digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

quinta-feira, julho 28, 2011

Escrito com palavras de sombra














A eternidade pode ser uma palavra perdida. Uma frase grafitada num muro esquecido. Quase silêncio do vento a bater nas folhas e galhos. Quase quente. Quase ébrio. Quase deserto.
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A solidão é uma sombra esbatida, uma vida abandonada, um encolher de ombros, um não querer saber, um não esperar nada, um não desejar nada, uma vontade de coisa nenhuma.
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E o que é o tempo? O mancar dum relógio de sala? Nas casas vazias, nas almas tristes, nas vidas esquecidas, nas horas de tédio.
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A eternidade dos infelizes escreve-se à mão. Palavra escrita com tinta de sombra. Palavra grafitada numa parede onde não bate o Sol e onde ninguém passa.
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O tempo é um buraco negro, que suga a vida. Viver é esperança? Quantos não andam mortos e apenas esperam?
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A tristeza escreve-se com letras queimadas. A eternidade dos tristes tem trezentos e sessenta e cinco dias por ano e de quatro em quatro tem mais um. Cada dia tem muitas mais horas do que as vinte e quatro das jornadas dos felizes. A dor do tédio. A espertina em desatino. As horas vazias.
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A vida suga a vida de quem vive triste. De quem teve a tristeza de nascer triste e viver triste. A vida é uma voragem. Não vale a pena pedir socorro, porque o triste será sempre triste e quanto mais triste viver, mais triste será.
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Não há socorro. Ainda que peça, ninguém ouve. Os alegres, na sua bondosa ignorância, desviam-se. É mentira. Dizem. Só faz porque isto e aquilo e se quisesse já tinha feito, é mimo, é isto e é aquilo.
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O tédio mata e mata-se o tédio matando a vida que mata.
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A verdade escreve-se a fogo e a tristeza com letras de sombra.

Elogio do suicídio
















Só quem nunca provou o seu sangue pode pensar que o suicídio não é solução. Quem nunca adormeceu comprimidado não pode saber que o suicídio é mesmo a solução.
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A morte é sedutora. Quem já passou o túnel, quem já viu a luz de branquidão indefinível, sabe da vontade de ir, deixando com saudades os que ficam.
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Também quem morre sente saudades. De certo. Mas será tão mais livre sem o peso do corpo. Sem o peso do corpo, que se pode deixar pendurado, preso pelo pescoço.
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Quem nunca se lançou duma altura não sabe da leveza de voar, ainda que por uns segundos. Só dói bater com os pés no chão, prova de que viver não vale a pena.
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Que dizer da vertigem em se lançar para diante dum comboio? Um orgasmo louco e breve.
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Só quem nunca pensou em suicídio não pode saber da leveza que terá quando se for e deixar para trás toda a mágoa de viver.
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Cansado que cantem a vida. Quanto pesa viver em dor? Quanto pesa não ter futuro? Pois que o futuro seja além.
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A sombra, o buraco, o canto, o sufoco. A sombra que dá lugar ao escuro-negro, as lágrimas que doem. Doer só por doer. O suicídio é mesmo a solução.
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Basta querer. No momento em que viver já não é solução. Basta querer. O suicídio é libertação.

terça-feira, julho 26, 2011

Quinquagésimo-sétimo andar


















Bebo vinho, projecto para além do corpo, mas não o corpo. Para longe. Tenho pesadelos, a dormir e acordado. Percorro ruas sombrias, darques, de dia e de noite, desperto ou mergulhado no sono.
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Os dias têm anos.
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Sentado no beiral do quinquagésimo-sétimo andar pondero um salto, em duas esperanças e nenhuma certeza. Partir ou voar?
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Voar para onde possa viver num quinquagésimo-sétimo andar. Partir. Pouco me prende aqui.
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Nem namorada nem amor. Nem filhos nem vontade. Sem ler e sabendo. Sem fazer e com tempo. Nem música nem ânimo. Nem música para o desânimo.
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Projecto para além do corpo a vontade de partir. Daqui e daqui de cima. Tenha ou não um quinquagésimo-sétimo andar. Sem certeza se voo ou se caio.

Poetisa e musa de nome oculto


















Sei, por que já sonhei, que terá uma rua no Céu. Pela bondade e mão de escrita, quem cria tem mais do que murmúrios ou bustos nas cidades e os de amor um lugar de eterna ternura. Poetisa e musa, arrisca-se a uma via larga, ladeada de árvores e casas, carros, praias e bandeiras. Quiçá, uma praça de multidão em agradecimento. Pela beleza das frases e bondade do ânimo.
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Escondida na obscuridade dum pseudónimo. Escondida da escrita, com poesia dentro, por receio do trabalho que dá pensar todos os dias em palavras. Viva de amor. Viva o amor! E quando diz, declama… proclama a sedução e o desejo.
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Ouvi o vibrante tom quando fala de amor. Senti as garras cravadas na poesia, como um predador esforçado. Sei de si triste. Sei de si feliz. Guardo as palavras que quis partilhar comigo e jogo ao vento, para um forte que venha de qualquer lado, a gratidão de as ter podido ler.
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Gosto de textos de amor. Gosto desses textos de amor, sejam eles de verdade ou do mundo das fadas. Leio-a quando partilha com o mundo, quando solta a música guardada nos afectos. Segredos, maravilhas. Segredos, ela escondida atrás dum pseudónimo.
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Com sede, vou de copo à fonte. À fonte santa em que a santa, com a satisfação, dá de beber. Vou à santa pedir um milagre, uma revelação. Novas palavras surjam de seus lábios e mãos de poetisa. Um pouco mais de poesia de menina para animar uns dias de marasmo. E a uns dos outros também.

terça-feira, julho 19, 2011

Tu aí ao lume e eu aqui perto das macieiras







Macieiras e vento para trazer o aroma dos frutos. O mundo com fundo no fim do olhar, sem muros, nem nada.
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Eu aqui e tu à volta duma fogueira, fora da vista. Vejo-te os olhos verdes nas saudades, vês-me no luzir trémulo.
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O mesmo céu como testemunha dos beijos que nos mandamos, enquanto disfarçamos qualquer coisa para que quem não olha não possa ver nem pressentir.
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Eu, deitado. Tu, sentada. Lado a lado em lados diferentes. Tu aí e eu aqui, como se estivéssemos de mãos dadas. A Lua como parede onde afixamos os beijos.
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Ninguém vê. Não querendo, queremos que todos saibam. Sem ninguém ver, fazemos com que não vejam.
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Pela a aurora, o Sol aparece e levanta um véu mágico, numa magia doutro princípio. A luz manda adormecer quem passou a noite suspirando às estrelas.
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A luz do fogo em cinzas e sem vento para trazer o aroma das maçãs. Mas o fim do mundo está no mesmo sítio e o céu mantém-se testemunha.

Aqui quase

Adormeço esquecido de ti. Mergulho na espiral escura da noite, sob as pálpebras, por cima do corpo. Vivemos. A meio da noite acordo lembrado de ti. Suado de corpo e lençóis. Confundido no corpo e na mente, certo na alma.
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Adormeço conformado com a minha inconformidade. Mergulhado na terra pouco densa de além-corpo, reencontramo-nos. Vivemos a vida. Se for preciso, se acontecer, acordo as vezes que forem precisas para ter a certeza que não estás. Adormeço as necessárias para saber que estás e vivemos uma vida destinada.
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Passageiros da vida. Perseguindo-nos e escondendo-nos. Brincamos com as vidas, o destino, o amor, as promessas, as lágrimas, os risos. Sem mentir. Sabemos um do outro e negamos se nos confrontamos.
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Além da espiral, porta para o mundo verdadeiro dos sonhos. Procuro-te confundido e acordado. Depois dos beijos, depois do amor feito. Sempre. Toujours. Sempre, a memória dos dias especiais e as certezas dos banais.
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Adormeço conformado com a minha inconformidade. Tão certo de te encontrar, e com a certeza que sonho. Confundido acordo. Não estás. Estás.
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Não precisamos duma fotografia em papel para beijar. Basta adormecermos.

domingo, julho 17, 2011

Obscuridade














A tristeza é muda. Carpir distrai a dor. A melancolia está na solidão e os lugares vazios têm fantasmas. Zonzo, com pesar na alma. Derrubado pela impotência de fugir da prisão dos dias. Deitado à espera de adormecer. O amor resolveria tudo, disseram-me. Amores? Desisti. Basto-me para sofrer. Os dias têm demasiados anos.

quinta-feira, julho 07, 2011

Amor contra o tédio















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Amo todas as que amei. Não há escuro que. A cada, a sua música. Depende dos dias. O Verão, o Inverno, a praia e a cidade. As lágrimas e os inversos. Os versos ditos, os por dizer, os que não se escreveram e os que se prometeram. Amo todas. As das zangas, as das minhas fitas, as dos filmes. As que quis e as que não me quiseram. As que gostei transitoriamente e as que suspeitei que gostava. Amarei qualquer uma, desde que me tire deste tédio.

terça-feira, julho 05, 2011

Negro, sem luz

















Além da morte. Mais profundo do que os palmos de terra. Anónimo, sem memória nem saudade. Não quero ver a luz clara, nem passar túnel, nem ter cruz na campa, nem campa, nem nada. Tampouco um subtil fumo a sair da chaminé e a misturar-se no ar. Anónimo como as pedras das construções em memória, mas sem memória para poder cravar um nome e datas. Não ficar em parte alguma, sem memória nem saudade. Negro, sem luz.

Além da morte















Deus criou-me. Sem nada lhe ter pedido, deu-me vida, como uma dádiva. Vida após vida tenho vivido até chegar ao momento em que lhe peço que me descrie. Não que me leve, não que morra… A matéria, como sempre, na terra. No éter, a memória. E o espírito, como definir?...  para um tempo antes de existir, para o onde não estava até à criação… peço-lhe que me descrie.

domingo, julho 03, 2011

Riso













Tenho o quarto com cheiro de riso. A penumbra da noite tem olhos luzindo. A cama tem memória. O corpo, saudade. Pelo chão, muitos beijos caídos. No chão, a garrafa da água que saciou a sede. Cabelos estendidos em fronhas e lençóis, impressões digitais nas costas e o cheiro do riso por todo o quarto. São rosas.

Tempo












Um amor não revelado não é um amor anónimo, mas amor escondido. Se passado, ressentido. Se puro, esquecido.
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O interesse do segredo é ser secreto. As palavras escondem-se nos esconderijos e às janelas, à frente de toda a gente. Tão óbvias...
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Dizes-me amor com voz invisível. Invisível digo-te amor.
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Dois amantes translúcidos, duas vidas separadas. Uma existência perdida.
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Se há amor? Como pode haver no medo e na distracção.
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Se há amor? Como pode não haver quando à separação se juntam outras friezas.
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Um amor assim tão grande precisa de mais vidas para viver.

quarta-feira, junho 29, 2011

Desarrumação















Cadáver de carcaça viva, esperando que o peso da alma dê sinal para perda do corpo. Os anos dum dia sucedem a anos. As horas suspensas, e sem o mancar monótono e previsível dum pêndulo numa casa vazia e esquecida. Já experimentei ficar deitado, atravessado na cama, com a cabeça pendurada… ou mergulhado em água quente, numa casa de banho sobreaquecida… Chorei, amaldiçoei Deus e critiquei-me. Será que o corpo é parte sobejante da vida?

domingo, junho 26, 2011

Valsa de Verão



















Sopra-me e atiro-te gotas. Esta noite está de dançar, frente ao rio ou ao mar. Velas de vento ali e de fogo aqui. E se for preciso, não importa que olhem. Nariz com nariz e bocas… Não se diz nada, para que nenhuma vaga promessa possa… dançar até depois de a música parar, nós os dois, um só, a vontade de unir num os dois sós. Dançar até depois de a música parar, nós os dois, um só… depois acordamos, um ao lado do outro. A pensar um no outro. Dançar até depois de a música parar, nós os dois, um só… acordamos e não percebemos por que estamos sós.

(A)mar Eterno




















A paixão é um caleidoscópio, mas não tenho a certeza se a memória dos amores defuntos não é parda. Já me apaixonei por motivos diferentes, até por atrevimento. Em todas as vezes a vida foi imponderável, um descontrolo. Não sei se gosto. Devo gostar, ou não repetiria.
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Talvez a vertigem seja o meu maior vício. O desejo do prazer e de pisar o limite. A fome de corpo e de afectos. Não gosto de regras. Nunca gostei. Se me desenhares uma fronteira, eu atravesso-a com a coragem da minha ternura e poder de sedução. Olha-me nos olhos. Que dizes?
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Vertigem sinto eu… por mais palavras que digas e juras que faças. A qualquer ternura, temo cair sem rede. Tudo vale um beijo... Queres uma fronteira? É aquela linha no mar, onde começa a onda e termina o vento… entre o verde e o cinzento. Ultrapassa-a se fores capaz e traz-me o beijo mais salgado que consigas.
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E se a queda for maior do que a onda que se avizinha, vais lá estar para salvar a alma? Já não me restam lágrimas. E a minha voz secou de tanto gritar pelo teu nome ao vento, que assobiava com a fúria da tempestade. Imaginei-me com asas para te procurar entre as gaivotas. Desejei ser mulher sereia para descer às profundezas do oceano. Não tenho medo do mundo, apenas de ti.
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Se fores sereia e eu gaivota estaremos sempre perto, mas nunca juntos. Deixa-te ir, que resgatar-te-ei à espuma salgada. Em sonhos venço Neptuno… assim, frente a frente ao mar… Se fores nas ondas… em sonhos venço Neptuno! E porque amar é sonhar, vou ao fundo do mar resgatar-te… oiço-te, não por gritares, mas por te ouvir o coração chamar-me…
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Sigo a corrente, na esperança de encontrar-te. Um dia, quem sabe. O nosso amor é como a onda que rebenta, porque reconhece que a sua força chegou ao limite. Como a espuma que abraça a areia e as rochas para depois as devolver à solidão. Mas desistir não é o meu verbo de acção. O equilíbrio está na imperfeição e nas contradições do amor. Quem disse que o céu não sopra ao mar juras de amor eterno, de amantes e marinheiros?
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Que o amor rebente na praia e os corpos se limpem de areias... Que nos amemos indiferentes ao mundo, nas rochas, entre limos, e marés. Seja o que for, até nada… Se desapareceres entre vagas, gritarei ao mar e ao céu, para que quem te levou saiba que há quem te sinta a falta e saiba que amor não rebenta nem se afoga.
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O amor é um trapezista destemido, que desafia o perigo e arrisca o coração sempre que se expõe. Não tem medo do ridículo. De mostrar o seu lado mais frágil, de fraquezas, dúvidas e incertezas. De partilhar.
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Ama-me. Ama-me muito. Para que um dia eu possa dizer que provei o amor.
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Nota: Texto escrito a quatro mãos, duas minhas e duas (mais bonitas) de Rita Carvalho.

sexta-feira, junho 24, 2011

A árvore

















Árvore de quase toda a beleza e da sombra em que me deito. Casa, o berço do mundo. Só não a abraço por pudor. Guardiã do jardim, confidente e vigilante, a alegria e a amizade.
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No Verão, a sombra. No Outono, a poesia. No Inverno, a nostalgia. Na Primavera, a esperança. Casa de tanto e tanta coisa. Generosidade silenciosa. Grandiosidade sem arrogância.
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Fico horas à sua sombra a imaginar a casa onde viver, o jardim para a pôr... a árvore para me dar sombra.
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A minha árvore existe algures. Um dia farei amor no seu colo. Reconfortar-me-ei com um fruto. E com o caroço, abandonado no calhar, espero um dia ter outra árvore, para lhe fazer companhia.

segunda-feira, junho 20, 2011

Cansaço


E se o último dia fosse hoje? Afinal, ninguém me viu. A menos que uma coincidência me tenha colocado a descoberto, no espaço que sobra de cortinas e persianas, no momento em que olhos indiferentes pousaram na janela, nesse ponto de improvável existência.
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Hoje não seria um mau dia. Não estou pior, mas não estou melhor. Olhando para o calendário, não vejo qualquer data significativa para adiar o momento. Vendo a agenda, não tenho impedimento para agora.
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Acaricio as gatas, uma a uma, e peço-lhes desculpa. Não merecem, mas há coisas que estão para fazer há demasiado. Fosse outro qualquer dia, seria o mesmo.
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Não será preciso escrever uma carta. Já disse muitas vezes e a muita gente, e há uma pronta há demasiados meses.
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Por que não hoje? A alma não morde na alma como nas tempestades. Porém, a minha vida não está em azul celeste e condimentada pelos assobios joviais de passarinhos esvoaçantes.
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Por que teria de estar amargurado na profundidade negra? Basta o cinzento dos dias banais para razão. Além disso, o tédio é o mesmo. Comigo é sempre domingo, com excepção do domingo, que é mesmo domingo.
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E se hoje fosse mesmo o último dia? Quem desconfiaria de festa no solstício?
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A preocupação são as gatas, que me impediram bastas. Bem, deixo-lhes comida para quatro dias. Por que não hoje?

Acerca de Deus
















É improvável que Deus se tenha esquecido da improbalilidade. É improvável que exista. É improvável que não exista. É provável que esteja enganado.

Quietação


















Olhos de doce inquietação e quieta doçura. Sorriso de ninar, mãos de carícia e voz de enlevar. Bondade transparente, corpo flutuante.
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Feitiço sem bruxa. Sensualidade de fumo e carne de desejo. Amor como quem faz amor. Dedicação de alma como se o amor fosse o único, verdadeiro ou o maior.
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Fantasma sem forma. Fumo que entra pelo sonho e quase muda a vida. A ternura dita por uma mulher terna. A ternura eterna.
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Mãe de alguém, alguém tão doce que só pode ter uma mãe como ela. Sem excesso e tudo o que pode dar uma mãe. A timidez ousada das mães.
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Faz amor com o amor que dão as mães. Toda a doçura da mãe ninando, tão verdadeira. Ansiosa e sensual como as mulheres que não são mães. Sôfrega como as mulheres que querem e beijam querendo, dizendo que não com a boca.
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Faz amor, com todo o empenho da segunda vez. Com os beijos quentes de quem foi deixada a meio de amar. Uma lindeza de perder.
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Olhos, sim, com toda a bondade. Boca, sim, do desejo e da verdade. Corpo, sim, do prazer e reconquista.
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Como esquecer? Os olhos doces de quem ama, ainda que não amando. Quieto desassossego. Desejo de muitos dias a desejar.
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Todo o mundo, uma mulher, uma mãe. Toda a vontade de amar.
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O meu beijo pairando pelo desejo de o agarrar, pela moça dos olhos de doçura.

sexta-feira, junho 17, 2011

Estado de graça





















Um amor obscuro, no espaço escuro da casa vazia, é felicidade simples de almas complicadas. A felicidade é um estado de graça e a paixão uma doença de sorriso e tensão.
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A solidão e a memória, forças motrizes do ânimo das noites de intimidade suada. Do fundo do espaço escuro da casa vazia surgem alimentos da alegria do acordar com o abraço deitado ao lado.
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A boca guarda o sabor único da boca de beijo. Sem o riso não voam as bruxas do prazer. A paz do momento seguinte à euforia… estado de graça.
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Um amor obscuro dá luz a toda a vontade de querer mais. Ao deitar junta-se o corpo etéreo da amante e o sono trará o sorriso dos sabores intensos do seu corpo. Estado de graça.

terça-feira, junho 14, 2011

O céu

As estrelas que se vêem no meu céu são da cidade, que é plano. A Lua esconde-se atrás de casas.
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Longe, chama-se firmamento, por ter luzes firmadas. É escuro, acredita-se que negro, como uma pesada cortina de flanela.
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Nos ermos, o céu é cinema, e também teatro. Noites de Verão e tréguas de invernia. A Lua como família. Silêncio e muitos cheiros a brincarem às escondidas.
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A luz e a voz do lume. Na solidão e na presença. Conversa sobre tudo e nada.
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Sob as estrelas pode estar-se com os anjos e pensar em Deus sem pensar em nada.
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Longe, o céu é uma abóbada.
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Nota: Crê-se que esta é a mais antiga representação da esfera celeste, foi encontrada em Nebra, na Alemanha.

domingo, junho 12, 2011

Negar. Dizer amar.

Digo. É inevitável. Os meus olhos dizem. Inevitável como a morte.
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Primeiro, a fuga. Minto. Minto, mas os olhos dizem.
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Acreditas. Mais uma vez, acreditas. Ainda que os meus olhos to desmintam.
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Digo baixinho, para que quem quer que oiça, e saiba que minto, não te diga que minto.
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Sussurro, para que o doce das sílabas te desinquiete a pele e te faça acreditar mais.
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Sussurro e com uma trinca faço-te subir em paixão. Sabes que não queres saber se minto.
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Faço amor. Digo todas as verdades como se fossem mentira. Na loucura acreditas, porque sabes tantas verdades. Ainda assim acreditas que te não minto.
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Ferves. Quando transpiras de prazer, gritas e eu, dizendo-te a verdade, finjo que nunca te menti.
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Na explosão digo-te a verdade. A que queres ouvir. A que acreditas não ser verdade depois dos corpos arrefecerem.
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Com as palavras de verdade, minto-te. Iludo-te temendo que, sabendo a verdade, te afastes de mim.
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Os olhos dizem o que a boca mentindo disse também, dizendo que era mentira.
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Digo, é inevitável. Inevitável como a morte. Mas digo tão baixinho que só se não quiseres não ouvirás a verdade.

terça-feira, junho 07, 2011

Temos de conversar

Acho que a nossa relação chegou ao fim… amámo-nos tanto e demos tantos beijos!… não há mais. Divertimo-nos tanto no escuro que não te consigo achar bonita à luz. Estavas suada e molhada, agora estás uma seca! Baza já!

Chamas-te como?





















És a mulher mais linda! Como te chamas? Lembra-me amanhã antes de dizer o teu nome e te olhar com olhos de realidade e justiça.

segunda-feira, junho 06, 2011

Escrever silêncio

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Se eu soubesse o que dizer, escreveria silêncio.
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Não sei o que fazer ao grande amor, em que armário o arrumar. De que armário o retirar. Se deixá-lo desarrumar-me a vida para me arrumar a vida. Se o conter para que não me estouvar os dias para me arrumar os dias.
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Bebo copos de água, como magia para engolir o problema e deixar o corpo o reciclar. Mas quem digere o amor não é o estômago.
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Não há magia que falte ao amor. Nem teimosia louca. Nem sofrimento, consentido ou não.
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Arrependo-me. Se pudesse voltar, mudaria quase tudo. Provavelmente teria o mesmo resultado.
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O destino existe, mas podemos mudá-lo. É como se não existisse.
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A dor é uma seda fina e resistente que sobrevoa a ferida. O sangue seca e encrosta-se, cicatriza… e a dor pode ficar.
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Assim está o meu grande amor: já foi, não se vê, não se sente, mas ficou a dor.
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Escrevo-lhe gratidão. Escrevo-lhe incompreensão. Escrevo-lhe tristeza e alegria. Escrevo-lhe certezas e aspirações. Oro por ela.
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Recebo o amor que a boca não me diz. Encontramo-nos quase todas as noites.
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Se amputasse onde está a dor, deixaria de ver a cicatriz que a suporta. Mas teria a do couto, que me lembraria a parte amputada.
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Se fosse sábio, guardaria para mim as infelicidades, as dúvidas e as intimidades.
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Mas nasci ou fiz-me ou quero ser poeta. Tenho de dizer tudo. Para que não me doa, para que me doa, para que finja, para que diga a verdade, para agradar, para assustar…
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Se eu soubesse o que fazer à vida… já aprendi a ter o coração longe da alma e do pensamento. Se eu soubesse o que fazer à vida, deixava-o voltar.
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Para tristeza, nasci ou fiz-me ou quero ser poeta. Na melhor das hipóteses ainda poderei um dia ser sábio.
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Se um dia souber o que dizer, escreverei um poema de silêncio.

domingo, junho 05, 2011

Gerês, noventa e três

Fugi para a Galiza e arrependido voltei na fronteira para o Minho. Chovia e convenci-te a ires encontrar-te comigo a Braga. Assim do nada e sem telemóvel para anular. Uma viagem precipitada. Chovia. O meu carro andava pouco mas levou-nos ao Gerês. Chovia. Preocupavas-te com o cabelo, mas não te zangaste. Não sabíamos onde dormir e ficámos na primeira casa que dizia ter quartos. Era verde à volta. Estava fresco e ouvia-se água, a cair e a correr. Era Abril, nesses anos costumava chover. Nessa altura os fantasmas não me deixavam dormir ou acordavam-me na noite. Não os vias mas tinhas medo. Eu tinha medo e fazendo-me forte fazia-te medo. Sem nada dizer, fazia-te medo. A minha pele transpirava medo e a tua voz, doce e tão genuinamente suave, dizia-mo. Fizemos amor nos intervalos do medo, fechando e abrindo as portadas, por causa das figuras, porque se insinuavam na penumbra ou porque se revelavam diáfanas na escuridão. A paixão era maior do que o medo. Tu eras uma miúda e eu tinha a mania que era homem. Quando penso nesses dias não consigo deixar de estar apaixonado. Chovia e tudo à volta era verde. Pensando bem, nem andámos muito, tudo nos juntava os lábios. Nem o antes nem o depois desse Gerês interessam muito. Nem sequer o Gerês. Passados tantos anos ainda sei por que me apaixonei por ti.

Cornos

E se, em vez de nos termos entregado ao outro, tivéssemos omitido o nosso amor?
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Haveria um corno! Qual dos dois, o casado ou o amante?
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Haveria uma mulher enganada! A amante ou a mãe dos filhos?
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Seríamos os dois cornos das nossas opções. Quiçá deles também…

sexta-feira, junho 03, 2011

O infinito tem cor?





















Se o infinito é infinito, para qualquer lado para onde se olhe é infinito. E dentro dum espelho, espaço limitado de capacidade infinita, cabe outro infinito. Entre cada distância finita há um espaço infinito. Cada ponto é divisível infinitamente. A unidade é infinita. O infinito é intangível? E o que tem começo e não tem fim, é infinito? E esta frase é… ?

segunda-feira, maio 30, 2011

Desejo dum corpo que nem fantasma quer ser





















Dor de ser. Entaipado num local de penumbra sem ruído. O tédio dentro do tédio.
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O sono em cumprimento é a viagem possível para fora. Remédio contra o cansaço de existir e ter se sentir o tempo cilindrar a vontade de respirar.
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Respirar é feliz quando se está ao vento. Não digo usufruir os aromas, mas apenas respirar. Por isso não me queixo do cheiro a mofo daqui, só da vontade de desistir.
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Se tivesse ânimo faria um buraco para chegar ao outro lado do mundo. Nem alma chego a ter.
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Não quero o corpo e sua matéria. Não quero espírito sem leveza.
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Deus deveria permitir a morte.

domingo, maio 29, 2011

Lisboa - se tivesse coragem ia-me embora





















Os dias claros, dias de ócio na cidade velha. A janela aberta e a entrada do rio na casa, pela brisa e pelo azul.
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Se tiver ânimo assomar-me-ei à janela para contemplar telhados e os gatos em suas vidas. O ruído das ruas na cidade velha é a música da cidade.
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Por esta altura costuma haver nêsperas nos quintais. Limões há todo o ano. Alguns locais têm figueiras com seu aroma doce. Coisas da cidade velha.
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Não me interessam os eléctricos, agora são mentirosos, com as portas automáticas e luzes de pisca-pisca. Sem câmbio do espaço de condução, o guarda-freio já não faz rodar o trólei.
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A cidade velha vai morrendo sem que uma nova e asseada se vá mostrando. Lisboa está um subúrbio de gente feia.
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Esta noite sonhei em alfamês. Provavelmente também já quase morto. A cidade velha vai morrendo.
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O clima mudou e os dias claros… pouco me interessa nesta cidade em agonia. O rio não tem navios, só paquetes e os cais estão fechados aos passos de todos. O Martim Moniz deixou de ser Lisboa. E o largo de São Domingos. E o Rossio.
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Os dias claros na cidade velha, dias de tédio e tristeza. Guardo-me com as gatas e tento dormir. Em sonhos ainda há dias claros e de ócio. Lisboa é Lisboa e não este subúrbio de gente feia.