digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

segunda-feira, agosto 25, 2014

Ainda que fosse tudo o resto, o vinho e o amor bastariam

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Se fosse uma mulher dir-lhe-ia:
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– Quero amigar-me contigo.
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Se fosse um vinho diria:
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– Quero beber-te no tempo sossegado e justo.
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Se junto dos dois pudesse estar...

Síntese sobre o cérebro

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Charles Darwin e Sigmund Freud já tinham explicado... mas foi António Egas Moniz quem pôs as mãos na massa.
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Nota: Sigmund Freud pintado por Andy Warhol, Charles Darwin pintado por John Collier, António Egas Moniz pintado por José Malhoa, «Brain» pintado por Peter Kogler.

A inquietude do amor de mãe

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Não me lembro de ser bebé... este quadro inquieta-me. Todo o amor da mãe e toda a descoberta do filho. Como baterá o coração duma mãe? A ternura e felicidade são duas mãos que entram e apertam o coração, num misto de medo e comoção.
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Há arte que devia ser proibida. Ou legendada com aviso. A beleza inquietante fez-me nascer lágrimas e correr para telefonar à minha mãe...
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– Estou, queria falar com a minha querida e santa mãe. Só para dizer que é bonita, que a amo e que às vezes não sou bom filho.
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A minha mãe sorri – intui-se – e nega que seja mau filho. Diz só que sou rabugento de vez em quando. Derrete-se só por lhe chamar mãe.

Uma vaca quis dar-me um coice

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Um dia vi uma vaca. Lá adiante, com uma cesta, ia a camponesa, devia ir apanhar fruta. Uns bons metros atrás, o camponês levava, por uma tira de couro, uma vaca mansa, malhada de branco e preto – chama-se a raça holstein-frísia . Eu caminhava ao lado da bicha, mas perto dos quadris.
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Não lhe fiz mal... aquele animalejo de olhos grandes e doces decidiu levantar uma perna para me dar um coice. Coitada, vaca tem pouco jeito para pontapear. Ainda assim saltei e caminhei um bocado mais ao largo. O camponês não teve dúvidas de que eu fizera qualquer coisa ao animal. Mas não.
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Já estive em ganadarias bravas, a poucos metros de touros temperamentais, e nunca um bovídeo me quis atacar. É certo que uma vez o ganadeiro disse que era melhor subirmos para a carrinha... não percebi... o touro continuava imóvel a ruminar e com ar nobre, junto do sobreiro que lhe dava sombra.
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Disse-me:
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– Está a uma distância segura, mas se resolve correr põe-se aqui num instante e nem conseguimos fugir.
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Lá disso sabe o ganadeiro. Estive noutras ganadarias e sempre gado bravo com um vagar quieto, sem vontade de se aproximar para conversar. Até se foram embora...
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Mas a magana da outra, a holstein-frísia sem nome e que poderia ser Estrelinha, que era mansa... ainda por cima passei por malfeitor. Bem, bom leite dava e desculpo-lhe a tentativa de agressão.
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Nota: Estou apaixonado pelo trabalho da Joana Villaverde.

Letra P

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Nota: Se alguém souber quem é o autor desta foto agradeço que me informe.

sábado, agosto 23, 2014

Azul, branco, cinza e verde que dá

Se o mar acabasse. Se o mar se acabasse o que ficaria no seu lugar. As palavras são invisíveis. O eco no fundo, talvez telúrico. Onde ficaria o azul e que outra coisa em seu lugar se poria. Que luz, que noite.
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Medo, como a mãe – nunca a quererei ver nua. Se o mar acabasse.
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Haverá azul sem mar? Sangue, futebol e bandeira. A cor mais bonita. O mar azul e branco, como o vento visto do espaço.
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Mergulhos, gargalhadas e pirolitos. Peixe, medo, naufrágio e viuvez. Ainda teríamos alma, melancolia para despejar na areia. Sem ondas, lágrimas por lavar, secas pelo vento que taparia as confissões.
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O que seria do vento e da luz. As auroras, os meios-dias, os entardeceres e as noites. As estrelas, e a cor do céu nocturno sem mar. O que se faria no mundo do mar?
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Sem o quebrar das ondas. Que música se faria sem mar. Azul, branco, cinza e verde que dá. 

sexta-feira, agosto 22, 2014

A Europa é um lugar estranho

A Chechénia fica na Europa. Esta é a dança ritual sufista da Qadiri Hadra. O Boom Festival é para meninos.

Sim, piroso... e depois?!

Há sentimentos que não se dizem. Porque se morre a rir. Porque se morre nos braços do outro. Beber e dançar e já voando diz-se o que sóbrio se não diz, morre-se a rir, nos braços um do outro, e cai-se na cama.

A primeira selfie

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Cheia de segredo, vais e frente ao espelho olhas-te, com receios e com vontades. Ainda sem saber se demoradamente, com os olhos postos no sutiã. Indecisa e molhada, vestes-te e despes-te e ainda de peito guardado. Liberta-lo por fim e largo vai o desejo. Tens as marcas e não sabes se importam os vincos. Paras e a tremer seguras no cemartefone. Clicas e apagas. Olhas e clicas. Olhas e clicas. Percebes que a tremura te fecha o rosto. Sorris e clicas. Sorris, olhas e clicas. Vestes a blusa e o sutiã deixa-lo no chão. Tremendo como um suicida antes do salto, envias a imagem em que ficaste mais bonita. Já está! Já foi! Não queres pensar mais nisso, mas pensas. Que seja o que Deus quiser. O espelho é uma janela. Engoles em seco e estás tão molhada. Abres a porta e prendes-te à televisão. Tremendo, saboreias o salto. Uma mensagem. Estás tão molhada...


Uma só bala

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Tantas balas no mundo e nenhuma falta para acabar uma guerra. Tantas lágrimas em olhos de fogo – vingança e saudade. Corações que ao pararem param as almas de quem lhes quer bem. Uma só bala basta para acabar a guerra que dentro de mim fere.

Ostra

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– Qual foi a coisa mais estúpida que fizeste?
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– Ter nascido. 

Desgosto tardio

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Hoje chorei. Uma tristeza adolescente saiu dum livro que tombara. Um bilhete de apontamento do que poderia ser um poema. Em que aula teria nascido e por que intervalo terá sido fechado? Que fizeram essas palavras nas décadas de esquecimento? Que farei agora com elas, com as memórias que me aportaram? Leio o que já não entendo e vou. Chorando triste de mim.

O cabelo cheirando a champô e o corpo a virgindade

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Pressinto que faremos amor como adolescentes. Como se usássemos saco-cama e dormíssemos fora da tenda. Com as minhas mãos a chegarem-se e as tuas com dúvidas a afastarem-nas. Pressinto essa cama de virgindades, que se conclua ou não será sempre de amor feito. Pressinto que faremos amor como adolescentes que escondidos um do outro brincam-se pensando. A adolescência é um tempo que fica e o tempo continua a andar.

quinta-feira, agosto 21, 2014

Uma matilha negra de medos

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Tenho cansaço suficiente para mais duas vidas. Deram-me desprezo para mais três. O tédio é tanto que temo ter a eternidade para o gastar. Não fosse a dor, diria que não tinha alma.
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A alma serve para quê, afinal? Talvez seja como o apêndice intestinal, cuja função é mandar gente com dores para o hospital. O apêndice dói uma vez na vida. A alma pode doer a vida toda.
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Se formos a alma... o que é o mais provável... viver pode ser uma dor. Uma dor invisível que puxa tendões, arranha nervos, soca órgãos, massacra a cabeça, derruba tudo, ensona doentiamente  ou gera vigílias violentas. Pura retórica. Bem sei que somos alma e o corpo a veste.
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Tenho esperança, murcha e triste, que a morte exista. Bem se vê que não falo do corpo. Morrer, morrer mesmo... a alma consumida, incinerada, fulminada, degolada, qualquer coisa...
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Já o corpo ilude a certeza de ter alma e a cabeça diz.
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Sim, esperança que a morte exista. Que a desistência espiritual seja possível, não haja eternidade nem reincarnação.
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Os afectos são um pedúnculo que liga corpo e cabeça à vida terrena. Afectos? Que afectos?
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Gostava que Deus me desse a bênção de desexistir. Puf! Estar aqui ou lá e... puf! Nem memória restar ou quem quiser que a tenha.
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Que afectos? Pessoas que se acredita poderem dar ombro, afago e ouvição. A convicção de afectos torna tão difícil engolir comprimidos como saltar para a linha férrea ou mergulhar.
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Afectos? Quais... afectos?
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Uma matilha faminta devora-me os dias. Matilha de bichos maus, escuros de olhos de farol, da cor do sangue... que me devorem então e possa partir. Uma matilha de medos.
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Afectos? Que afectos?

domingo, agosto 17, 2014

Como uma abelha

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Estava acordado e sonhei-te
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nua e mal escondida pelos lençóis amarrotados
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via-te nadando em pétalas.
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Mergulhei procurando-te o botão
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beijei-o e a corola se abriu
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entrei como abelha.
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Ali estivemos tempo sem medida.

sábado, agosto 16, 2014

Letra L


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A vida é dos vencedores. Um derrotado se tem nome é porque venceu, chamemos-lhes bravos ou heróis ou mártires. Se for um pobre Diabo, nem uma vírgula terá na história. Toda a cavalaria de todos os exércitos lhe passarão por cima. Se chover será lama, ou então será pó.

Ser não ser não ser não ser não – não ser

Não estar.
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Ser não, é obrigatório ser não.
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Ser não.
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Tentar não ser
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antes não ser do que
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ser não.
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Não estar.
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Não ser.
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Ser não, é esquecimento
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ser não é esquecimento.
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Invisível mas compacto.
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Como se pode não ver?!
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Sem ver, sem querer
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Sem querer ver
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Quando alguém não nos quer ver, morremos um bocadinho.
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Morrendo deixa-se de se ser.
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Para ser não, antes não ser.
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Nem estar
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muito menos partir
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não esquecer, por não lembrar
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ir, como não ser.
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Tragédia risível.
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Antes não ser.
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Ser não, é patético
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triste como um palhaço triste
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triste como um palhaço rico.
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Tivesse eu
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deixava a minha invisibilidade e voz muda.
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Ia.

Exosfera

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Se soubesse voar. Não gritarei se não souber cair.

Manifestação

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Manifesto-me contra mim. O meu corpo está cansado das minhas opções e ausência de soluções. Pondero entregar a demissão.

Criança com um ursinho

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Prometo-me muitas vezes ainda que não cumpra. Pende-me a cabeça como a dum enforcado e fecho os olhos e espero que me julguem morto, que continue só.
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Insisto na vida patética sem uso nem finalidade, com a parede como horizonte e nela a linha distante do Equador, em papel autocolante mal posto.
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Não me afogo nessa água nem me craxo contra a parede nem me volto, porque à volta só paredes, que me dão poucos metros para lá chegar.
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Recluso e respirando, em vez de livre e livre de tudo.
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Prometem e não dão. Nem eu, prometo-me e não vou.

E a ponte que nunca mais acaba...

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Quantos quilómetros faltam para terminar a ponte?
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Que de tão frágil só deixa passos pequenos e lentos.
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Se saltasse chegaria mais cedo a nado.
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Por que tenho medo do frio se tenho pressa de chegar?

Rio

Um rio cansado ladrilhado com seixos quietos
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empurrado pelo vento para a foz.
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sem represas nem motivo para subir as margens.
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A planície é testemunha a glória e da velhice.
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Aqui o coração nem se sente
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a respiração segue a velocidade do rio
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o corpo deixa-se cair amparado por um braço
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sobre uma grande pedra cinzenta
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sob uma árvore de espécie indiferente.
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É o espelho da minha melancolia
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a força da minha indolência
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o retrato da derrota.
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Uma dor que come a alma
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que teimosamente renasce
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Se tenho esta dor, para que quero um coração?
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Rezo por uma dor aguda e uma queda de ferida indiferente
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que nada na natureza me denuncie o corpo
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dormindo junto à sua metáfora
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vou rezando para que não tenha alma.

quinta-feira, agosto 14, 2014

Levitemos

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Pouco a pouco, boca a boca.
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Boca a boca e mão na mão.
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Mãos nas mãos, pelos rostos e pescoços.
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Mãos calmas. Mãos seguras. Sem sofreguidão, mas com certezas.
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Mãos que descem e roupas que caem.
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Caem os corpos e sobre eles os desejos se entornam.
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Mergulhados os amantes, indo ao fundo e à tona, salvos por respiração boca-a-boca.
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Corpo todo, boca tudo.
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Dentro num abraço.
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Dentro num galope.
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Dentro numa loucura de perder o corpo e misturar as almas.
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No final...
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Fazer amor assim não é pecado. É voar como um santo e repousar nas nuvens que Deus dá.
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Nota: Se alguém souber quem foi o autor desta pintura, por favor informe-me.

Coração a rebate

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Toco à campainha, abres a porta de baixo e subo as escadas. Estás à porta sorrindo de boca e olhos e vestindo um fino vestido de Verão de alças finas. Fecho a porta olhando-te e libertas as finas linhas que seguram a veste. Estás nua e o coração estremece-me e todo quero uma só coisa. Sinos tocam alegrias. 

As minhas letras

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Abandono à nascença os meus filhos. Entrego-os ao mundo. Penso e não me lembro. Que os amem, como sinceramente os amo sem os reconhecer.

Melancia

No Inverno aqueço-me a ver imagens de melancias cortadas em talhadas brilhantes, de numa taça para que se beba com olhos mais cheios  o refresco do Verão aquece.

Piquenique

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Estender a toalha sobre a mesa de caruma e beber gaspacho feito de véspera e fresco por abraçado por gelo. Água fresca, pão do dia – estava ainda quente quando foi comprado pela manhãzinha na cidade vaga – carnes frias e melancia. Beijar até que os beijos demorem o tempo de as formigas levarem a merenda. Beijar e afastar sem regra tudo que estava na toalha de linho cru. Beijar e deitar a fazer amor. Descansar e levantar o olhar à altura dos troncos e sossegar quase dormindo. Dois beijos pequeninos e um longo e morno, acarinhar o rosto e sorrir. Levantar a trouxa, sacudir as formigas e abalar. Beijar antes de ligar o motor e desandar e deixar o paraíso.

quarta-feira, agosto 13, 2014

Nuvem

Far-te-ei um cunilingus... e subirás a um cumulonimbus.

O Capuchinho-Vermelho

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– Oh! Lobo-Mau...
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– Diz, Capuchinho-Vermelho...
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– Por que tens uns olhos tão grandes?
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– Para te ver melhor.
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– Por que tens umas orelhas tão grandes?
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– Para te ouvir melhor.
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– Por que tens umas mãos tão grandes?
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– Para te agarrar melhor.
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– Por que tens uma boca tão grande?
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– Para te comer melhor.
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(SILÊNCIO)
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– Oh Capuchinho-Vermelho, por que tens umas mamas tão grandes?
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– É para me quereres comer... e cuidado com as mãos, não quero ficar com nódoas-negras...