digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

quinta-feira, agosto 31, 2006

Limoeiros

Tenho limoeiros no jardim e gostava de ter um pomar só de citrinos, cada uma de sua espécie, sua flor e seu perfume.
Tenho limoeiros com sombras frescas como o sumo dos seus frutos e correntes de água que refrescam o ar e matam a sede à seiva.
Por vezes surgem pequenos lagartos que depressa se escondem na folhagem e no ar há sempre vida. O que importa? Não incomoda a existência.
Tenho limoeiros no jardim e delicio-me a ver florescer e frutificar as árvores. Quando há espaço no tempo dou nome aos primeiros frutos, que acaricio e converso. Gostava de ter uma árvore de cada variedade de citrino, das mais doces até às cares. Por agora, sou feliz na sombra dos limoeiros.

terça-feira, agosto 29, 2006

Mmmm bom dia mmm...

Há tanto sono! Há tanto sono que por mais que abra os olhos só vejo escuro e não é por beber café que se me desperta a vida.
Levanto-me com a mesma vontade de me virar e nem me lembro se me cheguei a deitar. Não sei onde tenho a cama. Tudo é cama. O leito suga-me ou, no mínimo, prende-me com beijos. Há tanto sono!
Houvesse um vendaval frio que arrefecesse os dias e desarrumasse os tédios talvez conseguisse acordar. Mas não há. O Verão ainda tem uns vinte dias pela frente e nestes anos de mudança de clima e de aquecimento global, o estio avança mais pelo calendário.
Quem me dera que o Verão não acabasse... nem os suspiros nem os beijos nem este sono que não me deixa viver.

segunda-feira, agosto 28, 2006

Campainhas à janela

Plantei campainhas num canteiro que coloquei à janela. Até agora não tinha flores em casa. Abri as portadas para que o vento chegasse e arejasse o mofo. Até agora nem a luz deixava que entrasse. Rego todos os dias as campainhas, que são flores bonitas e frágeis. Às vezes debruço-me à janela e rego a rua. Às vezes só quero molhar quem passa, outras apenas quero insultar os anónimos. Às vezes chego-me à janela de explico aos passantes quem foi Marcel Duchamp e a sua importância para a arte. Às vezes percebo que perco tempo, porque os anónimos nem entendem que as palavras e as imagens não têm de só escrever e mostrar a realidade. Quando percebo, encho-me de paciência e rezo para que tenha calma e não lhes feche a janela na cara, pois podia o canteiro cair e estragar o arranjinho de campainhas.

Nota: Dedico este texto ao cidadão anónimo que tão atentamente notou que a imagem do texto abaixo não retratava violetas. Após tão brilhante apontamento, desejo-lhe que conheça a instalação do urinol de Marcel Duchamp, percursor da arte conceptual, e, já agora, a obra dos surrealistas.

domingo, agosto 27, 2006

Violetas pelo chão

Parti a jarra e espatifei as violetas. Deu-me uma raiva que esfrangalhei todas as corolas. Não me peçam palavras bondosas nos dias vermelhos. A água do vaso estava esverdeada da seiva e não me comoveu nem acalmou os pés. A luz forte do Sol do Sul não é bela o suficiente para anular a gravidade e a queda. O descuido duma vida acontece num nada.
Parti a jarra e espatifei as violetas. Agora tenho rastos pequeninos de cor pelo chão e sinto-me pelos gestos brutais. Não há nada a fazer, está feito e ter gritado não me teria bastado.
Parti a jarra que era de loiça fina e desfolhei as violetas como um homicida à luz quente dum dia de Agosto. Tinha o sangue caudaloso nas têmporas e gritar não me bastou. Paciência, está feito. Amanhã compro margaridas.

sexta-feira, agosto 25, 2006

Maluquices

Bom dia, chamo-me João e venho do planeta Algarve. Danço até ser de manhã e gosto de sorrir às miúdas. Deito-me quando as outras pessoas se levantam e janto tarde. Mal oiço um som ritmado fico com os pés a bater e a ganhar vida própria, puxando-me o corpo para o movimento. Derreto-me com as raparigas que me retribuem os sorrisos e não gosto que me pisem e fujo de multidões. Se danço, estou feliz. Sou de outro lugar. Não sou de cá. Bom dia, chamo-me João e venho do planeta Algarve.

quinta-feira, agosto 24, 2006

Fotossíntese

Se pudesse fazia a fotossíntese e não tinha dentes. Sou filho do Sol e da luz. Por mim não havia noite e só o dia teria vinte e quatro horas.
Sou sacerdote da seiva e a minha oração profere-se em voz alta: c6 h12 o6. Sou filho do Sol e adorador da luz. Se pudesse não trincava nem carne nem verdura nem coisa alguma.
A minha pele absorve todos os raios e é feliz à temperatura toda que o Sol me quiser dar. A água mata-me a sede e basta-me.
Entro em transe com a luz e adoro o disco solar. A noite é uma perda de tempo e mete-me medo. Alegro-me com o nascer do Sol e acredito no resnascimento diário, no bem e no mal. Se pudesse fazia a fotossíntese.

terça-feira, agosto 22, 2006

Festa azul

Há azul em tudo e hoje também em Lisboa. É como se a morte não existisse e o moribundo se tivesse levantado são, pronto para se vestir, calçar e fazer, de novo, a sua vida. Há azul em tudo e hoje também em Lisboa, no Tejo e na alma. Há azul no céu, nos voos planados, nas brisas escorreitas, nas camisolas estendidas, nos relvados e nos corações. Há azul em toda a parte, porque uma pequena felicidade é hoje uma enorme alegria. Há azul por toda a parte, no país todo, onde uma cruz vermelha faz sentir correr o sangue e a carne. Há azul, muito azul, porque é azul a vida portuguesa e o seu amor mais lindo. Há felicidade nos beirais e melodias nas vozes. Hoje é um dia especial.

Parafuso

Tenho um metal cravado no dorso, porque me fiz com o peito à batalha. Entre os jorros de sangue e os troares das bombardas, avancei a gritar, engolindo pólvora, palavras e pedaços de outros homens. Não me sinto culpado por matar, sinto-me culpado por estar ferido e por me ver neste desassossego.
Tenho metal a furar-me lentamente os pulmões e vou morrendo todos os dias com memórias de um só dia. Quem me dera estar agora nos braços da mulher que amei - nos braços da única mulher que amei - e confessar-lhe o amor que nunca confessei. Quem me dera morrer-lhe nos braços ainda que lhe sujasse de sangue as roupas e me toldasse o olhar de emoção.
O tempo não volta e a vida já foi, passou-me paralela, vi-a a meu lado. Vi passar a vida sem medo de perde-la e fiz-me à batalha de peito para a frente. Tenho agora despojos de um só dia e saudades de muitas noites. Sou o resto dum homem e vivo a sombra dum amor. Se pudesse vivia o amor que desperdicei e arrancava da carne os pedaços de metal que a cravejam. Se pudesse...

Dúvidas do Inferno

Não sei onde fica o Inferno ou se já lá estou ou estive. Não sei se o ácido em que cozem os corpos não é o mesmo que o resultado da testosterona e da adrenalina num dia quente. Não sei.
Não sei se o Diabo é sempre mau ou se finge de gente boa. Conheci gente que foi tão amiga até ser canalha e mesquinha que poderia ser o Belzebu, sem falsos pudores. Não sei.
Não sei o que é o Purgatório nem o diferencio do Limbo. Não percebo por que hão-de ser baptizadas as crianças nem entendo o que aconteceu a todas as pessoas que o não conheceram o Cristo. Não sei.
Não sei como é o Pai, nunca O vi. Não acredito que alguém O tenha visto e, contudo, acredito. Não acredito em quem diz que o viu. Porém, não O entendo, é-me ininteligivel. Tenho uma cabeça muito pequenina. Não sei.

domingo, agosto 20, 2006

Em pontas

Estou em pontas e aprendo a voar. Tenho cigarros acesos na carne e só me vêem a beleza e o sorriso.
Na vida quero estar na beira do mar com amores e um céu ameno. Quero esquecer-me do que fui antes de estar frente às ondas e quem eram os meus pais e irmãos. Não saber das dores nem dos pesadelos. Quero voar, ainda que possam ser pequenos os percursos. Mesmo que ninguém note o sorriso interior do gozo.
Na verdade estou em pontas e gostava de voar. A vida está-me cravada na vida. A vida é uma serpente de duas bocas que se traga a si própria e se engasga nas goelas. Ninguém vê o gozo que tenho ao ver a minha vida incendiar-se nem ninguém nota a minha dor em pontas. Sou só mais um na multidão de gente anónima, egoista, insensível e indiferente. Que importa afinal? Talvez os outros estejam em pontas e eu também não veja nem queira saber.

Sem cabeça

Agora perdi a cabeça. Foi-se! Cortada pelo vento. Não me resta muito mais para ser. Sem olhos nem ouvidos nem nariz nem boca, o único sentido que tenho é o tacto. O coração está guardado e há-de continuar para que viva. A alma é ausente. E sem cabeça sou um corpo com consciência e sem sentidos. Desconheço, por isso, para onde vou, mas julgo saber para onde quero ir.
Perdi a cabeça e não me fazem grande falta os olhos, os ouvidos, o nariz e a boca. Para ser franco digo que não noto grande diferença. A cabeça foi-se com o vento, cansada de a deixar em toda a parte.
Agora perdi a cabeça e um dia talvez só reste eu, apenas eu e sem corpo. Talvez até sem alma. Quem sabe se não sou apenas palavras ou sussuros aglomerados?! Agora perdi a cabeça. Levou-a o vento. Um dia vou eu.

sábado, agosto 19, 2006

Cabeça

Tenho uma pedra que levo para todo o lado para descansar a cabeça. À cabeça, deixo-a em toda a parte. E em toda a parte tento estar em felicidade, mas sem o conseguir na maioria das vezes.
Quase nunca tenho Sol e a sombra persegue-me e antecipa-me. Tenho uma pedra que me serve de almofada e a quem confesso o que já sabe sobre mim. Está em toda a parte e só não se confunde com o meu coração, porque já não o tenho.
Sento-me à sombra, à minha sombra, na que me persegue e me antecipa, e fumo cigarros de tédio e ansiedade. Não fumo sem ser por medo. Tenho uma pedra onde me encosto e onde não tenho Sol. Quase nunca tenho Sol, mas tento estar em felicidade onde estou.
Não sei do que é feita a minha pedra, mas sei do que não é feita. Não é de paciência nem de compreensão. É insensível e surda como todas as pedras, por isso confesso-lhe tudo. Está onde estou e onde está a minha sombra, a que me persegue e se me antecipa.
Não tenho Sol, tenho sombra e uma pedra. Não sei se gosto. Mas tento sorrir. Em vão. Não me importo. Não ter Sol é já ter alguma coisa. E a sombra é um hábito como outro, como o de fumar. E quanto a este nada há a fazer, estou resignado com a sombra.

sexta-feira, agosto 18, 2006

Conhecer na cama

É na cama que se conhecem as pessoas, porque estão despidas e sem roupas. Os lençóis não têm filtros e recebem os fluídos, os beijos, os suores e os sonhos. As paredes dum quarto são um casulo, um ventre. Não há receios frente ao amante. Está-se franco e desprotegido, porque se confia... mesmo quando se não ama.
É na cama que se conhecem as pessoas, pelos carinhos que dão ou suspendem, pelas palavras que dizem ou calam, pelos olhares que lançam ou escondem... mesmo quando se não ama, a cama é um campo de batalha onde se pode ferir facilmente.
Há letras, sílabas, palavras, frases, períodos, parágrafos, textos que leio e sei dos dedos. Conheço-lhes as horas de solidão e companhia, os fervores, as sedes e horrores, desconfio-lhe dos prazeres, traições, aflições, ansiedades, rubores, desafectos e excitações. Tal como aos olhos e à voz. É na cama que se conhecem as pessoas! Não apenas, mas também.

quinta-feira, agosto 17, 2006

Luz de Maria

O que importa se tinhas no sangue a linha do Rei David se trouxeste ao mundo luz e um filho? O que importa?! De tanto te darem valor fizeram-te em mil mulheres e em milhares de altares te colocaram, venerando-te a luz às vezes com escuridão.
Maria que deste um filho de luz, o que importa a virgindade? O que importa?! Acredito que foste árvore de mais fruto e de muitos mais amores além desse teu filho de luz.

Se por um momento

E, se por um momento, as mulheres se fizessem ao mar e os homens se tornassem orantes nas areias das praias?
E, se por um momento, o mar salgado nos levasse de vez as mulheres e ficássemos viúvos, choraríamos como elas nos choram?
E, se por um momento, a nossa fé fosse forte e terna como a de uma mulher, continuaríamos homens?
Quanto do ciúme seria perdoado ou lavado nas águas salgadas e que sabor teria o pão feito peixe trazido pelas mulheres. Se por um momento...

quarta-feira, agosto 16, 2006

Cama

Passei toda a noite a tentar provar-te que os minutos são azuis comigo, que tenho o sabor do mar e do céu. Provei-te e comprovei que és azul na voz, nos afagos, na sensualidade, na beleza, nos gemidos, nos contorceres, nos abraços e nos beijos.
Passei toda a noite a tentar ser azul e disse-te mil vezes que o era sem o conseguir ser. Prometi-te lápis-lazúli e safira e toda a noite sonhei acordado juras de beijos e ternuras trémulas.
Passei toda a noite a querer ser homem enquanto foste mulher. Estivemos nus frente a frente, de corpos tocados e beijos trocados. Passámos a noite em amores até de manhã. Tu toda azul e eu tentando ser.

terça-feira, agosto 15, 2006

Espreitar o Inverno

O Inverno é a continuação do Verão. Só que é mais quente. Enquanto tiveres medo terás frio. O frio passa na alegria das nuvens e da chuva, no prazer do negrum que esconde a feiura das coisas. Este ano vou levar-te ao Inverno e vais gostar. Não sei como será o Inverno, mas sei que vais gostar.

segunda-feira, agosto 14, 2006

Porcelana

Estou deleitado com a alvura da tua pele, que nada pode ser mais franco. Mergulho em beijos e diluo-me na macieza quente e leitosa. Inalo-te, em perfume de pele e carne.
Em teu redor é tudo azul e nada está imperfeito, porque emanas perfeição. É graça e esplendor.
Estou deleitado com a tua voz. Mergulho com as tuas palavras sem promessas e deixo-me afundar dentro de ti. Afogo-me e sobrevivo respirando-te.
Sou efémero e passageiro e tu obra de arte quase imortal. Sou comida e tu o prato. Preciso de ti para me repousar e ser refeição. Espero que nunca te partas, mulher de porcelana, para que eu não me parta contigo.

domingo, agosto 13, 2006

Sol no rosto

Não há floresta que me cubra o Sol nem ribeiro tão fresco para matar-me a sede. A minha casa faz-se de vento e com troncos faço cama e espelhos. Visto-me de sombras e nas penumbras escondo as vergonhas. Não tenho medo de lobos e as giestas guardam-me as infâncias de todos os dias e alguns coelhos. O mundo é a minha casa toda e nas serranias mais altas grito para me ouvirem as loucuras. Sou feliz nos desatinos solitários e também quando vem a Primavera ou se engana o Verão com um dia de chuva. Solto poeira com os pés e confundo a Lua não lhe chamando nome nenhum aos quartos. Ignoro a rotina dos despertares e deito-me quando apetece deitar. Não há caminho que me imponha um destino nem floresta que me cubra o Sol.

sexta-feira, agosto 11, 2006

A fada da erva

Conheci-te num choupal. Caçavas cogumelos. As fadas caçam cogumelos. Deste-me um abraço à chegada e puxaste-me o braço na conversa e riste muito. Deste-me um abraço à saída.
Conheci-te num choupal e estava fresco e brumoso, o dia. Negaste ser uma fada, mas saltitaste no ar e soltaste poeira luminosa quando mentiste. Correste veloz e muito lentamente como fazem as fadas e no ar deste-me um luzir no olhar.
Conheci-te num choupal e ofereceste-me os cogumelos que caçaste. Fi-los no forno e servi-tos com vinho doce. Puxaste-me o braço na conversa e deste-me um abraço à saída.

Nota: Este texto é dedicado à Erva

Diálogo íntimo sobre a penitência

Se soubesse que uma penitência resolvia o dilema... Ainda assim estou capaz de me penitenciar, pelo espectáculo da humilhação pública e do prazer do sofrimento.
Não sei o que Deus ganha com a dor. Não sei quais as vantagens do negócio dos padecimentos para qualquer das partes, mas ainda menos para o divino e seus santos ajudantes. Não peço favores a Maria e ainda menos lhe ofereço martírios para troca. Para que quereria ela o sangue dos meus joelhos? Que melhoria íntima teria eu em ir em paixão desventurada até a um santuário se o que queria era uma mundanidade ou um capricho?
Não sei de ti. Só quero saber se a tua fé é verdadeira. Mas com verdade te digo, que a paz não se compra e não podes negociar a felicidade, a vida, a morte e a saúde. Com verdade te digo que se a tua dor voluntária te ajudasse terias um Deus sádico e mau, a quem pouco importaria o teu esforço. Porém, não acredito em tal e com verdade te digo que a penitência de nada serve.
Se queres penitenciar-te, se o queres fazer com verdade, fá-lo todos os dias. Não com qualquer sofrimento que te impões, mas com resignação e acções benignas. Arrepende-te das más palavras e dos gestos errados, confessa-te à consciência e abstem-te de fazer o mal, que já é penitência bastante.

quinta-feira, agosto 10, 2006

Glamour

Ia já! Até ia num mais pequeno, quanto mais no Queen Mary!... Pouco me importa se o Freedom of the Seas é mais pesado, o Queen Mary II é maior. É o maior!
No mar dança-se... balança-se. Joga-se, porque o jogo faz parte da vida e no mar há sempre essa lembrança, esse vício. Por isso, há um casino. Já não falo do requinte da comida e dos vinhos a bordo, falo do céu, que no mar aberto é límpido, complexo e cheio. No céu vêem-se estrelas e quem sabe explica-o. Há um planetário a bordo. Para quê? Não importa, alguma coisa tem de se fazer a bordo, porque quem travessa o oceano num navio não viaja, passeia.
Ia já, mas talvez só devesse embarcar no Queen Mary, porque há coisas que só se devem fazer em grande!

Flutuações meditativas

Não há nada a fazer; tenho má índole! Hoje queria sangue e procurei por ele, por sangria e por sanguinário... não quis o óbvio terrorista e apelei à ironia: recorri à expressão «radical livre». Calhou-me esta imagem. É pirosa! Gosto! Tem o mesmo jeito e estética das imagens do Sagrado Coração de Jesus. Gosto! Através dela vai-se até Xangrilá ou até outro lado qualquer, viaja-se. Vai-se onde se quiser.
Procurava sangue e esta imagem dá-me ganas de destruição, porque é tremendamente bela e pirosa. É bela fora dos locais onde costuma estar. É horrenda onde fica para veneração. Nos altares e nichos inspira-me a intolerância e enraivece-me. Hoje queria sangue e, de alguma forma, encontrei-o. Não há nada a fazer; tenho má índole!

quarta-feira, agosto 09, 2006

Linguado

Não será por acaso e talvez aconteça num buffet frio: vou dar-te um linguado! Vais perceber quando acontecer pelo seu corpo oval e achatado, pela pele macia e quente, mesmo tratando-se dum buffet frio... Ainda que um exemplar tenha em média entre dois e três quilos, o que te darei parecer-te-á sublimemente mais leve. Vai procurar-te um local mais fundo e a humidade irá procurar-te mais dentro. A maioria dos linguados é de água salgada e quando experimentares irás perceber o sal e o doce. Os olhos do linguado migraram na cabeça e tu vais sentir os olhos a andar à roda. É uma promessa!

terça-feira, agosto 08, 2006

Ilhas

No Faial descobri uma claustrofobia de céu aberto, uma aversão ao espaço fechado do perímetro insular. Foi há tanto tempo que não me lembro. A curiosidade está maior do que a lembrança.
O apelo do Atlântico mexe-me na ânsia, mesmo sabendo que se fôr não vá por mar. Ando a querer ver as ilhas todas da Europa não continental e do oceano largo... a Macronésia toda, a Islândia, a Irlanda, as Anglo-Normandas, as Orcades, as Feroé e a Gronelândia. Todas as ilhas numa só jornada contínua para melhor conhecer as diferenças e semelhanças, sem a memória me falsear as impressões.
O apelo do Atlântico mexe-me na ânsia. Quero ser quase faroleiro. Quero estar mais do que na ponta, não quero a faixa de terra chamada cabo, quero ilha. Não quero ser ilhéu, mas viajante temporário. Quero ser quase faroleiro, quase marinheiro ou apenas turista insensato.
O apelo da ânsia mexe-me no Atlântico e este vai das Canárias e da Madeira à Gronelândia e à Islândia., da costa africana à margem americana. Entre o calor e o frio todo um mar para abraçar e tantas palavras para tentar compreender e explicar as almas insulares. Não quero ser ilhéu, mas um mirone com a pele salgada pelo vento marinho.

A miúda-gata

Conheço uma miúda que é uma gata de cada cor ou variedade. Não é feroz e dá marradinhas e pulos de felídeo feliz.
A miúda tem uns olhos lindos de gata, misteriosos e límpidos, e muda a cor do pelo quando quer. Já a vi branca, preta, amarela, cinzenta-azulada, cinzenta-parda, padrão tartaruga, preta e branca, amarela e branca, cinzenta e branca, e outras cores inventadas que mais nenhum feliz silvestris consegue.
É esquiva como qualquer felino, mas dá-se comigo. É um prazer passar-lhe os dedos no pescoço para lhe accionar os ronrons ou mexer-lhe nas orelhas ou esticar-lhe os bigodes ou afagar-lhe redondamente a cabeça ou dar-lhe palmadinhas na parte recuada do dorso para que o levante ou massajar-lhe a barriga quando está descontraída.
Conheço uma miúda que é uma gata e tem a cor que quer, dá marradinhas felizes e dá-se comigo, talvez porque os seus olhos meigos não vejam ameça no fundo dos meus.

segunda-feira, agosto 07, 2006

Nervos

Só os nervos me dizem que estou vivo. O coração não bate e a cabeça não pensa. O meu pensamento vem da alma, não do cérebro. Já deixei de ter corpo, sou quase um fantasma... eventualmente sou um zombie.
Deixei de querer socializar e refugio-me em casa sempre que posso. Não acredito na espécie humana nem na sua inteligência. Não estou nem sou amargo, mas justo. Quase tudo me enerva.
Não acredito no amor. Acredito na amizade. Não acredito na competência, mas sei das traições, dos bastidores, das intrigas, dos corredores, das mordidelas.
Não acredito no amor, porque o amor mentiu-me demasiadas vezes. O amor mordeu-me demasiadas vezes. O amor é uma desilusão contínua. O amor enerva-me.
Deixei de ter coração. Amputei-o. Tenho-o preservado em formol. Está guardo numa caixinha em Edimburgo e de lá não sai. Guardo-o para o poupar caso queira voltar a viver. Não vivo para não morrer de desgosto. Não amo para não voltar a morrer de amor. O amor enerva-me. Só os nervos dizem que estou vivo.

Nota: Desabafo disponível em O Caderno

Alho

Tanto mal se diz do alho e quase não há prato que dele não se precise... isto na nossa cozinha mediterrânica. Nem me importo com o hálito: faz parte. Não gosto de descascar alhos, mas faz parte.
Gosto e gosto mais quando intenso. Até já chorei por ele: por não o ter ou por estar velho, por estar demasiado fresco e irritadiço como uma cebola.
Sal, azeite, coentros e sal são a base da açorda e um petisco fabuloso. Os meus melhores cogumelos só o são porque o alho abunda. A minha preguiça mais solteira pede-me pratos que só levam sal e alho. O alho faz sempre festa!

domingo, agosto 06, 2006

Conheço-te

Conheço-te há dois mil anos, mas só outro dia é que nos vimos e começámos a falar. Tínhamos tanto para dizer!... Temos ainda muitas palavras para a troca e olhares cruzados, subtilezas e cumplicidades esquecidas.
Sinto-me parte de alguma coisa maior perto de ti, dum conforto quente sem suor. Há o riso e a inteligência. Por se terem passado dois mil anos há muita coisa certa e sabida e tanta já esquecida. Temos horas de conversas atrasadas.
Gosto de te ter por perto e tenho sido feliz por te saber junto e pendurada não muito longe, porque desapertas-me o sorriso e descomplicas-me. A tensão foge quando rondas.
Gosto de te ter por perto e tenho sido feliz por te saber junto e pendurada não muito longe, todos os dias... mesmo quando a distância é maior do que a dum grito. Tens estado comigo na ausência e nas horas vazias, abrindo espaços maiores de conversação para o teu regresso. Mas tens estado sempre. Por não respirares aqui, mando-te afectos e impressões pictóricas pelo vento. Retribuis com música e risos.
Dá-me um abraço.

Nota: Este texto é dedicado à Erva.

Quotidiano

Não sei o que te diga, mas quando chego a casa estou cansado e não me apetece cozinhar e ainda menos preocupar-me com as contas para pagar e ainda menos ouvir-te nas preocupações do dia-a-dia e menos ainda saber dos problemas dos miúdos na escola e ainda menos ouvi-los a brincar ou a correr ou a gritar ou saber como lhes correu o dia na escola. Não sei o que te diga, mas quando chego a casa não quero ajudar-te em nada nem fazer o trabalho por ti, quero apenas descansar e estar só. Será isso egoismo, será. Não quero saber.
Quero olhar para os meus quadros e ler os livros, ser solteiro, masturbar-me enquanto vejo televisão e ver indiferente, como se fosse um filme, a violência noticiada.
Quando me deito não quero fazer amor, quanto muito quero-te e quererei fazer sexo. Depois terei de dormir para no dia seguinte, pela manhã, poder ser um bom pai e bom marido.