digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.
segunda-feira, maio 18, 2015
Gasolina nas veias
Estou reicingue. Um potente destilado do petróleo arranha-me
as veias e o coração acelera com o corpo parado. Ensurdeço-me e seguro-me para
que não arranque antes da partida. Estou capaz de comer todos, de sair da
última linha de partida e estar à frente logo na primeira curva.
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Vou comer um pão.
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Depois do pequeno-almoço, estarei um tigre amamentado a
biberão.
Uma maçã por dia, nem sabe o que entedia
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Sou uma pessoa de extremos, de apaixonados extremos. Por isso
encontro-me sempre no meio. No entediante meio.
quinta-feira, maio 14, 2015
Doce Ginja
A ciência pode dizer que não – o não é sempre mais fácil do
que o sim, a que se exige calhamaço de explicações e provas – mas a realidade
desmente-a profusamente.
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Veja-se o exemplo da Prunus
cerasus… qualquer doutor dirá que se trata duma ginja. De facto! Porém, uma
sub-subespécie encantou os Homo sapiens
sapiens que a conheceram. A Prunus
cerasus Canis lupus familiaris, a Ginja para os amigos, partiu e deixou saudades
e lágrimas.
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A impotência chega primeiro, depois a enorme tristeza e
tantas saudades. Podemos até questionar Deus…
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– Senhor, os nossos animais nunca deveriam morrer.
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Quando aportar a calma da resignação, uma voz invisível
dirá:
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– Se os animais não partissem não se poderia com eles
brincar e mimar quando a alma humana deixar o corpo na Terra.
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Um dia dará ao rabinho de contentamento.
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Nota: Dedicado à Carla Pedro e à Ginja.
quarta-feira, maio 13, 2015
Diálogo pós-coito, depois do acordo ortográfico
Se depois de, ela me disser:
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– És ótimo na cama.
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Responderei:
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– Infelizmente, és péssima com a língua.
Todos contra a esclerose lateral amiotrófica - ninguém naufraga no mar de Deus
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Ninguém sabe que contracto celebrou com Deus antes de chegar
à vida de carne. Possivelmente os profetas, mas a vidência é responsabilidade
dalguns. Vivemos na certeza da incerteza e as surpresas variam na bondade.
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A vida é um caminho. Carregamos fardos, mas Deus não nos
albarda com peso numa demasia que vergue ou derrote. Há cargas difíceis e mãos
amigas – de espírito e matéria – que dão repouso e ânimo.
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A esclerose lateral amiotrófica é carga de respeito.
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Salvador Guedes, vice-presidente do grupo vinícola Sogrape, navega
essa tempestade. Além de si, dá ânimo e apoio a parceiros, através do projecto «Todos
contra ELA», destinado a obter fundos para apoiar a Associação Portuguesa de Esclerose
Lateral Amiotrófica.
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Em todos os meses vão realizar-se jantares-concerto, em Lisboa
e no Porto, no valor individual de 80 euros. Recentemente, a Sogrape leiloou,
em Londres, o mais antigo vinho da Ferreira, datado de 1815, ano famoso pelo
vinho e pelo fim das guerras napoleónicas, cuja totalidade das receitas
reverteu para a Associação Portuguesa de Esclerose Lateral Amiotrófica.
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Deixo aqui ligações para sítios na internet ligados ao
combate a esta doença e apoio ao doentes e suas famílias e amigos.
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Um abraço a todos os activistas e especialmente a Salvador
Guedes. Com imenso respeito.
terça-feira, maio 12, 2015
De Lisboa a Petropavlovsk-Kamchatski
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Saudade do intido, ciúme de mim e uma viagem por fazer. De Santa
Apolónia a Petropavlovsk-Kamchatski, via Moscovo e adormecer até depois de Sverdlovsk
– dito assim, manda a memória negra do vermelho esquecer Ecaterimburgo. Depois,
Novosibirsk, porque soa bem.
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Porquê?
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As gares ferroviárias são catedrais. Os comboios cruzam os
países e quase toda a gente fala inglês. Em qualquer lado se desvia e se fica
até acabar o tino e embarcar.
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Por qualquer lado e para qualquer lado e que se lixe a
Sibéria. Os russos são insuportáveis quando estão bêbados.
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Entre destinos, almoçar no MacDonald’s. Em qualquer cidade,
beber café e dizer que é uma merda.
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O chão da Europa é de cimento. Em Lisboa o calcário retribui
ao Sol e também o Tejo – luz que prende. Lisboa é uma mãe possessiva.
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Ter saudades da mãe e ligar ao final da tarde, disfarçando a
comoção. Jantar no MacDonald’s e beber cerveja andando como se houvesse
destino. Dormir e acordar e tomar o pequeno-almoço no MacDonald’s.
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Evitar os museus e os monumentos, num qualquer café pedir
uma cerveja e um café – que é uma merda. Andar sem ver ou fé.
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Retornar à gare e entrar naquele comboio, imprecisamente
preciso. Antes, beber uma cerveja e um café – que é uma merda.
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Se fumasse, acendia um cigarro. No sítio sujo das estações,
pedir outro café, apesar de saber que é uma merda e se tiver tempo passar pelo
MacDonald’s.
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No enfado carregado ainda antes de Santa Apolónia pensar em Petropavlovsk-Kamchatski
e suspirar por ficar no conforto das cidades onde há MacDonald’s. Para dentro
gritar livremente:
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– Que se lixe Lisboa! Que se lixe Petropavlovsk-Kamchatski!
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Em Petropavlovsk-Kamchatski também há MacDonald’s.
A fotocópia é muito confortavelzinha
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Perdi a conta das vezes em que pediram diferente. Do explícito
ao sugerido, um reconhecimento de qualquer coisa. Por isso, eu. Por isso, eu. Perdi as mesmas contas às
vezes em que escolheram a fotocópia. A esperança escrita em euros foi-se
diluída numa enxurrada triste, tão molhada ocultando as lágrimas da
perda e pela mudez. Um orgasmo inverso e decepcionante priapismo.
Grunft!
Para que todos percebam:
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– Estou sem pachorra. Sem pachorra. Sem vontade de ter
pachorra.
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Mais claro?
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– PA-CHO-RRA! Sem PA-CHO-RRA!
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Ninguém ouve. Ninguém lê.
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Sem pachorra para ser invisível nem alternativa.
Torrente de sede
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Não e mataste-me a sede. A sede da fonte dos bosques. A sede
nascida lavada nas pedras. Morri por instantes, quantos leva a sede a
saciar-se. No ribeiro nadaria nu. Sem o risco tosco da água livre, a sede não
passa. Na água solta, que a sede não passe.
O meu cão
A escritura é incapaz de replicar a forma como digo cão
quando me refiro ao meu cão. É cão que enche a boca, abocanha e dá beijinho. Cão
como a fugir dum disparate. Cão a brincar a estragar chinelos. Cão a correr.
Cão a desafiar mimo. Cão! Cão que me enche todo.
Se conseguisse transformar letras em números
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Trabalho com vinte e três letras, às vezes uso vinte e seis,
e aceito outros símbolos que possam traduzir sons, ideias ou coisa nenhuma. Não
percebo de matemática, mas sei que existe um número quase infinito de
combinações de letras… só em português!...
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Consigo escrever da esquerda para a direita e de trás prá
frente, de cima para baixo e o oposto. Sei omitir vogais e consoantes.
Disponível para usar erros ortográficos e gramaticais, até o novo acordo
ortográfico.
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Sei usar os diferentes tipos de letra que o Microsoft Word disponibiliza
e no tamanho pretendido; pode ser da Apple.
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Posso escrever à mão e estou habilitado a usar lápis, do
mais macio ao rijo, esferográficas, canetas de aparo, canetas de tinta
permanente, canetas para desenhar. Costumo usar a mão direita… se for
necessário o recurso à esquerda, pode ser, mas o resultado não terá a mesma
qualidade.
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Consigo escrever com os pés. Mas não de forma literal.
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Não tenho qualquer tipo de escrúpulos: alinho do
pornográfico ao beato, do que acredito ao que vomito.
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Tenho uma cabeça com uma capacidade instalada – para a
produção de palavras, frases, períodos, parágrafos e capítulos – ao nível das
usinas mais produtivas dos Estados Unidos da América e com os custos da
mão-de-obra chinesa.
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Reconheço que não sei fazer orçamentos – não entendo de
matemática – pelo que os apresento gratuitamente.
Disponível
Por que ninguém me entrevista? Posso mentir ou inventar, o
passado, o presente e o futuro, um tempo verbal qualquer, uma pessoa qualquer. Sei
fazer silêncios e veemências, olhar nos olhos e desviá-los, por vergonha, pudor
ou medo. Consigo falar o desejado ou excitar a polémica.
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Tenho tanta coisa para não dizer.
Preciso duma cadeira nova
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Aposto que se gritar cinco vezes merda será o mesmo que só
uma. Nem na luz me ouvem nem à luz vou ter. Sofrer deitado é frenético e em pé
é cansativo, a andar chegam mais mosquitos. Se a cadeira não estivesse
estragada, derreada, estaria mais confortável. Sentado, bem sentado, o
computador é tudo. Até posso fingir que morro.
Xiu, para que não acordem e nunca acordarão
Estou caladinho. Fico caladinho. Porque caladinho não me
ouvem. Se falasse, também não. Caladinho para não ter desilusões.
Não há horas certas nem horas erradas
Não experimentei todas as drogas.
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Haverá todas as drogas.
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Não experimentei todas as drogas, nem a maior parte, nem as
mais perigosas.
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Poucas e não gostei.
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Experimentei todos os remédios para a cabeça.
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Haverá todos os remédios para a cabeça.
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Até os mais perigosos e dormi e acordei para onde quis
deixar-me adormecer.
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Passei o dedo de pele finíssima e macia na lâmina dum sabre.
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O que se faz com um sabre? Nem droga nem remédio nem explosão.
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Belas e vaidosas, lentamente vendo o derramar até à luz da chegada.
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Tenho medo das alturas, só temo de morte – o caminho – e fujo
aflito como um peixe fora de água.
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Não experimentei quase nenhuma droga. É estúpido morrer
devagar ou morrer por acidente.
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Os remédios são remédios.
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As pistolas fazem barulho e as espadas são lentas.
O nu das praças
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Por que tenho um tumulto nas veias se não sei de raiva? Talvez
o pesadelo do veterano de guerra.
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Afogo-me no sono, afundo-me num colchão mole, afundo-me num
colchão rijo. Abraço as almofadas como se a mãe. Na posição fetal.
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Não quero conversar com o mundo nem com o indivíduo. Exijo a
coragem do nu das praças e a desvergonha do alcoólico invisível, encarnado e
fedente.
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Quero o revólver. Quero fazer amor. Quero tocar as balas e
alimentar o tambor. Quero fazer amor na persistente noite. Um orgasmo qualquer.
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Quero todos. Por não, antes ninguém.
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O sono. O sono. O sono… O sono.
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Se não sonhasse no sono. Se não vivesse. Mas o peso.
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O peso morto da alma, o fígado quieto, os pulmões às vezes,
a cabeça. A cabeça.
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Vórtice de palavras, conversas, burburinhos, gritarias e além
das praças. Dói-me aqui.
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Oiço demasiado bem, excessivamente vivo.
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Com o suor da vigília e o aperto, exausto, sem renascer. Com
uma culpa qualquer.
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Com uma culpa qualquer.
segunda-feira, maio 11, 2015
Não passará!
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O Acordo Ortográfico – coisa que soa a tratado de capitulação
– é uma rendição incondicional em que todos perdem e não porá fim à guerra inexistente. Pode um Governo
decretar que a treze de Maio será parido o aborto linguístico, mas um aborto é falecido.
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Não só o pão mata a
fome. Tenhamos todos os vegetais, fungos, carnes e peixes servidos às
mesas da escrita. Pode o homem erguer arranha-céus, mas Babel não conseguirá. Nem esta, mais pequena, porque a areia da argamassa é salgada, porque chegou por mar. A pequena Babel cairá antes de.
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Confesso que defendi o obviamente
indefensável, mas porque duzentos milhões. Um acordo ortográfico será sempre uma ditadura moralista e a
minha língua é promíscua, amo-a leviana... fez, faz e fará meninos pelo mundo.
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Porque lemos castelhano e entendemos, porque lemos italiano
e entendemos, porque lemos catalão e entendemos, porque lemos galego – irmão de sangue e leite – e sentimos, porque lemos leonês e dizemos mirandês… e até
francês, por que haveríamos de não compreender a escrita em português?
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Triste quanto um casamento que já na boda se sabe das infidelidades.
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Roda mundo e a água e ventos e são. O rio será delta, não
estuário, porque somos órfãos de latim, a quem lhe morreram os pais, os avós e há muito tempo viemos todos de África.
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A treze de Maio nenhuma azinheira se iluminará num milagre-pesadelo. Os duzentos milhões não vão escrever ao modo dos doutores, tenentes do idioma, que têm bafo a caruncho e certezas de bafio.
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E a sintaxe? E a gramática, no geral? E a Fonética? A prosódia troça.
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A treze de Maio será obrigatório e a treze de Maio haverá guerrilha.
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Em bom português, vai para, porque a que te pariu, filho de
um.
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Nota: Oiçam lá como os camones brincam com a coisa, a língua.
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Fazer vinho é canja mas galináceos não fazem parte dos lotes
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Chrétien de Toyes escreveu e fez-se o Graal.
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José de Arimateia levou-o e o tempo perdeu-o. Achá-lo só os
puros e de merecimento. Sir Galahad, Sir Bors e Sir Percival conseguiram.
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O Graal desapareceu. Se está escrito, existe. A letra
impressa não mente.
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Muito mais antiga é a demanda da Pedra Filosofal. Tão antiga
que, pelos artifícios da alquimia, se descobriram verdades de ciência.
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Antiga e já conseguida. Cientistas conseguiram fabricar
ouro. Ouro que vale mais do que ouro, só um trilionário sem juízo compra esse
metal. A natureza vende mais barato...
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Se bem que o conseguimento não é bem um concretizamento. A Pedra
Filosofal tem de transformar em ouro qualquer metal plebeu; os sábios apenas
conseguiram fazê-lo e não que consiga metamorfosear qualquer calhau.
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Ah! O mais prosaico… o Elixir da Eterna Juventude. A morte
chega a todos e assusta muita gente. Também os poderosos do mando falecem e
temem o dia em que a gadanha os faça fechar os olhos.
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Com o ouro pagaram a homens de ciência e virtude. Como nos
contos das «Mil e Uma Noites», a habilidade estava em conseguir manter o
patrono entretido, acreditando que os progressos se faziam.
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Aldrabão e famoso, o alquimista era chamado à Corte. O ouro tão
perto, puro veneno. A cobiça e o pesadelo. A maior competência não era fabricar
vida, mas não criar a morte. Ter as perícias para progressos e um sofrimento esperançoso
por não ter tido ainda sucesso.
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A vida eterna é no Além. Ou… a espada, cutelo, machado,
garrote, forca ou. O fabuloso mercúrio. O mortal mercúrio.
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Todos os mestres foram um dia aprendizes, mais tarde ainda esperaram como oficiais. Entre os mestres, uns melhores do que outros – nunca esquecendo que
dois mais dois podem não ser cinco.
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Johann Wolfgang von Goethe poemou «O Aprendiz de Feiticeiro»,
que não poderei ser. Acreditei nos livros das ciências sem mestre e montei um
laboratório com os ingredientes e ferramentas, sabendo colher dos mestres o
conhecimento aproveitável, vinho monovarietal engarrafado.
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Em segredo comprei as essências e pela noite até de manhã
nada mais fiz do que procurar o Graal, a Pedra Filosofal e o Elixir da Eterna
Juventude.
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Vinho!
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Não sei que horas eram quando finalizei a poção. O melhor
vinho do mundo!
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Engarrafei-o em frascos de perfume de sete decilitros e
meio, devidamente rolhados. Sobre o todo, lacre, como antigamente.
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Exausto adormeci, sonhando com Xerazade, Isolda, Julieta,
Dulcineia, Dinamene, Bela Adormecida e Maria Carolina de Bourbon Duas Sicílias.
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Ainda fatigado, revelei o vinho – Elixir da Eterna
Juventude, Pedra Filosofal e Graal.
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Não tentem fazer isto em casa. Dos vários escolhidos, enófilos
de escol ou só de folia, recebi um quase unânime:
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– Não é bom. Acho que nem é propriamente mau, é muito
esquisito.
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Houve um que sentenciou:
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– É uma grande…
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Se tivesse sido um êxito, não revelaria a fórmula. Para
memória de chacotas futuras, deixo a composição:
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Encruzado (15,3%), arinto (15,3%), chardonnay (15,3%), touriga
franca (15,3%), alicante bouschet (15,3%), loureiro (7,7%) touriga nacional
(7,2%), alvarinho (5,7%) e syrah (2,9%).
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Era suposto ser palheto, mas só consegui tinta de escrever,
mas em encarnado.
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Com as sobras aproveitáveis criei uma pujança, uma
espécie de tiro da Big Bertha, por isso dei-lhe a alcunha de Thor. Alvarinho
(40%), syrah (33,4%) e touriga nacional (26,6%). Um pouco mais bronzeado do que
o anterior, e mais bebível.
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Nota 1: Por incapacidade da caixa de etiquetas, deixo aqui a relação dos artistas cujas obras tiveram a infelicidade de ilustrar o meu vinho... Lawrence Alma-Tadema, Paul Delvaux, André Derain, Ticiano, Constant Troyon e Mårten Eskil Winge.
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Nota 2: A imagem principal designa-se por «O Alquimista» e é de autoria desconhecida, mas enquadrável no género alemão, estando datada de 1880.
O que é a silepse
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Se não gramas gramática, usa siléptica. Não sabes de
gramática, usa siléptica.
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Um conselho amigo:
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– Fixa a palavra,
dar-te-á jeito quando de apontarem asneiras no falar e no escrever.
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A língua mexe-se e diz asneiras, palavrões.
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A língua mexe-se e diz asneiras, disparates.
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A língua mexe-se e diz asneiras, concordâncias silépticas.
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Siléptica podia ser um país, uma região ou uma cidade. Ainda
assim pode dar jeito quando vier à conversa aquela aldeia onde os homens dançam
com o braço direito lançado para segurar a mão do par. Uma luz invisível irá
iluminar-te diante da audiência, serás como o Grand Larousse.
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Siléptica podia ser uma doença. Ainda assim pode dar jeito,
quando quiseres fugir do local de trabalho. Justifica que te sentes mal, que
tens de ir ao médico, porque estás com ataque agudo de siléptica.
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Se te pedirem pormenores, explicas:
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– É uma doença compósita
e sintética, conjugando as síndromes de Pinóquio, de Tourette, de Peter Pan e de Estocolmo.
Condensa: é a síndrome de Tourette, mas em oposto, para
dentro. Que é a síndrome de Estocolmo, mas em inverso, para fora. Além duma
aflitiva e delirante conjugação das síndromes de Pinóquio e de Peter Pan.
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Se não souberem o que é a síndrome de Tourette, sintetiza:
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– É não conseguir parar de dizer asneiras. Mas frisa, com um
tom grave e dolorido, que nos padecentes de siléptica, os palavrões afectam o
íntimo… coração, fígado, mente e até alma, no caso de quem acredita em Deus.
Mas contudo, uma pausa é importante.
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Atenção! Sacode e desvaloriza importância das síndromes de Estocolmo, de Pinóquio
e de Peter Pan. Pois, se bem pesadas e somadas, a siléptica revela-se.
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Se a chefia se mostrar apreensiva, começa a dançar agarrado
a ti mesmo e cantando Nat King Cole em espanhol, com o respectivo sotaque.
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Em caso extremo, joga-te ao chão, rodopia, faz movimentos
rápidos e bruscos com braços e pernas, espuma-te e dá traques.
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Vais sair. Preocupado, o chefe vai mandar chamar um carro
com motorista para te levar e não vai assinalar falta ao serviço. Será um carro
amarelo que desabrido cantará estridências até que estejas a salvo no hospício.
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.
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Nota: Dedicado ao meu amigo silésio, não siléptico,
VR.
Cave canem
Calor do cão. Canícula é palavra que me encanita, como
encanitar é verbo que me encanita. Será que a palavra encanita é uma
palavra-ferramenta? E a canícula? Transpiro só de pensar, mas não de calor, mas
de encanitanço. E já agora informo que não gosto de palhaços nem de arlequins,
encanitam-me. Repito que encanitar me encanita.
terça-feira, maio 05, 2015
Conversa acabada – quer diga, quer não diga, ela faz… aliás, não faz – 2 de 3
.
– (Vais ficar a pão e água).
.
– (Não se aguenta! Já me estragou o dia… e já sei… chiça!...
Agora vem a retaliação da abstinência. Às vezes chego a pensar que não fazendo
a amor me castigam sem se castigar a si também… Ainda por cima, parece que é
castigo comum… Vá Deus compreende-las…).
.
– (Que use as mãozinhas…).
.
– (Lá vou ter de lhe dar um abraço, beijinhos… levá-la a
jantar ou ao cinema, ou as duas coisas…).
.
– (Nem que venha com chocolates e violinos. Vai ficar a pão
e água).
.
– (Não se aguenta! Já me estragou o dia… e já sei… chiça!...
Agora vem a retaliação da abstinência. Às vezes chego a pensar que não fazendo
a amor me castigam sem se castigar a si também… Ainda por cima, parece que é
castigo comum… Vá Deus compreende-las…).
– .
.
– .
Conversa acabada – versão em que se vertiginosamente se lá chega – 1 de 3
.
– Não sei, não. Não e não!
.
– Por favor… [por favoooor!]
.
– Não gosto de agendamentos, detesto efemérides, não gosto
de convívios familiares… não tem a ver nem contigo nem com a tua família. Não
gosto, mesmo. Passa-se o mesmo com a minha, não gosto de festinhas de família.
.
– Ando há semanas a falar-te nisto…
.
– Ando há semanas a responder-te a mesma coisa.
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– Estás a ser desagradável!
.
– Estou a marimbar-me. Se te chateia é porque queres. Estou
a repetir o que te disse desde o início, desde que me vieste com…
.
– Estás a ser muito desagradável!
.
– Queres o quê? Que vá fazer sorrisinhos, fingir que está
tudo bem, que adoro festas de família? Queres que seja hipócrita?
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– Estás a ser muito incorrecto!
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– Incorrecto?! Estou a ser sincero, muito sincero. Há
semanas que te digo a mesma coisa, não sei por que meteste na cabeça de que
haveria de mudar o que penso e o que quero.
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– Vou ficar mesmo muito chateada.
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– Então fica! É um problema teu.
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– Porra! Custa-te muito?
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– Já te respondi.
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– Olha, não queres ir, não vás.
.
– Acho bem que penses assim. Não te obrigo a nada e não me
obrigas a nada.
.
– .
.
– .
sábado, maio 02, 2015
sexta-feira, maio 01, 2015
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