Não sei como vou conseguir escrever; ando a perder sílabas e conjuntos de letras. Desde terça-feira perdi oito LA, dois CIP, quatro RISP e dois SERT. Passei duas vezes uma outra sílaba… Não por ter perdido a memória. Por falta, estou a perder a memória. Quais foram?
digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.
quinta-feira, fevereiro 23, 2012
Perdas
Não sei como vou conseguir escrever; ando a perder sílabas e conjuntos de letras. Desde terça-feira perdi oito LA, dois CIP, quatro RISP e dois SERT. Passei duas vezes uma outra sílaba… Não por ter perdido a memória. Por falta, estou a perder a memória. Quais foram?
segunda-feira, fevereiro 20, 2012
(...)
Cabelos finos, castanhos, entre os dedos, a pele desagasalhada
entre os lençóis. Pacata de ombro à solta. Varrida pela borrasca de língua e
dedos. Rangendo os dentes como a madeira fustigada pela chuva, gritando como a
janela que se parte, batida pelo vento. A bonança depois dos gritos tem
molhadas todas as polegadas, o prazer de muitas léguas. Tudo desarrumado, no corpo
desguarnecido que, finalmente, se sente capaz de se tapar.
Por favor... não pares
Intimidade à flor dos olhos e eu mexendo onde as pernas se
fazem abertas. O meu beijo mais largo concentrado nesse ponto. Tu pedindo que
seja mais vasto e preciso. Eu dizendo-te que não, fazendo sim.
sábado, fevereiro 11, 2012
Filho da puta
Há expressões para todos os gostos, de todos os sentidos,
para todos os momentos, em todas as épocas. Cabrão no Norte de Portugal é tão
grave como filho da puta no Sul, mais coisa menos coisa.
.
Onde quero chegar não é ao cabrão, mas ao dito da dita cuja.
.
O correcto seria dizer que Fulano é um filho de puta!
.
Que cena intelectual! Filho de puta! Até parece que a
senhora é nobre.
.
Filho da puta é que é!
.
Mas de qual? Há tantas!... Da Albertina ou da Casimira?... Da
Francelina ou da Adelaidinha?… Ou do Zeca, o lingrinhas, que deu em paneleiro?...
Ou do gorducho do Carlitos que antes de dar o cu a todos já tinha dado a mão e
a boca, antes que soubesse o que quer dizer pachacha e para que serve?...
.
A verdade é que ninguém diz:
.
- Olhe, vá para o caralho!...
.
A verdade é que filho de puta é mais correcto do que filho
da puta.
.
Filho de puta diz a marquesa aborrecida com o cozinheiro,
que voltou a abusar do limão nas ostras.
.
Na verdade, filho da puta tem uma força que nenhum filho de
puta consegue derrotar. Depois de disparado, o corno pode ir-lhe aos cornos,
que, contudo, o «filho da puta» lhe fica agarrado enquanto houver memória.
.
Filho da puta é chato! Apega-se à auto-estima e massacra o
orgulho.
.
A puta é a grande cortesã; uma odalisca! Um monstro gordo e
sensual, que consome homens, que tanto a criticam como a desejam ser.
.
Todo o homem gostava de ser puta. Contudo, nenhum homem quer
ser mulher nem quer uma mulher como puta, ainda que lhe mantenha os vícios.
.
O homem gosta na puta o poder de foder com toda a gente: Mas
sem ter de abdicar da intimidade das reentrâncias. Mãos pias, boca sagrada e cu imaculado.
.
O gajo é uma puta velha. Sabe-a toda! Conhece as
filhadaputices todas, que é como quem diz que come meninos ao pequeno-almoço,
como dizem que fazem os comunistas.
.
A verdade é que às vezes as putas-velhas são comidas, por um
filho da puta mais puta do que elas.
.
A esperança de nós, vítimas dessas putas e filhos de putas,
é que um dia venha um filho da puta e as foda a todas.
.
O filho da puta que nos fode será castigado pelo filho da
puta que o foder. Porque a puta que fodemos, será a puta que na consciência nos
irá foder, ou mandar foder.
.
.
.
Nota: O Alberto Pimenta fê-lo melhor e antes. Mas este texto é meu e é menos intelectual… é tipo para iniciantes.
quinta-feira, fevereiro 09, 2012
Onde sou
Estou numa conspiração de estúpidos e sou o mais estúpido,
porque, tendo noção da estupidez, fico intrigando.
quarta-feira, fevereiro 08, 2012
Porto de Gaia
Nunca estive no Porto tempo suficiente para conhecer os cais
da Ribeira e de Gaia. Falta-me uma namorada no Porto ou uma namorada do Porto. Embora
sem a luz sublime de Lisboa, no Douro há o encanto dos rios grandes que não
querem ser mar. O vento e o cheiro do Porto, quatro razões para ir, às duas
margens duma cidade que é duas.
.
.
.
Nota: O autor das fotos localizou-me e posso por aqui dar-lhe os parabéns pela qualidade estética. A referência à autoria já está nas etiquetas.
Ninguém me tira esta ânsia
.
Acredito em ti e no teu corpo verdadeiro. A pele quase
translúcida, leitosa e rosácea. Os lábios de vermelho desmaiado e os outros de
rosa muito puro. A pele lisa, sem pelo, caminho directo ao leito, onde, em
tesão, se humedece e se entrega. Olhos verdadeiros, sem mácula, só pureza, só
puro pecado. As mãos hábeis e os lábios todos…
.
Se pudesse mergulhava contigo. Nascemos para ser ricos, com
Champanhe, pérolas e bebedeiras… e ver-te, bêbeda… que sempre te vi
sensualmente atinada, falsa pudica de tesão completo… ah! Como gostava de te
ver bêbeda… e sentir os teus lábios onde sou mais homem.
.
E nós que não nascemos ricos, mas príncipes. As noites
frescas de Verão, uma piscina aquecida, para dois, no Inverno e música quase
alta… o chapinhar, sorrisos e juras falsas… como seríamos felizes!...
.
Não nascemos ricos, o que é pena! Mas temos tudo e agora…
dava tudo por todos os teus lábios.
sexta-feira, fevereiro 03, 2012
Alice, 1998-2012
A Alice mais do que um cão é uma amiga. Tenho a certeza que
está no Paraíso dos cachorros, onde pode correr à vontade, trincar daqueles
ossos amarelos que vendem nas casas de comida para animais e rosnar a anjinhos
patifórios.
.
.
Adoro a Alice, que embebedei em pequena e engordei ao longo
da vida com petiscos proibidos, à revelia dos donos. Nas últimas vezes que a vi
já não o fiz. Mas ela nunca me deixou de pedir gastro-presentes.
.
Espojava-se e saltava-me quando me via, quase violentamente,
não deixando que mais ninguém se aproximasse. Nas últimas vezes, já velhota,
ainda o fazia. Rosnava quando lhe pediam a pata, mas a mim dava-me as duas à
vez, sem fosquices e com o olhar meigo de sempre.
.
Adeus amiga, vai brincar no Paraíso dos cães e ladrar de
felicidade quando espreitares atrás das nuvens.
.
.
.
Nota: O texto vai no passado, mas a Alice está no presente.
Um beijinho ao Quico, à Inês e ao Paulo.
quinta-feira, fevereiro 02, 2012
Mateus Rosé, um elogio
Num país pouco sofisticado, o Mateus Rosé nasceu
preciosidade. A par com o Faísca (mais tarde Lancers, da José Maria da
Fonseca), o Mateus tirou vestes negras de viúva dos portugueses e arejou este
país do «orgulhosamente sós». Se Portugal, durante a ditadura, era a preto e
branco, o Mateus deu-lhe cor e logo uma improvável, a rosa.
.
Chatos sem visão, pretensiosos e de mais enochatos e
pedantes trataram de obscurecer este vinho tão (atipicamente) português.
Enquanto lá fora manteve fama, sendo que em alguns países, como os Estados
Unidos, é bem valorizado, por cá foi e é desdenhado por muita gente.
.
Não sou exceção, mas, penso, que a idade me tem dado mais
incertezas quanto à minha infalibilidade e, ao mesmo tempo, menos complexos.
Tem-me tirado peneiras, basicamente. Gosto de vinho há mais de metade da minha
vida, embora cota não sou velho.
.
Era miúdo quando a Lisboa mais jovem começou a sair à noite.
Comigo foi em 1986, tinha 16 anos. A noite tinha fauna, vestia-se e alindava-se,
havia estilo e glamour. Os sítios eram alternativos e desejados; havia multidão
ansiosa à porta do Frágil, onde a Guida (hoje na associação Abraço) impunha ditatorialmente
quem entrava, naquelas duas salas pequenas, criando ódios e respeitinho (este
menino era bonito e tinha estilo, nunca ficava à porta). Eu e a pandilha, sem
dinheiro, sem fígado e sem estômago para uísques e vodkas, embebedávamo-nos com
vinho. Era normal, não havia shots (que surgiram em 1991 – o Báltico, barzinho
que frequentava-mos foi dos primeiros, quicá o primeiro, com os agora célebres
cocktails B52).
.
A vida tem-me mostrado a realidade. Reconheço agora a
aleivosia, arrogância, pesporrência e impertinência da minha juventude,
incluindo nos copos. Não tinha dinheiro para o que os «grandes» bebiam, pelo
que ia vinho… mas Mateus, nunca!
.
Já adulto, comecei a trabalhar como jornalista no Diário
Económico (janeiro de 1990). Miúdo com piada e pinta, depressa adotado pelos
seniores, mestres e ídolos. Os mais velhos trabalhavam e iam a bares sisudos.
Não era farra, mas rotina. Sair à noite para tomar um copo num bar chato era o
máximo, fazia-me adulto. Eram templos admiráveis aos olhos sensíveis duma
criança de vinte anos que quase só conhecia discotecas e tascas. Havia vinho ao
jantar, mas nunca Mateus.
.
Homem feito e enófilo preconceituoso e pretensioso (espero
estar curado) tinha vinho em casa. Mateus? Blheck! Credo, não! Mas a vida
mudou. Ou melhor, muda-nos, abre-nos os olhos. Bate-nos, dá-nos estalos,
chama-nos burros, estúpidos. Sevícias que nos damos a nós mesmos.
.
Quando fiz o programa «Da Terra ao Mar», da RTP 2 (junho de
2004 a maio de 2007 e de junho de 2008 a maio de 2009) passei a lidar
muitíssimo mais de perto com a gente do vinho. Conheci malta que me ensinou,
tirou dúvidas, que simpática e educadamente me deu raspanetes, com paciência e
com o prazer (aqui tenho de mandar um forte abraço ao Paolo Nigra, fundamental
pelo grande aprofundamento do meu prazer com vinho). Com essa gente, com quem
hoje lido muito mais de perto, aprendi a respeitar os vinhos de grande
produção. Gente que me trouxe, aos dias, a dimensão dum Mateus Rosé ou Lancers
ou doutro block buster.
.
Com imensos enólogos comecei a compreender que não é toda a
gente que faz um bom vinho, mas que um bom vinho se faz com boas uvas e/ou com
bons meios e material funcional. Com imensos enólogos comecei a compreender que
um vinho de qualidade, que todos os anos tem de manter um padrão e um perfil,
independentemente das condições, naturais é uma obra do caraças! Tal como a
arquitetura, a enologia é uma arte, mas é sobretudo uma disciplina técnica.
.
Fazer Mateus Rosé não deve ser, por isso, trabalho para
qualquer um. É possível enganar todo o mundo. Mas não é possível enganar todo o
mundo para sempre. O Mateus terá tido evoluções de padrões, mas não engana.
Mateus Rosé é Mateus Rosé, se vende o que vende, anos e anos, e está aí para as
curvas, tem mesmo de ser bom.
.
Não, o Mateus não é um vinho de château, embora se ilustre
com a setecentista Casa de Mateus, obra do arquiteto Nicolau Nasoni, residência
dos condes de Vila Real. Só no seu início houve ligação profissional entre a
família Guedes, produtora do vinho, e a Sousa Botelho e Albuquerque. As
relações amargaram, mas isso para aqui não interessa. Não é um château nem
pretende ser. É um vinho para quem se marimba para as denominações de origem
controlada, para as colheitas, para as castas. Mais do que um vinho, o Mateus é
uma bebida. Podem os marketeers da Sogrape dizer mesmo, e com razão, que é um
estilo de vida.
.
.
Repito: Podem os marketeers da Sogrape dizer mesmo, e com
razão, que é um estilo de vida. A publicidade sexy, relaxante, com gente de bem
com a vida, estilo e sofisticação não mente. É para isso que serve o Mateus. É
para as festas! Tem pouco álcool (11%), não é para chapão involuntário no
tanque. É para as conversas com gente gira e interessante que não quer (pelo
menos nesse momento) discutir o papel da estética nas sociedades ocidentais contemporâneas
após a queda do Muro de Berlim e até ao 11 de setembro. Como agora me apetece verão,
proximidade da praia, piscina, noite, luzes, música alta, descontração e miúdas
giras para seduzir (bah, quero lá saber que seja sexista e marialvista).
.
A descontração de Mateus é pensada. Ainda que no início
pudesse haver uma certa ingenuidade, a verdade é que tudo foi pensado. E bem
pensado, porque bateu certo. A imagem da tradição vinícola e do bom-gosto e
estilo do palácio de Mateus e a forma arrojada da garrafa. O cantil, forma Mateus
muito imitada pelas concorrências, é antigo, foi ressuscitado para este vinho. Os
rótulos evoluíram, modernizaram-se na continuidade. Confesso que gosto mais do
look com maior destaque para a casa, mais antigo.
.
A marca vale uma mina de ouro, razão pela qual na década de
90 surgiu a gama Mateus Signature, de posição bem acima nas prateleiras, que se
pretendia ascender. Não foi eficaz, mas melhor têm corrido os Sparkling e o
Aragonês (provavelmente no mundo deve chamar-se tempranillo). Mas Mateus,
Mateus, é o clássico rosé sem casta identificada, sem ano de colheita, sem
região, sem peneiras, mas com estilo. Serve-se fresco, diz a Sogrape. E serve-se, nunca experimentei ao natural nem me parece que algum dia o faça.
.
Adoro o aroma a rebuçado de morango, a frescura na boca, o gás que ali faz mesmo parte.
.
O Mateus é como o James Bond (para elas) ou como a Cat Woman
(para nós): não é para casar, mas para ter casos, pura diversão sem
consequências...
.
Muitos podem admirar-se com a nota que vou dar a este vinho.
Relembro que a escala é subjectiva e está sujeita ao prazer dado. A qualidade é
sempre tida em conta, e isso aqui não falta. Quem tiver preconceitos ou quiser
implicar, que tenha chuva durante as férias de verão.
.
.
.
Origem: Vinho de mesa (Portugal)
Produtor: Sogrape Vinhos
Nota: 7/10
quarta-feira, fevereiro 01, 2012
Ninguém está a ver
O que faz a masturbação um acto íntimo? Será o prazer de
esconder o prazer egoísta. Por isso, desejado, caçado por olhos camuflados. Que
mal tem o prazer de ver se há prazer em esconder o prazer que se tem? A masturbação
não é um ato solitário. Há a pessoa amada, a multidão ávida da revelação ou
toda a gente que nesse sonho acompanha e transmite-se para o culminar cego da descontração.
A pergunta mantém-se: o que a faz ser um ato íntimo?
Chega-te a mim
O meu e o teu amor não podem ter o mundo. O mundo não nos
sentirá a pele. Temo-nos um ao outro e não quero saber que não nos vejam
normais. Sem espaço num mundo sem interesse, restemo-nos.
terça-feira, janeiro 31, 2012
Rendido
O teu ar doce é frágil e força. Olhos de choro e boca de
beicinho. Quando te dou a mão, entregas-me o corpo. Se te sorrio, beijas-me. Se
te dou o corpo, seduzes-me, numa guerra relâmpago, sem tréguas com beijos
prisioneiros. Num encaixe de macho e fêmea, os lábios e as águas. Abraços de mais
de dez metros de fundura. Todo o amor, toda a ternura.
Magneto
Tenho sono ou é a morte? É um túnel e lá uma luz, além do
escuro. O corpo levanta-se, parecendo leve como o dum espectro. Num arrepio, voo…
não, levito. Oiço uma surdina abafada, não distante. A luz chama-me, sem uma voz…
ouvem-se apenas alguém que conversa e alguém que chora. Os olhos fecham-se, mas
os músculos do pescoço aterram-me. A cabeça já foi, mas o corpo resta, o tronco.
Uma mão puxa e outra empurra. Tenho sono ou é a morte? Ou é a mesma coisa?
segunda-feira, janeiro 30, 2012
Saúl
– O Saúl era mesmo brincalhão…
– Pois era, que saudades…
– Pois era, que saudades…
– Sempre na reinação… ai, ai…
– Lá onde está, tenho a certeza que está a fazer rir toda a
gente.
– Que Deus o tenha em descanso…
– Já o estou a imaginar, no cemitério, a fazer caretas aos
outros mortos.
– Ahahahah!... Também acredito que sim…ai, que ponto… era mesmo brincalhão…
És preciosa, amor
– Tens olhos de rubi, sorriso de ouro e a tua cabeça é como um diamante...
– Uau!... porquê tantos elogios?…
– É a verdade… tens os olhos encarnados, os dentes amarelos
e és dura de cabeça.
sábado, janeiro 28, 2012
Concorde
Noite triste como a do Natal, fria e seca. Arrepios de
arrependimento e fantasmas, cortando o calor do aquecedor. Há Vinho do Porto,
mas falta o bolo-rei. Noite tão fria e sem um gelado de caramelo ou baunilha. Tenho
sono e vontade de vigília, para que os sonhos pesados não me quebrem a respiração
e as lágrimas possam ter fonte. O Brasil tão longe, desconhecido e imenso. Como
será o céu nocturno de São Paulo? E o vento do Rio de Janeiro? Que calor faz em
São Salvador da Baía? Se pudesse apanhava o Concorde e voava para a Lua ou para
onde a areia se esquece esta noite tão triste.
Feitiço
Por que o sexo é bom? Para alguns porque dele nasce a vida…
mas e o orgasmo? Ah! É dele que nasce a bondade e um seu antónimo, a perversão.
É nele que cresce amor e um seu antónimo, a perversão. É nele que nasce o prazer e um seu antónimo, a dor. É o alerta de que a
missão reprodutora chegou ao fim… ou de que a pila já satisfez uma vontade
concegadora, escarafunchosa e impertinente… O sexo é um feitiço. E de feitiço surgiu fetiche, coisa perversa de cama.
.
Sem química não há física, falo do instinto quase impossível
de definir que leva à cama. Mais do que apenas olhar, o cheiro, o comum e o que nota
as feromonas.
.
Se o sexo é vida, o abandono do corpo e da mente leva à
sensação de morte… garanto, porque passei o túnel e a espiral e experimentei a
leveza e a alvura calma e inebriante… e experimentei orgasmos. O orgasmo é uma dor boa, onde o egoísmo
rima com o prazer egoísta de dar prazer.
.
Por que o sexo confunde? Porque a sua bondade afirma amar,
mesmo quando tudo não passa de ilusão efémera, fruto do psicotrópico das endorfinas,
psicadélica e aliviadora.
.
Por que o sexo é mau? Porque os prazeres egoístas lembram
um pecado, o judaico-cristão, ou só cristão, do prazer. Uma agonia irritante,
que estimula ainda mais o prazer, como se fosse contra-natura.
.
Sim, depois há o amor. Coisa que não tem nada a ver, que
congratula, legitima, felicita, justifica…
.
Por que o sexo engravida tantas palavras?
.
.
.
Nota: A imagem é duma lucerna romana, datada entre o século I dC e o II dC.
quinta-feira, janeiro 26, 2012
Patachuqui
Lembrei-me de me pôr a ladrar. Porque sim, como os cães: alarme, saudação ou outra coisa que não sei, pois, verdadeiramente, nunca tive um cão. Sei que ladram e por muita coisa. Ladrei, ladrei e derreteu-se-me o coração. Se o Chuqui é divertido, a Patachuqui é um desespero: nunca faz o que lhe mandam. Na sua vida alegre e generosa, dá o que tem, com olhar bonito e o sorriso franco de sempre. Não sabe o que são horas, na distração de quem parece não ter nada para fazer. Mas é duma dedicação que faz qualquer pessoa dar ao rabo.
quarta-feira, janeiro 25, 2012
O verbo doer
Há pessoas a quem fiz mal. Nem sempre quem me acusa foi quem
mais me sofreu; a quem não fiz, já nem espero perdão. Lembro-me dos males e
sinto-me. Pedi e não me perdoo, nem esqueço e fustigo-me. Lembro-me que se lembra
mais aquele que empresta do que aquele que deve, quero-me justo e lembrar-me do
que devo, pelas perdas e danos. Lembro-me e dói-me o que fiz. A cruz é a minha
e fui eu quem a carpintou. Dói-me por doer. Dói-me que me doam, ainda que não
lhes tenha causado dor.
Referências:
a flor amarela,
a flor lilás,
a flor verde,
a flor vermelha,
a intimidade,
a loucura e a alma,
a paixão e o amor,
a respiração,
Pintura de Robert Indiana
Nascer, ser ou estar, sentir parar crer
Não nasci cristão. Talvez o fosse antes de o fazer. Nasci sem
lembrança. Baptizaram-me e cri-me ateu. Fiz-me cristão. Por isso acredito mais
na minha fé.
terça-feira, janeiro 24, 2012
Dança
É a dançar que te sei dos segredos. Escondidos, entreolhando
tímidos os meus olhos descarados e curiosos. Não falo dessas partes óbvias do
prazer, mas doutra coisa, mais frágil, quase omissa… não sei definir. São
segredos. Luzes invisíveis, que iluminam, olhos e boca, e te inebriam, e
inebriam quem te vê dançando. Felicidade tão certa, em gente distraída. Segredos
que vivem nas fotografias e ficam na recordação fugaz duma noite sem mais de
memória. Segredos como os dos bosques, dos luares, dos verões e da paixão. Segredos
de diabo cocegueiro, amante seguro. Segredos que escondem o odor do suor da
dança e caçam a respiração, fogos de artifício de estrelinhas, espirais e cornucópias,
em cores claras e amor-vontade. Segredos que a chuva leva e as canções
recompõem. Nem fazendo amor se revelarão. Ainda bem, são segredos.
Dilema: poupança ou barriga cheia?
sexta-feira, janeiro 20, 2012
Luz
.
Para que tenho olhos se vivo no escuro. Se nunca vir a luz,
nunca conhecerei a sombra. Sei porque os passos, algures ali, me fazem pensar. Fora
isso. Sou virgem de Sol. Ainda ingénuo e ignorante, sou feliz. Se calhar só por
isso. Não sei. Fecho os olhos para pensar e dormitar, sonhando com todas as
cores. A luz seria um salto no meu conhecimento, penso que nunca a verei nesta
vida. Se fosse hipócrita rezava, sou apenas cínico e peço para ter fé de que um
dia conhecerei a luz do sabor das coisas.
Maré

Há a maré cheia e a beleza da maré baixa. Uma é cheia e
outra bela. Uma muita, gorda e abundante, plena. A baixa cria rios e entretenimentos.
O abuso duma contrasta com a magreza larga de vista da outra, com o horizonte de
areia, rios e nuances. Se bem que tudo possa ser trocado de lugar, a baixa
morre no princípio da manhã e renasce ao Sol poente. Prefiro andar, desejoso,
de mar a encher a cabeça de areia num mergulho ao primeiro passo.
quarta-feira, janeiro 18, 2012
Ainda que me chamem, não vou
Ainda que me interesses, vou-me. Ainda que a conversa me diga respeito, vou-me. Ainda que a curiosidade me chame, vou-me. Não por insolência. Não por protesto. Não por birra. Não dou conta e, não dando, finjo não ter dado conta. Não se faz nada onde não há nada para fazer.
Subscrever:
Mensagens (Atom)















.jpg)














