digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

sexta-feira, fevereiro 03, 2012

Alice, 1998-2012

A Alice mais do que um cão é uma amiga. Tenho a certeza que está no Paraíso dos cachorros, onde pode correr à vontade, trincar daqueles ossos amarelos que vendem nas casas de comida para animais e rosnar a anjinhos patifórios.
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Adoro a Alice, que embebedei em pequena e engordei ao longo da vida com petiscos proibidos, à revelia dos donos. Nas últimas vezes que a vi já não o fiz. Mas ela nunca me deixou de pedir gastro-presentes.
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Espojava-se e saltava-me quando me via, quase violentamente, não deixando que mais ninguém se aproximasse. Nas últimas vezes, já velhota, ainda o fazia. Rosnava quando lhe pediam a pata, mas a mim dava-me as duas à vez, sem fosquices e com o olhar meigo de sempre.
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Adeus amiga, vai brincar no Paraíso dos cães e ladrar de felicidade quando espreitares atrás das nuvens.
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Nota: O texto vai no passado, mas a Alice está no presente. Um beijinho ao Quico, à Inês e ao Paulo.

quinta-feira, fevereiro 02, 2012

Mateus Rosé, um elogio






















Num país pouco sofisticado, o Mateus Rosé nasceu preciosidade. A par com o Faísca (mais tarde Lancers, da José Maria da Fonseca), o Mateus tirou vestes negras de viúva dos portugueses e arejou este país do «orgulhosamente sós». Se Portugal, durante a ditadura, era a preto e branco, o Mateus deu-lhe cor e logo uma improvável, a rosa.
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Chatos sem visão, pretensiosos e de mais enochatos e pedantes trataram de obscurecer este vinho tão (atipicamente) português. Enquanto lá fora manteve fama, sendo que em alguns países, como os Estados Unidos, é bem valorizado, por cá foi e é desdenhado por muita gente.
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Não sou exceção, mas, penso, que a idade me tem dado mais incertezas quanto à minha infalibilidade e, ao mesmo tempo, menos complexos. Tem-me tirado peneiras, basicamente. Gosto de vinho há mais de metade da minha vida, embora cota não sou velho.
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Era miúdo quando a Lisboa mais jovem começou a sair à noite. Comigo foi em 1986, tinha 16 anos. A noite tinha fauna, vestia-se e alindava-se, havia estilo e glamour. Os sítios eram alternativos e desejados; havia multidão ansiosa à porta do Frágil, onde a Guida (hoje na associação Abraço) impunha ditatorialmente quem entrava, naquelas duas salas pequenas, criando ódios e respeitinho (este menino era bonito e tinha estilo, nunca ficava à porta). Eu e a pandilha, sem dinheiro, sem fígado e sem estômago para uísques e vodkas, embebedávamo-nos com vinho. Era normal, não havia shots (que surgiram em 1991 – o Báltico, barzinho que frequentava-mos foi dos primeiros, quicá o primeiro, com os agora célebres cocktails B52).
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A vida tem-me mostrado a realidade. Reconheço agora a aleivosia, arrogância, pesporrência e impertinência da minha juventude, incluindo nos copos. Não tinha dinheiro para o que os «grandes» bebiam, pelo que ia vinho… mas Mateus, nunca!
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Já adulto, comecei a trabalhar como jornalista no Diário Económico (janeiro de 1990). Miúdo com piada e pinta, depressa adotado pelos seniores, mestres e ídolos. Os mais velhos trabalhavam e iam a bares sisudos. Não era farra, mas rotina. Sair à noite para tomar um copo num bar chato era o máximo, fazia-me adulto. Eram templos admiráveis aos olhos sensíveis duma criança de vinte anos que quase só conhecia discotecas e tascas. Havia vinho ao jantar, mas nunca Mateus.
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Homem feito e enófilo preconceituoso e pretensioso (espero estar curado) tinha vinho em casa. Mateus? Blheck! Credo, não! Mas a vida mudou. Ou melhor, muda-nos, abre-nos os olhos. Bate-nos, dá-nos estalos, chama-nos burros, estúpidos. Sevícias que nos damos a nós mesmos.
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Quando fiz o programa «Da Terra ao Mar», da RTP 2 (junho de 2004 a maio de 2007 e de junho de 2008 a maio de 2009) passei a lidar muitíssimo mais de perto com a gente do vinho. Conheci malta que me ensinou, tirou dúvidas, que simpática e educadamente me deu raspanetes, com paciência e com o prazer (aqui tenho de mandar um forte abraço ao Paolo Nigra, fundamental pelo grande aprofundamento do meu prazer com vinho). Com essa gente, com quem hoje lido muito mais de perto, aprendi a respeitar os vinhos de grande produção. Gente que me trouxe, aos dias, a dimensão dum Mateus Rosé ou Lancers ou doutro block buster.
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Com imensos enólogos comecei a compreender que não é toda a gente que faz um bom vinho, mas que um bom vinho se faz com boas uvas e/ou com bons meios e material funcional. Com imensos enólogos comecei a compreender que um vinho de qualidade, que todos os anos tem de manter um padrão e um perfil, independentemente das condições, naturais é uma obra do caraças! Tal como a arquitetura, a enologia é uma arte, mas é sobretudo uma disciplina técnica.
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Fazer Mateus Rosé não deve ser, por isso, trabalho para qualquer um. É possível enganar todo o mundo. Mas não é possível enganar todo o mundo para sempre. O Mateus terá tido evoluções de padrões, mas não engana. Mateus Rosé é Mateus Rosé, se vende o que vende, anos e anos, e está aí para as curvas, tem mesmo de ser bom.
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Não, o Mateus não é um vinho de château, embora se ilustre com a setecentista Casa de Mateus, obra do arquiteto Nicolau Nasoni, residência dos condes de Vila Real. Só no seu início houve ligação profissional entre a família Guedes, produtora do vinho, e a Sousa Botelho e Albuquerque. As relações amargaram, mas isso para aqui não interessa. Não é um château nem pretende ser. É um vinho para quem se marimba para as denominações de origem controlada, para as colheitas, para as castas. Mais do que um vinho, o Mateus é uma bebida. Podem os marketeers da Sogrape dizer mesmo, e com razão, que é um estilo de vida..
Repito: Podem os marketeers da Sogrape dizer mesmo, e com razão, que é um estilo de vida. A publicidade sexy, relaxante, com gente de bem com a vida, estilo e sofisticação não mente. É para isso que serve o Mateus. É para as festas! Tem pouco álcool (11%), não é para chapão involuntário no tanque. É para as conversas com gente gira e interessante que não quer (pelo menos nesse momento) discutir o papel da estética nas sociedades ocidentais contemporâneas após a queda do Muro de Berlim e até ao 11 de setembro. Como agora me apetece verão, proximidade da praia, piscina, noite, luzes, música alta, descontração e miúdas giras para seduzir (bah, quero lá saber que seja sexista e marialvista).
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A descontração de Mateus é pensada. Ainda que no início pudesse haver uma certa ingenuidade, a verdade é que tudo foi pensado. E bem pensado, porque bateu certo. A imagem da tradição vinícola e do bom-gosto e estilo do palácio de Mateus e a forma arrojada da garrafa. O cantil, forma Mateus muito imitada pelas concorrências, é antigo, foi ressuscitado para este vinho. Os rótulos evoluíram, modernizaram-se na continuidade. Confesso que gosto mais do look com maior destaque para a casa, mais antigo.
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A marca vale uma mina de ouro, razão pela qual na década de 90 surgiu a gama Mateus Signature, de posição bem acima nas prateleiras, que se pretendia ascender. Não foi eficaz, mas melhor têm corrido os Sparkling e o Aragonês (provavelmente no mundo deve chamar-se tempranillo). Mas Mateus, Mateus, é o clássico rosé sem casta identificada, sem ano de colheita, sem região, sem peneiras, mas com estilo. Serve-se fresco, diz a Sogrape. E serve-se, nunca experimentei ao natural nem me parece que algum dia o faça.
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Adoro o aroma a rebuçado de morango, a frescura na boca, o gás que ali faz mesmo parte.
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O Mateus é como o James Bond (para elas) ou como a Cat Woman (para nós): não é para casar, mas para ter casos, pura diversão sem consequências...
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Muitos podem admirar-se com a nota que vou dar a este vinho. Relembro que a escala é subjectiva e está sujeita ao prazer dado. A qualidade é sempre tida em conta, e isso aqui não falta. Quem tiver preconceitos ou quiser implicar, que tenha chuva durante as férias de verão.
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Origem: Vinho de mesa (Portugal)
Produtor: Sogrape Vinhos
Nota: 7/10

quarta-feira, fevereiro 01, 2012

Ninguém está a ver

O que faz a masturbação um acto íntimo? Será o prazer de esconder o prazer egoísta. Por isso, desejado, caçado por olhos camuflados. Que mal tem o prazer de ver se há prazer em esconder o prazer que se tem? A masturbação não é um ato solitário. Há a pessoa amada, a multidão ávida da revelação ou toda a gente que nesse sonho acompanha e transmite-se para o culminar cego da descontração. A pergunta mantém-se: o que a faz ser um ato íntimo?

Chega-te a mim





















O meu e o teu amor não podem ter o mundo. O mundo não nos sentirá a pele. Temo-nos um ao outro e não quero saber que não nos vejam normais. Sem espaço num mundo sem interesse, restemo-nos.

terça-feira, janeiro 31, 2012

Rendido

O teu ar doce é frágil e força. Olhos de choro e boca de beicinho. Quando te dou a mão, entregas-me o corpo. Se te sorrio, beijas-me. Se te dou o corpo, seduzes-me, numa guerra relâmpago, sem tréguas com beijos prisioneiros. Num encaixe de macho e fêmea, os lábios e as águas. Abraços de mais de dez metros de fundura. Todo o amor, toda a ternura.

Magneto

Tenho sono ou é a morte? É um túnel e lá uma luz, além do escuro. O corpo levanta-se, parecendo leve como o dum espectro. Num arrepio, voo… não, levito. Oiço uma surdina abafada, não distante. A luz chama-me, sem uma voz… ouvem-se apenas alguém que conversa e alguém que chora. Os olhos fecham-se, mas os músculos do pescoço aterram-me. A cabeça já foi, mas o corpo resta, o tronco. Uma mão puxa e outra empurra. Tenho sono ou é a morte? Ou é a mesma coisa?

segunda-feira, janeiro 30, 2012

Saúl

























– O Saúl era mesmo brincalhão…
– Pois era, que saudades…
– Sempre na reinação… ai, ai…
– Lá onde está, tenho a certeza que está a fazer rir toda a gente.
– Que Deus o tenha em descanso…
– Já o estou a imaginar, no cemitério, a fazer caretas aos outros mortos.
– Ahahahah!... Também acredito que sim…ai, que ponto… era mesmo brincalhão… 

És preciosa, amor

























– Tens olhos de rubi, sorriso de ouro e a tua cabeça é como um diamante...
– Uau!... porquê tantos elogios?…
– É a verdade… tens os olhos encarnados, os dentes amarelos e és dura de cabeça.

sábado, janeiro 28, 2012

Concorde

Noite triste como a do Natal, fria e seca. Arrepios de arrependimento e fantasmas, cortando o calor do aquecedor. Há Vinho do Porto, mas falta o bolo-rei. Noite tão fria e sem um gelado de caramelo ou baunilha. Tenho sono e vontade de vigília, para que os sonhos pesados não me quebrem a respiração e as lágrimas possam ter fonte. O Brasil tão longe, desconhecido e imenso. Como será o céu nocturno de São Paulo? E o vento do Rio de Janeiro? Que calor faz em São Salvador da Baía? Se pudesse apanhava o Concorde e voava para a Lua ou para onde a areia se esquece esta noite tão triste.

Feitiço

Por que o sexo é bom? Para alguns porque dele nasce a vida… mas e o orgasmo? Ah! É dele que nasce a bondade e um seu antónimo, a perversão. É nele que cresce amor e um seu antónimo, a perversão. É nele que nasce o prazer e um seu antónimo, a dor. É o alerta de que a missão reprodutora chegou ao fim… ou de que a pila já satisfez uma vontade concegadora, escarafunchosa e impertinente… O sexo é um feitiço. E de feitiço surgiu fetiche, coisa perversa de cama.
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Sem química não há física, falo do instinto quase impossível de definir que leva à cama. Mais do que apenas olhar, o cheiro, o comum e o que nota as feromonas.
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Se o sexo é vida, o abandono do corpo e da mente leva à sensação de morte… garanto, porque passei o túnel e a espiral e experimentei a leveza e a alvura calma e inebriante… e experimentei orgasmos. O orgasmo é uma dor boa, onde o egoísmo rima com o prazer egoísta de dar prazer.
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Por que o sexo confunde? Porque a sua bondade afirma amar, mesmo quando tudo não passa de ilusão efémera, fruto do psicotrópico das endorfinas, psicadélica e aliviadora.
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Por que o sexo é mau? Porque os prazeres egoístas lembram um pecado, o judaico-cristão, ou só cristão, do prazer. Uma agonia irritante, que estimula ainda mais o prazer, como se fosse contra-natura.
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Sim, depois há o amor. Coisa que não tem nada a ver, que congratula, legitima, felicita, justifica…
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Por que o sexo engravida tantas palavras?
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Nota: A imagem é duma lucerna romana, datada entre o século I dC e o II dC.

quinta-feira, janeiro 26, 2012

Patachuqui

















Lembrei-me de me pôr a ladrar. Porque sim, como os cães: alarme, saudação ou outra coisa que não sei, pois, verdadeiramente, nunca tive um cão. Sei que ladram e por muita coisa. Ladrei, ladrei e derreteu-se-me o coração. Se o Chuqui é divertido, a Patachuqui é um desespero: nunca faz o que lhe mandam. Na sua vida alegre e generosa, dá o que tem, com olhar bonito e o sorriso franco de sempre. Não sabe o que são horas, na distração de quem parece não ter nada para fazer. Mas é duma dedicação que faz qualquer pessoa dar ao rabo.

quarta-feira, janeiro 25, 2012

O verbo doer

Há pessoas a quem fiz mal. Nem sempre quem me acusa foi quem mais me sofreu; a quem não fiz, já nem espero perdão. Lembro-me dos males e sinto-me. Pedi e não me perdoo, nem esqueço e fustigo-me. Lembro-me que se lembra mais aquele que empresta do que aquele que deve, quero-me justo e lembrar-me do que devo, pelas perdas e danos. Lembro-me e dói-me o que fiz. A cruz é a minha e fui eu quem a carpintou. Dói-me por doer. Dói-me que me doam, ainda que não lhes tenha causado dor.

Nascer, ser ou estar, sentir parar crer

Não nasci cristão. Talvez o fosse antes de o fazer. Nasci sem lembrança. Baptizaram-me e cri-me ateu. Fiz-me cristão. Por isso acredito mais na minha fé.

terça-feira, janeiro 24, 2012

Dança

É a dançar que te sei dos segredos. Escondidos, entreolhando tímidos os meus olhos descarados e curiosos. Não falo dessas partes óbvias do prazer, mas doutra coisa, mais frágil, quase omissa… não sei definir. São segredos. Luzes invisíveis, que iluminam, olhos e boca, e te inebriam, e inebriam quem te vê dançando. Felicidade tão certa, em gente distraída. Segredos que vivem nas fotografias e ficam na recordação fugaz duma noite sem mais de memória. Segredos como os dos bosques, dos luares, dos verões e da paixão. Segredos de diabo cocegueiro, amante seguro. Segredos que escondem o odor do suor da dança e caçam a respiração, fogos de artifício de estrelinhas, espirais e cornucópias, em cores claras e amor-vontade. Segredos que a chuva leva e as canções recompõem. Nem fazendo amor se revelarão. Ainda bem, são segredos.

Dilema: poupança ou barriga cheia?






















Se tivesse poupado todo o dinheiro que gastei mal gasto… estaria desafogado. Milionário, não estaria… mas para que se quer o dinheiro se não para o gastar. E que prazer dá gastá-lo mal gasto. Estaria desafogado… ou morto por tristeza.

sexta-feira, janeiro 20, 2012

Luz

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Para que tenho olhos se vivo no escuro. Se nunca vir a luz, nunca conhecerei a sombra. Sei porque os passos, algures ali, me fazem pensar. Fora isso. Sou virgem de Sol. Ainda ingénuo e ignorante, sou feliz. Se calhar só por isso. Não sei. Fecho os olhos para pensar e dormitar, sonhando com todas as cores. A luz seria um salto no meu conhecimento, penso que nunca a verei nesta vida. Se fosse hipócrita rezava, sou apenas cínico e peço para ter fé de que um dia conhecerei a luz do sabor das coisas.

Maré


Há a maré cheia e a beleza da maré baixa. Uma é cheia e outra bela. Uma muita, gorda e abundante, plena. A baixa cria rios e entretenimentos. O abuso duma contrasta com a magreza larga de vista da outra, com o horizonte de areia, rios e nuances. Se bem que tudo possa ser trocado de lugar, a baixa morre no princípio da manhã e renasce ao Sol poente. Prefiro andar, desejoso, de mar a encher a cabeça de areia num mergulho ao primeiro passo.

quarta-feira, janeiro 18, 2012

Ainda que me chamem, não vou


























Ainda que me interesses, vou-me. Ainda que a conversa me diga respeito, vou-me. Ainda que a curiosidade me chame, vou-me. Não por insolência. Não por protesto. Não por birra. Não dou conta e, não dando, finjo não ter dado conta. Não se faz nada onde não há nada para fazer.

Amor do espírito em pó

Se amo? é a mesma. É a outra, a de outrora, outrora. Não morta nem fantasma. Corpo morto por velar. Corpo inconsumível. Múmia natural, ou não. Amor despedaçável ao toque. Corpus cristi. Relíquia de cera ou de madeira pintada. Senhor dos passos em roxo, fingindo púrpura. Memória de dias que não existiram. Um dia, além corpos, saldar-se-ão as contas. De um lado o avarento de mãos gordas, insensato e insaciável voraz, do outro ossos frágeis, mumificados e em pó, incorruptíveis, como se em aguardente conservados. Um beijo de defuntos, do espírito e da memória em poeira.

terça-feira, janeiro 17, 2012

Jantar para um, com duas cadeiras, velas e música


Hoje há festarola cá em casa: convidei as minhas beibes… mas nenhuma veio. Uma está lá, outra ainda mais para lá, outra tem um outro jantar, a outra já nem se conta com ela, a outra idem, a outra também. Há uma que não me fala, outra tem receio dos ciúmes que o marido possa sentir, outra não convidei por razões óbvias e outra nem atende o telefone... e outra nem me lembrei.
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Não há beibes, mas há jantar! Coisa desenrascada, coisa de homem solteiro: ah, pois é! Não vêm, azar, como tudo sozinho, tudo, tudo, tudo. Para que fiquem a babar pelo jantar para dois.
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É assim: massa torcidinha, que não me lembro do nome em português e a que agora chamam fusili. Cogumelos de lata, na frigideira, com tomate de lata, com alhos congelados, adicionados com vinho branco de Tetra Pack, temperados com sal industrial sem sabor, orégãos de frasco e coentros congelados. O azeite… o vinho...
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Estou em crer, que esta noite vai ser a valer…

segunda-feira, janeiro 16, 2012

Tempo enevoado

Sou do tempo diferente, de quando era sempre noite e os dias a preto e branco. Terão sido felizes, depois ficaram amargos. Nesse tempo, havia avó… que saudades tenho dos quatro anos.

quarta-feira, janeiro 04, 2012

Fantasma voando

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Por que não a ausência? Se em vez da presença obsessiva, mas ausente e impositiva, me tivesse abstinente de qualquer lembrança. Já que esqueceste tudo, apenas recordas a marca tatuada, para quê lembrar o corpo morto, que, sem feder, assalta, fantasmagórico, nas noites de solidão ou pesadelo? Ainda que não tenha cadáver, tenho espectro, plasmado e luminescente, voando, aparentemente errático, a entrar-me nos sonhos, a despertar-me dos sonos. Por que não a ausência? Ainda assim, mais acompanhado do que mal só. Por tudo, afasto os fantasmas, com orações. Mas deixo um fino cordão, para que não voem para longe.

domingo, janeiro 01, 2012

Novidade do ano


O ano que agora começa quer acabar-nos com a vida, troicar-nos a vida por cá e acabar com o mundo. Dizem os maias, o Nostradamus, o vidente da aldeia, quatro profetas anónimos e uns quantos adivinhos famosos, que a vinte e um de Dezembro será o fim! Falam no Diabo, nas forças do mal, mas nisso não acredito. Seja como for, neste ano vou convidar algumas pessoas a escreverem no infotocopiável e no joaoamesa… em português de dois mil e onze ou já com o acordo ortográfico, com liberdade total, em torno do tema vinho. Até já, se o mundo não acabar antes do previsto.

sábado, dezembro 31, 2011

Voto de ano novo


O Sol caído na tarde ilumina-te, num sono tardio e precoce. É como se fosse Verão, a praia e a brisa. Os olhos, cor de mar profundo, têm a ternura das mães e a alegria das namoradas. As mãos são abraços pequenos. Dois mil e doze abre-se, como o mar de Moisés, sem as esperanças de todos os anos e as dúvidas de sempre. Dia um é para se ficar abraçado em beijos, passear no frio, ver o mar e fazer amor. Não me fujas pela manhã.

Ser quem não é


Quando olho para a piscina vazia percebo que não ganhei o Euromilhões; nem piscina nem água nem dinheiro. Tenho saudade de quando era o que nunca fui.

sexta-feira, dezembro 30, 2011

O ano do fim do mundo


Dois mil e doze vai ser um ano complicado! É melhor parar antes de nele entrar. Se não for agora, a vinte e um de Dezembro, será ele a arrumar-se e a guardar-nos num jazigo de anonimato.

quinta-feira, dezembro 29, 2011

Perguntas com sentido


Se houver mais luz fora das estrelas o universo será mais infinito? De que cor será a noite e qual o calor do Sol? Deixa-me ser pequenino para te fazer perguntas com sentido. A banalidade dos dias é uma triste banalidade.
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Nota: Dedicado ao M... ou direi antes: m.

Por essa estrada fora


Dá-me o caminho finito e a infinita esperança de o fazer. Dá-me o abraço na noite, ainda que suemos. Dá-me o abraço na noite, para que te beije entre sonos. Dorme comigo, para que não te sinta a falta nos sonos. Que a noite seja de chuva, para que se deseje mais corpo. Que a noite seja escaldante, para que os corpos a façam mais. Daqui até aí, na saudade, é mais longe do que os anos-luz até Alfa de Centauro. Daqui para aí, juntos, o tempo é infinitamente pouco para tudo. Esta noite vou sonhar contigo, ainda que acordada, e estarás comigo, nesta ou numa Via Láctea qualquer.

terça-feira, dezembro 27, 2011