digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

quarta-feira, junho 05, 2013

Livro

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Quando se deseja a primeira edição dum livro é por amor às letras, para fazer amor com uma virgem.
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A mim não me importa quantas noites dormiram sem mim. As páginas arrancadas e perdidas são rugas para contar.
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Como o pai se derramou, se entornaram as palavras.
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A vida começa e fenece, os livros arrumam-se na estante.

Olhos bem amados

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Amar-te é um golpe baixo que dou à tristeza.

A miúda perdida

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Lembro-me da temperatura da língua, que tinha a força das coisas frágeis. Que tinha o tesão da quase inocência.
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Nada que diga faz o tempo voltar. Fiz-lhe amor dormindo ou acordado no ócio. Esmeralda perdida.
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Não parece que foi ontem. Parece que foi nunca. E nunca foi. Um ramo de flores sem Outono.
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Morrerei sem voltar aos lábios que me amaram por tão pouco. E sem nunca lhe ter morrido no leito.

terça-feira, junho 04, 2013

Para os dias tristes


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Para te distrair destes dias tristes, qualquer coisa que não se tenha de fazer, para fazer o que dará para lembrar. Queres um beijo ou que te empurre?

Praga e piedade

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A boca é uma nascente. A mais pura não vem de cima, mas do meio, às vezes do fígado.
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Que chores sempre que te lembres. Que te doa o meio da alma. Que arranques os cabelos.
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O que te disse de doce será diabetes. O que disse de mal saberás quando te julgares livre.
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Os beijos chegaram-me ao coração e vivi. Com a ausência, septicemia.
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O corpo vive fantasma. Depois de passar, penar ainda mais, até que a eternidade se esqueça.
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Dor de horizonte ao entardecer. O silêncio das rochas no mar.
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Lágrimas pela piedade da vida que se cala ao entardecer.
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Todo o choro que se tem. Todo o fingimento. Toda a dor que não tem nada a ver e se vai buscar para chorar mais.
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Despedida e derrota. Dias amarfanhados. Até uma alegria e outra tristeza. Por diante.
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Despedida de bílis. Faltando o sangue, sonhando a morte.
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Sem insulto, só pena: a minha; e inveja de ti, sempre feliz.

Síndrome de Peter Pan

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Se não fosse tão idiota seria mais velho.
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Nota: Sou eu e o Marcelo.

Talibã

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No metro ia um tipo com turbante roxo e barba comprida, mal enjorcada para os padrões estéticos vigentes. O tipo era escuro e enquanto o via conversava comigo:
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– Duvido que na América o considerem caucasiano... É muito escuro, mas é caucasiano.
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Fustigo-me por pensar tal coisa... o que importa? Homo sapiens sapiens; viemos todos de África, temos uma mãe comum, a tal de Eva, que, parece, existiu mesmo, assim o determina o ADN mitocondrial. Blá, blá, blá, a globalização...
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Perguntei-me, porque não tinha mais nada para pensar, donde seria? Índia, Paquistão ou Ceilão? Poderia ser sikh... com turbante e barba? Há muitos por aí. Um talibã?... viria do Bangladesh? Há talibãs no Bangladesh? E sikhs?
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A ideia do talibã agradou-me, mas a chatice da minha cabeça convenceu-me de que seria sikh e do Bangladesh.
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O que fará alguém do Bangladesh vir perder-se em Lisboa? Isto é um fim do mundo, um extremo, uma Europa irrelevante.
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Como se constata ao observar a posição geográfica, ninguém chega a Portugal por engano; não está em nenhum caminho, é um fim das estradas.
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Que vida estúpida teria no Bangladesh para vir aparvatar-se aqui? Por que veio perder-se aqui?
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Se fosse um talibã, pelo menos, significaria que Portugal importa alguma coisa para o mundo. Mas o gajo era sikh e do Bangladesh.
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Nota: Se tivesse sido em Badajoz poderia ter sido para comprar caramelos.

terça-feira, maio 28, 2013

Local donde

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Um local donde não se sai, terra de velhos e risos mudos. Os carros esquecem-se de passar e se passam, passam só por passar. Dias sem sombra, nem Sol nem chuva. Sempre mais um dia à espera. Todos os dias iguais de solidão. Água fechada nas torneiras públicas. Ruas sem cães nem crianças. Onde vive o tédio e sepultam vidas. Bairro de esquecidos, de quase pobres. Operários vencidos.

Palavras

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Há ruas para passos e outras de voltar para trás. Nesses dias, chuva ou não chuva. Tédio e medo, horas e dias, noites inteiras, sonos de morte. As palavras sustentam-me, as palavras viciam-me. Suicido-me nas palavras. Reencarno depois, por outra causa qualquer. 

Um outro dia

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Um dia, o entardecer. Outro dia para outra coisa. Na tarde, um mergulho no tédio. À tarde, gin tónico e cerveja. À noite, um bitoque numa tasca de azulejos deprimentes e luzes perfurantes de melancolia e outras tristezas. Pela manhã, desperdício de tempo se acordar cedo. A manhã sem história. Ao almoço, qualquer coisa, porque nada importa. Se ficar sem comer, também não importa. Outro dia, o entardecer. Um outro dia para morrer.

Questionário 6

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Complete a frase:
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Um escrevo...
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a) Um poema piroso.
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b) Um poema merdoso.
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c) Um tédio.
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d) Um mergulho.

Questionário 5

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Complete a frase:
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Um dia terei ao pescoço...
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a) Um colarinho romano.
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b) Uma gravata pirosa.
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c) Os dentes dum vampiro.
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d) Um nó corrediço.

Questionário 4

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Complete a frase:
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Um dia terei...
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a) A cabeça vazia.
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b) A cabeça cheia de ideias.
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c) A cabeça vazia de palavras.
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d) A cabeça com as palavras ordenadas.

Questionário 3

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Complete a frase:
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Um dia serei...
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a) O teu amante.
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b) A tua mãe.
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c) A noite depois do dia.
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d) O dia depois da noite.

Questionário 2

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Complete a frase:
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Pela hora da morte...
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a) Está a sorte.
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b) Estão os dias.
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c) Está a morte.
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d) Está além da morte.

Questionário 1

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Complete a frase:
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Um dia destes...
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a) Finjo-me de morto.
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b) Deixo de chegar a horas.
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c) Dou um tiro na cabeça.
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d) Beijo até sufocar.

terça-feira, maio 21, 2013

Ópio-sonho

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Via-te novamente nua, com a novidade que a saudade confere. Fazia amor em arrepios, porque tomados por fantasmas os corpos não descansam dos medos adquiridos pelos dias.

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Faria amor como quem vomita o veneno que nos demos. Faria amor como a despedida que ficou por fazer.
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Há qualquer coisa de passado em todos os futuros. Há qualquer coisa que nasce quando alguém morre. Só o amor divino não tem doença nem defeito.
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Daria o que não tenho por um mergulho suicidário que me rejuvenescesse.  Daria a vida para voltar a viver. Daria esta vida por uma que valesse a pena. Daria tanto por um beijo num prado de solidão e melancolia.
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Beijaria a gruta mãe que todas as mulheres têm, fonte de generosidade. Como quero adormecer na tarde do silêncio e acordar numa manhã com aroma de maçãs.
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Quendera morrer no acto do amor, na ebulição do prazer e na dor tão boa. Numa ilusão de amor, numa verdade de carne, suor e beijos.
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Perder-me de sono e acordar noutro amanhã. Saciado de saudades, lavado de nudez. Pronto a renascer de amor imperfeito. 

quinta-feira, maio 02, 2013

Normótico

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Normose: finalmente tenho uma doença; comum como as pessoas banais, como eu. Logo, grave. Numa crise aguda torno-me português. Logo eu.

terça-feira, abril 30, 2013

Vício público

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O círculo é sempre vicioso, ao contrário da espiral.

Seguir a luz

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A janela do dia, porta de ânimo e sono, entreaberta pela dúvida de sempre: ser ou estar.
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Sem estar não serei. Porém inexisto-me em tanto lugar.
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Com o vinho transbordo-me fora do corpo.
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Sem água minguo-me.
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Palavras pequenas para grandes dias de conversa.
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Serei teu, enquanto estivermos.
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Luz do dia e vontade de dormir.

terça-feira, abril 16, 2013

Agonia

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Sofrendo deleitado, longas horas de comiséria. Fechar portas e janelas, fechar a luz, que é algo que não se fecha nem compreende.
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Respirar – que é tão bom – é doloroso. Com o peso da força da bala que entra devagarmente na cabeça, quebrando osso e liquefazendo o cérebro.
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A vida tem duas velocidades: parada e em movimento. A primeira é parada, e não existe, e a segunda é de vagar e rápida. Neste momento, toda a vida se resume às três ao mesmo tempo.
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Malcriadar duma só vez é uma ejaculação de desespero. Antes isso do que usar uma serra-eléctrica para cortar presunto ou melancia. Tudo para não rasgar gargantas nem desfazer as veias dum pulso.
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Não é explosão nem implosão. É explosão para dentro. Comer muita terra e escaldar a cabeça no Sol forte. Suar e ter a camisa colada pelo suor e poeira. Querer banho e não ter onde banhar-se. É tudo isso, agora.
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Não é raiva, é miséria.

quinta-feira, abril 04, 2013

Vagalume

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O vago sorriso das árvores e a sua sombra quieta, vislumbres do Paraíso. Ainda que passem carros e estrondem suas vozes, nada apaga a lembrança melancólica dos dias de Verão passados a sós.
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À noite, vagalumes imaginários confundem-se no céu da cidade. Suspiros da memória dos amores adolescentes... apenas dos descorrespondidos. Amores frágeis, sem confissões nem beijos. Horas de sexo imaginário.
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A noite torna-nos adultos, quando não nos deitamos. Meninos, quando embalados no sono, sorrindo como sorriem as mães.
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O silêncio das casas, os passos perdidos, a inquietude. Gatos-afectos. Gatos-esperança. Gatos-mata-angústia. O que acontece de noite.
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O sorriso dos velhos, linha quebradiça que separa a vida da morte. Sorriso tímidos, duma alegria baça, ternura por qualquer coisa que quem não é velho não sabe entender.
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Luz tímida e ar. Ar e não vento, porque o vento tem temperamento onde o outro tem alma. Tempo de passar, tédio alheado, enquanto cenas da vida se sucedem, para depressa se esquecerem. Passa a vida e resta a esperança de reencontrar quem se perdeu.
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O Verão está a chegar e com ele a opressiva luz da felicidade. A noite quebradiça da solidão é cruel no Verão. No Inverno aconchega-nos sofrida, comiserando-se com as feridas e embebedando a tristeza.
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Melancolia, a noite triste que é memória. A noite dos astronautas.
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Vaga luz, a esperança não tem rosto. Riscos de rasto, luz dispersa para contentar a noite.  Vagalumes.
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Nota: sim, sei que é vaga-lume.

Poesia

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Os poetas dizem umas coisas e os outros sentem-nas.

segunda-feira, abril 01, 2013

Agonia

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Caminho cruzado com a morte, berma de desejo. O problema moral do desejo e a consciência da solução. Sinto o arrepio do envolvimento e a agonia da vergonha. A tristeza de todos os dias tristes, num repente chegados. A boca amarga, desejando a doçura do limão. Chegados aqui... é voltar para a cama e esperar que os dias passem. Que a vida faça o que tem de fazer. Dormir para que a consciência e a vergonha não doam.

Memória das coisas

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A memória estúpida das coisas. Será que toda a memória é estúpida e bom é não lembrar... as coisas estúpidas têm memória longa. A dor prolonga-se em sabor. E as coisas que valem a pena? Passam depressa e são esquecidas. Para que se quer a memória? Rancor, amor e perdão... tudo isso. Mas o que queria mesmo era esquecer. Não ter vivido e talvez não ter nascido.

sábado, março 16, 2013

Madrugada

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Há uma madrugada no horizonte e cai-se na ressaca de música, julga-se. Está fresco, noutro dia seria frio. Se pudesse adiava o raiar e ficava imóvel, menos nos olhos, perante o mundo finito que a vista concede.
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Não é apocalipse é big bang. Mas não é nascimento, é uma sempre-morte.
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Sim, pode ser Lisboa. Lisboa e suas lágrimas, de noite e água chuvosa, de rio, de brilho lavado e de silêncio moribundo.
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Onde mais, perguntam-se afirmando: Onde mais?

sábado, março 02, 2013

Oz

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O som do tempo. A luz mágica das terras invisíveis. O vento.
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Todas as palavras que definem cidade e todas as que dizem casa. Todas as palavras que dizem mistério e todas as de luz.
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Nesse sítio de Oz emerge como uma santa, em brilho, paz e música, a musa do doce olhar. Traz a tranquilidade do dia perfeito e a luz do arco-iris. Toda feita de zen e açúcar.
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Vem com cânticos gravados na alma, rejubilando quem a ouve. Espera resposta à sua promessa e a recompensa de abraço.
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O som do tempo. Dois anos menos uns minutos, quase. O relógio nunca se atrasa, por vezes perde-se. Encontram-se as palavras nos olhares e as almas nos abraços.
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No sítio de Oz é sempre amanhecer e a água é doce, fresca de nascente. Passarinhos a piar? Pode ser. Pode ser o que se quiser desde que em paz.
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Trovoada, só na queda livre. Uma mão amparará sempre, porque Deus está em Oz. E Oz fica onde se está de olhos no amor e a boca na boca.
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As falas de jura e enlevo podem ser nuvens claras ou lençóis estendidos no amor. O som do tempo, cantata de anjos.
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Sonha-se com a terra que se vive, uma qualquer paisagem. Zen em Oz, sempre com o amor amado.

Pecado

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Sem pecado não há Paraíso.