recordaste.
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Sejas tu quem fores, quando penso para trás percebo por que
amava. Se penso, era capaz de te amar outra vez, quisesse Deus que me
renascessem borbulhas no pensamento.
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Não é fácil
Quando ele fala e ela interrompe é «uma achega». Quando ela
fala e ele interrompe é a génese duma birra.
Oh vida!
Procrastinação. Preguiça. Depressão. Hipotiroidismo. Drunfo.
E eu acordado...
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Nota: O filme é medonho! A estética breakdance já é pavorosa e o conceito de rua de bairro manhoso de Nova Iorque é miserável. Porém, a interpretação e óbvio estúdio são uma pândega.
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