digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

sábado, outubro 28, 2006

Cyborg

Acho que sou um cyborg!... Estou a ver fosquices! Devo ser um cyborg. Afinal existem e sou um deles. Desconheço as minhas vantagens, mas sei todas as desvantagens da espécie humana. Talvez seja essa a minha vantagem.
Se vejo fosquices é porque tenho uma visão digital encalacrada. Só um cyborg tem uma visão digital. Nunca desconfiei de mim. Não sei se me devo abater. Não sei se é possível abater-me. Não sei se me posso abater.
É estranho ver com quadradinhos à frente. Se não fôr um cybor devo ter ingerido veneno ou álcool ou é a mesma coisa ou gostava que fosse a mesma coisa. Porém, não bebi. Estas visões digital e afectada provam que existem e que existo, sendo eu um deles. Não sei, por isso, se sou mortal ou perecível. Vou-me quando me acabarem as baterias, sendo que, com elas, vão todas as minhas histórias de infância e canções de embalar.
Se eu fôr um cyborg tenho tudo a perder, menos a vida, é claro! Não sei bem se me importo, só não queria ter a distorção digital tenho agora. Nisto tudo, não sei onde pôr a memória nem o amor. Onde me posso arrumar?

sexta-feira, outubro 27, 2006

Luxúria


Ando febril contigo. Sonho-te acordado e a dormir, desde que te vi, embora nem te conheça. Embora não te conheça sei do teu corpo, vi-o muitas vezes, menos do que o desejei. És pecado e tenho o pecado todo. Não me importa se te gastas em noites e eu se vivo os dias, quero atirar-me para o teu fundo e ir contigo até onde fôr o fim. És vício e sem ti não passo, ainda que seja eu um desconhecido. Vi-te nua e nem espreitei. Estás nua quase sempre, e eu sempre sedento de te ver mais nua, como se fosse possível estar-se mais nua. Não te amo, mas quero-te. Preciso-te. Não vivo bem sem ti. Desgastas-me e gosto de me gastar em ti.

O carniceiro e a minha carne num talho

Não sei se os cadáveres me incomodam. Possivelmente perturbam-me mais as carcaças dos animais penduradas num talho. Quando um dia morrer, se isso acontecer um dia, quero ver-me jazendo.
Não sei se gosto de estar vivo ou se a vida vai por mim e estou habituado a estar e respiro, porque os meus órgãos assim mo orbrigam. Contudo, tenho um corpo e ele vibra com os prazeres dos corpos. Gosta de comida, de sexo e do toque.
O meu corpo aprecia tanto o toque que, se pudesse, até poderia doá-lo à ciência ainda em vida, para que fosse dissecado, mexido e analisado, mesmo que retalhado.
Sei que muito provavelmente sou mortal e um dia farei um trato com um notário, um padre exorcista e um carniceiro. Ao primeiro entregarei o meu testamento e aos outros tarefas: Porque ando cansado da vida e tenho incerteza da morte, tentarei ir. Pedirei ao talhante que me retanche e conserve. Saberá o prior, nos seus exorcismos, quando do meu regresso, porque não acredito na morte e teimo na vida. Quando estiverem certos da minha volta, sentem-me a uma mesa e sirvam-me a minha carne da vida anterior. Sei que não demorarei em voltar e, no frio, tudo se conserva por muito tempo. Que sabor terei? Não me comerei todo, e todo eu estarei à venda para gáudio dos curiosos e lucro do carniceiro, padre e notário. É um trato que um dia hei-de fazer.

Fantasmas vermelhos

Não sei o que dizer do vermelho. Deste vermelho. Não sei que elogio fazer à arte nem à amizade nem ao trabalho partilhado. Não sei se tenho pudor de escrever sobre a homossexualidade. Não sei se tenho vergonha e prefira ficar quieto para não alinhar palavras sobre o que desconheço.
Sei que gosto muito de Guilbert & George. Sei que ando a escrever sobre as relações humanas e a pairar na arte. Dou por mim a olhar para várias imagens desta dupla sem saber qual escolher... sem saber o que dizer... sem saber, tampouco, o que sentir. Não sei se é superficial, se é apenas uma película, um brilho ou se é um espelho, um cubo de gelatina, uma ferida com espessura.
A amizade, o trabalho a dois, a arte e a homossexualidade que papel têm? Como se conjugam? Que triangulações fazem, que tintas mesclam? Que preconceitos accionam nos homens tolerantes? Acabo por escolher uma imagem polida. Polida? Nâo! Inofensiva. Escolho uma imagem pudica. Uma imagem sem nus, sem pénis, sem intimidades, com poucos desafios à minha integridade e heterossexualidade. É uma imagem vermelha, como uma anedota, com dois diabretes felizes, nada mais. O desafio está contextualizado dentro de mim.

O ciclo do pobre monge

Se abdico de alguém é porque abdicaram de mim. Só desisto por desistirem e os meus votos não valem muito, pois sustentam-se na desilusão e não na consistência dos princípios e dos valores.
A minha castidade é voluntária, mas só acontece porque ma impuseram. Por mim continuaria originalmente a pecar. A minha fé é feita de claras em castelo, que no descuido do pasteleiro e volta a perder a armação e a alvura. Assim são os meus votos e promessas. Sou um fraco monge.
Os meus amores são absolutos e quasi incondicionais. Depois morrem-se nas mãos, à minha vista, comigo à cabeceira do seu leito de morte e sem perceber o fenómeno do seu finado. Os amores em mim não medram. Por isso torno-me monge.
Mas nem o amor do Divino me prende por completo e completa é só a minha leviandade, que me leva a trocá-lo pela paixão das carnes das mulheres. Enamoro-me e logo se vai a castidade e volatiliza-se a poeira de santidade que, por ventura, poderia ter-se depositado em mim.
Dispo o hábito e meto-me na cama com a desejada, até o amor ser totalmente consumido. Na cinza não renasce uma Fénix e sobrevém apenas tristeza, incompreensão, lágrimas e partidas. Visto novamente o hábito e, envergonhado, cubro a cabeça com o capuz para que nem o espelho veja o meu rosto. Quando me refaço das dores mostro a cara, é quando volto a encantar e a enamorar. Não há emenda nem penitência.

A viúva grávida do fantasma

Não sei por que enviuvaste de mim, porque estou vivo. Não te dás, mas da tua boca saem frases em que dás ao mundo como se fosses a mulher mais livre.
Negas-me como se eu fosse defunto, fazes-me um fantasma, mas não estou longe de ti. E ainda que o fosse estaria perto a velar como um anjo da guarda.
Na verdade nunca estou muito longe, porque vives em mim, como vivem todos aqueles amados, até os partidos. Na verdade vives em mim e não há dia que não te lembre e julgo que não há noite em que não nos encontremos, levados por mestres, para aprendermos mais da vida e de nós.
A vida passa por minutos rápidos e segundos longos. A vida passa e tudo na vida passa. Só eu em ti não passo. Nem tu em mim. Estás viúva de mim, e eu ainda vivo. Negas-me a vida e tudo o que a ela está agarrado.
Estás viúva de mim e não serás livre enquanto fores viúva. Não te darás enquanto a castidade e o pudor te enclausurarem a cabeça em virgindade. Estás viúva e não enterraste o morto, mas tens vivo o defunto marido. À noite encontramo-nos, levados por mestres, e aprendemos as letras e fazemos contas às vidas.
De dia voltas a ser viúva e eu fantasma. Porém, sem saberes estás grávida duma amizade e nem vês a barriga grande e o sorriso a fazer-se. Um dia acordarás, viva ou morta, e terás diante dos olhos o que agora escrevo. Serás, então, mais livre e feliz.

quinta-feira, outubro 26, 2006

Olhos nos olhos em casa

Gosto de te ver de frente, porque não me mentes. Não te sei enganar. Tenho uma ribeira brava a correr em mim onde podes molhar o rosto e disfarçar as lágrimas, se as tiveres. O que vivemos juntos é um segredo e não é mistério para ninguém o amor que temos, embora ninguém saiba definir o sentimento e o diga de forma tão diferente, que o torna todo igual.
Vejo-te na pureza de olhos para ter a severidade da crítica e a doçura toda. Neles vejo os filhos que fizemos e os que perdemos nas vicissitudes. Neles sei se tremes e se tens frio ou se me queres. Neles estou reflectido e sei se estou bem, porque a tua boca diz o que vêem. Não me mentem e de frente dizes-me tudo.
Esta é a nossa casa e daqui está o todo nosso até o ser só por estar ao alcance da vista. Daqui até adiante há o conforto do recanto e o incómodo de algumas lembranças. Sei e sabes o significado de tudo, sabemos o que é, e o que significa para cada um. Tudo isto é o nosso casamento. Cumplicidade feita de olhos nos olhos. Gosto de de ver de frente.

quarta-feira, outubro 25, 2006

Namoro

Não me canso de namorar nem do odor da pele. Corrijo: Não me canso de te namorar e a tua pele embriaga-me. O tempo consome-se junto de ti numa velocidade impossível de descrever, pois antes que termine de escrever ou de dizer já passou o momento em que algo aconteceu junto de ti, nada se define rapidamente contigo e, contudo, é tudo tão simples e fluído.
Não sei se é fluída a relação que tenho contigo ou se é densa. Não sei se somos parecidos e, por isso, estamos bem, ou se somos tão diferentes e nisso reside a a razão da harmonia.
O beijo vive da contradição e da concórdia e as mãos dão-se por vontade própria e os corpos precipitam-se porque nada mais podem fazer. O teu cheiro e texturas, os olhares e melodias e a presença são tudo quanto preciso para viver. Não sei se poderia viver sem ti. Sei que viveria, mas com que sentido? E tu sem mim? Não me canso e tenho em ti um espelho na vontade, modos e gestos.

terça-feira, outubro 24, 2006

Por que fumo

Acendi um charuto. Estava já depois da batalha nobre da refeição, no repouso que se exige quando a luta é justa, leal e denodada. Passara-se o tempo à mesa combatendo uma carne saborosa e batatas que, com nenhuma dúvida vieram da terra. O campo da batalha foi o linho branco, duma alvura exemplar e o sangue derramado vinho tinto. No final da peleja bebeu-se à memória dos caídos com o mais nobre dos vinhos: Porto Vintage. Para que as palavras se elevassem nos discursos acenderam-se charutos, como defumadores de igreja, porque o seu fumo casa eleva os dizeres às almas dos idos e o seu sabor casa com o dos retintos de feitoria. A mim vieram, então, memórias agradáveis e afirmações sábias.
Um charuto não é um cigarro nem um Vintage é um vinho qualquer. Fiquei a desejar aquele momento. Fico muitas vezes a lembrá-lo, no prazer e na meditação. Repito-o quando posso, quando me deixam, quando vale a pena. Só quando a batalha justifica. Não há refeição digna sem uma grande amizade ao lado, e até a mais simples pode ser um monumento. Em tudo têm de estar afectos. Só na grandeza acendo um charuto.

segunda-feira, outubro 23, 2006

Um país bipolar

Portugal vive entre a euforia e a tristeza profunda, é um país bipolar. Não sei por que tem de ser assim, mas faz parte, está em todos. Portugal é uma maré de portugueses e a onda vai e vem, ergue-se arrogante e estatela-se no areal. Não há calma nem sossego.
Este país maníaco-depressivo tanto dança frenético um vira ou uma chula como se comove nos fados ou no cante. Deve ser porque durante gerações comemos côdegas com água, dividimos uma sardinha por família numerosa e festejámos fartos em carnes e tudo o mais que vinha da horta.
Tudo o que fazemos é o melhor do mundo... pelo menos para nós... pelo menos até ser comparado com o tudo mais feito lá fora. Depois vai-se o amor próprio e a firmeza, e entra tudo sem filtro: abandalhamos tudo, esquecemo-nos de quem somos e aldrabamos o passado e a memória.
A nossa memória está cheia de mentiras. O nosso vinho não é o melhor do mundo e o azeite também não. Nem sequer a nossa gastronomia... não é mais rica e variada do que outras, nem tampouco muito original. Entre a ilusão eufórica e a desilusão taciturna há espaço para um país... e cabemos lá todos.

domingo, outubro 22, 2006

Eps! Pra cima!

Quando me sinto perdido olho para cima. Julgo que todos ou a maioria ou, pelo menos, muitos de nós, só nos lembramos de Deis quando estamos aflitos.
Quando estou aflito olho para cima e busco nas estrelas uma frase que me guie. Quando era mais pequeno olhava para cima e pedia colo. Olhava para cima para pedir consentimento. Olhava para cima para o pai e para a mãe.
Por que haveria de olhar para os pés quando me perco? Eles nada me dizem e apenas obedecem ao que lhes ordeno.
O que gosto na espécie humana não é o o a distingue dos animais, mas o que a aproxima das outras espécies. Revejo-me muito nas minhas gatas e lembro-me de muita gente quando lhes presto atenção. O mesmo acontece com os cães. Admiro a curiosidade dos cavalos e a ternura dos burros. Fascinou-me a inteligência escassa e o reconhecimento dos peixinhos de aquário. Uma vizinha tem um pato afável. Um dia destes adopto um porco.
Olho para cima e devia olhar mais vezes. Não sei quanto vale a minha vida, mas sei que não vale mais do que a dum porco ou que a dum pato.

sexta-feira, outubro 20, 2006

Coisa nenhuma

Entre uma coisa e outra, coisa nenhuma. Um vale onde se estendem umas hortas e pastam umas vacas. Leite do dia para se beber ainda morno. Espaço largo, curto, mas largo, para dois felinos e quatro canídeos correrem atrás de lebres ou em perseguição dos seus e doutros destinos. O fumo da lenha chega sempre ao céu e através dele vai a minha alma... ainda mais alto que as montanhas que me aprisionam ou me protegem como muralhas. Há verdes e Outonos e o Verão é uma corrida do tamanho do Inverno. As abelhas zumbem e as vespas idem. Tudo idem. É a vida na festa única e individual. É a vida na sua banalidade e desinteresse. A janela tem cortinas e na cozinha há armários com portas de madeira e lá dentro doce de tomate. Para que serve, se não gosto de doces? Gosto de tomate. Tanto espaço para uma pessoa só. Tanta solidão para uma só pessoa. Pouco espaço dentro da cerca destas montanhas e poucas vistas. Entre uma e outra coisa, coisa nenhuma. Não saio de casa.

Outono

Queda! Ondas de choque concêntricas. Um frio só de olhar, um desconforto íntimo, melancolia e memória dos dias tristes da escola primária, pés ensopados de muitos dias a correr. O cheiro das folhas caídas, das ervas, da terra, dos castanhos, dos vermelhos e dos chãos escorregadios. O brilho das pedras, espelho de águas, aconchego da mãe, mais infância, muita infância, muito cuidado, muito mimo. Nostalgia e silêncio. Uma voz interior calada e outra a falar baixinho e pausada. Olhar para baixo. A primeira roupa quente, suor, desconforto, sinal de resfriado, confusão, confusão de tempo, ainda há pouco era Verão e já não tarda para o Natal, já se vêem as instalações das luzes. Castanhas assadas, bruma, chuva. Queda! Ondas de choque!

Uma casa sem janelas

Ter a casa toda na rua para que o ruído acompanhe em todos os momentos, por vezes até discuta. As estrelas abraçam na noite e a chuva é um cobertor. Na rua, que importância tem a nudez? O Sol é a luz mais sã e o acordar natural de quem diz que a vida é para se viver como manda a natureza, respirando o seu ritmo.
Tenho as gavetas fechadas apenas por estética, porque podem ficar abertas. Não escondo nada. Nem mesmo a pele. O tapete limita-me o espaço e faz fronteira também aos outros, mas não às coisas naturais, porque essas não conhecem as linhas dos homens.
Sento-me a ler como se estivesse em casa. Estou em casa, só que estou na rua. Falo alto, falo como quero, como se fala em casa, como se fala na rua. Não é grande nem pequena, a minha casa feita sem tecto nem paredes. Não lamento não poder dizer que a minha casa tem vista para ali ou para acoli, porque, como é na rua, ela está onde estou e ponho-a onde quero no tempo que me apetece. A minha casa não tem lado de fora nem lado de dentro, é um disco, é plana. Só tenho pena de não ter o parapeito duma janela para me debruçar.

O Diabo é meu amigo

Onde anda o Diabo? Na carne? É a tentação ou apenas tenta? Não acredito que seja uma mulher nem tampouco um homem e ainda menos um anjo caído, porque o conhecimento e o amor não se perdem.
Tenho-o em mim à solta em diabruras infantis e perdições ridículas. Corre atrás de quimeras e outros animais fantásticos, atira-lhes pedras e abraça as felicidades e sufoca-as. O meu Diabo estraga tudo onde põe as mãos e suja tudo por onde passa com os seus pés de cabra. Quando está feliz ou inquieto dá ao rabo como um canídeo, e usa a cauda como um chicote quando se zanga. O Diabo é um animal de estimação. Não acredito que exista e tenho-o dentro de mim. Nunca o vi sem ser em ilustrações.
É um sedutor, o Diabo, mas acaba sempre sozinho, juntado namoradas e casos inofensivos de seduções sem saída. É um cómico. É o riso solto, o Diabo. É um filho de Deus, que não sabe ou não quer acreditar que o é. É uma criança grande, esfomeada por diversão.

terça-feira, outubro 17, 2006

Que hei-de fazer?

O meu coração não sente desgostos, nada lhe faz doer. Doem-me os olhos de tanto chorar e a alma escorreria sangue até secar se alguma artéria a abastecesse. Mas não o coração; nada o afecta! O meu coração não é blidado nem mesmo de aço, foi apenas retirado para que não mo voltassem a roubar e a violentar.
O meu coração bate por teimosia, longe e escondido, num segredo, numa caixinha em Edimburgo. Quem sabe se lá está? Não digo! Não digo para que não o possam ir buscar. A minha boca pode prometer amor e paixão e o meu corpo indicar tesão, mas o coração ninguém terá.
Poderei mentir nas juras e, se com uma arma apontada, entregar os códigos dos cartões bancários, mas não revelarei o lugar onde está o meu coração nem o darei a ninguém. Quem pensar que o leva terá apenas um músculo de imitação.
Porém, doem-me os olhos de chorar e a alma quase sangra. Um dia arranco-os e guardo-os num relicário que esconderei num nicho onde possam admirar o Tejo. E a alma, vendo-a ao Diabo, para que o corpo não a encomode.

Canto de solidão

O canto é um abrigo e as paredes amigos. A solidão, a companheira de sempre, mais do que o cão negro que morde por dentro, esfaimado e sanguinário.
Quando o vazio satisfaz, a vastidão duma sala serve de horizonte largo. Uma casa basta-se como mundo ou até mais. A cabeça é grande como o universo, mas as pernas não querem ir mais longe do que aquele lugar perto do canto.
Nem música nem silêncio nem coisa nenhuma, só as palavras da pequena cabeça a doerem e a passarem sonoras em círculo. Não há como não estar perto do canto.
A solidão é um vazio cheio, saturado, ensopado de pequenas coisas agigantadas, um interior maior do que a pele e um léxico impotente face à repetição. É um canto monótono, uma canção triste.

Mona

Não vi a Gioconda e nunca a verei, porque haverá sempre turistas japoneses amontoados à frente e muita outra gente atrás com pressa de soltar exclações ignorantes.
Não vi a Gioconda e nunca a verei, porque haverá sempre pressa, correria, barulho e confusão. Não a terei em frente com calma. Não a terei e não será de ninguém. A Monalisa não é de ninguém, porque é de todos.
Não vi a Gioconda e nunca a verei, porque haverá sempre vidros à frente, e, antes que a veja, verei as superfícies lisas, transparentes, mas não invisíveis.
De que me valeria vê-la se não a posso ter para a ver sempre que queira? A memória é atroiçoável e não há cor, traço ou composição que resista a um minuto de lembrança, e a minha fantasia é vasta... talvez tão imensa quanto a de qualquer outra pessoa. A Gioconda não perdura na memória, tal como qualquer outro quadro. Por que haveria de a querer ver se não a posso lembrar nem a ver sempre que queira?
Já a vi em gravuras, em estampados, em selos, em reproduções várias que valem tanto quanto a própria Monalisa, porque retratam a mesma mulher ou homem ou enigma, porque se reportam ao mesmo. Uma frase vale por si e importa quem a cria e não quem cita. Pois faço o mesmo com a Gioconda: importo-mo com Leonardo e não quero saber se a minha preciosidade é a verdadeira ou uma reprodução, pois ela vale como citação.
Não vi a Gioconda e não tenciono vê-la, a menos que queira gozar com as exclações de pasmo dos tolos que a vêem.

segunda-feira, outubro 16, 2006

Bizarro lagarto

Estou espalmado na minha verdura, sou inconsistente na minha maldade e o meu veneno tem antídoto que eu próprio forneço. Espalmo-me na frente dum automóvel, finjo-me logótipo e deixo-me estar, embora medroso, por gostar da pressão da velocidade. Preciso da água para a pele estar húmida e de Sol para não morrer. Sou verde e espalmo-me. Gostava de ser dragão. Gostava de ser cobra. Não sou um saurio, sou um pequeno lagarto, espalmado e muito verde, que gosta de velocidade e tem medo de sair do triângulo abaulado onde se meteu.

Entre astróides

Quero ir para o espaço. Quero viver em gravidade zero. Quero que as minhas palavras não se oiçam. Que se façam ouvir apenas na minha cabeça. Na ausência do peso, vou crescer e o sangue fluir como quiser. Não sei se morrerei no espaço. A eternidade faz-se de ausências. No lado de fora, do outro lado do vidro, a escuridão e talvez um vislumbre de luz. O voo todo. A solidão e a fome. Quero ir para o espaço e deixar-me estar flutuando até ser, novamente, um habitante eterno, um viajante espacial, feliz entre astróides, liberto de corpo, solto na alma e esquecido do coração. Quanto mais livre, mais livre. Quero viver no espaço.

domingo, outubro 15, 2006

Estranhezas

Estou disfuncional e levaram-me as palavras de sexta-feira. Não foi censura foi a traça. Como de fruto sou feito, ando sensível e passo-me com facilidade, os açúcares chamam bichos e na idade madura depressa estou demasiado. O que estava aqui, de sexta-feira, deixou de prestar e agora está um novo, que pede quase o mesmo, com igual doçura e a mesma cara de asno. As palavras de fruta duram o que duro, porque são minhas e por isso dizem o mesmo que eu. Não são diferentes de mim, não sou outra coisa que não elas, mudo quando mudam, sou a sua contradição e diversidade. Estou disfuncional e estava aqui de sexta-feira e fui. Estou outro, mas com a mesma cara de asno, feito com doçura de fruta e perecível. Sempre a tempo de ser consumido, sempre a tempo de passar-me.

sexta-feira, outubro 13, 2006

Desesperação

Será que se te mandar um miminho não vais cair da vida abaixo? Será? Será? Será? O que fôr, será? Tenho poucas palavras na boca. Hoje! Não sei o que mais te hei-de dizer. Não sei. Não sei e não sei. Mil vezes não sei. Tremo por pensar em ti. Tremo por pensar em mim. Tremo por só pensar em nós. Tremo por pensar na vida sem ser um com o outro. Será que se te mandar um mimimnho não vais cair da vida abaixo e abateres-te sobre mim com fúria e raiva? Tenho medo de ti. Fiquei com medo de ti. Ganhei medo na outra noite, na do desespero, na da ruptura em claridade, na da insónia, na dos gritos abafados. Ganhei-te medo, o que quer dizer perdi-te. Será que posso mandar-te um miminho? Hoje?! Onde posso pôr os pés e que espaço pode ocupar o corpo e onde me deixas ir o pensamento? Tenho-te muito medo, porque tens a porta aberta para entrar e és ainda benvinda. Tenho-te medo, porque desarrumaste-me as linhas, vandalizaste-me a fechadura da alma, mataste-me um dos meus sorrisos, pisaste beijinhos, calaste-me e não me ouviste. Tenho-te medo e és benvinda em mim. Será que posso mandar-te um miminho sem me derrubares com nova violência? Será? O que fôr, será! Que seja!

quinta-feira, outubro 12, 2006

O largo das arcadas

A luz não me aquece e quando assim chega sei que é quase Inverno ou quase noite ou quase frio. O resguardo de pedra não aquece nem a pedra se encalora com o Sol que bate desta maneira de cor quente. A luz aquece-me a alma, é o calor que entra pelos olhos, são passos encostados à família e às antiguidades, é segurança. Corro, corri e andarei de bengala sobre as pedras onde correram, andaram e caíram os meus bisavós. Arcadas entre a infância e a outra vida. Arcadas entre gerações, entre vidas. Muitas vidas temos todos. Este calor é família. Não é outro calor.

quarta-feira, outubro 11, 2006

Saudades

Tenho saudades do meu menino ainda antes do ver. A morte não é um pássaro negro nem o nascimento um anjo de asas brancas, mas sinto as bicadas dum corvo e não os beijos dum querubim.
Lembro-me duma fonte, um geiser, e de rugidos murmurados. Lembro-me da festa da vida. Por mais que se pareça consigo, a água nunca é a mesma nem se imita como um espelho, cai e flui, esvai-se num rio, faz-se vida, espalha alegria e frescura, solta brilhos e mata a sede. Quando represada, apenas espera para sair. A vida. A água. Ninguém mata a água.
Tenho saudades do meu menino ainda antes do ver. Ainda antes do lavar com a água mais limpa. No mundo em que está, sorri e chora na espera duma nuvem que o traga. Fico-me com as bicadas dos corvos e ele com os abraços dos anjos.

Fui

Fui-me embora enquanto dormias, mas não te deixei sem uma ternura. Brinquei contigo como sempre fiz. Quase causei um despertar ao não conter uma lágrima que me saltou para o teu colo: segurei-a com os dedos, untei-os e espalhei o líquido atrás das tuas orelhas como se fosse um perfume, para teres o meu cheiro para sempre, para te lembrares de mim. Fiz-te cócegas levezinhas e vi-te sorrir, é essa a última imagem que guardo de ti. Foi quase uma tentação acordar-te, mas se acontecesse haveria uma maior em beijar-te e ter-te e abraçar-te e diluir-me e se esta fosse já talvez não fosse. Contive-me. Vi-te sorrir e fui. Fiquei apertado, abraçado ao teu coração, e tu dormindo sorridente em mim. Fui enquanto dormias. Quando despertares, serei uma leve recordação, uma leve dor na memória e um aconchego. Se me quiseres o suficiente verás a sombra da minha alma impressa perto do lugar onde parti. Tudo em nós se resume ao instante em que dormias e te fiz cócegas leves para levantares o sorriso ao deixar-te, tudo o resto passou a ser uma mentira e deixou de valer a pena recordar.

segunda-feira, outubro 09, 2006

Empalamento

As coisas feias podem gerar imagens bonitas. Escrevi uma banalidade! A cor é mais bela do que o preto e branco. Não a dualidade do contraste vale mais do que a coloração. Escrevi a síntese duma velha discussão. Tento ser ordeiro e bom, mas quando me lembro de algumas situações apetece-me empalar certas pessoas ou castigá-las com requintes de crueldade. Mentira! Mas tenho de escrever uma justificação para estas imagens. Já não me basta questionar se não seremos todos um pouco Drácula e afirmar que o verdadeiro, o Vlad Tepes, era um empalador e não um bebedor de sangue. Tenho de fingir-me horrendo para que as verdadeiras víboras, as que matam e envenenam, possam acusar-me ao lerem-me. Por isso, escrevo estas mentiras:
Tento ser ordeiro e bom, mas quando me lembro de algumas situações apetece-me empalar certas pessoas ou castigá-las com requintes de crueldade. Gostaria de lhes fazer o que tentaram fazer-me e só não aconteceu porque esguirei-me, ferido, doente e humilhado. Por isso, tenho o direito à vingança. O nojo limpa-se com sangue e paga-se com a morte; um sacrifício.
É mentira, mas tenho de justificar as imagens e dar azo a que víboras possam alimentar-se e gerar peçonha para de mim dizerem mal. O que importa a mentira se só vemos o que queremos ver e amamos sempre sem condições?

Dor nas costas

Preciso de esticar as costas e de me livrar desta dor que me faz pender e contorcer. A humidade dos dias não é igual à dos meus olhos e juntas fazem pequenos rios pelo meu rosto e corpo, alimentando-me a pele e secando ao ar.
Deixo-me ficar e permito que a mim se encostem para receber calor e conforto. Será isso carinho? Em mim há aguezas e momentos ásperos que aleijam. Serei um selvagem?
Preciso de esticar as costas e deitar-me. Não aguento a dor que me curva as costas e tende a humilhar-me. Gosto das correntes de água, mas não das de ar. Gosto de vento na cara e ter o cabelo a voar. Não onde está o limite e se souber não sei se o respeito. Sou capaz de dar um passo além da falésia.

domingo, outubro 08, 2006

Apesar do Outono

Apesar do calor, chegou o Outono, um tempo de despedidas. Deixo por aí uns tantos beijos como se fossem verdades ou folhas, deixo-os a voar e sei que chegarão a quem pertencem.
Apesar do adeus, tenho o coração no mesmo sítio e de lá não o tiro. Os meus olhos cruzam o céu e também choram. A traquinice do olhar tempero-a com os bastantes cabelos brancos que me vão pela cabeça e barba.
Apesar da traquinice do meu olhar noto-te uma infância nessa fuga... nessas tuas fugidas. Andas sempre a correr e passaste a vida fugir. Em dia algum encontrarás as tuas costas e jamais te conseguirás verdadeiramente abraçar. Apesar da traquinice no meus olhos, vejo com cansaço a repetição das tuas fugas.
Apesar do calor, este é o tempo do frio a chegar. É um tempo de despedidas, mas não é fugas. Estou aqui a abrir os braços e com os beijos contados. É Outono e, apesar disso, há calor.

sexta-feira, outubro 06, 2006

Um pedido à dona da casa das palavras

A casa das palavras tem estado vazia. Entro e sento-me. Fico a olhar as palavras antigas e volto a provar algumas para me lembrar do que me impressionaram quando as li pela primeira vez. Sinto-me só e no pó acumulado nas prateleiras e no chão vejo as marcas da passagem doutros leitores. Tudo está quieto há algum tempo, mas arrumado. Este tem sido um ponto de encontro para gente desencontrada e agora é um abrigo com janelas para a saudade. Continuarei a vir ver se há novas frases ou se o espaço está na mesma. Sinto-me bem nesta casa e sei que este é um lugar de estar. Vou estando por perto. Bem dentro há um jardim e no meio um poço com uma fonte de palavras. Podem não jorrar hoje, mas tarde ou cedo vão matar-me a sede. Dentro há sempre calor. Reconforto-me até nos desencontros. Deixo um recado escrito à curadora da casa para que volte e festeje, que faça correr o rio, porque a água não se quer presa e a beleza não se aprisiona no espelho. Enquanto ela não o lê, deixo-me ficar, encosto-me e descanso-me na ternura toda.

«Postal da estranja» ou «Não há pachorra para esta conversa»

Por cá tudo bem. O tempo passa com vagar e as pessoas do prédio e do bairro são simpáticas e afáveis, mas não se comparam com as da nossa terra.
A comida também não se compara àquela que temos por aí, quando fôr pelas férias espero umas belas bacalhauzadas, uns cozidos à portuguesa e o belo do bife. O mesmo acontece com a cerveja; não há como a Super Bock e até da Sagres sinto a falta. Já do vinho nem se fala! Estes tipos sabem lá o que é vinho...
O tempo é uma porcaria, está sempre a chover... não é como Portugal, onde faz sempre Sol. Por mim aguento aqui uns tempos e depois volto. O nível de vida é muito bom e não se compara ao português, mas tudoi o resto é uma seca. Pela televisão vou seguindo o futebol e vejo que vai tudo na mesma, e a política é a mesma desgraça de sempre. Esse nosso país não passa do mesmo. Enfim!
Bem, despeço-me aqui. Está tudo bem e espero que me mandem notícias depressa e me façam uma visita. Beijinhos e abraços para todos.