digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

domingo, agosto 28, 2011

Viagem com o nome de arcanjo

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Um dia feliz, em que os pés de praia não foram à areia. O mar bravo esteve manso e, ainda assim, o menino ficou agarrado ao corpo do amigo, para que não fosse o breve pensamento duma brisa, ridícula e impossível, atirá-lo abaixo para a Boca do Inferno.
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O vento do cimo da terra apresentou-se, enquanto a casa de luz permaneceu quieta à espera da noite. Pedra sobre a pedra, em escadas, em escadas imaginárias, em escalada, em ideias. Um, dois e três… hop!
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Um mapa pequeno e outro grande, a mesma coisa, do tesouro escondido e guardado, ainda que se não diga. O caminho até e o que haveria. Lisboa, perguntada, talvez ansiada… a casa, essa sim.
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No caminho o sono dos pequeninos. Entre um ponto e outro, a magia das viagens sem trajecto. Entre Lisboa e Lisboa, tanta coisa para contar e algumas para lembrar.
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Colher, garfo, faca, copo… comida e toda. Uma corrida, às vezes vitória… quase sempre e em tudo. Sempre bem, como um lorde.
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Não há noite sem sono. Tantas quanto os dias e em todas brincadeiras. É faze-lo enquanto se pode.
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Tenho tanta pena de já não ser pequenino.

sexta-feira, agosto 26, 2011

A volta do pai, a volta da volta do pai



















O pai ri-se. Interroga, afirma, delira, flutua, entre este mundo e um outro. Da lucidez à fantasia real das suas horas, minutos. O pai ri-se e brinca. O pai grita, a mãe desespera. O oceano manso alevanta-se, e o pai amaina-se sem aceitar nem compreender. O pai ri-se. O pai fala. O pai diz com voz de se ouvir. Há quanto tempo não o sentia assim. O pai grita, há quanto tempo, com voz de todo o corpo. O pai grita e a mãe desespera. O pai ri-se, flutuando entre a realidade e um outro mundo.

domingo, agosto 21, 2011

Março em Agosto


















Hoje houve Sol. O calor abraçou o pai e o pai sorriu. Lembrei-me do pai, lembra-se o pai. Sorriu, como há tempo não sorria. Sorriu com a confusão do riso, sem rir e na tristeza. Sorriu num dia de Março que chegou em Agosto. Feio e prometendo luz. Ventoso e anunciando a Primavera, sorrindo. Que o sorrir seja em Março e não de São Martinho, Verão de engano, de Outono profundo, certo do fim da luz e do Inverno. Será um dia, mas não hoje. Hoje, não. Hoje sorriu.

Outubro em Agosto


















Há sempre um abraço que fica por dar. As despedidas tristes escondem minutos felizes. O vento apaga as velas, a luz perdura na memória. Há abraços que têm de ficar por dar, para que as despedidas tristes não sejam mais tristes e possam prometer alegrias. O vento leva as lágrimas e os olhos molhados reluzem amizade devida.

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Nota 1: Repararam na luz bela e triste, outonal, que caiu no final da tarde em Lisboa? Outubro. Tempo permitido à tristeza.
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Nota 2: Dedicado à Janis Joplin da Inês.

sexta-feira, agosto 19, 2011

O pai


















O pai já não é e, contudo, jaz vivo. Ali, entre a vida e já a morte da consciência. Fala para o outro lado e mal diz para este. Desama quem ama, desama quem o ama. Não quer o que quer e agarra-se à vida. Quer o que não quer e tenta alcançar a morte. Não chega a ser triste. É a constatação, a vida vai-se devagarinho, em estrondo sussurrado, em grito louco de grande voz delirante, em sopro fraco e trémulo. A indecisão, na incerteza da certeza de que irá. O meu pai foi-se, só falta o corpo e a voz.

quarta-feira, agosto 10, 2011

Inferno



















A garganta escancarada, a boca do Inferno. Lá dentro milhões de demónios famintos. A cair, almas perdidas de corpo: velhos, novos, crianças, sacerdotes, cardeais, beatas, terroristas, católicos, judeus, muçulmanos, aqueles que crêem noutros deuses, cientistas, os que só acreditam no dinheiro, ou apenas no homem, machistas, feministas, homossexuais, tarados sexuais, abstinentes sexuais, abortadeiras, médicos, loucos, advogados, assassinos, fascistas, comunistas… um ror de gente, para as quais não chegam as palavras.
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As putas estão à porta, a chamar clientes. Os polícias estão a ver, aguardam ordem para serem tragados pela bocarra de enxofre. A escorregar, já dentro, de unhas cravadas na rocha, arautos da desgraça, profetas de religião e dinheiro.
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Mil torturas. Infinito sadismo. Calor e gelo. Um lago de imundices: vómitos, caganeiras, sangue, esperma, leite, suor e lágrimas. Toda a espécie de animais selvagens. E todos os animais nojentos. Todos os animais: aves com dentes, serpentes de plumas, leões de seis membros, insectos gigantes.
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A carne infecta-se e cheira. Para que não se habituem os sentidos, ventos orvalhados e com perfume de flores. Para que desenjoe e se mostre como seria o Paraíso. Depois, metamorfose, nuvens de fumo floral, para que se intoxiquem as goelas e se deseje o odor da merda.
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Dentro do Inferno há uma floresta amazónica a ser abatida, sem sentimento de culpa, sem fim… só árvores caindo e com elas as bestas tropicais e as penas das aves do Paraíso.
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O Inferno é um mundo de solidão, é a multidão. As vizinhas espiam e comentam, em inveja e medo. A paranóia e um capanga em perseguição.
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O chão do Inferno é de lava e dentro das cavernas chovem ácidos. Há padres da Inquisição para os judeus, rabinos intolerantes para os muçulmanos e almuadens a chamar os devotos à guerra santa contra os cristãos. Todos contra todos, incluindo chineses, japoneses, indianos e aborígenes australianos. Todos, incluindo antropófagos. Todos incluindo vegetarianos.
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O pesadelo dos políticos. Para os outros, a certeza de que haverá políticos. No Inferno há bolsa de valores, mercados cambiais, indulgências, Muro das Lamentações para dar cabeçadas, uma mesquita virada para Meca e um calvário para os menos aflitos. Eternidade para todos.
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O Diabo pode tudo. O diabo não gosta de ninguém. Nem gosta de si. O Inferno é uma grande balda, um mundo de confusão. Tudo de pernas para o ar, que, quando se está de pernas para o ar, continua de pernas para o ar. Desconexo. Concertante, contudo.
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Só tenho pena de não acreditar no Inferno nem no Diabo...

sábado, agosto 06, 2011

Baixa mar










A água doce não tem cheiro. Fresca, menos. É mais pobre que a que vem e vai e vai e vem, salgada.
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A água parte. No sítio, um vazio. Parece nada faltar, não falta o cheiro nem nostalgia.
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A dor é maior que a solidão da partida do mar. As lágrimas não são menos abundantes que as ondas. Só o mar é mais salgado.
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O que fazer com a ausência? Quem disse que não se pode estar cheio de nada? Que angústia ver partir o dia na maré baixa… as gaivotas recolhem-se e pela manhã, depois de a água emprenhar de Lua e partir novamente, o areal estará liso. Só as marcas dos passos pequenos das aves.
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Vazia, a maré faz espelhos e inventa rias e lagos. Os limos mergulhados surgem ao Sol ou refrescam-se na noite. Cheiro verde, junto ao azul, lavado de espuma e sal.
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Gosto da brisa do entardecer. Gosto que me sopre o corpo escaldado. Felicito-me por pôr os pés onde havia água. Iludo-me com a imortalidade das pegadas… se o mundo acabasse agora, se o mar se fosse, as marcas ficariam para sempre a lembrar-me.
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É um instante a baixa mar. Nem dá para chegar à outra margem do mundo. Como Moisés abriu o mar? Só penso nisso quando uma onda mais ousada apaga a curta eternidade duma pegada do meu passo mais atrevido.
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No Inverno, a baixa mar faz mais praia de silêncio. Não dá Deus, mas mostra o princípio do mundo. O frio agasalha-se com a vista e um só beijo aperta o amor, que se sacia no abraço enroupado. O sal está sempre, nas bocas, no vento, no mar, nas lágrimas.

quinta-feira, agosto 04, 2011

Preia mar










As tuas mãos são vagas calmas que trazem caracóis de espuma e sal de beijo. Amar-te é o desejo maior.
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Estou abraçado pelos teus braços de algas, molhado pela tua água. Beijado no sal, deitado na areia, a pele escaldada e a cabeça, perdida, quente do Sol.
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À flor dos olhos existe a ternura que nos damos. À flor da alma estão as incertezas que tenho. Mas à flor da pele está o amor que fizemos.
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Quero-te, acima de tudo, amada. Quero essa doçura cândida, o tom de voz agudo e macio. A flor do teu olhar. A flor de sal.
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O amor contigo é tranquilo. A incerteza em mim é ácida. E tão certo de vontade. E tão certo de querer. E tão triste, por incerto.
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Por nada te quero perder. Não sei se tenho forças para que, querendo-te tanto, te queira mais.
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Sem ti não passo. Choro se te vir passar sem que esteja a teu lado.
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Que não sejas a maré baixa. Que sejas a preia mar. 

Êxtase


















A boca que te mordo. Os seios que beijo. O tronco que abraço. Sou serpente e tu árvore, numa floresta multicor, de cacofonia harmónica.
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Fazer amor contigo é a reinvenção da ternura, a descoberta adolescente. A frescura beijante no dia de calor. O suor amado.
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Os meus beijos penetram-te. Sou teu predador e tua presa. Não me sacio num só banquete e tu, tão vasta de querer, não me chegas.
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Rijo, entro-te. Rijo, com a língua entrelaçada na tua. Com os lábios encaixando-se em amor. As mãos em toda a parte. Eu em ti. Tu, anfitriã, minha senhora.
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As horas de vigília, as longas conversas. Um dia tudo será esta verdade, que te desejo em palavras. Por agora, contento-me com a boca, a que mordendo te deixa morder. 

Numa água noutra vida
















Gostava de, agora mesmo, mergulhar numa água de flores. Não de aromas, mas de pétalas. A luz que ilumina a inteligência.
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Mergulhar contigo a ver. Ver-te mergulhar. Contigo fazer amor. Deixar que os teus beijos me façam explodir de homem. Que por ser homem me faça homem, herói para ti. A força sensível do homem que deseja.
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Sem televisão, mas numa música de final de tarde frente ao mar. Sem lembrar os beijos tristes e a pensar na descoberta de redescobrir, a inocência atrás dos corpos por despir e com vontade de perder a roupa.
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Uma varanda sobre o vento quente, antes que acabe o Verão, que não chegou a chegar. O encontro por trás. De Verão e mãos sobre o peito, de boca no pescoço. De loucura.
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Quendera uma solidão. Quendera, amor novo. Sem culpa nem fantasmas. Sem dor nem dúvidas. Sem consequências da consequência do desejo. Estrelas exibicionistas, num céu de azul diurno.
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Esquecer estes dias? Nunca. Lembra-los sempre. Entre o remorso e a dúvida, o medo e o desejo. A realidade e o sonho. Gato a passear no telhado, a Lua e o Sol, as flores e os dias sem fim e sem nada que os ocupe. Esquecer estes dias? Nunca os viver.
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Tantas dúvidas nas horas de tédio. Além das certezas, a indecisão. A impaciência. O desejo de facilidade. O desejo de felicidade. Pensar em ti.
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Ondes estás? Para ir. Para não ir. Para voltar. Para ser campeão. Para acordar para a vida. Para acordar. Para viver. Para renascer. Para não saber. Para não ser.
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A água de flores. A música de jardim. A luz do Sol. A luz da Lua. A luz das velas. A luz de adormecer. A luz de acordar. A luz da voz. Desejo, consequência e ausência de remorsos.
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Deus duma paisagem maior que Deus. Intemporal, o amor finito, numa existência finita, duma vida infinita.
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Braços abertos à luz do Sol. Frente, destemido, ao mar. Beleza, incerteza. Fora de mim. Fora daqui. A incerteza da certeza.
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Fugir, que é o meu verbo. Beijo, o meu desejo. Mergulhar na água de flores e esperar que sob as águas surjas para me beijar o que me faz homem.
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Entretanto, acordar e noutra vida.

quinta-feira, julho 28, 2011

Escrito com palavras de sombra














A eternidade pode ser uma palavra perdida. Uma frase grafitada num muro esquecido. Quase silêncio do vento a bater nas folhas e galhos. Quase quente. Quase ébrio. Quase deserto.
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A solidão é uma sombra esbatida, uma vida abandonada, um encolher de ombros, um não querer saber, um não esperar nada, um não desejar nada, uma vontade de coisa nenhuma.
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E o que é o tempo? O mancar dum relógio de sala? Nas casas vazias, nas almas tristes, nas vidas esquecidas, nas horas de tédio.
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A eternidade dos infelizes escreve-se à mão. Palavra escrita com tinta de sombra. Palavra grafitada numa parede onde não bate o Sol e onde ninguém passa.
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O tempo é um buraco negro, que suga a vida. Viver é esperança? Quantos não andam mortos e apenas esperam?
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A tristeza escreve-se com letras queimadas. A eternidade dos tristes tem trezentos e sessenta e cinco dias por ano e de quatro em quatro tem mais um. Cada dia tem muitas mais horas do que as vinte e quatro das jornadas dos felizes. A dor do tédio. A espertina em desatino. As horas vazias.
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A vida suga a vida de quem vive triste. De quem teve a tristeza de nascer triste e viver triste. A vida é uma voragem. Não vale a pena pedir socorro, porque o triste será sempre triste e quanto mais triste viver, mais triste será.
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Não há socorro. Ainda que peça, ninguém ouve. Os alegres, na sua bondosa ignorância, desviam-se. É mentira. Dizem. Só faz porque isto e aquilo e se quisesse já tinha feito, é mimo, é isto e é aquilo.
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O tédio mata e mata-se o tédio matando a vida que mata.
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A verdade escreve-se a fogo e a tristeza com letras de sombra.

Elogio do suicídio
















Só quem nunca provou o seu sangue pode pensar que o suicídio não é solução. Quem nunca adormeceu comprimidado não pode saber que o suicídio é mesmo a solução.
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A morte é sedutora. Quem já passou o túnel, quem já viu a luz de branquidão indefinível, sabe da vontade de ir, deixando com saudades os que ficam.
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Também quem morre sente saudades. De certo. Mas será tão mais livre sem o peso do corpo. Sem o peso do corpo, que se pode deixar pendurado, preso pelo pescoço.
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Quem nunca se lançou duma altura não sabe da leveza de voar, ainda que por uns segundos. Só dói bater com os pés no chão, prova de que viver não vale a pena.
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Que dizer da vertigem em se lançar para diante dum comboio? Um orgasmo louco e breve.
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Só quem nunca pensou em suicídio não pode saber da leveza que terá quando se for e deixar para trás toda a mágoa de viver.
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Cansado que cantem a vida. Quanto pesa viver em dor? Quanto pesa não ter futuro? Pois que o futuro seja além.
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A sombra, o buraco, o canto, o sufoco. A sombra que dá lugar ao escuro-negro, as lágrimas que doem. Doer só por doer. O suicídio é mesmo a solução.
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Basta querer. No momento em que viver já não é solução. Basta querer. O suicídio é libertação.

terça-feira, julho 26, 2011

Quinquagésimo-sétimo andar


















Bebo vinho, projecto para além do corpo, mas não o corpo. Para longe. Tenho pesadelos, a dormir e acordado. Percorro ruas sombrias, darques, de dia e de noite, desperto ou mergulhado no sono.
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Os dias têm anos.
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Sentado no beiral do quinquagésimo-sétimo andar pondero um salto, em duas esperanças e nenhuma certeza. Partir ou voar?
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Voar para onde possa viver num quinquagésimo-sétimo andar. Partir. Pouco me prende aqui.
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Nem namorada nem amor. Nem filhos nem vontade. Sem ler e sabendo. Sem fazer e com tempo. Nem música nem ânimo. Nem música para o desânimo.
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Projecto para além do corpo a vontade de partir. Daqui e daqui de cima. Tenha ou não um quinquagésimo-sétimo andar. Sem certeza se voo ou se caio.

Poetisa e musa de nome oculto


















Sei, por que já sonhei, que terá uma rua no Céu. Pela bondade e mão de escrita, quem cria tem mais do que murmúrios ou bustos nas cidades e os de amor um lugar de eterna ternura. Poetisa e musa, arrisca-se a uma via larga, ladeada de árvores e casas, carros, praias e bandeiras. Quiçá, uma praça de multidão em agradecimento. Pela beleza das frases e bondade do ânimo.
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Escondida na obscuridade dum pseudónimo. Escondida da escrita, com poesia dentro, por receio do trabalho que dá pensar todos os dias em palavras. Viva de amor. Viva o amor! E quando diz, declama… proclama a sedução e o desejo.
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Ouvi o vibrante tom quando fala de amor. Senti as garras cravadas na poesia, como um predador esforçado. Sei de si triste. Sei de si feliz. Guardo as palavras que quis partilhar comigo e jogo ao vento, para um forte que venha de qualquer lado, a gratidão de as ter podido ler.
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Gosto de textos de amor. Gosto desses textos de amor, sejam eles de verdade ou do mundo das fadas. Leio-a quando partilha com o mundo, quando solta a música guardada nos afectos. Segredos, maravilhas. Segredos, ela escondida atrás dum pseudónimo.
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Com sede, vou de copo à fonte. À fonte santa em que a santa, com a satisfação, dá de beber. Vou à santa pedir um milagre, uma revelação. Novas palavras surjam de seus lábios e mãos de poetisa. Um pouco mais de poesia de menina para animar uns dias de marasmo. E a uns dos outros também.

terça-feira, julho 19, 2011

Tu aí ao lume e eu aqui perto das macieiras







Macieiras e vento para trazer o aroma dos frutos. O mundo com fundo no fim do olhar, sem muros, nem nada.
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Eu aqui e tu à volta duma fogueira, fora da vista. Vejo-te os olhos verdes nas saudades, vês-me no luzir trémulo.
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O mesmo céu como testemunha dos beijos que nos mandamos, enquanto disfarçamos qualquer coisa para que quem não olha não possa ver nem pressentir.
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Eu, deitado. Tu, sentada. Lado a lado em lados diferentes. Tu aí e eu aqui, como se estivéssemos de mãos dadas. A Lua como parede onde afixamos os beijos.
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Ninguém vê. Não querendo, queremos que todos saibam. Sem ninguém ver, fazemos com que não vejam.
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Pela a aurora, o Sol aparece e levanta um véu mágico, numa magia doutro princípio. A luz manda adormecer quem passou a noite suspirando às estrelas.
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A luz do fogo em cinzas e sem vento para trazer o aroma das maçãs. Mas o fim do mundo está no mesmo sítio e o céu mantém-se testemunha.

Aqui quase

Adormeço esquecido de ti. Mergulho na espiral escura da noite, sob as pálpebras, por cima do corpo. Vivemos. A meio da noite acordo lembrado de ti. Suado de corpo e lençóis. Confundido no corpo e na mente, certo na alma.
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Adormeço conformado com a minha inconformidade. Mergulhado na terra pouco densa de além-corpo, reencontramo-nos. Vivemos a vida. Se for preciso, se acontecer, acordo as vezes que forem precisas para ter a certeza que não estás. Adormeço as necessárias para saber que estás e vivemos uma vida destinada.
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Passageiros da vida. Perseguindo-nos e escondendo-nos. Brincamos com as vidas, o destino, o amor, as promessas, as lágrimas, os risos. Sem mentir. Sabemos um do outro e negamos se nos confrontamos.
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Além da espiral, porta para o mundo verdadeiro dos sonhos. Procuro-te confundido e acordado. Depois dos beijos, depois do amor feito. Sempre. Toujours. Sempre, a memória dos dias especiais e as certezas dos banais.
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Adormeço conformado com a minha inconformidade. Tão certo de te encontrar, e com a certeza que sonho. Confundido acordo. Não estás. Estás.
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Não precisamos duma fotografia em papel para beijar. Basta adormecermos.

domingo, julho 17, 2011

Obscuridade














A tristeza é muda. Carpir distrai a dor. A melancolia está na solidão e os lugares vazios têm fantasmas. Zonzo, com pesar na alma. Derrubado pela impotência de fugir da prisão dos dias. Deitado à espera de adormecer. O amor resolveria tudo, disseram-me. Amores? Desisti. Basto-me para sofrer. Os dias têm demasiados anos.

quinta-feira, julho 07, 2011

Amor contra o tédio















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Amo todas as que amei. Não há escuro que. A cada, a sua música. Depende dos dias. O Verão, o Inverno, a praia e a cidade. As lágrimas e os inversos. Os versos ditos, os por dizer, os que não se escreveram e os que se prometeram. Amo todas. As das zangas, as das minhas fitas, as dos filmes. As que quis e as que não me quiseram. As que gostei transitoriamente e as que suspeitei que gostava. Amarei qualquer uma, desde que me tire deste tédio.

terça-feira, julho 05, 2011

Negro, sem luz

















Além da morte. Mais profundo do que os palmos de terra. Anónimo, sem memória nem saudade. Não quero ver a luz clara, nem passar túnel, nem ter cruz na campa, nem campa, nem nada. Tampouco um subtil fumo a sair da chaminé e a misturar-se no ar. Anónimo como as pedras das construções em memória, mas sem memória para poder cravar um nome e datas. Não ficar em parte alguma, sem memória nem saudade. Negro, sem luz.

Além da morte















Deus criou-me. Sem nada lhe ter pedido, deu-me vida, como uma dádiva. Vida após vida tenho vivido até chegar ao momento em que lhe peço que me descrie. Não que me leve, não que morra… A matéria, como sempre, na terra. No éter, a memória. E o espírito, como definir?...  para um tempo antes de existir, para o onde não estava até à criação… peço-lhe que me descrie.

domingo, julho 03, 2011

Riso













Tenho o quarto com cheiro de riso. A penumbra da noite tem olhos luzindo. A cama tem memória. O corpo, saudade. Pelo chão, muitos beijos caídos. No chão, a garrafa da água que saciou a sede. Cabelos estendidos em fronhas e lençóis, impressões digitais nas costas e o cheiro do riso por todo o quarto. São rosas.

Tempo












Um amor não revelado não é um amor anónimo, mas amor escondido. Se passado, ressentido. Se puro, esquecido.
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O interesse do segredo é ser secreto. As palavras escondem-se nos esconderijos e às janelas, à frente de toda a gente. Tão óbvias...
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Dizes-me amor com voz invisível. Invisível digo-te amor.
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Dois amantes translúcidos, duas vidas separadas. Uma existência perdida.
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Se há amor? Como pode haver no medo e na distracção.
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Se há amor? Como pode não haver quando à separação se juntam outras friezas.
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Um amor assim tão grande precisa de mais vidas para viver.

quarta-feira, junho 29, 2011

Desarrumação















Cadáver de carcaça viva, esperando que o peso da alma dê sinal para perda do corpo. Os anos dum dia sucedem a anos. As horas suspensas, e sem o mancar monótono e previsível dum pêndulo numa casa vazia e esquecida. Já experimentei ficar deitado, atravessado na cama, com a cabeça pendurada… ou mergulhado em água quente, numa casa de banho sobreaquecida… Chorei, amaldiçoei Deus e critiquei-me. Será que o corpo é parte sobejante da vida?

domingo, junho 26, 2011

Valsa de Verão



















Sopra-me e atiro-te gotas. Esta noite está de dançar, frente ao rio ou ao mar. Velas de vento ali e de fogo aqui. E se for preciso, não importa que olhem. Nariz com nariz e bocas… Não se diz nada, para que nenhuma vaga promessa possa… dançar até depois de a música parar, nós os dois, um só, a vontade de unir num os dois sós. Dançar até depois de a música parar, nós os dois, um só… depois acordamos, um ao lado do outro. A pensar um no outro. Dançar até depois de a música parar, nós os dois, um só… acordamos e não percebemos por que estamos sós.

(A)mar Eterno




















A paixão é um caleidoscópio, mas não tenho a certeza se a memória dos amores defuntos não é parda. Já me apaixonei por motivos diferentes, até por atrevimento. Em todas as vezes a vida foi imponderável, um descontrolo. Não sei se gosto. Devo gostar, ou não repetiria.
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Talvez a vertigem seja o meu maior vício. O desejo do prazer e de pisar o limite. A fome de corpo e de afectos. Não gosto de regras. Nunca gostei. Se me desenhares uma fronteira, eu atravesso-a com a coragem da minha ternura e poder de sedução. Olha-me nos olhos. Que dizes?
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Vertigem sinto eu… por mais palavras que digas e juras que faças. A qualquer ternura, temo cair sem rede. Tudo vale um beijo... Queres uma fronteira? É aquela linha no mar, onde começa a onda e termina o vento… entre o verde e o cinzento. Ultrapassa-a se fores capaz e traz-me o beijo mais salgado que consigas.
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E se a queda for maior do que a onda que se avizinha, vais lá estar para salvar a alma? Já não me restam lágrimas. E a minha voz secou de tanto gritar pelo teu nome ao vento, que assobiava com a fúria da tempestade. Imaginei-me com asas para te procurar entre as gaivotas. Desejei ser mulher sereia para descer às profundezas do oceano. Não tenho medo do mundo, apenas de ti.
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Se fores sereia e eu gaivota estaremos sempre perto, mas nunca juntos. Deixa-te ir, que resgatar-te-ei à espuma salgada. Em sonhos venço Neptuno… assim, frente a frente ao mar… Se fores nas ondas… em sonhos venço Neptuno! E porque amar é sonhar, vou ao fundo do mar resgatar-te… oiço-te, não por gritares, mas por te ouvir o coração chamar-me…
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Sigo a corrente, na esperança de encontrar-te. Um dia, quem sabe. O nosso amor é como a onda que rebenta, porque reconhece que a sua força chegou ao limite. Como a espuma que abraça a areia e as rochas para depois as devolver à solidão. Mas desistir não é o meu verbo de acção. O equilíbrio está na imperfeição e nas contradições do amor. Quem disse que o céu não sopra ao mar juras de amor eterno, de amantes e marinheiros?
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Que o amor rebente na praia e os corpos se limpem de areias... Que nos amemos indiferentes ao mundo, nas rochas, entre limos, e marés. Seja o que for, até nada… Se desapareceres entre vagas, gritarei ao mar e ao céu, para que quem te levou saiba que há quem te sinta a falta e saiba que amor não rebenta nem se afoga.
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O amor é um trapezista destemido, que desafia o perigo e arrisca o coração sempre que se expõe. Não tem medo do ridículo. De mostrar o seu lado mais frágil, de fraquezas, dúvidas e incertezas. De partilhar.
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Ama-me. Ama-me muito. Para que um dia eu possa dizer que provei o amor.
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Nota: Texto escrito a quatro mãos, duas minhas e duas (mais bonitas) de Rita Carvalho.

sexta-feira, junho 24, 2011

A árvore

















Árvore de quase toda a beleza e da sombra em que me deito. Casa, o berço do mundo. Só não a abraço por pudor. Guardiã do jardim, confidente e vigilante, a alegria e a amizade.
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No Verão, a sombra. No Outono, a poesia. No Inverno, a nostalgia. Na Primavera, a esperança. Casa de tanto e tanta coisa. Generosidade silenciosa. Grandiosidade sem arrogância.
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Fico horas à sua sombra a imaginar a casa onde viver, o jardim para a pôr... a árvore para me dar sombra.
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A minha árvore existe algures. Um dia farei amor no seu colo. Reconfortar-me-ei com um fruto. E com o caroço, abandonado no calhar, espero um dia ter outra árvore, para lhe fazer companhia.

segunda-feira, junho 20, 2011

Cansaço


E se o último dia fosse hoje? Afinal, ninguém me viu. A menos que uma coincidência me tenha colocado a descoberto, no espaço que sobra de cortinas e persianas, no momento em que olhos indiferentes pousaram na janela, nesse ponto de improvável existência.
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Hoje não seria um mau dia. Não estou pior, mas não estou melhor. Olhando para o calendário, não vejo qualquer data significativa para adiar o momento. Vendo a agenda, não tenho impedimento para agora.
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Acaricio as gatas, uma a uma, e peço-lhes desculpa. Não merecem, mas há coisas que estão para fazer há demasiado. Fosse outro qualquer dia, seria o mesmo.
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Não será preciso escrever uma carta. Já disse muitas vezes e a muita gente, e há uma pronta há demasiados meses.
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Por que não hoje? A alma não morde na alma como nas tempestades. Porém, a minha vida não está em azul celeste e condimentada pelos assobios joviais de passarinhos esvoaçantes.
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Por que teria de estar amargurado na profundidade negra? Basta o cinzento dos dias banais para razão. Além disso, o tédio é o mesmo. Comigo é sempre domingo, com excepção do domingo, que é mesmo domingo.
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E se hoje fosse mesmo o último dia? Quem desconfiaria de festa no solstício?
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A preocupação são as gatas, que me impediram bastas. Bem, deixo-lhes comida para quatro dias. Por que não hoje?

Acerca de Deus
















É improvável que Deus se tenha esquecido da improbalilidade. É improvável que exista. É improvável que não exista. É provável que esteja enganado.

Quietação


















Olhos de doce inquietação e quieta doçura. Sorriso de ninar, mãos de carícia e voz de enlevar. Bondade transparente, corpo flutuante.
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Feitiço sem bruxa. Sensualidade de fumo e carne de desejo. Amor como quem faz amor. Dedicação de alma como se o amor fosse o único, verdadeiro ou o maior.
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Fantasma sem forma. Fumo que entra pelo sonho e quase muda a vida. A ternura dita por uma mulher terna. A ternura eterna.
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Mãe de alguém, alguém tão doce que só pode ter uma mãe como ela. Sem excesso e tudo o que pode dar uma mãe. A timidez ousada das mães.
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Faz amor com o amor que dão as mães. Toda a doçura da mãe ninando, tão verdadeira. Ansiosa e sensual como as mulheres que não são mães. Sôfrega como as mulheres que querem e beijam querendo, dizendo que não com a boca.
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Faz amor, com todo o empenho da segunda vez. Com os beijos quentes de quem foi deixada a meio de amar. Uma lindeza de perder.
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Olhos, sim, com toda a bondade. Boca, sim, do desejo e da verdade. Corpo, sim, do prazer e reconquista.
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Como esquecer? Os olhos doces de quem ama, ainda que não amando. Quieto desassossego. Desejo de muitos dias a desejar.
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Todo o mundo, uma mulher, uma mãe. Toda a vontade de amar.
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O meu beijo pairando pelo desejo de o agarrar, pela moça dos olhos de doçura.

sexta-feira, junho 17, 2011

Estado de graça





















Um amor obscuro, no espaço escuro da casa vazia, é felicidade simples de almas complicadas. A felicidade é um estado de graça e a paixão uma doença de sorriso e tensão.
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A solidão e a memória, forças motrizes do ânimo das noites de intimidade suada. Do fundo do espaço escuro da casa vazia surgem alimentos da alegria do acordar com o abraço deitado ao lado.
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A boca guarda o sabor único da boca de beijo. Sem o riso não voam as bruxas do prazer. A paz do momento seguinte à euforia… estado de graça.
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Um amor obscuro dá luz a toda a vontade de querer mais. Ao deitar junta-se o corpo etéreo da amante e o sono trará o sorriso dos sabores intensos do seu corpo. Estado de graça.