digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

terça-feira, julho 11, 2006

Dança

Há quanto tempo não danço até as pernas doerem? Há pouco tempo quase aconteceu, mas renderam a Loirinha nos pratos e foi-se o embalo.
Até há não muitos anos, talvez há uns três, era difícil pararem-me. Eu encarnava o papel da locomotiva desabrida na campina, só que não silvava nem soltava jactos de vapor. Há coisa de duas semanas estive quase a gastar o chão do Maxime, mas tiravam a Loirinha dos pratos quando eu apenas estava no aquecimento.
A Loirinha é um Alka Seltzer! Fica-se bem-disposto e animado! Tem pica, a miúda! Quando se entra na sala sabe-se que é ela quem está a mandar no gira-discos, porque sente-se alegria. Ela faz festa. Ela faz dança.
As minhas primeiras danças foram amalucadas e aconteceram no Ocarina, ali no Bairro Alto, onde hoje servem pão com chouriço e caldo verde. Até estranho como é que os defensores do património ainda não se queixaram para pedir a protecção do espaço, devido ao desaparecimento dum local emblemático! Amalucava à rock-a-billy no Ocarina e, mais tarde, à vanguarda no Frágil, ainda aquele espaço era tolerante e heterossexual. Só mais tarde aconteceu o Lux, que hoje e já há muito não tem gracinha nenhuma.
Aconteceu no Lux a noite de dança mais divertida de toda a minha vida. Aconteceu numa noite em que não me lembro da data, mas sei que a sala estava muito cheia e toda a gente muito divertida. Quem passava música eram os 2 many djs e ninguém parou de se mexer radiante enquanto eles quiseram.
Numa outra noite, na festa da MTV em Belém, dancei quase sozinho frente a Jan Pooley, um dj alemão que ninguém parecia conhecer ou que toda gente insistiu em ignorar. Saí de lá tão feliz que comprei um CD do tipo e que ainda hoje o oiço quando estou bem-disposto e quero dançar. Nessa noite e nesse dia dancei mais de sete horas.
Uma outra vez, numa festa no Op Art, dancei nove horas seguidas. É claro que me doiam as pernas. O Op Art é um mutante: durante o dia é um café tranquilo, quase um restaurante respeitável, depois, à noite, dá-se à loucura. Tão bem-disposto quanto a paisagem do Op Art é o DJ Patife. Julgo que não há dia de chuva que resista aos ritmos e misturas deste brasileiro! É muito melhor do que caipirinha!
A minha amiga Loirinha ainda não tem sítio oficial na internet, mas já tem clube de fãs. Eu estou inscrito. Já dancei as músicas que ela quer no Maxime e no Napron, e espero um dia vê-la pôr Lisboa a mexer com um grande sorriso. Um sorriso igual ao que ela faz quando encontra um amigo.

Nota: Este texto é dedicado à Inês Mendes.

O que eu queria

O que eu queria era escrever uma prosa erótica. Queria dizer eros no masculino, porque agora sempre que se diz é no feminino. O que eu queria era ter habilidade de escrever tesão sem ser alarve. O que eu queria era isso, mas não tenho coragem!... Tenho vergonha!... Temo a banalidade e a erecção!
Assim, mudo de assunto:
As árvores dão-nos a sombra quando está Sol e fingem-se de fantasmas quando cai uma bruma. As árvores de fruto fornecem-nos açúcares e outras servem-nos lenha. Algumas dão-se bem sós e outras gostam de companhias florestais. Quase todas são belas, tenham elas os braços mais ou menos abertos ou folha perene ou caduca. Cada árvore dá um fruto e cada qual tem seu sabor... como cada recanto da mulher.

segunda-feira, julho 10, 2006

O presente

A Ana faz anos hoje. Vou à festa dela, mesmo não conhecendo ninguém nem mesmo a ela. Conheço-a melhor do que a muita gente com que me cruzo no dia-a-dia, mas isso não me importa, porque essas pessoas não me importam.
A Ana faz anos hoje e não a conheço e mesmo assim vou estar com ela e dar-lhe abracinhos e beijinhos e miminhos e ternurices, porque ela é um doce de rapariga. Ela hoje vai ser muito feliz! Está decidido!
A Ana mandou-me um email enternecedor. Acho que tudo o que ela faz é doce, bonito e sensível. Quando tiver o gato que disse ir adoptar vai ser o bichano mais mimado do Algarve, mas também muito independente, porque ela parece-me uma rapariga suficientemente «chega pra lá».
A Ana faz anos hoje e depois de muito pensar no que lhe dar, decidi oferecer-lhe um copo de água para lhe matar a sede quando precisar... e uma caixa de beijinhos salgados para que lhe apeteça bebê-lo.

Sonho para hoje à noite

Ainda não decidi com o que vou sonhar esta noite. Estou com a garganta levemente arranhada, por isso não quero nada que tenha a ver com aranhas... A praia tem destes inconvenientes!... Por falar em efeitos secundários do Sol, tenho a revelar que a minha pele estala como a dum leitão da Bairrada, só que a cor está mais próxima da do pimentão. O calor que sente afasta os afectos dos felinos da casa e o apetite pelos sonhos meigos com quadrúpedes de toda a espécie. Penso que vou sonhar com gelo e Coca-Cola... talvez não, por causa da arranhadela nas goelas. Já sei! O dia foi fértil em amizade e o melhor é sonhar com amigos. Vivam os abraços e os beijinhos!

domingo, julho 09, 2006

Praiunga

Mergulhei. Mergulhei no mar mais antipático da costa portuguesa. Não faz mal, pois o dia de praia foi óptimo. O que importa, afinal, o covão longitudinal do Meco? Não quero saber que cause uma rebentação violenta mesmo junto ao areal. Hoje o oceano Atântico esteve pacífico no padrão Meco. A água esteve fria como sempre, mas o que interessa se o que interessa é refrescar o corpo da brasa que se sente na pele? O verde da vegetação bravia desce arribas abaixo e nas águas há tantas vezes ataques de limos. Hoje até pareciam colifórmios fecais. Um nojo! Juro que a espuma branca salobra e o tom acastanhado dos vegetais pareciam esgoto!... Não eram, mas frente aos meus olhos foram-no e no mar repugnaram-me. Só esse fenómeno impediu que hoje fosse o dia de praia perfeito. Aconteceram encontros inesperados (assim mesmo no plural), mensagens e telefonemas para amigos e patuscadas de mariscos. Uma festa de Verão! Grande mergulho no estio. Foi um grande dia de praia!

Pescarias

Amanhã vou à pesca e espero apanhar um peixe tão grande e tão bonito quanto este. Amanhã vou à pesca e ainda não sei o que vou pescar.
O que sei é que o dia tem horas a mais para só escrever um texto. O dia tem muitos tédios. Hoje estaria melhor na praia não fosse a preguiça e uma sensação de impotência. Parece que me caiu um prédio em cima e não me consigo mexer. Estaria melhor na praia. Se telefono a alguém ainda a acordo e já é meio-dia. O dia tem muitas horas e as minhas não são de ócio, são de tédio. O dia tem horas a mais para só escrever um texto.
Se tivesse coragem publicaria o um livro pela internet, mesmo sem receber um tostão pelas vendas. Era uma partida bem partida. Mas a partida e o tédio e o juízo e a cobardia não me deixam. O dia tem muitas horas. Amanhã vou à pesca e hoje, se me aborreço à séria, ainda vou à praia.

Enamorar-me

Vou enamorar-me. Embriagar-me com a pele e com os lábios. Os olhos dela são ímanes e a voz uma melodia de se escutar sem cessar. Quero beijá-la suavemente e que o meu corpo a toque. A minha cabeça vai ficar deliciosamente pesada e zonza de pensar nela. Vou saltitar. Eu e ela vamos estar em demência feliz, desligados de tudo. Agora que está decidido, só me falta encontrá-la.

sábado, julho 08, 2006

Acabou-se a música

Ontem acabou-se a música cá em casa. Por razões várias tenho andado a escutar música num leitor de CD portátil e as pilhas faliram a meio duma jantarada. A rádio teimou em não sintonizar a Oxigénio e o vinil mostrou-se datado e chato a pedir constantes viragens. Já não me bastava estar financeiramente aquém do desejado para ter serventes e casa maior?!
Adiante, porque a razão do texto é a comida que por cá se papou. Desta vez fui também vítima de mim próprio e aterrei no sofá após a refeição, quase desconhecendo a posição do Norte e a ordem das letras no alfabeto.
Primeiro servi um branco do Douro, Curva Reserva (2005) de seu nome. Serviu para entreter enquanto os pioneiros esperavam pelos atrasados. Não me espantou e duvido que o torne a tragar, embora não sendo um mau vinho. Lamento esta coisa de muitos brancos portugueses cairem no excesso de açúcar residual. Por mim não o torno a beber, só se mo servirem e a educação mo obrigar a engolir.
A entrada fez-se de cogumelos brauner recheados de fois-gras e chévre gratinados no forno. Modéstia à parte, estavam estremecentes. A eles juntou-se um delicioso Chateau Villefranche (2000), Sauternes, pois claro!
Agora tenho de contar uma coisa: este jantar foi feito a pensar num vinho. Toda a ementa desenhada para o honrar e lhe fazer trono. O Rei da noite foi o espumante de Vinho Verde Quinta de Soalheiro Super Reserva Bruto (1999), feito apenas com uvas da casta alvarinho em Melgaço. Em homenagem pôs-se na mesa um cozido de lombardo e nabiças, onde pontuavam ainda nabo, batata, cenoura e chouriço de porco preto, mais umas batatinhas salteadas em azeite do Norte Alentejano, que acompanharam costeletinhas de borrego temperadas com salva e aipo e Vinho Verde alvarinho - uma garrafa bem rolhada que aí andava de Muros de Melgaço, que lhe deu leveza e frescura. Quando acabaram as garrafas do espumante maior da noite, vieram para a tábua outros vinhos de merecimento e também eles espumantes nascidos na mesma sub-região do Vinho Verde de Monção. Surgiu primeiro um Côto de Mamoelas (2004) e um Castas de Monção (2004).
Com este último vinho, também bem aplaudido, serviu-se a sobremesa: cerejas, divinais como todas as que têm nascido este ano, e tâmaras de travo a caramelo e cuja proveniência desconheço, mas suspeito que tunisina.

Nota: Dedico este texto à amizade, companhia e boas conversas da Suspinha, Nanda, Xana, Ares e Vasco.

sexta-feira, julho 07, 2006

Miragem precisa-se

Preciso duma sombra e dum rio. Preciso dum vento fresco, sem necessidade de grande bravura. Se houver uma nuvem grande que esconda a estrela mais próxima nem preciso do sopro.
Preciso duma sombra e dum rio, e de me estender e não pensar para poder pensar no que afinal importa. As minhas pernas habituaram-se por fim a caminhar e estão cansadas, estão no momento de desejar o caminho e o repouso, desejam chegar para pôr termo à jornada e sossegar para se lançarem mais vivas. Estão numa indecisão de vida. Pulsam como uma infecção.
Preciso duma sombra e dum rio. A gravidade talvez me derrube e faça recuperar estendido, tendo uma pedra como confidente e almofada. A frescura pode inspirar-me a caminhar mais decidido. Estou numa encruzilhada simbólica.
Se o rio aqui estivesse, mergulharia para quebrar a rotina e a calma estagnada da paisagem. Ao vir à margem teria terra seca pronta a juntar-se à minha pele e duma árvore haveriam de cair folhas para me cobrir a quase nudez.
Se ao menos tivesse uma miragem neste deserto de cidade... o Tejo é tão largo e as praças têm árvores são grossas e muito verdes. O vento é salgado, porque vem do mar. Se ao menos tivesse uma miragem neste deserto de cidade... Se o rio passasse aqui, mergulharia.

quinta-feira, julho 06, 2006

Especialidades e ternurices

Ontem foi especial. Ontem fui especial. Hoje continuei a sê-lo. Nestes últimos dias tenho sido especial. Sinto-me especial desde que abri as páginas do Infotocopiavel e me rendi às leituras doutros autores, quase sempre impublicados em papel.
Hoje não passo um dia sem espalhar letras pelo mundo e sem recolher outras pela Terra. Recebo ternuras de gente que conheço e de pessoas de quem estou a afeiçoar-me na escuridão. Para não criar susceptibilidades digo por ordem alfabética e generalizando as sensações sacadas: refresco-me com a Alfacinha, comovo-me com a Ana Fonseca e embalo-me na toada de Calvin. Tenho mais blogues pendurados, mas são estes os que mais me têm tocado. E não se pense que não gosto dos outros, pois se os tenho expostos é porque os aprecio... apenas estes três têm-se afundado mais dentro de mim. Depois há a Carla que tem estado fora de combate e a quem jurei segredo sobre a identidade dos seus cadernos de escrita e pseudónimos, mas de quem digo que muito sabe brincar e de emocionar.
Estas são as minhas meninas e delas tenho lido tanta ternura. Umas vezes as palavras têm contornos precisos, outras vezes são manchas de cor de ver ao longe e de impressionar pela imponência, mas sempre bem desenhadas, porque feitas à medida da vontade de quem as traça. Hoje não passo sem lhes ler o destino que dão às frases.
Hoje não passo sem a ternura que me dão, mesmo quando não a dão só a mim ou quando não a dão a mim, porque escrevem para elas ou para outras pessoas. Isso não importa, porque os textos são de quem os lê.
Pela ternura das quatro meninas sou mais feliz na língua portuguesa. À ternura que me dão respondo com este ícone de Nossa Senhora da Ternura.

Os meus futebóis

E dribla!... e finta!... Avança!... E vai!... E é perigoso!... E pode rematar!... O país serena-se, os noticiários acalmam-se, as conversas suavizam-se em normalidade. Bem sei que Portugal vicia-se em futebóis, bem sei, mas, mesmo assim, os últimos trinta dias foram de delírio histérico colectivo. Os franceses pasteurizaram-nos e sentem-se já efeitos. A coisa melhora.
Os futebóis ligam bem com patuscadas de caracóis e cervejolas. Tudo o que não faça pensar muito e embriague um pouco. Gosto do clima lume brando e do repentíssimo levantar de fervura. Estou satisfeito e saciado. Basta-me uma final de imparcialidade... com uma leve preferência. Vivo um quase perfeito distanciamento.
Agora preocupa-me o futuro do meu clube. Colectividade quase sempre calma e tranquila. Agremiação de amor e paixão sossegada. União de beleza na cor e símbolo. Estou mais descrente nos homens e na justiça dos seus actos... preocupa-me o futuro para a próxima época... e eu que já estava resignado. A ver vamos. Vamos a ver o que isto dá.

Espreitar Ricardo Tércio.

As cócegas prometidas

O que te vou fazer não tem resposta. Ai de ti que me imites!... Se o fizeres nem sabes o que te acontece!... Para já vais sofrer um ataque de cócegas e se retaliares levas outro que não te vais esquecer.
Vais rir até te tornares contorcionista. Vais negar-te primeiro, ameaçar-me, fingir que não sentes, fazer um ar sério, depois zangado antes de te desconchavares a rir como um zingarelho maluco. Vais teimar no mesmo disparate que me levou a cocegar-te e rir até as palavras sairem sincopadas. Vais rir e rir e rir e rir e rir e rir até suplicares misericórdia.
Dar-te-ei uma pausa para respirares e me poderes olhar como adversário, para depois mergulhar sobre ti como um caça-bombardeiro de dedos ágeis. Vais ficar exausta e adormecer após a baixa da maré soluçante.
Quando dormires profundamente, aproximar-me-ei de mansinho e, com uma palhinha ou uma pena, fingir-me de mosca persistente. Vais sofrer com o formigueiro. Até acordares com o riso que farei soltar-se com o tocar dos meus dedos teimosos.
E ai de ti que tentes retaliar!... Se o fizeres ou se o quiseres fazer ou se o tentares ou mesmo se pensares em executar tal manobra... então, aí, levas tamanha ensaboadela de cócegas que não pararás de rir por três semanas. Andarás pela rua como uma tontinha feliz a iluminar o mundo de felicidade.

Nota: Ainda não é 14 de Julho (espero não me esquecer) mas hoje sinto-me como se fosse já o Dia Mundial das Cócegas.

Kronenbourg 1664

Tantas vezes digo que não gosto de cerveja, que ainda acredito nas minhas próprias palavras. Em Portugal esta bebida significa Sagres e Super Bock, e dessas não gosto. Por isso, gasto-me a afirmar o meu desgosto com a cerveja.
No entanto, não é verdade e ainda ontem não hesitei em escolher e beber com gosto três, sem pensar na habitual antipatia que usualmente patenteio. Porquê? Porque onde fui tinha bebida feita a meu gosto. Até assumo que há muitas cervejas que me aprazem. Simplesmente não as há por cá ou não é fácil encontrá-las.
A Joana nasceu ontem e fui celebrar com o pai babado, o João, e outro amigo, que aqui na net é conhecido por Inspector Closeau, para a Cervejaria da Trindade. Enquanto eles se atiraram às canecas de Sagres eu enlevei-me com a Kronenbourg 1664.
A Kronenbourg 1664 é uma cerveja do tipo pilsener (tal como a Sagres e a Super Bock) muito leve e fina na boca, de gosto muito suave e delicado. A sua cidade de origem é Estrasburgo, na Alsácia, e o número deve-se à data da fundação da destilaria por Jérome Hatt. Não é a melhor cerveja que já bebi, mas dá-me muito prazer bebê-la... para mais quando o pretexto é brindar ao nascimento da filha dum amigo!

quarta-feira, julho 05, 2006

O que importa

O sorriso das crianças importa. Importam as vacinas. Importa ter alimentos. Importa ter água limpa para beber. Importa a segurança. Importa a liberdade. Importa a saúde. Importa a higiene. Tudo o resto importa menos. Aquilo foi triste, mas foi uma tristeza menor. Foi apenas um jogo da bola.

Nota: A Joana, filha dos meus amigos Tamara e João Milagre e irmã da Sara, nasceu hoje durante o jogo entre Portugal e França. Nasceu bem e isso é que importa!

Uma questão de saias

Numa das minhas outras Pátrias, a Escócia, os homens orgulham-se das suas saias. As minhas duas outras Pátrias são a portuguesa e a alemã. Portugal é o meu berço, nasci aqui e tudo me é familiar. A Alemanha... ou melhor, as Alemanhas, as Germânias... tem uma diversidade que me encanta e por vezes embriaga. Mas a Escócia apaixona-me!
Na Escócia os homens orgulham-se das suas saias, e não ficam menos machos por isso. Como não ficam menos os guardas presidenciais gregos ou os pauliteiros de Miranda. Contudo, as saias escocesas são diferentes, porque são mais do que uma farda ou traje folclórico para dançar, fazem hoje parte da roupa de gala e são tão diversas quanto se queira a vontade.
A cada homem um nome e uma família, a cada grupo de sangue um padrão de lãs tingidas. Os panos dobrados, enrolados, postos são exposições de orgulho e origem. Os kilts são a bandeira das gentes com um nome e um local de proveniência, ainda que possa estar recuado no tempo.
As saias são mais do que roupa e não parece importar muito que os padrões tenham sido fixados há relativamente poucos anos. Importa o simbólico e o sentimento de pertença. Os padrões mais antigos datam de finais do século XVIII, mas são escassos. O Romantismo ergueu mitos medievais, levantou nacionalismos, fixou ideais, estabeleceu normas e os padrões inventaram-se, emoldurando-se numa imitação de antiguidade e tradição. Não importa, porque o que conta é o simbólico e o sentimento de pertença. Na Escócia todos perceberam. Reinventaram-se os clãs das Terras Altas, alargaram-se as famílias, decidiram-se associações de xadrez e cores aos apelidos, e assim ficaram a criar tradição. Hoje, aos escoceses bastam-se olhar e nos kilts conhecem-se, vêem genealogia. Esta é a verdade nua e crua. Digo nua de propósito, porque sob o kilt não se usa nada.
A Escócia não tem só lagos doces e salgados, brumas, fantasmas, suspeitas dum monstro misterioso, lendas antigas, golfe na praia, gaitadas estridentes e o hábito de deitar um pouco de água no whisky. A Escócia é uma nação sem Estado, talvez por isso tenha manifestações de simbolismo colectivo tão fortes e apaixonantes. Os tartãs, ou padrões dos kilts, são um mundo infindável de delícias e os escoceses não páram de inventar mais... levaram a tradição para todos os locais onde foram têm até uma autoridade nacional para regulamentar o seu uso e registo de propriedade. Há coisas que só mesmo na Escócia!...

Para saber mais sobre tartãs escoceses:
Tartans Authority
The World Registry of Tartans
The Scottish Tartans Society
Tartans Scotland
Military Tartans

Dar bandeira


Tenho uns olhos muitos sensíveis! O feio choca-me a vista, os ouvidos, a língua, as mãos e o nariz, dependendo do que se trata.
Morangos com maionese é coisa que não combina. O cheiro da naftalina num encontro romântico é motivo de divórcio. A pele de tubarão a roçar insistentemente nas palmas da mão é um abuso. Música concreta após um dia de trabalho cansativo impele ao homicídio. A combinação do verde com o vermelho da bandeira da República Portuguesa causa vómitos.
Não quero discutir República nem Monarquia, suas virtudes e defeitos, mas sublinhar apenas a beleza da bandeira de 1830 e a fealdade do mono adoptado após a revolução de 1910. A estética conta e traduz-se no prestígio, seriedade e credibilidade dum Estado. Para tranquilizar os republicanos mais tradicionalistas poderia tirar-se a coroa e colocar a esfera armilar e o escudo sobre o azul e branco... Portugal teria uma cara muito mais lavada no mundo e menos gente nos veria com um Estado terceiro-mundista. Mas melhor, era mesmo ter lá o escudo com a coroa!

Da Pátria, da lusofonia e da comida de Goa

Há qualquer coisa que toca quando sobe ou desce a bandeira e o hino soa. Ver subir a flâmula e escutar o arrumo das notas em significado pátrio quando o atleta do país sobe ao pódio levanta o nível da água acima do bordo dos olhos. É tonto, mas é assim. Os povos comovem-se ao reverem-se em alguns homens e mulheres especiais: desportistas, músicos, escritores, artistas plásticos, pensadores e até políticos.
Não escrevo isto para justificar o que possa fazer logo após o jogo de Portugal contra a França. Não sei quais serão as minhas emoções quer o meu país ganhe ou perca, sendo que não deverão ser muito diferentes das de muita gente, embora pouco embarque em futebóis e menos ainda em manifestações algazarreiras. Escrevo isto por causa de Goa e da sua comida. Escrevo por causa da minha pátria.
Escrevo por causa da minha Pátria. Não escrevo por causa da minha nacionalidade. Não nego que me comovi quando vi descer a bandeira da República Portuguesa em Macau, em 1999. Foi o fim do Império, o primeiro que a Europa criou além das suas fronteiras e o último a ser derrubado. Estas palavras comovidas não são de orgulho, mas de simbolismo e não querem dourar os crimes do colonialismo. Emocionei-me com o descer da bandeira da República Portuguesa como me toca também quando a vejo subir orgulhosa enquanto uma medalha está pendurada ao pescoço dum atleta.
Escrevo por causa da minha Pátria. Não escrevo por causa da minha nacionalidade. Fernando Pessoa afirmou que a sua Pátria era a sua língua, a língua portuguesa. Hoje, quando se diz lusofonia talvez se deva abrir o peito às lusoculturas e que as línguas apreciem as comidas dos povos da língua portuguesa. Escrevo por causa de Goa e da gente simpática de lá que tenho conhecido por cá.
Portugal entrou armado em Goa em 1510 e saiu derrubado em 1961, sem brilho, sem glória, quando por cá mandava uma hedionda tirania. Os laços entre este rectângulo europeu com ilhas penduradas e os seus antigos territórios indianos de Goa, Dão e Diu, e com outras terras da Índia, são mais densos do que duas datas e tempo nenhum há-de apagar se os homens quiserem e tiverem inteligência de manter.
Escrevo por causa da minha Pátria. Não escrevo por causa da minha nacionalidade. Jantei anteontem e ontem em dois restaurantes goeses, em Lisboa, e fico feliz por a minha Pátria ficar mais rica com o valor que trazem os goeses à diversidade da cidade e à mistura das culturas.
E porque a amizade, tal como o amor, é feita de reciprocidade, tanto nos deram eles enfeites como nós lhes oferecemos adornos. Deliro e insisto em provar sempre o choriço à goesa... e no Alentejo deleito-me no sarapatel ou na cabeça de xara. Escrevo por causa da minha Pátria. Não escrevo por causa da minha nacionalidade. A minha pátria não é só a minha língua e muito menos acaba na bandeira, no hino ou na fronteira. A minha Pátria está onde existe uma amizade ou algo que me ligue a uma outra pessoa. A portugalidade, a lusofonia a cultura lusófona do mundo são um pretexto, uma aproximação, um tema de conversa. Escrevo isto, porque gosto da minha Pátria. A minha Pátria é o mundo, ainda que viva num rectângulo com ilhas penduradas, com uma bandeira e um hino.

terça-feira, julho 04, 2006

Um medinho pavoroso

É mais do que receio, tenho medo que um dia a imaginação se esgote e não saiba o que escrever ou desenhar ou cozinhar ou fantasiar. Tenho medo de deixar de ser menino e de brincar. Quando deixar de usar calções dentro de mim deixarei de criar; deixarei de viver tal como me conheço e como sei.
Tenho um medinho pavoroso de que sequem as ideias. Por isso escrevo todos os dias, para ginasticar a mente e praticar as fantasias. Acredito que nada se faz sem esforço e nada nasce do acaso. Todos os dias ajoelho-me devoto e escrevo para mim. Partilho por vaidade e vontade de auscultar a crítica. Ninguém cria inguenuamente nem impunemente! O blog é o meu ginásio.
O blog é o meu ginásio e tenho medo de ficar com as ideias gordas e tão formatadas às da banalidade que nele queimo tédios, ócios, ideias, solidões, fantasias, crueldades, mentiras, verdades, fantasmas, feitiços, dramas, traumas e outras calorias.
Não me conheço sem ser a criar e talvez não passe um minuto em que não me desligue da existência. Despisto-me da vida e tantas vezes deixo ligadas apenas as funções vitais e as tarefas banais. Saio de casa e chego ao trabalho e não fiz o caminho, simplesmente chego. Entre os dois pontos estive fora de mim em invenção, respirando e conduzindo. Sobre mim disseram todos os professores:
- O João tem sempre a cabeça na Lua!
As minhas ideias contorcem-se e saem de muitas maneiras e o próprio corpo é capaz de se expressar de formas esdrúxulas, que aparentam loucura. Não me importo! Não quero saber como me vêem! Há muito que deixei de tentar ser oftalmologista, até porque descobri que muita miopia é uma doença do foro psiquiátrico. Vejam-me como quiserem... A minha cabeça é um remoínho de ideias, um caos de cores, uma indigestão de conceitos, uma tempestade de ternuras, uma guerra de disparates, um festival de alegria, uma feira de depressões, uma tenda de mistérios e muitas pedras de vários outros templos e castelos. Sou um vendaval de sentimentos, de flores, de granadas incendiárias, de amuos, de beijos, de violências destrutivas, de provocações, de amores desvairados, de perfume amador e tantas outras contradições.
Tenho um medinho pavoroso que um dia seque o lago onde nascem as ideias e a vontade de escrever. Por isso pratico todos os dias. Todos os dias são dia de trabalho. O Infotocopiavel não é um passa-tempo é um trabalho, é o meu ginásio; não dos dedos, mas das ideias. Tenho um medinho pavoroso!

Crustáceo escritor

A Ana vem do Algarve. Vem do verbo vir, embora quando me visite não saia de casa e possa estar confortável, talvez descalsa, sem receios. Vem do verbo vir ajuda a dizer, mas não é uma verdade.
A Ana tem um jeito muito doce de juntar as palavras, mesmo quando apenas comenta um texto. Quando a leio (todos os dias lhe espreito o blog) fico com a sensação de que é uma mocinha bonita e sensível. Quando escrevo bonita desenho um sorriso generoso e um olhar compreensivo. Alinho estas palavras, porque já há algum tempo que leio as delas na praia deserta e mais os recadinhos no meu blog. Afirmo bonita, porque às vezes as frases parecem quase partir-se a chorar da sensibilidade que têm: no outro dia escreveu um texto tão íntimo, quase erótico que nenhum leitor ousou comentar. Talvez fosse fantasia, mas era tão tocante que ninguém rabiscou uma linha até ela pedir para o fazerem. Não tive coragem.
Garanto bonita, porque uma sensibilidade assim na ponta dos dedos deve calar muitas palavras e articular bem umas outras. Sei bonita, porque aquela sensibilidade demonstra inteligência e se ninguém é belo parecendo estúpido, então alguém clarividente tem de ser sublime.
A Ana mostrou-me já mais gente e trouxe-me amigos. Tenho a certeza que nenhum me vai desmentir as afirmações. Não o irão fazer por amizade, mas por ser absolutamente verdade o que escrevi.

Nota: Este texto é dedicado à Ana Fonseca que vai fazer anos por estes dias e talvez adopte um gato.

Está provado! Safa!

Está provado! Asneio sempre com as mulheres. Nunca digo as palavras certas ou nunca as digo pela ordem certa ou nunca as digo no momento certo ou nunca acerto. Por mim está definido que o padrão mental masculino (pelo menos o meu) é rectilíneo e claro, enquanto o feminino está cheio de recantos, de baixios e zonas diferenciadas de luz. Dir-se-á que isso lhes dá encanto e que a simplicidade masculina é básica ou prosaica. É verdade! Pode ser! Mas também uma complica as situações em momentos cruciais e a outra simplifica.
Está provado! Asneio sempre com as mulheres. E estou-me nas tintas que elas me digam umas balelas sobre a alma e sua interpretação e mais um piropos sensuais e outros tantos eróticos na cama! Está provado! Asneio! Sou um bruto! Sou demasiado estúpido para as perceber! Desisto!
Quem me manda a mim gostar de mulheres? Quem me manda querer percebe-las? E querer agradar-lhes? Porque quando dizem «não» pode ser «não» como «talvez» ou mesmo «sim», sendo que o «talvez é sempre talvez», e o «sim» vale tanto quanto um «não», mas com significados opostos. As mulheres obrigam a prestar atenção ao modo, ao tom e à velocidade da palavra. Safa! Se é «sim» é porque é «sim», e se é «não» é porque é «não». Safa!
Ainda bem que prometi solitária contenção e voluntária abstinência! Dou-me por feliz com tamanho juízo na atitude. O que faria se não tivesse tomado tais decisões?! Até com amigas asneio tentando compreende-las. Está visto, sou um bruto! Sou uma besta!
Está provado! Asneio! Tropeço sempre em qualquer coisa! As mulheres fazem sempre tantas manobras de diversão... depois ainda se admiram quando confundem um homem!... É quando vejo a minha incapacidade em perceber as mulheres que mais lamento não ser homossexual! Safa! Começo a entende-los!

Nota: No entanto, não deixa de ser curioso que quase só tenha pendurado blogs de mulheres (excepção Africandar e Romeiro) aqui no Infotocopiavel.

segunda-feira, julho 03, 2006

Um berlinde ou uma conta

Quando a Lua nasce é maior do que no seu poente. Ao subir no céu puxa as estrelas. Se um dia fôr até lá aceno-te.
Não sei se o Mar da Tranquilidade é salgado. Dizem-me que não tem água. Por mim, a Lua é um berlinde grande. A Lua serve para brincar! Por que outra razão giraria sempre em torno da Terra só mostrando uma face?
Nas noites quentes de Verão, a ouvir os grilos ou as cigarras (não sei se sei distinguir o cantar destes insectos) deito-me ou encosto-me a ver o céu, a contar as estrelas e com os dedos seguro na Lua. Um dia ofereço-ta em sinal de reconhecimento e admiração. Mas, primeiro, faço-lhe um furo para que a possas usar como a conta dum colar.

Nota: Este texto é dedicado a Calvin e seu blog.

domingo, julho 02, 2006

Um rio doce















Tal como a rocha no mar, ficas sob um beijo meu. Uma onda salgada traz algas à praia, um rio doce leva saudades minhas até à foz, onde te deitas quietinha com o Sol na cara e ânsia de amor ma alma. O meu beijo funde-se no mar e juntos molham-te. A água do oceano torna-se doce e salgados os meus lábios. Em ti esperam sentir o calor e o picante do Sol e dos abraços. Tenho saudades tuas!

Nota: Este texto é dedicado a quem sabe que lhe é dedicado.

sábado, julho 01, 2006

Núvens

O céu quando se põe alaranjado anuncia-se quente o tempo para o dia seguinte. Nesses momentos já não me apetece evaporar, porque a temperatura já vai baixando, mas os sonhos prosseguem e vão muito mais adiante e além dos dias seguintes.
Sonho muitas vezes com chuvas e não é por isso que me levanto aflito da cama. Já não tenho sete anos! Se pudesse cruzava o Atlântico sem pressas a cavalo numa nuvem e tocava na Estátua da Liberdade com o dedo mindinho com desprezo. Tocava-lhe só por tocar, como quem não tem mais nada para fazer. Fazia o mesmo com a Torre Eiffel ou as Torres Petronas.
Se pudesse só voava. E quando digo voar, digo voar a cavalo numa nuvem e a sonhar. Sei que a vida não se faz só de sonhos e haveria instantes em que o conforto fofo daquela água vaporizada não me seria suficiente. Algumas vezes voaria num tapete voador. Voaria num tapete persa bordado com fios de seda e ouro. Mas mais das vezes só quereria uma núvem e uma brisa.
Quando a altura se tornasse fastidiosa haveria de tornar cá abaixo e tocar o chão com os dedos para sentir a textura da areia, da água e do sal. Não haveria de fazer mais nada que não sonhar. Isto seria o que faria se pudesse passar a vida a sonhar.

Nota: Este texto é dedicado à Alfacinha, porque ela é de signo Caranguejo (está por estas alturas a fazer anos e este texto serve de presente) e no seu blog disse andar à procura de nuvens.


Radar

Diz-me onde andas tu. Não sei de ti e quero saber. Desejo-te! Quero-te! Preocupo-me. O teu olhar entra-me e despe-me ainda que enfoque apenas no castanho dos meus olhos. Desfaço-me ao ver-te sorrir suavemente e mais pelo jeito desmaiado do teu luzir sereno.
Gemes na cama como quem pede clemência e licença para ter mais prazer. Não te importas e invades o meu corpo. Gosto do toque e da insensatez. Gosto-te pela noite fora e sem fronteiras. Gosto-te sem luzes e além da barreira do som e do medo.
Foi há tanto tempo! Foi com tanto medo! Foi tanta a merda! Ainda tremem as mãos das asneiras que te disse! Ainda me treme a garganta das verdades que calei! Não interessa! Não interessa o passado! Juro que interessa, quando interessa o presente!
Gemes na cama como quem pede clemência! Rendo-me a ti a pedir mais ternura e tesão. Não sei onde és, não sei onde estás, não sei se te rendes nem tampouco a mim. Quero e não quero no balanço do medo e no vai-vem do desejo e da paixão. Por mim fico quieto para não mais magoar, mas à noite, sozinho, chamo-te, baixinho.

Nota: Este texto é dedicado a quem sabe que lhe é dedicado, que é uma das pessoas que mais prezo nesta vida.

13º post desde

Quando aqui puseres os olhos este será o décimo terceiro texto desde o último que leste. Talvez me engane... talvez tenhas cá vindo à socapa durante a semana espreitar, mas julgo que não tens tempo.
Sabes, conheço-te melhor do que pensas e talvez menos do que julgo. Adivinho-te os passos mas não te acerto no andar. Foram tantos os amargores que nunca mais o limão será ácido nem tu me causarás desgostos. Sinto as tuas orações, mas sou incapaz de saber quando me visitas.
Ainda hoje leio cartas abertas como se fossem minhas, embora as escrevas para os pés. Até deixas supor que foram os pés que te levaram ao Alentejo... como se o tivessem feito pela primeira vez ou tivessem eles a importância dos amores antigos e profundos.
Não me lembro quando, exactamente, conversámos da última vez. Sei que chovia e que me confessei. Eu chovia tão abundantemente quanto lá fora. Hoje talvez devesse chover e tu confessares qualquer coisa. Já vai sendo tempo. Se é que o tempo é tempo e se a digestão foi feita. A amizade é a sobremesa da refeição do amor. Este é o décimo terceiro texto no sexto ano das fadigas. Falta profundidade íntima desse lado... talvez a nossa amizade seja como as piscinas, mais profunda num lado que no outro...
Este é o décimo terceiro texto se a contagem não me engana. Se me enganar, foi o azar do número.

Nota: Este texto é dedicado a quem pensa que lhe é dedicado e uma das pessoas de quem mais gosto nesta vida.

sexta-feira, junho 30, 2006

Uma questão de datas

O Infotocopiavel nasceu há exactamente três meses e seis dias. Não me parece ter sido ontem. Passou uma enormidade de tempo! Por ser uma efeméride devo escrever qualquer coisa.
Em tom formal e e voz redonda digo:
- Senhoras e senhores, este blog nasceu há exactamente três meses e seis dias. Quando o iniciei estava cheio de esperança em mudar o mundo com ele. Hoje posso clamar, bem alto, o quanto estava jovem e verde, e como eram ainda pequenas aquelas árvores que, lá fora, hoje conhecemos frondosas.
Isto tudo porque passam, exactamente, três meses e seis dias desde a fundação do blog. Não é uma dada certinha, é uma efeméride angulosa. Uma amiga sugeriu-me que escrevesse qualquer coisa quando chegasse ao texto trezentos. Mas os centos são tão correctos, que preferi os três meses e seis dias.
Este blog nasceu em Março, tem o Sol em Carneiro e a Lua em Aquário. Consultei os tratantes melhores que conheço para lhe fazerem a carta astral, mas não quiseram. Os charlatães só enganam pessoas e recusam-se a aldrabar um espaço na internet. Ainda argumentei que o Infotocopiavel tem vida própria e uma personalidade vincada, que me obriga, inclusivamente, a escrever quase todos os dias desde que surgiu, que o veja periodicamente, o leia e releia, esteja atento e responda aos comentários; quase como um bebé obriga a que lhe mudem as fraldas ou dêem de comer. Nada disso serviu aos astrólogos para que lhe desenhassem uma carta astral.
- Volte dentro de seis anos - disseram-me.
Malvadez! Sou um bloguista interessado desde a primeira hora, há já duas mil trezentas e cinquenta e duas horas. Não me podiam ter feito isto!

quinta-feira, junho 29, 2006

Animais

A Lupi era o meu cão. Era o meu cão, apesar de ser uma cadela e não ser minha. Tinha tudo o que se pede a um cão e era mais inteligente do que muitas pessoas que conheço. Não vale a pena cinismos nem franzires de sobrolhos a contestar a afirmação da superioridade intelectual dum cão face a elementos da espécie humana. Se fôr necessário grito, para ter mais razão, que alguns canis familiaris são profundamente mais inteligentes e sociáveis do que muitos homo sapiens sapiens. E não são só canis familiaris; a verdade é extensível a felis silvestris e alguns outros mammalia. Alguns humanos são tão estúpidos quanto as ovelhas (ovis aries).
A Lupi era o meu cão. Era o meu cão, apesar de ser uma cadela e não ser minha. Ao que se sabe, os cães organizam-se em matilha, como os lobos em alcateia, e, tal como os seus parentes, manda em todos um macho alfa. Pois no grupo da Lupi quem mandava era ela; era quem ladrava mais alto, mais grosso e por último. Era uma pastrora-alemã e impunha o respeito aos restantes canídeos. Eu era miúdo e comigo era doce, meiga, tolerante e brincalhona. Já escrevi que era uma das cadelas mais inteligentes à face da Terra? Era mesmo! Não tenho de provar nada, e por isso nem explico por que afirmo isto.
Sempre gostei muito mais de cães do que de gatos. Aliás, quase ignorei os gatos... eles estavam ali e eu aqui. Raramente um felídeo veio para o meu colo ronronar. Reconhecia a beleza e a agilidade, apreciava a ternura quando a davam, mas não ligava muito. Esta temperatura morna durou até conhecer melhor a Ginja e a Enê... que me convenceram dos encantos e insinuaram segredos. Dei um pulo de gato! Devorei uns livros de gaticultura e decidi ser pai de duas felis silvestris criteriosamente escolhidas. Já têm dois anos e continuo babado e não passo um dia que não me ria com os disparates e ternurices das ditas. O gato é o único animal domesticado que não é servo do ser humano. E isso dá-lhe uma grande dignidade. Os gatos estão connosco porque querem. É bom sabe-lo. Julgo... acho... espero... sei que as minhas são felizes comigo. Sou feliz com elas.
Já com o género humano sou um pouco mais desastrado, mas isso não vem a propósito... Aliás, a espécie humana na idade adulta não se dá para adopção. Porque se desse... Eu queria ser adoptado pela Paris Hilton... ou assim...

Nota: Este texto é dedicado à Alfacinha, que deixou escrito no meu blog que vai adoptar um gato, à Isabel Colher e suas gatas e à prima Carolina que me emprestava a Lupi e a deixava ser minha.

Desabafo sem máscara

Hoje não vou pôr máscara nem usar metáforas nem parábolas. Só vou escrever um texto. Não quero escrever mais nada, apenas o que me tocou o coração e o encheu de ternura: Hoje acordei com mais sono do que antes. Tinha alguém na cama, mas não me incomodou, nada pediu, nada disse... estava apenas a olhar para mim enquanto eu dormia. Ainda estremunhado vi dois olhos azuis muito grandes, como que a pedir perdão, mas não estavam. Dois olhos muito meigos... tanta ternura me deu aquele olhar. Aquele azul doce fez-me sorrir e abrir à luz os meus castanhos e sorrir, num imenso apetite de abraçar. Cada vez gosto mais da minha gata Lioz!

quarta-feira, junho 28, 2006

Sempre!

Há calores! Uma piscina, uma praia, um jacto de água, uma guerra de gelo... Não, não é preciso calor, basta apetecer... o organismo pede, trata-se de instinto. Há momentos em que não quero vinho branco nem rosé e tinto, então, nem sonhar. Com a toalha estendida na areia, na manhã sonolenta, no dia seguinte à festa, na tarde sufocante na esplanada, na praça cheia de gente, à espera sob uma chuva miudinha, o que apetece é mesmo algo que cole um sorriso à vida ou fixe o momento ao todo o sempre. Uma cola fresca! Já! Com limão e gelo... muito gelo!

Toledo

Ainda fui feliz em Toledo. Não fui à pergunta de espadas e levei o meu amor. Há uma praça com arcadas e pedras antigas sobrepostas e abertas com janelas. Era a capital de Espanha, até Espanha querer ser mesmo Espanha e terem inventado o centro geográfico da península: Madrid! É um monte escarpado sobre o rio, um povoado eriçado onde apetece estar. É pequenina e não chega a ser arisca. Ali o Tejo não é grande, mas apenas rio. Está apertado pelos montes e os homens fazem pontes quase à vontade. Lá de cima vê-se como uma fita verde a enfeitar o cerro. Ainda fui feliz em Toledo. Hoje se voltasse seria feliz novamente. Mas hoje com outras calmas. Nesta preguiça dos meus dias deixava-me ficar numa canoa e ia pelo curso até chegar a Lisboa.